Novembro de 63
Capítulo 20
1
Então no fim bastou a ameaça de guerra nuclear para nos unir de novo... muito romântico, hem?
Tá, talvez não.
Deke Simmons, o tipo de homem que levava um lenço a mais para filmes tristes, aprovou calorosamente. Ellie Dockerty, não. Eis uma coisa estranha que notei: as mulheres são melhores para guardar segredos, mas os homens se sentem mais à vontade com eles. Mais ou menos uma semana depois do fim da crise dos mísseis em Cuba, Ellie chamou Sadie à sua sala e fechou a porta — um sinal nada bom. Foi tipicamente brusca e perguntou a Sadie se sabia sobre mim algo além do que sabia antes.
— Não — respondeu Sadie.
— Mas vocês reataram.
— É.
— Pelo menos, sabe onde ele mora?
— Não, mas tenho o telefone.
Ellie olhou o teto, e quem poderia censurá-la?
— Ele lhe contou alguma coisa sobre o seu passado? Se já foi casado? Porque acredito que foi.
Sadie ficou calada.
— Por acaso mencionou se deixou um bezerrinho ou dois para trás em algum lugar? Porque às vezes os homens fazem isso, e quem já fez uma vez não hesitará em...
— Dona Ellie, posso voltar para a biblioteca? Deixei uma aluna tomando conta, e embora Helen seja muito responsável, não gosto de deixá-la tempo...
— Vá, vá. — Ellie fez um gesto na direção da porta.
— Pensei que você gostasse de George — disse Sadie ao se levantar.
— E gosto — respondeu Ellie, com uma voz, pelo que Sadie me contou mais tarde, que dizia gostava. — Gostaria ainda mais, e gostaria ainda mais por você, se soubesse qual é o nome verdadeiro dele e o que pretende.
— Não pergunte, não conte — disse Sadie enquanto ia até a porta.
— O que isso quer dizer?
— Que o amo. Que ele salvou a minha vida. Que tudo o que tenho para lhe dar em troca é a minha confiança, e isso eu pretendo dar.
A dona Ellie era uma daquelas mulheres acostumadas a ter a última palavra na maioria das situações, mas dessa vez não conseguiu.
2
Adotamos um padrão naquele outono e inverno. Eu ia para Jodie nas sextas à tarde. Às vezes, no caminho, comprava flores na florista de Round Hill. Às vezes cortava o cabelo no barbeiro de Jodie, excelente lugar para me inteirar de todas as fofocas locais. Também me acostumara ao cabelo bem curto. Eu me lembrava de usá-lo tão comprido que caía nos olhos, mas não entendia por que aguentara o incômodo. Já me acostumar com cuecas samba-canção em vez de cuecas justas foi mais difícil, mas depois de algum tempo o meu saco não exigiu mais ser estrangulado.
Costumávamos jantar no Al’s Diner naquelas noites e depois ir ao jogo de futebol americano. E, quando a temporada de futebol acabou, veio o basquete. Às vezes Deke ia conosco, vestido com o suéter da escola com Brian Denton, o Leão Guerreiro, na frente.
A dona Ellie, nunca.
A sua desaprovação não nos impediu de ir aos Bangalôs Candlewood depois dos jogos de sexta-feira. Eu geralmente ficava lá sozinho nas noites de sábado e, no domingo, ia com Sadie ao culto da Primeira Igreja Metodista. Usávamos o mesmo hinário e cantávamos muitos versos de Bringing in the Sheaves. Semeando de manhã, sementes de bondade... a melodia e esses bons sentimentos ainda permanecem na minha cabeça.
Após o culto, fazíamos a refeição do meio-dia na casa dela e depois eu voltava a Dallas. Toda vez essa viagem parecia mais comprida e menos eu gostava dela. Finalmente, num dia gelado em meados de dezembro, o meu Ford quebrou a biela, como se exprimisse a sua opinião de que íamos na direção errada. Quis mandar consertar — aquele conversível Sunliner foi o único carro que amei de verdade —, mas o sujeito da Mecânica Kileen me disse que precisaria de um motor inteirinho novo e não sabia onde conseguiria arranjar.
Meti a mão na minha reserva ainda robusta (bem... relativamente robusta) e comprei um Chevy 1959, o tipo com os destemidos rabos de peixe em asa de gaivota. Era um bom carro, e Sadie disse adorá-lo totalmente, mas para mim não era a mesma coisa.
Passamos a noite de Natal juntos no Candlewood. Pus um ramo de azevinho na cômoda e lhe dei um casaco. Ela me deu um par de mocassins que estão nos meus pés agora. Algumas coisas são para guardar.
Jantamos na casa dela no dia seguinte ao Natal e, enquanto eu punha a mesa, o Ranch Wagon de Deke parou na entrada. Isso me surpreendeu, porque Sadie nada dissera sobre companhia. Fiquei ainda mais surpreso ao ver a dona Ellie no banco do carona. O jeito como estava de braços cruzados, olhando o meu carro novo, me revelou que eu não era o único a não ser informado da lista de convidados. Mas — para dar crédito a quem merece — ela me cumprimentou com uma boa imitação de amabilidade e me beijou o rosto. Usava um gorro de esqui tricotado que a deixava com cara de criança idosa, e me deu um sorrisinho de agradecimento quando o tirei da sua cabeça.
— Também não recebi o memorando — disse eu.
Deke apertou a minha mão.
— Feliz Natal, George. Prazer em vê-lo. Céus, tem algo cheirando muito bem.
Ele foi até a cozinha. Alguns instantes depois, ouvi Sadie rir e dizer:
— Tire os dedos daí, Deke, a sua mamãe não lhe deu educação?
Ellie abria devagar os botões de barrilete do casaco, sem nunca tirar os olhos do meu rosto.
— Isso é sensato, George? — perguntou. — O que você e Sadie estão fazendo é sensato?
Antes que eu respondesse, Sadie entrou a toda com o peru que a deixara preocupadíssima desde que tínhamos voltado dos Bangalôs Candlewood. Sentamos e nos demos as mãos.
— Senhor, abençoe esse alimento do nosso corpo — disse Sadie — e abençoe a nossa camaradagem uns com os outros em mente e em espírito.
Comecei a abrir a mão, mas ela ainda segurava a minha com a esquerda e a de Ellie com a direita.
— E também abençoe George e Ellie com a amizade. Ajude George a recordar a bondade de Ellie e ajude Ellie a recordar que, sem George, haveria nesta cidade uma moça com o rosto terrivelmente desfigurado. Amo os dois e é triste ver desconfiança nos seus olhos. Em nome de Jesus, amém.
— Amém! — disse Deke calorosamente. — Boa oração! — Ele piscou para Ellie.
Acho que parte de Ellie quis se levantar e ir embora. Pode ter sido a referência a Bobbi Jill que a deteve. Ou talvez o fato de ela ter passado a respeitar a nova bibliotecária da escola. Talvez tivesse até um pouco a ver comigo. Gosto de pensar assim.
Sadie olhava a dona Ellie com toda a sua antiga ansiedade.
— Esse peru parece absolutamente maravilhoso — disse Ellie, e me passou o prato. — Pode me servir um pedaço, George? E não poupe recheio.
Sadie podia ser vulnerável, podia ser desajeitada, mas também podia ser muito, muito corajosa.
Como eu a amava.
3
Lee, Marina e June foram à casa dos Mohrenschildt para ver o novo ano chegar. Fiquei liberado e sozinho para fazer o que quisesse, mas quando Sadie telefonou e perguntou se eu a levaria ao baile de ano-novo na Bountiful Grange, em Jodie, hesitei.
— Sei o que está pensando — disse ela —, mas este será melhor do que o do ano passado. Vamos fazer com que seja melhor, George.
Então lá estávamos nós às oito horas, mais uma vez dançando debaixo de redes penduradas cheias de balões. A banda desse ano se chamava Dominoes. Tinham um naipe de quatro sopros em vez das surf guitars estilo Dick Dale que dominaram o baile do ano anterior, mas também mandavam bem. Havia as mesmas duas poncheiras de limonada rosa e ginger ale, uma leve, a outra temperada. Havia os mesmos fumantes aglomerados debaixo da saída de incêndio no ar gelado. Mas estava melhor do que no ano anterior. Havia uma grande sensação de alívio e felicidade. O mundo passara debaixo de uma sombra nuclear em outubro... mas depois saíra dela. Ouvi vários comentários aprovadores sobre Kennedy e como fizera o velho e mau urso russo recuar.
De repente, por volta das nove, durante uma dança lenta, Sadie gritou e se soltou de mim. Tive certeza de que avistara John Clayton, e o meu coração deu um pulo até a garganta. Mas fora um grito de pura alegria, porque os dois recém-chegados que avistara eram Mike Coslaw — parecendo absurdamente elegante num sobretudo de tweed — e Bobbi Jill Allnut. Sadie correu para eles... e tropeçou no pé de alguém. Mike a segurou e a girou. Bobbi Jill acenou para mim, um pouco tímida.
Apertei a mão de Mike e beijei o rosto de Bobbi Jill. A cicatriz desfiguradora era agora uma leve linha rosada.
— O médico diz que sumirá no próximo verão — disse ela. — Ele disse que sou a paciente dele que sarou mais rápido. Graças ao senhor.
— Consegui um papel em A morte do caixeiro-viajante, sr. A. — disse Mike. — Vou fazer Biff.
— Marcado pelo personagem — disse eu. — Só tome cuidado com as tortas voadoras.
Vi quando ele conversou com o cantor do grupo num dos intervalos e soube perfeitamente bem o que aconteceria. Quando voltaram ao palco, o cantor disse:
— Recebi um pedido especial. Temos na casa um George Amberson e uma Sadie Dunhill? George e Sadie? Venham cá, George e Sadie, saiam dessas cadeiras e fiquem de pé.
Andamos na direção do palco em meio a uma tempestade de aplausos. Sadie ria e corava. Brandiu o punho para Mike. Ele sorriu. O menino abandonava o seu rosto; o homem chegava. Um pouco tímido, mas chegava. O cantor contou e os metais começaram aquela batida que ainda escuto nos meus sonhos.
Bá-dá-dá... bá-dá-da-di-dum...
Estendi as mãos para ela. Ela balançou a cabeça, mas mesmo assim começou a balançar um pouco os quadris.
— Vá pegá-lo, dona Sadie! — berrou Bobbi Jill. — Faça tudo!
A multidão repetiu. “Vá! Vá! Vá!”
Ela cedeu e pegou as minhas mãos. Dançamos.
4
À meia-noite, a banda tocou Auld Lang Syne — arranjo diferente do ano anterior, a mesma doce canção — e os balões caíram. À nossa volta, casais se abraçavam e se beijavam. Fizemos o mesmo.
— Feliz ano-novo, G... — Ela se afastou de mim, franzindo a testa. — O que foi?
Eu vira uma imagem súbita do Texas School Book Depository, um quadrado feio de tijolos com janelas como olhos. Era esse o ano em que se tornaria um ícone americano.
Não vai. Nunca deixarei você ir tão longe, Lee. Você nunca estará naquela janela do sexto andar. Isso eu juro.
— George?
— Me deu um branco, acho — disse eu. — Feliz ano-novo.
Fui beijá-la, mas ela me afastou um instante.
— Está quase lá, não é? O que você veio fazer.
— É — respondi. — Mas não é hoje. Hoje, somos só nós. Portanto, me beije, querida. E dance comigo.
5
Tive duas vidas no final de 1962 e no começo de 1963. A boa era em Jodie e nos Candlewood em Kileen. A outra era em Dallas.
Lee e Marina voltaram. Em Dallas, a primeira parada deles foi numa lata de lixo na esquina da West Neely. Mohrenschildt os ajudou na mudança. George Bouhe não estava visível. Muito menos os outros emigrados russos. Lee os afastara. Eles o odiavam, escrevera Al nas suas anotações, e embaixo: Era o que ele queria.
O prédio decadente de tijolos vermelhos na rua Elsbeth, 604, fora dividido em quatro ou cinco apartamentos lotados de gente pobre que trabalhava muito, bebia muito e produzia hordas de crianças catarrentas a berrar. O lugar realmente fazia o domicílio dos Oswald em Fort Worth parecer bom.
Eu não precisava de auxílio eletrônico para monitorar o estado de decomposição do casamento deles; Marina continuava a usar shorts mesmo depois que o tempo esfriara, como se quisesse irritá-lo com os hematomas. E com a sua sensualidade, é claro. June costumava ficar entre eles no carrinho. Ela não chorava mais como antes nas brigas e berros, só observava, chupando o dedo ou a chupeta.
Certo dia, em novembro de 1962, voltei da biblioteca e observei Lee e Marina na esquina da West Neely com a Elsbeth, gritando um com o outro. Várias pessoas (principalmente mulheres àquela hora do dia) tinham saído à varanda para observar. June estava no carrinho, enrolada num cobertor rosa peludo, calada e esquecida.
Eles discutiam em russo, mas o mais recente pomo da discórdia era bastante claro com o dedo apontado de Lee. Ela usava uma saia preta reta — não sei se naquela época já se chamavam saia-lápis — e o zíper do lado esquerdo estava meio aberto. Provavelmente só se prendera no tecido, mas ao ouvi-lo furioso a gente ficava com a impressão de que ela estava caçando homens.
Ela jogou o cabelo para trás, apontou June e depois fez um gesto na direção da casa que agora habitavam — as calhas quebradas pingando água preta, o lixo e as latas de cerveja no gramado careca na frente — e gritou com ele em inglês:
— Você diz mentiras alegres depois traz mulher e filha para essa pocilga!
Ele corou até a raiz do cabelo e cruzou os braços com força sobre o peito magro, como se quisesse ancorar as mãos e impedir que causassem danos. Poderia ter conseguido — dessa vez, pelo menos — se ela não tivesse rido e depois girado um dedo em torno da orelha num gesto que deve ser comum a todas as culturas. Ela começou a se virar. Ele a puxou de volta, esbarrando no carrinho e quase o derrubando. Então bateu com força. Ela caiu na calçada rachada e cobriu o rosto quando ele se curvou sobre ela.
— Não, Lee, não! Não bate mais!
Ele não bateu. Em vez disso, a pôs de pé e a sacudiu. A cabeça dela chacoalhava e rolava.
— Você! — disse uma voz enferrujada à minha esquerda. Dei um pulo. — Você, menino!
Era uma mulher idosa com um andador. Estava em pé na varanda com uma camisola de flanela rosa e um casaco acolchoado por cima. O cabelo grisalho estava arrepiado, me lembrando o permanente caseiro de 20 mil volts de Elsa Lanchester em A noiva de Frankenstein.
— Aquele homem está batendo naquela mulher! Vá até lá e dê um fim naquilo!
— Não, senhora — disse eu. A minha voz estava instável. Pensei em acrescentar Não vou me meter entre marido e mulher , mas seria mentira. A verdade é que eu não faria nada que pudesse perturbar o futuro.
— Seu covarde — disse ela.
Chame a polícia, eu quase falei, mas engoli bem na hora. Se essa ideia não estivesse na cabeça dela e eu a pusesse lá, também poderia mudar o rumo do futuro. A polícia veio? Alguma vez? O caderno de Al não dizia. Eu só sabia que Oswald nunca seria preso por agressão conjugal. Acho que naquela época e naquele lugar poucos homens seriam.
Ele a arrastava pela calçada com uma das mãos e empurrava o carrinho com a outra. A velha me deu um último olhar arrasador e depois voltou com esforço para dentro de casa. Os outros espectadores faziam o mesmo. Fim do espetáculo.
Da minha sala, focalizei o meu binóculo na monstruosidade de tijolos vermelhos na esquina oposta a mim. Duas horas depois, bem quando eu ia desistir da vigilância, Marina saiu com a malinha rosa numa das mãos e o bebê enrolado na manta na outra. Trocara a saia ofensiva por calças e o que pareciam ser dois suéteres — o dia esfriara. Ela desceu a rua depressa, olhando várias vezes para trás por sobre o ombro à procura de Lee. Quando tive certeza de que ele não a seguiria, segui eu.
Ela foi até a Mister Car Wash, quatro quarteirões abaixo da West Davis, e usou o telefone público de lá. Fiquei no ponto de ônibus do outro lado da rua com um jornal aberto na minha frente. Vinte minutos depois, o velho e confiável George Bouhe apareceu. Ela falou com ele com ardor. Ele a levou até o outro lado do carro e abriu a porta para ela. Ela lhe deu um sorriso e uma beijoca no canto da boca. Tenho certeza de que ele guardou os dois com carinho. Depois, entrou atrás do volante e eles foram embora.
6
Naquela noite, houve outra discussão na frente da casa na rua Elsbeth, e mais uma vez quase toda a vizinhança mais próxima saiu para olhar. Sentindo que o número me dava segurança, me juntei a eles.
Alguém — quase com certeza Bouhe — mandara George e Jeanne de Mohrenschildt buscar o resto das coisas de Marina. Bouhe provavelmente imaginou que seriam os únicos capazes de entrar sem que Lee impusesse restrições físicas.
— Caralho se vou entregar tudo! — berrou Lee, sem dar atenção aos vizinhos enlevados que bebiam cada palavra. Os tendões pulavam no pescoço; o rosto mais uma vez estava de um vermelho vivo e fumegante. Como ele devia odiar essa tendência a corar como uma menininha pega passando bilhetinhos de amor.
Mohrenschildt adotou a abordagem sensata.
— Pense, meu amigo. Dessa maneira ainda há uma chance. Se ela mandar a polícia... — Ele deu de ombros e ergueu as mãos para o céu.
— Então me dê uma hora — disse Lee. Ele mostrava os dentes, mas aquela expressão era o que havia de mais distante no mundo de um sorriso. — Assim terei tempo de passar a faca em todos os vestidos dela e quebrar todos os brinquedos que aqueles figurões mandaram para comprar a minha filha.
— O que está acontecendo? — me perguntou um rapaz. Tinha uns vinte anos e parara numa bicicleta Schwinn.
— Briga doméstica, acho.
— Osmont, ou sei lá qual é o nome, certo? A russa o largou? Eu diria que já não era sem tempo. Aquele sujeito lá é maluco. Comuna, sabia?
— Acho que já ouvi falar.
Lee subia marchando os degraus da varanda com a cabeça erguida e a coluna reta — Napoleão recuando de Moscou — quando Jeanne de Mohrenschildt lhe gritou com severidade:
— Pare, seu estúpido!
Lee virou-se para ela, os olhos arregalados, incrédulos... e feridos. Olhou Mohrenschildt, a expressão do rosto dizendo não consegue controlar a sua mulher?, mas o outro nada disse. Estava com cara de riso. Como um espectador de teatro cansado que assiste a uma peça que, na verdade, não é tão ruim assim. Ótima, não, nem Shakespeare, mas um passatempo perfeitamente aceitável.
Jeanne:
— Se ama a sua mulher, Lee, pelo amor de Deus, pare de agir como um fedelho mimado. Comporte-se.
— Não pode falar comigo assim. — Sob tensão, o sotaque sulista ficava mais forte. Não virava num; assim virava ansim.
— Eu posso e vou falar — disse ela. — Vamos pegar as coisas dela, senão eu mesma chamo a polícia.
— Diga a ela para calar a boca e cuidar do que é da conta dela, George — disse Lee.
Mohrenschildt riu alegremente.
— Hoje você é da nossa conta, Lee. — Depois ele ficou sério. — Estou perdendo o respeito por você, camarada. Deixe a gente entrar agora. Se dá valor à minha amizade como dou valor à sua, deixe a gente entrar agora.
Os ombros de Lee arriaram e ele saiu da frente. Jeanne subiu marchando os degraus, sem sequer lhe dar uma olhada. Mas Mohrenschildt parou e envolveu Lee, que agora estava magro de doer, num abraço forte. Depois de um instante ou dois, Oswald o abraçou também. Percebi (com uma mistura de pena e nojo) que o menino — isso era tudo o que ele era, na verdade — começara a chorar.
— Quem são eles — perguntou o rapaz com a bicicleta —, um casal de invertidos?
— Invertidos? Talvez — respondi. — Mas não do jeito que você está pensando.
7
No final daquele mês, voltei de um dos meus fins de semana com Sadie e descobri Marina e June morando de volta no buraco da rua Elsbeth. Durante algum tempo, a família pareceu em paz. Lee ia trabalhar — agora criando ampliações fotográficas em vez de portas de tela de alumínio — e voltava para casa, às vezes com flores. Marina o recebia com beijos. Certa vez ela lhe mostrou o gramado da frente, do qual catara todo o lixo, e ele a aplaudiu. Isso a fez rir e, com isso, pude ver que os dentes dela tinham sido consertados. Não sei quanto George Bouhe tinha a ver com isso, mas apostaria que muito.
Observei essa cena da esquina e, mais uma vez, levei um susto com a voz enferrujada da velha com andador.
— Não vai durar, sabe.
— Talvez a senhora tenha razão — respondi.
— Provavelmente ele mata ela. Já vi isso. — Debaixo do cabelo elétrico, os olhos dela me examinaram com desprezo frio. — E você não vai se meter pra fazer nada, não é, Zé Biscoito?
— Vou — disse a ela. — Se a situação piorar muito, me intrometo. — Era uma promessa que pretendia cumprir, embora não pelo bem de Marina.
8
No dia seguinte à ceia pós-Natal de Sadie, havia um bilhete de Oswald para mim na minha caixa de correio, embora estivesse assinado A. Hidell. Esse pseudônimo estava nas anotações de Al. O A significava Alek, nome carinhoso que Marina lhe dera durante a época de Minsk.
A comunicação não me perturbou, já que parecia que todo mundo na rua recebera um igual. Os folhetos tinham sido impressos em papel rosa-choque (provavelmente furtados do atual emprego de Oswald), e vi cerca de uma dúzia esvoaçando na sarjeta. Os moradores do bairro Oak Cliff, em Dallas, não eram famosos por jogar o lixo no lixo.
PROTESTE CONTRA O FASCISMO DO CANAL 9!
LAR DO SEGREGACIONISTA BILLY JAMES HARGIS!
PROTESTE CONTRA O EX-GENERAL FASCISTA EDWIN WALKER!
Durante a transmisão de quinta feira a noite da chamada “Crusada Cristã” de Billy James Hargis, o Canal 9 dará espasso ao GENERAL EDWIN WALKER, um fascista de direita que estimulou JFK a invadir os povos pacíficos de Cuba e que formentou “DISCURSOS DE ÓDIO” contra os negros e contra a integraçao em todo o sul. (Quem duvida da exatidão dessa informação pode conferir no “TV Guide”.) Esses dois homens reprezentam tudo que combatemos na II Guerra e os seus DELÍRIOS fascistas não têm lugar nas ondas aerias. EDWIN WALKER foi um dos SUPREMACISTAS BRANCOS que tentaram impedir JAMES MERDITH de ir para a UNIVERSIDADE DO MISSISSIPPI. Se você ama os Estados Unidos, proteste contra o tempo gratuito dado a homens que pregam ÓDIO e VIOLENCIA. Escreva uma carta! Melhor ainda, vá ao Canal 9 em 27 de dez. e “proteste”!
A. Hidell
Presidente de Tirem as Mãos de Cuba
Ramo Dallas-Fort Worth
Ponderei rapidamente sobre os erros de ortografia, depois dobrei o folheto e o pus na caixa onde guardava os meus manuscritos.
Se houve um protesto na estação, não foi noticiado no Slimes Herald no dia seguinte à “transmisão” de Hargis e Walker. Duvido que alguém tenha aparecido, inclusive o próprio Lee. Claro que não fui, mas sintonizei no Canal 9 na quinta à noite, ansioso para ver o homem que Lee — provavelmente Lee — logo tentaria matar.
A princípio era só Hargis, sentado atrás de uma escrivaninha fingindo rabiscar notas importantes enquanto um coro enlatado cantava o Hino de Batalha da República. Era um sujeito gorducho com muito cabelo preto gomalinado para trás. Quando o coro foi sumindo, ele pousou a caneta, olhou a câmera e disse: “Bem-vindos à Cruzada Cristã, meus próximos. Trago boas novas: Jesus ama vocês. É, ele ama, até o último de vocês. Não querem se unir a mim em oração?”
Hargis castigou o ouvido do Todo-Poderoso durante dez minutos, pelo menos. Tratou das coisas de sempre, agradecendo a Deus pela oportunidade de disseminar o evangelho e instruindo-O a abençoar os que tinham enviado oferendas de amor. Depois passou a assuntos sérios e pediu a Deus que armasse o Seu Povo Escolhido com a espada e o escudo da justiça divina para que derrotássemos o comunismo, que ressurgia com toda a sua feiura a apenas 150 quilômetros do litoral da Flórida. Pediu a Deus que desse ao presidente Kennedy a sabedoria (que Hargis, por ser mais íntimo do Sujeito Lá de Cima, já possuía) de ir até lá e arrancar pela raiz as ervas daninhas do ateísmo. Também exigiu que Deus desse fim à crescente ameaça comunista nos campi das universidades americanas — a música popular parecia ter algo a ver com isso, mas Hargis meio que perdeu o fio da meada nessa parte. Terminou agradecendo a Deus pelo convidado de hoje, herói de Anzio e Chosin Reservoir, general Edwin A. Walker.
Walker não usava farda, mas um terno cáqui que lembrava muito uma delas. O vinco das calças parecia afiado o bastante para fazer uma barba. O rosto pétreo me lembrou Randolph Scott, o caubói do cinema. Ele apertou a mão de Hargis e os dois falaram de comunismo, que vicejava não só nos campi das universidades como também nos salões do Congresso e na comunidade científica. Mencionaram a fluoretação da água. Depois, papearam sobre Cuba, que Walker chamou de “câncer do Caribe”.
Dava para ver por que Walker fracassara tão redondamente na campanha eleitoral para governador do Texas no ano anterior. Diante de uma turma do secundário, faria os garotos dormirem até na primeira aula, quando estavam mais descansados. Mas Hargis o fez avançar suavemente, com interjeições como “Jesus seja louvado!” e “Deus é testemunha, irmão!” sempre que a situação ficava um pouco arrastada. Discutiram uma iminente cruzada pelo interior do sul do país chamada Operação Cavalgada da Meia-Noite, e depois Hargis convidou Walker a esclarecer “certas acusações indecentes de segregacionismo que andaram surgindo na imprensa de Nova York e de outras cidades”.
Walker finalmente esqueceu que estava na televisão e voltou à vida.
— Você sabe que isso não passa de um monte de propaganda comuna.
— Eu sei! — exclamou Hargis. — E Deus quer que você diga isso, irmão.
— Passei a vida no exército dos Estados Unidos e, no fundo do coração, continuarei a ser soldado até o dia em que morrer. — Se Lee conseguisse o que desejava, isso seria dali a uns três meses. — Como soldado, sempre cumpri o meu dever. Quando o presidente Eisenhower me mandou a Little Rock durante os distúrbios civis de 1957 (como sabe, isso teve a ver com a integração forçada da Central High School), cumpri o meu dever. Mas, Billy, também sou um soldado de Deus...
— Um soldado cristão! Jesus seja louvado!
— ... e, como cristão, sei que a integração forçada está simplesmente errada. É contra a Constituição, contra os direitos dos estados e contra a Bíblia.
— Diga lá — disse Hargis, limpando uma lágrima da bochecha. Ou talvez fosse suor que tivesse escorrido pela maquiagem.
— Se odeio a raça negra? Quem diz isso, e os que maquinaram para me expulsar das forças armadas que eu amava, é mentiroso e comunista. Você bem sabe, os homens com quem servi sabem e Deus sabe. — Ele se inclinou para a frente na cadeira do convidado. — Acha que os professores negros de Alabama, Arkansas, Louisiana e do grande estado do Texas querem a integração? Não, não querem. Eles a consideram um tapa na cara do seu talento e de todo o seu esforço. Acha que os alunos negros querem frequentar a escola com os brancos naturalmente mais bem-equipados para ler, escrever e contar? Acha que americanos de verdade querem o tipo de miscigenação que resultará desse tipo de mistura?
— É claro que não! Jesus seja louvaaaaado!
Pensei na placa que vira na Carolina do Norte, aquela que apontava um caminho orlado de sumagre-venenoso. DE COR, dizia. Walker não merecia a morte, mas sem dúvida um bom sacolejo lhe faria bem. Daria a qualquer um um grande Jesus seja louvado por isso.
A minha atenção perambulara, mas algo que Walker disse a trouxe de volta às pressas.
— Foi Deus, e não o general Edwin Walker, que determinou a posição do negro neste mundo quando Ele lhe deu uma cor de pele diferente e um conjunto diferente de talentos. Talentos mais atléticos. O que a Bíblia nos diz sobre essa diferença e por que a raça negra foi amaldiçoada com tanta dor e sofrimento? Só precisamos olhar o nono capítulo do Gênesis, Billy.
— Louvado seja Deus pela Palavra Sagrada.
Walker fechou os olhos e ergueu a mão direita, como se prestasse testemunho num tribunal.
— “E Noé bebeu do vinho, e embriagou-se; e achava-se nu dentro da sua tenda. E Cam viu a nudez de seu pai, e o contou aos dois irmãos que estavam fora.” Mas Sem e Jafé — um, o pai da raça árabe, o outro, o pai da raça branca, sei que você sabe disso, Billy, mas nem todo mundo sabe, nem todo mundo tem o bom e velho aprendizado da Bíblia que recebemos no colo das nossas mães...
— Louvado seja Deus pelas mães cristãs, é isso mesmo!
— Sem e Jafé não olharam. E quando acordou e soube o que acontecera, Noé disse: “Maldita seja Canaã; servo dos servos será de seus irmãos, a cortar lenha e tirar ág...
Desliguei a TV.
9
O que vi de Lee e Marina durante janeiro e fevereiro de 1963 me fez pensar numa camiseta que Christy usava às vezes nos últimos anos do nosso casamento. Havia um pirata feroz e sorridente na frente, com a seguinte mensagem embaixo: AS SURRAS VÃO CONTINUAR ATÉ QUE A MORAL MELHORE. Muitas surras ocorreram na rua Elsbeth, 604, naquele inverno. Nós da vizinhança ouvíamos os berros de Lee e os gritos de Marina — às vezes de raiva, às vezes de dor. Ninguém fez nada, e isso me inclui.
Não que ela fosse a única esposa a levar surras regulares em Oak Cliff; as Brigas de Sexta e Sábado à Noite pareciam ser tradição local. Só me lembro de desejar, durante aqueles horríveis meses cinzentos, que a novela sem fim e miserável acabasse para que eu pudesse ficar com Sadie em horário integral. Eu verificaria se Lee estava sozinho quando tentasse matar o general Walker e depois concluiria o meu negócio. Oswald agir sozinho uma vez não queria dizer necessariamente que agiria sozinho ambas as vezes, mas era o máximo que eu podia fazer. Depois de pôr os pingos nos is, pelo menos na maioria deles, eu escolheria a hora e o lugar e mataria Lee Oswald com a mesma frieza com que matara Frank Dunning.
O tempo passou. Devagar, mas passou. Então, um dia, não muito antes de os Oswald se mudarem para o apartamento em cima do meu na rua Neely, vi Marina conversar com a velha de andador e cabelo de Elsa Lanchester. Ambas sorriam. A velha lhe perguntou alguma coisa. Marina riu, fez que sim e abriu as mãos diante da barriga.
Fiquei junto à janela com as cortinas fechadas, o binóculo numa das mãos e boquiaberto. As anotações de Al nada diziam sobre esse fato, porque não soube ou porque não ligou. Mas eu ligava.
A esposa do homem que eu esperara mais de quatro anos para matar estava grávida outra vez.