Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 22 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 21

1

Os Oswald se tornaram meus vizinhos do andar de cima em 2 de março de 1963. Trouxeram a pé as suas posses, quase todas em caixas de papelão da loja de bebidas, vindos do dilapidado cubo de tijolos da rua Elsbeth. Logo as rodinhas do gravadorzinho japonês giravam regularmente, mas em geral eu escutava com os fones. Dessa maneira, as conversas lá em cima ficavam normais em vez de arrastadas, mas é claro que não conseguia entender muita coisa.

Na semana seguinte à mudança dos Oswald para a nova residência, visitei uma das casas de penhores da avenida Greenville para comprar uma arma. O primeiro revólver que o penhorista me mostrou era o mesmo modelo Colt .38 que eu comprara em Derry.

— Uma proteção excelente contra assaltantes e arrombadores — disse o penhorista. — Total precisão até vinte metros.

— Quinze — disse eu. — Ouvi dizer quinze.

O penhorista ergueu as sobrancelhas.

— Tudo bem, digamos quinze. Quem for bastante estúpido...

... para tentar me assaltar e me roubar o dinheiro vai estar muito mais perto do que isso, é o que dizem.

— ... para atacar o senhor estará bem perto, então, o que me diz?

O meu primeiro impulso, só para romper aquela sensação de harmonia coincidente mas levemente dissonante, foi lhe dizer que queria outra coisa, talvez um .45, mas quebrar a harmonia podia ser má ideia. Quem saberia? O que eu sabia era que o .38 que comprara em Derry fizera o serviço.

— Quanto?

— Digamos, doze.

Eram dois dólares a mais do que eu pagara em Derry, mas é claro que fora quatro anos e meio antes. Com a inflação, doze parecia justo. Disse-lhe que acrescentasse uma caixa de balas e negócio fechado.

Quando me viu pôr a arma e a munição na pasta que levara para isso, o penhorista disse:

— Por que não compra um coldre também, filho? Parece que você não é daqui e talvez não saiba, mas pode levar a arma legalmente no Texas, não é preciso licença a não ser que tenha um crime grave na sua ficha. Tem algum crime grave na sua ficha?

— Não, mas não espero ser assaltado em plena luz do dia.

O penhorista deu um sorriso sombrio.

— Na avenida Greenville, nunca se sabe o que vai acontecer. Um homem deu um tiro na cabeça a um quarteirão e meio daqui alguns anos atrás.

— É mesmo?

— Sim, senhor, na frente de um bar chamado Rosa do Deserto. Por causa de mulher, claro.

Faz sentido, não faz?

— Acho que sim — respondi. — Embora às vezes seja a política.

— Não, não, no fundo tem sempre uma mulher, filho.

Eu achara um lugar para estacionar quatro quarteirões a oeste da casa de penhores e, para voltar até o meu carro novo (novo para mim, pelo menos), tive de passar pela Financeira Fé, onde fizera a minha aposta nos milagrosos Pirates no outono de 1960. O espertinho que pagara os meus mil e duzentos estava em pé na frente, fumando um cigarro. Usava o seu visor verde. Os olhos dele passaram por mim, aparentemente sem interesse nem reconhecimento.

2

Isso foi numa tarde de sexta e fui direto da avenida Greenville para Kileen, onde Sadie me encontrou nos Bangalôs Candlewood. Passamos a noite lá, como era de hábito naquele inverno. No dia seguinte ela voltou a Jodie, onde me encontrei com ela no domingo para o culto. Depois da bênção, naquela parte em que apertávamos as mãos de todos os que estavam em volta dizendo “A paz esteja contigo”, os meus pensamentos se voltaram, de forma nada confortável, para a arma agora guardada na mala do carro.

No almoço de domingo, Sadie perguntou:

— Quanto tempo? Até você fazer o que tem de fazer?

— Se tudo correr como espero, pouco mais de um mês.

— E se não correr?

Esfreguei as mãos no cabelo e fui até a janela.

— Aí não sei. Tem mais coisa na sua cabeça?

— Tem — respondeu ela calmamente. — Temos torta de cereja de sobremesa. Quer chantili na sua?

— Quero muito — disse eu. — Amo você, querida.

— É bom mesmo — disse ela, levantando-se para buscar o doce. — Porque aqui estou meio em desvantagem.

Fiquei junto à janela. Um carro veio rodando devagar rua abaixo — velho mas bom, como dizem os DJs da K-Life — e senti aquela harmonia soar de novo. Mas agora eu sempre a sentia, e às vezes não queria dizer nada. Um dos lemas dos AA de Christy me veio à mente: MEDO, ou seja, muitos se enganam com deduções ocas.

Mas dessa vez veio o clique da associação. O carro era um Plymouth Fury branco e vermelho como aquele que eu vira no estacionamento da fábrica Worumbo, não muito longe do barracão de secagem onde ficava a toca de coelho em 1958. Lembrei de ter tocado o capô para me assegurar de que era real. Esse tinha placa de Arkansas e não do Maine, mas ainda assim... aquele tilintar. Aquele tilintar harmônico.

Às vezes eu achava que, se soubesse o significado desse tilintar, saberia tudo. Estupidez, provavelmente, mas verdade.

O Homem do Cartão Amarelo sabia, pensei. Sabia, e isso o matou.

O meu harmônico mais recente piscou para a esquerda, virou na placa de pare e sumiu rumo à rua Principal.

— Ei, você, venha comer a sobremesa — disse Sadie atrás de mim, e levei um susto.

Os AA dizem que MEDO também significa outra coisa: merda, estou dando o fora.

3

Naquela noite, quando voltei à rua Neely, pus os fones e escutei a última gravação. Só esperava russo, mas dessa vez tinha inglês também. E sons de água.

Marina: (fala russo)

Lee: Não dá, mamãe, estou na banheira com Junie!

(Mais barulho de água e risos — o de Lee e as risadinhas agudas do bebê.) Lee: Mamãe, caiu água no chão! Junie jogou! Menina feia!

Marina: Pode enxugar! Eu ocupada! Ocupada! (Mas ela também ri.) Lee: Não posso, quer que o bebê... (em russo)

Marina: (fala russo — repreendendo e rindo ao mesmo tempo) (Mais barulho de água. Marina cantarola uma música pop da KLIF. Soa doce.) Lee: Mamãe, traz os brinquedos!

Marina: Da, da, sempre quer brinquedos.

(Barulho alto de água. A porta do banheiro deve estar escancarada agora.) Marina: (fala russo)

Lee (com vozinha de menino): Mamãe, você esqueceu a bola de borracha. (Barulhão de água — o bebê grita de prazer.)

Marina: Pronto, todos brinquedos de príncipe e princesa.

(Riso dos três — a alegria deles me deixa frio.)

Lee: Mamãe, traz um (palavra russa). Tem água no nosso ouvido. Marina (rindo): Ah, meu Deus, e o que mais?

Fiquei acordado muito tempo naquela noite, pensando nos três. Felizes para variar, e por que não? O 214 da West Neely não era muita coisa, mas era um passo adiante. Talvez estivessem até dormindo na mesma cama, June agora feliz em vez de apavorada.

E agora um quarto na cama também. O que crescia na barriga de Marina.

4

Tudo pareceu ir mais depressa, como acontecera em Derry, só que agora a flecha do tempo seguia para 10 de abril e não para o Halloween. As anotações de Al, das quais eu dependera para chegar até ali, se tornaram menos úteis. Antes do atentado à vida de Walker, elas se concentravam quase unicamente nas ações e movimentos de Lee, e naquele inverno houve muito mais coisa na vida deles, especialmente na de Marina.

Para começar, ela finalmente fizera amizade — não um candidato a tiozinho como George Bouhe, mas uma amiga. Ela se chamava Ruth Paine e era quacre. Fala russo, anotara Al num estilo lacônico diferente das anotações anteriores. Conhecida em festa, 2(??)/63. Marina separada de Lee e morando com a tal Paine na época do assassinato de Kennedy. Então, como se não passasse de uma lembrança posterior: Lee guardou M-C na garagem de Paine. Enrolado em cobertor.

Com M-C, ele queria dizer o fuzil Mannlicher-Carcano comprado por correspondência com que Lee planejava matar o general Walker.

Não sei quem deu a festa onde Lee e Marina conheceram os Paine. Não sei quem os apresentou. Mohrenschildt? Bouhe? Provavelmente um ou outro, porque nessa época o resto dos emigrados mantinha distância dos Oswald. O marido era um sabe-tudo desdenhoso, a mulher um saco de pancadas que perdera sabe Deus quantas oportunidades de largá-lo para sempre.

O que sei é que a potencial válvula de escape de Marina Oswald chegou atrás do volante de uma camionete Chevrolet — branca e vermelha — num dia de chuva no meio de março. Estacionou junto ao meio-fio e olhou em volta desconfiada, como se não tivesse certeza de que estava no endereço certo. Ruth Paine era alta (embora não tão alta quanto Sadie) e terrivelmente magra. O cabelo acastanhado tinha franja sobre uma enorme extensão de testa na frente e preso para cima atrás, num estilo que não a beneficiava. Usava óculos sem aro sobre um nariz respingado de sardas. Para mim, que espiava por uma fenda das cortinas, parecia o tipo de mulher que mantinha distância da carne e marchava em manifestações contra a bomba atômica... e isso era bem Ruth Paine, acho, uma mulher da Nova Era antes que a Nova Era fosse chique.

Marina devia estar à espera dela, porque veio chocalhando pela escada externa com o bebê no colo, um cobertor puxado sobre a cabeça de June para protegê-la da garoa. Ruth Paine sorriu hesitante e falou com cuidado, pondo um espaço entre as palavras. — Olá, sra. Oswald, sou Ruth Paine. Se lembra de mim?

— Da — respondeu Marina. “Sim.” Depois acrescentou alguma coisa em russo. Ruth respondeu na mesma língua, embora com hesitação.

Marina a convidou a entrar. Esperei até ouvir o ranger dos passos delas acima de mim e depois pus os fones ligados ao microfone do abajur. O que escutei foi uma conversa que misturava inglês e russo. Marina corrigiu Ruth várias vezes, algumas com risos. Entendi o suficiente para ter uma ideia de por que Ruth Paine viera. Como Paul Gregory, queria aulas de russo. Entendi outra coisa com os risos frequentes e a conversa cada vez mais à vontade: elas gostavam uma da outra.

Fiquei contente por Marina. Se eu matasse Oswald depois do atentado contra o general Walker, Ruth Paine, a da Nova Era, poderia ajudá-la. Eu podia ter esperanças.

5

Ruth só foi ter aulas duas vezes na rua Neely. Depois, Marina e June entraram na camionete e Ruth as levou embora. Provavelmente para a casa dela no luxuoso (pelo menos pelo padrão de Oak Cliff) subúrbio de Irving. O endereço não estava nas anotações de Al — ele parecia não dar muita importância à relação entre Marina e Ruth, provavelmente porque esperava dar fim a Lee muito antes que aquele fuzil fosse parar na garagem dos Paine — mas descobri no catálogo telefônico: rua West Fifth, 2.515.

Numa tarde nublada de março, cerca de duas horas depois de Marina e Ruth saírem, Lee e George de Mohrenschildt apareceram no carro deste último. Lee saiu com um saco de papel pardo com um sombreiro e PEPINO’S BEST MEXICAN impressos na lateral. Mohrenschildt levava uma embalagem de seis cervejas Dos Equis. Eles subiram a escada externa rindo e conversando. Peguei os fones, o coração batendo com força. A princípio não houve nada, mas aí um deles acendeu o abajur. Depois disso eu poderia estar na sala com eles, um terceiro invisível.

Por favor, não conspirem para matar Walker , pensei. Por favor, não tornem o meu serviço mais difícil do que já é.

— Desculpe a bagunça — disse Lee. — Ela não faz quase nada hoje em dia, a não ser dormir, assistir à TV e falar daquela mulher a quem está dando aulas.

Mohrenschildt falou algum tempo sobre algumas concessões petrolíferas que tentava obter no Haiti e, com rispidez, do regime repressor de Duvalier.

— No fim do dia, os caminhões passam pela feira para recolher os mortos. Muitos são crianças que morreram de fome.

— Castro e a Frente darão fim a isso — disse Lee com raiva.

— Que a Providência apresse esse dia. — Houve um barulho de garrafas, provavelmente para brindar à ideia da Providência apressando o dia. — Como vai o serviço, camarada? E por que não está lá esta tarde?

Lee disse que não estava lá porque queria estar aqui. Simples assim. Simplesmente batera o cartão e fora embora.

— O que eles podem fazer? Sou o melhor técnico de ampliação que o velho Bobby Stovall arranjou, e ele sabe disso. O capataz, ele se chama (não consegui entender... Graff? Graft? ) diz “Pare de brincar de organizador trabalhista, Lee”. Sabe o que eu faço? Dou uma risada e digo “Tá bom, svinoieb”, e saio andando. Ele é um porco do caralho, e todo mundo sabe disso.

Mas era claro que Lee gostava do emprego, embora se queixasse da atitude paternalista e de que o tempo de casa contava mais do que o talento. Em certo momento, disse:

— Sabe, em Minsk, em condições justas, em um ano eu estaria comandando o lugar.

— Sei que sim, meu filho; isso é claríssimo.

Estimulando. Dando corda nele. Eu tinha certeza. Não gostei.

— Viu o jornal hoje de manhã? — perguntou Lee.

— Hoje de manhã só vi telegramas e memorandos. Por que acha que estou aqui? É para me afastar da minha mesa.

— Walker conseguiu — disse Lee. — Entrou para a cruzada de Hargis — ou talvez a cruzada seja de Walker e Hargis é que entrou. Não sei dizer. Não importa, aquela merda de Cavalgada da Meia-Noite. Aqueles dois idiotas vão percorrer o Sul inteiro dizendo a todo mundo que a Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor é uma frente comunista. Vão fazer a integração e o direito de voto recuarem vinte anos.

— Claro! E fomentar o ódio. Quanto tempo até começarem os massacres?

— Ou até alguém dar um tiro em Ralph Abernathy ou no dr. King!

— É claro que King vai levar um tiro — disse Mohrenschildt, quase rindo. Eu estava em pé, as mãos apertando os fones com força na lateral da cabeça, o suor escorrendo pelo rosto. Era um terreno bem perigoso mesmo — a beirinha da conspiração. — É só uma questão de tempo.

Um deles usou o abridor em outra garrafa de cerveja mexicana, e Lee disse:

— Alguém deveria deter aqueles dois canalhas.

— Você está errado ao chamar o nosso general Walker de idiota — disse Mohrenschildt com voz professoral. — Hargis, sim, tudo bem. Hargis é uma piada. O que ouvi dizer é que, como tantos do seu tipo, ele é um homem de apetites sexuais pervertidos que gosta de brincar com a boceta de uma menininha pela manhã e com o cu de um menininho à tarde.

— Caramba, isso é nojento! — A voz de Lee, como a de um adolescente, ficou aguda na última palavra. Depois, ele riu.

— Mas Walker, ah, esse é farinha de outro saco totalmente diferente. Ele tem cargo alto na Sociedade John Birch...

— Aqueles fascistas que odeiam judeus!

— ... e posso ver um dia não muito distante em que talvez a presida. Assim que receber a confiança e a aprovação dos outros grupos de malucos de direita, pode até concorrer de novo a algum cargo... mas dessa vez não a governador do Texas. Suspeito que ele está de olho em algo mais alto. O Senado? Talvez. Quem sabe a Casa Branca?

— Isso nunca poderia acontecer. — Mas Lee soava inseguro.

— É improvável que aconteça — corrigiu Mohrenschildt. — Mas nunca subestime a capacidade da burguesia americana de abraçar o fascismo sob o nome de populismo. Nem o poder da televisão. Sem a TV, Kennedy nunca venceria Nixon.

— Kennedy e o seu punho de ferro — disse Lee. A aprovação do atual presidente parecia ter ido pelo caminho dos sapatos de camurça azul. — Ele não vai descansar enquanto Fidel cagar na latrina de Batista.

— E nunca subestime o terror dos Estados Unidos com a ideia de uma sociedade na qual a igualdade racial se tornou a lei da terra.

— Crioulo, crioulo, crioulo, cucaracho, cucaracho, cucaracho! — explodiu Lee, com fúria tão grande que era quase angústia. — É só o que ouço no trabalho!

— Tenho certeza. Quando o Morning News diz “o grande estado do Texas”, o que querem dizer é “o odioso estado do Texas”. E todos dão ouvidos! Para um homem como Walker, um herói de guerra como Walker, bufões como Hargis não passam de degraus. Assim como Hindenberg foi um degrau para Hitler. Com as relações públicas certas para amaciar as coisas, Walker pode ir longe. Sabe o que acho? Que o homem que apagar o general Edwin Racista Walker fará um favor à sociedade.

Caí com tudo numa cadeira ao lado da mesa onde estava o gravadorzinho com as rodinhas girando.

— Se você acha mesmo... — começou Lee, e então houve um zumbido alto que me fez tirar os fones de repente. Não houve gritos de alarme nem ofensa lá em cima, nenhum movimento rápido de pés, portanto, a menos que eles fossem muito bons em encobrir no calor do momento, achei que podia supor que o microfone do abajur não fora descoberto. Pus os fones de novo. Nada. Tentei o microfone de longa distância, em pé numa cadeira e segurando o pote Tupperware quase encostado no teto. Com ele consegui escutar Lee falar e as respostas ocasionais de Mohrenschildt, mas sem entender o que diziam.

O meu ouvido no apartamento de Oswald ficara surdo.

O passado é obstinado.

Depois de mais dez minutos de conversa, talvez sobre política, talvez sobre a natureza incômoda das esposas, talvez sobre planos recém-elaborados para matar o general Edwin Walker, Mohrenschildt desceu a escada externa e foi embora.

Os passos de Lee atravessaram o teto acima da minha cabeça — clump, clud, clump. Segui-os até o quarto e pus o microfone de longa distância no lugar onde pararam. Nada... nada... então o leve mas inconfundível som de roncos. Duas horas depois, quando Ruth Paine deixou Marina e June em casa, ele ainda dormia o sono de Dos Equis. Marina não o acordou. Eu também não acordaria o mal-humorado filhinho da puta.

6

Oswald começou a faltar muito mais ao trabalho depois daquele dia. Se sabia, Marina não ligou. Talvez nem tivesse notado. Estava absorvida pela nova amiga Ruth. As surras tinham se reduzido um pouco, não porque o moral melhorasse, mas porque Lee ficava fora de casa quase com a mesma frequência que ela. Costumava levar a câmera. Graças às anotações de Al, eu sabia onde ele ia e o que fazia.

Certo dia, depois que ele saiu rumo ao ponto de ônibus, entrei no carro e fui até a avenida Oak Lawn. Queria chegar antes do ônibus urbano de Lee e consegui. Facilmente. Havia muito lugar para estacionar em ambos os lados da Oak Lawn, mas o meu Chevy rabo de peixe vermelho chamava a atenção e não queria correr o risco de que Lee o visse. Deixei-o além da esquina, na avenida Wycliff, no estacionamento da mercearia Alpha Beta. Depois, andei até o bulevar Turtle Creek. As casas de lá eram neofazendas com arcos e revestimento de estuque. Havia entradas ladeadas de palmeiras, gramados grandes, até um ou outro chafariz.

Na frente do 4.011, um homem em boa forma (que exibia semelhança espantosa com Randolph Scott, o caubói do cinema) trabalhava com um cortador de grama. Edwin Walker me viu olhá-lo e bateu uma meia continência no lado da testa. Devolvi o cumprimento. O alvo de Lee Oswald voltou a cortar a grama e voltei a andar.

7

As ruas que formavam o quarteirão que me interessava em Dallas eram o bulevar Turtle Creek (onde morava o general), a avenida Wycliff (onde eu estacionara), a avenida Avondale (para onde fui depois de retribuir a continência de Walker) e a Oak Lawn, rua de pequenas lojinhas que corria bem atrás da casa do general. Era na Oak Lawn que eu estava mais interessado, porque seria a linha de abordagem e rota de fuga de Lee na noite de 10 de abril.

Fiquei diante da Texas Shoes & Boots, o colarinho da jaqueta jeans erguido e as mãos enfiadas no bolso. Uns três minutos depois de eu adotar essa posição, o ônibus parou na esquina da Oak Lawn com a Wycliff. Duas mulheres com sacolas de compras de pano desceram imediatamente quando as portas se abriram. Depois, Lee desceu para a calçada. Trazia um saco de papel pardo, como a marmita de um trabalhador.

Havia uma grande igreja de pedra na esquina. Lee foi até a grade de ferro que passava pela frente, leu o quadro de avisos, tirou um bloquinho do bolso da calça e rabiscou alguma coisa. Em seguida, veio na minha direção, enfiando o bloquinho no bolso ao andar. Não esperava por isso. Al acreditara que Lee guardaria o fuzil perto dos trilhos da ferrovia do outro lado da avenida Oak Lawn, a quase um quilômetro dali. Mas talvez as anotações estivessem erradas, porque Lee nem olhou naquela direção. Estava a setenta ou oitenta metros e se aproximava depressa da minha posição.

Ele vai me notar e falar comigo, pensei. Vai dizer: “Você não é o sujeito que mora no andar de baixo? O que está fazendo aqui?” Se isso acontecesse, o futuro se desviaria numa nova direção. Nada bom.

Fitei os sapatos e botas na vitrine com o suor molhando a nuca e rolando pelas costas. Quando finalmente me arrisquei e olhei para a esquerda, Lee sumira. Foi como um truque de mágica.

Subi a rua. Gostaria de ter posto um boné, talvez óculos escuros... Por que não pusera? Que merda de agente secreto eu era, afinal?

Cheguei a um café no meio do quarteirão; a placa na vitrine anunciava CAFÉ DA MANHÃ O DIA INTEIRO. Lee não estava lá dentro. Além do café havia a abertura de um beco. Andei lentamente por ele, dei uma espiada para a direita e o vi. Estava de costas pra mim. Tirara a câmera do saco de papel mas não tirava fotos, pelo menos ainda não. Examinava latas de lixo. Levantava a tampa, olhava dentro, tampava de novo.

Cada osso do meu corpo — com isso quero dizer cada instinto do meu cérebro, acho — insistia para que eu avançasse antes que ele se virasse e me visse, mas um fascínio poderoso me manteve ali um pouco mais. Acho que isso aconteceria com quase todo mundo. Quantas oportunidades temos, afinal de contas, de observar um sujeito enquanto ele planeja um homicídio a sangue-frio?

Ele foi um pouco mais para o fundo do beco, depois parou numa tampa circular de ferro instalada numa base de concreto. Tentou erguê-la. Não conseguiu.

O beco era sem calçamento, com muitos buracos e uns duzentos metros de comprimento. A meio caminho, a corrente que guardava os quintais cheios de mato e os terrenos baldios dava lugar a cercas altas de tábuas cobertas de hera não muito vibrante depois de um inverno frio e lúgubre. Lee empurrou a camada de hera e experimentou uma tábua. Ela balançou e ele espiou pelo buraco.

Os axiomas sobre quebrar ovos para fazer omeletes são todos muito bons, mas senti que já tinha forçado bastante a sorte. Fui em frente. No final do quarteirão, parei diante da igreja que chamara a atenção de Lee. Era a Igreja dos Santos dos Últimos Dias de Oak Lawn. O quadro de avisos dizia que havia cultos regulares toda manhã de domingo e cultos especiais para recém-chegados às sete da noite toda quarta-feira, com uma hora de atividades sociais em seguida. Seria servido um lanche.

Dez de abril era quarta-feira e agora o plano de Lee (supondo que não fosse de Mohrenschildt) parecia bastante claro: esconder a arma no beco com antecedência, esperar que o culto dos recém-chegados — e a hora de atividades sociais, naturalmente — acabasse. Ele conseguiria ouvir os fiéis quando saíssem, rindo e conversando ao andar até o ponto de ônibus. Os ônibus passavam de quinze em quinze minutos; havia sempre algum passando. Lee daria o tiro, esconderia de novo a arma atrás da tábua solta (não perto dos trilhos do trem) e depois se misturaria aos fiéis. Quando viesse o ônibus seguinte, iria embora.

Dei uma olhada para a direita bem na hora de vê-lo saindo do beco. A câmera estava de volta no saco de papel. Ele foi para o ponto de ônibus e se encostou no poste. Veio um homem e lhe perguntou alguma coisa. Logo conversavam. Conversa fiada com um desconhecido ou aquele era, talvez, outro amigo de Mohrenschildt? Apenas algum sujeito na rua ou outro conspirador? Talvez até o famoso Atirador Desconhecido que, de acordo com os teóricos da conspiração, se escondera na elevação gramada perto de Dealey Plaza quando a carreata de Kennedy se aproximou? Disse a mim mesmo que era loucura, mas seria impossível ter certeza. Isso é que era o diabo.

Não havia como saber nada com certeza, pelo menos não até que eu visse com os meus próprios olhos que Oswald estava sozinho em 10 de abril. E nem isso seria suficiente para sanar todas as minhas dúvidas, mas seria o bastante para continuar.

O bastante para matar o pai de Junie.

O ônibus veio rugindo até o ponto. O Agente Secreto X-19 — também conhecido como Lee Harvey Oswald, marxista renomado e surrador de mulheres — embarcou. Quando o ônibus saiu de vista, voltei ao beco e percorri todo o seu comprimento. No final, ele se alargava num grande quintal sem cerca. Havia um Chevy Biscayne 57 ou 58 estacionado ao lado de uma estação de bombeamento de gás natural. Havia uma churrasqueira em cima de um tripé. Além dela, os fundos de uma grande casa marrom-escura. A casa do general.

Olhei para baixo e vi uma marca fresca de arrastamento na terra. Havia uma lata de lixo numa das pontas da marca. Não vira Lee mover a lata, mas sabia que fora ele. Na noite do dia 10, ele pretendia descansar nela o cano da espingarda.

8

Na segunda-feira, 25 de março, Lee veio subindo a rua Neely trazendo um pacote comprido embrulhado em papel pardo. Espiando por uma fenda minúscula na cortina, vi as palavras REGISTRADO e COM SEGURO carimbadas em grandes letras vermelhas. Pela primeira vez, achei que ele parecia nervoso e furtivo, realmente olhando em volta as cercanias externas em vez da mobília fantasmagórica no fundo da cabeça. Eu sabia o que estava no pacote: uma espingarda Carcano 6,5 mm — também conhecida como Mannlicher-Carcano — com mira e tudo, comprada na Klein’s Sporting Goods, em Chicago. Cinco minutos depois de Lee subir a escada externa do segundo andar, a arma que usaria para mudar a história estava num armário acima da minha cabeça. Marina tirou as famosas fotos dele com a arma bem diante da janela da minha sala, seis dias depois, mas não vi. Era domingo e eu estava em Jodie. Conforme o dia 10 se aproximava, aqueles fins de semana com Sadie tinham se tornado as coisas mais importantes, mais queridas da minha vida.

9

Acordei com um solavanco, ouvindo alguém murmurar entredentes “Ainda não é tarde demais”. Percebi que era eu e calei a boca.

Sadie murmurou algum protesto pastoso e se virou na cama. O guincho conhecido das molas me travou no tempo e no lugar: Bangalôs Candlewood, 5 de abril de 1963. Peguei o relógio de pulso na mesinha de cabeceira e espiei os números luminosos. Eram duas e quinze da madrugada, ou seja, já era 6 de abril.

Ainda não é tarde demais.

Tarde demais para quê? Para recuar, deixar tudo pra lá? Ou para cá, talvez? Só Deus sabia como a ideia de recuar era atraente. Se eu fosse em frente e tudo desse errado, essa talvez fosse a minha última noite com Sadie. Para sempre.

Mesmo que tenha de matá-lo, não precisa fazer isso agora.

Verdade. Oswald se mudaria para Nova Orleans por algum tempo depois do atentado contra a vida do general — outro lixo de apartamento, que eu já visitara —, mas só dali a quinze dias. Isso me daria muito tempo para fazer o seu relógio parar. Mas senti que seria um erro esperar demais. Podia encontrar razões para continuar esperando. A melhor estava ao meu lado na cama: comprida, adorável e suavemente nua. Talvez fosse apenas mais uma armadilha criada pelo passado obstinado, mas não importava, porque eu a amava. E podia vislumbrar um roteiro — com toda a clareza — em que eu teria de fugir depois de matar Oswald. Fugir para onde? De volta ao Maine, é claro. Na esperança de ficar à frente da polícia o bastante para chegar à toca de coelho e fugir para um futuro onde Sadie Dunhill teria... bem... uns 80 anos. Se ainda estivesse viva. Dado o hábito de fumar, isso seria como acertar na loteria do jeito mais difícil.

Levantei e fui até a janela. Apenas alguns bangalôs estavam ocupados nesse fim de semana no início da primavera. Havia um caminhão aberto respingado de lama ou esterco com um trailer cheio de implementos agrícolas, ao que parecia. Uma motocicleta Indian com sidecar. Duas camionetes. E um Plymouth Fury bicolor. A lua deslizava para dentro e para fora de nuvens ralas e não era possível perceber a cor da parte inferior do carro com aquela luz gaga, mas tive bastante certeza de que sabia qual era mesmo assim.

Vesti as calças, a camiseta, os sapatos. Depois escapuli da cabana e andei pelo terreiro. O ar gelado espetou a minha pele quente da cama, mas mal senti. Sim, o carro era um Fury, e, sim, era branco e vermelho, mas esse não era do Maine nem do Arkansas; a placa era de Oklahoma e o decalque no para-brisa traseiro dizia AVANTE, SOONERS. Espiei lá dentro e vi livros didáticos espalhados. Algum estudante, talvez indo para o Sul visitar a família nas férias de primavera. Ou um casal de professores excitados aproveitando a política liberal do Candlewood com os hóspedes.

Apenas mais um tilintar levemente desafinado do passado a se harmonizar. Toquei o capô, como fizera em Lisbon Falls, e voltei ao bangalô. Sadie empurrara o lençol até a cintura e, quando entrei, a corrente de ar frio a acordou. Ela se sentou, segurando o lençol sobre os seios, e o deixou cair quando viu que era eu.

— Não consegue dormir, querido?

— Tive um pesadelo e saí para tomar ar.

— O que foi?

Desabotoei os jeans, tirei os mocassins.

— Não consigo me lembrar.

— Tente. A minha mãe sempre dizia que, quando a gente conta os sonhos, eles não se realizam.

Entrei na cama com ela, vestindo apenas a camiseta.

— A minha mãe sempre dizia que, quando a gente beija quem a gente ama, eles não se realizam.

— Ela dizia isso mesmo?

— Não.

— Bom — comentou ela, pensativa —, parece possível. Vamos tentar. — Tentamos.

Uma coisa levou a outra.

10

Depois, ela acendeu um cigarro. Fiquei deitado observando a fumaça subir e se azular no luar ocasional que entrava pelas cortinas semifechadas. Eu nunca deixaria as cortinas assim na rua Neely, pensei. Na rua Neely, na minha outra vida, estou sempre sozinho, mas ainda tomo o cuidado de fechá-las completamente. Quer dizer, a não ser que esteja espiando. Espreitando.

Nesse momento não gostei muito de mim.

— George?

Suspirei.

— Esse não é o meu nome.

— Eu sei.

Olhei-a. Ela inalou profundamente, gozando o seu cigarro sem culpa, como todos fazem na Terra de Antigamente.

— Não tenho nenhuma informação privilegiada, se é o que você está pensando. Mas faz sentido. Afinal de contas, o resto do seu passado foi inventado. E fico contente. Não gosto tanto assim de George. É meio... como é aquela palavra que às vezes você usa?... meio pateta.

— O que acha de Jake?

— De Jacob?

— É.

— Gosto. — Ela se virou para mim. — Na Bíblia, Jacob lutou com um anjo. E você também está lutando. Não está?

— Acho que estou, mas não com um anjo. — Embora Lee Oswald também não fosse um demônio. Eu preferia George de Mohrenschildt para o papel de demônio. Na Bíblia, Satã é um tentador que faz a oferta e se afasta. Eu torcia para que Mohrenschildt fosse assim.

Sadie descartou o cigarro. A voz estava calma, mas os olhos ficaram sombrios.

— Você vai se machucar?

— Não sei.

— Você vai embora? Porque, se tiver de ir embora, não sei se aguento. Eu preferiria morrer antes de dizer isso quando estava lá, mas Reno foi um pesadelo. Perder você para sempre... — Ela balançou a cabeça devagar. — Não, acho que não aguentaria.

— Quero me casar com você — disse eu.

— Meu Deus — comentou ela baixinho. — Bem na hora em que eu ia dizer que nunca aconteceria, Jake-alcunha-George diz agora mesmo.

— Não agora mesmo, mas se a semana que vem for como espero que seja... você aceita?

— É claro. Mas tenho de fazer mais uma perguntinha.

— Se sou solteiro? Legalmente solteiro? É isso que quer saber? — Ela fez que sim. — Sou — respondi.

Ela soltou um suspiro cômico e sorriu como criança. Depois, ficou séria.

— Posso ajudar? Me deixe ajudar.

A ideia me deixou gelado e ela deve ter visto. O lábio inferior entrou na boca. Ela o mordeu com os dentes.

— Então é ruim mesmo — disse ela, pensativa.

— Vamos dizer assim: atualmente, estou perto de uma máquina grande e cheia de dentes afiados, e ela está rodando na velocidade máxima. Não vou deixar você perto de mim enquanto lido com ela.

— Quando vai ser? — perguntou ela. — O seu... não sei... encontro marcado com o destino?

— Ainda a ser determinado. — Tive a sensação de que já falara demais, mas como chegara até ali, decidi avançar mais um pouquinho. — Vai acontecer uma coisa na noite desta quarta-feira. Algo a que tenho de assistir. Então decidirei.

— Não há nenhum modo de ajudar?

— Acho que não, querida.

— Se achar que dá...

— Obrigado — respondi. — Agradeço. E você se casará mesmo comigo?

— Agora que sei que o seu nome é Jake? É claro.

11

Na manhã de segunda-feira, por volta das dez horas, a camionete parou no meio-fio e Marina foi para Irving com Ruth Paine. Eu tinha uma missão própria a cumprir e estava prestes a sair do apartamento quando ouvi o barulho de passos descendo a escada externa. Era Lee, pálido e de cara feia. O cabelo estava despenteado e o rosto marcado por um surto grave de acne pós-adolescente. Usava jeans e uma capa de chuva absurda que adejava em torno das canelas. Andava com um dos braços sobre o peito, como se as costelas doessem.

Ou como se tivesse algo debaixo do casaco. Antes do atentado, Lee ajustou a mira do fuzil novo em algum ponto perto de Love Field, escrevera Al. Não me importava onde ajustara a mira. O que me importava era como eu chegara perto de encontrá-lo cara a cara. Assumira o descuidado pressuposto de que não o vira sair para trabalhar e...

Por falar nisso, por que ele não estava no serviço numa manhã de segunda-feira?

Deixei a pergunta para lá e saí, levando a minha pasta da escola. Lá dentro estava o romance que nunca seria terminado, as anotações de Al e o trabalho em andamento que descrevia as minhas aventuras na Terra de Antigamente.

Se Lee não estivesse sozinho na noite de 10 de abril, eu poderia ser avistado e morto por um dos outros conspiradores, talvez até o próprio Mohrenschildt. Ainda achava que isso era bastante improvável; a probabilidade de ter de fugir depois de matar Oswald era maior. E também a probabilidade de ser preso e condenado por homicídio. Não queria que ninguém — a polícia, por exemplo — encontrasse as anotações de Al ou as minhas memórias se alguma dessas coisas acontecesse.

Para mim, naquele dia 8 de abril, o importante era tirar a papelada do apartamento e levá-la para longe do rapaz confuso e agressivo que morava no andar de cima. Fui até o First Corn Bank of Dallas e não me surpreendi ao ver que o funcionário do banco que me ajudou tinha uma semelhança notável com o banqueiro do Hometown Trust que me ajudara em Lisbon Falls. O nome desse sujeito era Link em vez de Dusen, mas mesmo assim parecia o antigo músico cubano Xavier Cugat.

Perguntei sobre cofres de depósito. Logo os manuscritos estavam no Cofre 775. Voltei à rua Neely e tive um momento de pânico grave quando não consegui encontrar a maldita chave do cofre.

Relaxe, disse a mim mesmo. Está em algum lugar no seu bolso e, mesmo que não esteja, o seu novo amigo Richard Link terá prazer em lhe arranjar uma duplicata. Pode lhe custar um dólar inteirinho.

Como se a ideia a convocasse, achei a chave escondida bem no cantinho do bolso, debaixo dos trocados. Coloquei-a no chaveiro, onde ficaria sã e salva. Se eu tivesse de correr para a toca de coelho e retornar ao passado novamente depois de uma volta ao presente, ainda a teria... embora tudo o que acontecera nos últimos quatro anos e meio fosse reiniciado. Os manuscritos agora no cofre de depósito se perderiam no tempo. Provavelmente isso era bom.

A má notícia é que Sadie se perderia também.