Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 8 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 7

1

Como poderia lhes contar as minhas sete semanas em Derry? De que forma explicar como passei a odiá-la e temê-la?

Não porque a cidade guardasse segredos (embora guardasse) e não porque crimes terríveis, alguns não resolvidos, tivessem acontecido lá (embora tivessem). Tudo isso acabou, dissera a menina chamada Beverly, o menino chamado Richie concordara, e passei a acreditar nisso também... embora também passasse a acreditar que a sombra nunca deixou completamente aquela cidade com o esquisito centro da cidade afundado.

Foi a sensação de fracasso iminente que me fez odiá-la. E aquela sensação de estar numa prisão com paredes elásticas. Se quisesse sair, ela me deixaria ir embora (de boa vontade!), mas, se eu ficasse, me espremeria com mais força. Ela me espremeria até eu não conseguir respirar. E — essa é a parte ruim — ir embora não era opção, porque agora eu vira Harry antes de ficar manco e antes do sorriso confiante mas levemente tonto. Eu o vira antes que virasse o Sapo Harry, aquele que não lava o pééééééé.

Vira a sua irmã também. Agora ela era mais do que apenas um nome numa redação escrita com esforço, uma menininha sem rosto que adorava colher flores para pôr em vasos. Às vezes eu ficava acordado pensando que ela planejara pedir gostosuras ou travessuras como Princesa Summerfall Winterspring. A menos que eu fizesse alguma coisa, isso nunca aconteceria. Havia um caixão à espera dela depois de uma luta longa e infrutífera pela vida. Havia um caixão à espera da mãe, cujo primeiro nome eu não sabia. E de Troy. E de Arthur, conhecido como Tugga.

Se eu deixasse aquilo acontecer, não via como conseguiria conviver comigo mesmo. Então fiquei, mas não foi fácil. E toda vez que pensava em passar por isso de novo em Dallas, a minha cabeça ameaçava travar. Pelo menos, disse a mim mesmo, Dallas não seria como Derry. Porque nenhum lugar da Terra seria como Derry.

Então como eu deveria lhes contar?

Na minha vida de professor, sempre insisti muito na ideia de simplicidade. Tanto na ficção quanto na não ficção, só há uma pergunta e uma resposta. O que aconteceu?, pergunta o leitor. Eis o que aconteceu, responde o escritor. Isso... e isso... e isso também. Mantenha a simplicidade. É o único caminho seguro.

Então tentarei, embora o leitor deva ter sempre em mente que, em Derry, a realidade é uma camada fina de gelo sobre um lago profundo de águas escuras. Mas enfim: o que aconteceu?

Aconteceu isso. E isso. E isso também.

2

Na sexta-feira, meu segundo dia completo em Derry, fui ao Center Street Market. Esperei até as cinco da tarde, porque achei que seria quando o lugar estaria mais cheio — sexta-feira é dia de pagamento, afinal de contas, e, para muita gente (ou seja, esposas; uma das regras da vida em 1958 é Homens Não Compram Mantimentos), isso significava dia de fazer compras. Muitos compradores facilitariam que eu me misturasse. Para me ajudar nesse aspecto, fui à W. T. Grant’s e complementei o meu guarda-roupa com calças de brim e camisas de trabalho azuis. Lembrei-me de Sem Suspensórios e amigos diante do Sonolento Dólar de Prata e também comprei um par de botas de trabalho Wolverine. A caminho do mercado, chutei várias vezes o meio-fio até a ponta ficar arranhada.

O lugar estava tão movimentado quanto eu esperava, com filas nos três caixas e os corredores cheios de mulheres empurrando carrinhos. Os poucos homens que vi só levavam cestinhas, e foi o que peguei. Pus na minha um saco de maçãs (baratíssimo) e outro de laranjas (quase tão caras quanto em 2011). Sob os meus pés, o piso de madeira oleada rangia.

O que exatamente o sr. Dunning fazia no Center Street Market? Bevvie-da-neve não dissera. Não era gerente; uma olhada na cabine envidraçada pouco além da seção de hortaliças revelou um cavalheiro de cabeça branca que poderia chamar Ellen Dunning de neta, talvez, mas não de filha. E a placa na mesa dizia SR. CURRIE.

Enquanto eu andava pelos fundos da loja, depois do balcão de laticínios (achei divertido um cartaz que dizia JÁ EXPERIMENTOU “YOGHURT”? EXPERIMENTE, VOCÊ VAI ADORAR), comecei a ouvir risos. Risos femininos imediatamente identificáveis como pertencentes à variedade ah-seu-danadinho. Entrei no corredor mais distante e vi uma revoada de mulheres, vestidas mais ou menos no mesmo estilo das senhoras da Kennebec Fruit, agrupadas em volta do balcão das carnes. O AÇOUGUE, dizia a placa artesanal de madeira pendurada em correntes cromadas decorativas. CORTES À MODA DA CASA. E, embaixo: FRANK DUNNING, MESTRE-AÇOUGUEIRO.

Às vezes a vida cospe coincidências que nenhum escritor de ficção ousaria copiar.

Era Frank Dunning quem fazia as damas rirem. A semelhança com o zelador que fizera o meu curso supletivo de inglês chegava a ser assustadora de tão grande. Ele era Harry cuspido e escarrado, só que o cabelo dessa versão era quase totalmente preto em vez de quase todo grisalho, e o sorriso doce e levemente perplexo fora substituído por outro malicioso e humorístico. Não admirava que todas as senhoras se empolgassem. Até Bevvie-na-neve achava que ele era a cereja do bolo, e por que não? Devia ter apenas 12 ou 13 anos, mas era mulher, e Frank Dunning era encantador. Ele também sabia disso. Tinha de haver razões para a fina flor da população feminina de Derry gastar o dinheiro dos maridos no mercado do centro da cidade em vez de no A&P, um pouco mais barato, e uma delas estava bem ali. O sr. Dunning era bonito, o sr. Dunning usava camisa branca limpíssima (manchada de leve de sangue nos punhos, mas afinal de contas ele era açougueiro), o sr. Dunning usava um chapéu branco elegante que parecia um cruzamento de toque de chefe de cozinha com boina de pintor. Pendia até pouco acima de uma das sobrancelhas. Um lançador de moda, meu Deus.

Levando tudo em conta, o sr. Frank Dunning, com as faces rosadas e bem-barbeadas e o cabelo preto imaculadamente aparado era uma dádiva de Deus para as Mulherzinhas. Enquanto eu passava por ali, ele amarrou um embrulho de carne com um pedaço de barbante puxado de um rolo atrás da balança e escreveu nele o preço com um floreio do pincel atômico preto. Entregou-o a uma dama de uns cinquenta verões que usava um vestido confortável com grandes rosas fúcsia a se abrir, meias de nylon com costura e um rubor de menina.

— Aí está, sra. Levesque, uma libra de mortadela alemã, cortada fininha. — Ele se apoiou no balcão como se confidenciasse, perto o suficiente para a sra. Levesque (e as outras senhoras) sentirem o aroma cativante da sua água-de-colônia. Seria Aqua Velva, a marca de Fred Toomey? Achei que não. Achei que um fascinador como Frank Dunning escolheria algo um pouco mais caro. — Sabe qual é o problema da mortadela alemã?

— Não — respondeu ela, arrastando a palavra um pouco até virar Nã-ão. As outras senhoras deram risadinhas de expectativa.

Os olhos de Dunning escapuliram rapidamente até mim e nada viram que lhe interessasse. Quando ele voltou a olhar a sra. Levesque, os olhos recuperaram a cintilação patenteada.

— Uma hora depois de comer, a gente sente fome de poder.

Desconfio que nem todas as senhoras entenderam, mas todas deram gritinhos de prazer. Dunning mandou a sra. Levesque seguir feliz o seu caminho e, quando saí do alcance da audição, ele voltava a sua atenção para uma tal sra. Bowie. Que, eu tinha certeza, ficaria igualmente feliz de recebê-la.

É um homem bom. Está sempre contando piadas e coisas assim.

Mas o homem bom tinha olhos frios. Enquanto interagia com o seu harém fascinado, tinham ficado azuis. Mas quando voltou a atenção para mim — ainda que rapidamente —, eu juraria que ficaram cinzentos, da cor da água sob um céu do qual a neve logo cairá.

3

O mercado fechava às seis da tarde, e quando saí com as minhas poucas compras, eram apenas vinte para as seis. Havia uma lanchonete U-Needa-Lunch na rua Witcham, dobrando a esquina. Pedi um hambúrguer, uma Coca de máquina e uma fatia de torta de chocolate. A torta estava excelente — chocolate de verdade, creme de verdade. Encheu a minha boca do mesmo jeito que a root beer de Frank Anicetti. Demorei-me o mais que pude e depois andei até o canal, onde havia alguns bancos. Também havia uma linha de visão — estreita, mas adequada — para o Center Street Market. Eu estava empanturrado, mas assim mesmo comi uma das minhas laranjas, jogando pedacinhos de casca sobre a margem de cimento e observando a água levá-los embora.

Exatamente às seis, a luz das grandes vitrines do mercado se apagaram. Dali a quinze minutos, as últimas senhoras já tinham saído, subindo nas suas peruas pelo morro Milha Acima ou se amontoando num daqueles postes de luz com faixa branca pintada. Um ônibus marcado CIRCULAR PREÇO ÚNICO veio e as recolheu. Às quinze para as sete, os funcionários do mercado começaram a sair. Os dois últimos foram o sr. Currie, o gerente, e Dunning. Apertaram as mãos e se separaram, Currie subindo o beco entre o mercado e a sapataria ao lado, provavelmente para buscar o carro, e Dunning para o ponto de ônibus.

Nisso havia apenas mais duas pessoas ali e não quis me juntar a eles. Graças ao padrão de ruas de mão única da Cidade Baixa, nem precisava. Andei até outro poste pintado de branco, esse perto do cinema The Strand (onde o programa duplo era Kelly Metralhadora e A moça do reformatório; o letreiro prometia AÇÃO FERVENTE), e esperei com alguns operários que falavam de possíveis jogos do campeonato de beisebol da Série Mundial. Eu poderia lhes dizer muito sobre isso, mas fiquei de boca fechada.

Um ônibus urbano veio e parou diante do Center Street Market. Dunning embarcou. O ônibus veio descendo o morro o resto do caminho e parou no ponto do cinema. Deixei os operários entrarem na minha frente para eu ver quanto dinheiro punham no receptáculo de moedas com pé ao lado do assento do motorista. Estava me sentindo como o alienígena de um filme de ficção científica que tenta se passar por terráqueo. Era estúpido — eu queria andar no ônibus urbano, não explodir a Casa Branca com um raio fatal — mas isso não mudava a sensação.

Um dos camaradas que embarcou na minha frente mostrou um passe de ônibus cor de canário que me fez pensar rapidamente no Homem do Cartão Amarelo. Os outros puseram quinze centavos no receptáculo de moedas, que clicou e tilintou. Fiz o mesmo, embora levasse um pouco mais de tempo porque a moedinha grudou na palma suada da minha mão. Pensei sentir todos os olhos sobre mim, mas quando olhei todo mundo lia o jornal ou olhava distraidamente pela janela. O interior do ônibus era uma neblina de fumaça cinza azulada.

Frank Dunning estava a meio caminho da fila da direita, agora usando calças cinzentas bem-cortadas, camisa branca e gravata azul-escura. Garboso. Estava ocupado acendendo o cigarro e não me olhou quando passei por ele e me sentei perto dos fundos. O ônibus gemeu pelo caminho fazendo o circuito das ruas de mão única da Cidade Baixa e depois subiu o morro Milha Acima pela rua Witcham. Assim que chegamos à área residencial do lado oeste, os passageiros começaram a descer. Eram todos homens; presumivelmente, as mulheres estavam em casa, guardando os mantimentos ou pondo o jantar na mesa. Como o ônibus se esvaziava e Frank Dunning continuava sentado onde estava, fumando o seu cigarro, me perguntei se seríamos os dois últimos passageiros.

Não precisava ter me preocupado. Quando o ônibus embicou na direção do ponto na esquina da rua Witcham e da avenida Caridade (mais tarde, soube que Derry também tinha as avenidas Fé e Esperança), Dunning jogou o cigarro no chão, apagou-o com o pé e se levantou. Andou com facilidade pelo corredor, sem se segurar nas barras de apoio, balançando com os movimentos do ônibus que desacelerava. Alguns homens só perdem a graça física da adolescência relativamente tarde na vida. Dunning parecia ser um deles. Teria sido um excelente dançarino de swing.

Ele deu um tapinha no ombro do motorista e começou a lhe contar uma piada. Era curta, e a maior parte se perdeu no barulho dos freios a ar, mas escutei a expressão três crioulos presos num elevador e decidi que não era das que contaria ao seu Harém de Donas de Casa. O motorista explodiu numa gargalhada e depois puxou a comprida alavanca cromada que abria a porta da frente.

— Até segunda, Frank — disse ele.

— Se o riacho não subir — respondeu Dunning, depois desceu correndo os dois degraus e pulou para a calçada por cima do mato do meio-fio. Deu para ver os músculos ondularem debaixo da camisa. Que chance teriam uma mulher e quatro crianças contra ele? Não muita, foi a minha primeira ideia sobre o tema, mas estava errado. A resposta correta era nenhuma.

Quando o ônibus se afastou, vi Dunning subir os degraus do primeiro prédio depois da esquina da avenida Caridade. Havia oito ou nove homens e mulheres sentados em cadeiras de balanço na ampla varanda da frente. Vários cumprimentaram o açougueiro, que começou a apertar mãos como um político de visita. Era uma casa vitoriana de três andares, no estilo da Nova Inglaterra, com uma placa pendurada na calha da varanda. Mal tive tempo de ler:

PENSÃO EDNA PRICE

POR SEMANA OU POR MÊS

QUITINETES DISPONÍVEIS

PROIBIDO ANIMAIS!

Abaixo disso, pendurado em ganchos na placa grande, havia outra alaranjada menor dizendo NÃO HÁ VAGAS.

Dois pontos além, desci do ônibus. Agradeci ao motorista, que em troca deu um grunhido rude. Eu estava descobrindo que isso era considerado discurso cortês em Derry, no Maine. A menos, claro, que por acaso a gente conhecesse algumas piadas sobre crioulos presos no elevador ou talvez sobre a marinha polonesa.

Andei devagar de volta à cidade, contornando dois quarteirões para ficar longe do estabelecimento de Edna Price, cujos moradores se reuniam na varanda depois do jantar, como o pessoal daquelas histórias de Ray Bradbury sobre a bucólica Greentown, no Illinois. E Frank Dunning não se parecia com um daqueles bons homens? Parecia, parecia. Mas também havia horrores ocultos na Greentown de Bradbury.

O homem bom não mora mais em casa, dissera Rique-do-dique, e essa era a mais pura verdade. O homem bom morava numa pensão onde todo mundo parecia achar que ele era a cereja do bolo.

Na minha estimativa, a Pensão Price ficava a menos de cinco quarteirões da rua Kossuth, 379, talvez mais perto. Frank Dunning ficava sentado no seu quarto depois que os outros hóspedes iam dormir, olhando para o leste como um dos fiéis voltado para Qibla? Se assim fosse, será que ficava com aquele sorriso olá-que-bom-te-ver no rosto? Achei que não. E os seus olhos eram azuis ou ficavam com aquele cinzento frio e pensativo? Como ele explicava o abandono do lar às pessoas que tomavam o ar da noite na varanda de Edna Price? Teria uma história, na qual a esposa seria meio maluca ou uma rematada vilã? Achei que sim. E os outros acreditavam? A resposta a essa era fácil. Não importava se falávamos em 1958, 1985 ou 2011. Nos Estados Unidos, onde a superfície sempre se passou por substância, todos sempre acreditam em sujeitos como Frank Dunning.

4

Na terça-feira seguinte, aluguei um apartamento anunciado no Derry News como “semimobiliado, com boa vizinhança” e, na quarta-feira, 17 de setembro, o sr. George Amberson se mudou para lá. Adeus, Derry Town House, olá, avenida Harris. Estava há uma semana morando em 1958 e começava a me sentir confortável ali, embora não exatamente um nativo.

A semimobília consistia de uma cama (que veio com um colchão levemente manchado mas sem roupa de cama), um sofá, uma mesa de cozinha com uma perna que precisava ser calçada para não bambear e uma única cadeira com assento de plástico amarelo que fazia um estranho som de smuc quando largava com relutância os fundilhos da calça. Havia um fogão e uma geladeira chocalhante. Na despensa, descobri o ar-condicionado do apartamento: um ventilador GE com uma tomada esfarrapada que parecia absolutamente letal.

Senti que o apartamento, diretamente abaixo da rota de voo dos aviões que pousavam no aeroporto de Derry, estava um pouco caro a 65 dólares por mês, mas concordei porque a sra. Joplin, a senhoria, se dispôs a deixar para lá a falta de referências do sr. Amberson. O fato de oferecer três meses de aluguel em dinheiro ajudou. Ainda assim ela insistiu em copiar as informações da minha carteira de motorista. Se achou estranho um corretor autônomo de imóveis do Wisconsin usar carteira de motorista do Maine, ela não disse.

Fiquei contente por Al ter me dado um monte de dinheiro. Dinheiro é muito calmante para estranhos.

E dura muito mais em 1958, também. Por apenas trezentos dólares, consegui transformar em totalmente mobiliado o meu apartamento semimobiliado. Noventa e três por cento compraram uma televisão de mesa RCA de segunda mão. Naquela noite, assisti a The Steve Allen Show em lindo preto e branco, depois desliguei e me sentei à mesa da cozinha, escutando um avião seguir rumo à terra num rugir de hélices. Do bolso de trás, tirei um caderno Blue Horse que comprei na drogaria da Cidade Baixa (aquela onde furtar não é bacana, não é um colosso nem batuta). Abri a primeira página e cliquei a ponta da minha esferográfica Parker igualmente nova. Fiquei assim sentado uns quinze minutos, talvez — o bastante para outro avião chocalhar rumo à terra, parecendo tão perto que quase esperei sentir a batida quando as rodas raspassem no telhado.

A página continuou vazia. A minha cabeça também. Toda vez que tentava engrenar a marcha, o único pensamento coerente que conseguia ter era o passado não quer ser mudado.

Não ajudava.

Finalmente me levantei, tirei o ventilador da prateleira da despensa e o pus na bancada. Não tinha certeza de que funcionaria, mas funcionou, e o zumbido do motor era estranhamente calmante. Também mascarava o ribombo incômodo da geladeira.

Quando me sentei de novo, a minha cabeça estava mais limpa, e dessa vez algumas palavras vieram.

OPÇÕES

1. Contar à polícia

2. Telefonema anônimo para açougueiro (dizer “Estou vigiando você, se fizer qualquer coisa conto”)

3. Enquadrar açougueiro por alguma coisa

4. Dar um jeito de incapacitar açougueiro

Parei aí. A geladeira clicou. Não havia aviões descendo nem tráfego na avenida Harris. Por enquanto, éramos só eu, o meu ventilador e a minha lista incompleta. Finalmente, escrevi o último item.

5. Matar açougueiro

Então amassei a folha, abri a caixa de fósforos da cozinha que ficava ao lado do fogão para acender os queimadores e o forno e risquei um. Na mesma hora o ventilador o apagou e pensei de novo como era difícil mudar certas coisas. Desliguei o ventilador, acendi outro fósforo e o encostei na bola de papel de caderno. Quando estava em chamas, joguei-a na pia, esperei que se apagasse e lavei as cinzas pelo ralo.

Depois disso, o sr. George Amberson foi para a cama.

Mas não dormiu por um bom tempo.

5

Quando o último avião da noite passou raspando pelo telhado à meia-noite e meia, eu ainda estava acordado e pensando na minha lista. Contar à polícia estava fora de questão. Poderia dar certo com Oswald, que declararia amor imorredouro por Fidel Castro tanto em Dallas quanto em Nova Orleans, mas Dunning era um caso diferente. Era um membro amado e respeitado da comunidade. E eu, quem era? O sujeito novo numa cidade que não gostava de forasteiros. Naquela tarde, depois de sair da drogaria, vi Sem Suspensórios de novo com a sua turma na frente do Sonolento Dólar de Prata. Eu usava as minhas roupas de trabalhador, mas eles me deram aquele mesmo olhar plano de quem é você, seu merda.

De qualquer forma, mesmo que eu morasse em Derry há oito anos em vez de oito dias, exatamente o que eu diria à polícia? Que tivera uma visão de Frank Dunning matando a família na noite de Halloween? Sem dúvida, isso seria muito bem-aceito.

Gostei um pouco mais da ideia de dar um telefonema anônimo para o próprio açougueiro, mas era uma opção assustadora. Assim que eu ligasse para Frank Dunning — fosse no trabalho, fosse na pensão de Edna Price, onde sem dúvida ele seria chamado ao telefone comunitário da sala — eu teria mudado os fatos. A ligação poderia impedir que ele matasse a família, mas pensei que teria a mesma probabilidade de causar o efeito oposto, empurrando-o da borda estreita de sanidade onde devia estar andando por trás do afável sorriso de George Clooney. Em vez de impedir os assassinatos, eu poderia apenas conseguir que acontecessem antes. Do jeito que estava, eu sabia onde e quando. Se o avisasse, tudo seria possível.

Enquadrá-lo por alguma coisa? Poderia dar certo num romance de espionagem, mas eu não era agente da CIA; era um maldito professor de inglês.

Incapacitar açougueiro era o seguinte na lista. Tudo bem, mas como? Atropelá-lo com o Sunliner, talvez quando estivesse indo da avenida Caridade para a rua Kossuth com um martelo na mão e homicídio na cabeça? A menos que eu tivesse uma sorte espantosa, seria pego e enjaulado. Havia isso também. Pessoas incapacitadas costumam melhorar. Ele poderia tentar de novo depois. Enquanto estava lá deitado no escuro, achei essa possibilidade plausível demais. Porque o passado não gostava de mudar. Ele era obstinado.

A única maneira segura era segui-lo, esperar que estivesse sozinho e então matá-lo. Simples é melhor, estúpido.

Mas havia problemas nisso também. O maior era que eu não sabia se conseguiria realizá-lo. Achava que sim, com sangue quente — para proteger a mim ou outra pessoa —, mas a sangue frio? Mesmo sabendo que a minha vítima em potencial ia matar a esposa e os próprios filhos se não fosse impedido?

E... e se eu fizesse e fosse pego antes de conseguir fugir para o futuro, onde eu era Jake Epping em vez de George Amberson? Seria julgado, considerado culpado e mandado para a Penitenciária Estadual de Shawshank. E seria lá que eu estaria no dia em que John F. Kennedy foi morto em Dallas.

E isso nem era o fundo absoluto da questão. Levantei-me, andei pela cozinha até o banheiro de cabine telefônica, fui até o vaso e me sentei no assento com a testa apoiada na palma das mãos. Supusera que o ensaio de Harry era verdade. Al também. Provavelmente era, porque Harry estava dois ou três graus para o lado burro do normal, e pessoas assim têm menos tendência a tentar apresentar como realidade fantasias como o assassinato de uma família inteira. Ainda assim...

Noventa e cinco por cento de probabilidade não é 100 por cento, dissera Al, e era do próprio Oswald que ele estava falando. Praticamente a única pessoa que podia ser o assassino depois que se punha de lado todo o blá-blá-blá conspiratório, e mesmo assim Al tinha aquelas últimas dúvidas persistentes.

Seria fácil ter verificado a história de Harry no mundo computadorizado de 2011, mas nunca conferi. E mesmo que fosse totalmente verdadeira, poderia haver detalhes importantíssimos que ele recordou errado ou nem mencionou. Coisas que poderiam me atrapalhar. E se, em vez de cavalgar para o salvamento como sir Galahad, eu só conseguisse ser morto junto com os outros? Isso mudaria o futuro de várias maneiras interessantes, mas eu não estaria lá para descobrir quais.

Uma nova ideia surgiu na minha cabeça, uma que era loucamente atraente. Eu poderia me postar do outro lado da rua Kossuth, 379, na noite de Halloween... e só observar. Sim, para assegurar de que acontecia mesmo, mas também para anotar os detalhes que a única testemunha viva, uma criança traumatizada, poderia ter deixado passar. Então eu voltaria a Lisbon Falls, passaria pela toca de coelho e, imediatamente, voltaria a 9 de setembro às 11h58 da manhã. Compraria o Sunliner de novo e iria para Derry outra vez, agora carregado de informações. É verdade que eu já gastara uma boa parte do dinheiro de Al, mas ainda havia o suficiente para continuar.

A ideia passou direitinho pelo portão mas tropeçou antes de chegar à primeira curva. Todo o propósito daquela viagem era descobrir que efeito a salvação da família do zelador teria no futuro, e, se deixasse Frank Dunning cometer os assassinatos, eu não saberia. E eu já enfrentava a possibilidade de ter de fazer isso de novo, porque haveria um daqueles recomeços quando — se — eu voltasse pela toca de coelho para deter Oswald. Uma vez era ruim. Duas seria pior. Três vezes era impensável.

E mais uma coisa. A família de Harry Dunning já morrera uma vez. Eu a condenaria a morrer uma segunda vez? Mesmo que cada vez fosse um recomeço e eles não soubessem? E quem diria que, em algum nível profundo, não sabiam?

A dor. O sangue. Cabecinha de Cenoura caída no chão debaixo da cadeira de balanço. Harry tentando assustar o lunático com a espingarda de chumbinho: “Me deixe em paz, pai, senão atiro em você.”

Voltei arrastando os pés pela cozinha, parando para olhar a cadeira com o assento de plástico amarelo.

— Odeio você, cadeira — disse a ela e voltei à cama.

Dessa vez, adormeci quase instantaneamente. Quando acordei na manhã seguinte, o sol das nove horas brilhava na janela ainda sem cortinas do meu quarto, pássaros chilreavam cheios de importância e achei que sabia o que tinha de fazer. Simples é melhor, estúpido.

6

Ao meio-dia pus a gravata, ajeitei o chapéu panamá no ângulo correto e arrojado e me levei até a Machen’s Produtos Esportivos, onde a LIQUIDAÇÃO DE ARMAS DE OUTONO ainda estava em andamento. Disse ao vendedor que estava interessado em comprar uma arma portátil porque era corretor de imóveis e às vezes tinha de levar comigo grandes quantias em dinheiro vivo. Ele me mostrou várias, inclusive um revólver Colt .38 Police Special. O preço era de 9,99 dólares. Isso parecia absurdamente baixo até eu lembrar que, de acordo com as anotações de Al, o fuzil italiano comprado por correspondência que Oswald usara para mudar a história custara menos de vinte dólares.

— Essa dá uma boa proteção — disse o vendedor, rolando o tambor e fazendo-o girar: cliquecliquecliqueclique. — Total precisão até quinze metros, garantido, e quem for bastante estúpido para tentar assaltar o senhor e lhe roubar o dinheiro vai estar muito mais perto do que isso.

— Vendido.

Preparei-me para um exame da minha escassa papelada, mas mais uma vez esquecera de levar em conta o clima relaxado e nada aterrorizado dos Estados Unidos onde agora vivia. O negócio foi feito assim: paguei com dinheiro e saí com a arma. Não houve papelada nem período de espera. Não tive sequer de deixar o meu endereço atual.

Oswald embrulhara a sua arma num lençol e a escondera na garagem da casa onde a esposa morava com uma mulher chamada Ruth Paine. Mas quando saí da Machen’s com a minha na pasta, achei que sabia como ele devia ter se sentido: como um homem com um segredo poderoso. Um homem que possuía o seu tornado particular.

Um sujeito que deveria estar trabalhando numa das fábricas estava em pé à porta do Sonolento Dólar de Prata, fumando um cigarro e lendo o jornal. Parecendo ler o jornal, pelo menos. Não podia jurar que estava me vigiando, mas novamente não podia jurar que não estivesse.

Era Sem Suspensórios.

7

Naquela noite, ocupei posição mais uma vez perto do Strand, onde o letreiro dizia ESTREIA AMANHÃ! THUNDER ROAD — A LEI DA MONTANHA (MITCHUM) & VIKINGS, OS CONQUISTADORES (DOUGLAS)! Mais AÇÃO ARDENTE em breve para os cinéfilos de Derry.

Dunning atravessou a rua mais uma vez até o ponto de ônibus e embarcou. Dessa vez não fui atrás. Não havia necessidade; sabia aonde ele ia. Voltei a pé para o meu novo apartamento, olhando em volta de vez em quando atrás de Sem Suspensórios. Não havia sinal dele, e disse a mim mesmo que vê-lo do outro lado da loja de produtos esportivos fora apenas coincidência. E nem tão grande assim. O Sonolento era o seu bar preferido, afinal de contas. Como as fábricas de Derry funcionavam seis dias por semana, os operários tinham folgas rotativas. A quinta-feira podia ter sido uma das folgas do sujeito. Na semana que vem ele podia estar no Sonolento na sexta. Ou na terça.

Na noite seguinte, fui de novo ao Strand, fingindo examinar o cartaz de Thunder Road (Robert Mitchum à toda na estrada mais quente da Terra!) , principalmente por não ter aonde ir; o Halloween ainda demoraria seis semanas, e parecia que eu entrara na fase mata tempo do nosso programa. Mas, dessa vez, em vez de atravessar até o ponto de ônibus, Frank Dunning desceu até o cruzamento triplo das ruas Center, Kansas e Witcham e ficou ali parado, como que indeciso. Mais uma vez estava elegante, de calça escura, camisa branca, gravata azul e um paletó esporte quadriculado cinza-claro. O chapéu estava inclinado para trás. Por um momento, pensei que se dirigiria ao cinema para verificar a estrada mais quente da Terra, e nesse caso eu andaria casualmente na direção da rua do Canal. Mas ele virou à esquerda na Witcham. Pude ouvi-lo assoviar. Era um bom assoviador.

Não havia necessidade de segui-lo; ele não cometeria nenhum homicídio com martelo em 19 de setembro. Mas fiquei curioso e não tinha mais nada para fazer. Ele entrou num bar e churrascaria chamado Acendedor de Lampiões, não tão classe alta como aquele do Town House, mas longe de ser tão miserável quanto os do canal. Em toda cidade pequena, há um ou dois bares de fronteira onde operários e colarinhos brancos se encontram como iguais, e esse parecia ser um deles. Em geral, o cardápio contém alguma iguaria local que faz os forasteiros coçarem a cabeça com perplexidade. A especialidade do Acendedor de Lampiões parecia ser algo chamado Sobras de Lagosta Frita.

Passei pelas largas vitrines, mais passeando do que andando, e vi Dunning cumprimentar todos pelo salão. Apertou mãos; deu tapinhas em bochechas; tirou o chapéu de um homem e o jogou a um sujeito de pé junto da máquina de boliche Bowl Mor, que o pegou habilmente para hilaridade geral. Um homem bom. Sempre brincando. Do tipo “ria-que-o-mundo-inteiro-ri-com-você”.

Vi-o sentar-se a uma mesa perto da Bowl Mor e quase continuei andando. Mas estava com sede. Uma cerveja cairia bem agora, e o bar do Acendedor de Lampião ficava do outro lado de um salão apinhado em relação à mesa grande onde Dunning se sentara com o grupo só de homens a que se juntara. Ele não me veria, mas eu poderia ficar de olho nele pelo espelho. Não que eu fosse ver alguma coisa espantosa demais.

Além disso, se ia ficar ali mais seis semanas, já era hora de começar a fazer parte dali. Portanto, me virei e adentrei os sons de vozes alegres, risos levemente inebriados e Dean Martin cantando That’s Amore . As garçonetes circulavam com canecões de cerveja e pratos cheios do que devia ser Sobras de Lagosta Frita. E havia nuvens ascendentes de fumaça azul, é claro.

Em 1958, há sempre fumaça.

8

— Vi você olhando aquela mesa lá embaixo — disse uma voz junto ao meu cotovelo. Eu estava no Acendedor de Lampiões tempo suficiente para ter pedido a minha segunda cerveja e um “prato júnior” de Sobras de Lagosta. Imaginei que, se pelo menos não experimentasse, ficaria sempre na dúvida.

Olhei em volta e vi um homem miúdo de cabelo preto alisado para trás, rosto redondo e olhos pretos e animados. Parecia um esquilo gaiato. Sorriu para mim e estendeu a mão do tamanho da mão de uma criança. No antebraço, uma sereia de seios nus agitava o rabo hippie e piscava o olho.

— Charles Frati. Mas pode me chamar de Chaz. Todo mundo faz isso.

Apertei a mão.

— George Amberson, mas pode me chamar de George. Todo mundo faz isso também.

Ele riu. Eu também. É considerado falta de educação rir das próprias piadas (ainda mais quando são infantis), mas algumas pessoas são tão envolventes que nunca têm de rir sozinhas. Chaz Frati era uma dessas. A garçonete lhe trouxe uma cerveja, e ele a ergueu.

— A você, George.

— Tim-tim — disse eu, e bati a borda do meu copo no dele.

— Conhece alguém? — perguntou, olhando a grande mesa dos fundos no espelho na parte de trás do bar.

— Ninguém. — Limpei a espuma do lábio superior. — Só parece que se divertem mais do que todo mundo aqui, só isso.

Chaz sorriu.

— É a mesa de Tony Tracker. Podia ter o nome dele gravado. Tony e o irmão Phil têm uma empresa de transporte de cargas. Também têm mais hectares nesta cidade e nas cidades em volta do que o dr. Ross tem pílulas de vida. Phil não aparece muito por aqui, fica mais na estrada, mas Tony quase não perde as noites de sexta e sábado. Tem muitos amigos também. Eles sempre se divertem, mas ninguém faz tanta festa quanto Frankie Dunning. Ele é o sujeito contando piadas. Todo mundo gosta do velho Tones, mas eles adoram Frankie.

— Parece que você conhece todos.

— Há anos. Conheço quase todo mundo em Derry, mas não conheço você.

— Isso porque acabei de chegar. Trabalho com imóveis.

— Imóveis comerciais, aposto.

— Acertou. — A garçonete depositou as minhas Sobras de Lagosta e saiu correndo. O monte no prato parecia bicho morto na estrada, mas o cheiro era incrível e o gosto, melhor ainda. Provavelmente um bilhão de gramas de colesterol a cada mordida, mas em 1958 ninguém se preocupa com isso, o que é tranquilizador. — Me ajude com isso aqui — disse eu.

— Não, é todo seu. Você é de Boston? Nova York?

Dei de ombros e ele riu.

— Espertinho, hem? Mas está certo. Língua solta afunda navios. Mas tenho uma boa ideia do que você pretende.

Parei com o garfo cheio de Sobras de Lagosta a meio caminho da boca. Fazia calor no Acendedor de Lampiões, mas de repente gelei.

— É mesmo?

Ele chegou mais perto. Deu para sentir o cheiro de creme capilar Vitalis no cabelo preto e lustroso e de balinhas Sen-Sen no seu hálito.

— Se eu dissesse “possível local para centro comercial”, levaria um dez?

Senti um jorro de alívio. A ideia de que eu estava em Derry procurando um lugar para construir um shopping nunca me passara pela cabeça, mas era boa. Dei uma piscadela para Chaz Frati.

— Não posso dizer.

— Não, não, é claro que não. Negócios, negócios, amigos à parte, é o que sempre digo. Vamos mudar de assunto. Mas se um dia pensar em deixar um dos caipiras locais participarem de coisa boa, eu adoraria saber. E só para lhe mostrar que estou com a melhor das intenções, vou lhe dar uma pequena dica. Se ainda não deu uma olhada na velha Metalúrgica Kitchener, deveria dar. Local perfeito. E centros comerciais? Sabe o que são os centros comerciais, meu filho?

— A onda do futuro — respondi.

Ele apontou o dedo para mim como se fosse um revólver e piscou. Ri de novo, não consegui me segurar. Em parte era o simples alívio de descobrir que nem todos os adultos de Derry tinham esquecido como ser amistosos com estranhos.

— Na mosca.

— E quem é o dono do terreno da antiga Metalúrgica Kitchener, Chaz? Os irmãos Tracker, talvez?

— Eu disse que eles são donos de quase toda a terra por aqui, não de toda. — Ele olhou a sereia. — Milly, devo contar a George quem é o dono daquele terreno com excelente localização comercial a três quilômetros do centro desta metrópole?

Milly balançou a cauda escamosa e tilintou os seios semiesféricos. Chaz Frati não cerrou o punho para que isso acontecesse; parecia que os músculos do antebraço se moviam por conta própria. Era um bom truque. Gostaria de saber se ele também tirava coelhos da cartola.

— Tudo bem, querida. — Ele ergueu os olhos para mim de novo. — Na verdade, é este que vos fala. Compro o melhor e deixo o resto para os irmãos Tracker. Negócios são negócios. Posso lhe dar o meu cartão, George?

— É claro.

Ele me deu. O cartão dizia simplesmente CHARLES “CHAZ” FRATI COMPRA E VENDE. Enfiei-o no bolso da camisa.

— Se conhece todas aquelas pessoas e elas o conhecem, por que não está lá em vez de se sentar no bar com o novato? — perguntei.

Ele pareceu surpreso e depois divertido novamente.

— Você nasceu na coxia e depois caiu do trem, primo?

— Só sou novo na cidade. Ainda não aprendi o jeitinho. Não use isso contra mim.

— Nunca usaria. Fazem negócios comigo porque sou dono de metade dos motéis da cidade, dos dois cinemas do centro da cidade e do drive-in, de um dos bancos e de todas as lojas de penhores no leste e no centro do Maine. Mas não comem comigo, não bebem comigo nem me convidam para ir à casa deles nem ao clube de campo porque pertenço à Tribo.

— Agora não entendi.

— Sou judeu, primo.

Ele viu a minha cara e sorriu.

— Você não sabia. Nem quando não aceitei a sua lagosta, você não descobriu. Fico comovido.

— Só estou tentando entender por que isso faria diferença — respondi.

Ele riu como se essa fosse a melhor piada que ouvira o ano inteiro.

— Então você nasceu debaixo de uma folha de repolho e não numa coxia.

No espelho, Frank Dunning falava. Tony Tracker e os amigos escutavam com grandes sorrisos no rosto. Quando explodiram em gargalhadas, me perguntei se era a piada dos três crioulos presos num elevador ou talvez algo ainda mais divertido e satírico — três judeus num campo de golfe, talvez.

Chaz me viu olhar.

— Frank sabe animar a festa, é verdade. Sabe onde ele trabalha? Não, você é novo na cidade, esqueci. No Center Street Market. É açougueiro-chefe. Também dono de metade, embora não anuncie. Quer saber? Ele é metade da razão daquele lugar continuar aberto e lucrativo. Atrai as damas como abelhas no mel.

— É mesmo?

— É, e os homens gostam dele também. Mas nem sempre é assim. Nem todo mundo gosta do queridinho das senhoras.

Isso me fez pensar na feroz fixação da minha ex-mulher por Johnny Depp.

— Mas não é como antigamente, quando ele bebia com eles até fechar e aí jogava pôquer com eles no entreposto de carga até raiar o dia. Hoje ele toma uma cerveja, talvez duas, e depois sai pela porta afora. Olhe só.

Este era um padrão de comportamento que eu conhecia em primeira mão pelas tentativas esporádicas de Christy de controlar a ingestão de bebida em vez de parar de uma vez. Dava certo por algum tempo, mas mais cedo ou mais tarde ela sempre acabava indo até o fundo.

— Problema com a bebida? — perguntei.

— Disso não sei, mas com certeza ele tem um problema de temperamento. — Ele baixou os olhos para a tatuagem no antebraço. — Milly, já notou quantos camaradas engraçados têm um traço mau?

Milly balançou a cauda. Chaz me olhou solenemente.

— Viu? As mulheres sempre sabem. — Ele furtou uma Sobra de Lagosta e moveu os olhos comicamente de um lado para o outro. Era um camarada muito divertido, e nunca me passou pela cabeça que fosse alguma coisa além do que afirmava ser. Mas, como o próprio Chaz insinuara, eu era um tiquinho ingênuo demais. Para Derry, com certeza. — Não conte nada ao rabino Roncamuito.

— A minha boca é um túmulo.

Pelo modo como os homens da mesa de Tracker se inclinavam na direção de Frank, ele começara a contar outra piada. Era o tipo de homem que falava muito com as mãos. Eram mãos grandes. Era fácil imaginar uma delas segurando o cabo de um martelo Craftsman.

— Ele aprontou poucas e boas, algo terrível na escola secundária — disse Chaz. — Você está olhando alguém que sabe, porque frequentei a velha County Consolidated junto com ele. Mas na maior parte do tempo ficava longe do seu caminho. Suspensões para todo lado. Sempre por brigas. Ele iria para a Universidade do Maine, mas engravidou uma garota e em vez disso acabou se casando. Depois de um ano ou dois, ela pegou o bebê e deu no pé. Provavelmente uma ideia esperta, do jeito que ele era na época. Frankie era o tipo de sujeito... lutar com os alemães ou os japas provavelmente faria bem a ele; gastaria toda aquela loucura, sabe. Mas foi rejeitado por ser incapaz para o serviço militar. Nunca soube por quê. Pé chato? Sopro no coração? Sangue quente? Não dá para saber. Mas provavelmente você não está interessado em fofocas tão velhas.

— Estou sim — respondi. — É interessante. — E era mesmo. Eu entrara no Acendedor de Lampiões para molhar o bico e tropeçara numa mina de ouro. — Aceite outra Sobra de Lagosta.

— Só se torcer o meu braço — disse, e jogou uma delas na boca. Apontou o espelho com o polegar enquanto mastigava. — E por que não? Basta olhar aqueles camaradas lá... metade deles católicos, e ainda assim não param de engolir hambúrgueres, sanduíches de bacon e salada, de linguiça com molho. Na sexta-feira! Quem consegue entender a religião, primo?

— Você me pegou — respondi. — Sou um metodista relapso. Acho que o sr. Dunning nunca chegou a fazer aquela faculdade, né?

— Não, quando a primeira mulher fugiu no oco da noite, ele estava se formando em corte de carne, e era bom nisso. Ele se meteu em mais encrenca... é, havia bebida envolvida, pelo que me disseram, o povo fofoca demais, sabe, e quem tem lojas de penhor ouve de tudo... e o sr. Vollander, que era dono do mercado naquela época, sentou com ele e teve uma conversa de pai para filho com o velho Frankie. — Chaz balançou a cabeça e pegou outra Sobra. — Se Benny Vollander soubesse que Frankie Dunning seria dono de metade do negócio quando a merda da Coreia acabasse, provavelmente teria um baita dum derrame. Ainda bem que não podemos ver o futuro, não é?

— Isso complicaria tudo, é verdade.

Chaz estava se empolgando com a história e, quando eu pedi à garçonete que trouxesse mais duas cervejas, ele não disse que não.

— Benny Vollander disse que Frankie era o melhor aprendiz de açougueiro que já tivera, mas que se voltasse a se meter em encrencas com a polícia, dando porrada se alguém peidasse de lado, em outras palavras, seria estimulado a ir embora. Dizem que para bom entendedor meia palavra basta, e Frankie se endireitou. Se divorciou daquela primeira mulher dele alegando abandono depois que ela sumiu por um ano ou dois e se casou de novo passado um tempo. A guerra estava a todo vapor nessa época e ele podia escolher a mulher que quisesse; esse encanto ele tem, sabe, e a maior parte da concorrência estava mesmo no estrangeiro, mas ele preferiu Doris McKinney. Era uma garota adorável, mesmo.

— E ainda é, aposto.

— Com certeza, primo. Bonita como capa de revista. Tiveram três ou quatro filhos. Uma bela família. — Chaz se aproximou de novo. — Mas Frankie ainda perde as estribeiras de vez em quando, e deve ter perdido na primavera passada, porque ela apareceu na igreja com manchas roxas no rosto e uma semana depois ele estava fora. Está morando numa pensão, o mais perto possível da antiga casa. Na esperança de que ela o aceite de volta, imagino. E mais cedo ou mais tarde ela aceitará. Ele tem aquele jeito encantador de... opa, olha lá, o que foi que eu disse? Ele já está indo.

Dunning estava se levantando. Os outros homens berravam para que ele se sentasse de novo, mas ele balançava a cabeça e apontava o relógio. Jogou o último gole de cerveja goela abaixo, curvou-se e beijou a careca de um dos homens. Isso provocou um clamor de aprovação que abalou a sala e Dunning surfou sobre ele rumo à porta.

Deu um tapinha nas costas de Chaz ao passar e disse:

— Deixe esse nariz bem limpo, Chazzy; é comprido demais para se sujar.

Depois, saiu. Chaz me olhou. Mostrava o alegre sorriso de esquilo, mas os olhos não sorriam.

— Não é uma figura?

— Se é — respondi.

9

Sou uma daquelas pessoas que não sabe direito o que pensa até que escreva, e passei a maior parte daquele fim de semana fazendo anotações sobre o que vira em Derry, o que fizera e o que planejava fazer. Elas se expandiram numa explicação de como chegara a Derry, para começar, e no domingo percebi que começara um serviço que era grande demais para um caderninho de bolso e uma esferográfica. Na segunda-feira, comprei uma máquina de escrever portátil. A minha intenção tinha sido ir à loja local de material de escritório, mas aí vi o cartão de Chaz Frati na mesa da cozinha e fui até lá. Ficava na East Side Drive, uma loja de penhores quase do tamanho de uma loja de departamentos. As três bolas douradas estavam sobre a porta, como mandava a tradição, mas também havia outra coisa: uma sereia de gesso balançando a cauda hippie e piscando o olho. Essa, por estar ali em público, usava sutiã. O próprio Frati não estava em evidência, mas consegui uma Smith-Corona fantástica por doze dólares. Pedi ao vendedor que avisasse ao sr. Frati que George, o corretor de imóveis, estivera ali.

— Com todo o prazer, senhor. Gostaria de deixar o seu cartão?

Merda. Eu teria de mandar fazer... o que, afinal de contas, significaria uma visita à Derry Material de Escritório.

— Deixei no outro paletó — respondi —, mas acho que ele se lembrará de mim. Tomamos um trago no Acendedor de Lampiões.

Naquela tarde, comecei a ampliar as minhas anotações.

10

Consegui me acostumar aos aviões descendo para pousar diretamente sobre a minha cabeça. Marquei a entrega de jornais e leite: garrafas grossas de vidro trazidas bem à nossa porta. Como a root beer que Frank Anicetti me servira na minha primeira investida em 1958, o leite tinha um sabor incrivelmente rico e cheio. O creme era ainda melhor. Não sei se ainda não tinham inventado máquinas de fazer creme artificial nem tinha a intenção de descobrir. Não com aquela maravilha à mão.

Os dias se passaram. Li as anotações de Al Templeton sobre Oswald até conseguir citar longos trechos de cor. Visitei a biblioteca e li sobre os assassinatos e desaparecimentos que tinham atormentado Derry em 1957 e 1958. Procurei reportagens sobre Frank Dunning e o seu famoso mau humor, mas não encontrei nenhuma; se já fora preso, a reportagem não chegou à coluna policial do jornal, que era de bom tamanho na maioria dos dias e costumava ocupar uma página inteira nas segundas-feiras, quando continha um resumo completo de todas as traquinadas do fim de semana (a maioria das quais acontecia depois que os bares fechavam). A única reportagem que encontrei sobre o pai do zelador tratava de um evento de caridade em 1955. O Center Street Market doara 10 por cento do lucro daquele outono para a Cruz Vermelha, para ajudar depois que os furacões Connie e Diane atingiram a Costa Leste, matando duzentas pessoas e provocando muitos danos com inundações na Nova Inglaterra. Havia uma foto do pai de Harry entregando um cheque enorme ao diretor regional da Cruz Vermelha. Dunning dava aquele sorriso de astro de cinema.

Não fiz mais compras no Center Street Market, mas em dois fins de semana — o último de setembro e o primeiro de outubro — segui o açougueiro favorito de Derry depois que ele terminou a meia jornada de sábado atrás do balcão da carne. Na Hertz do aeroporto, aluguei Chevrolets discretos para essa tarefa. Achei que o Sunliner era um pouco ostensivo demais para a espionagem.

Na tarde do primeiro sábado, ele foi a uma feira de usados em Brewer num Pontiac que guardava numa garagem paga por mês no centro da cidade e raramente usava durante a semana de trabalho. No domingo seguinte, foi até a casa da rua Kossuth, pegou os filhos e os levou ao programa Disney duplo do cinema Aladdin. Mesmo a distância, Troy, o mais velho, parecia entediado até mais não poder, tanto ao entrar no cinema quanto ao sair.

Dunning não entrou na casa nem para buscar nem para entregar. Buzinou para chamar as crianças quando chegou e as deixou na calçada quando voltaram, e ficou olhando até os quatro entrarem. E também não saiu imediatamente; ficou sentado atrás do volante do Bonneville em ponto morto, fumando um cigarro. Talvez na esperança de que a linda Doris quisesse sair para conversar. Quando teve certeza de que ela não sairia, usou a entrada de garagem de um vizinho para fazer o retorno e saiu a toda, cantando os pneus com força suficiente para soltar nuvenzinhas de fumaça azul.

Afundei no banco do meu carro alugado, mas não precisava ter me dado ao trabalho. Ele nunca olhou na minha direção ao passar, e quando estava a uma boa distância pela rua Witcham abaixo, fui atrás. Ele deixou o carro de volta na garagem onde o guardava, foi para o Acendedor de Lampiões tomar uma única cerveja no bar quase deserto e depois se arrastou de cabeça baixa até a pensão de Edna Price na avenida Caridade.

No sábado seguinte, 4 de outubro, buscou as crianças e as levou para assistir ao jogo de futebol americano da Universidade do Maine em Orono, a quase 50 quilômetros. Estacionei na avenida Stillwater e aguardei o fim do jogo. No caminho de volta, eles pararam no Ninety-Fiver para jantar. Parei o carro na outra ponta do estacionamento e esperei que saíssem, refletindo que a vida de um detetive particular devia ser bem chata, não importava o que os filmes nos fizessem acreditar.

Quando Dunning deixou os filhos em casa, o crepúsculo se esgueirava sobre a rua Kossuth. Troy claramente gostara mais do futebol do que das aventuras de Cinderela; saiu do Pontiac do pai sorrindo e agitando uma flâmula dos Black Bears. Tugga e Harry também tinham flâmulas e também pareciam animados. Ellen, não tanto. Estava profundamente adormecida. Dunning a levou no colo até a porta. Dessa vez, a sra. Dunning fez uma rápida aparição — apenas o suficiente para pôr a menininha no próprio colo.

Dunning disse algo a Doris. Parece que a resposta dela não agradou. A distância era grande demais para ler a expressão no rosto, mas ele balançou o dedo para ela enquanto falava. Ela escutou, balançou a cabeça, se virou e entrou. Ele ficou ali um ou dois instantes, depois tirou o chapéu e o bateu na perna.

Tudo interessante — e instrutivo sobre o relacionamento —, mas, fora isso, nenhuma ajuda. Não a que eu procurava.

Consegui-a no dia seguinte. Decidira fazer apenas duas passagens de reconhecimento naquele domingo, sentindo que, mesmo num carro alugado marrom-escuro que quase se fundia na paisagem, mais do que isso seria me arriscar a ser notado. Não vi nada na primeira e imaginei que, provavelmente, ele ficaria em casa o dia todo, e por que não? O tempo ficara cinzento e chuvoso. Provavelmente ele assistiria aos esportes na TV com o resto dos pensionistas, todos fumando como loucos na sala.

Mas me enganei. Assim que entrei na Witcham para a segunda passada, o vi andar na direção do centro da cidade, dessa vez vestido de jeans, blusão com zíper e um chapéu impermeável de abas largas. Passei por ele e estacionei na rua Principal, a cerca de um quarteirão da garagem que usava. Vinte minutos depois, o segui para fora da cidade, rumo oeste. O tráfego era leve e mantive uma boa distância.

Acontece que o destino dele era o cemitério Longview, três quilômetros depois do Derry Drive-In. Ele parou numa barraquinha de flores do outro lado da rua e, quando passei, o vi comprar duas cestas de flores de outono de uma senhora que, durante a transação, segurava sobre eles um grande guarda-chuva preto. Pelo espelho retrovisor, vi quando pôs as flores no banco do passageiro, entrou no carro e foi até a entrada do cemitério.

Fiz o retorno e voltei a Longview. Estava me arriscando mas tinha de tentar, porque parecia bom. O estacionamento estava vazio, a não ser por duas picapes cheias de equipamento de manutenção debaixo de lonas e uma velha pá mecânica amassada que parecia excedente de guerra. Nenhum sinal do Pontiac de Dunning. Cruzei o estacionamento na direção do caminho de cascalho que levava ao cemitério propriamente dito, que era enorme, espalhando-se por uns quatro hectares de morros.

No cemitério propriamente dito, caminhos menores se separavam do principal. A neblina subia dos declives e vales, e a garoa se engrossava em chuva. Não era um bom dia para visitar entes queridos e partidos, afinal de contas, e Dunning tinha o lugar só para si. Foi fácil avistar o seu Pontiac, estacionado num dos caminhos no meio de um morro. Ele punha as cestas de flores diante de dois túmulos lado a lado. Os pais, supus, mas na verdade não dei muita importância. Dei meia-volta com o carro e o deixei em paz.

Quando voltei ao meu apartamento na avenida Harris, a primeira chuva forte daquele outono surrava a cidade. No centro, o canal estaria rugindo, e o estranho batuque que vinha pelo concreto da Cidade Baixa seria mais perceptível do que nunca. Parecia que o veranico acabara. Não dei importância a isso também. Abri o caderno, folheei-o quase até o fim para achar uma página em branco, e escrevi: 5 de outubro, 15h45, Dunning no cem. Longview, põe flores no túmulo dos pais (?). Chuva.

Eu tinha o que queria.