Novembro de 63
Cidadão do Século ⠀㈀ ㈀)
CIDADÃO DO SÉCULO (2012)
1
Imagino que agora o Lar do Famoso Gordobúrguer se foi, substituído por uma L. L. Bean Express, mas não sei com certeza; é algo que nunca me dei ao trabalho de verificar na internet. Só sei é que ainda estava lá quando voltei de todas as minhas aventuras. E o mundo em volta também.
Pelo menos até agora.
Não sei nada sobre o Bean Express porque aquele foi o meu último dia em Lisbon Falls. Voltei à minha casa em Sabattus, recuperei o sono, depois fiz duas malas, peguei o meu gato e fui para o Sul. Parei para abastecer numa cidadezinha de Massachusetts chamada Westborough e decidi que parecia suficientemente boa para um homem sem esperanças nem expectativas específicas na vida.
Passei aquela primeira noite no Westborough Hampton Inn. Havia Wi-Fi. Acessei a internet — o coração batendo com tanta força que fez pontinhos voarem pelo meu campo de visão — e entrei no site do Morning News, de Dallas. Depois de digitar o número do meu cartão de crédito (processo que exigiu várias tentativas por causa dos dedos trêmulos), consegui acessar os arquivos. A história de um agressor desconhecido que dera um tiro em Edwin Walker estava lá, em 11 de abril de 1963, mas nada sobre Sadie em 12 de abril. Nada na semana seguinte, nem na que veio depois. Continuei caçando.
Encontrei a reportagem que procurava no número de 30 de abril.
2
DOENTE MENTAL FERE EX-ESPOSA E SE MATA
Ernie Calvert
(JODIE) Deacon “Deke” Simmons, de 77 anos, e Ellen Dockerty, diretora do distrito escolar consolidado de
Denholm, chegaram tarde demais na noite de domingo para evitar que Sadie Dunhill fosse gravemente ferida, mas a situação poderia ter ficado muito pior para a conhecida bibliotecária da escola, de 28 anos.
De acordo com Douglas Reems, policial de Jodie, “se Deke e Ellie não chegassem quando chegaram, é quase
certo que a srta. Dunhill seria assassinada”.
Os dois educadores levavam um timbale de atum e um pudim de pão. Nenhum dos dois quis falar sobre a
intervenção heroica. Simmons só declarou: “Gostaria que tivéssemos chegado lá mais cedo.”
De acordo com o policial Reems, Simmons dominou John Clayton, de Savannah, Geórgia, muito mais jovem,
depois que a srta. Dockerty lhe jogou o timbale e o distraiu. Simmons lhe arrancou um revólver pequeno. Clayton, então, puxou a faca com que ferira o rosto da ex-esposa e a usou para cortar a própria garganta. Simmons e a srta. Dockerty tentaram impedir a hemorragia, mas não conseguiram. Clayton foi declarado morto no local.
A srta. Dockerty disse ao policial Reems que Clayton devia estar perseguindo a ex-mulher havia meses. O
pessoal da Denholm Consolidated fora avisado de que o ex-marido da srta. Dunhill podia ser perigoso e a própria srta. Dunhill entregara uma fotografia de Clayton, mas a diretora Dockerty afirmou que ele disfarçara a aparência.
A srta. Dunhill foi levada de ambulância para o Parkland Memorial Hospital, em Dunhill, onde o seu estado foi
considerado estável.
3
Nunca homem de chorar, esse sou eu, mas compensei naquela noite. Naquela noite chorei até adormecer e, pela primeira vez em muitíssimo tempo, o meu sono foi profundo e restaurador.
Viva.
Ela estava viva.
Marcada para a vida inteira — ah, claro, sem dúvida — mas viva.
Viva, viva, viva.
4
O mundo ainda estava lá e ainda se harmonizava... ou talvez eu fizesse com que se harmonizasse. Quando nós mesmos fazemos essa harmonia, acho que a chamamos de hábito. Arranjei emprego de professor-substituto no sistema escolar de Westborough, depois passei para o horário integral. Não me surpreendi ao ver que o diretor da escola secundária local era um maluco por futebol americano chamado Borman... como um certo treinador alegre que eu conhecera em outro lugar. Mantive contato com os velhos amigos de Lisbon Falls por algum tempo, depois não mais. C’est la vie.
Verifiquei novamente os arquivos do Morning News de Dallas e descobri uma notinha no número de 29 de maio de 1963: BIBLIOTECÁRIA DE JODIE SAI DO HOSPITAL. Era curta e pouquíssimo informativa. Nada sobre o seu estado, nada sobre os seus planos futuros. E nenhuma foto. Notinhas enterradas na página 20, entre anúncios de mobília barata e oportunidade de vendas de porta em porta, nunca têm foto. É um dos grandes truísmos da vida, assim como o telefone que sempre toca quando a gente está sentado no vaso ou tomando banho.
No ano seguinte à minha volta à Terra de Agora, houve alguns sites e alguns temas de busca dos quais mantive distância. Fiquei tentado? É claro. Mas a rede é uma espada de dois gumes. Para cada consolo que achamos — como descobrir que a mulher que amamos sobreviveu ao ex-marido maluco — há duas com poder de ferir. Quem procura notícias de um certo alguém pode descobrir que aquele alguém morreu num acidente. Ou de câncer de pulmão por fumar demais. Ou se suicidou, no caso desse alguém específico mais provavelmente com uma combinação de bebida e soníferos.
Sadie sozinha, sem ninguém para acordá-la a tapa e colocá-la no chuveiro frio. Se isso acontecera, eu não queria saber.
Usei a internet para preparar as minhas aulas, usei-a para verificar os novos filmes e, uma ou duas vezes por semana, para assistir aos mais recentes vídeos virais. O que não fiz foi procurar notícias de Sadie.
Supus que, se Jodie tivesse jornal, eu talvez ficasse ainda mais tentado, mas não tinha na época e com certeza não tinha agora, quando aquela mesma internet estrangulava aos poucos a mídia impressa. Além disso, há um velho ditado: não olheis pela fechadura para não vos envergonhardes. Será que já houve na história humana um buraco de fechadura maior do que a internet?
Ela sobreviveu a Clayton. Seria melhor, disse a mim mesmo, deixar que o meu conhecimento sobre Sadie terminasse aí.
5
Poderia ter terminado caso eu não recebesse a transferência de uma aluna para a minha turma de inglês avançado. Isso foi em abril de 2012; pode ter sido até em 10 de abril, quadragésimo nono aniversário da tentativa de assassinato de Edwin Walker. O nome dela era Erin Tolliver e a família se mudara para Westborough vinda de Kileen, no Texas.
Esse nome eu conhecia bem. Kileen, onde eu comprara camisinhas de um farmacêutico com um horrível sorriso sabido. Não faça nada contra a lei, filho, me aconselhara. Kileen, onde Sadie e eu tínhamos passado muitas noites doces nos Bangalôs Candlewood.
Kileen, que tivera um jornal chamado The Weekly Gazette.
Durante a segunda semana de aula dela — nisso a minha aluna nova do curso avançado fizera várias novas amigas, fascinara vários garotos e se acomodava otimamente —, perguntei a Erin se The Weekly Gazette ainda era publicado. O rosto dela se iluminou.
— Já esteve em Kileen, sr. Epping?
— Estive lá muito tempo atrás — respondi... numa declaração que não faria a agulha de um detector de mentiras se mover nem um pouquinho.
— Ainda existe. Mamãe costumava dizer que só o comprava para embrulhar peixe.
— Ainda há a coluna “Fatos de Jodie”?
— Há uma coluna de “Fatos” para cada cidadezinha ao sul de Dallas — disse Erin com uma risadinha. — Aposto que o senhor consegue encontrá-lo na internet se quiser, sr. Epping. Tudo está na internet.
Ela estava certíssima quanto a isso e me segurei exatamente uma semana. Às vezes, o buraco da fechadura é tentador demais.
6
A minha intenção era simples: eu visitaria o arquivo (supondo que The Weekly Gazette o tivesse) e procuraria o nome de Sadie. Era contra o bom senso, mas, sem querer, Erin Tolliver remexera sentimentos que tinham começado a se acomodar e eu sabia que não conseguiria descansar de novo a menos que verificasse. Na verdade, o arquivo foi desnecessário. Encontrei o que procurava não na coluna “Fatos de Jodie”, mas na primeira página do número atual.
JODIE ELEGE “CIDADÃ DO SÉCULO” NA COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO EM JULHO, dizia a manchete. E a foto debaixo da manchete... ela estava com 80 anos, mas alguns rostos a gente não esquece. O fotógrafo pode ter sugerido que ela virasse a cabeça para esconder o lado esquerdo, mas Sadie olhava a câmera de frente. E por que não? Agora a cicatriz era velha, o ferimento causado por um homem com muitos anos no túmulo. Achei que dava caráter ao rosto dela, mas é claro que eu era tendencioso. Para olhos amorosos, até cicatrizes de varíola são bonitas.
No final de junho, quando as aulas acabaram, fiz a mala e parti de novo para o Texas.
7
Crepúsculo de uma noite de verão na cidade de Jodie, no Texas. Está um pouco maior do que era em 1963, mas não muito. Há uma fábrica de caixas na parte da cidade onde Sadie Dunhill morava antigamente, na travessa Bee Tree. A barbearia fechou e o posto de gasolina Cities Service onde certa vez abasteci o meu Sunliner hoje é um 7-Eleven. Há um Subway onde Al Stevens vendia Prongbúrgueres e Fritas Mesquita.
Os discursos em comemoração ao centenário de Jodie terminaram. O da mulher escolhida Cidadã do Século pela Sociedade Histórica e pela Câmara Municipal foi encantadoramente curto; o do prefeito, verborrágico mas informativo. Soube que Sadie cumprira um mandato como prefeita e quatro mandatos como deputada estadual no Texas, mas isso foi só o começo. Houve o seu trabalho de caridade, o esforço incansável para melhorar a qualidade da educação na DCHS e o ano sabático para trabalhar como voluntária em Nova Orleans depois do Katrina. Houve o programa da Biblioteca Estadual do Texas para estudantes cegos, uma campanha para melhorar os serviços hospitalares para veteranos e o esforço incansável (e constante, mesmo aos 80 anos) para oferecer melhor serviço estadual aos indigentes mentalmente enfermos. Em 1996, ofereceram-lhe a oportunidade de concorrer ao Congresso americano, mas ela recusou, dizendo que tinha muito a fazer na sua comunidade.
Nunca voltou a se casar. Nunca saiu de Jodie. Ainda é alta, o corpo não curvado pela osteoporose. E ainda é bonita, o cabelo branco e comprido descendo pelas costas quase até a cintura.
Agora os discursos terminaram e a rua Principal foi fechada. Uma faixa em cada ponta dos dois quarteirões do setor comercial proclama:
BAILE DE RUA DAS SETE À MEIA-NOITE!
VENHAM TODOS!
Sadie está cercada de gente que quer cumprimentá-la — alguns dos quais acho que ainda reconheço — e ando até a plataforma do DJ, na frente de onde havia uma Western Auto e hoje há uma Walgreens. O sujeito que mexe com discos e CDs é um sessentão de cabelo ralo e grisalho com uma pança considerável, mas eu reconheceria aqueles óculos quadrados de aro rosa em qualquer lugar.
— Olá, Donald — disse eu. — Vejo que você continua mandando bem no som.
Donald Bellingham ergue os olhos e sorri.
— Nunca saio de casa sem ele. Eu o conheço?
— Não — respondo —, a minha mãe. Em sessenta e poucos ela esteve num baile animado por você. Disse que você furtava os discos de big bands do seu pai.
Ele sorri.
— É, levei muita bronca por causa disso. Quem era a sua mãe?
— Andrea Robertson — respondo, escolhendo um nome ao acaso. Andrea era a minha melhor aluna do segundo período de Literatura Americana.
— Claro, me lembro dela. — O sorriso vago diz que não.
— Acho que você ainda não tem nenhum daqueles discos velhos, não é?
— Céus, não, há muito tempo. Mas tenho todo tipo de coisa das big bands em CD. Estou achando que vem um pedido por aí...
— Na verdade, vem mesmo. Mas é meio especial.
Ele ri.
— Todos são.
Digo-lhe o que quero, e Donald, ansioso como sempre para agradar, concorda. Quando volto na direção do fim do quarteirão, onde a mulher que vim ver é servida de ponche pelo prefeito, Donald me chama.
— Não sei o seu nome.
— Amberson — lhe digo por sobre o ombro. — George Amberson.
— E quer às oito e quinze?
— Em ponto. O tempo é a essência, Donald. Vamos torcer para que coopere.
Cinco minutos depois, Donald Bellingham põe fogo em Jodie com At the Hop e os dançarinos enchem a rua sob o pôr do sol do Texas.
8
Às oito e dez, Donald toca uma música lenta de Alan Jackson para que até os adultos possam dançar. Sadie fica sozinha pela primeira vez desde que os discursos terminaram, e me aproximo dela. O meu coração bate tão forte que parece sacudir o meu corpo inteiro.
— Srta. Dunhill?
Ela se vira, sorrindo e olhando um pouco para cima. Ela é alta, mas sou mais alto. Sempre fui.
— Sim?
— Eu me chamo George Amberson. Quero lhe dizer que admiro muito a senhora e todo o bom trabalho que tem feito.
O sorriso dela fica um pouco mais curioso.
— Obrigada, senhor. Não o reconheço, mas o nome me parece familiar. O senhor é de Jodie?
Não posso mais viajar no tempo e com certeza não leio pensamentos, mas mesmo assim sei o que ela está pensando. Escuto esse nome nos meus sonhos.
— Sou e não sou. — E, antes que ela possa investigar mais: — Posso lhe perguntar o que despertou o seu interesse pelo serviço público?
O sorriso dela agora é apenas um fantasma que se demora nos cantos da boca.
— E o senhor quer saber por quê?
— Foi o assassinato? O assassinato de Kennedy?
— Ora... Acho que foi, de certo modo. Gosto de achar que eu me envolveria no grande mundo lá de fora de qualquer maneira, mas acho que começou ali. Deixou essa parte do Texas com... — A mão esquerda dela se ergue involuntariamente na direção do rosto e cai de novo. — ... uma cicatriz e tanto. Sr. Amberson, de onde o conheço? Porque eu o conheço, disso tenho certeza.
— Posso lhe fazer outra pergunta?
Ela me olha com perplexidade crescente. Dou uma espiada no relógio. Oito e quatorze. Quase na hora. A menos que Donald esqueça, é claro... e acho que não esquecerá. Para citar alguma velha canção dos anos cinquenta, algumas coisas têm de acontecer.
— O baile de maria cebola, lá em 1961. Quem a ajudou quando a mãe do treinador Borman quebrou a bacia? A senhora se lembra?
A boca de Sadie se abre e se fecha devagar. O prefeito e a esposa se aproximam, nos veem em profunda conversação e se afastam. Estamos aqui na nossa pequena cápsula pessoal: só Jake e Sadie. Do jeito que foi há muito, muito tempo.
— Don Haggarty — diz ela. — Foi como organizar um baile com o idiota da aldeia. Sr. Amberson...
Mas, antes que ela termine, Donald Bellingham fala pelos oito alto-falantes, bem na hora:
— Tudo bem, Jodie, eis um sucesso do passado, sumido das rádios mas não do coração, só o melhor e a pedido!
Então lá vem, aquela suave introdução dos metais de uma banda há muito sumida:
Bá-dá-dá... bá-dá-da-di-dum...
— Ai, meu Deus, In the Mood — diz Sadie. — Eu dançava o lindy com essa música.
Estendo a mão.
— Venha. Vamos dançar.
Ela ri, balançando a cabeça.
— Os meus dias de swing ficaram muito para trás, sr. Amberson.
— Mas a senhora não é velha demais para valsar. Como Donald costumava dizer antigamente: “Fora do assento, pés ao vento.” E me chame de George. Por favor.
Na rua, casais dançam o jitterbug. Alguns até tentam o lindy-hop, mas nenhum consegue dançar o swing do jeito que Sadie e eu dançávamos naquela época. Não chegam nem perto.
Ela pega a minha mão como uma mulher num sonho. Ela está num sonho, eu também. Como todos os sonhos doces, será breve... mas a brevidade cria doçura, não é? É, acho que sim. Porque quando o tempo passa, a gente nunca o recupera.
Luzes festivas pendem sobre a rua, amarelas, vermelhas e verdes. Sadie tropeça na cadeira de alguém, mas estou preparado e a seguro facilmente pelo braço.
— Desculpe, sou desastrada — diz ela.
— Sempre foi, Sadie. Uma das suas características mais encantadoras.
Antes que ela pergunte alguma coisa, passo o braço pela cintura dela. Ela passa o dela pela minha, ainda erguendo os olhos para mim. As luzes patinam pelo seu rosto e brilham nos seus olhos. Nos damos as mãos, os dedos se cruzando naturalmente, e para mim os anos caem como um casaco pesado e apertado demais. Naquele momento, torço por uma coisa mais do que tudo: que ela não estivesse ocupada demais para encontrar pelo menos um bom homem, um que descartasse de uma vez por todas a merda da vassoura de John Clayton.
Ela fala com voz quase baixa demais para ser ouvida acima da música, mas a escuto — sempre escutei.
— Quem é você, George?
— Alguém que você conheceu em outra vida, querida.
Então a música nos leva, a música manda os anos embora, e dançamos.
2 de janeiro de 2009 — 18 de dezembro de 2010
Sarasota, Flórida
Lovell, Maine