Novembro de 63
Capítulo 18
1
Mandei instalar um telefone e a primeira pessoa para quem liguei foi Ellen Dockerty, que não se incomodou de me dar o endereço de Sadie em Reno.
— Também tenho o telefone da pensão onde ela está — disse Ellen. — Se você quiser.
Claro que eu queria, mas se o tivesse acabaria cedendo à tentação e ligaria. Algo me disse que seria um erro.
— Só o endereço está bom.
Escrevi uma carta a ela assim que desliguei, detestando o tom pomposo e artificialmente coloquial mas sem saber como me livrar dele. A maldita vassoura ainda estava entre nós. E se ela conhecesse por lá um quarentão cheio da grana e esquecesse tudo sobre mim? Não seria possível? Sem dúvida ela saberia como diverti-lo na cama; ela aprendera depressa e era tão ágil quanto na pista de dança. Esse era o osso do ciúme de novo, e terminei a carta depressa, sabendo que provavelmente soava lamentoso e nada carinhoso. Qualquer coisa para romper a artificialidade e dizer algo sincero.
Sinto saudades suas e lamento horrivelmente o jeito como deixamos a situação. Só não
sei como melhorá-la agora. Tenho um serviço a fazer que só terminará na próxima primavera. Talvez nem então, mas acho que terminará. Espero que termine. Por favor, não me esqueça. Amo você, Sadie.
Assinei George, o que pareceu cancelar qualquer pobre sinceridade que tivesse conseguido. Embaixo, acrescentei Para o caso de você querer telefonar, e o meu novo número. Depois, andei até a Biblioteca Benbrook e pus a carta na grande caixa de correio azul que havia na frente. Por enquanto, era o máximo que eu podia fazer.
2
Havia três fotos presas com clipes no caderno de Al, tiradas de vários sites na internet. Uma era de George de Mohrenschildt com um terno cinza banqueiro e um lenço branco no bolso do peito. O cabelo estava penteado para longe da testa e bem repartido no estilo executivo aceito na época. O sorriso que fendia os lábios grossos me lembrou a cama do Ursinho: nem dura demais, nem mole demais, perfeita. Não havia vestígio da loucura autêntica que logo observaria quando ele rasgasse a camisa na varanda da rua Mercedes, 2.703. Ou talvez houvesse um vestígio. Algo nos olhos escuros. Uma arrogância. Um toque do velho foda-se.
A segunda foto era do ninho do infame atirador construído de caixas de livros no sexto andar do Texas School Book Depository.
A terceira era de Oswald vestido de preto, segurando o rifle comprado pelo correio numa das mãos e um par de revistas de esquerda na outra. O revólver que usaria para matar o policial J. D. Tippit durante a fuga que deu errado — a menos que eu impedisse — estava enfiado no cinto. Essa foto seria tirada por Marina menos de duas semanas antes do atentado contra a vida do general Walker. O local era o quintal lateral fechado de um prédio de dois apartamentos na rua West Neely, 214, em Dallas.
Enquanto matava o tempo à espera de que os Oswald se mudassem para o barraco diante do meu em Fort Worth, visitei várias vezes a rua West Neely, 214. Dallas, sem dúvida alguma, era uó, como os meus alunos de 2011 gostavam de dizer, mas a West Neely ficava num bairro um tiquinho melhor do que a rua Mercedes. Fedia, é claro — em 1962, a maior parte do centro do Texas cheira a refinaria enguiçada —, mas os odores de merda e esgoto estavam ausentes. A rua tinha buracos, mas era pavimentada. E não havia galinhas.
Na época, um jovem casal com três filhos morava no andar de cima do 214. Depois que se mudassem, os Oswald iriam para lá. Era o apartamento do térreo que me preocupava, porque, quando Lee, Marina e June se mudassem para o de cima, eu queria estar no de baixo.
Em julho de 1962, o apartamento do térreo era ocupado por duas mulheres e um homem. As mulheres eram gordas, de movimentos lentos e gostavam de vestidos amassados e sem mangas. Uma tinha sessenta e tantos e mancava de forma pronunciada. A outra tinha trinta e muitos ou quarenta e poucos. A semelhança facial identificava-as como mãe e filha. O homem era esquelético e preso a uma cadeira de rodas. O cabelo era uma espuma fina e branca. Uma bolsa de urina turva presa a um cateter grosso descansava no seu colo. Ele fumava o tempo todo, batendo a cinza num cinzeiro preso a um dos braços da cadeira de rodas. Naquele verão, sempre o vi vestindo as mesmas roupas: shorts de basquete de cetim vermelho que mostravam as coxas emaciadas quase até a virilha, uma camiseta de alças tão amarela quanto a urina do cateter, tênis colados com fita isolante e um grande chapéu preto de caubói com uma faixa que parecia de couro de cobra. Na frente do chapéu, estavam as espadas cruzadas da cavalaria. A esposa ou a filha o empurravam até o gramado, onde ele ficava curvado debaixo de uma árvore, imóvel como uma estátua. Comecei a erguer a mão para ele quando passava devagar, mas ele nunca erguia a dele em resposta, embora passasse a reconhecer o meu carro. Talvez temesse responder ao meu aceno. Talvez achasse que estava sendo avaliado pelo Anjo da Morte, que fazia a ronda em Dallas atrás do volante de um conversível Ford envelhecido em vez de um cavalo preto. De certa maneira, suponho que era isso o que eu era.
Parecia que esse trio morava ali havia tempo. Ainda residiriam ali no ano seguinte, quando eu precisasse do lugar? Não sabia. As anotações de Al nada diziam sobre eles. Por enquanto, eu só podia observar e esperar.
Fui buscar o meu novo equipamento, que o próprio Silent Mike construíra. Esperei que o telefone tocasse. Tocou três vezes, e pulei para atender em todas elas, esperançoso. Duas vezes foi a dona Ellie, ligando para bater papo. Uma vez foi Deke, me convidando para jantar, convite que aceitei agradecido.
Sadie não ligou.
3
No dia 3 de agosto, um sedã Bel Air 58 parou na pretensa entrada de garagem do 2.703. Foi seguido por um Chrysler reluzente. Os irmãos Oswald desceram do Bel Air e ficaram lado a lado, sem falar.
Enfiei a mão entre as cortinas o suficiente para abrir a janela da frente, deixando entrar o ruído da rua e uma lufada embaçada de ar quente e úmido. Depois, corri para o quarto e peguei debaixo da cama o meu novo equipamento. Silent Mike abrira um furo no fundo de um pote Tupperware e colara nele o microfone multidirecional — que ele me assegurou ser top de linha —, para que ficasse em pé como um dedo. Prendi os fios do microfone nos pontos de conexão na parte de trás do gravador de fita. Havia uma saída para fones, que o meu colega eletrônico também declarara serem top de linha.
Espiei lá fora e vi os Oswald conversarem com o sujeito do Chrysler. Ele usava um chapéu Stetson, gravata de rancheiro e vistosas botas bordadas. Mais bem-vestido do que o meu senhorio, mas da mesma tribo. Não precisava escutar a conversa; os gestos do homem eram um livro didático. Sei que não é muito, mas, ora, você não tem muito. Tem, meu chapa? Tinha de ser uma escritura difícil para um viajante do mundo como Lee, que se acreditava destinado à fama, ainda que não à fortuna.
Havia uma tomada no rodapé. Liguei o gravador, torcendo para não levar um choque nem estourar um fusível. A luzinha vermelha do gravador se acendeu. Pus os fones e enfiei o pote Tupperware na abertura entre as cortinas. Se olhassem para cá, teriam de espremer os olhos para o sol, e, graças à sombra lançada pelo beiral acima da janela, não veriam nada ou veriam apenas uma mancha branca sem interesse que poderia ser qualquer coisa. Lembrei-me de, mesmo assim, cobrir o pote com fita isolante preta. Seguro morreu de velho.
De qualquer modo, não consegui escutar nada.
Até os sons da rua ficaram abafados.
Ah, é, que maravilha, pensei. É foda de tão genial. Muitíssimo obrigado, Silent Mi...
Então notei que o controle VOL do gravador estava no zero. Girei-o todo até a marca + e fui atingido por uma explosão de vozes. Arranquei os fones da cabeça praguejando, virei o botão VOL até o meio e tentei de novo. O resultado foi extraordinário. Como binóculos para os ouvidos.
— Sessenta por mês me parece um pouco demais, senhor — dizia Lee Oswald (considerando que os Templeton pagavam dez dólares a menos por mês, também me pareceu). A voz era respeitosa, colorida por apenas um vestígio de sotaque sulista. — Se conseguíssemos concordar em cinquenta e cinco...
— Eu sei respeitar um homem que gosta de pechinchar, mas nem adianta tentar — disse Bota de Couro de Cobra. Ele balançou para trás e para a frente sobre os saltos carrapeta como quem está ansioso para cair fora. — Vou ter o que quero ter. Se não for com o senhor, será com outra pessoa.
Lee e Robert se entreolharam.
— Bom, é melhor entrar e dar uma olhada — disse Lee.
— Esse é um bom lugar, numa rua de família — disse Bota de Couro de Cobra. — Mas cuidado com esse primeiro degrau da varanda, precisa de uns servicinho de carpintaria. Tenho um monte de lugares assim e o povo trata eles muito mal. Aquele último grupo, misericórdia!
Olha lá, seu panaca, pensei. É da família de Ivy que você está falando.
Eles entraram. Perdi as vozes, depois as recebi de novo, fraquinhas, quando Bota de Couro de Cobra abriu a janela da sala da frente. Era aquela pela qual Ivy dissera que os vizinhos do outro lado da rua podiam espiar, e nisso ela estava 100 por cento certa.
Lee perguntou o que o candidato a senhorio pretendia fazer com os buracos na parede. Na pergunta não havia indignação nem sarcasmo, mas também não subserviência, apesar do senhor pendurado em todas as frases. Era um modo de tratamento respeitoso mas neutro, que provavelmente aprendera nos fuzileiros. Sem cor era a melhor descrição. Tinha o rosto e a voz de um homem que era bom em se esgueirar pelas fendas. Em público, pelo menos. Era Marina quem via a sua outra cara e escutava a sua outra voz.
Bota de Couro de Cobra fez promessas vagas e garantiu com absoluta certeza um colchão novo para o quarto maior, porque “aquela última gente foi e roubou” o que houvera lá. Reiterou que, se Lee não quisesse o lugar, havia quem quisesse (como se não estivesse vago o ano inteiro), e depois convidou os irmãos a examinar os quartos. Fiquei me perguntando o que achariam das iniciativas artísticas de Rosette.
Perdi as vozes deles e depois as recuperei quando vistoriaram a área da cozinha. Fiquei contente ao ver que passavam pelo Abajur Inclinado de Pisa sem nem olhar.
— ... porão? — perguntou Robert.
— Sem porão! — respondeu Bota de Couro de Cobra, elevando a voz como se a falta de porão fosse uma vantagem. Parece que achava que sim. — Em bairros como este, eles só servem para se encher d’água. E a umidade, misericórdia! — Aqui perdi de novo a pista vocal quando ele abriu a porta dos fundos para lhes mostrar o quintal. Que não era um quintal, só um terreno vazio.
Cinco minutos depois, estavam de volta à frente da casa. Dessa vez foi Robert, o irmão mais velho, que tentou pechinchar. Não teve mais sucesso do que Lee.
— Pode nos dar um minutinho? — perguntou Robert.
Bota de Couro de Cobra olhou o pesado relógio cromado e sopesou se podia.
— Mas tenho um compromisso lá na rua Church, então é melhor vocês não demorarem pra decidir.
Robert e Lee foram até a traseira do Bel Air de Robert e, embora falassem baixo para Bota de Couro de Cobra não ouvir, quando inclinei o pote na direção deles escutei quase tudo. Robert era favorável a visitar outros lugares. Lee disse que queria essa. Seria suficiente para começar.
— Lee, isso aí é um buraco — disse Robert. — Você vai jogar... — O seu dinheiro fora , provavelmente.
Lee disse algo que não consegui distinguir. Robert suspirou e ergueu as mãos em rendição. Voltaram até Bota de Couro de Cobra, que deu um aperto rápido na mão de Lee e louvou a sabedoria da decisão. Começou a recitar a Escritura do Proprietário: primeiro mês, último mês, depósito por danos. Robert se intrometeu e disse que não haveria depósito por danos sem que as paredes fossem consertadas e o novo colchão, instalado.
— Colchão novo, certo — disse Bota de Couro de Cobra. — E vou mandar consertar aquele degrau para que a mocinha não torça o tornozelo. Mas se eu consertar agora as paredes vou ter de aumentar o aluguel em mais cinco por mês.
Pelas anotações de Al, eu sabia que Lee ficaria com o lugar, mas mesmo assim esperei que fosse embora com essa ofensa. Em vez disso, ele tirou do bolso de trás uma carteira flácida e removeu um maço fino de notas. Contou a maioria delas na mão estendida do novo senhorio enquanto Robert voltava ao carro, balançando a cabeça com desagrado. Os olhos dele se voltaram rapidamente para a minha casa do outro lado da rua e depois foram em frente, desinteressados.
Bota de Couro de Cobra fustigou de novo a mão de Lee e depois pulou no Chrysler e foi embora depressa, deixando para trás um triturado de pó.
Uma das puladoras de corda veio rodando num velocípede enferrujado.
— Vai se mudar pra casa de Rosette, moço? — perguntou a Robert.
— Eu não, ele — respondeu Robert, indicando o irmão com o polegar.
Ela levou o velocípede até Lee e perguntou ao homem que explodiria o lado direito da cabeça de John Kennedy se ele tinha filhos.
— Tenho uma menininha — disse Lee. Ele apoiou as mãos nos joelhos para chegar ao nível dela.
— Ela é bunita?
— Menos que você, e menor.
— Sabe pular corda?
— Querida, ela ainda nem sabe andar. — Ela ainda saiu elinda.
— Pois bosta pra ela. — E saiu pedalando na direção da rua Winscott.
Os dois irmãos se viraram para a casa. Isso os abafou um pouco, mas quando aumentei o volume ainda consegui entender quase tudo o que diziam.
— Essa... gato por lebre — disse Robert. — Quando Marina vir, vai cair em cima de você como mosca na bosta.
— Vou... Rina — disse Lee. — Mas, mano, se eu não ... de mamãe e daquele apartamentinho, acabo matando ela.
— Ela pode ser um ... mas ... ama você, Lee. — Robert deu alguns passos na direção da rua. Lee foi com ele, e as vozes ficaram claras como sinos.
— Eu sei, mas ela não consegue se segurar. Ontem à noite, quando eu e Rina íamos pro bem-bom, ela berra conosco da cama dobrável. Ela tá dormindo na sala, sabe. “Calma aí vocês dois”, ela grita, “é cedo demais para mais um. Esperem até poderem sustentar a que já têm”.
— Eu sei. Ela é difícil.
— Ela não para de comprar coisas, mano. Diz que são para Rina, mas joga tudo na minha cara. — Lee riu e andou de volta para o Bel Air. Dessa vez foram os seus olhos que patinaram pelo 2.706, e precisei de toda a minha força de vontade para ficar imóvel atrás da cortina. E também para segurar o pote no lugar.
Robert foi com ele. Os dois se encostaram no para-choque traseiro, dois homens de camisa azul limpa e calças de trabalhador. Lee estava de gravata e agora a afrouxou.
— Ouça isso! Mamãe vai à Leonard Brothers e volta com todas aquelas roupas para Rina. Tira uma bermuda que é quase uma calça, só que estampadinha. “Ói, Reenie, num são bunita?”, diz ela. — A imitação que Lee fez do sotaque da mãe foi selvagem.
— O que Rina responde? — Robert sorria.
— Ela diz: “Não, Mamutchka, não, obrigada mas não gosta, não gosta. Gosta assim.” E ela põe a mão na perna. — Lee pôs o lado da mão na própria perna, mais ou menos no meio da coxa.
O sorriso de Robert aumentou.
— Aposto que mamãe gostou disso.
— Ela diz: “Marina, curto assim é para mocinhas que desfilam pela rua atrás de namorado, não para mulheres casadas.” Você não vai lhe dizer onde estamos, mano. Não mesmo. Entendido?
Robert não disse nada durante alguns segundos. Talvez recordasse um dia frio de novembro de 1960. A mamãe trotando atrás dele pela West Seventh, gritando: “ Pare, Robert, não ande tão depressa, ainda não acabei com você!” E, embora as anotações de Al nada dissessem sobre o assunto, achei que também ainda não tinha acabado com Lee. Afinal de contas, Lee era o filho de quem ela realmente gostava. O caçula da família. O que dormiu na mesma cama que ela até os 11 anos. O que precisava de exames regulares para ver se começara a ter pelos em torno do saco. Essas coisas estavam nas anotações de Al. Ao lado delas, na margem, havia duas palavras que não se costuma esperar de um chapeiro de lanchonete: fixação histérica.
— Entendido, Lee, mas esta não é uma cidade grande. Ela vai achar você.
— Pois boto ela pra fora se me encontrar. Pode contar com isso.
Eles entraram no Bel Air e foram embora. A placa ALUGA-SE sumira da grade da varanda. O novo senhorio de Lee e Marina a levara embora ao partir.
Andei até a loja de ferragens, comprei um rolo de fita isolante e cobri com ela o pote Tupperware, por fora e por dentro. No geral, achei que fora um dia bom, mas eu entrara na zona de perigo. E sabia disso.
4
Em 10 de agosto, por volta das cinco da tarde, o Bel Air reapareceu, dessa vez puxando um pequeno trailer de madeira. Lee e Robert levaram menos de dez minutos para levar todos os pertences mundanos dos Oswald para dentro da nova mansão (com cuidado para evitar a tábua solta da varanda, que ainda não fora consertada). Durante o processo de mudança, Marina ficou no gramado de capim com June no colo, olhando o novo lar com uma expressão de desalento que não precisava de tradução.
Dessa vez, as três puladoras de corda apareceram, duas andando, a outra no velocípede. Exigiram ver o bebê, e Marina obedeceu com um sorriso.
— Como ela se chama? — perguntou uma das meninas.
— June — respondeu Marina.
Depois todas participaram.
— Quantos anos ela tem? Ela sabe falar? Por que ela não ri? Ela tem boneca?
Marina balançou a cabeça. Ainda sorria.
— Disculpa, eu não fala.
As três meninas saíram correndo e berrando: “ Eu não fala, eu não fala! ” Uma das galinhas sobreviventes da rua Mercedes voou para sair da frente delas, aos guinchos. Marina as observou partir, o sorriso sumindo.
Lee saiu no gramado para se juntar a ela. Estava nu até a cintura, suando muito. A pele era branca como a barriga de um peixe. Os braços eram finos e flácidos. Pôs um deles na cintura dela, depois se curvou e beijou June. Achei que Marina apontaria a casa e diria não gosta, eu não gosta — esse inglês ela já aprendera —, mas ela só entregou o bebê a Lee e subiu na varanda, cambaleando um instante no degrau solto e depois recuperando o equilíbrio. Passou pela minha cabeça que Sadie provavelmente levaria um baita tombo e depois mancaria dez dias com o tornozelo inchado.
Também passou pela minha cabeça que Marina estava tão ansiosa quanto o marido para se afastar de Marguerite.
5
O dia 10 era sexta-feira. Na segunda, cerca de duas horas depois que Lee saiu para mais um dia montando portas de tela de alumínio, uma camionete cor de lama estacionou no meio-fio diante do 2.703. Marguerite Oswald saiu pela porta do carona quase antes de o veículo parar. Nesse dia o lenço vermelho fora substituído por outro branco de bolinhas pretas, mas os sapatos de enfermeira eram os mesmos, assim como o ar de combatividade insatisfeita. Ela os encontrara, exatamente como Robert dissera.
O cão de caça do céu, pensei. O cão de caça do céu.
Eu olhava pela fenda entre as cortinas, mas não vi razão para ligar o microfone. Essa história não precisava de trilha sonora.
A amiga que a levara — uma moça corpulenta — lutou para sair de trás do volante e abanou a gola do vestido. O calor do dia já estava de rachar, mas Marguerite não dava a mínima. Apressou a motorista até a mala da camionete. Lá dentro havia uma cadeira alta e uma sacola de mantimentos. Marguerite pegou a primeira; a amiga içou a segunda.
A puladora de corda veio subindo com o velocípede, mas Marguerite mal lhe deu atenção. Ouvi “Suma, garota!”, e a menina puladora de corda foi embora com o lábio inferior esticado para fora.
Marguerite subiu marchando a trilha careca que servia de calçada. Enquanto olhava o degrau solto, Marina saiu. Usava um blusão largo sem mangas e o tipo de bermuda que a sra. Oswald não aprovava para mulheres casadas. Não fiquei surpreso por Marina gostar dele. Tinha pernas fantásticas. A sua expressão era de alarme espantado e não precisei do meu amplificador improvisado para escutá-la.
— Não, Mamutchka... Mamutchka, não! Lee diz não! Lee diz não! Lee diz... — Então, um rápido matraquear em russo quando Marina exprimiu o que o marido dissera da única maneira que conseguia.
Marguerite Oswald era daqueles americanos que acreditam que os estrangeiros naturalmente entenderão quem fala devagar... e muito ALTO.
— É... Lee... tem... o... seu... ORGULHO! — trombeteou. Subiu até a varanda (evitando com agilidade o degrau solto) e falou diretamente na cara espantada da nora. — Tudo... bem... com isso... mas ele não pode... deixar... a minha NETA... pagar... o PREÇO!
Ela era carnuda. Marina era esbelta. Mamutchka entrou a toda sem olhar duas vezes. Isso foi seguido por um instante de silêncio e depois, um berro de estivador.
— Onde está a minha BONITINHA?
No fundo da casa, provavelmente no antigo quarto de Rosette, June começou a chorar.
A mulher que levara Marguerite deu um sorriso hesitante a Marina e entrou com a sacola de mantimentos.
6
Às cinco e meia, Lee veio do ponto de ônibus andando pela rua Mercedes, balançando uma marmita preta contra a coxa. Subiu os degraus, esquecendo o defeituoso. O degrau cedeu; ele cambaleou, deixou cair a marmita e depois se abaixou para pegá-la.
Isso vai melhorar o seu humor, pensei.
Ele entrou. Vi-o atravessar a sala e pôr a marmita sobre a bancada da cozinha. Virou-se e viu a nova cadeira alta. Obviamente, conhecia o modus operandi da mãe, porque em seguida abriu a geladeira enferrujada. Ainda espiava lá dentro quando Marina saiu do quarto do bebê. Tinha uma fralda no ombro e o binóculo era bom o bastante para eu ver que havia uma golfada nela.
Ela falou com ele, sorrindo, e ele se virou para ela. Ele tinha a pele clara que é o flagelo de todos os que coram facilmente, e o seu rosto enraivecido estava vermelho vivo até o cabelo, que rareava. Começou a berrar com ela, apontando a geladeira com o dedo (a porta ainda aberta, exalando vapor). Ela se virou para voltar para o quarto do bebê. Ele a segurou pelo ombro, girou-a e começou a sacudi-la. A cabeça dela balançou de um lado para o outro.
Eu não queria ver isso; e não havia razão para ver; nada acrescentava ao que eu precisava saber. Ele surrava mulheres, tudo bem, mas ela sobreviveria a ele, o que era mais do que se podia dizer de John F. Kennedy... ou do policial Tippit, aliás. Portanto, não, eu não precisava ver. Mas às vezes a gente não consegue desviar os olhos.
Eles discutiram, Marina sem dúvida tentando explicar que não sabia como Marguerite os encontrara e que fora incapaz de manter Mamutchka fora da casa. E é claro que Lee finalmente lhe bateu na cara, porque não podia bater na mãe. Mesmo que ela estivesse lá, ele teria sido incapaz de erguer o punho contra ela.
Marina chorou. Ele a largou. Ela falou com ele apaixonadamente, as mãos abertas para fora. Ele tentou pegar uma delas e ela a puxou com força. Depois, ergueu as mãos para o teto, deixou-as cair e saiu pela porta da frente. Lee começou a ir atrás dela, depois pensou melhor. Os irmãos tinham posto na varanda duas cadeiras de jardim velhas e dilapidadas. Marina afundou numa delas. Havia um arranhão abaixo do olho esquerdo e a bochecha já começava a inchar. Ela fitou a rua, o outro lado da rua. Senti uma pontada de medo culpado, embora a luz da minha sala estivesse apagada e eu soubesse que ela não podia me ver. Mas tomei o cuidado de permanecer imóvel, com o binóculo colado no rosto.
Lee sentou-se à mesa da cozinha e apoiou a testa na palma das mãos. Ficou assim algum tempo, depois ouviu alguma coisa e foi até o menor dos quartos. Saiu com June no colo e começou a andar com ela pela sala, esfregando-lhe as costas, acalmando-a. Marina entrou. June a viu e estendeu-lhe os braços gorduchos. Marina foi até eles e Lee lhe entregou o bebê. Então, antes que ela conseguisse se afastar, ele a abraçou. Ela ficou em silêncio um instante dentro dos braços dele e depois moveu o bebê para poder abraçá-lo também com um dos braços. A boca de Lee estava enterrada no cabelo dela, e tive bastante certeza de saber o que dizia: as palavras russas que significam sinto muito. Não tive dúvida de que sentia. Sentiria da próxima vez, também. E da outra.
Marina levou June de volta para o quarto que fora de Rosette. Lee ficou um instante onde estava, depois foi até a geladeira, tirou alguma coisa e começou a comer.
7
No dia seguinte, mais tarde, bem na hora em que Lee e Marina se sentavam para jantar (June deitada no chão da sala de estar, chutando as pernas sobre um cobertor), Marguerite subiu a rua ofegante, vindo do ponto de ônibus da rua Winscott. Nessa noite ela usava calças azuis infelizes, considerando a largura generosa do traseiro. Trazia uma grande sacola de pano. Pelo alto saía o telhado de plástico vermelho de uma casinha de brinquedo. Ela subiu os degraus da varanda (mais uma vez evitando habilmente o defeituoso) e entrou sem bater.
Lutei contra a tentação de pegar o microfone direcional — essa era outra cena com a qual eu não precisava ter intimidade — e perdi. Não há nada tão fascinante quanto uma discussão em família, acho que Lev Tolstoi disse isso. Ou talvez tenha sido Jonathan Franzen. Na hora em que liguei tudo e mirei pela minha janela aberta a janela aberta do outro lado da rua, o barraco já ia a toda.
— ... quisesse que você soubesse onde a gente estava, eu teria lhe falado!
— Vada me contou, ela é uma boa menina — disse Marguerite placidamente. A fúria de Lee passou sobre ela como uma leve chuvinha de verão. Ela punha na bancada pratos descombinados com a rapidez de um crupiê de blackjack. Marina a olhava com espanto absoluto. A casinha de brinquedo estava no chão, ao lado da manta de bebê de June. Esta agitava as pernas e a ignorava. É claro que a ignorava. O que uma menina de quatro meses faria com uma casinha de brinquedo?
— Mãe, você tem de nos deixar em paz! Tem de parar de trazer coisas! Posso cuidar da minha família!
Marina acrescentou o seu pitaco:
— Mamutchka, Lee diz não.
Marguerite riu alegremente.
— “Lee diz não, Lee diz não.” Querida, Lee sempre diz não, esse rapazinho vem fazendo isso a vida inteira e não quer dizer nada. Mamãe cuida dele. — Ela beliscou a bochecha do filho do jeito que as mães beliscam a bochecha de um moleque de 6 anos que fez uma travessura inegavelmente fofinha. Se Marina tentasse, tenho certeza de que Lee a arrebentaria.
Em algum momento, as puladoras de corda chegaram à imitação careca de gramado. Observaram a discussão com a mesma atenção com que espectadores do Globe Theatre conferem as mais recentes ofertas de Shakespeare no setor de lugares em pé. Só que, na peça a que assistíamos, a megera acabaria vencedora.
— O que ela lhe preparou para o jantar, querido? Foi alguma coisa boa?
— Guisado. Jarkoie. Aquele sujeito, Gregory, mandou uns cupons da ShopRite. — A boca de Lee trabalhou. Marguerite esperou. — Quer um pouco, mãe?
— Jarkoie muito oquei, Mamutchka — disse Marina com um sorriso esperançoso.
— Não, eu não conseguiria comer nada assim — disse Marguerite.
— Inferno, mãe, você nem sabe o que é!
Foi como se ele não tivesse falado.
— Isso me reviraria o estômago. Além disso, não quero estar num ônibus da cidade depois das oito. Há bêbados demais depois das oito. Lee, querido, você precisa consertar aquele degrau antes que alguém quebre a perna.
Ele murmurou alguma coisa, mas a atenção de Marguerite se deslocara para outro lugar. Ela se abaixou como um falcão sobre um rato do campo e agarrou June. Com o meu binóculo, a expressão espantada do bebê foi inconfundível.
— Como está a minha GRACINHA hoje? Como está a minha QUERIDA? Como está a minha pequena DIEVUSHKA?
A pequena dievushka, apavorada, começou a berrar a plenos pulmões.
Lee fez um gesto para pegar o bebê. Os lábios vermelhos de Marguerite se descolaram dos dentes formando um possível sorriso, mas só se você quisesse ser caridoso. Para mim, parecia mais um rugido. O filho também deve ter achado, porque recuou. Marina mordia o lábio, os olhos arregalados de horror.
— Ooooh, Junie! Junie-Munie-SPUNIE!
Marguerite marchou de um lado para o outro pelo tapete verde puído, ignorando os gritos cada vez mais angustiados de June, assim como ignorara a raiva de Lee. Ela realmente se alimentava daqueles gritos? Assim me parecia. Depois de algum tempo, Marina não aguentou mais. Ela se levantou e foi até Marguerite, que se afastou dela, segurando o bebê junto ao peito. Mesmo do outro lado da rua, deu para imaginar o som dos seus grandes sapatos brancos de enfermeira: dud-clump-dud. Marina a seguiu. Marguerite, talvez sentindo que marcara posição, finalmente entregou o bebê. Apontou para Lee e depois falou com Marina com a voz alta de professora de inglês:
— Ele engordou... quando vocês estavam lá em casa... porque eu preparava para ele... tudo o que ele GOSTA... mas ele ainda está... MAGÉRRIMO... DEMAIS!
Marina a olhava por cima da cabeça do bebê, os lindos olhos arregalados. Marguerite ergueu os seus, com impaciência ou simples nojo, e enfrentou Marina. O Abajur Inclinado de Pisa estava aceso e a luz patinou pelas lentes dos óculos de gatinho de Marguerite.
— PREPARE PARA ELE... O QUE ELE COME! NADA... DE CREME... AZEDO! NADA... DE IOGRUTE! ELE ESTÁ... MAGRO... DEMAIS!
— Magro — disse Marina, em dúvida. Em segurança no colo da mãe, o choro de June se reduzia a soluços aguados.
— É! — disse Marguerite. Depois girou para Lee. — Conserte aquele degrau!
Com isso ela partiu, só parando para dar um grande beijo na cabeça da neta. Quando voltou andando para o ponto de ônibus, sorria. Parecia mais jovem.
8
Na manhã seguinte à noite em que Marguerite levou a casinha de brinquedo, acordei às seis. Fui até as cortinas fechadas e espiei pela fenda sem sequer pensar; espionar a casa do outro lado da rua virara hábito. Marina estava sentada numa das cadeiras de jardim, fumando um cigarro. Usava pijamas de rayon rosa-choque que eram grandes demais para ela. Estava com um novo olho roxo e havia pingos de sangue na camisa do pijama. Fumava devagar, inalando profundamente, e fitava o nada.
Depois de algum tempo, entrou de novo e preparou o café. Logo Lee veio e comeu. Não olhou para ela. Lia um livro.
9
Aquele sujeito, Gregory, mandou uns cupons da ShopRite , dissera Lee à mãe, talvez para explicar a carne do guisado, talvez só para lhe informar que ele e Marina não estavam sozinhos e sem amigos em Fort Worth. Isso parecia ter passado despercebido por Mamutchka, mas não passou despercebido por mim. Peter Gregory era o primeiro elo da corrente que levaria George de Mohrenschildt à rua Mercedes.
Como Mohrenschildt, Gregory era um expatriado russo do ramo petrolífero. Era da Sibéria e dava aulas de russo uma vez por semana na biblioteca de Fort Worth. Lee descobriu isso e marcou uma hora para ver se ele, Lee, arranjava serviço de tradutor. Gregory fez um teste com ele e achou o seu russo “passável”. Mas no que Gregory estava realmente interessado — no q u e todos os expatriados estavam interessados, Lee deve ter sentido — era na ex-Marina Prusakova, a moça de Minsk que conseguira escapar das garras do urso russo só para acabar nas de um grosseirão americano.
Lee não conseguiu o emprego; em vez dele, Gregory contratou Marina para dar aulas de russo ao filho Paul. Era um dinheiro de que os Oswald precisavam desesperadamente. Também era mais uma coisa para deixar Lee ressentido. Ela dava aulas a um garoto rico duas vezes por semana enquanto ele continuava montando portas de tela.
Na manhã em que observei Marina fumando na varanda, Paul Gregory, bonitão e mais ou menos da idade de Marina, chegou num Buick novo em folha. Bateu, e Marina, com maquiagem pesada que me fez lembrar Bobbi Jill, abriu a porta. Preocupada com a possessividade de Lee ou devido às regras de recato que aprendera em casa, ela lhe deu a aula na varanda. Durou uma hora e meia. June ficou entre os dois na sua manta e, quando chorava, os dois se revezavam segurando-a no colo. Era uma bela cena, embora o sr. Oswald provavelmente não concordasse.
Por volta do meio-dia, o pai de Paul parou atrás do Buick. Havia dois homens e duas mulheres com ele. Traziam mantimentos. O Gregory mais velho abraçou o filho e depois beijou Marina na bochecha (a que não estava inchada). Houve muita conversa em russo. O Gregory mais jovem se perdeu, mas Marina se achou: acendeu-se como um letreiro de neon. Ela os convidou a entrar. Logo estavam sentados na sala, tomando chá gelado e conversando. As mãos de Marina voavam como passarinhos animados. June passou de mão em mão e de colo em colo.
Fiquei fascinado. A comunidade de emigrados russos encontrara a mulher-menina que se tornaria a sua queridinha. E ela poderia ser outra coisa? Era jovem, era uma estranha numa terra estranha, era bonita. É claro que a bela estava casada com a fera — um jovem americano rude que batia nela (ruim) e que acreditava com paixão num sistema que essa gente de classe média alta rejeitara com a mesma paixão (muito pior).
Mas Lee aceitaria os seus mantimentos com ocasionais explosões de raiva apenas, e quando chegaram com móveis — uma cama nova, um berço rosa-choque para o bebê — ele também aceitou. Esperava que os russos o tirassem do buraco em que estava. Mas não gostava deles e, na época em que se mudou com a família para Dallas, em novembro de 1962, devia saber que os seus sentimentos eram calorosamente recíprocos. Por que gostariam dele?, deve ter pensado. Ele era ideologicamente puro. Eles eram covardes que tinham abandonado a Mãe Rússia quando ela estava de joelhos, em 1943, que tinham lambido as botas dos alemães e depois fugido para os Estados Unidos quando a guerra acabou e abraçado rapidamente o Modo de Vida Americano... que, para Oswald, significava o criptofascismo armamentista, opressor de minorias e explorador de trabalhadores.
Parte disso eu sabia pelas anotações de Al. A maior parte vi ser representada no palco do outro lado da rua ou deduzi da única conversa importante que o meu abajur grampeado captou e gravou.
10
Na noite de 25 de agosto, um sábado, Marina vestiu um belo vestido azul e enfiou June num macacão de fustão com flores aplicadas na frente. Lee, de cara azeda, saiu do quarto com um terno que tinha de ser o único. Era uma caixa de lã um tanto hilariante que só poderia ter sido feito na Rússia. Era uma noite quente e imaginei que ele estaria se contorcendo de suor antes que acabasse. Desceram com cuidado os degraus da varanda (o defeituoso ainda não fora consertado) e partiram para o ponto de ônibus. Entrei no carro e fui até a esquina da rua Mercedes com a Winscott. Dava para ver os três em pé junto ao poste telefônico com a listra branca pintada, discutindo. Grande surpresa. O ônibus veio. Os Oswald embarcaram. Fui atrás exatamente como fora atrás de Frank Dunning em Derry.
A história se repete é outra maneira de dizer que o passado se harmoniza.
Eles desceram do ônibus num bairro residencial no lado norte de Dallas. Estacionei e observei-os andarem até uma casa estilo Tudor de madeira e pedra, pequena mas bonita. Os lampiões de carruagem no final da entrada brilhavam suavemente no crepúsculo. Não havia capim nesse gramado. Tudo naquele lugar gritava Os Estados Unidos dão certo! Marina encabeçou o caminho até a casa com o bebê no colo, Lee se arrastando logo atrás, parecendo perdido no paletó jaquetão que pendia quase até os joelhos.
Marina empurrou Lee na sua frente e apontou a campainha. Ele tocou. Peter Gregory e o filho saíram e, quando June estendeu os braços para Paul, o rapaz riu e a pegou no colo. A boca de Lee se torceu para baixo ao ver isso.
Outro homem saiu. Reconheci-o do grupo que chegara no dia da primeira aula de russo de Paul Gregory, e ele voltara à casa dos Oswald três ou quatro vezes, levando mantimentos, brinquedos para June ou ambos. Eu tinha bastante certeza de que o nome dele era George Bouhe (é, outro George, o passado se harmoniza de várias maneiras) e, embora tivesse quase 60 anos, fiquei com a ideia de que estava seriamente apaixonado por Marina.
De acordo com o chapeiro de lanchonete que me pusera nessa, foi Bouhe que convenceu Peter Gregory a dar aquela festinha. George de Mohrenschildt não estava lá, mas saberia da festa logo depois. Bouhe lhe falaria dos Oswald e do seu casamento peculiar. Também contaria a Mohrenschildt que Lee Oswald fizera uma cena na festa, louvando o socialismo e os coletivos russos. O rapaz me parece maluco, diria Bouhe. Mohrenschildt, conhecedor vitalício de malucos, decidiria que teria de conhecer pessoalmente esse estranho casal.
Por que Oswald deu espetáculo na festa de Peter Gregory, ofendendo os bem-intencionados expatriados que poderiam ajudá-lo? Eu não sabia com certeza, mas fazia uma ideia bastante boa. Eis Marina, encantando a todos (principalmente os homens) no seu vestido azul. Eis June, linda como uma foto de bebê da Woolworth no seu macacãozinho de caridade com flores costuradas. E eis Lee, suando no seu terno feio. Ele acompanha melhor do que o jovem Paul Gregory o rápido sobe e desce do russo, mas no final ainda fica para trás. Deve ter-se enfurecido por ter de se prostrar diante dessas pessoas e comer o seu sal. Espero que sim. Espero que tenha doído.
Não me demorei. Estava preocupado com Mohrenschildt, o próximo elo da corrente. Logo entraria no palco. Enquanto isso, os três Oswald tinham finalmente saído do 2.703 e ficariam fora até as dez horas, pelo menos. Dado que o dia seguinte era domingo, talvez até mais tarde.
Voltei para ligar o microfone da sala deles.
11
A rua Mercedes festejava aquela noite de sábado, mas o campo atrás da chez Oswald estava deserto e silencioso. Achei que a minha chave funcionaria na porta dos fundos tão bem quanto na da frente, mas nunca precisei testar essa teoria, porque a porta dos fundos estava destrancada. Durante o tempo que passei em Fort Worth, não usei nenhuma vez a chave que comprara de Ivy Templeton. A vida é cheia de ironias.
O lugar estava dolorosamente arrumado. A cadeira alta fora colocada entre os assentos dos pais na pequena mesa da cozinha onde faziam as refeições, o tampo tão limpo que brilhava. O mesmo se podia dizer da superfície descascada da bancada e da pia com o anel de ferrugem da água calcária. Apostei comigo mesmo que Marina teria deixado as meninas de vestido de Rosette e fui ao quarto que agora era de June para conferir. Eu levara uma lanterna e a passei pelas paredes. Sim, ainda estavam lá, embora no escuro fossem mais fantasmagóricas do que alegres. June provavelmente as olhava quando ficava deitada no berço, chupando o sapatinho. Gostaria de saber se as recordaria mais tarde, em algum nível profundo da mente. Meninas-fantasma de lápis de cera.
Jimla, pensei sem razão nenhuma, e tremi.
Afastei a cômoda, prendi o fio do microfone à tomada do abajur e o passei pelo furo que abrira na parede. Tudo bem, mas então tive um mau momento. Muito mau. Quando empurrei a cômoda de volta para o lugar, ela bateu na parede e o Abajur Inclinado de Pisa caiu.
Se eu tivesse tempo de pensar, teria ficado paralisado e a maldita coisa se espatifaria no chão. E depois? Retirar o microfone e deixar os cacos? Torcer para que aceitassem a ideia de que o abajur, já instável, caíra sozinho? A maioria engoliria essa, mas a maioria não tem razões para ficar paranoico com o FBI. Lee poderia achar o furo que eu abrira na parede. Se achasse, a borboleta abriria as asas.
Mas não tive tempo de pensar. Estendi a mão e peguei o abajur no meio do caminho. Então só fiquei ali, segurando-o e tremendo. A casinha estava um forno e eu conseguia sentir o fedor do meu próprio suor. Eles o sentiriam quando voltassem? Como poderiam não sentir?
Achei que estava maluco. Sem dúvida o mais inteligente seria remover o microfone... e depois remover a mim mesmo. Eu poderia retomar o contato com Oswald em 10 de abril do ano seguinte, observá-lo tentando assassinar o general Edwin Walker e, se estivesse sozinho, poderia matá-lo como matara Frank Dunning. Quanto mais simples melhor, como dizem nas reuniões dos AA de Christy. Por que, em nome de Deus, eu me metia com um abajur grampeado de brechó quando o futuro do mundo estava em jogo?
Foi Al Templeton que respondeu. Você está aí porque a janela de incerteza ainda está aberta. Você está aí porque, se George de Mohrenschildt for mais do que parece, talvez não tenha sido Oswald. Você está aí para salvar Kennedy, e ter certeza começa agora. Então ponha no lugar essa merda desse abajur.
Pus o abajur de volta no lugar, embora a sua instabilidade me preocupasse. E se o próprio Lee o derrubasse da cômoda e visse o microfone dentro quando a base de cerâmica se espatifasse? Aliás, e se Lee e Mohrenschildt conversassem nesta sala, mas com o abajur desligado e com voz baixa demais para o meu microfone de longa distância captar? Então tudo teria sido à toa.
Você nunca vai fazer uma omelete pensando assim, colega.
O que me convenceu foi pensar em Sadie. Eu a amava e ela me amava — pelo menos, me amara — e eu jogara tudo fora para ir para essa rua de merda. E, Jesus, eu não iria embora sem ao menos tentar escutar o que George de Mohrenschildt teria a dizer por si.
Esgueirei-me pela porta dos fundos e, com a lanterna presa nos dentes, liguei o fio do microfone no gravador. Enfiei o gravador numa lata de margarina enferrujada para protegê-lo dos elementos e depois o escondi no pequeno ninho de tábuas e tijolos que já preparara.
Então voltei à merda da minha casinha na merda daquela ruazinha e comecei a esperar.
12
Eles nunca usavam o abajur até ficar quase escuro demais para enxergar. Para poupar na conta de luz, acho. Além disso, Lee era operário. Ia dormir cedo e ela ia com ele. A primeira vez que conferi a fita, o que ouvi era principalmente russo — e russo arrastado, aliás, dada a velocidade superlenta do gravador. Quando Marina experimentava o vocabulário em inglês, Lee a repreendia. Ainda assim, às vezes ele falava inglês com June quando a menina ficava agitada, sempre em voz baixa e calmante. Às vezes até cantava para ela. As gravações superlentas o faziam soar como um ogro tentando cantar.
Duas vezes o escutei bater em Marina, e da segunda vez o russo não bastou para exprimir a sua fúria. “Sua boceta inútil e chata! Vou acabar achando que a minha mãe tinha razão!” Isso foi seguido pelo bater de uma porta e pelo som de Marina chorando. Foi cortado de repente quando ela apagou o abajur.
Na noite de 4 de setembro, vi um garoto de uns 13 anos ir à porta dos Oswald com um saco de lona no ombro. Lee, descalço e vestido de jeans e camiseta, abriu a porta. Eles falaram. Lee o convidou a entrar. Falaram um pouco mais. Em certo momento, Lee pegou um livro e o mostrou ao garoto, que o olhou desconfiado. Não havia como usar o microfone direcional, porque o tempo esfriara e as janelas da outra casa estavam fechadas. Mas o Abajur Inclinado de Pisa estava ligado e, quando recuperei a segunda fita tarde da noite no dia seguinte, fui obsequiado com uma conversa divertida. Na terceira vez que toquei, mal ouvi o arrastado lento das vozes.
O garoto vendia assinaturas de um jornal — ou talvez fosse uma revista — chamado Grit. Informou aos Oswald que tinha todo tipo de notícia interessante a que os jornais de Nova York não davam importância (ele as rotulou de “notícias do interior”), mais esportes e dicas de jardinagem. Também tinha o que ele chamou de “histórias de ficção” e quadrinhos.
— O senhor não vê Dixie Dugan no Times Herald — informou. — A minha mãe adora Dixie.
— Bom, filho, isso é bom — disse Lee. — Você é um pequeno empresário e tanto, não é?
— Hã... senhor?
— Me diga quanto ganha.
— Só recebo quatro de cada dez centavos, mas não é isso que importa, senhor. O que eu mais gosto são os prêmios. São muito melhores do que os que a gente ganha vendendo pomada Cloverine. Já pensou? Eu vou ganhar uma 22! O meu pai disse que posso ficar com ela.
— Filho, sabia que está sendo explorado?
— Hem?
— Eles ficam com o dinheiro. Você ganha centavos e a promessa de uma espingarda.
— Lee, ele bom menino — disse Marina. — Seja bom. Deixe pra lá.
Lee a ignorou.
— Você precisa saber o que há neste livro, filho. Consegue ler o que está na capa?
— Ah, consigo sim, senhor. Diz A condição da classe operária, de Friedrich... Engeles?
— Engels. Fala do que acontece com meninos que acham que vão ficar milionários vendendo de porta em porta.
— Não quero ser nenhum milionário — retrucou o menino. — Só quero uma 22 para acertar os ratos do lixão como o meu amigo Hank.
— Você ganha centavos vendendo os jornais deles; eles ganham dólares vendendo o seu suor, e o suor de um milhão de meninos como você. O mercado livre não é livre. Você precisa se instruir, filho. Eu me instruí, e comecei quando tinha bem a sua idade.
Lee fez ao vendedor de Grit uma palestra de dez minutos sobre os males do capitalismo, inclusive com citações selecionadas de Karl Marx. O menino escutou com paciência e depois perguntou:
— Então o senhor vai comprar a sinatura?
— Filho, você escutou alguma palavra do que eu disse?
— Sim, senhor!
— Então deveria saber que este sistema roubou de mim como está roubando de você e da sua família.
— O senhor está falido? Por que não disse logo?
— O que estou tentando fazer é lhe explicar por que estou falido.
— Ah, que droga! Eu poderia ter batido em mais três portas, mas agora tenho de ir para casa porque está quase na minha hora!
— Boa sorte — disse Marina.
A porta da frente gritou ao se abrir nas velhas dobradiças e depois chocalhou para fechar (estava cansada demais para bater). Houve um longo silêncio. Então Lee disse, com voz monótona:
— Viu? É isso que enfrentamos.
Não demorou muito e o abajur foi apagado.
13
O meu novo telefone ficava quase sempre em silêncio. Deke ligou uma vez — uma daquelas ligações rápidas e obrigatórias tipo como vai —, mas foi tudo. Disse a mim mesmo que não podia esperar mais. As aulas tinham recomeçado e as primeiras semanas eram sempre afobadíssimas. Deke estava ocupado porque a dona Ellie o tirara da aposentadoria. Ele me disse que, depois de resmungar um pouco, deixara que ela pusesse o seu nome na lista de substitutos. Ellie não telefonava porque tinha 5 mil coisas para fazer e, provavelmente, quinhentos fogos no mato para apagar.
Só depois que Deke desligou percebi que ele não mencionara Sadie... e duas noites depois da palestra de Lee ao vendedor de jornais, decidi que tinha de falar com ela. Tinha de ouvir a sua voz, mesmo que tudo o que ela dissesse fosse Por favor, não me telefone, George, acabou.
Quando estendi a mão, o telefone tocou. Atendi e disse, com absoluta certeza:
— Alô, Sadie. Alô, querida.
14
Houve um momento de silêncio longo o bastante para eu pensar que me enganara, afinal de contas, que alguém ia dizer Não sou Sadie, sou apenas um idiota que discou o número errado . Então ela disse:
— Como sabia que era eu?
Quase respondi harmonia, e ela talvez entendesse. Mas talvez não fosse suficiente. Essa ligação era importante e eu não queria estragar tudo. Desesperadamente, não queria estragar tudo. Durante quase tudo o que se seguiu, havia dois eus ao telefone, o George que falava em voz alta e Jake por dentro, dizendo tudo o que George não podia dizer. Talvez sempre haja dois em cada ponta da conversa quando o bom amor pende na balança.
— Porque pensei em você o dia inteiro — respondi. (Estou pensando em você o verão inteiro.)
— Como vai?
— Vou bem. (Solitário.) — E você? Como foi o verão? Conseguiu? (Desfez os laços legais com o seu estranho marido?)
— Consegui — disse ela. — Negócio fechado. Não é uma das coisas que você diz, George? Negócio fechado?
— Acho que é. E a escola? Como vai a biblioteca?
— George? Vamos conversar assim ou vamos conversar?
— Tudo bem. — Sentei-me no meu sofá de segunda mão cheio de calombos. — Vamos conversar. Você está bem?
— Estou, mas infeliz. E muito confusa. — Ela hesitou e disse: — Eu estava trabalhando no Harrah’s, provavelmente você sabe disso. Como garçonete, servindo coquetéis. E conheci alguém.
— É? (Ah, merda.)
— É. Um homem muito legal. Encantador. Um cavalheiro. Pouco menos de 40 anos. O nome dele é Roger Beaton. É assessor de Tom Kuchel, senador republicano pela Califórnia. É o flagelo da minoria no Senado, sabe. Kuchel, quero dizer, não Roger. — Ela riu, mas não do jeito que a gente ri quando algo é engraçado.
— Eu deveria ficar contente porque você conheceu alguém legal?
— Não sei, George... Você está contente?
— Não. (Mato ele.)
— Roger é bonito — disse ela com uma voz calma de esse-é-um-fato. — É agradável. Se formou em Yale. Sabe como fazer uma garota se divertir. E é alto.
O segundo eu não consegui mais ficar calado.
— Mato ele.
Isso a fez rir, e o som do riso foi um alívio.
— Não estou lhe contando isso para ferir você nem para que você se sinta mal.
— É mesmo? Então por que está me contando?
— Saímos três ou quatro vezes. Ele me beijou... namoramos um pouco... só bolinando, como crianças...
(Não quero só matar, quero que seja bem devagar.)
— Mas não foi a mesma coisa. Talvez pudesse ser, com o tempo; talvez não. Ele me deu o telefone dele em Washington e me disse para ligar se eu... como foi que ele disse? “Caso você se canse de arrumar livros e carregar a tocha para quem foi embora.” Acho que foi mais ou menos isso. Ele diz que viaja muito e que precisa de uma boa mulher que vá com ele. Achou que eu poderia ser essa mulher. É claro que os homens dizem coisas assim. Não sou tão ingênua quanto já fui. Mas às vezes falam sério.
— Sadie...
— Mas nem assim foi a mesma coisa. — Ela soava pensativa, ausente, e, pela primeira vez, me perguntei se, além da dúvida sobre a vida pessoal, poderia haver algo errado com ela. Se poderia estar doente. — Pelo lado bom, não havia nenhuma vassoura à mostra. É claro que às vezes os homens escondem a vassoura, não é? Johnny escondeu. Você também, George.
— Sadie?
— Sim?
— Você está escondendo uma vassoura?
Houve um longo momento de silêncio. Muito mais longo do que aquele quando atendi o telefone dizendo o nome dela, e muito mais longo do que eu esperava. Finalmente, ela disse:
— Não sei o que quer dizer.
— Você não parece você, é tudo.
— Já lhe disse, estou muito confusa. E triste. Porque você ainda não está disposto a me contar a verdade, não é?
— Se pudesse, eu contaria.
— Quer saber algo interessante? Você tem bons amigos em Jodie, não só eu, e nenhum deles sabe onde você mora.
— Sadie...
— Você diz que é em Dallas, mas você está no código de Elmhurst, e Elmhurst fica em Fort Worth.
Nunca pensara nisso. Em que mais eu não pensara?
— Sadie, só posso lhe dizer que o que estou fazendo é muito impor...
— Ah, disso eu tenho certeza. E o que o senador Kuchel está fazendo também é muito importante. Roger se esforçou muito para me dizer isso e para me contar que, se eu... se eu fosse ficar com ele em Washington, estaria praticamente sentada aos pés da grandeza... ou no portal da história... ou algo assim. O poder o empolga. Foi uma das poucas coisas difíceis de gostar nele. O que pensei... o que ainda penso... é: quem sou eu para me sentar aos pés da grandeza? Sou apenas uma bibliotecária divorciada.
— Quem sou eu para ficar no portal da história? — perguntei.
— O quê? O que você disse, George?
— Nada, querida.
— Talvez fosse melhor você não me chamar assim.
— Desculpe. — Desculpe nada. — Sobre o que exatamente estamos conversando?
— Você e eu e se isso ainda nos torna um nós ou não. Ajudaria se você me dissesse por que está no Texas. Porque sei que você não veio escrever um livro nem dar aulas em escolas.
— Contar a você pode ser perigoso.
— Estamos todos em perigo — disse ela. — Nisso, Johnny tem razão. Devo lhe contar algo que Roger me contou?
— Tudo bem. — Onde ele lhe contou, Sadie? E vocês estavam na vertical ou na horizontal quando a conversa aconteceu?
— Ele tomara um ou dois drinques e ficou falador. Estávamos no quarto de hotel dele, mas não se preocupe; fiquei com os pés no chão e todas as roupas no corpo.
— Eu não fiquei preocupado.
— Se não ficou, estou desapontada com você.
— Tudo bem, fiquei preocupado. O que ele disse?
— Ele disse que corre o boato de que haverá alguma coisa grande no Caribe agora no outono ou no inverno. Um ponto de fulgor, foi o que disse. Suponho que queria dizer Cuba. Ele disse: “Aquele idiota do JFK vai pôr todos nós na sopa só pra provar que tem colhão.”
Eu me lembrei de todo aquele lixo sobre fim do mundo que o ex-marido despejara nos ouvidos dela. Qualquer um que ler o jornal verá que está chegando, dissera. Morreremos com feridas por todo o corpo, tossindo os bofes para fora. Coisas assim que deixam uma impressão, ainda mais quando ditas com um tom de voz de certeza seca e científica. Deixam uma impressão? Uma cicatriz é mais provável.
— Sadie, isso é bobagem.
— É? — Ela soou irritada. — Suponho que você tenha informações privilegiadas e o senador Kuchel não?
— Digamos que sim.
— Digamos que não. Esperarei um pouco mais para você limpar a sua ficha, mas não muito. Talvez só porque você dança bem.
— Então vamos dançar! — disse eu, de um jeito meio maluco.
— Boa noite, George.
E, antes que eu conseguisse dizer mais alguma coisa, ela desligou.
15
Comecei a ligar de volta para ela, mas quando a telefonista disse “Número, por favor?” a sanidade se reafirmou. Repus o fone no gancho. Ela dissera o que precisava dizer. Tentar forçá-la a dizer mais só pioraria a situação.
Tentei afirmar a mim mesmo que o telefonema dela fora apenas um estratagema para me
forçar a agir, um tipo de fale por si, John Alden.5 Não podia dar certo porque Sadie não era assim. Parecia mais um grito de socorro.
Peguei o telefone de novo e, dessa vez, quando a telefonista pediu, lhe dei o número. O telefone tocou duas vezes do outro lado e então Ellen Dockerty disse:
— Alô! Quem fala?
— Oi, dona Ellie. Sou eu. George.
Talvez aquela coisa de momento de silêncio fosse contagioso. Esperei. Então ela disse:
— Olá, George. Andei me esquecendo de você, não é? É só que estou terrivelmente...
— Ocupada, claro. Sei como são as primeiras semanas, Ellie. Liguei porque Sadie acabou de me telefonar.
— É? — Ela soava muito cautelosa.
— Se você lhe disse que o meu número tinha código de Fort Worth e não de Dallas, tudo bem.
— Não foi fofoca. Espero que entenda isso. Achei que ela tinha o direito de saber. Fico preocupada com Sadie. É claro que me preocupo com você também, George... mas você foi embora. Ela, não.
E u entendia, embora doesse. A sensação de estar numa cápsula espacial rumo às profundezas distantes voltou.
— Tudo bem, Ellie, e na verdade não foi uma grande mentira. Logo vou me mudar para Dallas.
Nenhuma resposta, e o que ela poderia dizer? Talvez mude, mas ambos sabemos que você mente?
— Não gostei do jeito da voz dela. Acha que ela está bem?
— Não sei se quero responder a essa pergunta. Se eu disser que não, você pode vir correndo vê-la, e ela não quer ver você. Não nesta situação.
Na verdade, ela respondera à minha pergunta.
— Ela estava bem quando voltou?
— Estava. Contente de nos rever.
— Mas agora parece distraída e diz que se sente triste.
— É tão surpreendente assim? — A srta. Ellie falava com aspereza. — Aqui há um monte de lembranças para Sadie, muitas ligadas a um homem por quem ela ainda tem sentimentos. Um bom homem e um professor maravilhoso, mas que chegou portando uma bandeira falsa.
Essa doeu mesmo.
— Parecia outra coisa. Ela falou de algum tipo de crise iminente que ouviu de... — De um formado em Yale sentado no portal da história? — De alguém que conheceu em Nevada. O marido dela lhe encheu a cabeça com um monte de bobagens...
— A cabeça? A sua linda cabecinha? — Nada de aspereza agora; raiva pura e simples. Fiquei me sentindo pequeno e mau. — George, tenho uma pilha de pastas com um quilômetro de altura na minha frente e tenho de trabalhar. Não dá para psicanalisar Sadie Dunhill a distância e não posso ajudá-lo com a sua vida amorosa. A única coisa que posso lhe aconselhar é que explique tudo, se é que se preocupa com ela. E antes cedo do que tarde.
— Você não viu o marido dela por aí, não é?
— Não! Boa noite, George!
Pela segunda vez na mesma noite, uma mulher de quem eu gostava me bateu o telefone na cara. Esse foi um novo recorde pessoal.
Fui para o quarto e comecei a me despir. Bem quando chegou. Contente de rever todos os amigos de Jodie. Não tão bem agora. Porque estava dilacerada entre o belo sujeito novo no caminho veloz rumo ao sucesso e o estranho alto e moreno de passado invisível? Provavelmente assim seria numa novela romântica, mas se assim fosse aqui por que ela não estava triste quando voltou?
Um pensamento desagradável me ocorreu: talvez estivesse bebendo. Muito. Em segredo. Não seria possível? A minha mulher bebera em segredo durante anos — antes que eu me casasse com ela, na verdade — e o passado se harmoniza. Seria fácil descartar isso, dizer que a dona Ellie teria percebido os sintomas, mas os bêbados sabem ser espertos. Às vezes, leva anos para os outros começarem a perceber. Se Sadie chegasse para trabalhar na hora certa, talvez Ellie não notasse que os olhos estavam injetados e o hálito era de bala de hortelã.
Provavelmente a ideia era ridícula. Todas as minhas suposições eram suspeitas, cada uma delas tingida pelo tanto que me preocupava com Sadie.
Fiquei deitado na cama, olhando o teto. Na sala, a estufa a querosene gorgolejou — era outra noite fria.
Deixe pra lá, colega, disse Al. Tem de deixar. Lembre-se, você não está aqui para ganhar...
A moça, o relógio de ouro e tudo o mais. Tá, Al, entendi.
Além disso, provavelmente ela está bem. É você quem está com um problema.
Mais do que um, na verdade, e demorei muito tempo para adormecer.
16
Na segunda-feira seguinte, quando dei uma das minhas passadas regulares pela rua West Neely, 214, em Dallas, notei um comprido carro fúnebre cinzento estacionado na entrada. As duas senhoras gordas estavam em pé na varanda observando alguns homens de terno escuro porem uma maca na traseira. Nela havia uma forma amortalhada. Na sacada de aparência instável acima da varanda, o jovem casal do apartamento de cima também observava. O filho mais novo dormia no colo da mãe.
A cadeira de rodas com o cinzeiro preso ao braço estava órfã debaixo da árvore onde o velho passara quase todos os seus dias naquele verão.
Parei e fiquei ao lado do carro até o rabecão partir. Então (embora eu percebesse que o momento era bastante, digamos, grosseiro), atravessei a rua e subi o caminho até a varanda. No pé da escada, toquei o chapéu.
— Senhoras, sinto muito pela perda.
A mais velha das duas — a esposa que agora era viúva, supus — disse:
— O senhor já esteve aqui.
Estive mesmo, pensei em dizer. Essa coisa é maior do que futebol profissional.
— Ele viu o senhor. — Sem acusação; apenas declarando um fato.
— Estou procurando um apartamento neste bairro. As senhoras vão ficar com esse?
— Não — disse a mais jovem. — Ele tinha um seguro. Quase a única coisa que tinha. Fora umas medalhas numa caixa. — Ela fungou. Vou lhe dizer, fiquei com o coração um pouco partido ao ver como aquelas duas senhoras estavam pesarosas.
— Ele disse que o senhor era um fantasma — me declarou a viúva. — Disse que podia ver através do senhor. Claro que era mais maluco que um rato na latrina. Nos últimos três anos, desde que teve um derrame e puseram ele naquela bolsa de mijo. Eu e Ida vamos voltar pro Oklahoma.
Que tal Mozelle?, pensei. É para onde todo mundo vai quando larga o apartamento.
— O que quer? — perguntou a mais nova. — Temos de levar um terno pra ele lá na funerária.
— Gostaria do telefone do senhorio — respondi.
Os olhos da viúva faiscaram.
— Quanto ele vale para o senhor?
— Eu lhe dou de graça! — disse a moça na sacada do segundo andar.
A filha pesarosa olhou para cima e lhe disse que fechasse a merda da boca. Dallas era assim. Derry também.
Amistosa.
5 O carpinteiro naval inglês John Alden (1599-1687) chegou à América do Norte a bordo do navio Mayflower e se apaixonou por Priscilla Mullins (1602-1685), que também viera no navio. O capitão Miles Standish (1584-1656), também apaixonado pela moça e sem saber que o outro era seu rival, pede ao amigo Alden que fale à moça do seu amor. John cumpre a missão, mas quando acaba de falar em nome do capitão a moça lhe pede: “Fale por si, John Alden.” John e Priscilla acabaram se casando. O triângulo amoroso ficou famoso com o poema de 1858 “The Courtship of Miles Standish” (A corte de Miles Standish), do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow. (N. da T.)