Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 6 de 35

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Novembro de 63

Segunda Parte - O Pai do Zelador

SEGUNDA PARTE

 

O PAI DO ZELADOR

CAPÍTULO 5

1

Caminhei pela lateral do barracão de secagem, como antes. Passei debaixo da corrente com a placa PASSAGEM PROIBIDA ALÉM DESTE PONTO pendurada, exatamente como antes. Contornei o canto do grande cubo do prédio pintado de verde exatamente como antes, e então alguma coisa bateu em mim. Não sou muito pesado para a minha altura, mas tenho carne por cima dos ossos — “Você o vento não leva”, costumava dizer o meu pai —, e ainda assim o Homem do Cartão Amarelo quase me derrubou. Era como ser atacado por um sobretudo preto cheio de passarinhos batendo asas. Ele berrava alguma coisa, mas eu estava espantado demais (não assustado, exatamente, foi rápido demais para isso) para ter ideia do que fosse.

Empurrei-o e ele caiu contra o barracão de secagem com o casaco se enrolando nas pernas. Ouviu-se um bonc quando a parte de trás da cabeça bateu no metal, e o chapéu imundo tombou no chão. Ele foi atrás, mas não tombou; caiu num tipo de colapso sanfonado. Fiquei arrependido do que fiz antes mesmo de o meu coração ter oportunidade de se acalmar num ritmo mais normal, e mais arrependido ainda quando ele pegou o chapéu e começou a escová-lo com a mão suja. O chapéu nunca ficaria limpo de novo e, com toda probabilidade, nem ele.

— O senhor está bem? — perguntei, mas quando me curvei para tocar o seu ombro, ele se afastou rapidamente de mim pela lateral do barracão, empurrando com as mãos e deslizando o traseiro. Eu ia dizer que ele parecia uma aranha aleijada, mas não. Parecia ser o que era: um pé de cana com o cérebro de úmido a encharcado. Um homem que podia estar tão perto da morte quanto Al Templeton, porque nesses Estados Unidos de cinquenta e tantos anos atrás provavelmente não havia abrigos de caridade nem centros de reabilitação para sujeitos como ele. O Departamento de Veteranos talvez o aceitasse caso já tivesse vestido farda, mas quem o levaria lá? Ninguém, provavelmente, embora alguém — um capataz da fábrica, seria de se esperar — fosse capaz de chamar a polícia contra ele. Iam deixá-lo no depósito de bêbados durante 24 ou 48 horas. Se não morresse de convulsões provocadas pelo delirium tremens enquanto estivesse lá, o soltariam para começar o próximo ciclo. Percebi que gostaria que a minha ex-mulher estivesse ali; ela encontraria uma reunião do AA e o levaria lá. Só que Christy só nasceria dali a vinte e um anos.

Pus a pasta entre os pés e ergui as mãos para lhe mostrar que estavam vazias, mas ele se encolheu e se afastou mais pela lateral do barracão de secagem. O cuspe brilhava no queixo malbarbeado. Olhei em volta para me garantir que não estávamos chamando atenção, vi que essa parte do pátio era só nossa e tentei de novo.

— Só empurrei porque o senhor me deu um susto.

— Quem diabos você é? — perguntou ele, a voz se rachando por uns cinco registros diferentes. Se eu não tivesse escutado a pergunta na última visita, não faria a mínima ideia do que perguntava... e, embora o jeito arrastado de falar fosse o mesmo, a inflexão não era um pouquinho diferente desta vez? Não tive certeza, mas achei que sim. Ele é inofensivo, mas não é como os outros, dissera Al. É como se soubesse alguma coisa. Al achou que era porque, por acaso, ele tomava sol perto da toca de coelho às 11h58 da manhã de 9 de setembro de 1958 e ficou suscetível à sua influência. Do jeito que podemos produzir estática na tela da TV se ligarmos um mixer perto dela. Talvez fosse isso. Ou então, inferno, talvez fosse só a bebida.

— Ninguém importante — disse eu na minha voz mais tranquilizadora. — Ninguém que mereça a sua preocupação. O meu nome é George. Qual é o seu?

— Filho da puta! — grunhiu ele, e se afastou ainda mais de mim. Se o seu nome era esse, era mesmo muito incomum. — Você não devia estar aqui!

— Não se preocupe, já estou indo — respondi. Peguei a pasta para demonstrar a minha sinceridade, e ele ergueu os ombros magros até as orelhas, como se esperasse que eu a jogasse nele. Era como um cachorro que apanhou tanto que não espera outro tratamento. — Sem danos nem prejuízos, certo?

— Vá embora, seu truculento! Volte para onde veio e me deixe em paz!

— Trato feito. — Eu ainda me recuperava do susto que ele me dera, e a adrenalina residual não se misturou bem com a pena que eu sentia — sem falar da exasperação. A mesma exasperação que senti com Christy quando cheguei em casa e descobri que ela estava caindo de bêbada outra vez, apesar de todas as promessas de se recuperar, de andar direito e de largar o goró de uma vez por todas. A combinação de emoções somada ao calor desse meio-dia de fim de verão estava me deixando meio nauseado. Talvez não fosse a melhor maneira de começar uma missão de resgate.

Pensei na Kennebec Fruit e em como fora boa aquela root beer; pude ver a baforada de vapor do congelador de sorvetes quando Frank Anicetti pai tirara a canecona. Também estivera abençoadamente fresco lá. Parti naquela direção sem mais delongas, a minha pasta nova (mas cuidadosamente envelhecida nas bordas) batendo no lado do joelho.

— Ei! Ei, seu seiláquem!

Eu me virei. O bebum tentava se levantar usando como apoio a lateral do barracão de secagem. Agarrara o chapéu e o segurava amassado contra o meio do corpo. Então começou a remexer nele.

— Tenho um cartão amarelo da fachada verde, então me dê um dólar, seu filho da puta. Hoje é dia de grana dupla.

Estávamos de volta à mensagem. Isso foi confortador. Ainda assim, me esforcei para não me aproximar demais dele. Não queria assustá-lo nem provocar outro ataque. Parei a dois metros de distância e estendi a mão. A moeda que Al me dera luzia na palma.

— Um dólar não posso gastar, mas tome cinquentinha.

Ele hesitou, agora segurando o chapéu na mão esquerda.

— É melhor não foder nada.

— Tentador, mas acho que consigo resistir.

— Hem? — Ele passou os olhos da moeda de cinquenta centavos para o meu rosto, depois de volta para o dinheiro. Ergueu a mão direita para limpar do queixo o fio de saliva, e vi outra diferença de antes. Nada de abalar o mundo, mas o bastante para me fazer duvidar da solidez da afirmativa de Al de que cada vez era um recomeço do zero.

— Não me importa se você vai pegar ou largar, mas decida-se — disse eu. — Tenho mais o que fazer.

Ele guardou a moeda e depois se encolheu de novo contra o barracão de secagem. Os olhos estavam úmidos e arregalados. O fio de baba ressurgira no queixo. Realmente não há nada no mundo que possa se igualar ao glamour de um alcoólatra no último estágio; não entendo por que a Jim Beam, a Seagram’s e a Mike’s Hard Lemonade não o usam nos seus anúncios de revista. Beba Beam e veja uma classe melhor de insetos.

— Quem é você? O que está fazendo aqui?

— Um serviço, espero. Escute, já experimentou o AA para esse probleminha que você tem com a beb...

— Foda-se, Jimla!

Eu não fazia a mínima ideia do que era jimla, mas o foda-se veio alto e claro. Segui para o portão, esperando que ele me fizesse mais perguntas. Não fizera antes, mas este encontro fora muito diferente.

Porque ele não era o Homem do Cartão Amarelo, não dessa vez. Quando ergueu a mão para limpar o queixo, o cartão fechado nela não era mais amarelo.

Dessa vez, era de um alaranjado sujo, mas ainda vivo.

2

Segui pelo estacionamento da fábrica, dando novamente um tapinha no capô do Plymouth Fury branco e vermelho para dar sorte. Sem dúvida precisaria de toda a sorte que conseguisse arranjar. Atravessei os trilhos da ferrovia, escutando de novo o uuff-chuff de um trem, só que desta vez parecia um pouco mais distante, porque desta vez o meu encontro com o Homem do Cartão Amarelo — que agora era o Homem do Cartão Laranja — levara um pouco mais de tempo. O ar fedia ao efluente da fábrica como antes, e o mesmo ônibus urbano fungou ao passar. Como desta vez eu estava um pouco atrasado, não consegui ler o letreiro, mas lembrei o que dizia: LEWISTON EXPRESS. Quantas vezes será que Al viu esse mesmo ônibus, com os mesmos passageiros olhando pela janela?

Atravessei a rua apressado, acenando para dissipar o melhor possível a nuvem azul da exaustão do ônibus. O roqueiro rebelde estava no seu posto junto à porta, e pensei rapidamente no que ele diria se eu lhe roubasse a fala. Mas, de certa maneira, isso seria tão cruel quanto aterrorizar de propósito o pé de cana do barracão de secagem; quando se rouba a língua secreta que pertence a garotos como esse, não lhes resta muito. Esse não podia sequer voltar e socar o Xbox. Então, só cumprimentei com a cabeça.

Ele cumprimentou de volta.

— Alô-ô, bacana.

Entrei. O sino tocou. Passei pelas ofertas de quadrinhos e fui diretamente para a máquina de refrigerante, onde estava Frank Anicetti pai.

— Em que posso ajudar hoje, amigo?

Por um momento fiquei perplexo, porque não fora isso que ele dissera antes. Então percebi que não seria mesmo. Da vez anterior, eu pegara um jornal na estante. Desta vez, não. Talvez cada viagem de volta a 1958 reiniciasse o odômetro todo em zero (com exceção do Homem do Cartão Amarelo), mas assim que a gente variasse alguma coisa, tudo também poderia mudar. A ideia era ao mesmo tempo apavorante e libertadora.

— Eu gostaria de uma root beer — respondi.

— E eu gostaria de lhe servir, logo as ideias se combinam. De cinco ou de dez centavos?

— Dez, acho.

— Pois acho que você achou certo.

A caneca coberta de gelo saiu da geladeira. Ele usou o cabo da colher de pau para limpar a espuma. Encheu-a até o alto e a colocou na minha frente. Igualzinho a antes.

— Cinco centavos mais um para o governador.

Entreguei um dos dólares antigos de Al e, enquanto Frank 1.0 pegava o troco, olhei por sobre o ombro e vi o ex-Homem do Cartão Amarelo em pé diante da loja de bebidas — a fachada verde —, cambaleando de um lado para o outro. Ele me fez pensar num faquir hinduísta que vira num filme antigo, tocando um instrumento de sopro para convencer uma cobra a sair do cesto. E, vindo pela calçada, bem na hora, estava Anicetti, o Jovem.

Virei-me de novo, dei um gole na root beer e suspirei.

— Isso é o máximo.

— É, nada como uma cerveja gelada num dia quente. Não é daqui o senhor?

— Não, sou do Wisconsin. — Estendi a mão. — George Amberson.

Ele a apertou quando o sino sobre a porta retiniu.

— Frank Anicetti. E aí vem o meu garoto. Frank Júnior. Diga olá ao sr. Amberson, de Wisconsin, Frankie.

— Olá, senhor. — Ele me deu um sorriso e um cumprimento de cabeça e depois se virou para o pai. — Titus pôs a camionete no macaco. Disse que fica pronta às cinco.

— Ora, isso é bom. — Esperei Anicetti 1.0 acender o cigarro e não me desapontei. Ele inalou e se virou de novo para mim. — Está viajando a negócios ou por prazer?

Por um instante não respondi, mas não porque não tivesse resposta. O que me espantava era o jeito como a cena não parava de divergir do roteiro original e depois voltava a ele. Fosse como fosse, Anicetti não parecia notar.

— Não importa, porque o senhor escolheu a hora certa para vir. A maioria dos veranistas já se foi e, assim que isso acontece, todos relaxamos. Quer uma bola de baunilha na cerveja? Em

geral são cinco centavos a mais, mas nas terças-feiras reduzo o preço para um níquel.2

— Você já gastou essa dez anos atrás, pai — disse Frank Júnior amistosamente.

— Obrigado, assim está bom — disse eu. — Na verdade, vim a negócios. Uns imóveis à venda em... Sabattus? Acho que é isso. Conhece a cidade?

— Só a minha vida inteira — respondeu Frank. Ele soltou fumaça pelas narinas e me deu um olhar astuto. — É longe para vir negociar imóveis.

Devolvi um sorriso que pretendia dizer ah, se você soubesse o que sei. Deve ter passado a mensagem, porque ele me deu uma piscadela. O sino sobre a porta tilintou e as senhoras compradoras de frutas entraram. O relógio de parede TOME CAFÉ ALEGRIA dizia 12h28. Aparentemente, a parte do roteiro em que Frank Júnior e eu discutíamos o conto de Shirley Jackson fora cortada desse esboço. Terminei a root beer em três grandes goles e, quando o fiz, uma cólica me apertou o intestino. Nos romances, os personagens raramente têm de ir ao banheiro, mas na vida real o estresse mental costuma provocar reações físicas.

— Por favor, por acaso vocês dispõem de um banheiro masculino?

— Não, sinto muito — disse Frank pai. — Vivo querendo construir, mas no verão ficamos ocupados demais e no inverno parece que nunca há dinheiro suficiente para reformas.

— O senhor pode ir no posto do Titus, dobrando a esquina — disse Frank Júnior. Ele punha sorvete num cilindro de metal, preparando-se para fazer um milk-shake. Não fizera isso antes e pensei, com certa inquietação, no chamado efeito borboleta. Achei que estava assistindo àquela borboleta abrir as asas bem diante dos meus olhos. Estávamos mudando o mundo. Só aos pouquinhos — pouquinhos infinitesimais — mas, sim, mudávamos.

— Senhor?

— Sinto muito — disse eu. — Me deu um branco.

Ele não entendeu, mas depois riu.

— Nunca ouvi isso, mas é bom. — E era mesmo, e ele talvez repetisse da próxima vez que se perdesse em pensamentos. E uma expressão que talvez só entrasse no fluxo resplandecente da gíria americana lá pelos anos 70 teria uma pré-estreia. Não se poderia dizer exatamente que a estreia seria prematura porque, nesse fluxo do tempo, seria bem na hora.

— O posto Chevron do Titus fica logo depois da esquina, à direita — disse Anicetti pai. — Se for... hã... urgente, o senhor pode usar o nosso banheiro lá em cima.

— Não, obrigado, tudo bem — disse eu, e embora já tivesse olhado o relógio da parede, dei uma espiada ostensiva no meu Bulova com a elegante pulseira Speidel. Ainda bem que não podiam ver o mostrador, porque eu me esquecera de acertá-lo e ele ainda mostrava a hora de 2011. — Mas tenho de ir andando. Coisas a fazer. A menos que eu tenha muita sorte, vão me prender durante mais de um dia. Pode me recomendar um bom motel por aqui?

— O senhor quer dizer um hotel com garagem? — perguntou Anicetti pai, e apagou o cigarro num dos cinzeiros WINSTON TEM ÓTIMO SABOR dispostos sobre o balcão.

— É. — Dessa vez o meu sorriso pareceu bobo em vez de esperto... e o meu intestino se contraiu de novo. Se eu não desse um jeito logo nesse problema, ele se transformaria num autêntico beco sem saída. — Chamamos de motel no Wisconsin.

— Bom, eu recomendaria o Tamarack Motor Court, uns sete ou oito quilômetros subindo a 196, a caminho de Lewiston — disse Anicetti Sênior. — Fica perto do cinema drive-in.

— Obrigado pela dica — disse eu, me levantando.

— Pode apostar. E se quiser aparar o cabelo antes de alguma reunião, experimente a barbearia Baumer. Ele faz um ótimo serviço.

— Obrigado. Outra boa dica.

— As dicas são de graça, as root beers são vendidas em dinheiro americano. Aproveite a sua estada no Maine, sr. Amberson. E, Frankie? Tome esse milk-shake e volte para a escola.

— Pode apostar, pai. — Dessa vez, foi Júnior que piscou o olho na minha direção.

— Frank? — chamou uma das senhoras com voz cantada. — Essas laranjas estão frescas?

— Tão frescas quanto o seu sorriso, Leola — respondeu ele, e as senhoras soltaram um ri-ri-ri. Não estou fazendo gracinha aqui; elas realmente soltaram um ri-ri-ri.

Passei por elas, murmurando “Senhoras”. O sino tilintou e saí para o mundo que existira antes de eu nascer. Mas agora, em vez de atravessar a rua de volta ao pátio onde ficava a toca de coelho, caminhei mais para dentro daquele mundo. Do outro lado da rua, o bebum de casaco preto e comprido gesticulava com o vendedor de guarda-pó. O cartão que brandia podia ser alaranjado em vez de amarelo, mas fora isso ele voltara ao roteiro.

Entendi isso como um bom sinal.

3

O posto Chevron do Titus ficava depois do supermercado Red & White, onde Al comprara várias vezes os mesmos mantimentos para a lanchonete. De acordo com o cartaz na vitrine, a lagosta custava 69 centavos a libra. Do outro lado do mercado, num terreno que em 2011 estava vago, havia um grande celeiro marrom de portas abertas expondo móveis usados de todos os tipos — berços, cadeiras de balanço de vime e poltronas superestofadas do tipo “cadeira do papai” pareciam ter oferta abundante. A placa sobre a porta dizia O ALEGRE ELEFANTE BRANCO. Outra placa, essa numa armação em A posicionada para atrair os olhos de quem passasse a caminho de Lewiston, fazia uma declaração audaciosa: SE NÃO TIVERMOS, É PORQUE VOCÊ NÃO PRECISA. Um camarada que supus ser o proprietário estava sentado numa das cadeiras de balanço, fumando cachimbo e olhando torto para mim. Usava uma camiseta sem mangas e calças largas marrons. Também usava cavanhaque, o que achei igualmente audacioso nessa ilha específica do rio do tempo. O cabelo, embora penteado para trás e mantido no lugar por algum tipo de gomalina, se enrolava na nuca e me fez pensar num antigo vídeo de rock and roll que eu vira: Jerry Lee Lewis pulando ao piano e cantando Great Balls of Fire . O proprietário do Alegre Elefante Branco provavelmente tinha fama de ser o beatnik da cidade.

Cumprimentei-o com um sinal de dedo. Ele me retribuiu com o mais leve gesto de cabeça e continuou fumando o seu cachimbo.

No posto Chevron (onde a gasolina comum era vendida por 19,9 centavos de dólar o galão e a “super” custava um centavo a mais), um homem de macacão azul e meticuloso cabelo reco trabalhava num caminhão — o dos Anicetti, supus — que estava sobre o macaco.

— Sr. Titus?

Ele olhou por sobre o ombro.

— Hem?

— O sr. Anicetti disse que eu poderia usar o seu banheiro.

— As chaves estão dentro da porta da frente. — Porl-ta.

— Obrigado.

A chave estava presa numa ripa de madeira com HOMENS escrito. A outra chave tinha MENINAS escrito na ripa. A minha ex-mulher teria um filho se visse isso, pensei, e não sem alegria.

O banheiro estava limpo, mas cheirava a cigarro. Havia um cinzeiro tipo lixeira ao lado do vaso sanitário. Pelo número de guimbas lá dentro, eu apostaria que muitos visitantes desse quartinho bem-arrumado davam umas baforadas enquanto cagavam.

Quando saí, vi umas duas dúzias de carros usados num pequeno terreno ao lado do posto. Uma fila de flâmulas coloridas adejava acima deles com a leve brisa. Carros que em 2011 seriam vendidos por milhares de dólares — como clássicos, no mínimo — tinham preços entre 75 e 100 dólares. Um Cadillac que parecia em ótimo estado estava por 800. A placa sobre a barraquinha de vendas (lá dentro, uma bonequinha de rabo de cavalo mascava chiclete absorta l e n d o Photoplay) dizia: TODOS ESSES CARROS ANDAM BEM E VÊM COM A GARANTIA BILL TITUS CONSERTAMOS O QUE VENDEMOS!

Pendurei a chave, agradeci a Titus (que grunhiu sem se virar do caminhão no elevador) e comecei a voltar para a rua Principal, pensando que seria boa ideia cortar o cabelo antes de visitar o banco. Isso me fez lembrar o beatnik de cavanhaque e, num impulso, atravessei a rua até o empório de móveis usados.

— Dia — disse.

— Na verdade já é de tarde, mas como quiser tá bom. — Ele deu uma baforada no cachimbo, e aquela brisa de fim de verão me trouxe uma lufada de Cherry Blend. Também a lembrança do meu avô, que fumava isso quando eu era garoto. Às vezes soprava a fumaça na minha orelha para aliviar a dor de ouvido, tratamento provavelmente não aprovado pela Associação Médica Americana.

— O senhor vende malas?

— Ah, tenho algumas no meu estoque. Umas duzentas, no máximo, eu diria. Vá até os fundos e olhe à direita.

— Se eu comprar, posso deixar algumas horas aqui enquanto faço umas compras?

— Fico aberto até as cinco — disse ele, e ergueu o rosto para o sol. — Depois disso, fica por sua conta.

4

Troquei dois dólares antigos de Al por uma valise de couro, deixei-a no balcão do beatnik, depois fui até a rua Principal com a pasta batendo na perna. Dei uma olhada na fachada verde e vi o vendedor sentado atrás da caixa registradora lendo um jornal. Não havia sinal do meu amigo de sobretudo preto.

Seria difícil alguém se perder no bairro comercial: tinha apenas um quarteirão. Três ou quatro lojas além da Kennebec Fruit, cheguei à Barbearia Baumer. Um mastro de barbeiro listrado de vermelho e branco girava na vitrine. Ao lado, havia um cartaz político mostrando Edmund Muskie. Eu me lembrava dele como um velho cansado, de ombros caídos, mas essa versão parecia quase jovem demais para votar, quem dirá para ser eleito para alguma coisa. O cartaz dizia: MANDE ED MUSKIE PARA O SENADO AMERICANO, VOTE DEMOCRATA! Alguém pusera uma faixa branquíssima embaixo. Escrito à mão, estava DISSERAM QUE NÃO DARIA CERTO NO MAINE MAS CONSEGUIMOS! E AGORA: HUMPHREY EM 1960!

Lá dentro, dois velhos partícipes estavam sentados contra a parede enquanto um terceiro igualmente velho aparava a tonsura. Os dois que aguardavam soltavam baforadas como marias-fumaças. O barbeiro também (Baumer, supus), com um olho franzido contra a fumaça que subia enquanto cortava. Os quatro me estudaram de um modo conhecido meu: o olhar de avaliação não tão desconfiado assim que certa vez Christy chamara de Olhar Ianque. Foi bom saber que algumas coisas não tinham mudado.

— Sou de fora da cidade, mas sou amigo — disse a eles. — Votei nos democratas a vida inteira. — Ergui a mão num gesto de que-Deus-me-ajude.

Baumer grunhiu, divertido. Caiu cinza do cigarro. Sem pensar, ele a espanou do jaleco para o chão, onde havia várias guimbas esmagadas no meio do cabelo cortado.

— Harold aqui é republicano. Cuidado para ele não te morder.

— Ele não tem mais dente pra isso — disse um dos outros, e todos caíram na gargalhada.

— De onde o senhor é? — perguntou Harold, o republicano.

— Wisconsin. — Peguei um exemplar de Man’s Adventure para evitar novas conversas. Na capa, um tipo asiático sub-humano com um chicote na mão enluvada se aproximava de uma loura lindamente amarrada a um poste. A história que a acompanhava se chamava ESCRAVAS JAPONESAS DO SEXO NO PACÍFICO. O cheiro da barbearia era uma mistura doce e completamente maravilhosa de talco, brilhantina e fumaça de cigarro. Quando Baumer me indicou a cadeira, eu estava afundado na história sobre as escravas do sexo. Não era tão excitante quanto a capa.

— Tem viajado bastante, sr. Wisconsin? — perguntou ele enquanto punha um pano branco de raiom na minha frente e enrolava uma gola de papel no meu pescoço.

— Bastante — respondi com veracidade.

— Pois agora o senhor está na terra de Deus. Mais ou menos curto?

— O suficiente para eu não parecer... — um hippie, foi o que eu quase disse, mas Baumer não saberia o que era — um beatnik.

— Fica meio fora de controle, acho. — Ele começou a cortar. — Se deixar muito mais comprido o senhor vai se parecer com o efeminado que gerencia o Alegre Elefante Branco.

— Isso eu não quero — disse eu.

— Não senhor, aquele lá é bem esquisito. — Bensquisit.

Quando terminou, Baumer empoou a minha nuca, me perguntou se eu queria Vitalis, Brylcreem ou Wildroot Cream Oil e me cobrou quarenta centavos.

Por mim, negócio fechado.

5

O meu depósito de mil dólares no Hometown Trust Bank não causou espécie. Provavelmente o corte de cabelo ajudou, mas acho que foi principalmente porque estava numa sociedade de dinheiro vivo, na qual os cartões de crédito ainda estavam na infância... e provavelmente eram vistos com certa desconfiança por ianques econômicos. Uma caixa gravemente bonita, com o cabelo preso num rolo apertado e um camafeu na garganta, contou o meu dinheiro, registrou o total num livro-caixa e depois chamou o subgerente, que contou de novo, verificou o livro-caixa e em seguida preencheu um recibo que mostrava tanto o depósito quanto o total na minha nova conta bancária.

— Se não se importa que eu diga, é uma quantia grande demais para manter na conta-corrente, sr. Amberson. Gostaria de abrir uma conta de pecúlio? Oferecemos atualmente juros de três por cento, compostos trimestralmente. — Ele arregalou os olhos para me mostrar como o negócio era bom. Parecia Xavier Cugat, o maestro cubano dos velhos tempos.

— Obrigado, mas tenho alguns negócios a fazer. — Baixei a voz. — Fechamento de uma compra de imóveis. Ou assim espero.

— Boa sorte — disse ele, baixando a dele para o mesmo tom confidencial. — Lorraine vai lhe entregar os cheques. Cinquenta bastam para começar?

— Cinquenta está ótimo.

— Mais tarde, podemos mandar imprimir alguns com o seu nome e endereço. — Ele ergueu as sobrancelhas, transformando a frase numa pergunta.

— Espero estar em Derry. Entro em contato.

— Ótimo. O senhor me encontra em Drexel oito quatro-sete-sete-sete.

Não entendi nada do que ele estava dizendo até que me passou um cartão de visitas pelo vidro do guichê. Estava escrito Gregory Dusen, Subgerente, e depois DRexel 8-4777 (o telefone).

Lorraine me deu os cheques e um porta-cheques de imitação de crocodilo para guardá-los. Agradeci e guardei tudo na pasta. Na porta, parei para dar uma olhada. Alguns caixas usavam máquinas de somar, mas fora isso todas as transações eram da variedade mão-na-caneta. Passou pela minha cabeça que, com poucas exceções, Charles Dickens se sentiria à vontade aqui. Também me passou pela cabeça que viver no passado era mais ou menos como viver debaixo d’água, respirando por um tubo.

6

Comprei as roupas que Al recomendou na Mason’s Menswear, e o vendedor me disse que sim, teriam o máximo prazer em aceitar um cheque, desde que fosse de um banco local. Graças a Lorraine, pude atendê-lo nesse aspecto.

De volta ao Alegre Elefante Branco, o beatnik observou em silêncio enquanto eu transferia o conteúdo de três sacolas de compras para a mala nova. Quando a fechei, ele finalmente me deu a sua opinião.

— Jeito engraçado de comprar, meu chapa.

— Acho que sim — respondi. — Mas esse é um mundo velho e engraçado, não é?

Com isso ele abriu um sorriso.

— Na minha opinião, é um grande pode-apostar. Bate aqui, Zé. — Ele ergueu a mão com a palma para cima.

Por um instante, foi como tentar descobrir o que era a palavra Drexel junto de alguns números. Então me lembrei de Dragstrip Girl e entendi que o beatnik queria a versão anos cinquenta de um cumprimento jovem. Arrastei a palma da mão pela dele, sentindo o calor e o suor, pensando de novo: Isso é real. Isso está acontecendo.

— Está aí, meu chapa — respondi.

7

Atravessei a rua de volta ao posto Chevron do Titus, balançando a mala recém-enchida numa das mãos e a pasta na outra. Era apenas o meio da manhã no mundo de 2011 de onde eu viera, mas eu me sentia cansado. Havia uma cabine telefônica entre o posto de gasolina e o pátio adjacente com os carros à venda. Entrei, fechei a porta e li o aviso escrito à mão sobre o telefone de moedinhas à moda antiga: LEMBRE-SE TELEFONEMAS AGORA DEZ CENTAVOS CORTESIA DE “MA” BELL.

Folheei as páginas amarelas do catálogo telefônico local e achei a Lisbon Taxi. O anúncio mostrava um carrinho com olhos em vez de faróis e um grande sorriso na frente do capô. Prometia SERVIÇO RÁPIDO E CORTÊS. Soava bem. Procurei uns trocados, mas a primeira coisa que encontrei foi algo que deveria ter deixado para trás: o meu celular Nokia. Era antiquado pelos padrões do ano de onde viera — estava querendo trocá-lo por um iPhone —, mas não servia para nada ali. Se alguém o visse, faria centenas de perguntas que eu não saberia responder. Enfiei-o na pasta. Achei que por enquanto ficaria bem ali, mas eu teria de me livrar dele logo. Guardá-lo seria como andar com uma bomba não detonada.

Encontrei uma moeda de dez centavos, enfiei-a na fenda e ela desceu direto para o recipiente de devolução de moedas. Pesquei-a e bastou uma olhada para identificar o problema. Como o meu Nokia, a moeda viera do futuro; era um sanduíche de cobre, na verdade pouco mais de um centavo com pretensões. Tirei todas as minhas moedas, examinei-as e encontrei uma de 1953 que, provavelmente, recebera de troco pela root beer que comprara na Kennebec Fruit. Comecei a enfiá-la e tive uma ideia que me deixou gelado. E se a minha moeda de 2002 ficasse presa na garganta do telefone em vez de cair até a devolução de moedas? E se o homem da AT&T que cuidava dos telefones públicos de Lisbon Falls a encontrasse?

Ele teria pensado que era uma piada, só isso. Só alguma peça bem-armada.

Duvidei um pouco disso; a moeda era perfeita demais. Ele a mostraria aos outros; talvez até saísse uma notinha sobre isso no jornal. Tivera sorte desta vez, mas da próxima talvez não tivesse. Precisava tomar cuidado. Pensei de novo no celular, com inquietação que se aprofundava. Então pus a moeda de 1953 na fenda e fui recompensado com o sinal de discar. Liguei devagar e cuidadosamente, tentando lembrar se já tinha usado um telefone com dial rotativo antes. Achei que não. Toda vez que o soltava, o telefone fazia um cacarejo esquisito enquanto o dial voltava para o lugar.

— Lisbon Taxi — disse uma mulher —, onde quilometragem é sempre sorrisometragem. Em que posso lhe servir?

8

Enquanto esperava o táxi, dei uma olhada nos carros do pátio de Titus. Fiquei especialmente atraído por um Ford 54 conversível vermelho — um Sunliner, de acordo com o emblema debaixo do farol cromado no lado do motorista. Tinha pneus faixa branca e um teto de genuína lona, do tipo que os gatos antenados de Dragstrip Girl chamariam de ragtop.

— Esse não é ruim, senhor — disse Bill Titus atrás de mim. — Anda como uma casa em chamas, isso posso lhe garantir pessoalmente.

Eu me virei. Ele limpava as mãos num trapo vermelho que parecia quase tão sujo de graxa quanto as mãos.

— Alguma ferrugem no painel do estribo — disse eu.

— É, pois é, esse clima. — Ele deu de ombros, fazer o quê. — O principal é que o motor está em ótima forma e os pneus são quase novos.

— V-8?

— Bloco em Y — disse ele, e concordei como se tivesse entendido perfeitamente. — Comprei de Arlene Hadley, de Durham, depois que o marido dela morreu. Uma coisa que Bill Hadley sabia era cuidar de carro... mas o senhor não deve ter conhecido porque não é daqui, certo?

— Não, sou do Wisconsin. George Amberson. — Estendi a mão.

Ele balançou a cabeça, sorrindo um pouco.

— Muito prazer, sr. Amberson, mas não quero sujar o senhor de graxa. Considere a mão apertada. O senhor quer comprar ou só está olhando?

— Ainda não sei — disse eu, mas fui insincero. Estava achando o Sunliner o carro mais legal que já vira na vida. Abri a boca para perguntar a quilometragem que fazia e então percebi que essa pergunta quase não tinha sentido num mundo onde se podia encher o tanque com dois dólares. Em vez disso, lhe perguntei se era câmbio manual.

— Ah, claro. E quando engatar a segunda, cuidado com a polícia. Isso aí voa num segundo. Quer dar uma volta?

— Não posso — disse eu. — Acabei de chamar um táxi.

— Isso não é jeito de andar — disse Titus. — Se o senhor comprar esse aí, pode voltar ao Wisconsin botando banca e nem se incomodar com o trem.

— Quanto quer? Esse aí não tem o preço no para-brisa.

— Não, chegou só anteontem. Inda nem consegui fazer a placa. — Praca. Ele puxou o maço de cigarros. — Tô vendendo a 350, mas vou lhe dizer, eu regateava. — Regatchava.

Trinquei os dentes para impedir que o queixo caísse e lhe disse que ia pensar. Se o meu pensamento fosse pelo caminho certo, disse também, voltaria amanhã.

— Melhor vir cedo, sr. Amberson, esse aí não vai ficar muito tempo por aqui.

Mais uma vez me senti confortado. Tinha moedas que não funcionavam nos telefones públicos, os bancos funcionavam quase só à mão e os telefones faziam um cacarejo esquisito no ouvido quando a gente discava, mas algumas coisas não mudavam.

9

O motorista de táxi era um gordo de chapéu surrado com um emblema que dizia MOTORISTA AUTORIZADO. Fumava Lucky Strikes um atrás do outro e a estação WJAB tocava no rádio. Escutamos Sugar-time com as McGuire Sisters, Bird Dog com os Everly Brothers e Purple People Eater com uma criatura chamada Sheb Wooley. Esse eu dispensaria. De duas em duas músicas, um trio de moças desafinadas cantava: “Quator-ze qua-renta, WJABeeeee... o Grande Jab!” Soube que a Romanow’s estava fazendo a liquidação anual de verão e a F. W. Woolworth’s acabara de receber uma remessa novinha de bambolês, uma pechincha a 1,39 dólar.

— Essas malditas coisas só servem para ensinar as crianças a mexer o quadril — disse o taxista, e deixou o quebra-vento sugar a cinza da ponta do cigarro. Foi a sua única tentativa de conversa entre o posto Chevron e o Tamarack Motor Court.

Abri a minha janela para me livrar um pouco da névoa de cigarro e observei um mundo diferente passar. A extensão urbana entre Lisbon Falls e o limite da cidade de Lewiston não existia. Além de alguns postos de gasolina, da lanchonete Hi-Hat e do cinema ao ar livre (a fachada anunciava um programa duplo com Um corpo que cai e O mercador de almas, ambos em Cinemascope e Technicolor), estávamos no puro campo do Maine. Vi mais vacas do que gente.

O hotel ficava afastado da estrada e era sombreado não por alerces, como o nome faria supor, mas por olmos imensos e majestosos. Não era como ver uma manada de dinossauros, mas foi quase. Fiquei boquiaberto enquanto o sr. Motorista Autorizado acendia outro cigarro.

— Precisa de ajuda com as malas, senhor?

— Não, tudo bem. — O preço no taxímetro não era tão majestoso quanto os olmos, mas ainda foi uma surpresa. Dei dois dólares ao camarada e pedi cinquenta centavos de troco. Ele pareceu satisfeito: a gorjeta era suficiente para um maço de Luckies.

10

Fiz a ficha (nenhum problema aqui; dinheiro no balcão e nenhuma identidade exigida) e dei um longo cochilo num quarto onde o ar-condicionado era um ventilador no parapeito da janela. Acordei renovado (bom) e depois descobri que era impossível dormir naquela noite (nada bom). Praticamente não havia tráfego na autoestrada depois do anoitecer, e o silêncio era tão profundo que inquietava. O televisor era um modelo Zenith de mesa que devia pesar uns cinquenta quilos. Em cima, havia um par de orelhas de coelho. Encostado nelas havia uma plaquinha dizendo AJUSTE A ANTENA À MÃO NÃO USE “PAPEL ALUMÍNIO!” A GERÊNCIA AGRADECE.

Havia três canais. A afiliada da rede NBC tinha chuvisco demais para assistir, por mais que eu mexesse nas orelhas de coelho, e na CBS a imagem rolava; o ajuste vertical não adiantava nada. A ABC, que pegava nítida e clara, exibia o seriado A vida e a lenda de Wyatt Earp, estrelado por Hugh O’Brian. Ele atirou em alguns fora da lei e veio um anúncio de cigarro Viceroy. Steve McQueen explicou que os Viceroy tinham o filtro do homem que pensa e o sabor do homem que fuma. Enquanto ele acendia o cigarro, levantei da cama e desliguei a TV.

Então só ficou o som dos grilos.

Fiquei de cueca, me deitei e tentei dormir. O meu pensamento voltou para o meu pai e a minha mãe. Papai estava agora com 6 anos e morava em Eau Claire. Mamãe, com apenas 5, morava numa casa de fazenda em Iowa que pegaria fogo daqui a três ou quatro anos. Então a família dela se mudaria para o Wisconsin e para mais perto da interseção de vidas que finalmente produziria... eu.

Estou maluco, pensei. Maluco e tendo uma alucinação terrivelmente complexa num hospício em algum lugar. Talvez algum médico escreva sobre mim numa revista psiquiátrica. Em vez de O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu, eu serei O Homem que Pensou que Estava em 1958.

Mas passei a mão sobre o tecido em relevo da colcha, que ainda não tirara, e soube que era tudo verdade. Pensei em Lee Harvey Oswald, mas ele ainda pertencia ao futuro e não era quem me perturbava nessa peça de museu que era o quarto do hotel.

Sentei-me na beira da cama, abri a pasta e tirei o celular, um aparelho de viagem no tempo absolutamente inútil aqui. Ainda assim, não resisti a abri-lo e apertar o botão de ligar. FORA DE SERVIÇO apareceu na telinha, é claro — o que mais eu esperaria? Cinco barrinhas? Uma voz queixosa dizendo Volte para casa, Jake, antes de provocar danos que não pode desfazer? Ideia estúpida e supersticiosa. Se causasse danos, eu poderia desfazer, porque cada viagem era um recomeço. Dava para dizer que a viagem no tempo vinha com trava de segurança embutida.

Isso era confortador, mas ter um telefone desses num mundo onde a televisão colorida era a maior inovação tecnológica da eletrônica de consumo não era nada reconfortante. Eu não seria enforcado como bruxo se o encontrassem comigo, mas poderia ser preso pela polícia local e mantido na cadeia até que um dos rapazes de J. Edgar Hoover chegasse de Washington para me interrogar.

Coloquei-o na cama e depois tirei todos os trocados do bolso direito da frente. Separei as moedas em duas pilhas. As de 1958 ou antes voltaram para o bolso. As do futuro foram para um dos envelopes que encontrei na gaveta da escrivaninha (junto com uma Bíblia dos Gideões e um cardápio para viagem da Hi-Hat). Então, me vesti, peguei a chave e saí do quarto.

Os grilos eram muito mais altos do lado de fora. Um pedaço quebrado de lua pendia no céu. Longe da sua claridade, as estrelas nunca tinham sido tão brilhantes nem tão próximas. Um caminhão zumbiu pela 196, e depois a estrada ficou quieta. Ali era o campo, e o campo dormia. A distância, um trem de carga assoviou um buraco na noite.

Só havia dois carros no pátio, e as unidades a que pertenciam estavam às escuras. A recepção também. Sentindo-me um criminoso, andei até o campo atrás do pátio. O capim alto bateu nas pernas da minha calça jeans, que no dia seguinte eu trocaria pelas novas calças sociais de Ban-Lon.

Havia uma cerca de arame comum marcando a borda da propriedade do Tamarack. Além dela havia um laguinho, o que o povo rural chama de açude. Ali perto, meia dúzia de vacas dormia na noite quente. Uma delas ergueu os olhos para mim enquanto eu passava por debaixo da cerca e andava até o açude. Depois, perdeu o interesse e baixou a cabeça de novo. Não a levantou quando o meu celular Nokia caiu no lago. Fechei o envelope com as moedas dentro e o mandei atrás do telefone. Depois, voltei por onde tinha vindo, parando atrás do hotel para me assegurar de que o pátio ainda estava vazio. Estava.

Entrei no meu quarto, me despi e dormi quase instantaneamente.

 

2 A moeda americana de cinco centavos é chamada de “níquel”. (N. da T.)