Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 18 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 17

1

Alguns dias antes de começar a rodada de provas de fim de ano, Ellen Dockerty me convocou à sala dela. Depois de fechar a porta, disse:

— Sinto muito pelos problemas que causei, George, mas se tivesse de fazer de novo, acho que me comportaria da mesma maneira.

Eu não disse nada. Não estava mais zangado, mas ainda atordoado. Dormira muito pouco desde o rompimento e estava com a ideia de que as quatro da madrugada e eu seríamos bons amigos em futuro próximo.

— Cláusula 25 do Código Administrativo Escolar do Texas — disse ela, como se isso explicasse tudo.

— Não entendi, Ellie.

— Foi Nina Wallingford que chamou a minha atenção. — Nina era a enfermeira do distrito. Em todo ano letivo, percorria dezenas de milhares de quilômetros no seu Ranch Wagon Ford passando pelas oito escolas do condado de Denholm, três delas ainda do tipo que só tinha uma ou duas salas. — A cláusula 25 trata das regras estaduais de vacinação em escolas. Elas se aplicam a professores e alunos e Nina ressaltou que não tinha os seus registros de vacinação. Nenhuma ficha médica, na verdade.

E lá estava. O falso professor revelado pela falta de vacina contra pólio. Bom, pelo menos não foi o meu conhecimento avançado dos Rolling Stones nem o uso inadequado de gíria de boate.

— Com você tão ocupado com o Jamboree e coisa e tal, achei que ia escrever às escolas onde você deu aula e lhe poupar trabalho. O que recebi da Flórida foi uma carta afirmando que eles não exigem fichas de vacinação de professores substitutos. O que recebi do Maine e do Wisconsin foi “Não o conhecemos”.

Do outro lado da escrivaninha, ela se inclinou para a frente, me olhando. Não consegui encarar o olhar dela muito tempo. O que vi naquele rosto antes de redirecionar o olhar para as costas da mão foi uma empatia insuportável.

— O Conselho Estadual de Educação se importaria caso contratássemos um impostor? Muitíssimo. Poderiam até entrar com um processo para recuperar o seu ano de salário. Se eu me importo? Absolutamente não. O seu trabalho na DCHS tem sido exemplar. O que você e Sadie fizeram por Bobbi Jill Allnut foi absolutamente maravilhoso, o tipo de coisa que gera indicações para o título de Professor Estadual do Ano.

— Obrigado — murmurei. — Acho.

— Eu me perguntei o que Mimi Corcoran faria. O que Mims me disse foi: “Se ele tivesse assinado um contrato para ensinar no ano que vem e no seguinte, você seria obrigada a agir. Mas, como ele vai embora daqui a um mês, na verdade é do seu interesse e do interesse da escola não dizer nada. — Em seguida, ela acrescentou: — Mas há uma pessoa que tem de saber que ele não é quem diz ser...

Ellie parou.

— Eu disse a Sadie que tinha certeza de que você teria alguma explicação sensata, mas parece que não tem.

Dei uma olhada no relógio.

— Se não está me demitindo, dona Ellie, tenho de voltar para a aula do quinto horário. Estamos coordenando orações. Acho que vou lhes mostrar um período que diz: Não tenho culpa no caso, mas não posso dizer por quê. O que acha? Difícil demais?

— Difícil demais para mim, sem dúvida — disse ela, agradavelmente.

— Mais uma coisa — continuei. — O casamento de Sadie foi difícil. O marido dela era estranho de um jeito que não quero esmiuçar. Ele se chama John Clayton. Acho que pode ser perigoso. Você precisa perguntar a Sadie se tem uma foto dele, para que saiba como ele é caso apareça fazendo perguntas.

— E você acha isso por quê?

— Porque já vi coisa parecida. Isso serve?

— Acho que terá de servir, não é?

Não era uma resposta muito boa.

— Vai perguntar a ela?

— Vou, George. — Ela podia estar falando a sério; podia estar apenas me agradando. Não dava para saber.

Eu estava na porta quando ela disse, como se fosse só de passagem:

— Você está acabando com o coração daquela moça.

— Eu sei — respondi e fui embora.

2

Rua Mercedes. Final de maio.

— Você é soldador?

Eu estava em pé na entrada do 2.706 com o proprietário, um bom americano chamado sr. Jay Baker. Era atarracado e com enorme desfaçatez chamou a casa de estilo Shiner. Tínhamos terminado uma rápida visita às instalações, que Baker me explicara ficar “pertíssimo do ponto de ônibus”, como se isso compensasse o teto vergado, as paredes manchadas de água, o vaso sanitário rachado e o ar geral de decrepitude.

— Vigia noturno — disse eu.

— É? Um bom emprego. Muito tempo pra coçar o saco num emprego desses.

Isso não parecia exigir resposta.

— Sem mulher nem filhos?

— Divorciado. Estão no leste.

— Paga pensão, você?

Dei de ombros.

Ele deixou pra lá.

— Então quer o lugar, Amberson?

— Acho que sim — respondi, e suspirei.

Ele tirou do bolso de trás um livro comprido de registro de aluguéis com a capa mole de couro.

— Primeiro mês, último mês, depósito por danos.

— Depósito por danos? O senhor deve estar brincando.

Baker continuou como se não tivesse me escutado.

— O aluguel vence na última sexta-feira do mês. Atrase e está na rua, cortesia da polícia de Fort Worth. Eles e eu nos damos muito bem.

Ele tirou o toco carbonizado de charuto do bolso do peito, enfiou na fuça a ponta mastigada e acendeu um fósforo de madeira com a unha do polegar. Fazia calor ali na frente. Tive a ideia de que seria um verão longo e muito quente.

Suspirei de novo. Então, exibindo relutância, tirei a carteira e comecei a remover notas de vinte dólares.

— Em Deus confiamos — disse eu. — Todos os outros pagam em dinheiro.

Ele riu, soltando nuvens de acre fumaça azul.

— Essa é boa, não vou esquecer. Principalmente na última sexta-feira do mês.

Eu não conseguia acreditar que moraria nesse barraco desesperador nessa rua desesperadora depois da minha bela casa ao sul dali — onde me orgulhava de manter aparado um gramado de verdade. Embora nem tivesse partido de Jodie ainda, senti uma onda de saudade.

— Me dê um recibo, por favor — disse eu.

Isso eu recebi de graça.

3

Era o último dia de aula. As salas e os corredores estavam vazios. Os ventiladores de teto sopravam ar que já estava quentíssimo, embora ainda fosse 8 de junho. A família Oswald partira da Rússia; dali a mais cinco dias, de acordo com as anotações de Al Templeton, o SS Maasdam atracaria em Hoboken, onde eles desceriam pela prancha de embarque até o solo dos Estados Unidos.

A sala de professores estava vazia, a não ser por Danny Laverty.

— Ei, campeão. Disseram que você vai pra Dallas terminar aquele seu livro.

— Esse é o plano. — Na verdade o plano era Fort Worth, ao menos para começar. Comecei a limpar o meu escaninho, cheio de comunicados de fim de ano.

— Se eu fosse livre e despreocupado em vez de estar amarrado a uma esposa, três fedelhos e uma hipoteca, talvez também tentasse um livro — disse ele. — Estive na guerra, sabe.

Eu sabia. Todo mundo sabia, em geral dez minutos depois de conhecê-lo.

— Tem o suficiente para viver?

— Dá para o gasto.

Eu tinha mais do que suficiente para viver até abril próximo, quando esperava concluir os meus negócios com Lee Oswald. Não precisaria fazer mais expedições à Financeira Fé na avenida Greenville. Ir lá uma única vez fora de uma estupidez incrível. Se quisesse, poderia tentar dizer a mim mesmo que o que acontecera com a minha casa na Flórida fora apenas o resultado de uma travessura que dera errado, mas também tentara dizer a mim mesmo que Sadie e eu estávamos bem, e veja só o que aconteceu.

Joguei o maço de papelada do meu escaninho no lixo... e avistei um pequeno envelope fechado que não tinha visto. Sabia quem usava envelopes assim. Não havia saudação na folha de papel de caderno lá dentro e nenhuma assinatura a não ser o leve (talvez até ilusório) aroma do seu perfume. A mensagem era breve.

Obrigada por me mostrar como tudo pode ser bom. Por favor, não diga adeus.

Segurei-o um minuto, pensando, depois o enfiei no bolso de trás e andei rapidamente até a biblioteca. Não sei o que planejava fazer nem o que queria lhe dizer, mas nada disso importava porque a biblioteca estava escura e as cadeiras em cima das mesas. Tentei a maçaneta assim mesmo, mas a porta estava trancada.

4

Os dois únicos carros que restavam na ponta do estacionamento reservada aos professores eram o sedã Plymouth de Danny Laverty e o meu Ford, a capota escamoteável agora bem esfarrapada. Pude me solidarizar; também me sentia um pouco esfarrapado.

— Sr. A.! Espere aí, sr. A.!

Eram Mike e Bobbi Jill, correndo pelo estacionamento quente na minha direção. Mike trazia um presentinho embrulhado, que me entregou.

— Bobbi e mim lhe trouxemos isso.

— Bobbi e eu. E não precisava, Mike.

— Precisava sim.

Fiquei comovido ao ver que Bobbi Jill chorava, e contente ao ver que a grossa camada de Max Factor sumira do seu rosto. Agora que sabia que os dias da cicatriz deformante estavam contados, parara de tentar escondê-la. Ela me deu um beijo no rosto.

— Muito, muito, muito obrigada, sr. Amberson. Nunca me esquecerei do senhor. — Ela olhou Mike. — Nós nunca nos esqueceremos do senhor.

E provavelmente não esqueceriam. Isso era bom. Não compensava a biblioteca escura e trancada, mas... era muito bom.

— Abra — disse Mike. — Esperamos que o senhor goste. É para o seu livro.

Abri o embrulho. Lá dentro havia uma caixa de madeira com uns vinte centímetros de comprimento e cinco de largura. Dentro da caixa, aninhada em seda, estava uma caneta tinteiro Waterman com as iniciais GA gravadas no prendedor.

— Ah, Mike — disse eu. — Isso é demais.

— Não seria suficiente nem que fosse de ouro maciço — disse ele. — O senhor mudou a minha vida. — Ele olhou Bobbi. — As nossas vidas.

— Mike — disse eu —, o prazer foi todo meu.

Ele me abraçou, e, em 1962, esse não era um gesto barato entre homens. Fiquei contente de abraçá-lo também.

— Mantenha contato — disse Bobbi Jill. — Dallas não tá longe. — Ela fez uma pausa. — Não está.

— Manterei — respondi, mas não manteria, e eles provavelmente também não. Estavam partindo para a vida e, se tivessem sorte, a vida deles brilharia.

Eles começaram a se afastar e Bobbi se virou.

— É uma pena que o senhor e ela tenham rompido. Me deixou muito triste.

— Me deixa muito triste também — respondi —, mas provavelmente foi melhor assim.

Fui para casa embalar a minha máquina de escrever e outros pertences, que eu avaliava ainda serem poucos a ponto de caber numa mala e em algumas caixas de papelão. Num semáforo da rua Principal, abri a caixinha e olhei a caneta. Era uma coisa linda, e fiquei muito comovido por eles terem me dado. Fiquei ainda mais comovido por terem esperado para se despedir. A luz ficou verde. Fechei a tampa da caixa e fui em frente. Havia um nó na minha garganta, mas os meus olhos estavam secos.

5

Morar na rua Mercedes não foi uma experiência edificante.

Os dias não eram tão ruins assim. Ressoavam com os gritos das crianças recém-saídas da escola, todas vestidas com roupas de segunda mão e grandes demais; donas de casa a fofocar junto às caixas de correio ou às cordas de roupa no fundo do quintal; adolescentes em calhambeques enferrujados com abafador de escapamento glasspack e rádios berrando K-Life. As horas entre as duas e as seis da madrugada também não eram tão ruins. Então um tipo de silêncio atordoado caía sobre a rua quando os bebês com cólicas finalmente dormiam nos seus berços (ou gavetas de cômoda) e os pais roncavam rumo a mais um dia de salário nas lojas, fábricas ou fazendas próximas.

Entre as quatro e as seis da tarde, no entanto, a rua era um vozerio de mamães berrando com filhos para entrar e fazer as tarefas e papais chegando em casa para berrar com as esposas, provavelmente porque não tinham mais com quem berrar. Muitas esposas revidavam o melhor que podiam. Os pais bebuns começavam a chegar por volta das oito, e a situação ficava mesmo barulhenta aí pelas onze, quando os bares fechavam ou o dinheiro acabava. Então eu ouvia portas batendo, vidro quebrando e gritos de dor quando alguns pais bebuns bem calibrados descarregavam na mulher, nos filhos ou em ambos. Era comum luzes vermelhas girarem pelas minhas cortinas fechadas quando a polícia chegava. Algumas vezes havia tiros, talvez para o alto, talvez não. E, certa manhã, quando saí para pegar o jornal, vi uma mulher com sangue seco cobrindo a metade inferior do rosto. Estava sentada no meio-fio diante da quarta casa abaixo da minha, tomando uma lata de Lone Star. Quase desci para ver como estava, muito embora soubesse como era pouco sensato me envolver na vida desse bairro de trabalhadores alcoólatras. Então ela viu que eu a olhava e me mostrou o dedo do meio erguido. Entrei de novo.

Não havia comissão de boas-vindas e nenhuma mulher chamada Muffy ou Buffy trotando para reuniões da Liga das Senhoras. O que havia na rua Mercedes era muito tempo para pensar. Tempo de sentir saudades dos meus amigos de Jodie. Tempo de sentir saudades do trabalho que mantivera a minha mente longe do que eu fora fazer ali. Tempo para perceber que ensinar fora muito mais do que matar o tempo; satisfizera a minha mente do jeito que o trabalho faz quando lhe damos importância, quando sentimos que podemos realmente fazer diferença.

Houve tempo até para eu me sentir mal com o meu conversível antes bem-apessoado. Além do rádio enguiçado e das válvulas que chiavam, agora ele balia e soltava explosões pelo cano de descarga enferrujado e havia uma rachadura no para-brisa causada por uma pedra que ricocheteara de trás de um caminhão pesado de asfalto. Eu parara de lavá-lo e agora — triste dizer — ele se encaixava perfeitamente entre os outros meios de transporte dilapidados da rua Mercedes.

Principalmente, havia tempo para pensar em Sadie.

Você está acabando com o coração daquela moça , dissera Ellie Dockerty, e o meu também não ia muito bem. A ideia de contar tudo a Sadie me veio certa noite enquanto eu estava deitado escutando uma discussão de bêbados na casa ao lado: você fez, não fiz, fez sim, não fiz, foda-se. Rejeitei a ideia, mas ela voltou na noite seguinte, rejuvenescida. Consegui me ver sentado com ela na mesa da cozinha, tomando café à luz forte da tarde que entrava inclinada pela janela sobre a pia. Falando calmamente. Dizendo-lhe que o meu nome verdadeiro era Jacob Epping, que só nasceria de verdade dali a mais quatorze anos, que viera do ano 2011 por uma fissura no tempo que o meu falecido amigo Al Templeton chamava de toca de coelho.

Como a convenceria de uma coisa dessas? Contando-lhe que um certo desertor americano que mudara de ideia sobre a Rússia se mudaria em breve para o outro lado da rua onde eu morava agora, junto com a esposa russa e a filhinha? Contando-lhe que os Dallas Texans — ainda não os Cowboys, ainda não o grande time dos Estados Unidos — venceriam os Houston Oilers por 20 a 17 naquele outono, na segunda prorrogação? Ridículo. Mas o que mais eu sabia sobre o futuro imediato? Não muito, porque não tivera tempo de estudar. Sabia bastante sobre Oswald, mas era tudo.

Ela acharia que eu estava maluco. Eu poderia cantar para ela a letra de mais uma dúzia de músicas populares que ainda não tinham sido gravadas e ela ainda pensaria que eu estava maluco. Ela me acusaria de inventar aquilo tudo — afinal de contas, eu não era escritor? E suponhamos que ela acreditasse? Eu gostaria de arrastá-la para a boca do tubarão junto comigo? Já não era bastante ruim que ela voltasse a Jodie em agosto e que, se John Clayton fosse um reflexo de Frank Dunning, ele aparecesse à procura dela?

— Tudo bem, então saia! — berrou uma mulher na rua, e um carro acelerou na direção da rua Winscott. Uma cunha de luz sondou rapidamente uma fenda das minhas cortinas fechadas e relampejou pelo teto.

— CHUPAPICA! — berrou ela atrás dele, e uma voz masculina, um pouco mais longe, gritou de volta:

— Pode chupar a minha, moça, talvez assim você se acalme.

Essa era a vida na rua Mercedes no verão de 1962.

Deixe-a fora disso. Essa era a voz da razão. É simplesmente perigoso demais. Talvez em algum momento ela possa voltar a fazer parte da sua vida — uma vida em Jodie, até — mas não agora.

Só que nunca haveria vida para mim em Jodie. Dado o que Ellen sabia agora sobre o meu passado, dar aulas na escola secundária seria um sonho de tolo. E o que mais eu faria? Despejar concreto?

Certa manhã, liguei a máquina de café e fui pegar o jornal. Quando abri a porta da frente, vi que ambos os pneus traseiros do Sunliner estavam vazios. Algum garoto entediado na rua até tarde os cortara com uma faca. Essa também era a vida na rua Mercedes no verão de 1962.

6

Na quinta-feira, 14 de junho, vesti jeans, uma camisa de trabalho azul e um velho colete de couro que comprara num brechó na rua Camp Bowie. Então passei a manhã andando de um lado para outro dentro de casa. Não tinha televisão, mas escutava o rádio. Segundo o noticiário, o presidente Kennedy planejava uma visita oficial ao México no final do mês. A previsão do tempo era de céu claro e temperatura em elevação. O DJ papeou algum tempo e depois tocou Palisades Park. Os gritos e efeitos sonoros de montanha-russa no disco arranharam a minha cabeça.

Finalmente, não aguentei mais. Chegaria cedo, mas não tinha importância. Entrei no Sunliner — que agora exibia dois pneus comuns recauchutados atrás para combinar com os faixa branca da frente — e percorri os cerca de sessenta quilômetros até Love Field, no noroeste de Dallas. Não havia estacionamento de curto prazo ou longo prazo, só estacionamento. Custava setenta e cinco centavos por dia. Enfiei na cabeça o velho chapéu panamá e andei quase um quilômetro até o prédio do terminal. Um par de policiais de Dallas estava no meio-fio tomando café, mas não havia guardas de segurança lá dentro nem detetores de metal para atravessar. Os passageiros simplesmente mostravam as passagens a um sujeito junto da porta e depois andavam pela pista quente até aviões pertencentes a uma das cinco empresas: American, Delta, TWA, Frontier e Texas Airways.

Verifiquei o quadro-negro pendurado na parede atrás do balcão da Delta. Dizia que o voo 194 estava no horário. Quando perguntei à atendente que verificasse, ela sorriu e me disse que acabara de sair de Atlanta.

— Mas você chegou cedo demais.

— Não posso impedir — respondi. — Provavelmente chegarei cedo ao meu próprio funeral.

Ela riu e me desejou bom dia. Comprei uma revista Time e andei até o restaurante, onde pedi a Salada das Nuvens do Chef. Era imensa e eu estava nervoso demais para sentir fome — não é todo dia que alguém consegue ver a pessoa que vai mudar a história do mundo —, mas ela me deu algo para me distrair enquanto aguardava que chegasse o avião que trazia a família Oswald.

Eu estava num compartimento com boa vista do terminal principal. Não estava muito cheio, e uma moça de tailleur azul-escuro de viagem chamou a minha atenção. O cabelo estava torcido num coque arrumado. Levava uma mala em cada mão. Um carregador negro se aproximou dela. Ela fez que não, sorrindo, depois bateu o braço na lateral do guichê de informações ao passar. Largou uma das malas, esfregou o cotovelo, depois pegou a mala de novo e foi em frente.

Sadie partindo para começar a residência de seis semanas em Reno.

Fiquei surpreso? De jeito nenhum. Era apenas aquela tal convergência de novo. Tinha me acostumado com ela. Quase fui vencido pelo impulso de sair correndo do restaurante e alcançá-la antes que fosse tarde demais? É claro que sim.

Por um instante, pareceu mais do que possível, pareceu necessário. Eu lhe diria que o destino dela (em vez de alguma estranha harmonia das viagens no tempo) nos reunira no aeroporto. Coisas assim davam certo nos filmes, não é? Pediria que esperasse enquanto eu comprava a minha passagem para Reno e lhe diria que, assim que chegássemos lá, explicaria tudo. E, depois das seis semanas obrigatórias, poderíamos pagar um drinque para o juiz que lhe concedera o divórcio antes que ele nos casasse.

Na verdade, comecei a me levantar. Quando o fiz, olhei por acaso a capa da Time que comprara na banca. Jacqueline Kennedy estava na capa. Sorria, radiante, usando um vestido sem mangas com decote em V. A PRIMEIRA-DAMA SE VESTE PARA O VERÃO, dizia a legenda. Enquanto olhava a foto, a cor escoou para preto e branco e a expressão mudou de sorriso alegre para olhar vazio. Agora ela estava ao lado de Lyndon Johnson no Air Force One e não usava mais o vestido de verão bonito (e levemente sensual). Um tailleur de lã respingado de sangue ocupara o seu lugar. Lembrei ter lido — não nas anotações de Al, em outro lugar — que, pouco depois de o marido da sra. Kennedy ser declarado morto, a sra. Johnson fora abraçá-la no corredor do hospital e vira naquele tailleur um pedaço do cérebro do presidente morto.

Um presidente que levou um tiro na cabeça. E todos os mortos que viriam depois, em pé atrás dele numa fila fantasmagórica que se estendia até o infinito.

Sentei-me de novo e observei Sadie levar as suas malas até o balcão da Frontier Airlines. Era óbvio que estavam pesadas, mas ela as levava com brio, as costas eretas, os saltos baixos clicando animadamente. O funcionário as conferiu e colocou num carrinho de bagagem. Ele e Sadie conversaram; ela lhe entregou a passagem que comprara numa agência de viagens dois meses antes, e o funcionário rabiscou alguma coisa. Ela a pegou de volta e se virou para o portão. Baixei a cabeça para assegurar que ela não me visse. Quando ergui os olhos de novo, ela sumira.

7

Quarenta longos, longos minutos depois, um homem, uma mulher e duas crianças pequenas — um menino e uma menina — passaram pelo restaurante. O menino segurava a mão do pai e não parava de falar. O pai o olhava, concordando e sorrindo. O pai era Robert Oswald.

O alto-falante berrou:

— O voo 194 da Delta acaba de chegar de Newark e do Aeroporto Municipal de Atlanta. Saída dos passageiros pelo Portão 4. Voo 194 da Delta acaba de chegar.

A mulher de Robert — Vada, de acordo com as anotações de Al — pôs a menininha no colo e andou mais depressa. Não havia sinal de Marguerite.

Belisquei a salada, mastigando sem sentir o sabor. O coração batia com força.

Consegui ouvir o rugido dos motores se aproximando e vi o nariz branco de um DC-8 que parou junto ao portão. Os que tinham ido receber os passageiros se amontoaram em torno da porta. Uma garçonete me cutucou o ombro e quase gritei.

— Desculpe, senhor — disse ela com um sotaque do Texas tão denso que quase dava para cortar. — Só queria perguntar se o senhor deseja mais alguma coisa.

— Não — respondi. — Estou bem.

— Ora, isso é bom.

Os primeiros passageiros começaram a atravessar o terminal. Eram todos homens de terno com cortes de cabelo prósperos. É claro. Os primeiros passageiros a desembarcar eram sempre os da primeira classe.

— Tem certeza de que não quer uma fatia de torta de pêssego? Tá fresquinha.

— Não, obrigado.

— Tem certeza, meu bem?

Agora os passageiros da classe econômica vieram numa enchente, todos aguirlandados com bagagens de mão. Ouvi um gritinho de mulher. Seria Vada saudando o cunhado?

— Tenho — respondi e peguei a minha revista.

Ela entendeu o recado. Fiquei ali remexendo os restos da minha salada numa sopa alaranjada de molho vinagrete com ketchup. Lá vinha um homem e uma mulher com um bebê, mas a criança quase andava, velha demais para ser June. Os passageiros passaram pelo restaurante, conversando com os amigos e parentes que tinham ido buscá-los. Vi um rapaz com farda do exército dar um tapinha no traseiro da namorada. Ela riu, lhe deu um tapa na mão e depois ficou na ponta dos pés para beijá-lo.

Durante cinco minutos, mais ou menos, o terminal ficou quase cheio. Então a multidão começou a se atenuar. Não havia sinal dos Oswald. Uma certeza louca me veio: não estavam no avião. Eu não viajara simplesmente no tempo, eu ricocheteara para algum tipo de universo paralelo. Talvez o Homem do Cartão Amarelo devesse impedir que algo assim acontecesse, mas o Homem do Cartão Amarelo estava morto e eu, livre. Sem Oswald? Ótimo, sem missão. Kennedy morreria em outra versão dos Estados Unidos, mas não nesta. Eu podia reatar com Sadie e viver feliz para sempre.

Mal a ideia acabou de me passar pela cabeça quando vi o meu alvo pela primeira vez. Robert e Lee estavam lado a lado, conversando animadamente. Lee balançava o que era uma pasta grande demais ou uma mochila pequena. Robert segurava uma mala cor-de-rosa com cantos arredondados que parecia ter saído do armário da Barbie. Vada e Marina vinham juntas atrás. Vada pegara uma das duas bolsas de retalhos; Marina levava a outra pendurada no ombro. Também levava June no colo, agora com 4 meses, e se esforçava para acompanhar. Os dois filhos de Robert e Vada a flanqueavam, olhando-a com curiosidade visível.

Vada chamou os homens e eles pararam quase na frente do restaurante. Robert sorriu e pegou a bolsa de Marina. A expressão de Lee foi... divertida? Sagaz? Talvez ambas. A mínima sugestão de um sorriso formou uma covinha nos cantos da boca. O cabelo comum estava bem-penteado. De fato, ele era o perfeito fuzileiro naval com a camisa branca bem-passada, as calças cáqui e os sapatos engraxados. Não parecia um homem que acabara de completar uma viagem de meia volta ao mundo; não havia um amassado nem vestígio de barba por fazer no rosto. Tinha apenas 22 anos e parecia mais novo — como um dos adolescentes da minha última turma de literatura americana.

Marina também, que só teria idade suficiente para comprar bebida legalmente dali a um mês. Estava exausta, desnorteada e fitava tudo. Também era bonita, com nuvens de cabelo moreno e olhos azuis amendoados e um tanto tristes.

Os braços e pernas de June estavam enrolados em fraldas de pano. Até o pescoço estava enrolado em alguma coisa e, embora ela não chorasse, o rosto estava vermelho e suado. Lee pegou o bebê. Marina sorriu de gratidão e, quando os seus lábios se separaram, vi que um dos dentes faltava. Os outros eram descoloridos, um deles quase preto. O contraste com a pele cremosa e os olhos maravilhosos era berrante.

Oswald se inclinou mais perto dela e disse algo que lhe apagou o sorriso do rosto. Ela ergueu para ele os olhos cansados. Ele disse outra coisa, cutucando o ombro dela com o dedo ao mesmo tempo. Lembrei a história de Al e me perguntei se Oswald dizia agora a mesma coisa à esposa: pakhoda, suka — ande, cadela.

Mas não. Fora a enrolação do bebê que o irritara. Ele a arrancou, primeiro dos braços, depois das pernas, e jogou as fraldas para Marina, que as pegou meio sem jeito. Depois ela olhou em volta para ver se eram observados.

Vada voltou e tocou o braço de Lee. Ele não lhe deu atenção, só desenrolou o cachecol improvisado de algodão do pescoço do bebê June e o jogou para Marina. Caiu no chão do terminal. Ela se abaixou e o pegou sem falar.

Robert se juntou a eles e deu no irmão um soco amistoso no ombro. O terminal agora estava quase vazio — o último passageiro desembarcado passara pela família Oswald — e ouvi com clareza o que ele disse.

— Tenha calma, ela acabou de chegar aqui. Ainda nem sabe onde é aqui.

— Veja essa criança — disse Lee, e ergueu June para inspeção. Com isso, ela finalmente começou a chorar. — Ela embrulha a menina toda como uma maldita múmia egípcia. Porque é assim que fazem na terra dela. Não sei se rio ou se choro. Staryi baba! Velha. — Ele se virou para Marina com o bebê chorando no colo. Ela o olhou amedrontada. — Staryi baba!

Ela tentou sorrir do jeito que todos fazem quando sabem que a piada é com eles, mas não sabem por quê. Pensei rapidamente em Lennie, de Ratos e homens. Então um sorriso arrogante e meio de lado iluminou o rosto de Oswald. Isso o deixou quase bonito. Ele beijou a esposa suavemente, primeiro numa bochecha, depois na outra.

— Estados Unidos! — disse e a beijou de novo. — Estados Unidos, Rina! Terra dos livres e lar dos bostas!

O sorriso dela ficou radiante. Ele começou a falar com ela em russo enquanto lhe devolvia o bebê. Pôs o braço na cintura dela enquanto ela acalmava June. Ela ainda sorria enquanto saíam do meu campo de visão e pôs o bebê no ombro para segurar a mão dele.

8

Fui para casa — se era possível chamar a rua Mercedes de casa — e tentei tirar um cochilo. Não consegui, e fiquei lá deitado com as mãos atrás da cabeça, estudando os ruídos perturbadores da rua e falando com Al Templeton. Essa era uma coisa que eu me via fazendo com bastante frequência, agora que estava sozinho. Para um morto, ele sempre tinha muito a dizer.

— Foi estúpido vir para Fort Worth — disse-lhe. — Se eu tentar ligar aquele microfone no gravador, é provável que alguém me veja. O próprio Oswald pode me ver, e isso mudaria tudo. Ele já é paranoico, você disse isso nas suas anotações. Sabia que a KGB e o MVD o vigiavam em Minsk e ficaria com medo de que o FBI e a CIA o vigiassem aqui. E o FBI realmente vigiará, pelo menos por algum tempo.

— É, você terá de ser cuidadoso — concordou Al. — Não vai ser fácil, mas confio em você, colega. Foi por isso que o chamei.

— Eu nem quero chegar perto dele. Bastou vê-lo no aeroporto para me dar arrepios classe A.

— Sei que não, mas terá que fazê-lo. Como alguém que passou quase a vida inteira preparando refeições, posso lhe dizer que nunca se conseguiu fazer omelete sem quebrar ovos. E seria um erro superestimar esse sujeito. Ele não é nenhum supercriminoso. Também vai ser distraído, principalmente pela pirada da mãe dele. Até que ponto e durante quanto tempo ele será bom em alguma coisa que não seja berrar com a mulher e bater nela quando ficar tão irritado que berrar não basta mais?

— Acho que ele se preocupa com ela, Al. Pelo menos um pouco e talvez muito. Apesar dos gritos.

— É, e são sujeitos como ele que têm mais probabilidade de foder com as suas mulheres. Veja só Frank Dunning. Cuide do que é da sua conta, colega.

— E o que vou obter se conseguir instalar aquele microfone? Gravação de brigas? Brigas em russo? Isso vai ajudar muito.

— Você não precisa decifrar a vida familiar dele. É sobre George de Mohrenschildt que você precisa descobrir. Tem de se certificar de que Mohrenschildt não está envolvido no atentado contra o general Walker. Se conseguir isso, a janela de incerteza se fecha. E veja o lado bom. Se Oswald pegar você espionando, as suas ações futuras podem mudar de um jeito bom. Talvez ele não tente matar Kennedy, afinal de contas.

— Acredita mesmo nisso?

— Não. Na verdade, não.

— Nem eu. O passado é obstinado. Ele não quer mudar.

Al disse:

— Colega, agora você está cozinhando...

— Com gás — ouvi a minha voz murmurar. — Agora estou cozinhando com gás.

Abri os olhos. No fim das contas, adormecera. A luz tardia entrava pelas cortinas fechadas. Em algum lugar não muito longe, na rua Davenport, em Fort Worth, os irmãos Oswald e as esposas sentavam-se para jantar — a primeira refeição de Lee de volta à velha terra natal.

Diante do meu pedacinho de Fort Worth, eu conseguia escutar uma ladainha de pular corda. Parecia muito familiar. Levantei-me, atravessei a sala de estar obscura (mobiliada com duas poltronas de brechó e nada mais) e afastei uns 2 centímetros uma das cortinas. Essas cortinas foram a minha primeiríssima instalação. Queria ver; não queria ser visto.

O 2.703 ainda estava deserto, com a placa ALUGA-SE presa com dois pregos no gradil da varanda dilapidada, mas o gramado não estava deserto. Lá, duas meninas giravam uma corda de pular enquanto a terceira entrava e saía. É claro que não eram as meninas que eu vira na rua Kossuth, em Derry — essas três, vestidas de jeans desbotados e remendados em vez de bermudas novas em folha, pareciam nanicas e subalimentadas — mas o canto era o mesmo, só que agora com sotaque do Texas.

— Carlitos foi à França! Pra ver a contradança! Batendo continência! Pra vossa excelência! O meu pai dirige um sub-ma-ri-no!

A garota que pulava prendeu o pé e caiu rolando no capim que servia de gramado da frente do 2.703. As outras meninas se jogaram em cima dela e as três rolaram na terra. Depois se levantaram e saíram correndo.

Observei as três irem embora, pensando eu as vi mas elas não me viram. É alguma coisa. É um começo. Mas, Al, onde está o meu fim?

Mohrenschildt era a chave do negócio todo, a única coisa que me impedia de matar Oswald assim que ele se mudasse para o outro lado da rua. George de Mohrenschildt, geólogo de petróleo que especulava com concessões de poços. Um homem que vivia como um playboy, principalmente graças ao dinheiro da mulher. Como Marina, era um russo exilado, mas, ao contrário dela, vinha de família nobre — na verdade, ele era barão de Mohrenschildt. O homem que se tornaria o único amigo de Lee Oswald durante os poucos meses de vida que Oswald ainda tinha. O homem que sugeriria a Oswald que o mundo seria muito melhor sem um certo ex-general racista de direita. Se Mohrenschildt participasse da tentativa de Oswald de matar Edwin Walker, a minha situação ficaria complicadíssima; então todas as teorias da conspiração malucas estariam em jogo. No entanto, Al acreditava que tudo o que o geólogo russo fizera (ou faria; como eu disse, viver no passado é confuso) foi incitar um homem mentalmente instável e já obcecado com a fama.

Ele escrevera nas anotações: Se Oswald estava sozinho na noite de 10 de abril de 1963, a probabilidade de que houvesse outro atirador envolvido no assassinato de Kennedy sete meses depois cai quase a zero.

Debaixo disso, em maiúsculas, ele acrescentara o veredito: É O BASTANTE PARA TIRAR DE CENA O FILHO DA PUTA

9

Ver as menininhas que não me viram me fez pensar naquele velho filme de suspense com Jimmy Stewart, Janela indiscreta. Pode-se ver muito sem sequer sair da sala de estar. Principalmente quando se tem a ferramenta certa.

No dia seguinte, fui a uma loja de produtos esportivos e comprei um par de binóculos Bausch & Lomb, me lembrando de tomar cuidado com o reflexo do sol nas lentes. Como o 2.703 ficava no lado leste da rua Mercedes, achei que seria seguro nesse aspecto a qualquer hora depois do meio-dia. Enfiei as lentes pela abertura da cortina e, quando ajustei o foco, a sórdida sala-cozinha do outro lado ficou tão nítida e detalhada que eu poderia estar lá em pé.

O Abajur Inclinado de Pisa ainda estava sobre a cômoda velha onde os utensílios de cozinha ficavam guardados, à espera de que alguém o ligasse e ativasse o microfone. Mas de nada me adiantaria se não estivesse ligado no esperto gravadorzinho de fita japonês, que podia gravar até doze horas na velocidade menor. Eu o experimentara, chegando a falar no abajur reserva (o que me fez sentir como um personagem de uma comédia de Woody Allen), e, embora o som fosse arrastado, as palavras eram compreensíveis. Tudo isso significava que eu estava pronto para começar.

Se ousasse.

10

O dia 4 de julho foi movimentado na rua Mercedes. Homens de folga regaram gramados que já não podiam ser salvos — além de algumas tempestades à tarde e à noite, o tempo fora seco e quente — e depois se aboletaram em cadeiras dobráveis, escutando jogos de beisebol no rádio e tomando cerveja. Grupos de subadolescentes soltavam busca-pés em cachorros de rua e nas poucas galinhas soltas. Uma dessas foi atingida por uma bombinha e explodiu numa massa de sangue e penas. A criança que a jogou foi arrastada aos gritos para uma das casas mais abaixo na rua por uma mãe que usava apenas uma combinação e um boné dos tratores Farmall. Pelo andar instável, adivinhei que ela já tinha entornado algumas cervas. A coisa mais próxima de fogos de artifício veio pouco depois das dez, quando alguém, possivelmente o mesmo garoto que rasgou os pneus do meu conversível, pôs fogo num velho Studebaker abandonado no estacionamento do depósito da Montgomery Ward havia mais ou menos uma semana. O corpo de bombeiros de Fort Worth veio apagar e todos saíram para olhar.

Hail, Columbia.

Na manhã seguinte, fui inspecionar o casco carbonizado, sentado tristemente na poça dos restos dos pneus. Avistei uma cabine telefônica perto de uma das docas de carga do depósito e, num impulso, liguei para Ellie Dockerty, pedindo à telefonista que descobrisse o número e fizesse a ligação. Fiz isso em parte porque estava sozinho e com saudades de casa, principalmente porque queria notícias de Sadie.

Ellie atendeu no segundo toque e pareceu contentíssima de ouvir a minha voz. Em pé ali, numa cabine telefônica já quentíssima, com a rua Mercedes curando a ressaca de Quatro de Julho atrás de mim e o cheiro de carro torrado nas narinas, isso me fez sorrir.

— Sadie está bem. Recebi dois cartões-postais e uma carta. Está trabalhando no Harrah’s como garçonete. — Ela baixou a voz. — Acredito que é como garçonete de coquetéis, mas o conselho escolar nunca saberá disso por mim.

Visualizei as pernas compridas de Sadie na saia curta de uma garçonete de coquetéis. Visualizei empresários tentando ver o alto das meias ou o vale do decote quando ela se inclinasse para pôr as bebidas na mesa.

— Ela perguntou por você — disse Ellie, e isso me fez sorrir de novo. — Não quis dizer a ela que, pelo que todos em Jodie sabemos, você caíra pela borda do mundo, então disse que estava ocupado com o livro e indo bem.

Eu não acrescentava uma palavra a O local do crime fazia um mês ou mais e, nas duas ocasiões em que pegara o manuscrito e tentara lê-lo, tudo parecera escrito em púnico do século III.

— Fico contente por ela estar bem.

— A exigência de moradia será cumprida no fim do mês, mas ela decidiu ficar por lá até as férias de verão acabarem. Ela diz que as gorjetas são muito boas.

— Você lhe pediu uma foto do futuro ex-marido?

— Pouco antes que fosse embora. Ela disse que não tinha nenhuma. Acha que os pais têm várias, mas se recusou a escrever a eles para pedir. Disse que nunca desistiram do casamento e que isso lhes daria falsas esperanças. Disse também que achava que você estava exagerando. Exagerando loucamente, foi a expressão que usou.

Isso soava como a minha Sadie. Só que não era mais minha. Agora era apenas ei, moça, traga outra rodada... e se abaixe um pouco mais dessa vez. Todo homem tem um osso do ciúme, e o meu doía bastante na manhã de 5 de julho.

— George? Não tenho dúvida de que ela ainda gosta de você e talvez não seja tarde demais para desfazer a confusão.

Pensei em Lee Oswald, que só cometeria o atentado contra a vida do general Edwin Walker dali a nove meses.

— É cedo demais — respondi.

— Como é?

— Nada. Foi bom conversar, dona Ellie, mas daqui a pouco a telefonista vai entrar na linha pedindo mais dinheiro e estou sem moedas.

— Será que você não poderia vir até aqui para um hambúrguer e um milk-shake? Na lanchonete? Se puder, convido Deke Simmons para se encontrar conosco. Ele pergunta sobre você quase todo dia.

A ideia de voltar a Jodie e ver os meus amigos da escola secundária provavelmente era a única coisa que me alegraria naquela manhã.

— Com certeza. Hoje à tarde seria cedo demais? Digamos, às cinco?

— Perfeito. Nós, ratos do campo, comemos cedo.

— Ótimo. Estarei lá. A conta é minha.

— A gente divide.

11

Al Stevens contratara uma garota que eu conhecia das aulas de Inglês Comercial e fiquei comovido com o modo como ela se alegrou quando viu quem estava sentado com Ellie e Deke.

— Sr. Amberson! Uau, é muito bem ver o senhor! Como vai?

— Bem, Dorrie — disse eu.

— Pois peça grande. O senhor emagreceu.

— É verdade — disse Ellie. — Você precisa de bons cuidados.

O bronzeado mexicano de Deke sumira, o que me revelou que passava a maior parte da aposentadoria dentro de casa, e o peso que eu perdera ele encontrara. Ele apertou a minha mão com força e me disse que era muito bom me ver. Não havia artifícios nesse homem. Nem em Ellie Dockerty, aliás. Trocar esse lugar pela rua Mercedes, onde comemoravam o Quatro de Julho explodindo galinhas, começou a me parecer cada vez mais louco, por mais que eu soubesse o futuro. Sem dúvida, torci para que Kennedy valesse a pena.

Comemos hambúrgueres, batatas fritas chiando de gordura e torta de maçã à moda da casa. Conversamos sobre quem fazia o que e rimos de Danny Laverty, que finalmente escrevia o livro há tanto tempo divulgado. Ellie disse que, de acordo com a mulher de Danny, o primeiro capítulo se intitulava “Entro na briga”.

No final da refeição, enquanto Deke enchia o cachimbo de Prince Albert, Ellie ergueu uma sacola que guardara debaixo da mesa e mostrou um grande livro que passou por cima dos restos engordurados da nossa refeição.

— Página 89. E afaste-o dessa feia poça de ketchup, por favor. Foi emprestado sob termos estritos e quero mandá-lo de volta no mesmo estado em que recebi.

Era um livro do ano intitulado Tiger Tails e viera de uma escola muito mais metida a chique do que a DCHS. Tiger Tails era encadernado em couro em vez de pano, as páginas eram grossas e lustrosas, e a seção de anunciantes no final tinha tranquilamente umas cem páginas de espessura. A instituição promovida — exaltada seria uma palavra melhor — era a Longacre Day School, em Savannah. Folheei a seção de alunos mais velhos, uniformemente branca, e achei que em 1990 poderia haver um ou outro rosto negro por lá. Talvez.

— Caramba — disse eu. — Sadie deve ter sofrido um bom golpe na carteira quando veio de lá para Jodie.

— Acho que ela estava ansiosa demais para cair fora — disse Deke baixinho. — E tenho certeza de que teve boas razões.

Fui para a página 89. Intitulava-se DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DE LONGACRE. Havia uma foto jocosa de um grupo de quatro professores de jaleco branco segurando béqueres borbulhantes — convocando o dr. Jekyll — e, abaixo, quatro fotos de estúdio. John Clayton não se parecia nada com Lee Oswald, mas tinha o mesmo tipo de rosto agradável e fácil de esquecer, e os cantos dos lábios formavam covinhas com a mesma sugestão de sorriso. Era o fantasma do divertimento ou desprezo mal escondido? Inferno, talvez fosse só o máximo que o canalha obsessivo-compulsivo conseguiu quando o fotógrafo lhe pediu um sorriso. Os únicos traços identificadores eram uns ocos nas têmporas que quase combinavam com as covinhas no canto da boca. A foto não era colorida, mas os olhos eram claros o bastante para eu ter certeza suficiente de que eram azuis ou cinzentos.

Devolvi o livro aos meus amigos.

— Viram essas entradas na lateral da cabeça? Isso é apenas uma formação natural, como um nariz torto ou uma covinha no queixo?

Eles disseram “Não” exatamente ao mesmo tempo. Foi quase cômico.

— São marcas de fórceps — disse Deke. — Feitas quando algum médico finalmente se cansou de esperar e o puxou para fora da mamãe. Costumam sumir, mas nem sempre. Se o cabelo dele não estivesse caindo nos lados, você nem as veria, não é?

— E ele não apareceu perguntando por Sadie? — perguntei.

— Não. — Eles falaram em uníssono de novo. Ellen acrescentou: — Ninguém tem perguntado por ela. A não ser você, George. Seu maldito tolo. — Ela sorriu como todos fazem quando é piada, mas não muito.

Olhei o relógio e disse:

— Já ocupei vocês tempo demais. Está na hora de voltar.

— Quer dar um passeio até o campo de futebol antes de ir? — perguntou Deke. — O treinador Borman pediu que o levasse, se tivesse oportunidade. Ele já está treinando, é claro.

— No frescor da noite, pelo menos — disse Ellie, levantando-se. — Graças a Deus pelos pequenos favores. Lembra quando o garoto dos Hasting teve intermação três anos atrás, Deke? E que primeiro pensaram que era um enfarte?

— Não consigo imaginar por que ele quer me ver — disse eu. — Levei um dos seus defensores mais valiosos para o lado sombrio do universo. — Baixei a voz e sussurrei, com voz rouca: — Artes cênicas!

Deke sorriu.

— É, mas salvou outro de uma possível suspensão em Alabama. Ou pelo menos é o que Borman pensa. Porque, meu filho, foi isso que Jim LaDue lhe contou.

A princípio não entendi nada do que ele dizia. Depois, lembrei o baile de maria cebola e sorri.

— Só o que fiz foi pegar três deles passando uma garrafa de bebida vagabunda. Joguei-a do outro lado da cerca.

Deke parara de sorrir.

— Um daqueles meninos era Vince Knowles. Sabia que ele estava bêbado quando capotou com aquela picape dele?

— Não. — Mas isso não me surpreendeu. Carros e bebida sempre foram um coquetel popular e às vezes fatal nas escolas secundárias.

— Pois é. Isso, combinado ao que você disse àqueles garotos no baile, fez LaDue renegar a bebida.

— O que você disse? — perguntou Ellie. Ela procurava a carteira na bolsa, mas eu estava perdido demais nas lembranças daquela noite para discutir com ela a respeito da conta. Não fodam o seu futuro: fora isso que eu dissera. E Jim LaDue, aquele do sorrisinho preguiçoso de tenho-o-mundo-nas-mãos, realmente levara a sério. A gente nunca sabe que vidas influencia, nem quando nem por quê. Só quando o futuro come o presente, de qualquer modo. Sabemos quando é tarde demais.

— Não me lembro — disse eu.

Ellie se afastou para pagar a conta.

Eu disse:

— Peça à srta. Dockerty para ficar de olho no homem daquela foto, Deke. Você também.

Ele pode não aparecer, estou começando a achar que posso ter me enganado a esse respeito, mas talvez apareça. E ele não bate muito bem.

Deke prometeu que ficaria.

12

Quase não fui até o campo de futebol. Jodie estava especialmente linda à luz inclinada daquela tarde do início de julho e achei que parte minha queria estar de volta a Fort Worth antes de perder a vontade de ir para lá. Quanto teria mudado se eu pulasse aquele pequeno desvio? Talvez nada. Talvez muito. O treinador fazia duas ou três jogadas finais com os garotos especialistas enquanto o resto dos jogadores estava no banco, sem capacete, o suor escorrendo pelo rosto. “Dois vermelho, dois vermelho! ”, berrou o treinador. Ele nos viu e ergueu a mão aberta: cinco minutos. Depois, se virou de novo para o pequeno esquadrão cansado ainda no campo.

— Mais uma vez! Quero ver vocês darem aquele grande salto de zé-ninguém a zé-alguém, o que acham?

Olhei o outro lado do campo e vi um sujeito de paletó esporte berrante a ponto de gritar. Ele andava de um lado para o outro do campo com fones de ouvido na cabeça e o que parecia um prato de salada nas mãos. Os óculos dele me recordaram alguém. A princípio não consegui fazer a ligação, depois fiz: ele lembrava um pouco Silent Mike McEachern. O meu sr. Wizard pessoal.

— Quem é aquele? — perguntei a Deke.

Ele franziu os olhos.

— E eu sei?

O treinador bateu palmas e disse aos garotos que fossem para o chuveiro. Andou até as arquibancadas e me deu um tapinha nas costas.

— Como vai, Shakespeare?

— Muito bem — respondi, sorrindo com espírito esportivo.

— Shakespeare, apanha e não pia, era assim que dizíamos quando garotos. — Ele deu uma boa risada.

— Nós dizíamos treinador, treinador, apanha com dor.

O treinador Borman pareceu desconcertado.

— É mesmo?

— Nada, só estou brincando com você. — Meio que desejando que tivesse agido com base no primeiro impulso e escapulido da cidade depois da ceia. — Como está o time?

— Ah, os menino são bons, esforçados, mas não vai ser igual sem Jimmy. Viu o novo outdoor lá onde a 109 sai da rodovia 77? — Só que ele disse set-set.

— Acho que estou acostumado demais para notar.

— Pois dê uma olhada quando passar, camarada. Ele fez direitinho. A mãe de Jimmy quase chorou quando viu. Acho que te devo um muitobrigado porque tu fez aquele rapaz parar de beber. — Ele tirou o boné com um grande C, limpou com o braço o suor da testa, pôs o boné de novo e deu um suspiro profundo. — Acho que devo àquele bonitão de merda do Vince Knowles um voto de agradecimento também, mas botar ele na minha lista de oração é o máximo que dá pra fazer.

Recordei que o treinador era um batista da variedade casca-grossa. Além das listas de oração, provavelmente acreditava em toda aquela merda sobre os filhos de Noé.

— Não precisa agradecer — disse eu. — Só fiz o meu trabalho.

Ele me olhou atentamente.

— Você ainda devia tá fazendo ele e não aí punhetando um livro. Desculpa a grosseria, mas é assim que eu me sinto.

— Sem problemas. — Era verdade. Gostei mais dele por dizer isso. Em outro mundo, ele poderia até ter razão. Apontei para o outro lado do campo, onde o sósia de Silent Mike enfiava o prato de salada num estojo de aço. Os fones ainda estavam pendurados no pescoço. — Quem é aquele, treinador?

O treinador fez um muxoxo.

— Acho que o nome dele é Hale Duff. Ou talvez seja Cale. O novo repórter de esportes da Big Damn. — Ele falava da KDAM, a única emissora de rádio do condado de Denholm, uma radiozinha vagabunda que transmite notícias rurais pela manhã, música country à tarde e rock depois do horário escolar. Os garotos gostavam tanto das chamadas da rádio quanto da música; havia uma explosão seguida por uma voz de velho caubói dizendo: “K-DAM! Esse foi dos grandes!” Na Terra de Antigamente, isso é considerado o máximo do humor malicioso.

— O que é aquela invenção dele, treinador? — perguntou Deke. — Você sabe?

— Ô se sei — disse o treinador —, e se acha que vou deixar ele usar isso numa transmissão de jogo, ele tá é maluco. Acha que eu quero todo mundo que tiver rádio me ouvindo chamar os garoto de monte de mariquinha de merda quando não conseguem impedir a corrida na terceira marca?

Virei-me para ele, bem devagar.

— Do que você está falando?

— Não acreditei nele e eu mesmo experimentei — disse o treinador. Então, com indignação crescente: — Ouvi Boof Redford dizer a um dos calouros que o meu escroto era maior do que o meu cérebro!

— Pois é — respondi. Os meus batimentos cardíacos tinham aumentado bastante.

— O tal Duffer disse que construiu aquilo na merda da garagem — grunhiu o treinador. — Disse que quando liga no máximo dá para ouvir um gato peidar no outro quarteirão. Isso é besteira, claro, mas Redford estava do outro lado do campo quando ouvi ele dizer aquela gracinha.

O repórter esportivo, que parecia ter uns 24 anos, pegou o estojo de aço do equipamento e acenou com a mão livre. O treinador acenou de volta e depois murmurou entredentes:

— No dia de jogo que eu deixar ele entrar no meu campo com aquela coisa, eu ponho um adesivo do Kennedy na merda do meu Dodge.

13

Estava quase escuro quando cheguei à interseção da 77 com a 109, mas uma lua laranja e inchada subia a leste e havia luz suficiente para ver o outdoor. Era Jim LaDue, sorrindo com o capacete de futebol americano numa das mãos, a bola oval na outra e um cacho de cabelo preto caído heroicamente sobre a testa. Acima da foto, em letras estreladas, estava PARABÉNS A JIM LADUE, MELHOR QUARTERBACK DO ESTADO EM 1960 E 1961! BOA SORTE NO ALABAMA! JAMAIS O ESQUECEREMOS!

E embaixo, em letras vermelhas que pareciam gritar:

“JIMLA!”

14

Dois dias depois, entrei na Eletrônica Satélite e esperei o meu anfitrião vender um rádio transístor do tamanho de um iPod a um garoto que mascava chiclete. Depois que ele saiu pela porta (já apertando no lugar o fone do radinho), Silent Mike se virou para mim:

— Ora, é o meu velho amigo Doe. Em que posso ajudar hoje? — Depois, baixando a voz para um cochicho conspiratório: — Mais abajures grampeados?

— Hoje, não — respondi. — Me diga, já ouviu falar numa coisa chamada microfone multidirecional?

Os seus lábios se abriram sobre os dentes num sorriso.

— Meu amigo — disse ele —, mais uma vez você veio ao lugar certo.