Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 13 de 35

Páginas do PDF

Novembro de 63

Capítulo 12

1

Peguei a um dólar para o Sul. Comi num monte de restaurantes de beira de estrada que ofereciam Comida Caseira da Mamãe, lugares onde o Prato Azul Especial, incluindo uma taça de frutas para começar e torta à moda da casa na sobremesa, custava oitenta centavos. Nunca vi nenhuma franquia de fast-food, a não ser que a gente conte a Howard Johnson’s, com os seus 28 sabores de sorvete e o logotipo com Simple Simon. Vi um grupo de escoteiros cuidando de uma fogueira de folhas secas com o seu chefe; vi mulheres de sobretudo e galocha recolhendo roupa da corda numa tarde cinzenta em que ameaçava chover; vi longos trens de passageiros com nomes como Voador do Sul e Estrela de Tampa correndo rumo àqueles climas americanos em que o inverno não é permitido. Vi velhos fumando cachimbo em bancos de praça. Vi um milhão de igrejas e um cemitério onde uma congregação de pelo menos cem integrantes formava um círculo em torno de um túmulo aberto cantando The Old Rugged Cross. Vi homens construindo celeiros. Vi gente ajudando gente. Dois que estavam num caminhão aberto pararam para me ajudar quando a tampa do radiador do Sunliner saiu voando e fiquei enguiçado na beira da estrada. Isso foi na Virgínia, por volta das quatro da tarde, e um deles me perguntou se eu precisava de um lugar para dormir. Acho que dá para imaginar isso acontecendo em 2011, mas é forçar a barra.

E mais uma coisa. Na Carolina do Norte, parei para abastecer num posto Humble Oil e depois dei a volta para usar o banheiro. Havia duas portas e três placas. HOMENS estava escrito com letras cuidadosamente pintadas com estêncil numa das portas, DAMAS na outra. A terceira placa era uma seta numa vara. Apontava a encosta coberta de mato atrás do posto. Dizia DE COR. Curioso, andei pelo caminho, com cuidado para contornar alguns pontos onde as folhas oleosas do sumagre-venenoso, num verde fugindo para o marrom, eram inconfundíveis. Torci para que os papais e mamães que pudessem levar os filhos até aquelas instalações lá embaixo soubessem identificar o que eram aqueles arbustos problemáticos, porque no final dos anos cinquenta a maioria das crianças usava calças curtas.

Não havia nenhuma instalação. O que encontrei no fim do caminho foi um riachinho estreito com uma tábua atravessada em cima, sobre dois suportes de concreto dilapidado. O homem que precisasse urinar podia apenas ficar à margem, baixar o zíper e deixar sair. A mulher poderia se segurar num arbusto (supondo que não fosse urtiga nem sumagre-venenoso) e se agachar. A tábua era onde a gente se sentava se tivesse de cagar. Talvez sob chuva torrencial.

Se lhe dei a ideia de que 1958 era perfeito como um seriado de televisão, basta lembrar o caminho, ok? Aquele ladeado de sumagre-venenoso. E a tábua sobre o riacho.

2

Instalei-me quase cem quilômetros ao sul de Tampa, na cidadezinha de Sunset Point. Por oitenta dólares por mês, aluguei um barraco de pescador na praia mais linda (e mais deserta) que já vira. Havia quatro barracos semelhantes no meu trecho de areia, todos tão humildes quanto o meu. Das McMansões estilo feio-nouveau que mais tarde brotariam como cogumelos venenosos de concreto nessa parte do estado, não vi nenhuma. Havia um supermercado quinze quilômetros ao Sul, em Nokomis, e um bairro comercial e sonolento em Venice. A rodovia 41 ou trilha Tamiami mal passava de uma estrada vicinal. Era preciso ir devagar, ainda mais perto do crepúsculo, porque era quando os crocodilos e tatus gostavam de atravessar. Entre Sarasota e Venice, havia barraquinhas de frutas, mercados à beira da estrada, alguns bares e um salão de baile chamado Blackie’s. Depois de Venice, meu irmão, você estava por sua conta e risco, pelo menos até chegar a Fort Myers.

Deixei para trás o personagem do corretor de imóveis George Amberson. Na primavera de 1959, uma época de recessão chegara aos Estados Unidos. Na Costa do Golfo da Flórida, todo mundo vendia e ninguém comprava, e George Amberson se tornou exatamente o que Al previra: um candidato a escritor cujo tio moderadamente rico lhe deixara o suficiente para viver, pelo menos por algum tempo.

Eu realmente escrevi, e não só um projeto, mas dois. Pela manhã, enquanto estava mais descansado, comecei a trabalhar no manuscrito que você está lendo agora (se é que há um você). À noite, trabalhava num romance que, hesitante, chamei de O local do crime. O local em questão era Derry, claro, embora eu o chamasse de Dawson no meu livro. Comecei-o somente como cenografia, para ter algo a mostrar caso fizesse amigos e algum deles pedisse para ver em que eu trabalhava (eu guardava o “manuscrito matutino” debaixo da cama, numa caixa de aço trancada a chave). Finalmente, O local do crime se tornou mais do que camuflagem. Comecei a achar que era bom e a sonhar que, algum dia, poderia até ser publicado.

Uma hora de memórias pela manhã e uma hora de romance à noite ainda deixavam muito tempo a preencher. Tentei pescar, e havia muito peixe a ser pescado, mas não gostei e desisti. Andar era legal ao amanhecer e ao pôr do sol, mas não no calor do dia. Tornei-me freguês regular da única livraria de Sarasota, e passei longas horas (e quase todas felizes) nas pequenas bibliotecas de Nokomis e Osprey.

Li e reli o material de Al sobre Oswald, também. Finalmente reconheci nisso um comportamento obsessivo e guardei o caderno na caixa trancada junto com o “manuscrito matutino”. Eu chamara essas anotações de exaustivas, e assim me pareceram na época, mas conforme o tempo — a esteira rolante sobre a qual todos temos de viajar — me levou para mais e mais perto do ponto onde a minha vida convergiria com aquela do jovem futuro assassino, elas começaram a parecer menos completas. Havia furos.

Às vezes eu amaldiçoava Al por me forçar a entrar nessa missão querendo ou não, mas, em momentos de cabeça mais limpa, percebia que o tempo extra não teria feito nenhuma diferença. Poderia piorar as coisas, e Al provavelmente sabia disso. Mesmo que não se suicidasse, eu só teria uma ou duas semanas, e quantos livros foram escritos sobre a série de acontecimentos que levou àquele dia em Dallas? Cem? Trezentos? Provavelmente quase mil. Alguns concordavam com a crença de Al de que Oswald agira sozinho, alguns afirmavam que participara de uma conspiração complexa, alguns diziam com total certeza que ele não puxara o gatilho e que era exatamente o que afirmara depois da prisão, um bode expiatório. Ao se suicidar, Al acabara com o grande ponto fraco do erudito: chamar hesitação de pesquisa.

3

Fiz viagens ocasionais a Tampa, onde perguntas discretas me levaram a um bookmaker chamado Eduardo Gutierrez. Assim que se certificou de que eu não era policial, ficou contentíssimo de aceitar as minhas apostas. Primeiro apostei que os Minneapolis Lakers venceriam os Celtics na série do campeonato de 1959, criando portanto a minha boa fama de perdedor; os Lakers não venceram um único jogo. Também apostei quatrocentos que os Canadians venceriam os Maple Leafs na Série da Copa Stanley, e ganhei... mas foi dinheiro empatado. Trocadinhos, primo, diria o meu amigo Chaz Frati.

O meu único grande golpe aconteceu na primavera de 1960, quando apostei que o Venetian Way venceria o Bally Ache, grande favorito no Kentucky Derby. Gutierrez disse que me pagaria quatro por um em mil, cinco por um em dois mil. Escolhi dois mil depois de fazer os ruídos adequados de hesitação e me saí dez vezes mais rico. Ele pagou com bom humor fratiesco, mas havia nos seus olhos um brilho de aço de que não gostei.

Gutierrez era um cubano que, provavelmente, nem encharcado pesaria mais de 60 quilos, mas também era exilado da Quadrilha de Nova Orleans, administrada naquele tempo por um garoto mau chamado Carlos Marcello. Soube dessa fofoca no salão de bilhar junto à barbearia onde Gutierrez fazia os seus negócios (e um jogo de pôquer nos fundos aparentemente interminável sob uma fotografia de Diana Dors em trajes sumários). O homem com quem eu jogava sinuca inclinou-se para a frente, olhou em volta para se certificar de que estávamos sozinhos na mesa do canto e murmurou:

— Sabe o que dizem sobre a Quadrilha, George: quem entra, nunca sai.

Eu gostaria de ter conversado com Gutierrez sobre os seus anos em Nova Orleans, mas achei que não seria sensato mostrar curiosidade demais, principalmente depois da grana que ganhara com o Derby. Se tivesse ousado — e se tivesse pensado num modo plausível de tocar no assunto —, perguntaria a Gutierrez se conhecera outro integrante famoso da organização de Marcello, um ex-pugilista chamado Charles “Dutz” Murret. De algum modo, achava que a resposta seria que sim, porque o passado se harmoniza. A mulher de Dutz Murret era irmã de Marguerite Oswald. O que fazia dele tio de Lee Harvey Oswald.

4

Certo dia, na primavera de 1959 (há primavera na Flórida; os nativos me disseram que às vezes dura até uma semana), abri a caixa do correio e descobri um cartão de aviso da Biblioteca Pública de Nokomis. Eu reservara um exemplar de Os desencantados, o novo romance de Budd Schulberg, que acabara de chegar. Pulei no meu Sunliner — não havia carro melhor para uma região que começava a ser chamada de Costa do Sol — e fui buscá-lo.

No caminho, notei um novo cartaz no quadro de avisos lotado do saguão. Seria difícil deixar de ver: era azul vivo e mostrava o desenho cômico de um homem trêmulo olhando um termômetro enorme em que o mercúrio registrava dez graus abaixo de zero. PROBLEMAS DE GRADUAÇÃO?, perguntava o cartaz. VOCÊ PODE RECEBER UM DIPLOMA PELO CORREIO DAS FACULDADES UNIDAS DO OKLAHOMA! ESCREVA E PEÇA MAIS INFORMAÇÕES!

Faculdades Unidas do Oklahoma parecia uma ratoeira das boas, mas me deu uma ideia. Principalmente porque eu estava entediado. Oswald ainda estava nos fuzileiros e só daria baixa em setembro, quando seguiria para a Rússia. O seu primeiro passo seria a tentativa de renunciar à cidadania americana. Não daria certo, mas depois de uma tentativa de suicídio espalhafatosa — e provavelmente falsa — num hotel de Moscou, os russos o deixariam ficar no país. “Até a aprovação”, por assim dizer. Ele passaria cerca de trinta meses lá, trabalhando numa fábrica de rádios em Minsk. E, numa festa, conheceria uma moça chamada Marina Prusakova. Vestido vermelho, sapatilhas brancas , escrevera Al nas suas anotações. Bonita. Vestida para dançar.

Bom para ele, mas o que eu faria enquanto isso? As Faculdades Unidas me davam uma possibilidade. Escrevi pedindo detalhes e recebi a resposta prontamente. O catálogo se gabava de uma variedade absoluta de diplomas. Fiquei fascinado ao descobrir que, por trezentos dólares (em dinheiro ou ordem de pagamento), poderia receber um diploma de Letras. Só precisava passar numa prova que consistia de cinquenta questões de múltipla escolha.

Arranjei a ordem de pagamento, dei um beijo mental de despedida nos meus trezentos e mandei o pedido. Dali a duas semanas, recebi um envelope pardo fininho das Faculdades Unidas. Dentro, havia duas folhas malmimeografadas. As perguntas eram maravilhosas. Eis duas das minhas favoritas:

22. Qual era o segundo nome de “Moby”?

A. Tom

B. Dick

C. Harry

D. John

37. Quem escreveu A casa das sete flores?

A. Charles Dickens

B. Henry James

C. Ann Bradstreet

D. Nathaniel Hawthorne

E. Nenhum deles

Quando acabei de me divertir com essa prova maravilhosa, marquei as respostas (com um grito ocasional de “você tem de estar me gozando!”) e as mandei de volta a Enid, Oklahoma. Recebi um cartão-postal me parabenizando por passar na prova. Depois de pagar mais cinquenta dólares de “taxa de administração”, me informaram que eu receberia o meu diploma. Assim disseram e, oh, assim sucedeu. O diploma tinha aparência muito melhor do que a prova e veio com um impressionante selo dourado. Quando o apresentei a um representante do Conselho Escolar do Condado de Sarasota, o respeitabilíssimo o aceitou sem questionar e me pôs na lista de substitutos.

E foi assim que acabei voltando a ensinar um ou dois dias por semana durante o ano acadêmico de 1959-1960. Foi bom estar de volta. Gostei dos alunos — meninos com cabelo cortado reco, meninas de rabo de cavalo e saia godê até a canela com desenhos de cachorrinho —, embora eu soubesse muito bem que os rostos que via nas várias salas de aula que frequentei eram todos do mais simples tipo baunilha. Aqueles dias de professor substituto me reapresentaram um fato básico da minha personalidade: gostava de escrever, e descobrira que era bom nisso, mas o que eu amava era ensinar. Ensinar me preenchia de um jeito que não sei explicar. Nem quero. Explicações são poesia barata.

No meu melhor dia de substituto na Escola Secundária Oeste de Sarasota, depois de contar à turma de literatura americana o enredo básico de O apanhador no campo de centeio (livro que, naturalmente, não era permitido na biblioteca da escola e seria confiscado se algum aluno o levasse àqueles salões sagrados), estimulei os alunos a falar da principal queixa de Holden Caulfield: que escolas, adultos e a vida americana em geral eram todos falsos. Os garotos começaram devagar, mas, quando o sinal tocou, todos tentavam falar ao mesmo tempo, e meia dúzia se arriscou a chegar atrasado à próxima aula para dar alguma opinião final sobre o que estava errado na sociedade que viam à sua volta e a vida que os pais tinham planejado para eles. Os olhos brilhavam, os rostos estavam corados de empolgação. Não tive dúvidas de que haveria uma corrida a uma certa brochura vermelho escuro nas livrarias da região. O último a sair foi um garoto musculoso com um suéter de futebol americano. Para mim, parecia o personagem Moose Mason das revistas em quadrinhos de Archie.

— Eu queria que o senhor estivesse aqui o tempo todo, sr. Amberson — disse ele com o seu suave sotaque sulista. — Eu gosto mais é do senhor.

Ele não só gostava de mim; ele gostava mais de mim. Nada se compara a ouvir algo assim de um garoto de 17 anos que parece totalmente acordado pela primeira vez em toda a sua carreira acadêmica.

Mais adiante, naquele mesmo mês, o diretor me chamou na sala dele, ofereceu gentilezas e uma Co’-Cola e perguntou: “Filho, você é subversivo?” Garanti-lhe que não. Disse que votara em Ike. Ele pareceu satisfeito, mas sugeriu que, no futuro, eu me ativesse mais à “lista de leituras geralmente aceitas”. O corte de cabelo, o comprimento das saias e a gíria mudam, mas diretoria de escola? Nunca.

5

Numa aula da faculdade (isso foi na Universidade do Maine, uma faculdade de verdade na qual obtive um diploma de verdade), ouvi um professor de psicologia afirmar que os seres humanos possuem mesmo um sexto sentido. Ele o chamava de palpitador e disse que era mais desenvolvido nos místicos e foras da lei. Eu não era nenhum místico, mas, ao mesmo tempo, era assassino e exilado da minha época (eu podia considerar justificado o tiro em Frank Dunning, mas a polícia com certeza não o veria assim). Se essas coisas não fizessem de mim um fora da lei, nada faria.

— O meu conselho a vocês em situações nas quais parece haver ameaça de perigo — disse o professor naquele dia de 1995 — é seguir o palpite.

Decidi fazer exatamente isso em julho de 1960. Estava ficando cada vez mais inquieto com Eduardo Gutierrez. Era um camarada miúdo, mas havia aquelas supostas ligações com a Quadrilha a considerar... e o brilho dos olhos dele quando pagara a minha aposta do Derby, que agora eu considerava tolamente grande. Por que a fizera, quando estava ainda muito longe da falência? Não era ganância; era mais, acho, o modo como um bom rebatedor se sente quando lhe apresentam uma bola em curva com efeito. Em alguns casos, a gente simplesmente não consegue deixar de ser ambicioso. E lá fui eu, como Leo “Lábio” Durocher costumava dizer nas suas extravagantes transmissões pelo rádio, mas agora me arrependia.

Perdi de propósito as duas últimas apostas que fiz com Gutierrez, tentando ao máximo parecer bobo, apenas um jogador de jardim que teve sorte uma vez e acabaria perdendo tudo de volta, mas o meu palpitador me disse que eu não representava muito bem. O meu palpitador não gostou quando Gutierrez começou a me receber com “Ora, vejam! Eis que chega o meu ianqui da Ianquilândia.” Não o ianqui; meu ianqui.

Suponhamos que ele tivesse nomeado um dos seus amigos jogadores de pôquer para me seguir de Tampa a Sunset Point? Seria possível que mandasse mais alguns amigos jogadores de pôquer — ou alguns garotos musculosos ansiosos para sair debaixo dos juros escorchantes que Gutierrez cobrasse por algum empréstimo — para fazer uma operaçãozinha selvagem e devolver o que restava daqueles dez mil? O pensamento da frente da cabeça era de que esse tipo de enredo mal-ajambrado aparecia em seriados de detetives particulares como 77 Sunset Strip, mas o palpitador dizia coisa diferente. O palpitador dizia que o homenzinho que estava ficando careca era perfeitamente capaz de conseguir luz verde para uma invasão de domicílio e dizer aos motoqueiros para acabar comigo de porrada se eu tentasse fazer objeção. Não queria ser surrado e não queria ser roubado. Principalmente, não queria que as minhas páginas caíssem nas mãos de um corretor de apostas com ligações com a Quadrilha. Não gostava da ideia de fugir com o rabo entre as pernas, mas, que droga, eu tinha de ir para o Texas mais cedo ou mais tarde de qualquer jeito, então por que não mais cedo? Além disso, a discrição é a melhor parte da coragem. Aprendi isso no colo da minha mãe.

Assim, depois de uma noite de julho em que o sininho do sonar do palpitador soou especialmente forte, embalei os meus bens terrenos (a caixa trancada contendo as minhas memórias e o dinheiro que escondi debaixo do estepe do Sunliner), deixei um bilhete e o último cheque do aluguel para o senhorio e segui para o Norte pela US 19. Passei a primeira noite na estrada num decadente motel DeFuniak Springs. As telas tinham buracos e, até que desliguei a única lâmpada do meu quarto (um bulbo sem luminária pendurado num pedaço de fio elétrico), fui atacado por mosquitos do tamanho de aviões de caça.

Mas dormi feito bebê. Não houve pesadelos e o sininho do meu radar interior se calara. Para mim, estava mais do que bom.

Passei o primeiro dia de agosto em Gulfport, embora o primeiro lugar onde parei, nos arredores da cidade, se recusasse a me aceitar. O atendente do Red Top Inn me explicou que o hotel era só para negros, e me indicou a The Southern Hospitality, que ele chamou de “a melhor de Guff-pote”. Talvez fosse, mas em termos gerais acho que teria preferido o Red Top. A guitarra havaiana que vinha do bar e churrascaria ao lado soara fantástica.

6

Nova Orleans não estava exatamente no meu caminho para Dallas, mas com o sonar do palpitador calado, me vi num estado de espírito turístico... embora o que queria visitar não fosse o French Quarter, o cais dos vapores na rua Bienville nem o Vieux Carré.

Comprei um mapa de um vendedor de rua e encontrei o caminho ao único destino que realmente me interessava. Estacionei e, depois de cinco minutos de caminhada, estava em pé diante do número 4.905 da rua Magazine, onde Lee e Marina Oswald morariam com a filha June na última primavera-verão da vida de John Kennedy. Era um prédio dilapidado mas ainda não arruinado com uma cerca de ferro da altura da cintura em torno de um quintal cheio de mato. A tinta do andar térreo, antes branca, era agora de um tom descascado de amarelo-urina. O andar de cima era de tábuas cinzentas e não pintadas, como um estábulo. Um pedaço de papelão que cobria uma janela quebrada lá em cima dizia P/ALUGAR LIGUE MU3-4192. Telas enferrujadas fechavam a varanda onde, em setembro de 1963, Lee Oswald se sentaria de cuecas depois do anoitecer, sussurrando “Pôu! Pôu! Pôu!” entredentes e atirando a seco nos pedestres que passavam com a espingarda que se tornaria a mais famosa da história americana.

Eu pensava nisso quando alguém me cutucou o ombro, e quase gritei. Acho que pulei, porque o rapaz negro que me abordou deu um respeitoso passo atrás, erguendo as mãos abertas.

— Disculpa, siô. Disculpa, num queria assustá.

— Tudo bem — disse eu. — A culpa é toda minha.

Essa declaração pareceu inquietá-lo, mas ele tinha negócios na cabeça e prosseguiu... embora tivesse de se aproximar de novo, porque o seu negócio envolvia um tom de voz mais baixo do que o normal. Ele queria saber se eu estaria interessado em comprar algumas varinhas da alegria. Achei que sabia do que ele estava falando, mas só tive certeza absoluta quando ele acrescentou:

— Erva do pântano da mió qualidade, siô.

Eu lhe disse que passava, mas se ele pudesse me indicar um bom hotel na Paris do Sul, para mim isso valia meio dólar. Quando ele voltou a falar, o discurso estava bem mais correto.

— Há divergências, mas eu recomendaria o Hotel Monteleone. — Ele me explicou bem o caminho.

— Obrigado — agradeci e lhe entreguei a moeda. Ela sumiu num dos seus muitos bolsos.

— Diz aí, por que está olhando esse lugar? — Com a cabeça, ele apontou o prédio de apartamentos dilapidado. — Está pensando em comprar?

Uma pequena faísca do antigo George Amberson emergiu.

— Você deve morar por aqui. Acha que seria bom negócio?

— Alguns nesta rua talvez, mas não esse aí. Pra mim, parece mal-assombrado.

— Ainda não — disse eu e segui para o carro, deixando-o a me olhar, perplexo.

7

Tirei a caixa de aço da mala do carro e a pus no banco do carona do Sunliner, na intenção de levá-la comigo até o meu quarto no Monteleone, e foi o que fiz. Mas, enquanto o porteiro pegava o resto da minha bagagem, avistei algo no chão do banco de trás que me fez corar com uma sensação de culpa muito desproporcional em relação ao que era o objeto. Mas os ensinamentos da infância são os mais fortes, e outra coisa que aprendi no colo da minha mãe foi sempre devolver no prazo os livros da biblioteca.

— Sr. Porteiro, pode por favor me entregar aquele livro? — perguntei.

— Sim, siô! Com prazer!

Era O relatório Chapman, que eu pegara emprestado na Biblioteca Pública de Nokomis uma semana, mais ou menos, antes de decidir que era hora de calçar os sapatos de viagem. O adesivo no canto da capa transparente de proteção — APENAS 7 DIAS SEJA GENTIL COM O PRÓXIMO LEITOR — me repreendia.

Quando cheguei ao quarto, olhei o relógio e vi que eram apenas seis da tarde. No verão, a biblioteca só abria ao meio-dia, mas ficava aberta até as oito da noite. Os interurbanos eram uma das poucas coisas mais caras em 1960 do que em 2011, mas aquela sensação infantil de culpa ainda estava comigo. Liguei para a telefonista do hotel e lhe dei o número da Biblioteca de Nokomis, lendo-o no bolso do cartão colado na parte interna da capa do livro. A mensagenzinha abaixo, Ligue caso atrase mais de três dias para devolver, fez com que me sentisse mais canalha do que nunca.

A telefonista falou com outra telefonista. Por trás delas, vozes fracas conversavam. Percebi que, na época de onde eu vinha, a maioria desses falantes longínquos estaria morta. Então o telefone começou a tocar do outro lado.

— Alô, Biblioteca Pública de Nokomis. — Era a voz de Hattie Wilkerson, mas parecia que aquela doce senhorinha estava presa num barril de aço muito grande.

— Alô, sra. Wilkerson...

— Alô? Alô? Está me ouvindo? Droga de interurbano!

— Hattie? — agora eu estava gritando. — Aqui é George Amberson!

— George Amberson? Pela minha alma! De onde você está ligando, George?

Quase lhe disse a verdade, mas o radar palpitador soltou um único sinal bem alto e berrei:

— Baton Rouge!

— Na Louisiana?

— É! Estou com um dos seus livros! Só percebi agora! Vou mandar de vol...

— Não precisa berrar, George, a ligação está muito melhor agora. A telefonista deve ter enfiado o nosso pino até o fim. Estou tão contente de receber notícias suas. Foi pela providência de Deus que você não estava lá. Ficamos preocupados, embora o chefe dos bombeiros tenha dito que a casa estava vazia.

— Do que está falando, Hattie? Da minha casa na praia?

Mas, ora bolas, do que mais?

— É! Alguém jogou uma garrafa de gasolina acesa pela janela. A coisa toda pegou fogo em questão de minutos. O chefe Durand acha que foram garotos que saíram para beber e badernar. Hoje há tantas maçãs podres. É porque têm medo da Bomba, é o que o meu marido diz.

Pois é.

— George? Ainda está aí?

— Estou — respondi.

— Com que livro você está?

— O quê?

— Com que livro você está? Assim não preciso consultar o fichário.

— Ah. O relatório Chapman.

— Então mande de volta o mais depressa possível, pode ser? Temos algumas pessoas à espera desse. Irving Wallace é extremamente popular.

— Certo — respondi. — Farei isso mesmo.

— E sinto muito pela sua casa. Perdeu as suas coisas?

— Tudo o que é importante está comigo.

— Agradeça a Deus por isso. Você vai voltar l...

Houve um clique alto a ponto de espetar o meu ouvido e depois o tom de discar. Repus o fone no gancho. Se eu voltaria logo? Não vi necessidade de telefonar de volta para responder a essa pergunta. Mas ficaria de olho no passado, porque ele sente os agentes de mudança e tem dentes afiados.

Mandei O relatório Chapman de volta à Biblioteca de Nokomis de manhã bem cedo.

Depois, parti para Dallas.

8

Dali a três dias, eu estava sentado num banco em Dealey Plaza, olhando o cubo quadrado de tijolos do Texas School Book Depository. Era fim de tarde e fazia um calorão. Eu afrouxara a gravata (quem não a usasse em 1960, mesmo em dias muito quentes, atrairia atenção indesejada) e abri o primeiro botão da camisa branca simples, mas isso não ajudou muito. Nem a pouca sombra do olmo ao lado do meu banco.

Quando me hospedei no Adolphus Hotel na rua Commerce, me ofereceram uma escolha: com ou sem ar-condicionado. Paguei cinco pratas a mais por um quarto em que o aparelho na janela baixava a temperatura para 25 graus, e, se tivesse cérebro dentro da cabeça, voltaria para lá antes de carenar com intermação. Quando a noite chegasse, talvez ficasse mais fresco. Só um pouquinho.

Mas aquele cubo de tijolos prendia o meu olhar, e as janelas — principalmente aquela do canto direito do sexto andar — pareciam me examinar. Havia uma sensação palpável de erro no prédio. Você — se é que há um você — pode achar engraçado, dizer que é apenas o efeito do meu conhecimento prévio e único, mas isso não explica o que realmente me prendia naquele banco apesar do calor escaldante. O que fazia isso era a sensação de que já vira o prédio.

Ele me lembrava a Metalúrgica Kitchener, em Derry.

O Book Depository não era uma ruína, mas transmitia a mesma sensação de ameaça senciente. Lembrei-me de encontrar aquela chaminé submersa, enegrecida de fuligem, caída no mato como uma imensa serpente pré-histórica cochilando ao sol. Lembrei-me de olhar o seu buraco escuro, tão grande que eu poderia entrar andando. E me lembrei de sentir que havia algo lá. Algo vivo. Algo que queria que eu entrasse ali andando. Para uma visitinha. Talvez por muito, muito tempo.

Entre, sussurrava a janela do sexto andar. Dê uma olhada. Agora o lugar está vazio, a tripulação de esqueletos que trabalha aqui no verão foi para casa, mas se der a volta até a doca de carga junto aos trilhos do trem, encontrará uma porta aberta, tenho quase certeza. Afinal de contas, o que há aqui dentro para proteger? Apenas livros didáticos, e nem os alunos para os quais existem os querem de verdade. Como você bem sabe, Jake. Portanto, entre. Venha até o sexto andar. Na sua época há um museu aqui, vem gente do mundo inteiro, e ainda há quem chore por um homem que foi morto e por tudo o que ele poderia ter feito, mas aqui é 1960, Kennedy ainda é senador e Jake Epping não existe. Só existe George Amberson, um homem de cabelo curto, camisa suada e gravata frouxa. Um homem do seu tempo, por assim dizer. Então, suba. Tem medo de fantasmas? Como pode, se o crime ainda não aconteceu?

Mas havia fantasmas lá em cima. Talvez não na rua Magazine de Nova Orleans, mas lá? Ah, sim. Só que eu nunca teria de enfrentá-los, porque não entraria no Book Depository, assim como não me aventurei dentro daquela chaminé caída em Derry. Oswald arranjaria emprego empilhando livros didáticos apenas cerca de um mês antes do assassinato, e esperar todo aquele tempo seria brincar demais com o perigo. Não, eu pretendia seguir o plano que Al esboçara na seção final das suas anotações, aquela intitulada CONCLUSÕES SOBRE COMO PROCEDER.

Por mais que estivesse convencido da teoria do atirador solitário, Al se agarrara a uma possibilidade pequena mas estatisticamente significativa de que estivesse errado. Nas anotações, ele a chamou de “janela de incerteza”.

Como em janela do sexto andar.

Ele pretendera fechar aquela janela para sempre em 10 de abril de 1963, quase meio ano antes da viagem de Kennedy a Dallas, e pensei que a ideia dele fazia sentido. Possivelmente no final daquele mês de abril, mais provavelmente na noite do dia 10 — por que esperar? — eu mataria o marido de Marina e o pai de June, assim como matara Frank Dunning. E sem mais compunção. Se visse uma aranha se arrastar pelo chão na direção do berço do seu filho, talvez você hesitasse. Podia até pensar em prendê-la numa garrafa e levá-la para o quintal, para que ela pudesse continuar a sua vidinha. Mas se tivesse certeza de que aquela aranha era venenosa? Uma viúva-negra? Nesse caso, você não hesitaria. Não se fosse saudável da cabeça.

Poria o pé em cima dela e a esmagaria.

9

Eu tinha um plano próprio para os anos entre agosto de 1960 e abril de 1963. Ficaria de olho em Oswald quando voltasse da Rússia, mas não interferiria. Devido ao efeito borboleta, não poderia me dar a esse luxo. Se na língua inglesa há uma metáfora mais estúpida do que chain of events, “corrente de fatos”, não sei qual seria. As correntes (fora aquelas que todos nós aprendemos a fazer com tiras de papel colorido no jardim de infância, acho) são fortes. São usadas para puxar blocos de motor de caminhões e prender braços e pernas de presos perigosos. Isso não era mais realidade, no meu modo de entender. Estou lhe dizendo que os fatos são frágeis, são castelos de cartas, e ao me aproximar de Oswald — ainda mais se tentasse afastá-lo de um crime que ele ainda nem concebera — eu abriria mão da minha única vantagem. A borboleta abriria as asas e o curso de Oswald mudaria.

Mudanças pequenas a princípio, talvez, mas, como diz a música de Bruce Springsteen, de pequenas coisas, baby, grandes coisas um dia vêm. Podem ser mudanças boas, que salvariam o homem que agora era um jovem senador de Massachusetts. Mas eu não acreditava nisso. Porque o passado é obstinado. Em 1962, de acordo com uma das anotações rabiscadas à margem por Al, Kennedy estaria em Houston, na Universidade Rice, fazendo um discurso sobre viagens à Lua. Auditório aberto, sem tribuna à prova de balas , escrevera Al. Houston ficava a menos de quinhentos quilômetros de Dallas. E se Oswald decidisse atirar no presidente lá?

Ou suponhamos que Oswald fosse exatamente o que afirmava ser, um bode expiatório? E se eu o assustasse a ponto de ele sair de Dallas e voltar a Nova Orleans e Kennedy ainda assim morresse, vítima de alguma conspiração maluca da Máfia ou da CIA? Eu teria coragem suficiente de voltar pela toca do coelho e começar tudo de novo? Salvar a família Dunning outra vez? Salvar Carolyn Poulin outra vez? Eu já dedicara quase dois anos a essa missão. Estaria disposto a investir mais cinco, com o resultado tão incerto como sempre?

Melhor não ter de descobrir.

Melhor me assegurar.

A caminho do Texas, saindo de Nova Orleans, decidi que a melhor maneira de monitorar Oswald sem me meter no seu caminho seria morar em Dallas enquanto ele estava na cidade irmã de Fort Worth, e depois me mudar para Fort Worth quando Oswald se mudasse com a família para Dallas. A ideia tinha a virtude da simplicidade, mas não daria certo. Percebi isso nas semanas decorridas depois de olhar o Texas School Book Depository pela primeira vez e sentir com muita força que ele, como o abismo de Nietzsche, me olhava.

Passei agosto e setembro daquele ano de eleições presidenciais andando com o Sunliner em Dallas, procurando apartamento (mesmo depois de todo esse tempo sentindo muita falta do meu GPS e parando toda hora para perguntar o caminho). Nada parecia certo. A princípio, pensei que eram os próprios apartamentos. Depois, quando comecei a ter uma noção melhor da cidade, percebi que era eu.

A verdade simples era que eu não gostava de Dallas, e oito semanas de estudo intenso bastaram para me fazer acreditar que havia muita coisa para não gostar. O Times Herald (que muitos dallasenses chamavam rotineiramente de Slimes Herald, o arauto do limo) era um cansativo rolo compressor de ufanismo barato. O Morning News podia ser lírico ao dizer que Dallas e Houston estavam “numa corrida para os céus”, mas os arranha-céus de que falava o editorial eram uma ilha de blá-blá-blá arquitetônico cercada por anéis do que eu chamava de O Grande Culto Americano aos Apartamentos. Os jornais ignoravam os bairros favelados onde a divisão racial apenas começava a derreter um pouco. Mais além, havia intermináveis empreendimentos habitacionais de classe média, a maioria pertencente a veteranos da Segunda Guerra Mundial e da Coreia. Os veteranos tinham esposas que passavam o dia lustramovendo a mobília e maquinadelavando as roupas. A maioria tinha 2,5 filhos. Os adolescentes aparavam a grama, entregavam o Slimes Herald de bicicleta, lustrenceravam o carro da família e escutavam (furtivamente) Chuck Berry nos rádios transistor. Talvez dizendo aos pais ansiosos que ele era branco.

Além das casas suburbanas com os seus irrigadores de gramado giratórios, havia aquela vasta extensão de vazio. Aqui e ali, irrigadores giratórios ainda atendiam às plantações, mas em geral o rei algodão estava morto, substituído por hectares intermináveis de milho e soja. A verdadeira safra do condado de Dallas era de aparelhos eletrônicos, tecido, bobagem e dinheiro sujo dos petrodólares. Não havia muitas torres de perfuração na área, mas quando o vento soprava de oeste, onde fica a bacia permiana, as cidades gêmeas fediam a petróleo e gás natural.

O bairro comercial do centro da cidade era cheio de gente ocupada que corria de um lado para o outro vestida com o estilo que passei a chamar de Dallas Total: paletó esporte xadrez, gravata estreita com prendedor exagerado (esses prendedores, versão anos 60 do bling, costumavam ter diamantes ou substitutos plausíveis faiscando no centro), calças Sansabelt brancas e botas vistosas com costuras complexas. Trabalhavam em bancos e empresas de investimento. Vendiam soja no mercado futuro e concessões de petróleo e imóveis a oeste da cidade, terra onde nada crescia, só estramônio e barrilha. Davam-se tapinhas nos ombros com mãos cheias de anéis e chamavam uns aos outros de filho. No cinto, onde homens de negócios de 2011 levam os celulares, muitos tinham armas de fogo portáteis em coldres feitos à mão.

Havia outdoors defendendo o impeachment de Earl Warren, juiz-presidente do Supremo Tribunal; outdoors com Nikita Kruschov mostrando os dentes (NIET, CAMARADA KRUSCHOV, dizia o texto, NÓS O ENTERRAREMOS!); havia um, na rua West Commerce, que anunciava O PARTIDO COMUNISTA AMERICANO É FAVORÁVEL À INTEGRAÇÃO. PENSE NISSO! Esse fora pago por uma coisa chamada The Tea Party Society. Duas vezes, em empresas cujo nome sugeria que o dono fosse judeu, vi suásticas lavadas com sabão.

Não gostei de Dallas. Não, senhor, não, senhora, de jeito nenhum. Não gostei desde o instante em que me hospedei no Adolphus e vi o maître do restaurante agarrar pelo braço um garçom jovem e encolhido e berrar na sua cara. Ainda assim, os meus negócios eram ali e ali eu ficaria. Era o que eu pensava na época.

10

No dia 22 de setembro, finalmente encontrei um lugar que parecia morável. Ficava na rua Blackwell, no norte de Dallas, uma garagem independente convertida num apartamento duplex bem bonzinho. Maior vantagem: ar-condicionado. Maior desvantagem: o senhorio, Ray Mack Johnson, era um racista que me contou que, se eu ficasse com o apartamento, seria bom manter distância da próxima avenida Greenville, onde havia um monte de bares de raça mista e pretos com um tipo de faca que ele chamava de “tomáticas”.

— Num tenho nada no mundo contra os pretos — disse ele. — Não, senhor. Foi Deus que amaldiçoou eles e pôs eles no seu lugar, não eu. Sabe disso, não sabe?

— Acho que pulei essa parte da Bíblia.

Ele franziu os olhos, desconfiado.

— O que o senhor é, metodista?

— Sou — respondi. Pareceu muito mais seguro do que dizer que, em termos de denominação, eu não era nada.

— O senhor precisa conhecer o jeito batista de ir à igreja, filho. A nossa recebe os recém-chegados. O senhor fica com o apartamento e talvez algum domingo queira ir comigo e com a minha mulher.

— Talvez — concordei, me lembrando de estar em coma naquele domingo. Talvez morto.

Enquanto isso, o sr. Johnson retornara à sua escritura original.

— Sabe, Noé se embebedou aquela vez na Arca, e estava lá deitado na cama dele, nu como veio ao mundo. Dois filhos dele não quiseram olhar pra ele, viraram pro outro lado e cobriram ele com um cobertor. Não sei, pode ter sido um lençol. Mas Cam, ele era o preto da família, olhou o pai na sua nudez, e Deus o amaldiçoou e a toda a sua raça para serem cortadores de madeira e puxadores de água. Então lá está. É o que está atrás disso. Gênesis, capítulo nove. O senhor pode ir lá olhar, sr. Amberson.

— Hã-hã — respondi, dizendo com os meus botões que tinha de ir para algum lugar, não podia me dar ao luxo de ficar indefinidamente no Adolphus. Que podia conviver com um pouco de racismo, que eu não ia derreter. Que era o temperamento da época, e que provavelmente era assim por toda parte. Só que não acreditava muito nisso. — Vou pensar bem e lhe aviso num dia ou dois, sr. Johnson.

— Não espere demais, filho. Esse lugar vai rápido. Tenha um dia abençoado, agora.

11

O dia abençoado foi outro dia escaldante, e procurar apartamento dava muita sede. Depois de deixar a culta companhia de Ray Mack Johnson, senti necessidade de uma cerveja. Decidi tomar uma na avenida Greenville. Se o sr. Johnson desestimulava o bairro, achei que precisava conferir.

Ele acertou duas coisas: a rua era (mais ou menos) racialmente integrada e era perigosa. Também era animada. Estacionei e saí a pé, saboreando a atmosfera festiva. Passei por quase uma dúzia de bares, alguns cinemas com reprises (ENTRE, ESTÁ “FRESCO” AQUI DENTRO, diziam as flâmulas que pendiam da marquise no vento quente com cheiro de petróleo do Texas) e uma boate de striptease com um promotor na porta que berrava “Garotas, garotas, garotas, as mais gostosinhas do mundo inteiro! As mais gostosinhas que você já viu! Elas se barbeiam, se é que vocês me entendem!”. Também passei por três ou quatro lojas que anunciavam troca-de-cheques-e-empréstimos-facilitados. Em pé e confiante à minha frente — Financeira Fé, Onde Confiança é a Nossa Senha — havia um quadro-negro com LINHA DIÁRIA impresso no alto e SÓ POR DIVERSÃO embaixo. Homens de chapéu de palha e suspensórios (um traje que só apostadores dedicados conseguem usar) estavam em pé por ali, discutindo as probabilidades oferecidas. Alguns tinham placês de corridas; alguns estavam com a página de esportes do Morning News.

Só por diversão, pensei. Tá bom. Por um instante, pensei no meu barraco à beira-mar ardendo à noite, as chamas puxadas para o alto negro e estrelado pelo vento vindo do Golfo. A diversão tinha os seus reveses, principalmente na hora de apostar.

Música e cheiro de cerveja saíam de portas abertas. Ouvi Jerry Lee Lewis cantar Whole Lotta Shakin’ Goin’ On numa vitrola automática e Ferlin Husky chorar Wings of a Dove na porta ao lado. Recebi propostas de quatro prostitutas e de um vendedor ambulante que vendia calotas, navalhas com pedrarias e purpurina e bandeiras do estado da Estrela Solitária gravadas com as palavras NÃO SE META COM O TEXAS. Tente traduzir isso para o latim.

Aquela sensação perturbadora de déjà-vu era fortíssima, aquela sensação de que tudo estava errado ali como já estivera errado antes. O que era maluco — eu nunca estivera na avenida Greenville em toda a minha vida — mas também inegável, uma coisa do coração mais do que da cabeça. De repente, decidi que não queria uma cerveja. E também não queria alugar a garagem convertida do sr. Johnson, por melhor que fosse o ar-condicionado.

Eu acabara de passar por um bar chamado Rosa do Deserto, onde a Rock-Ola berrava Muddy Waters. Quando me virei para ir até onde o meu carro estava estacionado, um homem saiu voando pela porta. Ele tropeçou e caiu esparramado na calçada. Veio uma gargalhada do interior escuro do bar. Uma mulher berrou: “E não volte, seu espanto sem colhões!” Isso produziu mais risos (e mais fortes).

O freguês expulso sangrava pelo nariz — que estava gravemente torcido para um lado — e também de um arranhão no lado esquerdo do rosto, da têmpora à linha do maxilar. Os olhos estavam arregalados e chocados. A camisa para fora das calças adejou quase até o joelho quando ele agarrou um poste e se levantou. Assim que se pôs de pé, olhou tudo em volta sem ver nada.

Deu um ou dois passos na direção dele, mas, antes que chegasse lá, uma das mulheres que tinham perguntado se eu queria um encontro veio balançando no salto agulha. Só que não era uma mulher, não mesmo. Não poderia ter mais de 16 anos, com grandes olhos escuros e a pele lisa e cor de café. Sorria, mas não de um jeito mau, e, quando o homem com o rosto ensanguentado cambaleou, ela lhe segurou o braço.

— Calma, querido — disse ela. — Você precisa se recuperar antes de...

Ele puxou para cima a fralda pendurada da camisa. A coronha de madrepérola de uma pistola — muito menor do que a que eu comprara na Machen’s Produtos Esportivos, na verdade pouco mais do que um brinquedo — jazia contra a gordura pálida que pendia sobre o cós sem cinto da sua calça de gabardine. A braguilha estava meio aberta e pude ver cuecas samba-canção com carrinhos de corrida vermelhos. Disso eu me lembro. Ele puxou a arma, apertou o cano contra o meio do corpo da prostituta e puxou o gatilho. Houve um popzinho estúpido, o som de um traquezinho explodindo dentro de uma lata, não mais do que isso. A mulher gritou e sentou-se na calçada com as mãos cruzadas sobre a barriga.

— Você atirou em mim! — Ela parecia mais ofendida do que ferida, mas o sangue começara a correr entre os seus dedos. — Você atirou em mim, seu pederasta mijador, por que você atirou em mim?

Ele não ligou, só escancarou a porta do Rosa do Deserto. Eu continuava em pé onde estava quando ele atirou na jovem prostituta bonita, em parte por ficar paralisado com o choque, mas principalmente porque tudo isso aconteceu em questão de segundos. Mais tempo do que Oswald levaria para matar o presidente dos Estados Unidos, talvez, mas não muito.

— É isso o que você quer, Linda? — berrou ele. — Se é o que você quer, vou lhe dar o que você quer!

Ele encostou o cano da arma na orelha e puxou o gatilho.

12

Dobrei o lenço e o apertei de leve sobre o buraco no vestido vermelho da mocinha. Não sei se estava ferida gravemente, mas ela estava animada o bastante para soltar uma torrente contínua de expressões exuberantes que provavelmente não aprendera com a mãe (por outro lado, quem sabe?). E, quando um homem na multidão que se formava se aproximou um pouco demais para o seu gosto, ela rugiu:

— Pare de olhar dentro do meu vestido, seu canalha intrometido. Pra isso, tem de pagar.

— Esse pobre filho da puta aqui está mais morto do que nunca — observou alguém, ajoelhado ao lado do homem que fora expulso do Rosa do Deserto. Uma mulher começou a guinchar.

Sirenes se aproximavam: também guinchavam. Notei uma das outras senhoras que tinham me abordado durante o meu passeio pela avenida Greenville, uma ruiva de calças capri. Acenei para ela. Ela tocou o peito num gesto de quem, eu?, e fiz que sim. É, você.

— Segure esse lenço sobre a ferida — disse eu. — Tente estancar o sangue. Tenho de ir embora.

Ela me deu um sorrisinho entendido.

— Não quer esperar a polícia?

— Não mesmo. Não conheço nenhuma dessas pessoas. Só estava de passagem.

A ruiva se ajoelhou ao lado da menina que sangrava e praguejava na calçada e apertou o lenço encharcado.

— Querido — disse ela —, todos estamos.

13

Naquela noite, não dormi direito. Começava a cochilar e via o rosto complacente e oleoso de suor de Ray Mack Johnson a atribuir dois mil anos de escravidão, assassinato e exploração a algum garoto adolescente que olhava a alavanca de marcha do seu pai. Acordava de repente, me virava, cochilava... e via o homenzinho com a braguilha aberta enfiando na orelha o cano da arma escondida. É isso o que você quer, Linda? Uma última explosão de petulância antes do grande sono. E acordava de novo. Da outra vez, eram homens num sedã preto jogando uma bomba de gasolina pela janela da frente da minha casa em Sunset Point: Eduardo Gutierrez tentando se livrar do seu ianqui da Ianquilândia. Por quê? Porque não gostava de perder muito, e só. Para ele, isso bastava.

Finalmente, desisti e me sentei junto à janela, onde o ar-condicionado do hotel chocalhava heroicamente. No Maine, a noite estaria fresca o suficiente para começar a colorir as árvores, mas ali em Dallas ainda fazia 24 graus às duas e meia da manhã. E estava úmido.

— Dallas, Derry — disse eu enquanto olhava a vala silenciosa da rua Commerce. O cubo de tijolos do Book Depository não era visível, mas estava bem perto. Dava para ir a pé.

— Derry, Dallas.

Cada nome tinha duas sílabas que se rompiam na letra dupla, como um galhinho seco sobre o joelho dobrado. Eu não podia ficar ali. Mais trinta meses na Grande D me deixariam maluco. Quanto tempo levaria para começar a ver grafites como LOGO VOU MATAR MINHA MÃE? Ou avistasse um Jesus enfeitiçado flutuando pelo rio Trinity? Fort Worth talvez fosse melhor, mas Fort Worth ainda era perto demais.

Por que eu teria de ficar numa das duas?

Essa ideia me veio pouco depois das três da madrugada, e com a força de uma revelação. Eu tinha um bom carro — um carro pelo qual me apaixonara, para dizer a verdade — e não havia falta de boas estradas velozes no centro do Texas, muitas delas de construção recente. Na virada do século XXI, provavelmente estariam todas engarrafadas, mas em 1960 estavam quase fantasmagoricamente desertas. Havia limites de velocidade, mas não eram cumpridos. No Texas, até os policiais acreditavam no evangelho de enfiar o pé até o fundo e mandar ver.

Eu podia sair de baixo da sombra sufocante que sentia sobre essa cidade. Podia encontrar um lugar menor e menos assustador, um lugar que não estivesse tão cheio de ódio e violência. Em plena luz do dia, eu poderia dizer a mim mesmo que imaginava essas coisas, mas não no meio da madrugada. Sem dúvida havia gente boa em Dallas, milhares e milhares, a grande maioria, mas aquele acorde estava lá no fundo, e às vezes explodia. Como diante do Rosa do Deserto.

Bevvie-da-neve dissera que em Derry acho que o mau tempo acabou. Eu não estava convencido quanto a Derry e sentia o mesmo quanto a Dallas, mesmo que os seus piores dias ainda estivessem a três anos de distância.

— Vou e volto — disse eu. — George quer um lugar bom e tranquilo para trabalhar no seu livro, mas como o livro é sobre uma cidade — uma cidade mal-assombrada —, ele terá mesmo de ir e vir, não é? Para buscar material.

Não admira que eu levasse quase dois meses para pensar nisso: as respostas mais simples da vida costumam ser as mais fáceis de não enxergar. Voltei à cama e adormeci quase na mesma hora.

14

No dia seguinte, peguei a rodovia 77 para o sul de Dallas. Em uma hora e meia estava no condado de Denholm. Virei para oeste na estrada estadual 109, principalmente porque gostei do outdoor que marcava o cruzamento. Mostrava um jovem jogador heroico de futebol americano de capacete dourado, malha preta e calças douradas. DENHOLM LIONS, proclamava o outdoor. TRICAMPEÃO DO DISTRITO! CAMPEONATO ESTADUAL DE 1960! “TEMOS A FORÇA JIM!”

Seja lá o que for, pensei. Mas é claro que toda escola secundária tem os seus sinais e mensagens secretas; é isso que faz os garotos pensarem que estão por dentro.

Uns oito quilômetros pela autoestrada 109 acima, cheguei à cidadezinha de Jodie. POP. 1.280 habitantes, dizia a placa. BEM-VINDO, ESTRANHO! A meio caminho da rua Principal, larga e ladeada de árvores, vi um pequeno restaurante com um cartaz na vitrine dizendo OS MELHORES MILK-SHAKES, FRITAS E HAMBÚRGUERES DE TODO O TEXAS. Chamava-se Al’s Diner.

É claro que sim.

Estacionei num dos espaços inclinados à frente, entrei e pedi o Pronghorn Especial, que era um cheeseburger duplo com molho de churrasco. Vinha com Fritas Mesquitas e um Grossoshake Rodeio — baunilha, chocolate ou morango, pode escolher. O Pronghorn não era tão bom quanto o Gordobúrguer, mas não era ruim, e as batatas fritas estavam do jeito que gosto: crocantes, salgadas e um pouco bem-passadas demais.

Al era Al Stevens, um camarada magro de meia-idade que não tinha nada a ver com Al Templeton. Usava um penteado com topete, um bigodão grisalho de bandido mexicano, um forte sotaque do Texas e um gorro de papel alegremente inclinado sobre um dos olhos. Quando lhe perguntei se havia muito a alugar na cidade de Jodie, ele riu e respondeu:

— Pode escolher. Mas quanto a emprego, este não é exatamente um centro de comércio. Criação de gado, principalmente, e me desculpe por falar, mas o senhor não tem cara de caubói.

— E não sou — respondi. — Na verdade, sou mais do tipo que escreve livros.

— Ora! Alguma coisa que já li?

— Ainda não — respondi. — Ainda estou tentando. Tenho cerca de meio romance escrito e algumas editoras já demonstraram certo interesse. Estou à procura de um lugar tranquilo para terminar.

— Ora, Jodie é tranquila sim. — Al olhou para cima e suspirou. — Quando se trata de tranquilidade, admito que poderíamos tirar a patente. Só fica barulhenta nas noites de sexta.

— Futebol americano?

— Sim, senhor, a cidade inteira vai. Chega o intervalo, todos rugem como leões e depois soltam o Berro de Jim. Dá para ouvir a três quilômetros de distância. É bem engraçado.

— Quem é Jim?

— LaDue, o quarterback. Tivemos alguns times bons, mas nunca houve um quarterback como LaDue num time de Denholm. E ele só é júnior. Tem gente falando em campeonato estadual. Pra mim isso parece meio otimista, com aquelas escolas grandes de Dallas logo ali na esquina, mas um pouco de esperança nunca faz mal a ninguém, é o que acho.

— Fora o futebol, como é a escola?

— É boa mesmo. No começo muita gente tinha dúvidas sobre essa coisa de consolidação — eu era um deles —, mas acabou sendo bom. Tem mais de setecentos alunos este ano. Alguns vêm de ônibus, uma hora ou mais, mas parecem não ligar. Provavelmente assim se livram das tarefas domésticas. O seu livro é sobre garotos do secundário? Do tipo de Sementes da violência? Porque não há gangues nem nada disso por aqui. Por aqui os garotos ainda têm boas maneiras.

— Não, nada disso. Tenho economias, mas não me incomodaria em esticar o que tenho trabalhando como substituto. Não dá para ensinar em tempo integral e ainda escrever.

— Claro que não — disse ele, com respeito.

— O meu diploma é do Oklahoma, mas... — Dei de ombros para mostrar que Oklahoma não estava no mesmo nível do Texas, mas que era possível ter esperanças.

— Bom, o senhor devia falar com Deke Simmons. Ele é o diretor. Vem jantar quase toda noite. A mulher dele morreu faz alguns anos.

— Sinto muito saber disso — comentei.

— Todos sentimos. Ele é um bom homem. A maioria daqui, sr....?

— Amberson. George Amberson.

— Bom, George, somos bem-parados, a não ser nas noites de sexta, mas o senhor pode se acostumar. Talvez até aprenda depressa a rugir como um leão.

— Talvez consiga — disse eu.

— Volte aí pelas seis. Costuma ser o horário em que Deke chega. — Ele apoiou os braços no balcão e se inclinou por cima deles. — Quer uma dica?

— Claro.

— Provavelmente ele virá com a namorada. srta. Corcoran, bibliotecária da escola. Ele meio que vem gostando dela desde o Natal, mais ou menos. Dizem que é Mimi Corcoran quem realmente manda na Denholm Consolidated, porque ela manda nele. Se lhe causar boa impressão, já ganhou.

— Vou me lembrar disso — respondi.

15

As semanas caçando apartamento em Dallas tinham resultado em exatamente um possível, que pertencia a um homem de quem eu não queria alugar. Levei três horas em Jodie para achar um lugar que parecia bom. Não um apartamento, mas uma casinha comprida e bonitinha de cinco cômodos enfileirados. Estava à venda, disse o corretor de imóveis, mas o casal de donos se disporia a alugar para a pessoa certa. Havia um quintal sombreado por um olmo, uma garagem para o Sunliner... e ar-condicionado central. O aluguel era razoável, dado o conforto.

Freddy Quinlan era o nome do corretor. Ficou curioso a meu respeito — acho que a placa do Maine no meu carro lhe pareceu exótica — mas não indevidamente. O melhor foi sentir que estava fora daquela sombra que pendera sobre mim em Dallas, Derry e Sunset Point, onde o meu último aluguel de longo prazo agora jazia em cinzas.

— Que tal? — perguntou Quinlan. — O que acha?

— Gostei, mas não posso lhe dizer sim ou não agora. Tenho um encontro antes. Acho que você não abre amanhã, não é?

— Ah, abro sim. Nos sábados, fico aberto até o meio-dia. Depois, vou para casa assistir ao Jogo da Semana na TV. Parece que este ano teremos uma série fantástica.

— É — respondi. — Com toda certeza.

Quinlan estendeu a mão.

— Foi um prazer conhecê-lo, sr. Amberson. Aposto que o senhor gostará de Jodie. Somos gente boa por aqui. Espero que dê certo para o senhor.

Apertei a mão dele.

— Eu também.

Como diz o outro, um pouco de esperança nunca faz mal a ninguém.

16

Naquela noite, voltei ao Al’s Diner e me apresentei ao diretor da Denholm Consolidated e à sua amiga bibliotecária. Eles me convidaram para sentar com eles.

Deke Simmons era alto, careca e sessentão. Mimi Corcoran era sardenta e bronzeada. Os olhos azuis atrás dos bifocais eram atentos e me examinaram de cima a baixo procurando pistas. Ela andava com a ajuda de uma bengala e a manejava com a destreza descuidada (quase com desprezo) do uso prolongado. Ambos, achei graça ao ver, levavam flâmulas de Denholm e usavam broches dourados que diziam TEMOS A FORÇA JIM! Era noite de sexta no Texas.

Simmons me perguntou se estava gostando de Jodie (muito), quanto tempo ficara em Dallas (desde agosto) e se gostava de futebol americano júnior (sim, bastante). O mais perto que chegou de algo concreto foi me perguntar se tinha confiança na minha capacidade de fazer os garotos “se importarem”. Porque, disse, muitos substitutos tinham problemas com isso.

— Esses professores jovens que a secretaria nos manda como se não tivéssemos nada melhor a fazer — disse ele, e mordeu o seu Pronghorn Búrguer.

— Molho, Deke — disse Mimi, e ele, obediente, limpou o canto da boca com um guardanapo de papel tirado do porta-guardanapos.

Enquanto isso, ela continuava a fazer o meu inventário: paletó esporte, gravata, corte de cabelo. Nos sapatos ela dera uma boa olhada quando andei até o seu compartimento.

— Tem referências, sr. Amberson?

— Sim, senhora, trabalhei algum tempo como professor-substituto no condado de Sarasota.

— E no Maine?

— Não muito por lá, embora tenha dado aulas durante três anos no Wisconsin regularmente antes de me demitir para trabalhar em tempo integral no meu livro. Ou o máximo de tempo integral que as minhas finanças permitam. — Eu tinha uma referência da Escola Secundária Saint Vincent, em Madison. Era uma referência boa; eu mesmo a escrevera. É claro que, se alguém verificasse, eu estaria perdido. Deke Simmons não conferiria, mas Mimi, de olhos argutos e pele curtida de caubói, sim.

— E sobre o quê é o seu romance?

Isso também poderia me perder, mas decidi ser franco. O mais franco possível, pelo menos, dadas as minhas circunstâncias peculiares.

— Uma série de homicídios e o seu efeito sobre a comunidade onde acontecem.

— Ai, meu Deus — disse Deke.

Ela lhe deu um tapinha no pulso.

— Psiu. Continue, sr. Amberson.

— O meu ambiente original era uma cidade fictícia no Maine — eu a chamei de Dawson —, mas depois decidi que seria mais realista se eu ambientasse o romance numa cidade real. Uma cidade maior. A princípio pensei em Tampa, mas não deu certo...

Ela descartou Tampa com um gesto.

— Suave demais. Turistas demais. Suspeito que o senhor procurava algo um pouco mais insular.

Uma senhora muito arguta. Sabia mais sobre o meu livro do que eu.

— Isso mesmo. Então decidi tentar Dallas. Acho que é o lugar certo, mas...

— Mas o senhor não quis morar lá?

— Exatamente.

— Entendo. — Ela beliscou o seu pedaço de peixe frito. Deke a olhava com uma expressão levemente abalroada. O que quer que desejasse quando saiu a meio-galope pela pista da vida, ela parecia possuir. Nem tão estranho assim; todo mundo ama alguém em algum momento, como ressaltaria Dean Martin de forma tão sábia. Mas não nos próximos anos.

— E quando não está escrevendo, o que gosta de ler, sr. Amberson?

— Ah, praticamente tudo.

— Já leu O apanhador no campo de centeio?

Oh-oh, pensei.

— Sim, senhora.

Isso a deixou impaciente.

— Ah, me chame de Mimi. Até os garotos me chamam de Mimi, embora eu insista para que ponham um dona antes por questão de civilidade. O que pensa do cri de cœur do sr. Salinger?

Mentir ou dizer a verdade? Mas essa pergunta não era séria. Aquela mulher leria mentiras do mesmo jeito como eu leria... bem... um outdoor DERRUBEM EARL WARREN.

— Acho que diz muito sobre como os anos 50 foram ruins e muito sobre como os anos 60 podem ser bons. Quer dizer, se os Holden Caulfields dos Estados Unidos não perderem a indignação. E a coragem.

— Hum. Hum. — Beliscando bastante o peixe, mas não comendo nada que eu pudesse ver. Não admira que parecesse possível grampear uma linha nas costas do vestido e empiná-la como um papagaio. — Acredita que deveria estar na biblioteca da escola?

Suspirei, pensando que adoraria morar e ensinar em meio expediente na escola de Jodie, Texas.

— Na verdade, madame... Mimi... acho que sim. Embora acredite que só devesse ser emprestado a alguns alunos, a critério do bibliotecário.

— Do bibliotecário? Não dos pais?

— Não, senhora. Essa é uma ladeira escorregadia.

Mimi Corcoran deu um grande sorriso e se virou para o namorado.

— Deke, esse camarada não devia ser substituto. Devia ser professor em tempo integral.

— Mimi...

— Eu sei, sem vagas no departamento de Inglês. Mas se ele se demorar por aqui, talvez possa assumir depois que aquele idiota do Phil Bateman se aposentar.

— Mims, isso é muita indiscrição.

— É — disse ela, e realmente me deu uma piscadela. — E também é verdade. Mande a Deke as suas referências da Flórida, sr. Amberson. Elas servirão. Melhor ainda, traga-as pessoalmente na semana que vem. O ano letivo já começou. Não faz sentido perder tempo.

— Pode me chamar de George.

— É mesmo — disse ela. Ela empurrou o prato para longe. — Deke, isso está terrível. Por que comemos aqui?

— Porque gosto do hambúrguer e você gosta da torta de morango do Al.

— Ah, é — disse ela. — A torta de morango. Pode pedir. Sr. Amberson, o senhor vai ficar para o jogo de futebol?

— Hoje, não — respondi. — Tenho de voltar a Dallas. Talvez para o jogo da semana que vem, se tiverem lugar para mim.

— Se Mimi gosta de você, eu gosto de você — disse Deke Simmons. — Não posso lhe garantir um dia toda semana, mas em algumas semanas haverá dois e até três. Na média, iguala.

— Tenho certeza.

— Temo que o salário de substituto não seja lá grande coisa...

— Sei disso, senhor. Só estou procurando um modo de complementar a minha renda.

— Aquele Apanhador nunca estará na nossa biblioteca — disse Deke com um olhar de remorsos à sua amada de lábios torcidos. — O conselho escolar não deixaria. Mimi sabe disso. — Outra grande mordida no Prongbúrguer.

— Os tempos mudam — disse Mimi Corcoran, apontando primeiro o porta-guardanapos e depois o lado da boca do diretor. — Deke. Molho.

17

Na semana seguinte, cometi um erro. Eu deveria saber; fazer outra aposta grande devia ser a última coisa na minha cabeça depois de tudo o que me acontecera. Você diria que eu deveria ter subido um pouco mais a guarda.

Eu entendia o risco, mas estava preocupado com o dinheiro. Chegara ao Texas com pouco menos de 16 mil dólares. Parte era o que restava do dinheiro das apostas de Al, mas a maior parte resultava de duas apostas enormes, uma feita em Derry, outra em Tampa. Mas passar cerca de sete semanas no Adolphus consumira mais de mil; instalar-me numa nova cidade poderia custar facilmente quatrocentos ou quinhentos. Fora comida, aluguel e serviços, eu precisaria de muito mais roupas — e roupas melhores — para parecer respeitável em sala de aula. Ficaria sediado em Jodie dois anos e meio antes de concluir os meus negócios com Lee Harvey Oswald. Quatorze mil dólares, mais ou menos, não seriam suficientes. O salário de professor-substituto? Quinze dólares e cinquenta centavos por dia. Pois é.

Tudo bem, talvez eu conseguisse sobreviver com quatorze mil mais trinta e, às vezes, até cinquenta pratas por semana como substituto. Mas teria de me manter saudável e não sofrer nenhum acidente, e não podia confiar nisso. Porque o passado é tão dissimulado quanto obstinado. Ele resiste. E, sim, talvez houvesse também um elemento de ganância envolvido. Nesse caso, baseava-se menos no amor ao dinheiro do que no conhecimento inebriante de que, sempre que quisesse, eu podia derrotar a banca geralmente inderrotável.

Agora, penso: se Al tivesse pesquisado o mercado de ações com tanta meticulosidade quanto verificou os vencedores de todos aqueles jogos de beisebol, futebol americano, corridas de cavalos...

Mas não.

Agora, penso: se Freddy Quinlan não tivesse mencionado que a Série Mundial seria fantástica...

Mas mencionara.

E voltei à avenida Greenville.

Disse a mim mesmo que todos aqueles apostadores de chapéu de palha que vira em pé diante da Financeira Fé (Onde Confiança é a Nossa Senha) estariam apostando na Série e que alguns apostariam um bom dinheiro. Disse a mim mesmo que seria um entre muitos, e uma aposta mediana do sr. George Amberson — que afirmaria morar num belo duplex numa garagem convertida na rua Blackwell, bem ali, em Dallas, caso alguém perguntasse — não chamaria a atenção. Droga, disse a mim mesmo, os camaradas que administravam a Financeira Fé provavelmente não saberiam distinguir Eduardo Gutierrez, de Tampa, de Adão. Nem de Cam, filho de Noé, aliás.

Ah, disse montes a mim mesmo, e tudo se resumia às mesmas duas coisas: que era perfeitamente seguro e que era perfeitamente sensato querer mais dinheiro, muito embora na época eu tivesse o suficiente para viver. Burro. Mas a estupidez é uma das duas coisas que vemos com mais clareza em retrospecto. A outra são as oportunidades perdidas.

18

Em 28 de setembro, uma semana antes da data marcada para o começo da Série, entrei na Financeira Fé e, depois de alguma dança, apostei seiscentos dólares que os Pittsburgh Pirates venceriam os Yankees em sete jogos. Aceitei a probabilidade de dois para um, o que era uma ofensa, considerando que os Yankees eram os favoritos. No dia seguinte àquele em que Bill Mazeroski marcou o seu ponto improvável no nono tempo para fechar a conta dos Buckos, voltei a Dallas e à avenida Greenville. Acho que, se a Financeira Fé estivesse deserta, eu teria dado meia-volta e retornado a Jodie... ou talvez seja apenas o que hoje digo a mim mesmo. Não sei com certeza.

O que sei é que havia uma fila de apostadores esperando para receber, e entrei na fila. Aquele grupo era o sonho realizado de Martin Luther King: cinquenta por cento negros, cinquenta por cento brancos, cem por cento felizes. A maioria não saiu com nada a não ser algumas notas de cinco ou talvez uma ou duas de vinte, mas vi vários que contavam notas de cem. Um ladrão armado que escolhesse aquele dia para atacar a Financeira Fé teria se dado muito bem mesmo.

O homem da grana era um sujeito robusto que usava uma viseira verde. Fez a primeira pergunta-padrão (“É da polícia? Se for, tem de me mostrar a identificação”) e, quando respondi que não, pediu o meu nome e a carteira de motorista. Era novinha em folha, que eu recebera por carta registrada na semana anterior; finalmente uma identificação do Texas para acrescentar à minha coleção. E tomei o cuidado de pôr o polegar sobre o endereço em Jodie.

Ele me pagou mil e duzentos. Enfiei tudo no bolso e andei depressa até o meu carro. Ao voltar à autoestrada 77, com Dallas ficando para trás e Jodie se aproximando a cada giro das rodas, finalmente relaxei.

Estúpido.

19

Vamos dar outro salto à frente no tempo (as narrativas também contêm tocas de coelho, quando a gente para e pensa), mas primeiro preciso contar mais uma coisa de 1960.

Fort Worth. Dezesseis de novembro de 1960. Kennedy, presidente eleito há pouco mais de uma semana. A esquina de Ballinger e West Seventh. O dia estava frio e nublado. Os carros soltavam exaustão branca. O homem do tempo da KLIF (“Todos os sucessos o tempo todo”) previa chuva que poderia se transformar em geada à noite, por isso tomem cuidado nas autoestradas, todos vocês roqueiros.

Eu estava enrolado num paletó rancheiro de couro cru; um gorro de feltro com protetores laterais puxado até embaixo sobre as orelhas. Sentava-me num banco diante da Associação de Criadores de Gado do Texas, olhando a West Seventh. Estava lá havia quase uma hora, e não acho que o rapaz ficaria na casa da mãe muito mais tempo do que isso; de acordo com as anotações de Al Templeton, todos os três filhos se afastaram dela o mais depressa que puderam. O que eu esperava era que ela saísse do prédio de apartamentos com ele. Ela voltara recentemente à área depois de vários meses em Waco, onde trabalhara como acompanhante num lar de senhoras.

A minha paciência foi recompensada. A porta dos Apartamentos Rotary se abriu e um homem magro com uma estranha semelhança com Lee Harvey Oswald saiu. Ele segurou a porta para uma mulher de casaco de xadrez comprido e sapatos brancos de enfermeira, fechados e sem salto. Ela só chegava aos ombros dele, mas era robusta. O cabelo grisalho estava puxado para trás de um rosto prematuramente enrugado. Usava um lenço vermelho. O batom da mesma cor delineava uma boca pequena que parecia insatisfeita e belicosa — a boca de uma mulher que acredita que o mundo está contra ela e que, no decorrer dos anos, encontrou indícios suficientes para provar. O irmão mais velho de Lee Oswald desceu rapidamente o caminho de concreto. A mulher correu atrás e agarrou as costas do sobretudo dele, que se virou para ela na calçada. Pareceram discutir, mas a mulher é que falou mais. Sacudiu o dedo na cara dele. Não havia como saber por que o repreendia; eu estava a um prudente quarteirão e meio de distância. Então ele se pôs a andar na direção da esquina da West Seventh com a avenida Summit, como eu esperara. Viera de ônibus e o ponto mais próximo ficava ali.

A mulher ficou um instante parada onde estava, como se indecisa. Vamos, mamãe, pensei, você não vai deixar que ele vá embora tão fácil assim, não é? Ele está apenas meio quarteirão rua abaixo. Lee teve de ir até a Rússia para se livrar desse dedo sacudido.

Ela foi atrás dele e, quando se aproximaram da esquina, ela levantou a voz e consegui ouvi-la com clareza.

— Pare, Robert, não ande tão depressa, ainda não acabei com você!

Ele olhou por cima do ombro mas continuou andando. Ela o alcançou no ponto de ônibus e puxou-lhe a manga até que ele a olhou. O dedo reiniciou o tique-toque das sacudidelas. Captei frases isoladas: você prometeu e lhe dei tudo e, acho, quem é você para me julgar. Não conseguia ver o rosto de Oswald porque ele estava de costas para mim, mas os ombros caídos diziam tudo. Duvido que fosse a primeira vez que mamãe o seguia pela rua, sem parar de falar o tempo todo, sem dar bola para espectadores. Ela pousou a mão aberta logo acima dos seios, aquele gesto atemporal de mãe que diz Olhe para mim, seu filho ingrato!

Oswald enfiou a mão no bolso de trás, tirou a carteira e lhe deu uma nota. Ela a enfiou na bolsa sem olhar e partiu de volta rumo aos Apartamentos Rotary. Depois ela pensou em mais alguma coisa e se virou para ele mais uma vez. Eu a ouvi com clareza. Erguida para gritar pelos quinze ou vinte metros que agora havia entre eles, aquela voz esganiçada era como uma unha passada no quadro-negro.

— E me ligue se tiver notícias de Lee outra vez, viu? Ainda estou na linha comunitária, é o que posso pagar até arranjar emprego melhor, e aquela tal de Sykes do andar de baixo usa o telefone o tempo todo, falei com ela, disse a ela o que pensava, “sra. Sykes”, eu disse...

Um homem passou por ela. Enfiou um dedo teatral na orelha, sorrindo. Se mamãe viu, não deu importância. Com certeza não deu importância à careta de vergonha do filho.

— “Sra. Sykes”, eu disse, “a senhora não é a única que precisa do telefone, então eu lhe agradeceria se fizesse ligações rápidas. E se não fizer isso por conta própria, vou chamar um representante da companhia telefônica para obrigar a senhora”. Foi o que eu disse. Então me ligue você, Rob. Você sabe que preciso de notícias de Lee.

Lá vinha o ônibus. Quando parou, ele ergueu a voz para ser ouvido acima do barulho dos freios.

— Ele é um maldito comuna, mãe, e não vai voltar para casa. Se acostume com essa ideia.

— Me ligue! — gritou ela, estridente. A carinha zangada estava rígida. Ela ficou plantada com os pés separados, como o boxeador que se prepara para absorver um golpe. Qualquer golpe. Todo golpe. Os olhos faiscavam atrás dos óculos gatinho de aro preto. O lenço tinha dois nós embaixo do queixo. Agora a chuva começara a cair, mas ela não lhe deu atenção. Inspirou e elevou a voz até virar quase um grito.

— Preciso saber do meu filhinho, ouviu?

Robert Oswald subiu os degraus correndo e entrou sem responder no ônibus, que saiu numa lufada de exaustão azul. E, quando isso aconteceu, um sorriso iluminou o rosto dela. E conseguiu algo de que eu acharia incapaz um sorriso: deixou-a ao mesmo tempo mais jovem e mais feia.

Um operário passou por ela. Não esbarrou, nem mesmo encostou nela, pelo que pude ver, mas ela o repreendeu:

— Olhe por onde anda! Você não é dono da calçada!

Marguerite Oswald partiu de volta para o apartamento. Quando se virou para o outro lado, ainda sorria.

Voltei a Jodie naquela tarde, abalado e pensativo. Só veria Lee Oswald dali a um ano e meio, e estava decidido a detê-lo, mas já sentia mais simpatia por ele do que jamais sentira por Frank Dunning.