Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 14 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 13

1

Eram sete e quarenta e cinco da noite de 18 de maio de 1961. A luz do longo crepúsculo do Texas cruzava o meu quintal. A janela estava aberta e as cortinas balançavam com a leve brisa. No rádio, Troy Shondell cantava This Time. Eu estava sentado no que fora o segundo quarto da casinha e agora era o meu escritório. A escrivaninha era descarte da escola secundária. Tinha uma perna mais curta que calcei. A máquina de escrever era uma Webster portátil. Estava relendo as primeiras cento e cinquenta páginas, mais ou menos, do meu romance O local do crime, principalmente porque Mimi Corcoran não parava de me importunar querendo ler, e Mimi, eu descobrira, era o tipo de pessoa que só por pouco tempo se conseguia enrolar com desculpas. O trabalho na verdade ia bem. Não tive dificuldade de transformar Derry na cidade fictícia de Dawson no primeiro esboço, e transformar Dawson em Dallas foi ainda mais fácil. Eu começara a fazer as mudanças só para que o trabalho em andamento desse sustentação à história que eu inventara quando finalmente deixasse Mimi ler, mas agora as mudanças pareciam vitais e inevitáveis. Parecia que o livro quisera ser sobre Dallas o tempo todo.

A campainha tocou. Pus um peso de papel sobre as páginas manuscritas para que não saíssem voando e fui ver quem era o visitante. Lembro-me de tudo com muita clareza: as cortinas dançantes, o peso de papel de seixo liso de rio, This Time tocando no rádio, a luz comprida do fim de tarde do Texas, que eu passara a amar. Eu tinha de me lembrar. Foi quando parei de viver no passado e simplesmente comecei a viver.

Abri a porta e lá estava Michael Coslaw. Ele chorava.

— Não consigo, sr. Amberson — disse ele. — Simplesmente não consigo.

— Então entre, Mike — disse eu. — Vamos conversar.

2

Não fiquei surpreso ao vê-lo. Eu fora encarregado do pequeno Departamento Teatral da Lisbon High durante cinco anos antes de fugir para a Era do Cigarro Universal, e vira muito medo do palco durante aqueles anos. Dirigir atores adolescentes é como fazer acrobacia com vidros de nitroglicerina: extasiante e perigoso. Vira meninas que aprendiam rápido e eram lindamente naturais nos ensaios ficarem completamente paralisadas no palco; vira rapazinhos CDF desabrocharem e crescerem uns trinta centímetros na primeira vez em que diziam uma frase que fazia o público rir. Dirigira trabalhadores esforçados e, de vez em quando, um garoto que exibia uma fagulha de talento. Mas nunca tivera um garoto como Mike Coslaw. Desconfio que há escolas secundárias e faculdades que encenaram peças a vida inteira sem nunca ter alguém como ele.

Mimi Corcoran realmente dirigia a Escola Secundária Consolidada de Denholm, e foi ela que me convenceu a assumir a peça dos alunos quando Alfie Norton, o professor de matemática que fazia isso havia anos, foi diagnosticado com leucemia mieloide aguda e, para se tratar, se mudou para Houston. Tentei recusar, com base em que ainda fazia pesquisas em Dallas, mas não ia muito lá no inverno e no início da primavera de 1961. Mimi sabia disso porque sempre que Deke precisou de um substituto de inglês durante aquele semestre, em geral eu estava disponível. Quanto a Dallas, eu basicamente matava o tempo. Lee ainda estava em Minsk e logo se casaria com Marina Prusakova, a garota de vestido vermelho e sapatos brancos.

— Você tem muito tempo livre — dissera Mimi. As mãos dela estavam cerradas sobre os quadris inexistentes: naquele dia, ela estava totalmente no modo não-faço-prisioneiros. — E é pago.

— Ah, é — disse eu. — Conferi isso com Deke. Cinquenta pratas. E eu vou nadar em dindim.

— Em quê?

— Nada, Mimi. Por enquanto, estou indo bem com o dinheiro. Não podemos ficar assim?

Não. Não podíamos. A dona Mimi era um trator humano e, quando encontrava um objeto aparentemente inamovível, só baixava a lâmina e forçava mais o motor. Sem mim, disse, não haveria peça dos alunos pela primeira vez na história da escola. Os pais ficariam desapontados. O conselho escolar ficaria desapontado.

— E — acrescentou, juntando as sobrancelhas — eu ficarei desolada.

— Deus não queira que fique desolada, dona Mimi — eu respondera. — Mas quer saber? Se me deixar escolher a peça — prometo que não será nada muito polêmico —, aceito.

A testa franzida sumiu no brilhante sorriso de Mimi Corcoran que sempre transformava Deke Simmons num prato fumegante de mingau de aveia (o que, temperamentalmente falando, não era uma enorme transformação).

— Excelente! Quem sabe você não acha um ator brilhante escondido nos nossos corredores?

— É — respondi. — E porcos assoviam.

Mas — a vida é uma piada dessas — eu encontrara um ator brilhante. Um talento nato. E agora ele estava na minha sala, na noite anterior à estreia da primeira das quatro apresentações, ocupando quase o sofá inteiro (que se curvava humildemente debaixo dos seus 120 quilos), chorando a cântaros de nervosismo. Mike Coslaw. Também conhecido como Lennie Small na adaptação adequada para escolas secundárias feita por George Amberson de Ratos e homens, de John Steinbeck.

Isto é, se eu conseguisse convencê-lo a se apresentar amanhã.

3

Pensei em lhe arranjar alguns lenços de papel e decidi que não estariam à altura do serviço. Em vez disso, peguei um pano de prato na gaveta da cozinha. Ele esfregou o rosto, conseguiu se controlar um pouco e depois me olhou, desolado. Os olhos estavam vermelhos e doídos. Ele não começara a chorar ao se aproximar da minha porta; parecia que isso durara a tarde inteira.

— Tudo bem, Mike. Agora me explique.

— Todo mundo no time está rindo de mim, sr. Amberson. O treinador começou a me chamar de Clark Gable — isso foi no Orgulho de Leão, o piquenique de primavera — e agora todo mundo faz isso. Até Jimmy faz isso. — Querendo dizer Jim LaDue, o grande quarterback do time e melhor amigo de Mike.

Não me surpreendi com o treinador Borman; ele era um brutamontes que pregava o evangelho da guerra e não gostava que ninguém invadisse o seu território, dentro ou fora da temporada. E tinham chamado Mike de coisa pior; enquanto vigiava os corredores, ouvi que o chamavam de Mike Polaco, George da Selva e Godzilla. Ele ria dos apelidos. Essa reação divertida e até despreocupada a xingamentos e zombarias pode ser o maior dom que a altura e o tamanho transmitem aos rapazes grandes, e com 1,97 metro e 120 quilos, Mike me deixava parecido com Mickey Rooney.

Só havia um astro no time de futebol americano dos Lions, e esse era Jim LaDue — ele não tinha um outdoor só seu, no cruzamento da estrada 77 com a rodovia 109? Mas o jogador que tornava possível que Jim brilhasse era Mike Coslaw, que planejava se matricular na Texas A&M assim que terminasse a temporada na escola secundária. LaDue iria para o ’Bama Crimson Tide (a equipe de futebol da Universidade do Alabama, como ele e o pai ficariam contentes em lhe contar), mas se alguém me perguntasse quem teria mais probabilidade de virar profissional, eu poria o meu dinheiro em Mike. Gostava de Jim, mas para mim parecia que uma lesão no joelho ou no ombro esperava para acontecer. Mike, por outro lado, parecia construído para o longo prazo.

— O que Bobbi Jill acha? — Mike e Bobbi Jill Allnut eram praticamente xifópagos. Garota linda? OK. Loura? OK. Líder de torcida? Pra que perguntar?

Ele sorriu.

— Bobbi Jill me apoia cem por cento. Diz para eu ser homem e parar de deixar os outros me irritarem.

— Parece uma moça sensata.

— É, ela é a melhor e absoluta.

— Ainda assim, desconfio que não é um xingamentozinho que está na sua cabeça. — E quando ele não respondeu: — Mike? Fale comigo.

— Vou subir lá na frente de toda aquela gente e me fazer de bobo. Foi Jimmy quem falou.

— Jimmy é um baita quarterback e sei que vocês dois são amigos, mas, na hora de atuar, ele não sabe merda nenhuma. — Mike piscou. Em 1961, não era comum ouvir a palavra merda vinda de professores, mesmo que tivessem a boca cheia dela. Mas é claro que eu era só substituto, e isso me dava certa liberdade. — Acho que você sabe disso. Como dizem por aqui, você pode bobear, mas não é estúpido.

— Todos acham que sou — disse ele, baixinho. — E só tiro nota C. Talvez o senhor não saiba, talvez os substitutos não vejam as notas, mas é o que sou.

— Fiz questão de ver as suas notas na segunda semana de ensaio quando percebi o que você é capaz de fazer no palco. Você só tira nota C porque, como jogador de futebol, tem de só tirar nota C. Faz parte do éthos.

— Do quê?

— Descubra pelo contexto e guarde o teatrinho de burro para os seus amigos. Sem falar no treinador Borman, que provavelmente tem de amarrar um barbante no apito para saber de que lado soprar.

Mike deu uma risadinha, com olhos vermelhos e tudo.

— Me escute. Todo mundo acha automaticamente que alguém do seu tamanho é estúpido. Pode dizer que não, se quiser; pelo que me disseram, você tem esse corpo desde os 12 anos, portanto deve saber.

Ele não me disse que não. O que ele disse foi:

— No time, todo mundo fez teste para ser Lennie. Era piada. Brincadeira. — Ele acrescentou, apressado: — Nada contra o senhor, sr. A. No time todo mundo gosta do senhor. Até o treinador gosta do senhor.

Um monte de jogadores aparecera nos testes, intimidando e calando os aspirantes mais estudiosos e todos afirmando que se candidatavam ao papel do grande amigo burro de George Milton. É claro que fora piada, mas a leitura que Mike fizera de Lennie fora a coisa menos engraçada do mundo. Fora uma baita revelação. Eu teria usado uma vara elétrica para gado para mantê-lo na sala, se fosse preciso, mas é claro que não houve necessidade de medidas tão extremadas. Quer saber a melhor coisa de ensinar? Ver aquele momento em que um garoto descobre o seu talento. Não há sentimento igual na Terra. Mike sabia que os colegas de time ririam dele, mas aceitou o papel mesmo assim.

E é claro que o treinador Borman não gostou. Os treinadores Borman do mundo não gostam nunca. Nesse caso, entretanto, não havia muito que pudesse fazer, ainda mais com Mimi Corcoran do meu lado. Sem dúvida não podia afirmar que precisava de Mike para os treinos de futebol em abril e maio. Portanto, foi obrigado a chamar o seu melhor atacante de Clark Gable. Há marmanjos que não conseguem se livrar da ideia de que representar é para meninas e bichas que gostariam de ser meninas. Gavin Borman era esse tipo de pessoa. Na cervejada anual de Primeiro de Abril de Don Haggarty, ele se queixara que eu punha “ideias na cabeça daquele bobalhão”.

Eu lhe disse que ele tinha direito à sua opinião; como todos os panacas, cada um tem a sua. Depois me afastei, deixando-o com um copo de papel na mão e um ar perplexo no rosto. Os treinadores Borman do mundo também estão acostumados a conseguir o que querem com um tipo de intimidação jocosa e ele não conseguiu entender porque não funcionava com aquele reles substituto que, na última hora, ocupara o lugar do diretor Alfie Norton. Eu mal poderia explicar a Borman que matar um homem para impedir que ele mate a esposa e os filhos é capaz de mudar alguém.

Basicamente, o treinador nunca teve chance. Escalei alguns jogadores de futebol como moradores da cidade, mas quis ter Mike como Lennie desde o momento em que ele abriu a boca e disse: “Eu me lembro dos coelhos, George!”

Ele se tornou Lennie. Ele não sequestrava apenas os nossos olhos — porque era danado de grande —, mas também o coração dentro do peito. A gente se esquecia de tudo, do mesmo modo que todos se esqueciam das preocupações do cotidiano quando Jim LaDue sumia lá atrás para dar um passe. Mike podia ter sido construído para esmagar a linha adversária em humilde obscuridade, mas fora feito — por Deus, se essa divindade existe; por um lançamento de dados genéticos, caso contrário — para subir no palco e sumir em outra pessoa.

— Foi brincadeira para todo mundo, menos para você — disse eu.

— Para mim também. No começo.

— Porque no começo você não sabia.

— Não. Não sabia. — Rouco. Quase sussurrando. Ele baixou a cabeça porque as lágrimas estavam chegando de novo e ele não queria que eu visse. O treinador o chamara de Clark Gable, e se eu chamasse o homem às falas, ele afirmaria ter sido apenas uma piada. Brincadeira. Pilhéria. Como se não soubesse que o resto do time pegaria o apelido e continuaria. Como se não soubesse que aquela merda feria Mike de um jeito que ser chamado de Mike Polaco jamais conseguiria. Por que tem gente que faz isso com quem é talentoso? Será inveja? Medo? Ambos, talvez. Mas esse garoto tinha a vantagem de saber que era bom. E ambos sabíamos que o treinador Borman não era o verdadeiro problema. A única pessoa que poderia impedir Mike de subir no palco amanhã seria o próprio Mike.

— Você jogou futebol diante de plateias nove vezes maiores do que a que estará naquele auditório. Droga, quando vocês, rapazes, foram a Dallas para o campeonato regional em novembro passado, você jogou diante de dez ou doze mil pessoas. E elas não eram amistosas.

— O futebol é diferente. Quando entramos em campo, estamos todos usando os mesmos uniformes e capacetes. As pessoas só conseguem nos distinguir pelo número. Todo mundo está do mesmo lado...

— Há mais nove pessoas nessa peça com você, Mike, isso sem contar com os moradores da cidade que pus na peça para dar o que fazer aos seus colegas do futebol. Elas também são um time.

— Não é a mesma coisa.

— Talvez não. Mas uma coisa é a mesma: se você deixar eles na mão, essa merda se desfaz e todo mundo perde. Os atores, os contrarregras, as garotas menores que fizeram a publicidade e todos os que estão planejando vir para o espetáculo, alguns de ranchos a oitenta quilômetros daqui. Sem falar em mim. Eu perco, também.

— Acho que é assim — disse ele, olhando os pés. Eram pés grandes e poderosos.

— Eu poderia perder Slim ou Curley; era só mandar alguém pegar o livro e ler o papel. Acho que poderia até me dar ao luxo de perder a Mulher de Curley...

— Gostaria que Sandy fosse um pouco melhor — disse Mike. — Ela é linda de doer, mas quando acerta a fala, é por acaso.

Eu me permiti um cauteloso sorriso interno. Começava a achar que tudo ia dar certo.

— O que não suportaria — o que o espetáculo não suportaria — seria perder você ou Vince Knowles.

Vince representava George, o colega de estrada de Lennie, e, na verdade, poderíamos suportar a perda dele se ficasse gripado ou quebrasse o pescoço num acidente na estrada (sempre uma possibilidade, dado o modo como dirigia o caminhão da fazenda do pai). Eu faria o papel de Vince, se a necessidade surgisse, muito embora fosse grande demais para o papel e não precisasse apenas ler. Depois de seis semanas de ensaio, eu sabia tudo tão de cor quanto todos os meus atores. Mais do que alguns. Mas não poderia substituir Mike. Ninguém poderia substituí-lo, com a sua combinação inigualável de tamanho e talento real. Era ele a cola que segurava tudo.

— E se eu foder tudo? — perguntou, depois ouviu o que dissera e deu um tapa na boca.

Sentei-me ao lado dele no sofá. Não havia muito espaço, mas consegui. Nesse momento eu não estava pensando em John Kennedy, Al Templeton, Frank Dunning nem no mundo de onde viera. Naquele momento eu não pensava em nada, só nesse garoto grande... e na minha peça. Porque em algum momento ela se tornara minha, assim como essa época mais antiga, com os seus telefones compartilhados e gasolina barata, tinha se tornado minha. Naquele momento, eu me preocupava mais com Ratos e homens do que com Lee Harvey Oswald.

Mas me preocupava ainda mais com Mike.

Tirei a mão dele da boca. Pus numa coxa enorme. Pus as minhas mãos nos ombros dele. Olhei-o nos olhos.

— Me escute — disse. — Está me escutando?

— Sim, senhor.

— Você não vai foder tudo. Repita.

— Eu...

— Repita.

— Eu não vou foder tudo.

— O que você vai fazer é impressionar todo mundo. Isso eu lhe juro, Mike. — Segurando os ombros dele com mais força. Era como tentar afundar os dedos em pedras. Ele poderia ter me segurado e me quebrado sobre o joelho, mas só ficou ali sentado, me olhando com um par de olhos que eram humildes, esperançosos e ainda orlados de lágrimas. — Está me escutando? Eu juro.

4

O palco era uma cabeça de praia de luz. Além dele havia um lago de escuridão onde ficava a plateia. George e Lennie estavam à margem de um rio imaginário. Os outros homens tinham sido mandados embora, mas não demorariam; se aquele homem enorme de macacão com sorriso vago tinha de morrer com alguma dignidade, George teria de cuidar disso em pessoa.

— George? Pra onde eles foram?

Mimi Corcoran estava sentada à minha direita. Em algum momento, ela pegara a minha mão e a apertava. Com força, força, força. Estávamos na primeira fila. Do outro lado dela, Deke Simmons fitava o palco com a boca entreaberta. Era a expressão do fazendeiro que vê dinossauros comendo o capim do seu pasto do norte.

— Caçando. Foram caçar. Sente-se aí, Lennie.

Vince Knowles nunca seria ator — mais provavelmente seria um vendedor da Chrysler-Dodge de Jodie, como o pai —, mas um grande desempenho pode elevar todos os atores de uma produção, e isso acontecera naquela noite. Vince, que nos ensaios só obtivera uma ou duas vezes um nível sofrível de credibilidade (principalmente porque a carinha de rato inteligente era o George Milton de Steinbeck), absorvera algo de Mike. De repente, aí pela metade do primeiro ato, pareceu que ele finalmente percebia o que significava sair pela vida tendo um Lennie como único amigo, e entrara no papel. Agora, ao observá-lo empurrar para trás na cabeça o velho chapéu de feltro do figurino, achei que Vince se parecia com Henry Fonda em As vinhas da ira.

— George!

— Hem?

— Ocê não vai brigar comigo?

— Como assim?

— Cê sabe, George. — Sorrindo. O tipo de sorriso que diz É, eu sei que sou imbecil, mas ambos sabemos que não tem outro jeito. Sentado ao lado de George na margem imaginária do rio. Tirando o chapéu, jogando-o para o lado, despenteando o cabelo curto e louro. Imitando a voz de George. Mike acertara isso com facilidade assustadora no primeiro ensaio, sem nenhuma ajuda minha. — “Se eu tivesse sozinho, podia viver tão fácil. Podia arranjar emprego e não ter mais confusão.” — Recuperando a própria voz... ou melhor, a voz de Lennie. — Posso ir embora. Você pode subir o morro e achar uma caverna, se não me quer.

Vince Knowles baixou a cabeça e, quando a ergueu e disse a próxima fala, a sua voz estava grossa e titubeante. Era um simulacro de tristeza que ele nunca conseguira, nem nos melhores ensaios.

— Não, Lennie, quero que você fique aqui comigo.

— Então fale como falou antes! Sobre outros sujeitos e sobre nós!

Foi então que ouvi o primeiro soluço baixo da plateia. Foi seguido por outro. E um terceiro. Isso eu não esperara, nem nos meus sonhos mais loucos. Um arrepio me passou pelas costas, e furtei uma olhada em Mimi. Ela ainda não chorava, mas o brilho líquido nos olhos me contou que logo choraria. É, até ela... aquela velha rija que ela era.

George hesitou e depois pegou a mão de Lennie, coisa que Vince nunca fizera nos ensaios. Aquela coisa de mulherzinha, dizia ele.

— Gente como nós... Lennie, gente como nós não tem família. Eles não têm ninguém que ligue pra eles. — Tocando a arma de brinquedo escondida debaixo do casaco com a outra mão. Puxando-a um pouco. Devolvendo. Depois enrijecendo-se e puxando-a por inteiro. Deixando-a junto à perna.

— Mas nós, não, George! Nós, não! Não é isso?

Mike sumira. O palco sumira. Agora só havia eles dois, e quando Lennie pediu a George que falasse sobre o ranchinho e os coelhos e viver da fartura da terra, metade da plateia chorava de forma audível. Vince chorava tanto que mal conseguiu proferir as últimas falas e dizer ao pobre e burro Lennie que olhasse para lá, o rancho onde iriam morar ficava lá. Se olhasse bem, conseguiria ver.

As luzes do palco se reduziram até a escuridão, Cindy McComas dessa vez fazendo a luz com perfeição. Birdie Jamieson, o zelador da escola, disparou um cartucho de festim. Uma mulher da plateia deu um gritinho. Esse tipo de reação costuma ser seguido por riso nervoso, mas nessa noite só houve o som de gente chorando nas cadeiras. Fora isso, silêncio. Foi assim durante dez segundos. Ou talvez fossem só cinco. Não importa, para mim pareceu eterno. Então o aplauso explodiu. Foi a melhor ovação que já ouvi na vida. As luzes da casa se acenderam. A plateia inteira estava em pé. As duas primeiras filas estavam reservadas para o corpo docente e, por acaso, olhei o treinador Borman. Juro que ele estava chorando também.

Duas filas atrás, onde todos os jogadores da escola estavam sentados juntos, Jim LaDue pulou de pé.

— Você é o máximo, Coslaw! — berrou. Isso provocou risos e vivas.

O elenco veio agradecer: primeiro os moradores jogadores de futebol, depois Curley e a Mulher de Curley, depois Candy e Slim e o resto dos trabalhadores da fazenda. O aplauso começou a morrer um pouco e então Vince saiu, corado e feliz, o rosto ainda molhado. Mike Coslaw veio por último, arrastando os pés como se estivesse envergonhado, depois erguendo os olhos com espanto cômico quando Mimi gritou “Bravo!”.

Outros gritaram também e logo a plateia retumbava: Bravo, Bravo, Bravo. Mike fez uma reverência, passando o chapéu tão baixo que varreu o palco. Quando se levantou de novo, sorria. Mas era mais do que um sorriso; o seu rosto se transformara com a felicidade reservada para aqueles que finalmente têm permissão de ir até o fim do caminho.

Então, ele gritou:

— Sr. Amberson! Suba aqui, sr. Amberson!

O elenco começou a cantar: “Diretor! Diretor!”

— Não mate os aplausos — grunhiu Mimi ao meu lado. — Suba lá, seu imbecil!

Então subi, e os aplausos aumentaram de novo. Mike me agarrou, me abraçou, me ergueu, depois me pôs no chão e me deu um bom beijo no rosto. Todos riram, inclusive eu. Todos nos demos as mãos, as erguemos para a plateia e fizemos uma reverência. Enquanto eu escutava os aplausos, um pensamento me ocorreu, um que sombreou o meu coração. Em Minsk, eles eram recém-casados. Lee e Marina eram marido e mulher havia exatos dezenove dias.

5

Três semanas depois, pouco antes das férias de verão, fui a Dallas tirar algumas fotografias dos três apartamentos onde Lee e Marina morariam juntos. Usei uma pequena Minox, segurando-a na palma da mão e permitindo que a lente espiasse entre dois dedos abertos. Fiquei me sentindo ridículo — mais parecido com as caricaturas de sobretudo de Spy vs. Spy da revista Mad do que com James Bond —, mas aprendera a ser cauteloso com essas coisas.

Quando voltei para casa, o Nash Rambler azul-celeste de Mimi Corcoran estava estacionado junto ao meio-fio e Mimi se enfiava atrás do volante. Quando me viu, ela saiu de novo. Uma careta rápida lhe tensionou o rosto — dor ou esforço —, mas, quando subiu até a casa, usava o seu sorriso seco de sempre. Como se eu a divertisse, mas de um jeito bom. Nas mãos, trazia um envelope pardo grosso que continha as cento e cinquenta páginas de O local do crime. Eu finalmente cedera à insistência dela... mas isso fora apenas na véspera.

— Ou você gostou demais ou nunca passou da décima página — disse eu, pegando o envelope. — Qual dos dois?

Agora o sorriso dela parecia enigmático além de divertido.

— Como a maioria das bibliotecárias, eu leio depressa. Podemos entrar e conversar? Não estamos nem no meio de junho e já está um calorão.

Sim, ela suava, coisa que eu nunca vira. E parecia ter emagrecido. Nada bom para uma senhora que não tinha quilos para distribuir.

Sentada na minha sala com grandes copos de café gelado — eu na espreguiçadeira, ela no sofá —, Mimi deu a sua opinião.

— Gostei daquilo de o assassino se vestir de palhaço. Pode me chamar de pervertida, mas achei isso deliciosamente arrepiante.

— Se você for pervertida, eu também sou.

Ela sorriu.

— Tenho certeza de que você encontrará editora. No geral, gostei muito.

Fiquei um pouco ferido. O local do crime podia ter começado como camuflagem, mas se tornara mais importante para mim conforme fui me aprofundando. Era como memórias secretas. Memórias dos nervos.

— Esse “no geral” me faz lembrar de Alexander Pope, sabe, condenando com elogios leves?

— Não foi bem isso que quis dizer. — Mais restrições. — É só que... droga, George, não é isso que você devia estar fazendo. Você foi feito para ensinar. E se publicar um livro desses, nenhuma Secretaria de Educação dos Estados Unidos o contratará. — Ela fez uma pausa. — Exceto talvez em Massachusetts.

Não respondi. Fiquei sem fala.

— O que você fez com Mike Coslaw... o que você fez por Mike Coslaw... foi a coisa mais espantosa e maravilhosa que já vi.

— Mimi, não fui eu. Ele só é naturalmente tal...

— Sei que ele é naturalmente talentoso, isso ficou óbvio no instante em que ele pisou no palco e abriu a boca, mas vou lhe dizer uma coisa, meu amigo. Uma coisa que quarenta anos em escolas secundárias e sessenta anos de vida me ensinaram e me ensinaram bem. O talento artístico é muito mais comum do que o talento de alimentar o talento artístico. Qualquer pai ou mãe de mão pesada consegue esmagá-lo, mas alimentá-lo é muito mais difícil. Esse é um talento que você tem, e em volume muito maior do que o talento que produziu isto. — Ela deu um tapinha na pilha de páginas na mesinha de centro diante dela.

— Não sei o que dizer.

— Diga obrigado e me cumprimente pela minha avaliação arguta.

— Obrigado. E a sua percepção só é superada pela sua boa aparência. — Isso trouxe o sorriso de volta, mais seco do que nunca.

— Não saia do seu texto, George.

— Certo, dona Mimi.

O sorriso desapareceu. Ela se inclinou para a frente. Os olhos azuis atrás dos óculos estavam grandes demais, nadando no rosto. A pele sob o bronzeado estava amarelada, e as bochechas antes esticadas estavam ocas. Quando isso acontecera? Será que Deke notara? Mas isso era ridiclo, como diziam os garotos. Deke só notaria que as meias não combinavam quando fosse descalçá-las à noite. Provavelmente, nem assim.

Ela disse:

— Phil Bateman não ameaça mais se aposentar, ele já puxou o pino e jogou a granada, como diria o nosso delicioso treinador Borman. O que significa que há uma vaga na docência de inglês. Venha dar aulas em tempo integral na DCHS, George. Os garotos gostam de você e, depois da peça dos alunos, a comunidade acha que você só fica atrás de Alfred Hitchcock. Deke só espera receber o seu pedido: ele me disse isso ontem à noite. Por favor. Publique isso com pseudônimo, se preciso for, mas venha ensinar. Foi para isso que você nasceu.

Eu queria muito aceitar, porque Mimi tinha razão. O meu trabalho não era escrever livros e sem dúvida não era matar gente, por mais que merecessem ser mortas. E havia Jodie. Chegara lá como um estranho desalojado de seu próprio tempo e da sua cidade natal, e as primeiras palavras que tinham me dito ali — por Al Stevens, na lanchonete — tinham sido amistosas. Quem já sentiu saudades de casa ou se sentiu exilado de tudo e de todos que a definem, sabe como palavras de boas-vindas e sorrisos amistosos podem ser importantes. Jodie era a antiDallas, e agora um dos seus principais cidadãos me pedia que fosse um morador e não um visitante. Mas o divisor de águas se aproximava. Só que ainda não estava ali. Talvez...

— George? Você está com um ar muito peculiar no rosto.

— Isso se chama pensar. Vai me fazer o favor de permitir isso? — Ela pôs as mãos na bochecha e arredondou a boca num cômico O de desculpas.

— Pois trance o meu cabelo e me chame de Buckwheat.

Não prestei atenção porque estava ocupado folheando as anotações de Al. Não precisava mais olhá-las para fazer isso. Quando o novo ano letivo começasse em setembro, Oswald ainda estaria na Rússia, embora já tivesse começado a prolongada batalha da papelada para voltar aos Estados Unidos com a esposa e a filha, June, de quem Marina engravidaria a qualquer momento. Era uma batalha que Oswald acabaria vencendo, jogando as burocracias das superpotências uma contra a outra com esperteza instintiva (ainda que rudimentar), mas eles só desembarcariam do SS Maasdam e pisariam em solo americano no meio do ano seguinte. E quanto ao Texas...

— Mims, o ano letivo costuma terminar na primeira semana de junho, não é?

— Sempre. Os garotos que precisam de emprego no verão têm de arranjá-los.

... quanto ao Texas, os Oswald chegariam em 14 de junho de 1962.

— E qualquer contrato de professor que eu assinar será de experiência, certo? De um ano, por aí?

— Com opção de renovar se todas as partes estiverem satisfeitas, isso.

— Então você conseguiu um professor de inglês em experiência.

Ela riu, bateu palmas, levantou-se e abriu os braços.

— Maravilhoso! Abraços para a dona Mimi!

Abracei-a e a soltei depressa quando a ouvi quase gemer.

— Que diabos está errado com a senhora, madame?

Ela voltou ao sofá, pegou o café gelado e tomou um golinho.

— Vou lhe dar dois conselhos, George. O primeiro é nunca chamar de madame uma mulher do Texas caso você venha dos climas do Norte. Soa sarcástico. O segundo é nunca perguntar a nenhuma mulher que diabos está errado com ela. Experimente algo levemente mais delicado, como “Está se sentindo bem?”

— Está?

— Por que não estaria? Vou me casar.

A princípio não consegui combinar esse zigue específico com o zague correspondente. Só que o ar sério nos olhos dela indicava que não estava “zigueando” nada. Estava contornando alguma coisa. Provavelmente nada bom, também.

— Diga “Parabéns, dona Mimi”.

— Parabéns, dona Mimi.

— Deke fez o pedido há quase um ano. Recusei, dizendo que era cedo demais depois da morte da mulher dele e o povo ia falar. Com o passar do tempo, esse argumento ficou menos eficaz. Duvido que houvesse tanta falação, afinal de contas, dada a nossa idade. Moradores de cidade pequena entendem que pessoas como Deke e eu não podem se dar tanto assim ao luxo de manter o recato depois que a gente chega, digamos, a um certo platô de maturidade. A verdade é que eu gostava da situação do jeito que estava. O velho me ama muito mais do que eu o amo, mas gosto muito dele, e, corro o risco de deixar você sem graça, nem as senhoras que chegaram a um certo platô de maturidade são avessas a uma brincadeirinha sábado à noite. Estou deixando você sem graça?

— Não — respondi. — Na verdade, você está me dando muito prazer.

O sorriso seco.

— Fascinante. Porque quando tiro os pés da cama pela manhã, a primeira coisa que penso quando encostam no chão é: “Haverá algum modo de dar prazer a George Amberson hoje? Se houver, qual é?”

— Não saia do seu papel, dona Mimi.

— Falou feito homem. — Ela deu um golinho no café gelado. — Eu tinha dois objetivos quando vim aqui hoje. Consegui o primeiro. Agora vou passar ao segundo, para que você possa continuar com o seu dia. Deke e eu vamos nos casar em 21 de julho, que é sexta-feira. A cerimônia será pequena e particular na casa dele — só nós, o pastor e alguns familiares. Os pais dele — são dinossauros bem vigorosos — virão do Alabama e a minha irmã, de San Diego. A recepção será uma festa no jardim da minha casa no dia seguinte. Das duas da tarde até as bêbadas da noite. Estamos convidando quase todo mundo da cidade. Haverá limonada e uma pinhata para os pequenos, churrasco e canecas de cerveja para os grandes e até uma banda de San-Antone. Ao contrário da maioria das bandas de San-Antone, acho que conseguem tocar Louie Louie além de La Paloma. Se não nos der o prazer da sua presença...

— Você ficará desolada?

— Ficarei mesmo. Vai reservar a data?

— Sem dúvida nenhuma.

— Ótimo. Deke e eu partiremos para o México no domingo, quando a ressaca dele se dissipar. Somos meio velhos para lua de mel, mas há certos recursos disponíveis ao sul da fronteira que não existem no Estado do Revólver. Certos tratamentos experimentais. Duvido que funcionem, mas Deke tem esperanças. E, droga, vale a pena tentar. A vida... — Ela soltou um suspiro lamentoso. — A vida é doce demais para ser abandonada sem luta, não acha?

— Acho — respondi.

— Pois é. Então a gente se agarra. — Ela me olhou atentamente. — Vai chorar, George?

— Não.

— Ótimo. Porque isso me deixaria sem graça. Eu mesma talvez até chorasse, e isso não faço bem. Ninguém jamais escreveria um poema sobre as minhas lágrimas. Eu grasno.

— É muito grave? Se me permite perguntar?

— Bastante grave. — Isso ela disse sem dar muita importância. — Posso ter uns oito meses. Talvez um ano. Quer dizer, supondo que os tratamentos com ervas ou caroços de pêssego ou o que quer que haja no México não consigam uma cura mágica.

— Sinto muitíssimo saber disso.

— Obrigada, George. Expresso com delicadeza. Um pouco mais seria piegas.

Sorri.

— Tenho outra razão para convidar você para a nossa recepção, embora eu nem precise dizer que a sua companhia encantadora e as respostas faiscantes seriam suficientes. Phil Bateman não é o único a se aposentar.

— Mimi, não faça isso. Tire uma licença, se for preciso, mas...

Ela balançou a cabeça, decidida.

— Doente ou com saúde, quarenta anos já bastam. Já é hora de mãos mais jovens, olhos mais jovens e mentes mais jovens. Por recomendação minha, Deke contratou uma moça bem qualificada da Geórgia. Ela se chama Sadie Clayton. Estará na recepção, não conhece absolutamente ninguém e espero que você seja especialmente gentil com ela.

— sra. Clayton?

— Eu não diria isso. — Mimi me olhou ingenuamente. — Acho que ela pretende recuperar o nome de solteira em algum momento do futuro próximo. Depois de certas formalidades legais.

— Mimi, você está dando uma de casamenteira?

— De jeito nenhum — disse ela... e depois deu uma risadinha. — De jeito quase nenhum. Embora você seja o único professor da cadeira de inglês atualmente desapegado, e isso faz de você o candidato natural para atuar como mentor dela.

Achei que isso era um salto gigantesco na falta de lógica, principalmente para uma cabeça tão bem organizada, mas a acompanhei até a porta sem nada dizer. O que eu disse foi:

— Se for tão grave quanto diz, você deveria buscar tratamento agora. E não de algum curandeiro de Juarez. Você devia ir para a Cleveland Clinic. — Eu nem sabia se a Cleveland Clinic já existia, mas nesse momento nem liguei.

— Acho que não. Dada a opção entre morrer num quarto de hospital em algum lugar, toda crivada de tubos e fios, e morrer numa hacienda mexicana à beira-mar... como você gosta de dizer, sem chance. E também tem mais uma coisa... — Ela me olhou sem piscar. — A dor ainda não é muito forte, mas me disseram que ficará. No México, eles têm bem menos tendência a fingir moralismo a respeito de doses grandes de morfina. Ou Nembutal, se chegar a isso. Confie em mim, sei o que estou fazendo.

Com base no que acontecera a Al Templeton, achei que era verdade. Pus os braços em torno dela, dessa vez abraçando com muita suavidade. Beijei uma bochecha curtida.

Ela aguentou isso com um sorriso e depois escapuliu. Os olhos dela vasculharam o meu rosto.

— Gostaria de conhecer a sua história, meu amigo.

Dei de ombros.

— Sou um livro aberto, dona Mimi.

Ela riu.

— Que monte de merda. Você diz que é do Wisconsin, mas apareceu em Jodie com sotaque da Nova Inglaterra na boca e placas da Flórida no carro. Diz que vai a Dallas para pesquisar e o seu manuscrito finge ser sobre Dallas, mas os personagens dele falam como moradores da Nova Inglaterra. Na verdade, há alguns lugares em que os personagens chegam a dizer aié. É bom mudar isso.

E eu pensei que a reescrita fora tão inteligente.

— Na verdade, Mimi, na Nova Inglaterra se diz aié? e não aié.

— Anotado. — Ela continuou a vasculhar o meu rosto. Foi uma luta não baixar os olhos, mas consegui. — Às vezes me peguei até pensando se você não seria um visitante do espaço, como Michael Rennie em O dia em que a Terra parou. Que veio aqui analisar os nativos e contar para Alfa Centauro ou onde quer que seja que ainda há esperança para nós como espécie ou se deveríamos ser explodidos com raios de plasma antes de disseminar os nossos germes pelo resto da galáxia.

— Quanta imaginação — disse eu, sorrindo.

— Ótimo. Detestaria pensar que o planeta inteiro estava sendo avaliado pelo Texas.

— Se Jodie fosse usada como amostra, tenho certeza que a Terra seria aprovada com louvor.

— Gosta daqui, não gosta?

— Gosto.

— George Amberson é o seu nome verdadeiro?

— Não. Mudei-o por razões importantes para mim, mas sem importância nenhuma para os outros. Preferiria que você não revelasse isso. Por razões óbvias.

Ela fez que sim.

— Isso eu posso fazer. A gente se vê, George. Na lanchonete, na biblioteca... e na festa, é claro. Você será bonzinho com Sadie Clayton, não será?

— Bom como um bombom — disse eu, com um toque texano: bão. Isso a fez rir.

Quando ela foi embora, fiquei um tempão sentado na sala sem ler, sem ver TV. E trabalhar em algum dos meus manuscritos estava bem longe da minha cabeça. Pensava no emprego que acabara de aceitar: um ano de ensino de inglês em tempo integral na Denholm Consolidated High School, lar dos Lions. Decidi que não tinha do que me lamentar. Sabia rugir no intervalo com os melhores dentre eles.

Bom, uma coisa eu lamentava, mas não por mim. Quando pensava em Mimi e no seu estado atual, lamentava muitíssimo.

6

Na questão do amor à primeira vista, concordo com os Beatles: acredito que aconteça o tempo todo. Mas não aconteceu assim comigo e com Sadie, embora eu a abraçasse quando nos conhecemos e com a minha mão direita no seio esquerdo dela. Portanto, acho que também concordo com Mickey e Sylvia, que diziam que o amor é estranho.

A região centro-sul do Texas pode ser de um calor selvagem em meados de julho, mas o sábado da festa pós-casamento estava praticamente perfeito, com temperatura por volta dos 24 graus e muitas nuvens brancas e gordas correndo por um céu da cor de macacão desbotado. Longas persianas de sol e sombra deslizavam pelo quintal de Mimi, que ficava numa encosta suave que acabava num fiozinho de água lamacenta que ela chamava de riacho Sem Nome.

Havia bandeirinhas amarelas e prateadas — as cores da Denholm High — penduradas nas árvores e até uma pinhata, pendente e tentadora, num ramo que se projetava de um pinheiro. Nenhuma criança passava por ela sem lhe dar um olhar desejoso.

— Depois do jantar, as crianças receberão varas para bater nela — disse alguém logo atrás do meu ombro esquerdo. — Balas e brinquedos para todos os niños.

Virei-me e vi Mike Coslaw, resplandecente (e um tanto alucinatório) de jeans preto e justo e uma camisa branca de colarinho aberto. Um sombrero com cordão pendia-lhe nas costas e ele usava na cintura uma faixa multicolorida. Vi vários outros jogadores de futebol, inclusive Jim LaDue, vestidos da mesma maneira semirridícula, circulando com bandejas. Mike segurava a sua com um sorriso levemente maroto.

— Canapé, señor Amberson?

Peguei um camarãozinho num palito e o mergulhei no molho.

— Bela fantasia. Lembra o Ligeirinho.

— Nem comece. Se quiser ver uma fantasia real, dê só uma olhada em Vince Knowles. — Ele apontou para além da rede onde um grupo de professores jogava uma partida desajeitada mas entusiástica de vôlei. Vi Vince vestido de fraque e cartola. Estava cercado de crianças fascinadas que observavam enquanto ele puxava echarpes do ar. Funcionava bem quando se era jovem o suficiente para não ver a próxima aparecendo dentro da manga. O bigode de graxa de sapato brilhava ao sol.

— Em termos gerais, prefiro Cisco Kid — disse Mike.

— Tenho certeza de que vocês todos são garçons maravilhosos, mas, em nome de Deus, quem convenceu vocês a se fantasiarem? E o treinador sabe?

— Tem de saber, ele está aqui.

— É? Não vi.

— Ele está lá na churrasqueira, discutindo com o Clube dos Torcedores. Quanto à roupa... a dona Mimi sabe ser bem convincente.

Pensei no contrato que assinara.

— Eu sei.

Mike baixou a voz.

— Todos sabemos que ela está doente. Além disso... É como representar. — Ele assumiu uma pose de toureiro; nada fácil quando se leva uma bandeja de canapés. — ¡Arriba!

— Nada mau, mas...

— Eu sei, ainda não estou bem dentro do papel. Preciso mergulhar, não é?

— Funciona com Marlon Brando. Como vai ser com vocês este outono, Mike?

— Último ano? Com Jim no bolso? Eu, Hank Alvarez, Chip Wiggins e Carl Crockett na linha? Vamos para o estadual, e aquelas bolas de ouro vão para a estante dos troféus.

— Gosto da sua atitude.

— Vai fazer uma peça neste outono, sr. Amberson?

— Esse é o plano.

— Bom. Ótimo. Guarde um papel para mim... mas, com o futebol, terá de ser um papel pequeno. Dê uma olhada na banda, eles não são ruins.

A banda era muito acima de não ruim. O logotipo no bumbo proclamava que eram The Knights, os cavaleiros. O cantor adolescente contou até três e o grupo começou a tocar uma versão quente de Ooh, My Head, a antiga canção de Ritchie Valens — não tão antiga assim no verão de 1961, embora Valens tivesse morrido quase dois anos antes.

Peguei a minha cerveja num copo de papel e andei até mais perto do palco. A voz do garoto era conhecida. O teclado também, que soava como se quisesse desesperadamente ser um acordeão. E de repente clicou. O garoto era Doug Sahm, e dali a não muitos anos ele teria seus próprios sucessos: She’s About a Mover , por exemplo, Mendocino, outro exemplo. Isso seria durante a invasão britânica, e o grupo, que basicamente tocava rock tejano, adotaria um nome pseudobritânico: The Sir Douglas Quintet.

— George? Venha cá conhecer alguém.

Eu me virei. Mimi descia a encosta gramada com uma mulher atrás. A minha primeira impressão de Sadie — a primeira impressão de todo mundo, não tenho dúvida — foi a sua altura. Ela usava sapatilhas, como quase todas as mulheres lá, sabendo que passariam a tarde e a noite andando ao ar livre, mas essa era uma mulher que provavelmente usara salto alto pela última vez no próprio casamento, e mesmo nessa ocasião deve ter escolhido um vestido que escondesse apenas mais um par de sapatos baixos ou quase sem salto, para que não ficasse muito mais alta do que o noivo quando estivessem junto ao altar. Tinha pelo menos um metro e oitenta, talvez um pouco mais. Eu ainda era uns oito centímetros mais alto do que ela, mas fora o treinador Borman e Greg Underwood do departamento de História, provavelmente era o único homem assim na festa. E Greg era um varapau. Na gíria da época, Sadie era muito bem-torneada. Ela sabia e tinha mais vergonha do que orgulho disso. Dava para saber pelo jeito como andava.

Sei que sou um pouco grande demais para ser considerada normal, dizia o andar. Os ombros diziam mais: Não é culpa minha, só cresci assim. Como Topsy, o elefante. Ela usava um vestido sem mangas estampado com rosas. Os braços eram bronzeados. Passara um pouco de batom cor-de-rosa, mas não havia mais maquiagem.

Não amor à primeira vista, disso tenho bastante certeza, mas me lembro daquela primeira visão com clareza surpreendente. Se eu lhe dissesse que me lembro com clareza parecida da primeira vez que vi Christy ex-Epping, estaria mentindo. É claro que foi num salão de dança e estávamos ambos meio altos, então talvez eu tenha uma boa desculpa.

Sadie era bonita de um jeito sem artifícios de garota americana, o que se vê é o que se tem. Era outra coisa também. No dia da festa, achei que essa outra coisa era apenas a simples falta de jeito de quem é grande. Mais tarde descobri que ela não era nada desajeitada. Na verdade, ficava muito longe disso.

Mimi parecia bem — ou, pelo menos, não pior do que no dia em que fora à minha casa e me convencera a ensinar em horário integral —, mas usava maquiagem, o que era incomum. Não escondia as olheiras, provavelmente causadas por uma combinação de dor com falta de sono, nem as novas rugas no canto da boca. Mas sorria, e por que não? Tinha se casado com o companheiro, dado uma festa que obviamente era um enorme sucesso e trouxera uma moça bonita num bonito vestido de verão para conhecer o único professor de inglês que podia ser seu pretendente.

— Oi, Mimi — disse eu, começando a subir a leve encosta na direção dela, num caminho sinuoso em torno das mesas de carteado (emprestadas pelo Clube dos Veteranos da América) em que mais tarde todos se sentariam para comer churrasco e assistir ao pôr do sol. — Parabéns. Acho que agora vou ter de me acostumar a chamar você de sra. Simmons.

Ela deu o seu sorriso seco.

— Por favor, continue a usar Mimi, é assim que estou acostumada. Há um novo integrante do corpo docente que quero que conheça. Esta é...

Alguém deixara de empurrar para debaixo da mesa uma das cadeiras dobráveis e a grande moça loura, já me estendendo a mão e compondo o seu sorriso prazer-em-conhecer tropeçou e despencou para a frente. A cadeira veio com ela, virando de pernas para o ar, e vi o potencial de um acidente horrível se uma das pernas a atingisse na barriga.

Larguei na grama o meu copo de cerveja, dei um passo gigantesco à frente e a segurei quando ela caiu. O meu braço esquerdo passou em torno da cintura dela. A mão direita aterrissou mais acima, segurando algo quente, redondo e levemente macio. Entre a minha mão e o seio dela, o algodão do vestido escorregou sobre o nylon ou a seda lisa do que quer que ela usava por baixo. Foi uma apresentação íntima, mas tínhamos os ângulos contundentes da cadeira como acompanhantes e, embora eu cambaleasse um pouco contra o ímpeto dos seus cerca de setenta quilos, me aguentei em pé e ela também.

Tirei a mão da parte dela que raramente é segurada quando estranhos são apresentados e disse:

— Olá, eu me chamo... — Jake. Por pouco não dei o meu nome do século XXI, mas o segurei no último instante. — Eu me chamo George. Muito prazer em conhecê-la.

Ela corava até a raiz do cabelo. Eu também, provavelmente. Mas ela teve a clemência de rir.

— Prazer em conhecer. Acho que você acabou de me salvar de um terrível acidente.

Provavelmente, sim. Porque era isso, entende? Sadie não era desajeitada, era dada a acidentes. Era divertido até que a gente percebesse o que acontecia, na verdade: um tipo de perseguição. Mais tarde ela me contou que fora ela a garota a prender a bainha do vestido na porta do carro quando chegou com o acompanhante ao baile de formatura do secundário e conseguiu rasgar a saia bem na hora em que iam entrar. Ela foi a mulher em torno da qual os bebedores enguiçavam, molhando-lhe a cara; a que conseguia pôr fogo numa caixa de fósforos inteira ao acender o cigarro, queimando os dedos ou chamuscando o cabelo; cuja alça de sutiã arrebentava na Festa dos Pais ou que encontrava enormes fios puxados na meia logo antes de reuniões escolares nas quais teria de falar.

Ela prestava atenção na cabeça ao passar pelas portas (como toda gente alta e sensata aprende a fazer), mas as pessoas tinham a tendência a abri-las descuidadamente na cara dela quando chegava perto. Ficara presa em elevadores três vezes, uma delas durante duas horas, e, no ano anterior, numa loja de departamentos em Savannah, a escada rolante recentemente instalada mastigara um dos seus sapatos. É claro que, naquela hora, eu não sabia de nada disso; naquela tarde de julho, eu só sabia que uma mulher bonita de cabelo louro e olhos azuis caíra nos meus braços.

— Vejo que você e a srta. Dunhill já estão se dando de forma excelente — disse Mimi. — Vou deixá-los à vontade para se conhecerem.

Então, pensei, a mudança de sra. Clayton para srta. Dunhill já se efetuou, com ou sem formalidades legais. Enquanto isso, a cadeira estava presa na terra por uma das pernas. Quando Sadie tentou puxá-la, a princípio ela não saiu. Quando saiu, o encosto passou rapidamente pela sua coxa, erguendo a saia e revelando a meia até a liga, no alto. Que era tão rosa quanto as rosas do vestido. Ela soltou um gritinho de exasperação. O corado escureceu até um alarmante tom de tijolo.

Peguei a cadeira e a pus de lado com firmeza.

— Srta. Dunhill... Sadie... se já houve uma mulher que precisasse de uma cerveja gelada, essa só pode ser você. Venha comigo.

— Obrigada — disse. — Sinto muito. A minha mãe me dizia para nunca me jogar nos homens, mas nunca aprendi.

Enquanto a levava rumo à linha de barris, apontando vários integrantes do corpo docente pelo caminho (e segurando-lhe o braço para desviá-la de um jogador de vôlei que pareceu que colidiria com ela ao correr de costas para devolver um saque alto), tive certeza de uma coisa: poderíamos ser colegas e poderíamos ser amigos, talvez bons amigos, mas nunca seríamos mais do que isso, não importavam as esperanças de Mimi. Numa comédia estrelada por Rock Hudson e Doris Day, a nossa apresentação seria classificada, sem dúvida alguma, como “engraçadinha”, mas, na vida real, diante de uma plateia que ainda sorria, fora apenas desajeitada e embaraçosa. Sim, ela era bonita. Sim, era muito bom andar com uma moça tão alta e ser mais alto ainda. E é claro que eu gostara da firmeza macia daquele seio, envolto na sua fina camada dupla de algodão recatado e nylon sexy. Mas, a não ser quando temos 15 anos, uma segurada acidental numa festa ao ar livre não se classifica como amor à primeira vista.

Arranjei uma cerveja para a recém-nomeada (ou renomeada) srta. Dunhill e ficamos conversando perto do bar improvisado durante o tempo devido. Rimos quando o pombo que Vince Knowles alugara para a festa tirou a cabeça de dentro da cartola e lhe bicou o dedo. Apontei mais educadores da Denholm (muitos já pegando o Expresso do Álcool para sair de Sobriedadópolis). Ela disse que nunca conseguiria conhecer todos e lhe garanti que conseguiria, sim. Disse a ela que me chamasse caso precisasse de alguma ajuda. O número devido de minutos, os temas de conversa esperados. Depois ela me agradeceu de novo por salvá-la de um tombo horrível e foi ver se conseguia ajudar a reunir as crianças na turba destruidora de pinhatas em que elas logo se transformariam. Observei-a se afastar, não com amor, mas com um pouco de luxúria; admito que pensei um pouco na barra da meia e na liga cor-de-rosa.

Os meus pensamentos voltaram a ela naquela noite quando me preparava para dormir. Ela enchia um monte de espaço de um jeito bem legal, e o meu olho não fora o único a seguir o balanço agradável do seu avanço no vestido estampado, mas realmente era só isso. O que mais poderia haver? Eu lera um livro chamado Uma esposa confiável um pouco antes de partir na viagem mais estranha do mundo e, quando me deitei, uma frase dele me passou pela cabeça: “Ele perdera o hábito do romance.”

Esse sou eu, pensei ao apagar a luz. Totalmente desabituado . Então, enquanto os grilos cantavam para eu dormir: Mas não foi só o seio que foi legal. Foi o peso dela. O peso dela nos meus braços.

No fim das contas, eu não perdera de jeito nenhum o hábito do romance.

7

Em Jodie, agosto era um forno, com temperatura todo dia acima dos trinta graus e às vezes chegando aos quarenta. O ar-condicionado da minha casa alugada em Mesa Lane era bom, mas não o suficiente para suportar esse tipo de ataque continuado. Às vezes, quando havia uma chuvarada refrescante, as noites eram um pouco melhores, mas não muito.

Eu estava na minha escrivaninha na manhã de 27 de agosto, trabalhando em O local do crime usando shorts de basquete e nada mais, quando a campainha tocou. Franzi a testa. Era domingo, eu ouvira o som de sinos de igreja a competir não fazia muito tempo e a maioria das pessoas que conhecia frequentava um dos quatro ou cinco locais de culto da cidade.

Enfiei uma camiseta e fui até a porta. O treinador Borman estava lá em pé com Ellen Dockerty, a ex-chefe do Departamento de Economia Doméstica e diretora em exercício da DCHS durante o próximo ano; sem que ninguém se surpreendesse, Deke entregara o pedido de aposentadoria no mesmo dia em que Mimi entregara o dela. O treinador estava enfiado num terno azul-marinho com uma gravata berrante que parecia estrangular o seu toco de pescoço. Ellen usava um tailleur cinzento severo aliviado por um chafariz de renda na garganta. Pareciam solenes. A primeira coisa em que pensei, tão convincente quanto maluca: Eles sabem. De algum jeito eles sabem quem sou e de onde vim. Estão aqui para me contar.

Os lábios do treinador Borman tremiam e, embora Ellen não soluçasse, lágrimas enchiam os seus olhos. Então eu soube.

— É Mimi?

O treinador fez que sim.

— Deke me ligou. Chamei Ellie — geralmente a levo à igreja — e estamos avisando todo mundo. Primeiro aqueles de quem ela gostava mais.

— Sinto muito saber disso — disse eu. — Como está Deke?

— Parece estar se aguentando — disse Ellen, e depois deu uma olhada no treinador com alguma aspereza. — Pelo menos de acordo com ele.

— É, ele está bem — disse o treinador. — Meio derrubado, claro.

— Claro que sim — disse eu.

— Ele vai mandar cremá-la. — Os lábios de Ellen se contorceram com desaprovação. — Disse que é o que ela queria.

Pensei no caso.

— Deveríamos fazer uma espécie de reunião especial quando as aulas começarem. Podemos fazer isso? Alguns poderiam falar. Talvez pudéssemos passar alguns slides. O pessoal deve fotos dela aos montes.

— Que ideia maravilhosa — disse Ellen. — Pode organizar isso, George?

— Gostaria de tentar.

— Peça à srta. Dunhill para ajudar. — E, antes que a desconfiança de mais casamenteirismo pudesse começar a me passar pela cabeça, ela acrescentou: — Acho que ajudará os meninos e meninas que adoravam Mims saber que a substituta que ela escolheu ajudou a planejar a reunião em sua homenagem. Ajudará Sadie também.

É claro que ajudaria. Como recém-chegada, seria bom para ela ter uma pequena reserva de boa vontade ao começar o ano.

— Tudo bem, falo com ela. Obrigado aos dois. Vocês estão bem?

— Claro — disse o treinador, resoluto, mas os seus lábios ainda tremiam. Gostei dele por isso. Os dois voltaram lentamente até o carro dele, estacionado junto ao meio-fio. O treinador estava com a mão no cotovelo de Ellen. Gostei dele por isso também.

Fechei a porta, sentei-me no banco do projetinho de saguão e pensei em Mimi dizendo que ficaria desolada se eu não assumisse a peça dos alunos. E se eu não assinasse o contrato para ensinar em horário integral durante pelo menos um ano. E também se eu não fosse à sua festa de casamento. Mimi, que achava que o lugar de O apanhador no campo de centeio era na biblioteca da escola e que não era avessa a uma brincadeirinha nas noites de sábado. Ela era um daqueles integrantes do corpo docente de quem as crianças se lembram muito depois de formadas e às vezes voltam para visitar quando não são mais crianças. O tipo que às vezes surge na vida de um aluno perturbado no momento mais importante e faz uma diferença das mais importantes.

Mulher virtuosa quem a achará?, pergunta o provérbio. O seu valor muito excede ao de rubis. Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos. Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão.

Há mais roupas do que aquelas com que cobrimos o corpo, todo professor sabe disso, e comida não é só o que pomos na boca. A dona Mimi alimentara e vestira muitos. Inclusive eu. Fiquei ali sentado num banco que comprara num brechó em Fort Worth de cabeça baixa e o rosto nas mãos. Pensei nela, e fiquei tristíssimo, mas os meus olhos continuaram secos.

Nunca fui homem de chorar, como se diz.

8

Sadie concordou na mesma hora em me ajudar a organizar uma reunião em sua memória. Trabalhamos nisso nas duas últimas semanas daquele agosto escaldante, percorrendo a cidade para reunir palestrantes. Convenci Mike Coslaw a ler Provérbios, 31, que descreve a mulher virtuosa, e Al Stevens se voluntariou para contar a história — que eu nunca ouvira da própria Mimi — de como ela batizara o Prongbúrguer, a spécialité de la maison. Também recolhemos mais de duzentas fotografias. A minha predileta mostrava Mimi e Deke dançando o twist num baile da escola. Ela parecia estar se divertindo; ele parecia um homem com uma varinha de bom tamanho enfiada no cu. Juntamos as fotos na biblioteca da escola, onde a plaquinha com nome na escrivaninha dizia agora SRTA. DUNHILL em vez de DONA MIMI.

Nessa época, Sadie e eu nunca nos beijamos, nunca nos demos as mãos, nunca sequer nos entreolhamos por mais do que um vislumbre passageiro. Ela não falou do casamento desfeito nem das razões para ir da Geórgia para o Texas. Eu não falei do meu romance nem lhe contei do meu passado quase todo inventado. Falamos sobre livros. Falamos de Kennedy, cuja política externa ela considerava chauvinista. Discutimos o movimento nascente pelos direitos civis dos negros. Contei a ela da tábua sobre o riacho no fim do caminho atrás do posto Humble Oil na Carolina do Norte. Ela disse que vira instalações sanitárias parecidas para pessoas de cor na Geórgia e que achava que os seus dias estavam contados. Acreditava que a integração escolar viria, mas provavelmente só em meados da década de 70. Eu disse a ela que achava que seria mais cedo, impulsionada pelo novo presidente e pelo irmão caçula, procurador-geral da República.

Ela fez um muxoxo.

— Você tem mais respeito do que eu por aquele irlandês sorridente. Me diga, será que algum dia ele corta o cabelo?

Não nos tornamos amantes, mas ficamos amigos. Às vezes ela tropeçava nas coisas (inclusive nos próprios pés, que eram grandes) e certas vezes eu a segurava, mas não houve nenhum resgate tão memorável quanto o primeiro. Às vezes ela declarava que simplesmente tinha de fumar um cigarro, e eu a acompanhava até a área de fumar dos alunos, atrás da oficina de metal.

— Vou ficar triste de não poder vir aqui e me esparramar no banco com os meus jeans velhos — disse ela, certo dia. Isso foi menos de uma semana antes do reinício das aulas. — Há sempre tanta fumaça na sala dos professores...

— Algum dia tudo isso vai mudar. Será proibido fumar no terreno da escola. Tanto para os alunos quanto para os professores.

Ela sorriu. Era um bom sorriso, porque os lábios dela eram ricos e cheios. E devo dizer que os jeans caíam bem nela. As suas pernas eram compridas, compridas. Sem falar do recheio suficiente na traseira.

— Uma sociedade sem cigarros... Crianças negras e crianças brancas estudando lado a lado em perfeita harmonia... não admira que você esteja escrevendo um romance, que baita imaginação você tem. O que mais vê na sua bola de cristal, George? Foguetes para ir à Lua?

— Claro, mas provavelmente levará um pouco mais de tempo do que a integração racial. Quem lhe disse que estou escrevendo um romance?

— Dona Mimi — respondeu ela, e apagou o cigarro numa urna da meia dúzia cheia de areia. — Ela disse que era bom. E, por falar na dona Mimi, é melhor voltarmos ao trabalho. Acho que estamos quase lá com as fotografias, você não acha?

— Acho.

— E tem certeza de que tocar aquela música de West Side Story com a apresentação de slides não vai ficar piegas?

Eu achava que Somewhere era mais piegas do que Iowa e Nebraska somados, mas, de acordo com Ellen Dockerty, era a música preferida de Mimi.

Disse isso a Sadie, e ela riu com dúvidas.

— Não a conheci tão bem assim, mas com certeza não se parece com ela. Talvez seja a música favorita de Ellie.

— Agora que pensei melhor, parece muito provável. Escute, Sadie, quer ir comigo ao jogo de futebol na sexta-feira? Meio que para mostrar aos garotos que você está aqui antes do início das aulas na segunda?

— Adoraria. — Então ela parou, parecendo um pouco desconfortável. — Desde que você... você sabe... não tenha nenhuma ideia. Ainda não estou preparada para sair com ninguém. Talvez por muito tempo.

— Nem eu. — Provavelmente ela pensava no ex, mas eu pensava em Lee Oswald. Logo ele receberia de volta o passaporte americano. Então seria apenas uma questão de arrancar um visto soviético de saída para a esposa. — Mas às vezes amigos vão juntos ao jogo.

— Isso é verdade, vão mesmo. E gosto de ir aos lugares com você, George.

— Porque sou mais alto.

Ela me deu um soco no braço de brincadeira — um tipo de soco de irmã mais velha.

— Isso mesmo, camarada. Você é o tipo de homem para quem posso erguer os olhos.

9

No jogo, praticamente todo mundo ergueu os olhos para nós, e com leve espanto — como se fôssemos representantes de uma raça de seres humanos levemente diferente. Achei isso legal, e dessa vez Sadie não teria de se encolher. Ela usava um suéter Orgulho de Leão e os jeans desbotados. Com o cabelo louro preso num rabo de cavalo, parecia uma aluna do último ano do secundário. Uma aluna alta, provavelmente o centro do time de basquete feminino.

Ficamos sentados na Fila dos Professores e gritamos quando Jim LaDue atacou a defesa dos Arnette Bears com meia dúzia de passes curtos e depois uma bomba de sessenta metros que pôs a multidão de pé. No intervalo, o placar era Denholm 31, Arnette 6. Enquanto os jogadores saíam de campo e a banda de Denholm entrava com as tubas e os trombones balançando, perguntei a Sadie se ela queria um cachorro-quente e uma Coca.

— Pode apostar que sim, mas agora a fila vai estar no estacionamento. Espere até haver uma pausa no meio do segundo tempo ou coisa assim. Temos de rugir como leões e fazer o grito de Jim.

— Acho que você consegue fazer essas coisas sozinha.

Ela sorriu para mim e segurou o meu braço.

— Não, preciso de você para me ajudar. Sou nova aqui, esqueceu?

Com o toque dela, senti um arrepiozinho quente que não associei com amizade. E por que não? O rosto dela estava corado, os olhos faiscavam; sob os refletores e o céu azul esverdeado do crepúsculo do Texas a se aprofundar, ela estava mais do que linda. As coisas entre nós poderiam ter avançado mais depressa do que avançaram, a não ser pelo que aconteceu durante aquele meio-tempo.

A banda marchou do jeito que marcham as bandas das escolas secundárias, mantendo o passo mas não a afinação, berrando um pot-pourri que não dava para identificar direito. Quando terminaram, as animadoras de torcida trotaram até a linha dos cinquenta metros, largaram os pompons na frente dos pés e puseram as mãos no quadril.

— Deem um L!

Demos a elas o que pediram e, quando novamente importunados, fizemos-lhes o favor com um I, um O, um N e um S.

— O que isso quer dizer?

— LIONS! — Todo mundo na arquibancada da casa em pé batendo palmas.

— Quem vai vencer?

— LIONS! — Dado aquele placar, não havia muita dúvida quanto a isso.

— Então vamos rugir!

Rugimos da maneira tradicional, virando primeiro para a esquerda, depois para a direita. Sadie se entregou todinha, com as mãos em volta da boca, o rabo de cavalo voando de um ombro a outro.

O que veio em seguida foi o Grito de Jim. Nos três anos anteriores — sim, o nosso sr. LaDue começara como quarterback ainda quando calouro — o grito fora simplíssimo. As animadoras de torcida berravam algo como “Vamos ouvir o Leão berrar! Quem é o craque que agora vai brilhar?” E a multidão da cidade mugia “JIM! JIM! JIM!” Depois disso, as animadoras de torcida faziam mais algumas acrobacias e saíam correndo do campo, para que a banda do outro time pudesse entrar e tocar uma ou duas músicas. Mas este ano, talvez em homenagem à última temporada de Jim, o canto mudou.

Toda vez que a multidão berrava “ JIM!”, as animadoras de torcida respondiam com a primeira sílaba do seu sobrenome, arrastando-a como se fosse uma importuna nota musical. Era novo, mas não complicado, e a multidão pegou na mesma hora. Sadie fazia o canto como os melhores dali até perceber que eu não. Eu só estava ali em pé, parado, boquiaberto.

— George? Está tudo bem?

Não consegui responder. Na verdade, mal a escutei. Porque a maior parte minha estava de volta a Lisbon Falls. Eu acabara de passar pela toca de coelho. Acabara de andar pela lateral do barracão de secagem e me enfiara debaixo da corrente. Tinha me preparado para encontrar o Homem do Cartão Amarelo, mas não para ser atacado por ele. E fui. Só que ele não era mais o Homem do Cartão Amarelo; agora era o Homem do Cartão Laranja. Você não devia estar aqui, dissera ele. Quem é você? O que está fazendo aqui? E quando comecei a lhe perguntar se já experimentara o AA para tratar do problema da bebida, ele dissera...

— George? — Agora ela parecia assustada, além de preocupada. — O que foi? Qual é o problema?

Os fãs tinham realmente adotado aquela coisa de chamado e resposta. As animadoras de torcida berravam “JIM!” e as criaturas da arquibancada respondiam berrando “LA”.

Foda-se, Jimla! Era isso que o Homem do Cartão Amarelo que se tornara o Homem do Cartão Laranja (embora ainda não o suicidado Homem do Cartão Preto) rugira para mim, e era isso o que eu ouvia agora, jogado de lá para cá como uma bola entre as animadoras de torcida e os dois mil e quinhentos fãs que as observavam.

— JIMLA, JIMLA, JIMLA!

Sadie agarrou o meu braço e me sacudiu.

— Fale comigo, moço! Fale comigo, porque estou ficando apavorada!

Virei-me para ela e consegui lhe dar um sorriso. Não foi fácil, podem acreditar.

— Acho que foi só uma queda de glicose. Vou buscar aquelas Cocas.

— Você não vai desmaiar, vai? Posso ir com você até o pronto-socorro se...

— Estou bem — disse eu, e então, sem pensar no que fazia, beijei a pontinha do nariz dela. Algum garoto berrou: “Vamos lá, sr. A.!”

Em vez de parecer irritada, ela mexeu o nariz como um coelho e sorriu.

— Então saia daqui. Antes que prejudique a minha reputação. E me traga um cachorro com molho de pimenta. Muito queijo.

— Sim, senhora.

O passado se harmoniza, isso eu já compreendera. Mas que música era aquela? Eu não sabia e ela me preocupou muito. Na calçada de concreto que levava à barraquinha de lanches, o canto se ampliava, me dando vontade de tapar os ouvidos com as mãos para bloqueá-lo.

— JIMLA, JIMLA, JIMLA!