Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 15 de 35

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Novembro de 63

Quarta Parte - Sadie e o General

QUARTA PARTE

 

SADIE E O GENERAL

CAPÍTULO 14

1

A reunião em memória de Mimi foi realizada no final do primeiro dia de aulas do novo ano letivo e, se for possível medir o sucesso pelos lenços úmidos, o espetáculo que eu e Sadie apresentamos foi uma sensação. Tenho certeza de que foi catártico para os garotos e acho que a própria dona Mimi teria gostado. Gente sarcástica tende a ser um marshmallow debaixo da armadura, dissera ela uma vez. Não sou diferente.

Os professores aguentaram a maior parte das eulógias. Foi Mike que começou a emocioná-los, com a recitação calma e sincera de Provérbios, 31. Depois, durante a exposição de slides, acompanhada pelo sentimentalismo de West Side Story , os professores se perderam de novo. Achei o treinador Borman especialmente divertido. Com as lágrimas correndo pelas bochechas coradas e soluços grandes e grasnados saindo do peito enorme, o guru do futebol americano de Denholm me lembrou o segundo pato preferido de todo mundo nos quadrinhos: Huguinho, o Bebê Gigante.

Cochichei essa observação a Sadie enquanto estávamos em pé, ao lado da telona com o desfile de imagens da dona Mimi. Ela também chorava, mas teve de sair do palco para os bastidores quando o riso primeiro brigou e depois venceu as lágrimas. Em segurança nas sombras, ela me olhou com repreensão... e depois me deu uma banana. Decidi que merecia. Fiquei me perguntando se a dona Mimi ainda acharia que eu e Sadie nos dávamos de forma excelente.

Achei que provavelmente acharia.

Escolhi Doze homens e uma sentença para a peça de outono, esquecendo, sem querer querendo, de informar à editora Samuel French Company que pretendia rebatizar a nossa versão de O júri, para pôr algumas meninas no elenco. Eu faria os testes no final de outubro e começaria os ensaios em 13 de novembro, depois do último jogo regular da temporada do Lions. Estava de olho em Vince Knowles para o jurado nº 8 — o teimoso representado por Henry Fonda no filme — e Mike Coslaw para o papel que eu considerava o melhor do espetáculo: o agressivo e sarcástico jurado nº 3.

Mas começara a me concentrar num espetáculo mais importante, que, em comparação, fazia o caso Frank Dunning parecer um reles esquete de vaudevile. Chamemos este de Jake e Lee em Dallas. Se tudo corresse bem, seria uma tragédia em um ato. Eu precisava estar pronto para entrar no palco quando chegasse a hora, e isso significava começar cedo.

2

Em 6 de outubro, os Denholm Lions venceram o quinto jogo de futebol americano a caminho de uma temporada invicta que seria dedicada a Vince Knowles, o garoto que representara George em Ratos e homens e que nunca teria oportunidade de atuar na versão de George Amberson de Doze homens e uma sentença — mais sobre isso adiante. Foi o começo de um fim de semana prolongado porque a segunda-feira seguinte era Dia de Colombo.

Fui passar o feriado em Dallas. A maioria das lojas estava aberta e a minha primeira parada foi numa das lojas de penhores da avenida Greenville. Disse ao homenzinho atrás do balcão que queria comprar a aliança de casamento mais barata que houvesse no estoque. Saí com uma faixa de ouro (pelo menos parecia de ouro) de oito pratas no terceiro dedo da mão esquerda. Depois fui ao centro da cidade, a uma loja na parte baixa da rua Principal que eu catara nas Páginas Amarelas de Dallas: a Eletrônica Satélite de Silent Mike — o microfone calado. Lá, fui recebido por um homenzinho bem-arrumado com óculos de chifre e um bóton estranhamente futurista no colete: NÃO CONFIE EM NINGUÉM, dizia.

— O senhor é Silent Mike? — perguntei.

— Sou.

— E é mesmo calado?

Ele sorriu.

— Depende de quem está escutando.

— Suponhamos que ninguém — disse eu, e lhe expliquei o que queria. Acontece que eu poderia ter poupado oito pratas, porque ele não tinha interesse nenhum na minha suposta esposa infiel. O equipamento que eu queria comprar é que interessava ao proprietário da Eletrônica Satélite. Nesse assunto, ele era Mike Loquaz.

— Senhor, podem ter equipamento assim no planeta de onde o senhor veio, mas com certeza não temos isso por aqui.

Isso me trouxe uma lembrança da dona Mimi me comparando ao visitante alienígena de O dia em que a Terra parou.

— Não sei o que quer dizer...

— O senhor quer um pequeno aparelho de escuta sem fio? Ótimo. Tenho vários naquele estojo de vidro bem aí à sua esquerda. Chamam-se rádios transístor. Tenho Motorola e GE, mas os japoneses fazem os melhores. — Ele pôs o lábio inferior para fora e soprou uma madeixa da testa. — Não parece um pontapé no traseiro? Nós os vencemos 15 anos atrás bombardeando duas cidades deles até virarem poeira radiativa, mas eles morreram? Não! Eles se escondem nos buracos até a poeira baixar e depois saem se arrastando armados com placas de circuito impresso e ferros de soldar em vez de metralhadoras Nambu. Em 1985, serão donos do mundo. Pelo menos da parte onde eu moro.

— Então não pode me ajudar?

— Está brincando? Claro que posso. Silent Mike McEachern tem sempre o prazer de atender às necessidades eletrônicas dos fregueses. Mas tem um preço.

— Estou disposto a pagar. Vai me poupar muito mais quando levar aquela cadela traidora aos tribunais para o divórcio.

— Hã-hã. Espere aí um minuto que vou buscar uma coisa nos fundos. E vire aquela placa na porta para FECHADO, por favor. Vou lhe mostrar uma coisa que provavelmente não é... bom, talvez seja legal, mas nunca se sabe. Silent Mike McEachern será advogado?

— Aposto que não.

O meu guia da eletrônica da década de sessenta reapareceu com um aparelho esquisito numa das mãos e uma caixinha de papelão na outra. O texto da caixa estava em japonês. O aparelho parecia um consolo para mocinhas duendes montado num disco de plástico preto. O disco tinha 7,5 centímetros de espessura e mais ou menos o diâmetro de uma moeda de 25 centavos, com um jorro de fios saindo dele. Ele o pôs no balcão.

— Este é um Echo. Fabricado bem aqui na cidade, filho. Se alguém consegue vencer os filhos de Nippon no jogo deles, somos nós. Em 1970, a eletrônica já terá substituído os bancos em Dallas. Guarde as minhas palavras. — Ele fez o sinal da cruz, apontou para o céu e acrescentou: — Deus abençoe o Texas.

Peguei o aparelho.

— O que exatamente é o Echo quando está em casa com os pés na almofada?

— É a coisa mais próxima do tipo de aparelho que o senhor me descreveu. É pequeno porque não tem nenhuma válvula e não funciona com pilhas. Funciona com a corrente alternada doméstica comum.

— É para ligar na tomada?

— Claro, por que não? A sua mulher e o namorado podem olhá-lo e dizer: “Que interessante, alguém pôs um microfone aqui quando saímos, vamos fazer uma festinha barulhenta e falar sobre todos os nossos assuntos particulares.”

Ele era um gênio, tudo bem. Mas a paciência é uma virtude. E eu precisava do que eu precisava.

— Então o que se faz com isso?

Ele deu um tapinha no disco.

— Isso fica dentro da base de uma lâmpada. Não uma lâmpada de chão, a não ser que o senhor queira gravar os camundongos correndo por debaixo do assoalho, entende? Um abajur de mesa, para ficar na altura em que se fala. — Ele alisou os fios. — O vermelho e o amarelo se ligam no fio da lâmpada, o fio da lâmpada é ligado na tomada. O microfone fica calado até alguém ligar o abajur. Aí, bingo, você está no páreo.

— Essa outra coisa é o microfone?

— É, e para um microfone americano até que é bom. Agora... está vendo os dois outros fios? O azul e o verde?

— Hã-hã.

Ele abriu a caixa de papelão com letras japonesas e tirou um gravador de fita. Era maior do que o maço de Winston de Sadie, mas não muito.

— Esses fios se ligam aqui. A unidade-base vai no abajur, o gravador fica numa gaveta da cômoda, quem sabe debaixo das calcinhas da sua mulher. Ou abra um furinho na parede e o deixe no armário.

— O gravador também recebe energia do fio do abajur.

— Naturalmente.

— Posso ficar com dois desses Echos?

— Posso lhe arranjar quatro, se quiser. Mas pode levar uma semana.

— Dois está bom. Quanto é?

— Coisas assim não são baratas. Um par vai lhe sair por cento e quarenta. É o melhor que posso fazer. E terá de ser em dinheiro. — Ele falava com um pesar que sugeria que tínhamos um lindo sonho tecnológico só nosso, mas agora o sonho estava quase no fim.

— Quando custaria para o senhor fazer a instalação? — Vi o susto dele e me apressei a desfazê-lo. — Não quero dizer o serviço clandestino real, nada disso. Só pôr os microfones num par de abajures e ligar os gravadores; isso o senhor pode fazer?

— É claro que posso, senhor...

— Digamos, sr. Doe. John Doe.

Os olhos dele faiscaram como imagino que faiscaram os de E. Howard Hunt quando ele viu pela primeira vez o desafio que seria o Hotel Watergate.

— Bom nome.

— Obrigado. E seria bom ter algumas opções com os fios. Algo curto, se eu conseguir colocar tudo perto, algo mais comprido, se eu precisar esconder o gravador num armário ou do outro lado da parede.

— Dá para fazer, mas não é bom que tenha mais de três metros, senão o som vira barulho. Além disso, quanto mais fio se usa, maior a probabilidade de alguém achar.

Isso, até um professor de inglês entenderia.

— Quanto pelo negócio todo?

— Hum... cento e oitenta?

Ele parecia disposto a barganhar, mas eu não tinha tempo nem vontade. Pus cinco notas de vinte no balcão e disse:

— Pago o resto quando vier buscar. Mas primeiro testamos e vemos se funciona, está bem?

— Tudo bem.

— Mais uma coisa. Arranje abajures usados. Meio sujos.

— Sujos?

— Como se tivessem sido arranjados numa venda de garagem ou num brechó por 25 centavos cada. — Depois de dirigir algumas peças (contando com as que montei na LHS, Ratos e homens fora a quinta), a gente aprende um pouco sobre cenários. A última coisa que eu queria era alguém furtando um abajur com microfones de um apartamento semimobiliado.

Por um instante ele pareceu não entender até que um sorriso cúmplice nasceu no seu rosto.

— Entendo. Realismo.

— É este o plano, Stan. — Parti para a porta e depois voltei, apoiei os antebraços na vitrine dos rádios transístores e olhei nos olhos dele. Não posso jurar que ele tenha visto o homem que matara Frank Dunning, mas também não tenho certeza de que não viu. — Não vai falar nada sobre isso, não é?

— Não! Claro que não! — Ele passou dois dedos sobre os lábios.

— É isso aí — disse eu. — Quando?

— Me dê uns dias.

— Voltarei na segunda que vem. A que horas fecha?

— Às cinco.

Calculei a distância de Jodie a Dallas e disse:

— Mais vinte se ficar aberto até as sete. Não consigo chegar aqui mais cedo. Assim está bom?

— Está.

— Ótimo. Esteja com tudo pronto.

— Estarei. Mais alguma coisa?

— Mais uma. Por que diabos você é Silent Mike?

Achei que ele ia dizer Porque sei guardar segredo, mas não disse.

— Quando garoto, achei que aquela música de Natal era sobre mim. E aí pegou.

Não perguntei nada, mas a meio caminho do carro entendi e comecei a rir.

Silent Mike, holy Mike.

Às vezes o mundo onde vivemos é um lugar estranhíssimo.

3

Quando voltaram aos Estados Unidos, Lee e Marina moraram numa triste sucessão de apartamentos baratos, inclusive aquele em Nova Orleans que eu já visitara, mas, com base nas anotações de Al, achei que só havia dois em que precisava me concentrar. Um ficava na rua West Neely, 214, em Dallas. O outro ficava em Fort Worth, e foi lá aonde fui depois da visita a Silent Mike.

Tinha um mapa da cidade, mas ainda precisei pedir instruções três vezes. No final, foi uma negra idosa que cuidava de uma lojinha que me apontou o caminho certo. Quando finalmente achei o que procurava, não me surpreendi que fosse difícil de localizar. O beco sem saída da rua Mercedes era de terra seca, sem pavimentação, cercado de casas decrépitas, um pouco melhores que barracos de meeiros. Dava para um estacionamento imenso e quase vazio onde rolos de mato seco eram soprados sobre o asfalto esburacado. Além do estacionamento ficavam os fundos de um depósito com paredes de cimento. Pintado nele com letras caiadas de 3 metros de altura, havia PROPRIEDADE DE MONTGOMERY WARD, INVASORES SERÃO PROCESSADOS e A POLÍCIA ESTÁ DE OLHO.

O ar fedia a petróleo decomposto, vindo da direção de Odessa-Midland, e a esgoto a céu aberto muito mais perto. O som de rock vazava de janelas abertas. Ouvi Dovells, Johnny Burnette, Lee Dorsey, Chubby Checker... e isso foi nos primeiros 40 metros, mais ou menos. Mulheres penduravam roupa em varais como cata-ventos enferrujados. Todas usavam vestidos provavelmente comprados em lojas populares e todas pareciam grávidas. Um garotinho imundo e uma menininha igualmente imunda estavam numa entrada de barro rachado e me observaram passar. Estavam de mãos dadas e eram parecidos demais para não serem gêmeos. O menino, nu a não ser por uma única meia, segurava um revólver de espoleta. A menina usava uma fralda despencada debaixo de uma camiseta do Clube do Mickey. Segurava um bebê de plástico tão imundo quanto ela. Dois homens de peito nu jogavam uma bola de futebol americano de lá para cá, cada um no seu quintal, ambos com o cigarro pendurado no canto da boca. Além deles, um galo e duas galinhas desgrenhadas ciscavam na terra perto de um cachorro magro que dormia ou morrera.

Parei diante do 2.703, lugar aonde Lee levaria a esposa e a filha quando não aguentasse mais o amor materno pernicioso e sufocante de Marguerite Oswald. Duas faixas de concreto levavam a um terreno vazio, de terra manchada de óleo onde, numa parte melhor da cidade, haveria uma garagem. A terra desolada e coberta de capim que se fingia de gramado estava atulhada de brinquedos baratos de plástico. Uma menininha de bermuda rosa esfarrapada chutava várias vezes uma bola de futebol contra a lateral da casa. Cada vez que a bola batia no revestimento de madeira, ela dizia: “Tchumbá! ”

Uma mulher com o cabelo preso em rolos grandes e azuis e um cigarro colado no cuspe pôs a cabeça para fora da janela e berrou:

— Se continuar fazendo isso, Rosette, vou aí fora e lhe dou uma surra! — Depois ela me viu. — Que cê quer? Se for conta pra pagar, num posso fazer nada. Isso é com o meu marido. Ele foi trabalhar hoje.

— Não é conta — respondi. Rosette chutou a bola para mim com uma careta que se transformou num sorriso relutante quando a peguei com a lateral do pé e a devolvi suavemente. — Só quero falar com a senhora um instante.

— Então vai tê de esperar. Num tô decente.

A cabeça sumiu. Esperei. Rosette chutou a bola mais alto e mais longe dessa vez (“Tchumbá! ”), mas consegui pegá-la com uma das mãos antes que batesse na casa.

— Num pode usar as mão, seu fidaputa — disse ela. — É pênalti.

— Rosette, o que foi que falei sobre o diabo dessa boca suja? — Mamãe veio até a porta, amarrando um lenço amarelo transparente sobre os rolos. Ficavam parecidos com insetos em casulos, do tipo que pode ser venenoso quando sair.

— Fidaputa velho e fodido! — gritou Rosette com voz aguda e saiu correndo pela rua Mercedes acima, na direção do depósito da Monkey Ward, chutando a bola e rindo feito louca.

— Que cê quer? — Mamãe tinha entre 22 e 50. Vários dentes tinham sumido e havia os restos desbotados de um olho roxo.

— Fazer algumas perguntas — respondi.

— Por que o que é da minha conta é da sua conta?

Puxei a carteira e lhe ofereci uma nota de cinco dólares.

— Não me faça perguntas e não direi mentiras.

— Ocê num é daqui. Parece ianque.

— Quer o dinheiro ou não, senhora?

— Depende das perguntas. Não vou lhe dizer o número do diabo do meu sutiã.

— Quero saber há quanto tempo mora aqui, pra começar.

— Aqui? Seis semanas, acho. Harry achou que podia arranjar emprego no depósito da Monkey Ward, mas eles num tão contratando. Aí ele foi pra Manpower. Sabe o que é?

— Mão de obra temporária?

— É, e ele tá trabalhando com um monte de preto. — Só que não era trabalhando, era tabaiano. — Nove dólar por dia trabalhando com um diabo de monte de preto do lado da estrada. Ele diz que é como estar de novo na Penitenciária do Oeste do Texas.

— Quanto pagam de aluguel?

— Cinquenta por mês.

— Mobiliado?

— Semi. Bom, por assim dizer. Tem um diabo de uma cama e um diabo de um fogão a gás que vai acabar matando a gente. E não vou deixar ocê entrar, nem peça. Não vejo diferença entre ocê e o diabo do Adão.

— Tem abajur e tal?

— Tá maluco, moço.

— Tem?

— Tem, dois. Um que funciona e outro que não. Num vou ficar aqui, diabo nenhum que vou. Ele fala que não quer voltar pra morar com a minha mãe em Mozelle, mas quem fala o que quer ouve o que não quer. Num vou ficar aqui. Tá sentindo o cheiro?

— Estou, sim, senhora.

— Isso é pura merda, meu filho. Não é merda de gato, nem merda de cachorro, é merda de gente. Trabalhar com os preto tudo bem, mas viver feito preto? Nada disso. Acabou?

Ainda não, embora gostasse. Estava com nojo dela, e com nojo de mim por me arriscar a julgar. Ela era prisioneira do seu tempo, das suas escolhas e dessa rua que cheirava a merda. Mas era dos rolos debaixo do lenço amarelo que eu não tirava os olhos. Insetos gordos e azuis aguardando para eclodir.

— Ninguém fica muito tempo aqui, então?

— Na rua Cedes? — Ela fez um gesto com o cigarro para o largo de terra batida que dava no estacionamento deserto e no vasto depósito cheio de coisas bonitas que ela nunca teria. Para os barracos grudados com os degraus de cimento esfarelado e janelas quebradas fechadas com pedaços de papelão. Para as crianças irritantes. Para os Fords, Hudsons e Studebaker Larks velhos e enferrujados. Para o céu implacável do Texas. Depois soltou um riso terrível cheio de diversão e desespero.

— Moço, isso aqui é um ponto de ônibus no caminho do nada. Eu e a pestinha vamos voltar pra Mozelle. Se Harry não quiser ir, a gente vai sem ele.

Tirei o mapa do bolso de trás da calça, rasguei uma tira e escrevi nele o meu telefone de Jodie. Depois, acrescentei outra nota de cinco dólares. Estendi tudo para ela. Ela olhou mas não pegou.

— Pra que vou querer o seu telefone? Não tenho nenhuma merda de telefone. E também não é Dallas nem Fort Worth. É uma merda de um terubano.

— Me ligue quando estiver prestes a mudar. É só o que peço. A senhora me liga e diz: “Moço, aqui é a mãe da Rosette e vamos mudar.” É só isso.

Pude ver que ela calculava. Não demorou muito. Dez dólares era mais do que o marido ganhava trabalhando o dia inteiro sob o sol quente do Texas. Porque a Manpower nunca ouvira falar de hora extra nem de folga. E seriam dez dólares dos quais ele não ia saber.

— Me dê mais uns setenta centavo — disse ela. — Pro terubano.

— Pronto, fique com um dólar. Viva um pouco. E não esqueça.

— Não vou esquecer.

— Não, é melhor que não. Porque, se esquecer, quem sabe consigo achar o seu marido e conversar com ele. Isso é importante, senhora. Pra mim, é. Aliás, como se chama?

— Ivy Templeton.

Fiquei ali, na terra e no mato, cheirando merda, petróleo meio cozido e o aroma gordo e peidoso do gás natural.

— Moço? O que aconteceu? Você ficou todo esquisito.

— Nada — respondi. E talvez não fosse nada. Templeton está longe de ser um sobrenome incomum. É claro que a gente pode se convencer de qualquer coisa, se tentar bastante. Sou a prova falante e ambulante disso.

— E o seu nome?

— Puddentane — respondi. — Se me perguntar, é o que vou falar.

Com esse toque de rima infantil, ela finalmente abriu um sorriso.

— Me ligue, senhora.

— Tá, tá bom. Agora vá. Se encontrar aquela pestinha da minha filha pelo caminho, vai me fazer um favor.

Voltei a Jodie e achei um bilhete preso com tachinha na minha porta:

George,

Pode me ligar? Preciso de um favor.

Sadie (e esse é o problema!!)

O que isso queria dizer? Entrei para telefonar para ela e descobrir.

4

A mãe do treinador Borman, que morava numa casa de repouso em Abilene, fraturara o quadril e naquele sábado era o Baile de maria cebola da DCHS.

— O treinador me convenceu a ciceronear o baile com ele! Ele disse, e estou citando: “Como pode resistir a um baile desses?” Foi na semana passada. E, como uma idiota, concordei. Agora ele vai para Abilene e onde é que eu fico? Ciceroneando duzentos garotos de 16 anos loucos por sexo dançando twist e chá-chá-chá? Acho que não vai dar! E se algum garoto levar cerveja?

Achei que o espantoso seria se não levassem, mas senti que era melhor não dizer.

— E se houver uma briga no estacionamento? Ellie Dockerty disse que uma turma de garotos de Henderson fechou o baile no ano passado e dois deles e dois nossos foram parar no hospital! George, você pode me ajudar nisso? Por favor!

— Quer dizer que acabei de ser mariacebolado por Sadie Dunhill? — Eu sorria. A ideia de ir ao baile com ela não me enchia exatamente de tristeza.

— Não brinque! Não tem graça!

— Sadie, é um prazer ir com você. Vai me trazer flores?

— Levo uma garrafa de champanhe, se for preciso. — Ela pensou melhor. — Não, isso não. Não com o meu salário. Então uma garrafa de espumante Cold Duck.

— As portas se abrem às sete e meia? — Na verdade, eu sabia que sim. Havia cartazes pela escola toda.

— Isso.

— E serão só discos. Sem música ao vivo. Isso é bom.

— Por quê?

— Música ao vivo pode criar problemas. Certa vez organizei um baile onde o baterista vendia cerveja feita em casa nos intervalos. Essa foi uma experiência agradável.

— Houve briga? — Ela parecia horrorizada. Fascinada, também.

— Não, mas houve muito vômito. O troço foi animado.

— Foi na Flórida?

Tinha sido em Lisbon High, em 2009, por isso disse a ela: sim, na Flórida. Também lhe disse que ficaria contente de ajudar a ciceronear o baile.

— Muitíssimo obrigada, George.

— O prazer foi meu, madame.

E foi mesmo.

5

O Grêmio Estudantil era responsável pelo baile e fez um belíssimo trabalho: muitas serpentinas de papel crepom pendiam das vigas do ginásio (em prata e ouro, é claro), um monte de ponche de ginger ale, biscoitos de limão e bolinhos vermelhos oferecidos pelas Futuras Donas de Casa da América. O Departamento de Artes — pequeno mas dedicado — contribuiu com um mural que mostrava a imortal maria cebola correndo atrás dos solteirões disponíveis em Brejo Seco. Mattie Shaw e Bobbi Jill, a namorada de Mike, fizeram quase tudo, e tinham razão de estar orgulhosos. Fiquei com vontade de saber onde estariam dali a sete ou oito anos, quando a primeira onda de feministas começasse a queimar sutiãs e fazer manifestações por direitos reprodutivos totais. Sem falar de camisetas dizendo coisas como NÃO SOU PROPRIEDADE e MULHER PRECISA TANTO DE HOMEM QUANTO PEIXE PRECISA DE BICICLETA.

O DJ e mestre de cerimônias da noite era Donald Bellingham, aluno do segundo ano. Ele chegou com uma coleção de discos superbacana numa, não, em duas malas Samsonite. Com a minha permissão (Sadie só pareceu perplexa), ele ligou o fonógrafo Webcor e o pré-amplificador do pai no sistema de som da escola. O ginásio tinha tamanho suficiente para oferecer reverberação natural e, depois de alguns guinchos de retorno preliminares, ele conseguiu um som retumbante que ficou fantástico. Embora nascido em Jodie, Donald era morador permanente de Rockville, no estado de Daddy Cool. Usava óculos de aro cor-de-rosa e lentes grossas, calças com cintinho atrás e sapatos bicolores tão grotescamente quadrados que eram uma loucura, meu chapa. O rosto era uma fábrica de espinhas em explosão debaixo de um cabelo cheio de Brylcreem penteado para trás à moda de Bobby Rydell. Parecia que receberia o primeiro beijo de uma moça de verdade por volta dos 42 anos, mas era rápido e engraçado com o microfone, e a sua coleção de discos (que ele chamava de “pilha de cera” e “o monte redondo de som de Donny B.”) era, como já observado, a mais superbacana.

— Vamos começar esta festa com um sucesso do passado, uma relíquia do rock’n’roll, saída do cemitério dos bacanas, o suprassumo do legal, uma barbaridade, vamos sacudir o esqueleto ao som de Danny... and the JOOONIERS!

At the Hop fez a quadra explodir. O baile começou como a maioria deles no início da década de 60: só meninas dançando com meninas. Os pés de mocassim voavam. As anáguas regiravam. No entanto, dali a pouco o piso começou a se encher de casais menino-menina... pelo menos nas danças mais rápidas e atuais, coisas como Hit the Road Jack e Quarter to Three.

Poucos garotos estariam à altura de Dançando com as estrelas, mas eram jovens e entusiasmados e, obviamente, se divertiam muito. Vê-los me deixou contente. Mais tarde, se Donny B. não tivesse o bom senso de baixar um pouco as luzes, eu mesmo o faria. A princípio Sadie ficou nervosa, pronta para encrencas, mas esses garotos só tinham ido se divertir. Não havia hordas invasoras de Henderson nem de nenhuma outra escola. Ela viu isso e começou a relaxar um pouco.

Depois de uns quarenta minutos de música sem intervalo (e quatro bolinhos vermelhos), me inclinei para Sadie e disse:

— Hora de o inspetor Amberson fazer a primeira ronda no prédio e se assegurar de que ninguém lá no pátio está fazendo o que não deve.

— Quer que eu vá com você?

— Quero que você fique de olho na bacia de ponche. Se qualquer rapaz se aproximar dela com qualquer garrafa, mesmo que seja de xarope para tosse, quero que o ameace com eletrocução ou castração, o que quer que você ache que vá fazer efeito.

Ela se encostou na parede e riu até as lágrimas faiscarem no canto dos olhos.

— Saia daqui, George, você é terrível.

Saí. Fiquei contente de ter feito ela rir, mas, mesmo depois de três anos, era fácil esquecer como as piadas com nuances sexuais faziam muito mais efeito na Terra de Antigamente.

Peguei um casal aprontando num dos cantos mais escuros do lado leste da quadra — ele pesquisando o interior do casaco, ela aparentemente tentando lhe arrancar os lábios. Quando cutuquei o ombro do jovem pesquisador, eles se separaram num pulo.

— Deixem isso para mais tarde, depois do baile — disse eu. — Por enquanto, voltem à quadra. Andem devagar. Se acalmem. Tomem um ponche.

Eles foram, ela abotoando o casaco, ele andando um pouco curvado para a frente naquele conhecido andar de garoto adolescente chamado Passo das Bolas Estranguladas.

Duas dúzias de vaga-lumes vermelhos piscavam atrás da oficina de metal. Acenei e alguns garotos na área de fumantes acenaram de volta. Enfiei a cabeça no canto leste da oficina de madeira e vi algo de que não gostei. Mike Coslaw, Jim LaDue e Vince Knowles estavam ali amontoados, passando algo de um para o outro. Segurei o algo e icei-o acima da cerca de correntes antes que sequer soubessem que eu estava ali.

Jim pareceu se espantar um instante e depois me deu o sorriso preguiçoso de herói do futebol americano.

— Olá para o senhor também, sr. A.

— Me poupe, Jim. Não sou uma mocinha para você seduzir e com toda certeza não sou o seu treinador.

Ele ficou chocado e um pouco assustado, mas não vi no seu rosto a sensação do direito ofendido. Acho que, se fosse uma das grandes escolas de Dallas, talvez houvesse. Vince recuara um passo. Mike manteve o terreno, mas parecia abatido e sem graça. Não, era mais do que sem graça. Era absolutamente envergonhado.

— Uma garrafa num baile de discos — disse eu. — Não que eu esperasse que vocês seguissem todas as regras, mas por que são tão estúpidos na hora de ir contra elas? Jimmy, se você for pego bebendo e for expulso do time de futebol, o que acontece com a sua bolsa no Alabama?

— Provavelmente suspensa, acho — respondeu ele. — E só.

— Certo, e ficar fora um ano. Ter mesmo de tirar boas notas. O mesmo com você, Mike. E seria expulso do Clube de Teatro. É isso o que quer?

— Não, senhor. — Pouco mais do que um cochicho.

— E você, Vince?

— Não, hã-hã, sr. A. Absolutamente não. Ainda vamos fazer os jurados? Porque se formos...

— Não sabe nem calar a boca quando um professor o repreende?

— Sei, sim, sr. A.

— Vocês não terão passe livre meu da próxima vez, mas hoje é a sua noite de sorte. O que vão ganhar hoje é um conselho valioso: não fodam o seu futuro. Não por causa de meio litro de Five Star num baile de escola de que vocês nem se lembrarão daqui a um ano. Estão entendendo?

— Sim, senhor — respondeu Mike. — Sinto muito.

— Eu também — disse Vince. — Totalmente. — E fez o sinal da cruz, sorrindo. Alguns simplesmente são assim. E talvez o mundo precise de um quadro de espertinhos para animar as coisas, quem sabe?

— Jim?

— Sim, senhor — respondeu ele. — Por favor, não conte ao meu pai.

— Não, isso fica entre nós. — Dei uma olhada em todos. — Vocês, garotos, acharão muito lugar para beber no ano que vem, na faculdade. Mas não na nossa escola. Estão escutando?

Dessa vez, todos responderam sim, senhor.

— Agora entrem. Tomem um pouco de ponche para lavar o cheiro de uísque do hálito.

Eles foram. Dei um tempo a eles e os segui a distância, de cabeça baixa, as mãos enfiadas no fundo do bolso, pensando muito. Não na nossa escola, eu dissera. Nossa.

Venha dar aulas , dissera Mimi. Foi para isso que você nasceu.

Dois mil e onze nunca parecera tão distante quanto naquele momento. Bosta, Jake Epping nunca parecera tão distante. Um sax tenor grunhia e soprava numa quadra iluminada para a festa no fundo do coração do Texas. Uma brisa doce o levava pela noite. Um baterista fazia um rufo insidioso do tipo levante-da-cadeira-e-mexa-os-pés.

Acho que foi quando decidi que nunca voltaria.

6

O sax que grunhia e o baterista sensual eram a cozinha de um grupo chamado The Diamonds. A música era The Stroll . Mas os garotos não faziam a dança apropriada. Não direito.

O Stroll fora o primeiro passo que Christy e eu aprendemos quando começamos a ir às aulas de dança nas noites de quinta. É uma dança dois a dois, um tipo de quebra gelo em que cada casal desce dançando por um corredor de garotos e garotas que batem palmas. O que vi quando voltei à quadra era diferente. Ali os meninos e meninas se juntavam, giravam nos braços um do outro como se valsassem e se separavam outra vez, terminando do lado contrário de onde tinham partido. Quando separados, os pés se apoiavam no tornozelo e os quadris balançavam para a frente, movimento ao mesmo tempo sexy e encantador.

Enquanto eu observava ao lado da mesa dos petiscos, Mike, Jim e Vince entraram no lado dos rapazes. Vince não era lá grande coisa — dizer que dançava como um garoto branco seria um insulto aos garotos brancos do mundo inteiro —, mas Jim e Mike se moviam como os atletas que eram, ou seja, com graça inconsciente. Logo, quase todas as moças do outro lado os observavam.

— Estava começando a me preocupar com você! — gritou Sadie acima da música. — Está tudo bem lá fora?

— Tudo! — gritei de volta. — Que dança é essa?

— A Madison! Estão mostrando na TV, no programa Bandstand, o mês inteiro. Quer que eu lhe ensine?

— Senhora — disse eu, pegando-a pelo braço —, eu vou lhe ensinar. Os garotos viram que nos aproximávamos e abriram espaço, batendo palmas e gritando “Vamos lá, sr. A.! ” e “Mostre a ele o que sabe fazer, srta. Dunhill! ” Sadie riu e apertou o elástico que segurava o rabo de cavalo. O corado subiu alto nas faces, deixando-a mais do que bonita. Ela se apoiou nos calcanhares, batendo palmas e sacudindo os ombros com as outras meninas, depois avançou para os meus braços, os olhos erguidos para mim. Fiquei contente de ter altura suficiente para ela fazer isso. Giramos como um casalzinho num cata-vento de bolo de noiva e nos separamos. Abaixei-me e girei na ponta dos pés com as mãos para o alto, como Al Jolson cantando Mammy. Isso provocou mais aplausos e alguns gritinhos pré-Beatles das meninas. Eu não estava me exibindo (tudo bem, talvez um pouco); no geral, estava apenas feliz de dançar. Fazia muito tempo.

A música terminou, o sax que grunhia sumindo naquela eternidade de rock’n’roll que o nosso jovem DJ gostava de chamar de cemitério dos bacanas, e começamos a sair da pista.

— Céus, isso foi divertido — disse ela. Ela pegou o meu braço e o apertou. — Você é divertido.

Antes que eu respondesse, Donald berrou no sistema de som.

— Em homenagem a dois cicerones que sabem mesmo dançar, pela primeira vez na história da nossa escola, eis um sucesso do passado, sumido das rádios mas não do coração, uma barbaridade vinda diretamente da coleção de discos do meu pai, que ele não sabe que eu trouxe e se algum de vocês, gatões, contar a ele, vai ser uma baita encrenca. Vamos lá, roqueiros papo-firme, era assim que se fazia quando o sr. A e a srta. D. estavam no secundário!

Todos se viraram para nos olhar e... bem...

Sabe como é quando a gente sai à noite e vê a borda de uma nuvem se iluminar de dourado claro e sabe que a lua vai aparecer dali a um ou dois segundos? Foi a sensação que tive naquele momento, em pé no meio do balanço suave das serpentinas de papel crepom na quadra coberta de Denholm. Eu sabia o que ele ia tocar, eu sabia que íamos dançar e eu sabia como íamos dançar. Então lá veio aquela suave introdução com os metais:

Bá-dá-dá... bá-dá-da-di-dum...

Glenn Miller. In the Mood.

Sadie pôs as mãos para trás e puxou o elástico, soltando o rabo de cavalo. Ainda ria e começava a ondular os quadris só um pouquinho. O cabelo escorregou macio de um ombro a outro.

— Sabe dançar swing? — Erguendo a voz para ser ouvido acima da música. Sabendo que ela sabia. Sabendo que ela dançaria.

— Quer dizer, Lindy Hop? — perguntou ela.

— Foi o que eu quis dizer.

— Bom...

— Vá, srta. Dunhill — disse uma das meninas. — Queremos ver. — E duas amigas dela empurraram Sadie na minha direção.

Ela hesitou. Dei outra pirueta e estendi as mãos. Os garotos deram vivas quando entramos na pista de dança. Abriram espaço para nós. Eu a puxei para junto de mim e, depois de mínima hesitação, ela girou primeiro para a esquerda, depois para a direita, a linha A do jumper que usava dando-lhe apenas espaço suficiente para cruzar os pés ao avançar. Era a variação Lindy que Rique-do-dique e Bevvie-da-neve estudavam naquele dia de outono de 1958. Era o Hellzapoppin. É claro que era. Porque o passado se harmoniza.

Trouxe-a para mim pelas mãos dadas e depois a deixei se afastar. Nos afastamos. Então, como pessoas que treinaram esses passos durante meses (talvez com um disco tocado mais devagar numa área para piqueniques deserta), nos curvamos e chutamos, primeiro para a esquerda, depois para a direita. Os garotos riram e deram vivas. Tinham formado um círculo à nossa volta, marcando o ritmo com palmas, no meio do piso polido.

Nos juntamos e ela girou como uma bailarina turbinada sob as nossas mãos interligadas.

Agora você aperta para me dizer direita ou esquerda.

O apertão veio de leve na mão direita, como se o pensamento o convocasse, e ela girou de volta como uma hélice, o cabelo voando num leque que brilhou primeiro vermelho e depois azul sob as luzes. Ouvi várias meninas prenderem a respiração. Peguei-a e desci sobre um dos calcanhares com ela curvada debaixo do meu braço, torcendo feito louco para não arrebentar o joelho. Não arrebentei.

Subi. Ela veio comigo. Afastou-se e voltou para os meus braços. Dançamos sob as luzes.

Dançar é viver.

7

O baile terminou às onze, mas só subi com o Sunliner na entrada de garagem de Sadie quando eram 15 minutos de domingo. Uma das coisas que ninguém fala sobre o serviço glamoroso de ciceronear bailes de adolescentes é que são os cicerones que têm de verificar se tudo foi guardado e trancado depois que a música acaba.

Nenhum de nós disse muito no caminho de volta. Embora Donald tocasse várias outras músicas animadas e tentadoras de big bands e os garotos insistissem muito para que dançássemos o swing de novo, recusamos. Uma vez era memorável; duas seria indelével. Coisa talvez não muito boa numa cidade pequena. Para mim, já era indelével. Não conseguia parar de pensar na sensação dela nos meus braços nem na respiração rápida dela no meu rosto.

Desliguei o motor e me virei para ela. Agora ela dirá “Obrigada por me salvar dessa” ou “Obrigada por uma noite maravilhosa” e pronto.

Mas ela não disse nada disso. Ela não disse nada. Só me olhou. Cabelo nos ombros. Os dois botões de cima da camisa masculina de algodão desabotoados debaixo do jumper. Brincos cintilando. Então estávamos juntos, primeiro apalpando, depois agarrando com força. Era beijo, mas era mais do que beijo. Era como comer quando se está com fome ou beber quando se está com sede. Eu sentia o perfume dela e o seu suor limpo sob o perfume e sentia gosto de tabaco, leve mas ainda pungente, nos lábios e na língua. Os dedos dela escorregaram pelo meu cabelo (o mindinho passando só um instante na curva da orelha e me deixando arrepiado) e se travaram na minha nuca. Os polegares dela se moviam e se moviam. Acariciando a pele nua da nuca que certa vez, em outra vida, tinha sido coberta pelo cabelo. Passei a mão primeiro debaixo e depois em torno do cheio do seio e ela murmurou:

— Ah, obrigada, achei que ia cair.

— O prazer foi meu — respondi, e apertei de leve.

Ficamos talvez cinco minutos nos bolinando, respirando com mais força enquanto os carinhos ficavam mais ousados. O para-brisa do meu Ford se cobriu de vapor.

Então ela me empurrou e vi que as bochechas dela estavam molhadas. Em nome de Deus, quando ela começara a chorar?

— George, sinto muito — disse ela. — Não consigo. Estou apavorada demais. — O jumper dela estava no colo, revelando as ligas, a bainha da combinação, a espuma rendada da calcinha. Ela puxou a saia até os joelhos.

Achei que era por ser casada e, embora tivesse acabado, o casamento ainda importasse — era meados do século XX, não início do XXI. Ou talvez fossem os vizinhos. As casas pareciam às escuras e profundamente adormecidas, mas não se podia ter certeza, e, em cidades pequenas, novos pregadores e professores são sempre interessantes como tópicos de conversa. Acontece que eu estava errado em ambas as ideias, mas não tinha como saber.

— Sadie, você não precisa fazer nada que não queira. Eu não...

— Você não entende. Não é que eu não queira. Não é por isso que estou apavorada. É porque nunca fiz.

Antes que eu conseguisse dizer alguma coisa, ela saiu do carro e foi correndo para casa, remexendo na bolsa atrás da chave. Não olhou para trás.

8

Cheguei em casa às vinte para uma e andei da garagem até a casa na minha própria versão do Passo das Bolas Estranguladas. Mal acendera a luz da cozinha quando o telefone começou a tocar. Em 1961 estamos quarenta anos antes da invenção do bina, mas só uma pessoa me ligaria àquela hora e depois de uma noite daquelas.

— George? Sou eu. — Ela parecia composta, mas a voz estava grossa. Chorara. E muito, pelo som.

— Oi, Sadie. Você nem me deu a oportunidade de agradecer por uma noite deliciosa. Durante o baile e depois.

— Eu também me diverti. Fazia tanto tempo que não dançava. Estou quase com medo de lhe contar com quem aprendi o Lindy.

— Bom — respondi —, aprendi com a minha ex-mulher. Aposto que você aprendeu com o marido alienado. — Só que não era uma aposta; essas coisas eram assim. Isso não me surpreendia mais, mas se eu dissesse que consegui me acostumar àquela estranha coincidência de fatos, estaria mentindo.

— É. — A voz era monótona. — Ele. John Clayton, dos Claytons de Savannah. E alienado é a palavra certa, porque ele é um homem muito estranho.

— Quanto tempo ficou casada?

— Para sempre e mais um dia. Quer dizer, se quiser chamar de casamento o que tivemos. — Ela riu. Era o riso de Ivy Templeton, cheio de humor e desespero. — No meu caso, para sempre e mais um dia representa pouco mais de quatro anos. Depois do encerramento das aulas em junho, farei uma viagem discreta a Reno. Arranjarei um emprego de verão como garçonete ou coisa parecida. A exigência de moradia é de seis semanas. O que significa que, no final de julho ou início de agosto, conseguirei acabar com essa... essa piada em que me meti... como um cavalo de perna quebrada.

— Posso esperar — disse eu, mas assim que as palavras saíram da minha boca duvidei que fossem verdadeiras. Porque os atores estavam se reunindo nos bastidores e logo começaria o espetáculo. Em junho de 1962, Lee Oswald estaria de volta aos Estados Unidos e moraria primeiro com Robert e família, depois com a mãe. Em agosto, estaria na rua Mercedes, em Fort Worth, trabalhando na vizinha Leslie Welding Company, montando janelas de alumínio e o tipo de porta contra tempestade que tem iniciais inseridas.

— Não sei se eu consigo. — Ela falava com voz tão baixa que tive de me esforçar para ouvir. — Fui uma noiva virgem aos 23 anos e agora sou uma divorciada virgem de 28. Isso é tempo demais para o fruto ficar na árvore, como dizem lá de onde eu vim, ainda mais quando todo mundo — a mãe da gente, por exemplo — acha que a gente começou há muito tempo a ter experiência prática em toda aquela história sobre sementinhas. Isso nunca contei a ninguém e, se você contar, acho que morro.

— Fica entre nós, Sadie. E sempre ficará. Ele era impotente?

— Não exata... — Ela se calou. Houve um instante de silêncio e, quando ela voltou a falar, a voz estava cheia de horror. — George... essa é uma linha compartilhada?

— Não. Por três e cinquenta a mais por mês, essa bichinha é toda minha.

— Graças a Deus. Mas ainda não é coisa para se conversar por telefone. E claro que não no Al’s Diner, comendo Prongbúrgueres. Que tal cear aqui? Podemos fazer um piquenique no quintal. Por volta das cinco?

— Seria bom. Levo um bolo quatro quartos ou coisa assim.

— Não é isso o que quero que você traga.

— Então, o quê?

— Não posso dizer no telefone, mesmo sendo uma linha não compartilhada. Uma coisa que se compra em farmácia. Mas não na farmácia de Jodie.

— Sadie...

— Não diga nada, por favor. Vou desligar e jogar água fria no rosto. Parece que está pegando fogo.

Houve um clique no meu ouvido. Ela se fora. Tirei a roupa e fui me deitar, e fiquei acordado muito tempo, tendo pensamentos compridos. Sobre tempo, amor e morte.