Novembro de 63
Capítulo 19
1
George de Mohrenschildt fez a sua grandiosa apresentação na tarde de 15 de setembro, um sábado escuro e chuvoso. Estava atrás do volante de um Cadillac cor de café saído diretamente de uma música de Chuck Berry. Com ele estava um homem que eu conhecia, George Bouhe, e outro que não — um fiapo magro de homem com um chumaço de cabelo branco e as costas eretas de quem passou muito tempo nas forças armadas e ainda está contente com isso. Mohrenschildt foi até a traseira do carro e abriu a mala. Corri para buscar o microfone de longa distância.
Quando voltei com o equipamento, Bouhe tinha um cercado dobrável debaixo do braço e o sujeito de aparência militar, uma braçada de brinquedos. Mohrenschildt estava de mãos vazias e subiu os degraus na frente dos outros com a cabeça erguida e o peito estufado. Era alto, de compleição robusta. O cabelo grisalho era repartido de lado e penteado para trás da testa de um jeito que dizia — pelo menos para mim — olhai as minhas obras, poderosos, e desesperai-vos. Pois sou GEORGE.
Liguei o gravador, pus os fones e inclinei o pote equipado com microfone para o outro lado da rua.
Marina não estava à vista. Lee estava sentado no sofá, lendo uma brochura grossa à luz do abajur da cômoda. Quando ouviu passos na varanda, ergueu os olhos com a testa franzida e jogou o livro na mesinha de centro. Mais expatriados de merda, devia estar pensando.
Mas foi atender à porta. Estendeu a mão para o estranho de cabelo branco na varanda, mas Mohrenschildt o surpreendeu — e a mim — ao puxar Lee para os seus braços e beijá-lo nos dois lados do rosto. Depois o afastou, segurando-o pelos ombros. A voz era grave e com sotaque — mais alemão do que russo, pensei. “Quero olhar um rapaz que viajou tanto e voltou com os seus ideais intatos!” Depois, puxou Lee para outro abraço. A cabeça de Oswald mal aparecia acima do ombro do homem maior, e vi algo ainda mais surpreendente: Lee Harvey Oswald sorria.
2
Marina saiu do quarto do bebê com June no colo. Soltou uma exclamação de prazer quando viu Bouhe e lhe agradeceu o cercado e o que ela chamava, no seu inglês forçado, os “brincandos de criança”. Bouhe apresentou o homem magro como Lawrence Orlov — coronel Lawrence Orlov, por favor — e Mohrenschildt como “amigo da comunidade russa”.
Bouhe e Orlov foram trabalhar e montaram o cercado no meio da sala. Marina ficou com eles, conversando em russo. Como Bouhe, parecia que Orlov não conseguia tirar os olhos da jovem mãe russa. Marina usava um blusão e shorts que expunham as pernas que subiam eternamente. O sorriso de Lee sumira. Ele recuava para o jeito sombrio de sempre.
Só que Mohrenschildt não deixou. Percebeu o livro de Lee aberto na mesa de centro e o pegou.
— Quem é John Galt? — Falando só com Lee. Ignorando completamente os outros, que admiravam o cercado novo. — Ayn Rand? O que um jovem revolucionário está fazendo com isso?
— Conheça o seu inimigo — disse Lee, e quando Mohrenschildt explodiu numa sonora gargalhada, o sorriso de Lee reapareceu.
— E o que pensa do cri de cœur da srta. Rand? — Isso me fez lembrar de uma coisa quando escutei a fita. Escutei o comentário duas vezes antes de recordar: era quase exatamente a mesma frase que Mimi Corcoran usara ao me perguntar sobre O apanhador no campo de centeio.
— Acho que ela engoliu a isca envenenada — disse Oswald. — Agora está ganhando dinheiro vendendo-a aos outros.
— Exatamente, meu amigo. Nunca ouvi isso mais bem explicado. Chegará um dia em que as Rands do mundo pagarão pelos seus crimes. Acredita nisso?
— Eu sei disso — respondeu Lee. Falou objetivamente.
Mohrenschildt deu um tapinha no sofá.
— Sente-se aqui ao meu lado. Quero ouvir as suas aventuras na pátria.
Mas primeiro Bouhe e Orlov falaram com Lee e Mohrenschildt. Houve muito vaivém em russo. Lee parecia em dúvida, mas quando Mohrenschildt lhe disse certa coisa também em russo, Lee concordou e falou rapidamente com Marina. O modo como ele abanou a mão para a porta deixou bem claro: Vão, então, vão.
Mohrenschildt jogou as chaves do carro para Bouhe, que as deixou cair. Mohrenschildt e Lee trocaram um olhar de divertimento em comum enquanto Bouhe as agarrava no tapete verde sujo. Depois saíram, Marina levando o bebê no colo, e embarcaram no Cadillac de Mohrenschildt, que mais parecia um barco.
— Agora temos paz, meu amigo — disse Mohrenschildt. — E os homens abrirão a carteira, o que é bom, não é?
— Eu me canso disso de sempre abrirem a carteira — respondeu Lee. — Rina está começando a esquecer que não voltamos aos Estados Unidos só para comprar uma maldita geladeira e um monte de vestidos.
Mohrenschildt fez um gesto de desdém.
— Suor das costas do porco capitalista. Rapaz, não basta você morar neste lugar deprimente?
— É, não é lá grande coisa, né? — comentou Lee.
Mohrenschildt lhe deu um tapinha nas costas, com força quase suficiente para derrubar do sofá o homem menor.
— Alegre-se! O que se tira agora é devolvido mil vezes depois. Não é nisso que acredita? — E, quando Lee assentiu: — Agora me conte como está a situação na Rússia, camarada... posso chamá-lo de camarada ou você repudiou essa forma de tratamento?
— Pode me chamar como quiser, só não me chame tarde para o jantar — disse Oswald, e riu. Pude vê-lo se abrir para Mohrenschildt como uma flor se abre para o sol depois de dias de chuva.
Lee falou da Rússia. Foi pomposo e prolixo. Não me interessou muito o seu papo sobre a burocracia comunista que se apoderou de todos os ideais socialistas maravilhosos do país antes da guerra (ele passou por cima do Grande Expurgo de Stalin na década de 30). Também não me interessou a opinião de que Nikita Kruschov era um idiota; podia-se ouvir a mesma bobagem à toa sobre líderes americanos em qualquer barbearia ou engraxate bem aqui. Talvez ele mudasse o curso da história dali a meros quatorze meses, mas Oswald era um saco.
O que me interessou foi o modo como Mohrenschildt escutava. Ele ficava como ficam as pessoas mais encantadoras e magnéticas do mundo, sempre fazendo a pergunta certa na hora certa, nunca se inquietando nem tirando os olhos do rosto de quem falava, fazendo o outro se sentir a pessoa mais bem-informada, brilhante e intelectualmente capaz do planeta. Essa podia ser a primeira vez em que alguém escutava Lee dessa maneira.
— Só consigo ver uma esperança para o socialismo — terminou Lee —, e é Cuba. Lá a revolução ainda é pura. Espero ir até lá algum dia. Talvez me torne cidadão.
Mohrenschildt concordou com a cabeça, muito sério.
— Você poderia fazer coisa muito pior. Já fui muitas vezes antes que o governo atual dificultasse as viagens para lá. É um belo país... e agora, graças a Fidel, é um belo país que pertence ao povo que mora lá.
— Eu sei. — O rosto de Lee estava iluminado.
— Mas... — Mohrenschildt ergueu um dedo professoral. — Se acredita que os capitalistas americanos deixarão Fidel, Raul e Che fazerem a sua mágica sem interferência, é porque vive num mundo de sonhos. As engrenagens já estão girando. Conhece aquele tal de Walker?
Os meus ouvidos se apuraram.
— Edwin Walker? O general que foi despedido? — Lee disse dispidido.
— Esse mesmo.
— Conheço ele. Mora em Dallas. Concorreu a governador e levou um chute na bunda. Depois foi pro Mississippi pra ficar com Ross Barnett quando James Meredith entrou pro Ole Miss. É mais um hitlerzinho segregacionista.
— Um racista, com certeza, mas para ele a causa segregacionista e os vagabundos da Klan são só um biombo. Ele vê a luta pelos direitos dos negros como porrete para malhar os princípios socialistas que tanto assustam gente como ele. James Meredith? Comunista! A Associação Nacional pela Promoção das Pessoas de Cor? Uma frente de batalha! O Comitê de Coordenação Não Violenta dos Estudantes? Preta por fora, vermelha por dentro!
— Claro — disse Lee —, é assim que eles trabalham.
Não dava para saber se Mohrenschildt realmente acreditava nas coisas que dizia ou se apenas estimulava Lee à toa.
— E o que os Walker, os Barnett e os pregadores espetaculosos do reavivamento, como Billy Graham e Billy James Hargis, veem no coração que bate no peito desse malvado monstro comunista que ama os negros? A Rússia!
— Eu sei.
— E onde veem as garras do comunismo a apenas cento e cinquenta quilômetros do litoral dos Estados Unidos? Em Cuba! Walker não usa mais farda, mas o seu melhor amigo usa. Sabe de quem estou falando?
Lee fez que não. Os seus olhos não saíam da cara de Mohrenschildt.
— Curtis LeMay. Outro racista que vê comunistas atrás de todas as moitas. O que Walker e LeMay insistem que Kennedy faça? Que bombardeie Cuba! Depois invada Cuba! Depois transforme Cuba no 51º estado! A humilhação da baía dos Porcos só os deixou mais decididos! — Mohrenschildt fazia os seus pontos de exclamação socando a coxa com o punho. — Homens como LeMay e Walker são muito mais perigosos do que a cadela da Rand, e não por terem armas. É porque têm seguidores.
— Conheço o perigo — disse Lee. — Comecei a organizar aqui em Fort Worth um grupo Tirem as Mãos de Cuba. Já tenho uma dúzia de interessados.
Essa foi forte. Até onde eu sabia, a única coisa que Lee vinha organizando em Fort Worth era um pelotão de portas de tela de alumínio e mais o varal em cata-vento no fundo do quintal nas poucas ocasiões em que Marina conseguia convencê-lo a pendurar as fraldas do bebê para secar.
— É melhor trabalhar depressa — disse Mohrenschildt com a cara fechada. — Cuba é um outdoor da revolução. Quando olha para Cuba, o povo sofrido da Nicarágua, do Haiti, da República Dominicana vê uma sociedade socialista agrária e pacífica em que o ditador foi derrubado e a polícia secreta teve de fazer as malas, às vezes com o cassetete enfiado no cu!
Lee deu uma risada.
— Eles veem os grandes canaviais e as fazendas de trabalho escravo da United Fruit entregues aos agricultores. Veem a Standard Oil cair fora. Veem os cassinos, todos administrados pela quadrilha de Lansky...
— Eu sei disso — disse Lee.
— ... fechados. Os espetáculos de bestialidade acabaram, meu amigo, e as mulheres que costumavam vender o corpo... e o corpo das filhas... reencontraram o trabalho honesto. Agora o peão que morreria na rua com sob o governo do porco Batista pode ir para o hospital e ser tratado como homem. E por quê? Porque com Fidel, o médico e o peão são iguais.
— Eu sei disso — disse Lee. Era a sua posição-padrão.
Mohrenschildt pulou do sofá e começou a andar em torno do cercado novo.
— Acha que Kennedy e a sua quadrilha irlandesa deixarão aquele outdoor de pé? Aquele farol enviando a sua mensagem de esperança?
— Eu quase gosto de Kennedy — disse Lee, como se tivesse vergonha de admitir. — Apesar da baía dos Porcos. Aquilo foi plano de Eisenhower, sabe.
— A maioria do GEEU gosta do presidente Kennedy. Sabe o que quero dizer com GEEU? Posso lhe garantir que a doninha raivosa que escreveu Quem é John Galt sabe. Grandes e Estúpidos Estados Unidos, é o que quer dizer. Os cidadãos dos Estados Unidos viverão felizes e morrerão contentes se tiverem uma geladeira que faça gelo, dois carros na garagem e 77 Sunset Strip passando na televisão. Os Grandes e Estúpidos Estados Unidos amam o sorriso de Kennedy. Ah, é. E como é. Ele tem um sorriso maravilhoso, admito. Mas Shakespeare não disse que um homem pode sorrir e sorrir e ser um vilão? Sabe que Kennedy deu o ok para o plano da CIA de assassinar Fidel? Pois é! Já tentaram — e fracassaram, graças a Deus — três ou quatro vezes. Soube pelos meus contatos de petróleo no Haiti e na República Dominicana, Lee, e é informação confiável.
Lee mostrou desalento.
— Mas Fidel tem um amigo forte na Rússia — continuou Mohrenschildt, ainda andando de um lado para o outro. — Não é a Rússia dos sonhos de Lenin (nem dos seus, nem dos meus), mas pode ter as suas razões para ficar ao lado de Fidel caso os Estados Unidos tentem outra invasão. E guarde as minhas palavras: Kennedy é capaz de tentar, e logo. Ele dará ouvidos a LeMay. Dará ouvidos a Dulles e a Angleton da CIA. Só precisa do pretexto certo e depois invadirá, para mostrar ao mundo que tem colhão.
Continuaram falando de Cuba. Quando o Cadillac voltou, o banco de trás estava cheio de mantimentos — suficientes para um mês, ao que parecia.
— Merda — disse Lee. — Eles voltaram.
— E ficamos contentes em vê-los — disse Mohrenschildt, agradável.
— Fique para jantar — disse Lee. — Rina não é lá grande cozinheira, mas...
— Tenho de ir. A minha mulher aguarda ansiosamente o meu relatório, e será dos bons! Trago ela da próxima vez, posso?
— Pode, claro.
Eles foram até a porta. Marina falava com Bouhe e Orlov enquanto os dois homens tiravam da mala caixas de papelão cheias de enlatados. Mas não falava apenas; flertava um pouco também. Bouhe parecia prestes a cair de joelhos.
Na varanda, Lee disse algo sobre o FBI. Mohrenschildt perguntou quantas vezes. Lee ergueu três dedos.
— Um agente chamado Fain. Esse veio duas vezes. Outro chamado Hosty.
— Olhe-os bem nos olhos e responda às perguntas deles! — disse Mohrenschildt. — Você não tem nada a temer, Lee, não só por ser inocente, mas porque está certo!
Agora os outros o olhavam... e não só eles. As puladoras de corda tinham aparecido, em pé na trilha que servia de calçada no nosso quarteirão da rua Mercedes. Mohrenschildt tinha plateia e declamava para ela.
— Você é dedicado à ideologia, meu jovem sr. Oswald, e é claro que eles vêm. A quadrilha de Hoover! Pelo que sabemos, agora estão nos vigiando, talvez na esquina, talvez naquela casa do outro lado da rua!
Mohrenschildt apontou o dedo para as minhas cortinas fechadas. Lee se virou para olhar. Fiquei imóvel na sombra, contente por ter baixado o pote Tupperware que amplificava o som, embora agora estivesse coberto de fita preta.
— Sei quem são. Eles e os seus priminhos da CIA não foram me visitar em muitas ocasiões, tentando me intimidar para que lhes desse informações sobre os meus amigos russos e sul-americanos? Depois da guerra, não me chamaram de nazista de armário? Não afirmaram que contratei os tonton macoute para surrar e torturar os meus concorrentes nas concessões de petróleo do Haiti? Não me acusaram de subornar Papa Doc e pagar pelo assassinato de Trujillo? Claro, claro, tudo isso e muito mais!
As puladoras de corta o fitavam boquiabertas. Marina também. Quando começava, George de Mohrenschildt saía arrastando tudo à sua frente.
— Seja corajoso, Lee! Quando vierem, fique firme! Mostre isso pra eles! — Ele agarrou a camisa e a abriu de uma vez. Os botões pularam e caíram com barulho na varanda. As puladoras de corda ficaram boquiabertas, chocadas demais para rir. Ao contrário de muitos americanos daquela época, Mohrenschildt não usava camiseta. A pele era da cor de mogno oleado. Peitos gordos pendiam sobre músculos velhos. Ele bateu o punho direito sobre o mamilo esquerdo. — Diga a eles “Eis aqui o meu coração, e o meu coração é puro, e o meu coração pertence à minha causa!”. Diga a eles “Mesmo que Hoover me arranque o coração, ele ainda baterá, e mil outros corações baterão em uníssono! Depois dez mil! Depois cem mil! Depois um milhão!”.
Orlov baixou a caixa de enlatados que segurava para uma rodada de aplausos levemente satíricos. O rosto de Marina ardia de tão corado. O rosto de Lee era o mais interessante. Como Paulo de Tarso na estrada de Damasco, tivera uma revelação.
A cegueira caíra dos seus olhos.
3
A cena de pregação e rasgação de camisa de Mohrenschildt — não muito diferente das peripécias dos espetáculos nas tendas dos evangelistas de direita que ele tanto vilipendiava — foi profundamente perturbadora para mim. Eu tinha esperanças de que, se conseguisse ouvir uma conversa franca entre os dois, isso poderia me ajudar bastante a eliminar Mohrenschildt como fator real no atentado contra Walker e, portanto, no assassinato de Kennedy. Conseguira a conversa franca, mas ela piorara a situação em vez de melhorar.
Uma coisa parecia clara: estava na hora de dar à rua Mercedes um adieu nada lamentado. Eu alugara o apartamento térreo da rua West Neely, 214. Em 24 de setembro, pus no meu velho Ford Sunliner as minhas poucas roupas, os livros e a máquina de escrever e me mudei para Dallas.
As duas senhoras gordas deixaram para trás um chiqueiro que fedia a doença. Fiz eu mesmo a faxina, agradecendo a Deus porque a toca de coelho e Al surgiram numa época em que já havia desodorizador de ar. Comprei uma TV portátil numa venda de garagem e a instalei na bancada da cozinha, junto ao fogão (que para mim era o Relicário da Gordura Antiga). Enquanto varria, lavava, esfregava e borrifava, assisti a séries policiais como Os intocáveis e humorísticas como Car 54, Where Are You? Quando as batidas e os gritos das crianças do andar de cima pararam durante a noite, deitava-me e dormia feito um morto. Não havia sonhos.
Segurei o lugar na rua Mercedes, mas não vi muita coisa no 2.703. Às vezes Marina punha June num carrinho (outro presente do seu idoso admirador, o sr. Bouhe), a levava até o estacionamento do depósito e voltava. À tarde, depois das aulas, as puladoras de corda costumavam acompanhar as duas. A própria Marina pulou corda algumas vezes, cantando em russo. A imagem da mãe subindo e descendo com aquela grande nuvem de cabelo escuro voando fazia o bebê rir. As puladoras de corda também riam. Marina não se incomodava. Conversava muito com elas e nunca parecia se irritar quando elas riam e a corrigiam. Na verdade, parecia contente. Lee não queria que ela aprendesse inglês, mas mesmo assim ela estava aprendendo. Bom para ela.
Em 2 de outubro de 1962, acordei com um estranho silêncio no meu apartamento da rua Neely: nenhum pé correndo lá em cima, nenhuma jovem mãe berrando com os dois mais velhos para se aprontarem para a escola. Tinham se mudado no meio da noite.
Subi e experimentei a minha chave na porta. Não funcionou, mas a fechadura era do tipo de mola e a abri facilmente com um cabide de arame. Avistei uma estante vazia na sala. Abri um furinho no chão, liguei o segundo abajur grampeado e passei o fio pelo buraco até o meu apartamento no térreo. Depois, pus a estante em cima.
O microfone funcionava bem, mas as rodinhas do esperto gravadorzinho japonês só giravam quando candidatos a inquilinos visitavam o apartamento e, por acaso, experimentavam o abajur. Houve visitantes, mas não aceitantes. Até que os Oswald se mudassem para lá, o endereço da rua Neely era todo meu. Depois do pretensioso parque de diversões da rua Mercedes, aquilo foi um alívio, embora eu sentisse certa falta das puladoras de corda. Elas eram o meu coro grego.
4
Eu dormia à noite no meu apartamento em Dallas e vigiava Marina a passear com o bebê em Fort Worth durante o dia. Enquanto estava assim ocupado, outro divisor de águas da década de 60 se aproximava, mas o ignorei. Estava preocupado com os Oswald, que passavam por mais um espasmo doméstico.
Certo dia, na segunda semana de outubro, Lee voltou do trabalho mais cedo. Marina passeava com June. Conversaram no pé da calçada, do outro lado da rua. Perto do fim da conversa, Marina disse, em inglês:
— Que é demissao?
Ele explicou em russo. Marina abriu as mãos num gesto de o-que-se-pode-fazer e o abraçou. Lee beijou-lhe o rosto e tirou o bebê do carrinho. June riu quando ele a segurou bem acima da cabeça, as mãozinhas se estendendo para baixo querendo puxar o cabelo dele. Entraram juntos. Uma familiazinha feliz, suportando adversidades temporárias.
Isso durou até as cinco da tarde. Eu me preparava para voltar à rua Neely quando espiei Marguerite Oswald vindo do ponto de ônibus da rua Winscott.
Lá vem encrenca, pensei, e como estava certo!
Mais uma vez, Marguerite evitou o degrau ah-ah ainda não consertado; mais uma vez, entrou sem bater; os fogos de artifício se seguiram imediatamente. Fazia uma noite quente e as janelas estavam abertas por lá. Nem procurei o microfone de longa distância. Lee e a mãe discutiam a todo volume.
Parecia que ele não fora demitido do emprego na Leslie Welding, afinal de contas; simplesmente, fora embora. O chefe ligou para Vada Oswald à procura dele porque estavam com falta de pessoal e, como a mulher de Robert não o ajudou, ligou para Marguerite.
— Menti por você, Lee! — gritou Marguerite. — Disse que estava gripado! Por que sempre me força a mentir por você?
— Não forço você a fazer nada! — berrou ele de volta. Estavam em pé, cara a cara, na sala de estar. — Não forço você a fazer nada, e mesmo assim você faz!
— Lee, como vai sustentar a família? Você precisa do emprego!
— Ah, arranjo outro! Não se preocupe com isso, mãe!
— Onde?
— Não sei...
— Ah, Lee! Como vai pagar o aluguel?
— ... mas ela tem muitos amigos. — Ele apontou o polegar para Marina, que se encolheu. — Não servem pra quase nada, mas pra isso servem. Você tem de ir embora, mãe. Vá pra casa. Me deixe recuperar o fôlego.
Marguerite correu para o cercado.
— De onde veio isso?
— Os amigos de que lhe falei. Metade são ricos e o resto está tentando. Gostam de conversar com Rina. — Lee fez um muxoxo. — Os mais velhos gostam de olhar os peitos dela.
— Lee! — Voz chocada, mas o ar no rosto era... prazer? Mamutchka sentia prazer com a fúria que ouvia na voz do filho?
— Vá embora, mãe. Nos dê um pouco de paz.
— Ela entende que os homens que dão coisas sempre querem coisas em troca? Entende, Lee?
— Caia fora daqui! — Brandindo os punhos. Quase dançando na sua fúria impotente.
Marguerite sorriu.
— Você está nervoso. É claro que está. Voltarei quando estiver se sentindo mais controlado. E ajudarei. Sempre quero ajudar.
Então, de repente, ela correu para Marina e o bebê. Foi como se quisesse atacá-las. Cobriu de beijos o rosto de June e depois atravessou a sala. Na porta, virou-se e apontou o cercado.
— Mande que ela esfregue isso direito, Lee. Coisas dos outros sempre têm germes. Se o bebê ficar doente, vocês nunca terão dinheiro para o médico.
— Mãe! Fora!
— Estou indo. — Calma como leite com biscoitos. Ela agitou os dedos num gesto infantil de tchau-tchau e foi embora.
Marina se aproximou de Lee, segurando o bebê como escudo. Conversaram. Depois gritaram. O vento levou a solidariedade familiar; Marguerite cuidara disso. Lee pegou o bebê, acomodou-a no braço dobrado e depois, sem absolutamente nenhum aviso, socou a cara da mulher. Marina caiu, sangrando pela boca e pelo nariz e berrando alto. Lee a olhou. O bebê também chorava. Lee acariciou o cabelo fino de June, beijou-lhe a bochecha, ninou-a um pouco mais. Marina voltou ao campo de visão, levantando-se com esforço. Lee a chutou de lado e lá se foi ela de novo. Só consegui ver a nuvem de cabelo.
Largue ele, pensei, muito embora soubesse que ela não largaria. Pegue o bebê e largue ele. Procure George Bouhe. Esquente a cama dele se for preciso, mas largue esse monstro magrela e torturado pela mãe o mais depressa possível.
Mas foi Lee que a largou, pelo menos temporariamente. Nunca mais o vi na rua Mercedes.
5
Foi a primeira separação deles. Lee foi para Dallas procurar serviço. Não sei onde ficou. De acordo com as anotações de Al, foi na ACM, mas não foi. Talvez tenha encontrado vaga numa das pensões baratas do centro da cidade. Não me preocupei. Sei que apareceriam juntos para alugar o apartamento em cima do meu e, por enquanto, eu já estava cheio dele. Era uma maravilha não ter de escutar a sua voz arrastada dizendo eu sei uma dúzia de vezes a cada conversa.
Graças a George Bouhe, Marina se recompôs. Pouco depois da visita de Marguerite e da saída de Lee, Bouhe e outro homem chegaram numa picape Chevy e fizeram a mudança dela. Quando a picape saiu da rua Mercedes, 2.703, mãe e filha cavalgavam a cama. A mala rosa que Marina trouxera da Rússia fora forrada de cobertores, e June dormia profundamente nesse ninho improvisado. A mãe pôs a mão no peito da menininha para firmá-la quando a picape começou a andar. As puladoras de corda observavam, e Marina acenou para elas. Elas acenaram de volta.
6
Encontrei o endereço de George de Mohrenschildt nas Páginas Brancas de Dallas e o segui várias vezes. Queria saber com quem ele se encontrava; mas, se fosse alguém da CIA, um assecla da quadrilha de Lansky ou algum outro possível conspirador, duvido que eu conseguisse descobrir. Só posso dizer que ele não se encontrou com ninguém que me parecesse suspeito. Foi trabalhar; visitou o Dallas Country Club, onde jogou tênis e nadou com a esposa; foram a algumas boates de striptease. Ele não incomodava as dançarinas, mas tinha uma queda por acariciar os seios e a bunda da mulher em público. Ela parecia não se importar.
Em duas ocasiões, se encontrou com Lee. Uma delas foi na boate de striptease favorita de Mohrenschildt. Lee parecia pouco à vontade naquele ambiente, e eles não ficaram muito tempo. Na segunda vez, almoçaram num café na rua Browder. Lá ficaram até quase as duas da tarde, conversando e tomando intermináveis xícaras de café. Lee começou a se levantar, pensou melhor e pediu outra coisa. A garçonete lhe trouxe uma fatia de torta e ele lhe entregou alguma coisa, que ela enfiou no bolso do avental depois de uma olhada rápida. Em vez de segui-los quando saíram, abordei a garçonete e perguntei se podia ver o que o rapaz lhe dera.
— Pode ficar — disse ela, e me deu uma folha de papel amarelo com letras pretas de manchete no alto: TIREM AS MÃOS DE CUBA! Encorajava os “interessados” a entrar para o ramo Dallas-Fort Worth dessa bela entidade. NÃO DEIXE O TIO SAM ENGANÁ-LO! ESCREVA PARA A CAIXA POSTAL 1919 E RECEBA INFORMAÇÕES SOBRE AS PRÓXIMAS REUNIÕES.
— Sobre o que falaram? — perguntei.
— Você é da polícia?
— Não. Dou gorjetas melhores do que a polícia — disse eu, e lhe entreguei uma nota de cinco dólares.
— Essa coisa — disse ela e apontou o panfleto, que, sem dúvida, Oswald imprimira no seu novo emprego. — Cuba. Como se eu desse a mínima.
Mas, na noite de 22 de outubro, menos de uma semana depois, o presidente Kennedy também falaria sobre Cuba. E aí todo mundo daria a mínima.
7
Um truísmo do blues é que a gente nunca sente falta da água enquanto o poço não seca, mas, até o outono de 1962, eu não percebia que isso também se aplicava ao bater de pezinhos sacudindo o teto. Com a partida da família do andar de cima, o 214 da rua West Neely ficou com uma vibração arrepiante de casa mal-assombrada. Sentia saudades de Sadie e comecei a me preocupar com ela quase obsessivamente. Pensando melhor, pode riscar o quase. Ellie Dockerty e Deke Simmons não levaram a sério a minha preocupação com o marido dela. A própria Sadie não a levou a sério; até onde eu sabia, ela achava que eu queria deixá-la com medo de John Clayton para impedir que me tirasse totalmente da sua vida. Nenhum deles sabia que, se a gente removesse o Sadie, o nome dela ficava a uma sílaba apenas de Doris Dunning. Nenhum deles sabia do efeito harmônico que eu mesmo parecia criar apenas com a minha presença na Terra de Antigamente. Sendo assim, de quem seria a culpa se algo acontecesse a Sadie?
Os pesadelos começaram a voltar. Os pesadelos com o Jimla.
Parei de ficar de olho em George de Mohrenschildt e comecei a fazer longos passeios que começavam à tarde e só terminavam de volta na rua West Neely às nove ou mesmo dez horas da noite. Ficava pensando em Lee, que agora trabalhava como aprendiz de revelador numa empresa de artes gráficas de Dallas chamada Jaggars-Chiles-Stovall. Ou em Marina, que fora morar temporariamente com uma mulher recém-divorciada chamada Elena Hall. A tal de Hall trabalhava para o dentista de George Bouhe, e o dentista é que estava atrás do volante da picape no dia em que Marina e June saíram do buraco da rua Mercedes.
Principalmente, eu pensava em Sadie. E Sadie. E Sadie.
Num desses passeios, sentindo sede e depressão, parei num boteco de bairro chamado Ivy Room e pedi uma cerveja. A vitrola automática estava desligada e os fregueses, incomumente calados. Quando a garçonete pôs a cerveja na minha frente e imediatamente se virou para encarar a TV acima do bar, percebi que todos assistiam ao homem que eu viera salvar. Ele estava pálido e sério. Havia olheiras escuras sob os olhos.
— Para impedir esse acúmulo ofensivo, iniciaremos uma quarentena estrita de todo equipamento ofensivo em remessa para Cuba. Qualquer tipo de navio destinado a Cuba, caso se verifique que contenha carregamento de armas ofensivas, será mandado de volta.
— Cristo Jesus! — disse um homem com chapéu de caubói. — O que ele acha que os russos vão fazer com isso?
— Cale a boca, Bill — disse o bartender. — Precisamos ouvir.
— A política desta nação — continuou Kennedy — será considerar qualquer míssil nuclear lançado de Cuba contra qualquer país do hemisfério ocidental como ataque da União Soviética aos Estados Unidos, exigindo reação retaliatória total contra a União Soviética.
Uma mulher na ponta do bar gemeu e apertou a barriga. O homem ao seu lado a abraçou e ela descansou a cabeça no ombro dele.
O que vi no rosto de Kennedy foi medo e determinação em igual medida. O que também vi foi vida — o comprometimento total com a tarefa em mãos. Ele estava a exatos treze meses do seu encontro com a bala do assassino.
— Como precaução militar necessária, reforcei a nossa base em Guantánamo e evacuei hoje de lá os dependentes do nosso pessoal.
— Bebidas para a casa por minha conta — proclamou de repente Bill, o Caubói. — Porque parece que é o fim da linha, amigos. — Ele pôs duas notas de vinte ao lado do copo de aguardente, mas o bartender não fez nenhum gesto para pegá-las. Ele observava Kennedy, que agora apelava ao presidente Kruschov que eliminasse “essa ameaça clandestina, temerária e provocadora à paz mundial”.
A garçonete que servira a minha cerveja, uma loura oxigenada e cinquentona muito rodada, caiu em lágrimas de repente. Isso me fez decidir. Levantei-me do banco, teci o meu caminho entre as mesas onde se sentavam homens e mulheres que olhavam a televisão como crianças solenes e me enfiei numa das cabines telefônicas junto à máquina de Skee-Ball.
A telefonista me mandou depositar quarenta centavos para os primeiros três minutos. Pus duas moedas de 25 centavos. O telefone público soou melodiosamente. De longe, ainda conseguia escutar Kennedy falando naquela voz anasalada da Nova Inglaterra. Agora chamava Andrei Gromiko, o ministro do Exterior soviético, de mentiroso. Nada de rodeios aqui.
— A ligação está sendo completada, senhor — disse a telefonista. Depois, exclamou: — Está escutando o presidente? Se não estiver, era bom ligar a TV ou o rádio.
— Estou escutando — respondi. Sadie também estaria. Sadie, cujo marido declamara um monte de bobagens apocalípticas com um fino revestimento de ciência. Sadie, cujo amigo político de Yale lhe dissera que algo grande ia surgir no Caribe. Um ponto de fulgor, provavelmente Cuba.
Eu não fazia ideia do que diria para acalmá-la, mas isso não era problema. O telefone tocou e tocou. Não gostei. Onde ela estaria às oito e meia de uma noite de segunda-feira, em Jodie? No cinema? Não acreditei.
— Senhor, o telefone não atende.
— Eu sei — disse e sorri ao ouvir a frase predileta de Lee sair da minha boca.
As minhas moedinhas fizeram alarido na caixinha de devolução quando desliguei. Comecei a colocá-las de novo e reconsiderei. De que adiantaria ligar para a dona Ellie? Agora eu estava na lista negra dela. Na de Deke também, provavelmente. Eles me diriam que vendesse o meu peixe noutro lugar.
Quando voltei ao bar, o apresentador Walter Cronkite mostrava fotos, tiradas por um avião U-2, das bases de mísseis soviéticas em construção. Disse que muitos congressistas insistiam com Kennedy para iniciar missões de bombardeio ou começar imediatamente uma invasão em grande escala. Pela primeira vez na história, as bases de mísseis americanos e o Comando Aéreo Estratégico tinham entrado no nível 4 do sistema de prontidão de defesa.
— Bombardeiros americanos B-52 logo estarão no ar junto às fronteiras da União Soviética — dizia Cronkite naquela sua voz profunda e portentosa. — E, como é óbvio para todos nós que cobrimos os últimos sete anos dessa guerra fria cada vez mais assustadora, a possibilidade de um erro, um erro potencialmente desastroso, aumenta a cada nova escalada de...
— Não esperem! — berrou um homem em pé ao lado da mesa de sinuca. — Bombardeiem a merda daqueles comunistas chupa-picas agora mesmo!
Houve alguns gritos de protesto com esse sentimento sedento de sangue, mas foram praticamente encobertos pela onda de aplausos. Saí do Ivy Room e andei de volta até a rua Neely. Quando cheguei lá, pulei no Sunliner e queimei o asfalto rumo a Jodie.
8
O rádio do meu carro, que voltara a funcionar, só transmitia um prato cheio de fim de mundo enquanto eu perseguia os meus faróis pela rodovia 77. Até os DJs estavam com a Gripe Nuclear e diziam coisas como “Deus abençoe a América” e “Mantenham a pólvora seca”. Quando o DJ da K-Life tocou Johnny Horton miando o hino de guerra da república, desliguei. Era parecido demais com o dia seguinte de Onze de Setembro.
Mantive o pedal lá no fundo apesar do motor cada vez mais angustiado do Sunliner e do modo como a agulha no mostrador de temperatura não parava de cair para o máximo. As ruas estavam praticamente desertas e entrei no terreno da casa de Sadie um pouquinho só depois de meia-noite e meia do dia vinte e três. O fusca amarelo dela estava estacionado na frente das portas fechadas da garagem, e as luzes estavam acesas no andar de baixo, mas não houve resposta quando toquei a campainha. Dei a volta até os fundos e bati na porta da cozinha, também sem resposta. Eu gostava cada vez menos disso.
Ela guardava uma cópia da chave debaixo do degrau dos fundos. Pesquei-a e entrei. O aroma inconfundível de uísque atingiu o meu nariz e o cheiro de cigarro velho.
— Sadie?
Nada. Atravessei a cozinha e fui até a sala. Havia um cinzeiro transbordante na mesinha diante do sofá e líquido derramado sobre as revistas Life e Look espalhadas sobre ela. Pus os dedos nele e os levei até o nariz. Uísque. Merda.
— Sadie?
Agora eu conseguia sentir outro cheiro de que me lembrava bem das bebedeiras de Christy: o aroma acre de vômito.
Corri pelo pequeno corredor do outro lado da sala. Havia duas portas, uma diante da outra, a do quarto de dormir e a do escritório. As portas estavam fechadas, mas a do banheiro, no fim do corredor, estava aberta. A dura luz fluorescente mostrava vômito respingado no assento do vaso sanitário. Havia mais no chão de ladrilhos cor-de-rosa e na borda da banheira. Havia um vidro de comprimidos ao lado da saboneteira da pia. Estava destampado. Corri para o quarto.
Ela estava deitada atravessada sobre a colcha revirada, vestindo uma combinação e um mocassim de camurça. O outro caíra no chão. A pele estava cor de cera de vela velha e ela não parecia respirar. Então deu uma grande fungada roncada e chiou-a para fora. O peito ficou parado por aterrorizantes quatro segundos e depois, em outro solavanco, ela respirou feito matraca. Havia outro cinzeiro transbordante na mesinha de cabeceira. Um maço amassado de Winston, chamuscado numa das pontas por um cigarro mal apagado, estava em cima dos soldados mortos. Ao lado do cinzeiro, um copo semivazio e uma garrafa de Glenlivet. Não sumira muito uísque — graças a Deus pelos pequenos favores —, mas na verdade não era o uísque que me preocupava. Eram os comprimidos. Também havia um envelope de papel pardo na mesa com coisas parecidas com fotografias saindo dele, mas não as olhei. Não nessa hora.
Pus os braços em torno dela e tentei colocá-la numa posição sentada. A combinação era de seda e deslizou pelas minhas mãos. Ela caiu de volta na cama e deu outra daquelas respirações rascantes e trabalhosas. O cabelo caiu por cima de um olho fechado.
— Sadie, acorde!
Nada. Agarrei-a pelos ombros e a icei contra a cabeceira da cama, que bateu e tremeu.
— Me deixx pazz. — Arrastado e fraco, mas melhor do que nada.
— Acorde, Sadie! Você tem de acordar!
Comecei a lhe dar tapinhas nas bochechas. Os olhos continuavam fechados, mas as mãos dela subiram e tentaram — sem força — me afastar.
— Acorde! Acorde, merda!
Os olhos dela se abriram, me olharam sem me reconhecer e se fecharam de novo. Mas ela respirava mais normalmente. Agora que estava sentada, aquele raspar aterrorizante sumira.
Voltei ao banheiro, tirei a escova de dentes do copo plástico rosa e abri a torneira de água fria. Enquanto enchia o copo, olhei o rótulo do vidro de remédio. Nembutal. Havia umas dez ou doze cápsulas dentro, logo não fora uma tentativa de suicídio. Pelo menos, não abertamente. Joguei-as no vaso sanitário e voltei correndo para o quarto. Ela escorregava da posição sentada em que a deixara e, com a cabeça caída para a frente e o queixo contra o externo, a respiração voltara a ficar rascante.
Pus o copo d’água na mesinha de cabeceira e fiquei um segundo paralisado ao olhar uma das fotografias que saíam do envelope. Poderia ter sido uma mulher — o que restava do cabelo era comprido —, mas seria difícil dizer com certeza. Onde deveria estar o rosto, havia apenas carne crua com um buraco perto da parte de baixo. O buraco parecia gritar.
Icei Sadie, agarrei um punhado de cabelo e puxei a cabeça para trás. Ela gemeu alguma coisa que podia ser Não, tá doendo. Então joguei o copo d’água no rosto dela. Ela deu um solavanco e os olhos se abriram.
— Jor? Que ce tá fazeno qui, Jor? Por que tô molhada?
— Acorde. Acorde, Sadie. — Comecei a bater no rosto dela de novo, mas agora com mais suavidade, quase fazendo carinho. Não foi suficiente. Os olhos dela começaram a se fechar.
— Vá... mbo’a!
— Não, a menos que for para chamar a ambulância. Assim você verá o seu nome no jornal. O conselho escolar adoraria. Upa, upa!
Consegui cruzar as mãos atrás dela e puxá-la da cama. A combinação subiu e voltou ao lugar quando ela caiu de joelhos no tapete. Os olhos se abriram e ela gritou de dor, mas a pus de pé. Ela cambaleou e bateu no meu rosto com mais força.
— Vaibo’a! Vaibo’a, Jor!
— Não, senhora. — Pus o braço em torno da cintura dela e a fiz andar na direção da porta, meio levando, meio carregando. Fizemos a curva rumo ao banheiro e depois os joelhos dela cederam. Carreguei-a, o que não foi pouca coisa, dado o peso e a altura dela. Graças a Deus pela adrenalina. Baixei o assento do vaso e a pus sentada pouco antes de os meus joelhos também cederem. Eu ofegava, em parte pelo esforço, em parte pelo medo. Ela começou a se inclinar para boreste e lhe dei um tapa no braço nu — plá.
— Sente-se! — gritei na cara dela. — Sente-se, Christy, que merda!
Os olhos dela se abriram. Estavam muito injetados.
— Christy quem?
— Cantora da merda dos Rolling Stones — disse eu. — Há quanto tempo está tomando Nembutal? E quantos tomou agora à noite?
— Tenho receita — disse ela. — Num é da sua conta, Jor.
— Quantos? Quanto você bebeu?
— Vaibo’a.
Abri a torneira fria da banheira até o fim e depois puxei o pino que abria o chuveiro. Ela viu o que eu pretendia fazer e mais uma vez começou a dar tapas.
— Não, Jor! Não!
Ignorei-a. Não era a primeira vez que eu punha uma mulher seminua num chuveiro frio, e algumas coisas são como andar de bicicleta. Ergui-a por sobre a borda da banheira num dois-tempos rápido que no dia seguinte me faria sentir a região lombar e depois a segurei com força quando a água fria a atingiu e ela começou a se debater. Ela estendeu a mão para agarrar o porta-toalhas, aos berros. Agora os olhos estavam abertos. Havia gotas d’água no cabelo. A combinação ficou transparente e, mesmo naquelas circunstâncias, foi impossível não sentir um momento de luxúria quando aquelas curvas ficaram plenamente visíveis.
Ela tentou sair. Empurrei-a de volta.
— Fique aí, Sadie. Fique aí e aguente.
— Q-Quanto tempo? Tá frio!
— Até eu ver alguma cor voltar ao seu rosto.
— P-Por que está f-f-fazendo isso? — Os dentes dela batiam.
— Porque você quase se matou! — berrei.
Ela se encolheu. Os pés escorregaram, mas ela agarrou o porta-toalhas e se manteve ereta. Reflexos voltando. Bom.
— Os c-c-comprimidos não estavam funcionando, então tomei um d-d-drinque, foi tudo. Me deixe sair, estou morrendo de frio. Por favor, G-George, por favor me deixe sair. — Agora o cabelo colava nas bochechas, ela parecia um rato afogado, mas estava com alguma cor no rosto. Quase nada, só um leve corado, mas era um começo.
Fechei o chuveiro, pus os braços em torno dela num abraço e a segurei enquanto ela saía por cima da borda da banheira. A água da combinação encharcada respingou no tapete de banho cor-de-rosa. Sussurrei no ouvido dela:
— Achei que você estava morta. Quando entrei e vi você lá caída, achei que estava mortinha da silva. Você nunca vai saber o que senti.
Soltei-a. Ela me fitou com olhos arregalados e assombrados. Depois, disse:
— John tinha razão. R-Roger também. Ele me ligou hoje antes do discurso de Kennedy. De Washington. Então, o que importa? A essa hora, na semana que vem, estaremos todos mortos. Ou preferiríamos estar.
A princípio, não entendi o que ela falava. Vi Christy ali em pé, pingando e desgrenhada e só falando bobagens, e fiquei absolutamente furioso. Sua piranha covarde, pensei. Ela deve ter visto nos meus olhos, porque recuou.
Isso me limpou a cabeça. Podia chamá-la de covarde só porque, por acaso, eu sabia como era a paisagem além do horizonte?
Peguei uma toalha de banho na prateleira sobre o vaso sanitário e lhe entreguei.
— Tire essa roupa e se enxugue — disse eu.
— Então saia. Me dê alguma privacidade.
— Saio se você me garantir que está acordada.
— Estou acordada. — Ela me olhou com ressentimento rude e, talvez, uma faísca mínima de humor. — Não há dúvida de que você sabe como chegar, George.
Virei-me para o armário de remédios.
— Não tem mais — disse ela. — O que não está dentro de mim está no vaso.
Depois de passar quatro anos casado com Christy, olhei mesmo assim. Em seguida, dei a descarga. Depois de cuidar disso, passei por ela para chegar à porta do banheiro.
— Vou lhe dar três minutos — disse.
9
O endereço do remetente do envelope pardo era John Clayton, 79, avenida East Oglethorpe, Savannah, Geórgia. Não se podia acusar o canalha de usar bandeira falsa nem de preferir o anonimato. O carimbo era de 28 de agosto, logo provavelmente estaria ali à espera dela quando voltasse de Reno. Sadie tivera quase dois meses para ponderar sobre o conteúdo. Soara triste e deprimida quando conversei com ela na noite de 6 de setembro? Não admira, dadas as fotografias que o ex lhe mandara com tanta consideração.
Estamos todos em perigo, dissera ela na última vez que falara comigo pelo telefone. Nisso, Johnny tem razão.
As imagens eram de japoneses, homens, mulheres e crianças. Vítimas da explosão de bombas atômicas em Hiroxima, Nagasaki ou ambas. Alguns estavam cegos. Muitos, carecas. A maioria sofria de queimaduras de radiação. Alguns, como a mulher sem rosto, haviam sido churrasqueados. Uma foto mostrava um quarteto de estátuas negras em posturas encolhidas. Quatro pessoas estavam em pé diante de um muro quando a bomba explodiu. As pessoas evaporaram e quase todo o muro também evaporara. As únicas partes que restaram eram as que tinham sido protegidas por quem estava em pé na frente. As formas eram negras porque estavam cobertas de carne carbonizada.
Nas costas de cada foto, ele escrevera a mesma mensagem com a sua letra clara e bonita: Em breve nos Estados Unidos. A análise estatística não mente.
— Lindas, não são?
A voz dela era plana e sem vida. Estava em pé à porta, enrolada na toalha. O cabelo caía em anéis molhados sobre os ombros nus.
— Quanto você teve de beber, Sadie?
— Só duas doses quando os comprimidos não funcionaram. Acho que tentei lhe dizer isso quando você me sacudiu e me bateu.
— Se quer que eu peça desculpas, vai esperar muito tempo. Barbitúricos e bebida são uma péssima combinação.
— Não importa — respondeu ela. — Já apanhei antes.
Isso me fez pensar em Marina, e fiz uma careta. Não era a mesma coisa, mas bater é bater. E eu ficara zangado, além de assustado.
Ela foi até a cadeira no canto, sentou-se e puxou a toalha mais para junto do corpo. Parecia uma criança emburrada.
— O meu amigo Roger Beaton ligou. Eu lhe disse isso?
— Disse.
— O meu bom amigo Roger. — Os olhos dela me desafiaram a dar importância a isso. Não dei. Em última análise, a vida era dela. Eu só queria me assegurar de que ela teria uma vida.
— Tudo bem, o seu bom amigo Roger.
— Ele me disse para não esquecer de assistir ao discurso do irlandês de merda hoje. É assim que ele o chama. Depois me perguntou a que distância Jodie fica de Dallas. Quando lhe contei, ele disse: “Deve ser suficiente, dependendo de para que lado o vento sopra.” Ele mesmo está saindo de Washington, muita gente está, mas acho que isso não vai adiantar. Não dá para fugir de uma guerra nuclear. — Então ela começou a chorar, soluços pungentes e sofridos que sacudiam o corpo inteiro. — Aqueles idiotas vão destruir um mundo tão lindo! Vão matar crianças! Odeio eles! Odeio todos eles! Kennedy, Kruschov, Castro, tomara que apodreçam todos no inferno!
Ela cobriu o rosto com as mãos. Ajoelhei-me como um cavalheiro à moda antiga se preparando para pedir a mão de alguém e a abracei. Ela pôs os braços em torno do meu pescoço e se agarrou a mim quase como um afogado. O corpo ainda estava frio do chuveiro, mas a bochecha que encostou no meu braço estava febril.
Naquele momento, também odiei todos eles, John Clayton mais do que todos por plantar essa semente numa moça insegura e psicologicamente vulnerável. Ele a plantara, regara, limpara e a vira crescer.
E Sadie seria a única aterrorizada naquela noite, a única que recorrera a comprimidos e bebida? Quanto e com que rapidez estavam bebendo no Ivy Room agora? Eu supusera estupidamente que todos abordariam a crise dos mísseis em Cuba como qualquer outro levanta-poeira internacional temporário porque, na época em que fui para a faculdade, ela era apenas mais uma interseção de nomes e datas para decorar para as próximas provas. É assim que ficam as coisas vistas do futuro. Para o povo do vale (o vale das sombras) do presente, elas parecem diferentes.
— As fotos estavam aqui quando voltei de Reno. — Ela me olhou com os seus olhos injetados e assombrados. — Quis jogar fora, mas não consegui. Não parei de olhar para elas.
— Era o que o canalha queria. Foi por isso que as mandou.
Pareceu que ela nem me ouviu.
— Análise estatística é o passatempo dele. Ele diz que, algum dia, quando os computadores ficarem suficientemente bons, será a ciência mais importante, porque a análise estatística nunca erra.
— Não é verdade. — Com os olhos da mente, vi George de Mohrenschildt, o feiticeiro que era o único amigo de Lee. — Há sempre uma janela de incerteza.
— Acho que o dia dos supercomputadores de Johnny nunca virá — disse ela. — Quem restar, se alguém restar, terá de morar em cavernas. E o céu... não será mais azul. Escuridão nuclear, é o que Johnny diz.
— Ele só fala merda, Sadie. O seu colega Roger também.
Ela balançou a cabeça. Os olhos injetados me fitaram com tristeza.
— Johnny sabia que os russos iam lançar um satélite espacial. Tínhamos acabado de sair da faculdade. Ele me disse no verão e não errou, eles lançaram o Sputnik em outubro. “Agora vão mandar um cachorro ou um macaco”, disse Johnny. “Depois vão mandar um homem. Depois mandarão dois homens e uma bomba...”
— E eles fizeram isso? Fizeram, Sadie?
— Eles mandaram uma cadela e mandaram o homem. O nome da cadela era Laika, lembra? Morreu lá em cima. Pobre cachorrinha. Não terão de mandar os dois homens e a bomba, terão? Usarão os mísseis deles. E usaremos os nossos. Tudo por causa de uma ilhota de merda onde fazem charutos.
— Sabe o que dizem os mágicos?
— Os... ? Do que você está falando?
— Dizem que é possível enganar um cientista, mas que não dá para enganar outro mágico. O seu ex pode ensinar ciências, mas não é nenhum mágico. Já os russos são.
— Isso não faz sentido. Johnny diz que os russos têm de lutar, e logo, porque agora têm superioridade nos mísseis, mas não será por muito tempo. É por isso que não vão recuar em Cuba. É um pretexto.
— Johnny tem visto noticiários demais sobre mísseis sendo levados pela Praça Vermelha no Primeiro de Maio. O que ele não sabe — e o que o senador Kuchel provavelmente também não sabe — é que mais da metade deles não tem motor.
— Você não... você não pode...
— Ele não sabe quantos mísseis balísticos intercontinentais deles explodem nas plataformas de lançamento na Sibéria porque os engenheiros deles são incompetentes. Ele não sabe que mais da metade dos mísseis que os nossos aviões U-2 fotografaram na verdade são árvores pintadas com barbatanas de papelão. É blefe, Sadie. Engana cientistas como Johnny e políticos como o senador Kuchel, mas nunca enganaria outro mágico.
— Isso... isso não... — Ela ficou em silêncio um instante, mordendo os lábios. Depois, disse: — Como você pode saber esse tipo de coisa?
— Não posso lhe contar.
— Então não posso acreditar em você. Johnny disse que Kennedy seria indicado pelo Partido Democrata, muito embora todo mundo achasse que seria Humphrey porque Kennedy é católico. Ele analisou os estados com primárias, calculou os números e acertou. Disse que Johnson seria o candidato a vice de Kennedy porque Johnson era o único sulista aceitável ao norte da linha Mason-Dixon. Acertou nisso também. Kennedy foi candidato e agora vai nos matar a todos. A análise estatística não mente.
Inspirei fundo.
— Sadie, quero que você me escute. Com muita atenção. Está acordada o suficiente?
Por um momento, não houve nada. Então a senti fazer que sim com a cabeça contra o alto do meu braço.
— Agora é madrugada de terça-feira. Esse impasse vai durar mais uns três dias. Ou talvez quatro, não me lembro direito.
— Como assim, não se lembra?
Quero dizer que não há nada sobre isso nas anotações de Al e a minha única aula sobre história americana na faculdade foi há mais de vinte anos. É espantoso que eu consiga lembrar tudo isso.
— Vamos fazer o bloqueio de Cuba, mas o único navio russo que será detido só conterá alimentos e mercadorias. Os russos vão contar vantagem, mas na quinta ou na sexta estarão apavorados e procurando uma saída. Um dos grandes diplomatas russos terá uma reunião informal com algum sujeito da televisão. — E, aparentemente do nada, do jeito que as respostas das palavras cruzadas costumam me vir, me lembrei do nome. Ou quase. — Ele se chama John Scolari, ou coisa assim...
— Scali? Está falando de John Scali, do ABC News?
— É, esse aí. Isso vai acontecer na sexta ou no sábado, enquanto o resto do mundo, inclusive o seu ex e o seu coleguinha de Yale, estiverem esperando a ordem para enfiar a cabeça entre as pernas e dar adeus ao cu.
Ela me animou dando uma risadinha.
— Esse russo vai dizer mais ou menos o seguinte... — Aqui fiz uma imitação bastante boa do sotaque russo. Aprendera escutando a mulher de Lee. Também Bóris e Natasha em Rocky e Bullwinkle. — Avise pressidente que nós quer sair dessa com honra. Vocês tira mísseis nucleares da Turquia. Vocês promete nunca invadir Cuba. Nós diz ok e desmonta mísseis Cuba. E isso, Sadie, é exatamente o que vai acontecer.
Agora ela não ria. Ela me fitava com imensos olhos de pires.
— Você está inventando isso para que eu me sinta melhor.
Fiquei calado.
— Não, não está — sussurrou. — Você acredita mesmo nisso.
— Errado — disse eu. — Eu sei. É bem diferente.
— George... ninguém sabe o futuro.
— John Clayton diz que sabe e você acredita nele. Roger de Yale diz que sabe e você também acredita nele.
— Está com ciúmes dele, não está?
— Você está certíssima.
— Nunca dormi com ele. Nunca nem quis. — Solene, ela acrescentou: — Eu nunca conseguiria dormir com um homem que usa tanta água-de-colônia.
— Bom saber. Ainda estou com ciúmes.
— Devo lhe perguntar como você...
— Não. Não vou responder. — Provavelmente eu não deveria ter lhe contado tudo o que contei, mas não consegui parar. E, na verdade, faria tudo de novo. — Mas vou lhe contar mais uma coisa, e isso você mesma poderá verificar daqui a alguns dias. Adlai Stevenson e o representante russo na ONU vão se enfrentar na Assembleia Geral. Stevenson vai exibir fotos imensas das bases de mísseis que os russos estão construindo em Cuba e exigir que o russo explique o que os russos disseram que não existia. O russo vai responder algo como: “Espere, não posso responder sem tradução completa.” E Stevenson, que sabe que o sujeito fala um inglês perfeito, dirá algo que acabará nos livros de história que nem “não atire antes de ver o branco dos olhos deles”. Vai dizer ao russo que pode esperar até o inferno congelar.
Ela me olhou desconfiada, virou-se para a mesinha de cabeceira, viu o maço chamuscado de Winston em cima de um monte de guimbas esmagadas e disse:
— Acho que o meu cigarro acabou.
— Você aguenta até de manhã — respondi, secamente. — Me parece que já pôs para dentro o suprimento de uma semana.
— George? — A voz dela estava miudinha, muito tímida. — Passa a noite comigo?
— O meu carro está estacionado na sua...
— Se algum abelhudo da vizinhança disser alguma coisa, direi que você veio me visitar depois do discurso do presidente e o carro não quis pegar.
Considerando o estado atual do Sunliner, era plausível.
— A sua súbita preocupação com o recato significa que parou de se preocupar com o Armagedão nuclear?
— Não sei. Só sei que não quero ficar sozinha. Posso até fazer amor com você se isso fizer você ficar, mas acho que não vai ser muito legal para nenhum de nós. A minha cabeça dói horrivelmente.
— Você não precisa fazer amor comigo, querida. Isso não é um acordo comercial.
— Não foi o que quis...
— Psiu. Vou buscar uma aspirina.
— Pode olhar em cima do armário dos remédios pra mim? Às vezes deixo um maço de cigarros lá.
Ela deixara, mas depois de três baforadas no cigarro que lhe acendi, ela já estava de olhos pesados, cabeceando. Tirei-o dos dedos dela e o amassei no sopé do Monte Câncer. Depois, abracei-a e recostei nos travesseiros. Adormecemos assim.
10
Quando acordei com a primeira luz comprida da aurora, o zíper da minha calça estava aberto e uma mão hábil explorava o interior da minha cueca. Virei-me para ela. Ela me olhava calmamente.
— O mundo ainda está aqui, George. E nós também. Vamos lá. Mas seja gentil. A minha cabeça ainda dói.
Fui gentil e fiz durar. Fizemos durar. No final, ela ergueu os quadris e mergulhou nas minhas omoplatas. Era o seu oh, céus, oh, meu Deus, oh, doce abraço.
— Qualquer coisa. — Ela cochichava, o seu fôlego na minha orelha me fazendo tremer ao gozar. — Você pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, só diga que vai ficar. E que ainda me ama.
— Sadie... Nunca parei.
11
Tomamos o café da manhã na cozinha dela antes de eu voltar a Dallas. Disse-lhe que agora era mesmo Dallas e que, embora ainda não tivesse telefone, eu lhe daria o número assim que conseguisse.
Ela concordou e beliscou os ovos.
— Eu falei sério. Não vou fazer mais nenhuma pergunta sobre os seus assuntos.
— É melhor. Não pergunte, não conte.
— Hem?
— Nada, nada.
— É só me dizer de novo que você só pretende o bem e não o mal.
— Digo — respondi. — Sou do bem.
— Poderá me contar algum dia?
— Tomara que sim — disse eu. — Sadie, aquelas fotos que ele mandou...
— Rasguei tudo de manhã cedinho. Não quero falar sobre elas.
— Não precisamos. Mas preciso que você me diga que esse foi todo o contato que teve com ele. Que ele não apareceu.
— Não apareceu. E o carimbo no envelope era de Savannah.
Isso eu notara. Mas também notara que o carimbo tinha quase dois meses.
— Ele não é bom em confrontos pessoais. É muito corajoso na cabeça, mas acho que fisicamente é covarde.
Isso me pareceu uma boa avaliação; enviar as fotos era clássico comportamento agressivo-passivo. Ainda assim, ela tinha certeza de que Clayton não descobriria onde morava e ensinava, e nisso estava errada.
— É difícil prever o comportamento de gente mentalmente instável, querida. Se o vir, chame a polícia, tá?
— Tá, George. — Com um toque da velha impaciência. — Preciso lhe fazer uma pergunta e depois não conversaremos mais sobre isso até você se dispor. Se você se dispuser.
— Tudo bem. — Tentei preparar uma resposta à pergunta que tinha certeza de que viria: Você é do futuro, George?
— Vai parecer maluquice.
— Foi uma noite maluca. Vá em frente.
— Você é... — Ela riu e depois começou a juntar os pratos. Foi até a pia com eles e, de costas, perguntou: — Você é humano? Quer dizer, do planeta Terra?
Fui até ela, estendi as mãos para segurar os seus seios e lhe beijei a nuca.
— Totalmente humano.
Ela se virou. Os olhos estavam sérios.
— Posso lhe fazer outra pergunta?
Suspirei.
— Manda.
— Tenho pelo menos quarenta minutos antes de me vestir para a escola. Por acaso você tem outra camisinha? Acho que descobri a cura da dor de cabeça.