Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 7 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 6

1

O mesmo chofer de táxi e fumante inveterado me buscou na manhã seguinte e, quando me deixou no posto Titus, o conversível estava lá. Eu esperara por isso, mas mesmo assim foi um alívio. Eu usava um paletó esporte cinza genérico que comprara numa arara da Mason’s Menswear. A minha nova carteira de avestruz estava a salvo no bolso interno, forrada com quinhentos dólares do dinheiro de Al. Titus veio me receber enquanto eu admirava o Ford, limpando as mãos num trapo que parecia o mesmo que usara na véspera.

— Dormi com a ideia e quero — disse eu.

— Isso é bom — disse ele, e fez uma cara de tristeza. — Mas eu também dormi, sr. Amberson, e acho que lhe contei uma mentira quando disse que haveria espaço para pechinchar. Sabe o que a minha mulher me disse hoje de manhã enquanto a gente comia panqueca com bacon? Ela disse: “Bill, você é um rematado idiota se vender aquele Sunliner por menos de 350.” Na verdade ela disse que eu era um rematado idiota por cobrar tão pouco assim.

Concordei como se não esperasse outra coisa.

— Certo — disse eu. Ele pareceu surpreso.

— Eis o que posso fazer, sr. Titus. Posso lhe dar um cheque de 350 — cheque bom, do Hometown Trust, o senhor pode ligar para conferir — ou lhe dou 300 em dinheiro bem aqui da minha carteira. Menos papelada se fizermos assim. O que o senhor acha?

Ele sorriu, revelando dentes de espantosa brancura.

— Olha, vocês sabem fazer negócios lá em Wisconsin. Se chegar a 320, ponho um adesivo e uma placa provisória e o senhor já sai dirigindo.

— Trezentos e dez.

— Ai, não me faça sofrer — disse Titus, mas ele não estava sofrendo, estava se divertindo. — Ponha mais cinquinho e está feito.

Estendi a mão.

— Trezentos e quinze está bom para mim.

— Sim, senhor! — Dessa vez ele me apertou a mão, sem ligar para a graxa. Depois, apontou a barraquinha de vendas. Hoje a bonequinha de rabo de cavalo lia Confidential. — Pague ali à mocinha, que por acaso é minha filha. Ela vai preencher a papelada. Quando acabar, volte e porei o adesivo. Encho o tanque também.

Quarenta minutos depois, atrás do volante de um Ford 1954 com capota de lona que agora me pertencia, segui para o norte, rumo a Derry. Aprendi a dirigir com câmbio manual, logo não havia problema, mas esse era o primeiro carro que dirigia com o câmbio na coluna de direção. No início foi estranho, mas assim que me acostumei (também teria de me acostumar a controlar os faróis com o pé esquerdo), gostei. E Bill Titus tinha razão quanto à segunda marcha: em segunda, o Sunliner voava. Em Augusta, parei o suficiente para baixar a capota. Em Waterville, arranjei um belo jantar de torta de carne que custou 95 centavos, torta de maçã à moda da casa incluída. Fez o Gordobúrguer parecer caríssimo. Cantarolei junto dos Skyliners, dos Coasters, dos Del Vikings, dos Elegants. O sol estava quente, a brisa despenteava o meu novo cabelo curto e a estrada (apelidada de “Uma Milha por Minuto”, de acordo com os outdoors) era praticamente toda minha. Parecia que eu tinha deixado as dúvidas da noite anterior afundarem no açude das vacas junto com o celular e os trocados futuristas. Eu me sentia bem.

Até que vi Derry.

2

Havia algo errado naquela cidade, e acho que soube disso desde o princípio.

Peguei a rodovia 7 quando a estrada Uma Milha por Minuto se reduziu a duas pistas de asfalto remendado e, uns trinta quilômetros ao norte de Newport, dei com uma elevação e vi Derry assomar na margem oeste do Kenduskeag, sob uma nuvem de poluição de sabe Deus quantas fábricas de papel e tecido, todas funcionando a pleno vapor. Havia uma artéria verde correndo pelo centro da cidade. A distância, parecia uma cicatriz. A cidade em volta daquele cinturão verde denteado parecia consistir apenas de pretos e cinzentos fuliginosos debaixo de um céu manchado de amarelo-urina pela fumaça que subia de todas aquelas chaminés.

Passei por várias barraquinhas de hortaliças nas quais as pessoas que cuidavam do balcão (ou só ficavam à beira da estrada e abriam a boca quando eu passava) mais pareciam caipiras d e Amargo pesadelo do que agricultores do Maine. Quando passei pelo último deles, VERDURAS DE ESTRADA BOWERS, um grande vira-lata saiu correndo de trás de várias cestas de tomate empilhadas e me perseguiu, babando e mordendo os pneus traseiros do Sunliner. Parecia um buldogue bastardo. Antes que o perdesse de vista, vi uma mulher magricela de macacão se aproximar dele e começar a surrá-lo com um pedaço de pau.

Essa era a cidade onde Harry Dunning crescera, e a odiei desde o princípio. Nenhuma razão concreta; só odiei. A área comercial do centro da cidade, situada no pé de três morros íngremes, parecia um poço claustrofóbico. O meu Ford vermelho-cereja parecia a coisa mais viva nas ruas, um perturbador respingo de cor (e malvisto, a julgar pela maioria dos olhares que atraía) em meio aos Plymouths pretos, Chevrolets marrons e caminhões de entrega imundos. Pelo centro da cidade corria um canal cheio de água negra até o alto das paredes de contenção de concreto salpicado de limo.

Encontrei vaga para estacionar na rua do Canal. Um níquel de cinco centavos me pagou uma hora de compras. Esquecera de comprar um chapéu em Lisbon Falls e, duas lojas mais acima, vi uma chamada Derry Dress & Everyday, o Armarinho Mais Jovial do Centro do Maine. Duvidei que houvesse muita concorrência nesse aspecto.

Eu estacionara diante da drogaria e parei para examinar o cartaz na vitrine. De certo modo, ele resume melhor do que tudo o que eu sinto sobre Derry — a desconfiança azeda, a sensação de violência malcontida —, embora eu ficasse lá quase dois meses e (com a possível exceção de algumas pessoas que conheci por acaso) não gostasse de nada ali. O cartaz dizia:

FURTAR EM LOJAS NÃO É “BACANA”, NÃO É UM “COLOSSO”,

NÃO É “BATUTA”!

FURTAR EM LOJAS É CRIME , E CHAMAMOS A POLÍCIA!

NORBERT KEENE

PROPRIETÁRIO & GERENTE

E o homem magro, de óculos e guarda-pó branco que me olhava tinha de ser o sr. Keene. A sua expressão não dizia Entre, estranho, olhe tudo e compre alguma coisa, talvez tome uma soda com sorvete. Aqueles olhos duros e a boca virada para baixo diziam Vá embora, aqui não há nada para gente como você. Parte minha achou que eu estava inventando; parte maior sabia que não. Como experiência, ergui a mão num gesto de alô.

O homem de guarda-pó branco não ergueu a dele.

Percebi que o canal que vira devia correr bem debaixo desse centro da cidade afundado e peculiar e que eu estava em cima dele. Dava para sentir com os pés a água oculta batucando na calçada. Era uma sensação vagamente desagradável, como se esse pedacinho do mundo tivesse ficado mole.

Havia um manequim masculino de smoking na vitrine da Derry Dress & Everyday. Estava de monóculo, com uma flâmula escolar na mão de massa. A flâmula dizia OS DERRY TIGERS VÃO MASSACRAR OS BANGOR RAMS! Embora eu fosse fã do espírito escolar, isso me pareceu um pouco exagerado. Vencer os Bangor Rams, tudo bem — mas massacrá-los?

É só uma figura de linguagem, disse a mim mesmo, e entrei.

Um vendedor com uma fita métrica no pescoço se aproximou. A roupa dele era muito melhor do que a minha, mas as lâmpadas fracas do teto deixavam a sua pele amarela. Senti uma vontade absurda de perguntar: Pode me vender um bom panamá ou é melhor eu só ir me foder? Então ele sorriu, perguntou em que poderia me ajudar e tudo pareceu quase normal. Ele tinha o item pedido e tomei posse dele por meros três dólares e setenta centavos.

— Uma pena que o senhor tenha tão pouco tempo para usá-lo antes que o tempo esfrie — disse ele.

Pus o chapéu na cabeça e o ajeitei no espelho ao lado do balcão.

— Talvez tenhamos um bom veranico.

Com gentileza e como se pedisse desculpas, ele inclinou o chapéu para o outro lado. Foi uma questão de cinco centímetros ou menos, mas parei de parecer um roceiro em visita à cidade grande e comecei a parecer... bem... o mais jovial viajante do tempo do centro do Maine. Agradeci.

— Não foi nada, sr. ...?

— Amberson — respondi, e estendi a mão. O aperto dele foi curto, mole e empoado com algum tipo de talco. Controlei a vontade de esfregar a mão no paletó esporte quando ele a largou.

— Em Derry a negócios?

— Isso. O senhor é daqui mesmo?

— Morador a vida inteira — disse ele, e suspirou como se fosse um fardo. Com base na minha primeira impressão, adivinhei que era. — Qual o seu ramo, sr. Amberson, se me permite perguntar?

— Imóveis. Mas, enquanto estou aqui, pensei em procurar um velho amigo do Exército. O sobrenome dele é Dunning. Não me lembro do primeiro nome, todo mundo o chamava de Skip. — Isso de Skip foi invenção, mas era verdade que eu não sabia o primeiro nome do pai de Harry Dunning. Harry citara os irmãos e a irmã na redação, mas o homem com o martelo sempre fora “meu pai” ou “papai”.

— Sinto não poder ajudá-lo, senhor. — Agora ele parecia distante. O negócio fora feito e, embora a loja estivesse vazia de fregueses, ele queria que eu fosse embora.

— Bom, talvez você possa ajudar com outra coisa. Qual é o melhor hotel da cidade?

— Esse é o Derry Town House. É só virar na avenida Kenduskeag, pegar à direita e subir o morro Milha Acima até a rua Principal. Procure os lampiões na fachada.

— Morro Milha Acima?

— É assim que dizemos, sim, senhor. Se o senhor não deseja mais nada, tenho várias alterações para fazer lá nos fundos.

Quando saí, a luz começara a escorrer do céu. Uma coisa de que me lembro vivamente da época que passei em Derry em setembro e outubro de 1958 foi que a noite sempre parecia cair cedo.

Uma loja mais abaixo da Derry Dress & Everyday era a Machen’s Produtos Esportivos, onde a LIQUIDAÇÃO DE ARMAS DE OUTONO estava em andamento. Lá dentro, vi dois homens examinando espingardas de caça enquanto um vendedor idoso de gravata fininha (e um pescoço fininho para acompanhar) observava com aprovação. O outro lado do canal parecia forrado de bares para operários, do tipo onde se toma uma cerveja com aguardente por cinquenta centavos e todas as músicas da vitrola automática Rock-Ola são country music. Havia o Cantinho Feliz, o Bons Votos (que, soube mais tarde, os frequentadores chamavam de Balde de Sangue), o Dois Irmãos, o Raio Dourado e o Sonolento Dólar de Prata.

Em pé, na frente deste último, um quarteto de operários tomava o ar da tarde e fitava o meu conversível. Estavam equipados com canecas de cerveja e cigarros. O rosto ficava sombreado debaixo de bonés com abas de tweed e algodão. Os pés calçavam as grandes botas de trabalho sem cor definida que os meus alunos de 2011 chamavam de “chutadoras de bosta”. Três usavam suspensórios. Observavam-me sem expressão no rosto. Pensei um instante no vira-lata que perseguira o meu carro, mordendo e babando, depois atravessei a rua.

— Pessoal — disse eu. — Qual é o babado?

Por um instante nenhum respondeu. Assim que achei que ninguém responderia, o sem suspensórios disse:

— Bud e Mick,3 o que mais? Você é de fora?

— Wisconsin — respondi.

— Parabéns — murmurou um deles.

— Meio tarde pra turistas — disse outro.

— Vim à cidade a negócios, mas achei que poderia procurar um antigo colega do Exército enquanto estou aqui. — Nenhuma resposta a isso, a menos que se possa chamar de resposta um dos homens jogar a ponta do cigarro na calçada e depois apagá-la com um pigarro e uma cusparada do tamanho de um mexilhão pequeno. Ainda assim, continuei. — O nome dele é Skip Dunning. Algum de vocês conhece um Dunning?

— É, que tal uma beijoca no porquinho? — disse Sem Suspensório.

— Como é?

Ele ergueu os olhos e baixou os cantos da boca, a expressão impaciente que se faz ao encontrar alguém estúpido sem esperanças de jamais se tornar inteligente.

— Derry está cheia de Dunnings. Vá olhar na lista telefônica. — Ele se dirigiu para a porta. O grupo o seguiu. Sem Suspensórios abriu a porta para eles e depois se virou de novo para mim.

— O que esse Ford tem por dentro? — Pudentro em vez de por dentro. — V-8?

— Bloco em Y. — Com esperança de parecer que eu sabia o que era isso.

— Anda bem?

— Nada mau.

— Então era bom você entrar nele e ir até o alto do morro. Tem uns bares bacanas por lá. Estes aqui são pra operário. — Sem Suspensórios me avaliou de um jeito frio que passei a esperar em Derry mas com que nunca me acostumei. — Aqui vão ficar olhando você. Ou pior, quando os onze-às-sete saírem do Striar’s e do Boutillier’s.

— Obrigado. É muita gentileza sua.

A avaliação fria continuou.

— Você não sabe de nada, não é? — ele observou e entrou em seguida.

Voltei ao meu conversível. Naquela rua cinzenta, com o cheiro de fumaça industrial no ar e a tarde se esvaindo em noite, o centro de Derry só parecia levemente mais encantador do que uma prostituta morta num banco de igreja. Entrei, engatei a marcha, liguei o motor e senti uma vontade forte de simplesmente ir embora. Voltar a Lisbon Falls, subir pela toca de coelho e dizer a Al Templeton que achasse outro garoto. Só que ele não podia, não é? Estava sem forças e quase sem tempo. Como se diz na Nova Inglaterra, eu era o último tiro do caçador.

Subi até a rua Principal, vi os lampiões na fachada (eles se acenderam para a noite assim que os avistei) e parei na entrada de automóveis diante do Derry Town House. Cinco minutos depois, estava hospedado. O meu período em Derry começara.

3

Quando desembalei as minhas novas posses (parte do dinheiro que restava foi para a minha carteira, o restante para o forro da mala nova), eu estava bem faminto, mas antes de descer para jantar verifiquei a lista telefônica. O que vi fez o meu coração se apertar. O sr. Sem Suspensório talvez não fosse muito receptivo, mas estava certo a respeito de haver Dunnings a dar com o pau em Derry e nos quatro ou cinco povoados circundantes também incluídos na lista. Havia quase uma página inteira cheia deles. Não era tão surpreendente assim porque em cidades pequenas parece que alguns sobrenomes brotam feito mato no gramado durante o verão. Nos meus últimos cinco anos de aulas de inglês na LHS, acho que tive umas duas dúzias de Starbird e Lemke, alguns irmãos, a maioria primos em primeiro, segundo e terceiro graus. Casavam-se entre si e faziam mais.

Antes de partir para o passado eu deveria ter aproveitado para ligar para Harry Dunning e lhe perguntar o primeiro nome do pai — teria sido tão simples. Teria feito isso se não tivesse ficado tão absolutamente abstraído com o que Al me mostrara e que me pedira para fazer. Mas, pensei, será que é tão difícil assim? Não seria necessário um Sherlock Holmes para achar uma família com filhos chamados Troy, Arthur (aliás, Tugga), Ellen e Harry.

Com essa ideia a me alegrar, desci até o restaurante do hotel e pedi o jantar de frutos do mar, que veio com mariscos e uma lagosta mais ou menos do tamanho de um motor de popa. Troquei a sobremesa por uma cerveja no bar. Nos romances policiais que leio, os barmen costumavam ser excelentes fontes de informação. É claro que se o que trabalhava no bar do Town House fosse como as outras pessoas que eu já conhecera nesse burgozinho carrancudo eu não iria muito longe.

Não era. O homem que largou o serviço de enxugar copos para me servir era jovem e troncudo, com um rosto alegre de lua cheia debaixo do corte reco.

— O que deseja, amigo?

A palavra começada com A soou bem e lhe devolvi o sorriso com entusiasmo.

— Tem Miller Lite?

Ele pareceu confuso.

— Dessa nunca ouvi falar, mas tenho High Life.

É claro que nunca tinha ouvido falar da Miller Lite; ainda não tinha sido inventada.

— Seria bom. Acho que por um segundo esqueci que estava na Costa Leste.

— De onde o senhor é? — Ele usou um abridor de lata e garrafa para tirar a tampinha e pôs um copo gelado na minha frente.

— Do Wisconsin, mas ficarei algum tempo por aqui. — Embora estivéssemos sozinhos, baixei a voz. Parecia inspirar confiança. — Imóveis. Vim dar uma olhada.

Ele concordou com respeito e me serviu antes que eu o fizesse.

— Boa sorte. Deus sabe que há muita coisa à venda por aqui, a maioria barata. Eu mesmo vou dar no pé. No fim do mês. Vou para algum lugar um pouco menos áspero.

— Ela não parece muito receptiva — disse eu —, mas achei que fosse só coisa de ianques. Somos mais amistosos no Wisconsin, e só para provar eu lhe pago uma cerveja.

— Nunca bebo em serviço, mas aceitaria uma Coca.

— Fique à vontade.

— Muito obrigado. É bom ter alguém aqui numa noite vazia. — Observei-o preparar a Coca bombeando o xarope num copo, acrescentando água com gás e mexendo. Deu um gole e estalou os lábios. — Gosto dela doce.

A julgar pela barriga que cultivava, não me surpreendi.

— Mas essa coisa de os ianques serem metidos a besta é bobagem — disse ele. — Passei a infância em Fort Kent e é a cidadezinha mais amistosa que alguém já visitou. Ora, quando os turistas saem de Boston e sobem o Maine até lá, só falta a gente beijar eles. Fiz o curso de barman lá depois vim pro sul tentar a sorte. Este aqui parecia um bom lugar para começar, e o salário não é ruim, mas... — Ele olhou em volta, não viu ninguém, mas ainda assim baixou a voz. — Quer saber a verdade, amigo? Esta cidade fede.

— Sei o que quer dizer. Todas essas fábricas...

— É muito mais do que isso. Olhe em volta. O que vê?

Fiz o que ele pediu. No canto, havia um sujeito com cara de vendedor que tomava um uísque com limão e gelo, e só.

— Pouca coisa.

— É assim a semana inteira. O salário é bom porque não há gorjetas. Os bares do centro da cidade fazem bons negócios e recebemos alguns fregueses nas noites de sexta e sábado, mas fora isso é assim. Acho que a freguesia bebe em casa. — Ele baixou ainda mais a voz. Logo estaria cochichando. — Tivemos um verão ruim aqui, amigo. O pessoal local fica calado o mais que pode, nem o jornal fez muita grita... mas houve coisas muito feias. Assassinatos. Meia dúzia, pelo menos. Garotos. Encontraram um nos Barrens há pouco tempo. Patrick Hockstetter, era o nome dele. Todo podre.

— Os Barrens?

— É aquele terreno pantanoso que passa bem pelo centro da cidade. Provavelmente o senhor viu quando sobrevoou.

Eu viera de carro, mas mesmo assim sabia do que ele estava falando. Os olhos do barman se arregalaram.

— Não é em imóveis que o senhor está interessado, é?

— Não posso dizer — confidenciei. — Se a notícia circular, terei de procurar outro emprego.

— Entendo, entendo. — Ele tomou metade da Coca e depois reprimiu um arroto com as costas da mão. — Mas espero que sim. Eles deviam pavimentar aquela maldita coisa. É só água fedorenta e mosquitos. O senhor faria um favor a esta cidade. Melhoraria ela um pouquinho.

— Outros garotos achados por lá? — perguntei. Um assassino de crianças explicaria boa parte da tristeza que eu sentia desde que atravessara a fronteira da cidade.

— Não que eu saiba, mas dizem que é lá que estão alguns desaparecidos, porque é lá que ficam todas as estações de esgoto maiores. Ouvi dizer que há tantos canos de esgoto debaixo de Derry — a maioria instalada na Grande Depressão — que ninguém sabe onde estão todos eles. E você sabe como são as crianças.

— Aventureiras.

Ele concordou enfaticamente.

— Bem na mosca. Tem gente que diz que foi algum vagabundo que depois foi embora. Outros dizem que era um morador que se fantasiava de palhaço para não ser reconhecido. A primeira vítima — foi no ano passado, antes que eu chegasse — eles encontraram no cruzamento da Witcham com a Jackson com o braço arrancado. Denbrough era o nome dele, George Denbrough. Coitadinho. — Ele me deu um olhar expressivo. — E acharam ele bem do lado de uma dessas bocas de lobo. As que vão dar nos Barrens.

— Jesus Cristo.

— É.

— Você está usando o pretérito em toda essa história.

Estava preparado para explicar o que queria dizer, mas parecia que esse camarada tinha prestado atenção nas aulas de inglês, não só nas de barman.

— Parece que parou, bata na madeira. — Ele bateu os nós dos dedos no balcão. — Talvez quem estava fazendo isso tenha feito as malas e ido embora. Ou talvez o filho da puta tenha se matado, às vezes eles fazem isso. Seria bom. Mas não foi nenhum maníaco homicida fantasiado de palhaço que matou o pequeno Corcoran. O palhaço que cometeu esse assassinato foi o próprio pai do garoto, nem dá para acreditar.

Isso era tão próximo da razão para eu estar ali que pareceu destino e não coincidência. Dei um gole cauteloso na cerveja.

— É mesmo?

— Pode apostar. Dorsey Corcoran era o nome do garoto. Quatro anos só, e sabe o que o maldito do pai fez com ele? Bateu nele com um martelo de nylon até matar.

Um martelo. Ele fez aquilo com um martelo. Mantive o ar de interesse educado — pelo menos, tentei manter —, mas senti um arrepio subir pelos braços acima.

— Isso é horrível.

— É, e não foi o pi... — Ele se interrompeu e olhou por cima do ombro. — Quer outro, senhor?

Era o homem de negócios.

— Eu, não — disse ele, e estendeu uma nota de um dólar. — Vou para a cama, e amanhã caio fora desta espelunca. Espero que em Waterville e Augusta se lembrem de como se encomendam ferragens, porque aqui com certeza não sabem. Guarde o troco, filho, para comprar um DeSoto. — Ele saiu arrastando os pés, de cabeça baixa.

— Viu? Eis o exemplo perfeito do que recebemos neste oásis. — O barman olhou com tristeza o freguês que partia. — Uma bebida e cama, e amanhã é adeus, jacaré, até mais, crocodilo. Se continuar assim, este burgo vai virar uma cidade-fantasma. — Ele se endireitou e tentou deixar os ombros retos — tarefa impossível, pois eram tão redondos quanto o resto dele. — Mas quem dá a mínima? Antes de outubro chegar, vou embora. Pego a estrada. “Até loguinho, até a vista”.

— O pai desse menino, Dorsey... ele não matou nenhum dos outros?

— Não, ele tinha um álibi. Pensando melhor, acho que ele era padrasto do garoto. Dicky Macklin. Johnny Keeson, da recepção — provavelmente foi ele que fez a sua ficha —, me disse que ele costumava vir aqui beber às vezes, até que foi expulso por tentar pegar uma garçonete e engrossou quando ela mandou ele se enxergar. Depois disso acho que ele foi beber no Raio ou no Balde. Tem de tudo naqueles lugares.

Ele se inclinou o bastante para eu sentir o cheiro da Aqua Velva do seu rosto.

— Quer saber o pior?

Não queria, mas achei que devia. Por isso, fiz que sim.

— Havia também um irmão mais velho naquela família fodida. Eddie. Sumiu em junho passado. Só puf. Sumiu sem avisar, se entende o que quero dizer. Alguns acham que fugiu para se livrar de Macklin, mas quem tem bom senso sabe que ele acabaria em Portland, Castle Rock ou Portsmouth se fosse assim — não há como um garoto de 10 anos ficar sumido muito tempo. Pode acreditar, Eddie Corcoran levou martelo igual ao irmão caçula. Macklin só não vai admitir. — Ele sorriu, um sorriso súbito e luminoso que fez o rosto de lua ficar quase bonito. — Já o convenci a não comprar mais imóveis em Derry, senhor?

— Essa decisão não é minha — disse eu. Nisso eu já estava no piloto automático. Eu já não tinha escutado ou lido sobre uma série de assassinos de crianças nessa parte do Maine? Ou talvez tenha visto na TV, com só um quarto do meu cérebro ligado enquanto o resto aguardava o som da minha mulher problemática andando — ou cambaleando — até em casa depois de outra “voltinha com as amigas”? Pensei que sim, mas a única coisa de que me lembrava com certeza sobre Derry era que haveria uma enchente em meados da década de 80 que destruiria metade da cidade.

— Não é?

— Não, sou só o intermediário.

— Pois boa sorte para o senhor. Esta cidade não é tão ruim quanto já foi — em julho passado, os cintos estavam mais apertados do que o cinto de castidade de Doris Day —, mas ainda está longe de ser boa. Sou um sujeito amistoso e gosto de gente amistosa. Vou dar no pé.

— Boa sorte para você também — disse eu, e larguei dois dólares no balcão.

— Senhor, isso é muito!

— Sempre pago um extra pela boa conversa. — Na verdade, o extra era pelo rosto amistoso. A conversa fora inquietante.

— Ora, obrigado! — Ele sorriu e estendeu a mão. — Não me apresentei. Fred Toomey.

— Prazer em conhecê-lo, Fred. Sou George Amberson. — Ele apertava com firmeza. Nada de talco.

— Quer um conselho?

— Claro.

— Enquanto estiver na cidade, tome cuidado ao falar com crianças. Depois do último verão, é provável que um estranho que fale com crianças receba uma visita da polícia se for avistado. Ou pode levar uma surra. Com certeza isso não seria impossível.

— Mesmo sem fantasia de palhaço, né?

— Bom, esse é o problema de se fantasiar, não é? — O sorriso dele sumira. Agora parecia pálido e carrancudo. Como todo mundo em Derry, em outras palavras. — Quando alguém veste uma fantasia de palhaço e põe um nariz de borracha, ninguém tem ideia de como é por dentro.

4

Pensei nisso enquanto o elevador antiquado rangia pelo caminho até o terceiro andar. Era verdade. E se o resto do que Fred Toomey dissera também fosse verdade, alguém se surpreenderia se outro pai pusesse o martelo para trabalhar na família? Achei que não. Achei que todos diriam que era apenas outro caso de Derry sendo Derry. E talvez estivessem certos.

Quando entrei no meu quarto, tive uma ideia autenticamente horrível: suponhamos que, nas próximas sete semanas, eu mudasse a situação apenas o suficiente para que o pai de Harry matasse Harry também em vez de deixá-lo manco e com o cérebro meio nublado?

Isso não acontecerá, disse a mim mesmo. Não deixarei que aconteça. Como Hillary Clinton disse em 2008, estou nessa para ganhar.

Só que, naturalmente, ela perdera.

5

Tomei o café da manhã do dia seguinte no Restaurante Riverview, no hotel, que estava deserto, a não ser por mim e pelo vendedor de ferragens da noite anterior. Ele estava enterrado no jornal local. Quando ele o deixou na mesa, peguei-o. Não estava interessado na primeira página, dedicada a mais sabres brandidos nas Filipinas (embora me perguntasse rapidamente se Lee Oswald não estaria na vizinhança). O que eu queria era a seção local. Em 2011, eu fora leitor do Sun Journal de Lewiston, e a última página do caderno B sempre se intitulava “Fatos da Escola”. Nela, os pais orgulhosos podiam ver em letra de imprensa o nome dos filhos que ganhavam um prêmio, viajavam com a classe ou participavam de algum projeto de limpeza comunitária. Se o Daily News de Derry tivesse uma coluna assim, não seria impossível encontrar um dos garotos Dunning.

Mas a última página do News só continha obituários.

Tentei as páginas de esportes e li sobre o grande jogo de futebol americano do próximo fim de semana: os Derry Tigers contra os Bangor Rams. Troy Dunning tinha 15 anos, de acordo com a redação do zelador. Um menino de 15 anos poderia fazer parte do time, embora provavelmente não como titular.

Não achei o nome dele e, embora lesse todas as palavras de uma pequena notícia sobre o time de futebol dente de leite da cidade (os Filhotes de Tigre), também não achei Arthur “Tugga” Dunning.

Paguei o café da manhã e voltei ao quarto com o jornal emprestado debaixo do braço, pensando que eu dava um péssimo detetive. Depois de contar os Dunning na lista telefônica (96), outra coisa me ocorreu: eu fora atrapalhado, talvez até aleijado, por uma sociedade com internet generalizada da qual passara a depender e que considerava pressuposta. Que dificuldade teria em 2011 para localizar a família Dunning certa? Digitar Tugga Dunning e Derry no meu site de busca preferido provavelmente daria conta do recado; aperte enter e deixe o Google, esse Grande Irmão do século XXI, cuidar do resto.

Na Derry de 1958, os computadores mais modernos eram do tamanho de pequenos condomínios e o jornal local não ajudava. O que me restava? Lembrei-me de um professor de sociologia que tive na faculdade — um patife sarcástico — que costumava dizer: Quando tudo falhar, desista e vá à biblioteca.

Fui até lá.

6

No final daquela tarde, com a esperança frustrada (pelo menos por enquanto), subi lentamente o morro Milha Acima, parando um pouco no cruzamento da Jackson com a Witcham para olhar a boca de lobo do esgoto onde um menininho chamado George Denbrough perdera o braço e a vida (pelo menos de acordo com Fred Toomey). Quando cheguei ao alto do morro, o meu coração batia forte e eu ofegava. Não era por estar fora de forma; era o fedor das fábricas.

Estava desanimado e um pouco assustado. Era verdade que ainda tinha muito tempo para localizar a família Dunning correta, e tinha confiança de que conseguiria — se fosse preciso telefonar para todos os Dunning da lista telefônica, eu o faria, mesmo correndo o risco de alertar a bomba-relógio do pai de Harry —, mas estava começando a sentir o que Al sentira: algo trabalhava contra mim.

Andei pela rua Kansas, tão imerso em pensamentos que a princípio não percebi que não havia mais casas à minha direita. O chão agora descia acentuadamente para aquele tumulto verde e emaranhado de terreno pantanoso que Toomey chamara de Barrens. Só uma decrépita cerca branca separava a calçada do penhasco. Plantei as mãos nela, fitando o matagal indisciplinado lá embaixo. Dava para ver vislumbres de água parada e escura, touceiras de juncos tão altos que pareciam pré-históricos e vagalhões de sarças embaralhadas. As árvores ficariam atrofiadas lá embaixo, lutando pela luz do sol. Devia haver sumagre-venenoso, montes de lixo e, provavelmente, um ou outro acampamento de vagabundos. Também haveria caminhos que só alguns garotos locais conheciam. Os aventureiros.

Fiquei ali e olhei sem ver, consciente mas mal registrando o leve ritmo da música — algo com trompetes. Pensava no pouco que conseguira naquela manhã. Dá para mudar o passado, me dissera Al, mas não é tão fácil quanto parece.

Que música era aquela? Algo alegre, um tanto puladinho. Ela me fez pensar em Christy, nos primeiros tempos, quando estava inebriado com ela. Quando estávamos inebriados um com o outro. Bá-dá-dá... bá-dá-da-di-dum... Glenn Miller, talvez?

Eu fora à biblioteca com a esperança de dar uma olhada nos registros do recenseamento. O último recenseamento nacional teria acontecido oito anos antes, em 1950, e teria mostrado três filhos dos Dunning: Troy, Arthur e Harold. Só Ellen, que teria 7 anos na época dos assassinatos, não estaria lá para ser contada em 1950. Haveria um endereço. Era verdade que a família poderia ter se mudado nos oito anos desde então, mas, se assim fosse, um dos vizinhos poderia me dizer para onde tinham ido. Era uma cidade pequena.

Só que os registros do recenseamento não estavam lá. A bibliotecária, uma mulher agradável chamada sra. Starrett, me disse que, na opinião dela, sem dúvida esses registros pertenciam à biblioteca, mas a câmara municipal, por alguma razão, decidira que pertenciam à Prefeitura. Ela disse que tinham sido levados para lá em 1954.

— Isso não soa bem — disse a ela, sorrindo. — Como dizem por aí, não dá para ganhar da Prefeitura.

A sra. Starrett não devolveu o sorriso. Era prestativa e até encantadora, mas tinha a mesma reserva vigilante de todos os que conheci nesse lugar esquisito — Fred Toomey sendo a exceção que confirmava a regra.

— Não seja bobo, sr. Amberson. Não há nada secreto sobre o recenseamento dos Estados Unidos. O senhor vai até lá e diga à secretária que Regina Starrett o mandou. O nome dela é Marcia Guay. Ela vai ajudar o senhor. Embora provavelmente tenham guardado tudo no porão, que não é onde deveria estar. É úmido e não me surpreenderia se houver ratos. Se tiver algum problema, qualquer um, volte e fale comigo.

Assim, fui à Prefeitura, onde um cartaz na recepção dizia PAIS, AVISEM AOS FILHOS PARA NÃO FALAR COM ESTRANHOS E SÓ BRINCAR COM AMIGOS. Havia várias pessoas em fila nos vários guichês. (A maioria fumando. É claro.) Marcia Guay me recebeu com um sorriso sem graça. A sra. Starrett ligara antes em meu nome, e ficara adequadamente horrorizada quando a srta. Guay lhe disse o que me dizia agora: os registros do recenseamento de 1950 tinham sumido, juntamente com quase todos os outros documentos armazenados no porão da Prefeitura.

— Tivemos chuvas terríveis no ano passado — explicou ela. — Duraram uma semana inteira. O canal transbordou, e tudo lá na Cidade Baixa, é como os moradores antigos chamam o centro da cidade, sr. Amberson, tudo na Cidade Baixa inundou. O nosso porão ficou quase um mês parecido com o Grande Canal de Veneza. A sra. Starrett tinha razão, esses registros nunca deveriam ter sido trazidos, e parece que ninguém sabe por que foram nem quem autorizou. Sinto muitíssimo.

Era impossível não sentir o que Al sentira quando tentara salvar Carolyn Poulin: que eu estava dentro de um tipo de prisão com paredes flexíveis. Deveria ficar perto das escolas locais, na esperança de avistar um garoto que se parecesse com o zelador de mais de 60 anos que acabara de se aposentar? Procurar uma menina de 7 anos que não deixava os colegas pararem de rir? Esperar algum garoto berrar Ei, Tugga, espere aí?

Certo. Um recém-chegado rondando as escolas numa cidade onde a primeira coisa que se via na Prefeitura era um cartaz alertando os pais para o perigo dos estranhos. Se fosse possível voar diretamente para dentro do radar, seria assim.

Uma coisa era certa: eu tinha de sair do Derry Town House. Pelo preço de 1958, eu poderia ficar lá semanas, mas isso causaria mexericos. Decidi procurar nos classificados e achar um quarto que pudesse alugar por mês. Virei-me na direção da Cidade Baixa e parei.

Bá-dá-dá... bá-dá-da-di-dum...

Era Glenn Miller. Era In the Mood, música que eu tinha boas razões para conhecer bem. Curioso, andei na direção do som da música.

7

Havia uma pequena área para piqueniques no final da cerca decrépita entre a calçada da rua Kansas e a descida até os Barrens. Continha uma churrasqueira de pedra e duas mesas de piquenique com uma lata de lixo enferrujada entre elas. Uma vitrola portátil estava estacionada numa das mesas de piquenique. Um grande disco preto de 78 rotações girava no prato.

Na grama, um garoto magro e alto de óculos remendados com fita adesiva e uma menina ruiva absolutamente maravilhosa dançavam. Na LHS chamávamos os calouros que chegavam de “adorcrescentes”, e era o que esses garotos eram, no mínimo. Mas dançavam com graça adulta. E não era jitterbug também; estavam dançando swing. Fiquei encantado, mas também... o quê? Assustado? Um pouco, talvez. Fiquei assustado quase o tempo todo que passei em Derry. Mas era outra coisa também, algo maior. Um tipo de espanto, como se tivesse chegado à beira de alguma vasta compreensão. Ou espiado (por um vidro escuro, entende) o verdadeiro mecanismo do universo.

Porque, sabe, eu conhecera Christy numa aula de swing em Lewiston, e essa era uma das músicas que aprendemos. Mais tarde — no nosso melhor ano, seis meses antes e seis meses depois do casamento — dançamos em competições, e uma vez ficamos em quarto lugar (também conhecido como “o primeiro dos que perderam”, de acordo com Christy) na Competição de Dança Swing da Nova Inglaterra. A nossa música era uma versão mix levemente mais lenta de Boogie Shoes, de KC and the Sunshine Band.

Isso não é coincidência, pensei, observando-os. O menino usava blue jeans e camiseta; ela estava com uma blusa branca, com as fraldas caídas sobre calças três-quartos vermelhas e desbotadas. Aquele cabelo admirável estava puxado para trás no mesmo rabo de cavalo insolente e gracioso que Christy sempre usava quando dançava em competições. Junto com as meias soquete e a saia godê, é claro.

Isso não pode ser coincidência.

Eles faziam uma variante de Lindy que eu conhecia como Hellzapoppin. A dança deveria ser rápida — como um relâmpago quando se tinha resistência física e graça para conseguir —, mas eles dançavam devagar porque ainda estavam aprendendo os passos. Dava para ver cada movimento por dentro. Conhecia todos eles, embora não dançasse de verdade havia uns cinco anos ou mais. Eles se juntam de mãos dadas. Ele se inclina um pouco e chuta com o pé esquerdo enquanto ela faz o mesmo, ambos girando a cintura para parecer que vão em direções opostas. Afastam-se, as mãos ainda seguras, depois ela gira, primeiro para a esquerda, depois para a direita...

Mas eles erraram o giro de volta e ela caiu esparramada na grama.

— Jesus, Richie, você nunca faz isso direito! Gah, você não tem jeito! — Mas ela ria. Deitou-se de costas e fitou o céu.

— Sinto muito, dona Scawlett! — gritou o menino numa voz aguda de criada negra que cairia como uma bola de chumbo no politicamente correto século XXI. — Sô só um moleque da roça pensano alto mas vô aprendê essa dança aí mesmo que isso me mate!

— Vai matar é a mim — disse ela. — Ponha o disco de novo antes que eu perca a... — Então os dois me viram.

Foi um momento estranho. Havia um véu em Derry — passei a conhecer esse véu tão bem que quase conseguia vê-lo. Os moradores ficavam de um lado; gente de fora (como Fred Toomey, como eu) ficava do outro. Às vezes os moradores saíam detrás dele, como a sra. Starrett, a bibliotecária, fizera ao exprimir a sua irritação com os registros sumidos do recenseamento, mas quando se faziam perguntas demais — e, é claro, se ficassem assustados — eles recuavam de novo para trás do véu.

Mas eu assustara esses garotos e eles não recuaram para trás do véu. Em vez de se fechar, o rosto deles continuou aberto, cheio de curiosidade e interesse.

— Desculpem, desculpem — disse eu. — Não queria surpreender vocês. Ouvi a música e depois vi vocês dançando.

— Tentando dançar, é o que o senhor quis dizer — retrucou o garoto e ajudou a menina a se levantar. Fez uma reverência. — Richie Tozier, ao seu serviço. Todos os meus amigos dizem: “Rique-Rique, ele mora lá no dique”, mas não sabem de nada.

— Prazer em conhecer — disse eu. — George Amberson. — Em seguida, me deu na telha: — Todos os meus amigos dizem “Georgie-Georgie, corre mais do que relógio”, mas também não sabem de nada.

A garota despencou num dos bancos da mesa de piquenique, rindo. O menino ergueu as mãos no ar e proclamou:

— Adulto desconhecido acerta uma! Rá-rá-rá-rá-rá! Fan-tás-tico! Ed McMahon, o que temos para esse participante maravilhoso? Veja, Johnny, os prêmios de hoje no Em quem confiar são uma coleção completa da Encyclopaedia Britannica e um aspirador de pó Electrolux para chupar tudo co...

— Bip-bip, Richie — disse a menina. Ela limpava o canto dos olhos.

Isso provocou a infeliz reversão para a vozinha guinchada de moleque.

— Disculpa, dona Scawlett, num bate ni mim! Inda tô machucado da otra veis!

— E a senhorita, quem é? — perguntei.

— Bevvie-Bevvie, e moro na neve — disse ela, e começou a rir de novo. — Desculpe... Richie é bobo mesmo, mas eu não tenho desculpa. Beverly Marsh. O senhor não é daqui, certo?

Algo que todos pareciam saber imediatamente.

— Não, e vocês dois também parecem não ser. São os dois primeiros moradores de Derry que conheço e não parecem... irritados.

— Sim, senhor, essa é uma cidade de gente irritada — disse Richie, e tirou o braço do disco. Estava batendo sem parar no último sulco.

— Entendo que o pessoal anda muito preocupado com as crianças — disse eu. — Observem que estou mantendo distância. Vocês aí na grama, eu aqui na calçada.

— Eles não estavam tão preocupados assim quando os assassinatos estavam acontecendo — resmungou Richie. — O senhor sabe dos assassinatos?

Fiz que sim.

— Estou hospedado no Town House. Alguém que trabalha lá me contou.

— É, agora que acabaram, todo mundo fica se preocupando com as crianças. — Ele se sentou ao lado de Bevvie que morava na neve. — Mas quando estavam acontecendo, ninguém ouvia nem o cuspe do peru.

— Richie — disse ela. — Bip-bip.

Dessa vez, o menino tentou uma imitação realmente atroz de Humphrey Bogart.

— Pois é verdade, querida. E você sabe que é verdade.

— Tudo aquilo acabou — me contou Bevvie. Ela era tão séria quanto um promotor da Câmara de Comércio. — Só que eles ainda não sabem.

— Eles significa os moradores da cidade ou só os adultos em geral?

Ela deu de ombros, como se perguntasse qual é a diferença.

— Mas vocês sabem.

— Na verdade, sabemos — disse Richie. Ele me olhou com desafio, mas por trás dos óculos remendados aquela faísca de humor enlouquecido ainda estava nos seus olhos. Tive a ideia de que ela nunca os deixava.

Pisei na grama. Nenhuma das crianças fugiu gritando. Beverly chegou a se deslocar no banco (dando uma cotovelada em Richie para que ele fizesse o mesmo) para abrir espaço para mim. Eram muito corajosos ou muito estúpidos, e não pareciam estúpidos.

Então a garota disse uma coisa que me deixou pasmado.

— Eu o conheço? Nós o conhecemos?

Antes que eu respondesse, Richie falou.

— Não, não é isso. É... Não sei. O senhor deseja alguma coisa, sr. Amberson? É isso?

— Na verdade, sim. Algumas informações. Mas como sabem? E como sabem que não sou perigoso?

Eles se entreolharam e algo passou entre eles. Era impossível saber o que exatamente, mas tive certeza de duas coisas: eles tinham sentido em mim uma alteridade que ia bem além de ser apenas um estranho na cidade... mas, diversamente do Homem do Cartão Amarelo, não ficaram com medo. Bem ao contrário, ficaram fascinados. Achei que esses dois garotos atraentes e destemidos poderiam me contar algumas histórias, se quisessem. Sempre tive vontade de saber quais poderiam ter sido essas histórias.

— Simplesmente não é — disse Richie, e quando olhou a garota ela concordou com a cabeça.

— E têm certeza de que... o mau tempo... já passou?

— Praticamente — disse Beverly. — A situação vai melhorar. Em Derry acho que o mau tempo acabou, sr. Amberson. Este é um lugar difícil em vários aspectos.

— Suponhamos que eu lhes contasse, só como hipótese, que haveria mais uma coisa ruim no horizonte? Algo como o que aconteceu com um garotinho chamado Dorsey Corcoran.

Eles fizeram uma careta como se eu beliscasse um lugar onde os nervos ficam perto da superfície. Beverly se virou para Richie e cochichou no ouvido dele. Não tenho certeza do que ela disse, foi rápido e em voz baixa, mas pode ter sido Aquele não foi o palhaço. Depois, ela me olhou.

— Que coisa ruim? Como quando o pai de Dorsey...

— Não importa. Vocês não precisam saber. — Era hora de pular. Esses eram os certos. Não sabia como sabia, mas sabia. — Conhecem uns garotos de sobrenome Dunning? — Contei-os nos dedos. — Troy, Arthur, Harry e Ellen. Só que Arthur é chamado de...

— Tugga — disse Beverly objetivamente. — Claro que o conhecemos, ele é da nossa escola. Estamos praticando a dança para o show de talentos da escola, é logo antes do dia de Ação de Graças...

— A dona Scawlett, ela acha bão a gente começá a treiná cedim — disse Richie.

Beverly Marsh não ligou.

— Tugga também vai participar do show. Vai dublar Splish-Splash. — Ela ergueu os olhos para o céu. Era boa nisso.

— Onde ele mora? Vocês sabem?

Sabiam, claro, mas nenhum deles disse. E se eu não lhes desse mais alguma coisa, não diriam. Deu para ver na cara deles.

— Suponhamos que eu lhes diga que há uma boa possibilidade de Tugga nunca participar desse show de talentos a menos que alguém tome conta dele. Os irmãos e a irmã também. Acreditariam numa coisa assim?

Os garotos se entreolharam de novo, conversando com os olhos. Isso durou muito tempo — dez segundos, talvez. Era o tipo de olhar comprido a que amantes se dedicam, mas esses adolescentes não podiam ser amantes. Amigos, talvez, com certeza. Amigos íntimos que já tinham passado por poucas e boas juntos.

— Tugga e a família dele moram na rua Cossut — disse Richie, finalmente. Pelo menos foi como soou.

— Cossut?

— É assim que o povo daqui fala — explicou Beverly. — K-O- S-S-U-T-H. Cossut.

— Entendi. — Agora a única pergunta era se esses garotos falariam sobre a nossa conversa esquisita à beira dos Barrens.

Beverly me olhava com olhos sérios e perturbados.

— Mas, sr. Amberson, eu conheço o pai de Tugga. Ele trabalha no Center Street Market. É um homem bom. Está sempre sorrindo. Ele...

— O homem bom não mora mais em casa — interrompeu Richie. — A mulher dele pôs ele pra fora.

Ela se virou para ele, com olhos arregalados.

— Tug lhe contou isso?

— Não. Ben Hanscom. Tug contou a ele.

— Mesmo assim ele é um homem bom — disse Beverly com voz baixa. — Está sempre contando piadas e coisas assim, mas nunca fica pegando nem agarrando.

— Palhaços também contam muitas piadas — disse eu. Os dois pularam, como se eu tivesse beliscado outra vez aquele feixe vulnerável de nervos. — Nem por isso são bonzinhos.

— A gente sabe — sussurrou Beverly. Ela olhava as mãos. Depois, ergueu os olhos para mim. — Sabe do Tartaruga? — Ela disse tartaruga de um jeito que parecia um nome próprio.

Pensei em dizer Conheço as Tartarugas Ninjas , mas não disse. Estávamos a décadas de Leonardo, Donatelo, Rafael e Michelangelo. Portanto, só fiz que não.

Ela olhou Richie com desconfiança. Ele me olhou, depois voltou os olhos para ela.

— Mas ele é bom. Tenho quase certeza de que ele é bom. — Ela me tocou o pulso. Os dedos estavam frios. — O sr. Dunning é um homem gentil. E só porque não mora mais em casa não significa que não seja.

Essa me atingiu. A minha mulher tinha me deixado, mas não porque eu não fosse bom.

— Sei disso. — Levantei-me. — Vou passar algum tempo em Derry, e seria bom não chamar muita atenção. Vocês podem ficar calados sobre isso? Sei que é pedir muito, mas...

Eles se entreolharam e caíram na gargalhada.

Quando conseguiu falar, Beverly disse:

— Sabemos guardar segredo.

Fiz que sim.

— Tenho certeza de que sabem. Guardaram alguns este verão, aposto.

A isso eles não responderam.

Apontei os Barrens com o polegar.

— Já brincaram lá embaixo?

— Uma vez — disse Richie. — Não mais. — Ele se levantou e limpou a traseira da calça jeans. — Foi bom conversar com o senhor, sr. Amberson. Não compre gato por lebre. — Ele hesitou. — E tome cuidado em Derry. Está melhor agora, mas não acho que algum dia será, sabe, totalmente boa.

— Obrigado. Obrigado aos dois. Talvez algum dia a família Dunning tenha também algo a lhes agradecer, mas se tudo correr do jeito que espero...

— ... eles jamais saberão — terminou Beverly por mim.

— Exatamente. — Depois, recordando algo que Fred Toomey dissera: — Bem na mosca. Vocês dois, cuidem-se.

— Cuidaremos — disse Beverly, depois começou a rir de novo. — Continue correndo mais do que o relógio, Georgie.

Esbocei uma continência na aba do meu panamá novo e comecei a ir embora. Então tive uma ideia e me virei para eles.

— Esse fonógrafo toca em 33 rotações?

— Como para LPs? — perguntou Richie. — Não. A rádio-vitrola em casa toca, mas a de Bevvie é só um brinquedo que funciona a pilha.

— Olha lá como chama o meu toca-discos, Tozier — disse Beverly. — Economizei muito para comprar. — Depois, para mim: — Só toca 78 e 45. Mas perdi aquela coisa de plástico para o buraco dos compactos, e agora só toca 78.

— Quarenta e cinco rotações serve — disse eu. — Ponha o disco para tocar de novo, mas em 45. — Reduzir o andamento para aprender os passos do swing foi algo que eu e Christy aprendemos nas nossas aulas.

— Que maluquice — disse Richie. Ele moveu a alavanca de controle de velocidade ao lado do prato e pôs o disco para tocar de novo. Dessa vez, parecia que todo mundo na orquestra de Glenn Miller tinha tomado sedativos.

— Tudo bem. — Estendi as mãos para Beverly. — Observe, Richie.

Ela segurou as minhas mãos com total confiança, erguendo para mim os olhos azuis divertidos e arregalados. Fiquei com vontade de saber onde ela estaria e quem seria em 2011. Se ainda estivesse viva. Supondo que estivesse, será que se lembraria do homem estranho que fazia perguntas estranhas e certa vez dançou com ela uma versão arrastada de In the Mood numa tarde ensolarada de setembro?

— Vocês, garotos, estavam treinando devagar, e isso vai fazer vocês dançarem mais devagar ainda, mas ainda dá para manter o ritmo — disse eu. — Há bastante tempo para cada passo.

Tempo. Bastante tempo. Ponha o disco para tocar de novo, só que mais devagar.

Puxei-a na minha direção pelas mãos dadas. Deixei-a se afastar. Ambos nos curvamos como pessoas dentro d’água, e chutamos para a esquerda enquanto a Orquestra de Glenn Miller tocava báááááá... dáááá ... dááááá... bááááá... dááááá... daaaa... diii... duuuuumm. Nessa mesma velocidade lenta, como um brinquedo com a corda quase acabando, ela girou para a esquerda sob as minhas mãos erguidas.

— Pare! — disse eu, e ela ficou paralisada de costas para mim, com as nossas mãos ainda unidas. — Agora aperte a minha mão direita para me lembrar do que vem depois.

Ela apertou e depois girou suavemente para completar a volta pela direita.

— Legal! — disse ela. — Agora tenho de ir para baixo, depois você me traz de volta. E eu viro. É por isso que estamos aqui na grama, porque se eu errar não quebro o pescoço.

— Deixo essa parte com vocês — disse eu. — Na minha idade, só dá para virar hambúrgueres.

Mais uma vez, Richie ergueu as mãos até os lados do rosto.

— Rá, rá, rá, rá, rá! Adulto desconhecido acertou mais...

— Bip-bip, Richie — disse eu. Isso o fez rir. — Agora experimentem. E criem sinais com as mãos para todos os passos que forem além do básico que todo mundo faz na lanchonete local. Assim, mesmo que não ganhem o concurso de talentos, farão boa figura.

Richie pegou as mãos de Beverly e tentou. Para dentro e para fora, de um lado para o outro, giro para a esquerda, giro para a direita. Perfeito. Ela deslizou com os pés para a frente por entre as pernas abertas de Richie, flexível como um peixe, e ele a trouxe de volta. Ela terminou com uma virada espetacular que a pôs em pé de novo. Richie pegou as mãos dela e eles repetiram a coisa toda. Foi ainda melhor da segunda vez.

— Perdemos o ritmo no embaixo e em cima — se queixou Richie.

— Não vão perder quando o disco tocar na velocidade normal. Podem acreditar.

— Gosto disso — disse Beverly. — É como ter a coisa toda numa vitrine. Ela fez uma pirueta na ponta dos tênis. — Estou me sentindo como Loretta Young no começo do programa, quando ela entra usando um vestido de saia rodada.

— Eu me chamo Arthur Murray, sou do MissoUUUUUri — disse Richie. Também parecia satisfeito.

— Agora vou apressar o disco de novo — disse eu. — Não se esqueçam dos sinais. E mantenham o ritmo. O ritmo é tudo.

Glenn Miller tocou de novo aquela antiga e doce canção, e os garotos dançaram. Na grama, as sombras dançavam ao lado deles. Fora... dentro... abaixa... chuta... gira para a esquerda... gira para a direita... passa por baixo... sobe... e vira. Não foram perfeitos dessa vez e erraram os passos muitas vezes antes de acertar (se é que acertaram), mas não foram mal.

Ah, que inferno. Eles eram lindos. Pela primeira vez desde que subi naquela elevação da rodovia 7 e vi Derry assomar na margem oeste do Kenduskeag, me senti feliz. Era um sentimento bom para levar comigo, e me afastei deles, dando a mim mesmo o velho conselho: não olhe para trás, nunca olhe para trás. Com que frequência as pessoas dizem isso a si mesmas depois de uma experiência extremamente boa (ou extremamente ruim)? Muita, acho. E geralmente não seguem o conselho. Os seres humanos foram construídos para olhar para trás; é por isso que temos essa junta giratória no pescoço.

Andei meio quarteirão e depois me virei, achando que estariam me fitando. Mas não. Eles ainda dançavam. E isso era bom.

8

Havia um posto de gasolina Cities Service alguns quarteirões mais abaixo na rua Kansas, e fui até lá perguntar onde ficava a rua Kossuth, pronuncia-se Cossut. Dava para ouvir o zumbido de um compressor de ar e um zum-zum minúsculo de música popular vindo da baia de garagem, mas o escritório estava vazio. Tudo bem para mim, porque vi algo útil ao lado da caixa registradora: um expositor de arame cheio de mapas. O bolso de cima continha um único mapa da cidade que parecia sujo e esquecido. Na frente, havia uma foto de uma estátua de Paul Bunyan excepcionalmente feia moldada em plástico. Paul levava o machado ao ombro e sorria para o sol de verão. Só Derry, pensei, adotaria como símbolo uma estátua de plástico de um lenhador mítico.

Havia uma banquinha de jornais ao lado das bombas de gasolina. Peguei um exemplar do Daily News como disfarce e joguei uma moeda no alto da pilha de jornais para se unir às outras espalhadas lá. Não sei se o povo era mais honesto em 1958, mas era muitíssimo mais confiante.

De acordo com o mapa, a rua Kossuth ficava no mesmo lado da cidade que a rua Kansas, e por acaso a apenas uma caminhada agradável de quinze minutos do posto de gasolina. Caminhei sob olmos ainda não tocados pela praga que atacaria quase todos nos anos setenta, árvores que ainda estavam tão verdes quanto no alto verão. Crianças passavam por mim correndo de bicicleta ou jogavam três-marias nas entradas de garagem. Pequenos grupos de adultos se reuniam nos pontos de ônibus das esquinas, marcados por faixas brancas nos postes de luz. Derry cuidava da vida e eu cuidava da minha — apenas um camarada de paletó esporte inexpressivo e chapéu-panamá um pouco inclinado para trás na cabeça, um camarada com um jornal dobrado na mão. Poderia estar procurando uma venda de garagem; poderia estar atrás de bons imóveis. Sem dúvida pareceria normal ali.

Assim eu esperava.

A Kossuth era uma rua ladeada de sebes com casas quadradas à moda antiga, típicas da Nova Inglaterra. Irrigadores giravam nos gramados. Dois meninos passaram correndo por mim, jogando de um para o outro uma bola de futebol americano. Uma mulher com o cabelo preso num lenço (e com o inevitável cigarro pendurado no lábio inferior) lavava o carro da família e, de vez em quando, molhava o cachorro da família, que recuava, latindo. A rua Kossuth parecia a cena externa de algum antigo e indefinido seriado cômico da televisão.

Duas menininhas batiam uma corda de pular enquanto a terceira dançava agilmente para dentro e para fora, pulando sem esforço enquanto cantava: “Carlitos foi à França! Pra ver a contradança! Batendo continência! Pra vossa excelência! O meu pai dirige um sub-ma-ri-no!” A corda batia, batia, batia na calçada. Senti olhos em mim. A mulher do lenço parara a sua labuta, a mangueira numa das mãos, uma grande esponja ensaboada na outra. Ela me observava enquanto eu me aproximava das meninas que pulavam. Passei a uma boa distância delas e a vi voltar ao trabalho.

Você correu um baita risco conversando com aqueles garotos na rua Kansas , pensei. Só que não acreditava nisso. Passar um pouco perto demais das meninas que pulavam corda... isso seria correr um baita risco. Mas Richie e Bev eram os certos. Soubera disso quase na mesma hora em que pus os olhos neles, e eles souberam também. Vimos olho no olho.

Conhecemos você?, perguntara a garota. Bevvie-Bevvie, que morava na neve.

A rua Kossuth não tinha saída e terminava num grande edifício chamado Centro Recreativo da Zona Oeste. Estava deserto, com uma placa À VENDA PELA PREFEITURA no gramado cheio de capim. Sem dúvida um tema de interesse para qualquer corretor de imóveis de respeito. Duas casas mais abaixo, à direita, uma menina de cabelo cor de cenoura e o rosto cheio de sardas andava de bicicleta com rodinhas, subindo e descendo uma entrada de garagem asfaltada. Cantava sem parar variações da mesma frase enquanto pedalava: “Splish-splash, fez o tapa que eu dei, trish-trash, fez o tapa que eu dei, blish-blash, fez o tapa que eu dei....”

Andei na direção do Centro Recreativo como se não houvesse no mundo nada mais que eu quisesse ver, mas com o canto do olho continuei a acompanhar a Cabeça de Cenoura. Ela balançava de um lado para o outro no banco da bicicleta, tentando descobrir até onde conseguiria ir antes de despencar. Com base nas canelas raladas, provavelmente não era a primeira vez que brincava disso. Não havia nome na caixa de correio da casa, apenas o número 379.

Andei até a placa À VENDA e rabisquei informações no meu jornal. Depois, me virei e voltei por onde viera. Quando passei pelo número 379 da rua Kossuth (pela outra calçada e me fingindo de absorto no jornal), uma mulher apareceu à porta. Havia um menino com ela. Ele mastigava alguma coisa embrulhada num guardanapo e, na mão livre, segurava a espingarda Daisy de ar comprimido que, dali a não muito tempo, tentaria usar para assustar o pai enfurecido.

— Ellen! — gritou a mulher. — Desça dessa coisa antes de levar um tombo! Entre, tem biscoito.

Ellen Dunning desceu, deitou a bicicleta na entrada de garagem e correu para a casa, berrando:

“Crish-crash, fez o tapa que eu dei!” a plenos e consideráveis pulmões. O cabelo, de um tom de ruivo muito mais infeliz do que o de Beverly Marsh, pulava como molas de colchão em revolta.

O menino, que cresceria para escrever uma redação dolorosamente composta que me levaria às lágrimas, foi atrás. O menino que seria o único membro sobrevivente da família.

A menos que eu mudasse isso. E agora que os vira, pessoas reais levando vidas reais, não parecia haver outra opção.

 

3 Bud: cervejas Buddweiser; Mick: cigarros Maverick. (N. da T.)