Novembro de 63
Capítulo 28
1
22/11/63 (sexta-feira)
Sentei-me e abracei-a sem sequer pensar. Ela também me abraçou com toda a força. Depois a beijei, provando a sua realidade — os sabores misturados de cigarro e Avon. O batom era mais fraco; no seu nervosismo, ela o mordiscara quase todo. Senti também o cheiro do xampu, do desodorante e o medo oleoso do suor nervoso por trás. Principalmente eu a toquei: quadril e seio e o áspero da cicatriz no rosto. Ela estava ali.
— Que horas são? — O meu fiel Timex tinha parado.
— Oito e quinze.
— Está brincando? Não pode ser!
— Mas é. E não estou surpresa, mesmo que você esteja. Quanto tempo faz desde que dormiu de um jeito que não fosse apenas desmaiar por algumas horas?
Eu ainda tentava aceitar a ideia de que Sadie estava ali, na casa de Fort Worth onde Lee e Marina moraram. Como podia ser? Em nome de Deus, como? E não era só isso. Kennedy também estava em Fort Worth, nesse mesmo instante fazendo um discurso para a Câmara de Comércio local no café da manhã do Texas Hotel.
— A minha mala está no carro — disse ela. — Vamos de Fusca para onde formos ou no Chevy? Talvez o Fusca seja melhor. É mais fácil de estacionar. Mesmo assim, talvez tenhamos de pagar muito por uma vaga se não sairmos agora mesmo. Os flanelinhas já estão por aí, agitando bandeiras. Eu vi.
— Sadie... — Balancei a cabeça no esforço de limpá-la e peguei os sapatos. Havia ideias na minha cabeça, muitas, mas regiravam como papel num ciclone e eu não conseguia pegar nenhuma.
— Estou aqui — disse ela.
É. Esse era o problema.
— Você não pode ir comigo. É perigoso demais. Acho que lhe expliquei isso, mas talvez não tenha sido bastante claro. Quando a gente tenta mudar o passado, ele morde. Rasgará a nossa garganta se a gente lhe der uma chance.
— Você foi claro. Mas não pode fazer isso sozinho. Encare a realidade, Jake. Você engordou um pouco, mas ainda está magérrimo. Manca quando anda, e manca muito. Tem de parar e deixar o joelho descansar a cada duzentos ou trezentos passos. O que faria se tivesse de correr?
Eu não disse nada. Mas escutava. Dei corda no relógio e acertei a hora enquanto isso.
— E isso não é o pior. Você... aai! O que está fazendo? — Eu agarrara a coxa dela.
— Me certificando de que você é de verdade. Ainda não consigo acreditar direito. — O Air Force One pousaria em Love Field em pouco mais de três horas. E alguém daria rosas a Jackie Kennedy. Nas outras paradas no Texas, recebera rosas amarelas, mas o buquê de Dallas seria vermelho.
— Sou de verdade e estou aqui. Me escute, Jake. O pior não é o quanto você ainda está ferido. O pior é o jeito que você tem de dormir de repente. Não pensou nisso?
Eu pensara muito nisso.
— Se o passado é tão malévolo quanto você diz, o que acha que vai acontecer se conseguir se aproximar do homem que está caçando antes que ele puxe o gatilho?
O passado não era exatamente malévolo, essa era a palavra errada, mas entendi o que ela dizia e não tinha argumentos contrários.
— Você não sabe mesmo no que está se metendo.
— Claro que sei. E você está esquecendo algo importantíssimo. — Ela segurou as minhas mãos e olhou os meus olhos. — Não sou só a sua namorada, Jake... se é o que ainda sou para você...
— É exatamente por isso que fico tão apavorado ao ver você aparecer assim.
— Você diz que um homem vai matar o presidente, e tenho razões para acreditar, baseada nas outras coisas que você previu e se realizaram. Até Deke está meio convencido. Ele disse: “Ele sabia que Kennedy viria antes que Kennedy soubesse. Sabia o dia e a hora. E sabia que a moça viria junto na viagem.” Mas você diz isso como se fosse a única pessoa que se importa. Não é. Deke se importa. Ele estaria aqui se ainda não tivesse 38 graus de febre. E eu me importo. Não votei nele, mas por acaso sou americana, e portanto ele não é apenas o presidente, mas o meu presidente. Isso lhe soa piegas?
— Não.
— Ótimo. — Os olhos dela brilhavam. — Não tenho a mínima intenção de deixar algum maluco atirar nele e não tenho a mínima intenção de adormecer.
— Sadie...
— Me deixe acabar. Não temos muito tempo, e você precisa apurar os ouvidos. Estão apurados?
— Sissiora.
— Bom. Você não vai se livrar de mim . Vou repetir: não. Vou com você. Se não me deixar entrar no seu Chevy, sigo você no meu fusca.
— Jesus Cristo — disse eu, sem saber se estava rezando ou praguejando.
— Se um dia nos casarmos, farei o que você quiser, desde que você seja bom para mim. Fui criada na crença de que essa é a tarefa das esposas. — Ah, as filhas dos anos sessenta, pensei. — Estou pronta para deixar para trás tudo o que conheço e seguir você até o futuro. Porque amo você e porque acredito que esse futuro de que você fala realmente existe. É provável que eu nunca mais lhe dê outro ultimato, mas este agora eu vou lhe dar. Fará isso comigo ou não fará nada.
Pensei nisso, e com cuidado. Perguntei a mim mesmo se ela falava sério. A resposta era tão visível quanto a cicatriz do seu rosto.
Enquanto isso, Sadie olhava as Meninas de lápis de cera.
— Quem você acha que desenhou isso? Elas são mesmo muito boas.
— Foi Rosette — respondi. — Rosette Templeton. Ela voltou para Mozelle com a mamãe depois que o papai sofreu um acidente.
— E aí você se mudou para cá?
— Não, para a casa em frente. Uma pequena família de sobrenome Oswald se mudou para cá.
— Esse é o sobrenome dele, Jake? Oswald?
— É. Lee Oswald.
— Vou com você?
— Tenho opção?
Ela sorriu e pôs a mão no meu rosto. Até ver aquele sorriso aliviado, não fazia ideia de como ela devia estar assustada quando me acordou.
— Não, querido — respondeu ela. — Não que eu conheça. É por isso que se chama ultimato.
2
Pusemos a mala dela no Chevrolet. Se detivéssemos Oswald (e não fôssemos presos), poderíamos pegar o fusca depois e ela voltaria a Jodie, onde pareceria normal e à vontade na sua entrada de garagem. Se algo desse errado — se fracassássemos, ou se conseguíssemos mas fôssemos procurados pelo assassinato de Lee —, simplesmente teríamos de sair correndo. Poderíamos correr mais depressa e chegar mais longe e de forma mais anônima num Chevy V-8 do que num fusquinha Volkswagen.
Ela viu a arma quando a pus no bolso de dentro do paletó esporte e disse:
— Não. Bolso de fora.
Ergui as sobrancelhas.
— Onde eu possa pegar se você se cansar de repente e resolver tirar uma soneca.
Descemos a calçada, Sadie com a bolsa jogada por sobre o ombro. Tinham previsto chuva, mas a mim parecia que os meteorologistas receberiam cartão vermelho nessa. O céu estava clareando.
Antes que Sadie entrasse no lado do carona, uma voz falou atrás de mim.
— É a sua namorada, moço?
Eu me virei. Era a puladora de corda com acne. Só que não era acne, não era rubéola e não precisei perguntar por que ela não estava na escola. Era catapora.
— É, sim.
— Ela é bonita. A não ser pelo — ela fez um guique que, de forma grotesca, chegava a ser encantador — rosto.
Sadie sorriu. A minha admiração pela sua coragem simples continuava a aumentar... e nunca diminuiu.
— Qual é o seu nome, querida?
— Sadie — disse a puladora de corda. — Sadie Van Owen. E o seu?
— Bom, você não vai acreditar, mas é Sadie também.
A menina a olhou com um cinismo desconfiado que era puro Riot Grrrl da rua Mercedes.
— Não, não é!
— É, sim. Sadie Dunhill. — Ela se virou para mim. — Uma bela coincidência, não concorda, George?
Não concordava, na verdade, e não tinha tempo para discutir o caso.
— Preciso lhe perguntar uma coisa, srta. Sadie Van Owen. Sabe onde fica o ponto de ônibus da rua Winscott, não sabe?
— Claro. — Ela ergueu os olhos como se perguntasse pensa que eu sou burra? — Ei, vocês já tiveram catapora?
Sadie fez que sim.
— Eu também — disse eu —, portanto tudo bem nesse quesito. Sabe que ônibus vai para o centro de Dallas?
— O número Três.
— E com que frequência passa o Três?
— Acho que de meia em meia hora, mas pode ser de 15 em 15 minutos. Por que quer o ônibus se você tem carro? Se vocês têm dois carros?
Dava para saber pela cara da Sadie Grande que ela também queria saber.
— Tenho as minhas razões. E, aliás, o meu pai dirige um submarino.
Sadie Van Owen deu um sorriso imenso.
— Conhece esse?
— Há anos — respondi. — Entre, Sadie. Temos de ir. — Conferi o relógio novo. Faltavam vinte para as nove.
3
— Me diga por que se interessou pelos ônibus — pediu Sadie.
— Primeiro me diga como me achou.
— Quando cheguei a Eden Fallows e você tinha ido embora, queimei o bilhete como me pediu e depois fui falar com o velho da casa ao lado.
— O sr. Kenopensky.
— Isso. Ele não sabia de nada. Nisso a terapeuta já estava sentada nos seus degraus. Não gostou de descobrir que você saíra. Disse que trocara de horário com Doreen para Doreen ver Kennedy hoje.
O ponto de ônibus da rua Winscott ficava à frente. Desacelerei para ver se havia um horário no pequeno abrigo junto ao poste, mas não. Parei numa vaga a uns cem metros do ponto.
— O que está fazendo?
— Arranjando uma apólice de seguro. Se não aparecer um ônibus até as nove, vamos embora. Termine a história.
— Liguei para os hotéis do centro de Dallas, mas ninguém sequer quis falar comigo. Estão todos ocupados demais. Depois liguei para Deke, e ele chamou a polícia. Ele lhes contou que tinha informações confiáveis de que alguém daria um tiro no presidente.
Eu estava vigiando o ônibus pelo retrovisor, mas com isso, chocado, olhei para Sadie. Ainda assim, senti uma admiração relutante por Deke. Não fazia ideia de quanto ele acreditava no que Sadie lhe contara, mas mesmo assim correu o risco.
— O que aconteceu? Ele deu o nome dele?
— Não teve oportunidade. Bateram o telefone na cara dele. Acho que foi aí que realmente comecei a acreditar em você sobre o modo como o passado se protege. É o que tudo isso é pra você, não é? Só um livro de História vivo.
— Não é mais.
Lá vinha um ônibus lento, verde e amarelo. A placa que indicava o destino dizia 3 RUA PRINCIPAL DALLAS 3. Parou e as portas da frente e de trás se abriram nas suas dobradiças em sanfona. Duas ou três pessoas embarcaram, mas não havia como encontrar lugar; quando o ônibus passou por nós devagar, vi que estavam todos ocupados. Avistei uma mulher com uma fila de broches de Kennedy presa no chapéu. Ela acenou alegremente para mim e, embora os nossos olhos só se cruzassem um segundo, consegui sentir a sua empolgação, o seu prazer e a sua expectativa.
Engrenei o Chevy e segui o ônibus. Na traseira, parcialmente obscurecida pelos arrotos de exaustão marrom, uma garota Clairol com sorriso radiante proclamava que, se só tivesse uma vida, queria vivê-la loura. Sadie agitou a mão de um jeito teatral.
— Argh! Recue! Isso fede!
— Uma crítica e tanto, vinda de uma garota do tipo um maço por dia — comentei, mas ela tinha razão, o fedor de diesel era horrível. Recuei. Não havia necessidade de ficar grudado agora que eu sabia que Sadie Pula-Corda acertara o número. Provavelmente também acertara o intervalo. Os ônibus deviam passar de meia em meia hora nos dias comuns, mas esse não era um dia comum.
— Chorei um pouco, porque achei que você fora embora para sempre. Temi por você, mas também odiei você.
Isso dava para entender e ainda achava que fizera o que era certo, e achei melhor não dizer nada.
— Liguei de novo para Deke. Ele me perguntou se você dissera alguma coisa sobre algum outro esconderijo, talvez em Dallas, mas provavelmente em Fort Worth. Eu disse que não me lembrava de você dizer nada específico. Ele disse que provavelmente teria sido enquanto você estava no hospital, todo confuso. Pediu que eu pensasse bem. Como se eu não estivesse pensando. Voltei à casa do sr. Kenopensky, para ver se talvez você não tivesse lhe dito alguma coisa. Nisso já era quase hora da ceia e escurecia. Ele disse que não, mas nessa hora o filho chegou com um jantar de rosbife e me convidou para comer com eles. O sr. K. começou a falar — ele conta histórias de todo tipo sobre os velhos tempos...
— Eu sei. — À frente, o ônibus entrou para a esquerda no bulevar Vickery. Fiz sinal e segui, mas mantendo distância suficiente para não termos de comer diesel. — Já ouvi pelo menos três dúzias. Do tipo sangue na sela.
— Escutar as histórias dele foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, porque parei de vasculhar o cérebro por algum tempo, e às vezes, quando a gente relaxa, as coisas se soltam e flutuam até a superfície da mente. Enquanto eu voltava para a sua casinha, lembrei de repente que você disse que morou algum tempo na rua Cadillac. Só que você sabia que não era bem isso.
— Ai, meu Deus. Disso eu me esqueci.
— Foi a minha última chance. Liguei para Deke outra vez. Ele não tinha nenhum mapa detalhado da cidade, mas sabia que havia mapas melhores na biblioteca da escola. Ele foi até lá, provavelmente pondo os bofes para fora de tanto tossir, ele ainda está bem doente, pegou os mapas e me ligou do escritório. Achou uma avenida Ford em Dallas, um parque Chrysler e várias ruas Dodge. Mas nada disso tinha cara de Cadillac, se é que você me entende. Então ele achou a rua Mercedes em Fort Worth. Quis ir para lá na mesma hora, mas ele me disse que seria muito mais provável avistar você ou o seu carro se eu esperasse amanhecer.
Ela me agarrou o braço. A mão estava fria.
— A noite mais longa da minha vida, seu problemático. Mal preguei o olho.
— Eu compensei, embora só tivesse dormido de madrugada. Se você não viesse, eu podia dormir durante todo o maldito assassinato.
Que tal isso como final horrível?
— A rua Mercedes tem vários quarteirões. Dirigi, dirigi. Aí pude ver o fim no estacionamento de um prédio grande que parece os fundos de uma loja de departamentos.
— Quase. É um depósito da Montgomery Ward.
— E nem sinal de você. Nem dá para explicar como fiquei deprimida. Então... — Ela sorriu. Era radiante, apesar da cicatriz. — Então vi aquele Chevy vermelho com os rabos de peixe patetas que lembram as sobrancelhas de uma mulher. Grande como um anúncio de neon. Gritei e bati no painel do meu fusquinha até a minha mão doer. E agora aqui est...
Houve um estrondo grave e esmagador vindo da frente direita do Chevy e, de repente, seguíamos na direção de um poste de luz. Houve uma série de pancadas duras debaixo do carro. Girei o volante. Estava enjoativamente solto nas minhas mãos, mas consegui desviar o bastante para não bater de frente no poste. Em vez disso, o lado de Sadie raspou nele, soltando um guincho medonho de metal contra metal. A porta dela curvou para dentro e eu a puxei para mim no banco. Paramos com o capô pendurado sobre a calçada e o carro inclinado para a direita. Isso não foi só um pneu furado, pensei. Foi uma filha da puta de uma lesão fatal.
Sadie me olhou, espantada. Ri. Como já observado, às vezes não há mais nada a fazer.
— Bem-vinda ao passado, Sadie — disse eu. — É assim que vivemos por aqui.
4
Ela não conseguiu sair pelo lado dela; seria preciso um pé de cabra para abrir a porta do passageiro. Ela deslizou pelo restante do banco e saiu pela minha. Algumas pessoas observavam, não muitas.
— Caramba, o que aconteceu? — perguntou uma mulher que empurrava um carrinho de bebê.
Isso ficou óbvio quando fui até a frente do carro. A roda da frente direita se soltara. Jazia a uns seis metros de nós, no final de uma vala que se curvava no asfalto. A ponta quebrada do eixo cintilava ao sol.
— Roda quebrada — respondi à mulher com o carrinho.
— Nossa! — disse ela.
— O que faremos? — perguntou Sadie em voz baixa.
— Temos um seguro; basta cobrar. O ponto de ônibus mais próximo.
— A minha mala...
É, pensei, e o caderno de Al. Os meus manuscritos — o romance de merda que não importa e as memórias que importam. Mais o meu dinheiro disponível. Dei uma olhada no relógio. Nove e quinze. No Texas Hotel, Jackie estaria vestindo o conjunto rosa. Depois de mais uma hora de política, mais ou menos, a carreata partiria para a Base Aérea Carswell, onde o grande avião estava estacionado. Dada a distância entre Fort Worth e Dallas, os pilotos mal teriam tempo de recolher o trem de pouso.
Tentei pensar.
— Querem usar o meu telefone para ligar para alguém? — perguntou a mulher com o carrinho. — A minha casa fica ali do outro lado. — Ela nos examinou e percebeu que eu mancava e que Sadie tinha uma cicatriz. — Vocês se machucaram?
— Estamos bem — disse eu. Peguei o braço de Sadie. — A senhora poderia ligar para uma oficina e pedir que reboquem o carro? Sei que é pedir muito, mas estamos com uma pressa terrível.
— Eu disse a ele que aquela roda estava bamba — disse Sadie. Ela despejava o seu sotaque da Geórgia. — Ainda bem que a gente não estava na estrada. — Istraaaada.
— Há um posto Esso a dois quarteirões daqui. — Ela apontou para o norte. — Acho que posso ir com o bebê até lá...
— Ah, isso seria maravilhoso, madame — disse Sadie. Abriu a bolsa, tirou a carteira e puxou uma nota de vinte. — Dê isso a eles por conta. Desculpe lhe pedir uma coisa dessas, mas acho que morro se não vir Kennedy. — Isso fez a mulher do carrinho sorrir.
— Céus, isso paga dois reboques. Se a senhora tiver um papel na bolsa, posso redigir um recibo...
— Tudo bem — disse eu. — Confiamos na senhora. Mas talvez seja bom eu deixar um bilhete no limpador de para-brisa.
Sadie me olhava, questionadora... mas também me estendia uma caneta e um bloquinho com um garoto vesgo desenhado na capa. SONO ESCOLAR, dizia debaixo do sorriso ondulado. AH, QUE COCHILINHO BOM.
Muita coisa dependia daquele bilhete, mas não havia tempo de pensar nas palavras. Rabisquei depressa e o dobrei debaixo do limpador de para-brisa. Um instante depois, viramos a esquina e sumimos.
5
— Jake? Você está bem?
— Estou. E você?
— Fui atingida pela porta e provavelmente machuquei o ombro, mas fora isso, estou. Se tivéssemos batido naquele poste, provavelmente não estaria. Nem você. Para quem era o bilhete?
— Sei lá, para quem rebocar o Chevy. — E pedi a Deus para o sr. Seilá fazer o que o bilhete pedia. — A gente se preocupa com essa parte quando voltar.
Se a gente voltasse.
O próximo ponto de ônibus ficava no meio do quarteirão. Três negras, duas brancas e um hispânico estavam em pé junto ao poste, uma mistura racial tão equilibrada que pareciam candidatos para o elenco de Law and Order SVU. Ficamos junto deles. Eu me sentei no banco debaixo do telhadinho ao lado de uma sexta mulher, uma senhora afro-americana cujas proporções heroicas estavam embaladas num uniforme de rayon branco que praticamente gritava Faxineira de Brancos Ricos. No peito, ela usava um broche que dizia SEMPRE COM JFK EM 64.
— Perna ruim, moço? — ela me perguntou.
— É. — Eu tinha quatro saquinhos de pó contra dor de cabeça no bolso do meu paletó esporte. Enfiei a mão ao lado da arma, peguei dois, rasguei o alto e despejei tudo na boca.
— Tomar isso assim vai acabar com o seu rim — disse ela.
— Eu sei. Mas tenho de manter essa perna andando tempo suficiente para ver o presidente.
Ela deu um grande sorriso.
— Será que ouvi isso?
Sadie estava em pé no meio-fio, olhando ansiosa a rua atrás do Número Três.
— Os ônibus estão devagar hoje — disse a faxineira —, mas já, já passa um. Não vou perder Kennedy, não mesmo!
Deu nove e meia e nada do ônibus, mas a dor no meu joelho caíra para um latejado surdo. Deus abençoe Goody’s Powder.
Sadie se aproximou.
— Jake, talvez a gente devesse...
— Lá vem o Três — disse a faxineira e se levantou. Era uma senhora extraordinária, escura como ébano, pelo menos dois centímetros mais alta do que Sadie, cabelo alisado e lustroso. — Oba, vou arranjar um lugar bem ali na Dealey Plaza. Tem sanduíches na bolsa. Será que ele me escuta quando eu gritar?
— Aposto que sim — disse eu.
Ela riu.
— É melhor acreditar que sim! Ele e Jackie, os dois!
O ônibus estava cheio, mas o pessoal do ponto embarcou assim mesmo. Sadie e eu éramos os últimos, e o motorista, que parecia tão estressado quanto um corretor de ações na Sexta-Feira Negra, ergueu a mão.
— Não dá mais! Está lotado! Está que nem sardinha em lata! Esperem o próximo!
Sadie me lançou um olhar angustiado, mas antes que eu dissesse alguma coisa a grande senhora se intrometeu em nosso nome.
— Nada disso, eles vão embarcar sim. O homem tá com a perna machucada, e a moça tem lá os seus problemas, como você pode ver muito bem. Além disso, ela é magra e ele é mais magro ainda. Você vai deixar eles subirem senão eu ponho você pra fora e eu mesmo dirijo esse ônibus. Sei fazer isso muito bem. Aprendi no caminhão do meu pai.
O motorista do ônibus a olhou assomando acima dele, depois ergueu os olhos, deu um suspiro e acenou para embarcarmos. Quando enfiei a mão no bolso atrás de moedas para enfiar na caixa da passagem, ele a cobriu com a mão carnuda.
— Esqueça a passagem, basta ficarem atrás da linha branca. Se conseguirem. — Ele balançou a cabeça. — Não entendo por que não puseram uma dúzia de ônibus extras hoje. — Ele puxou a manivela cromada. As portas se fecharam na proa e na popa. Os freios a ar se soltaram com um suspiro e lá fomos nós, devagar e sempre.
O meu anjo da guarda não terminara. Começou a passar sermão em dois operários, um preto, o outro branco, sentados atrás do motorista com as marmitas no colo.
— Levantem-se e deem lugar para essa senhora e esse cavalheiro, agora! Não dá pra ver que ele tá com a perna ruim? E mesmo assim vai ver Kennedy!
— Madame, tudo bem — disse eu.
Ela nem ligou.
— Andem, levantem, vocês não têm educação?
Eles se levantaram, abrindo caminho com os cotovelos na multidão amontoada no corredor. O operário negro deu um olhar irritado para a faxineira.
— Mil, novecentos e sessenta e três e eu ainda tenho de dar o meu lugar a um branco.
— Ah, tadinho — disse o amigo branco.
O negro deu uma boa olhada no meu rosto. Não sei o que viu, mas apontou os lugares agora vagos.
— Sente-se antes que caia, Jackson.
Eu me sentei junto à janela. Sadie murmurou um agradecimento e se sentou ao meu lado. O ônibus avançava lentamente como um elefante velho que ainda consegue galopar se lhe derem tempo suficiente. A faxineira assomava protetora junto a nós, segurando uma alça e balançando o quadril nas curvas. Havia muito dela para balançar. Olhei o relógio de novo. Os ponteiros pareciam pular rumo às dez da manhã; logo pulariam sobre elas.
Sadie se inclinou mais para perto de mim, o cabelo fazendo cócegas no meu rosto e no meu pescoço.
— Aonde vamos e o que faremos quando chegarmos lá?
Queria me virar para ela, mas mantive os olhos bem à frente, procurando problemas. Procurando o próximo golpe. Estávamos agora na rua West Division, que também era a rodovia 180. Logo chegaríamos a Arlington, futuro lar dos Texas Rangers de George W. Bush. Se tudo desse certo, estaríamos no limite da cidade de Dallas às dez e meia, duas horas antes de Oswald enfiar o primeiro cartucho no maldito fuzil italiano. Só que, quando a gente tenta mudar o passado, as coisas raramente dão certo.
— Basta me seguir — disse eu. — E não relaxe.
6
Passamos ao sul de Irving, onde agora a mulher de Lee se recuperava do parto da segunda filha havia apenas um mês. O trânsito estava lento e fedorento. Metade dos passageiros no nosso ônibus lotado fumava. Lá fora (onde o ar, presumivelmente, estava um pouco mais limpo), as ruas estavam lotadas de tráfego que chegava. Vimos um carro com AMAMOS VOCÊ JACKIE escrito com sabão no para-brisa traseiro e outro com FORA DO TEXAS SEU RATO COMUNA no mesmo lugar. O ônibus guinava e balançava. Havia aglomerações cada vez maiores de gente nos pontos; eles sacudiam o punho fechado quando o nosso ônibus lotado se recusava sequer a desacelerar.
Às dez e quinze chegamos ao bulevar Harry Hines e passamos por uma placa que indicava o caminho para Love Field. O acidente ocorreu três minutos depois. Eu vinha torcendo para não acontecer, mas estava de olho, à espera, e quando o caminhão de lixo furou o sinal vermelho no cruzamento da Hines com a avenida Inwood, pelo menos eu estava meio preparado. Já vira um assim, a caminho do cemitério Longview, em Derry.
Agarrei a nuca de Sadie e empurrei a cabeça dela na direção do colo.
— Abaixe!
Um segundo depois, fomos lançados contra a divisória entre o banco do motorista e a área dos passageiros. Vidros se quebraram. O metal gritou. Os que estavam em pé foram lançados à frente num coágulo aos berros de membros ondulantes, bolsas e chapéus baratos desalojados. O operário branco que dissera Ah, tadinho estava dobrado sobre a máquina de passagens que ficava no início do corredor. A grande faxineira simplesmente desaparecera, enterrada debaixo de uma avalanche humana.
O nariz de Sadie sangrava e havia um hematoma inchado subindo como massa de pão sob o olho direito. O motorista estava esparramado de lado atrás do volante. O largo para-brisa se estilhaçara e a visão fronteira da rua se fora, substituída por metal florido de ferrugem. Deu para ler BRAS PÚBLICAS DE DALL. O fedor do asfalto candente que o caminhão carregava era espesso.
Virei Sadie para mim.
— Você está bem? Está consciente?
— Estou bem, só meio abalada. Se você não tivesse gritado naquela hora, eu não estaria.
Havia gemidos e gritos de dor na pilha na frente do ônibus. Um homem de braço quebrado se desvencilhou do monte e sacudiu o motorista, que rolou do banco. Havia uma cunha de vidro saindo do centro da testa.
— Ah, Cristo! — disse o homem de braço quebrado. — Acho que ele está mortinho da silva!
Sadie foi até o sujeito que atingira a máquina de passagens e o ajudou a voltar para onde estávamos sentados. Estava pálido e gemia. Achei que tinha enfiado o saco no poste; era a altura certinha. O amigo negro me ajudou a pôr a faxineira em pé, mas se ela não estivesse totalmente consciente e capaz de nos ajudar, acho que não conseguiríamos muita coisa. Eram mais de 130 quilos de mulher em cima das pernas. Ela sangrava bastante da têmpora, e aquele uniforme específico nunca mais teria muita utilidade. Perguntei se ela estava bem.
— Acho que sim, mas a minha cabeça levou uma surra dos infernos. Caramba!
Atrás de nós, o ônibus era um alvoroço. Logo, logo haveria um estouro da boiada. Fiquei na frente de Sadie e mandei que pusesse os braços na minha cintura. Dada a condição do meu joelho, provavelmente eu é que deveria segurá-la, mas instinto é instinto.
— Precisamos tirar essa gente do ônibus — disse eu ao operário negro. — Puxe a alavanca.
Ele tentou, mas ela não se mexeu.
— Emperrou!
Achei que era bobagem; achei que o passado a mantinha fechada. Também não podia ajudá-lo a puxar. Eu só tinha um braço bom. A faxineira, um lado do uniforme agora ensopado de sangue, passou por mim com um empurrão e quase me derrubou. Senti os braços de Sadie se soltarem num solavanco, mas ela se segurou de novo. O chapéu da faxineira caíra de lado e a gaze do véu estava gotejada de sangue. O efeito era grotescamente decorativo, como minúsculas frutinhas de azevinho. Ela repôs o chapéu no ângulo adequado e depois segurou a alavanca cromada com o operário negro.
— Vou contar até três e depois vamos puxar esse troço — disse ela. — Pronto?
Ele fez que sim.
— Um... dois... três!
Eles puxaram... ou melhor, ela puxou, e com força suficiente para abrir a costura do vestido debaixo de um dos braços. As portas se escancararam. De trás de nós, vieram débeis vivas.
— Obrigad... — começou Sadie, mas eu já avançava.
— Depressa. Antes que nos pisoteiem. Não me largue. — Fomos os primeiros a sair do ônibus. Virei Sadie na direção de Dallas. — Vamos.
— Jake, essa gente precisa de ajuda!
— E tenho certeza de que está a caminho. Não olhe para trás. Olhe para a frente, porque é de onde virá o próximo problema.
— Quanto problema? Quanto mais?
— Tudo o que o passado puder lançar contra nós — respondi.
7
Levamos vinte minutos para percorrer quatro quarteirões desde o lugar onde o nosso ônibus número Três viera a falecer. Dava para sentir o joelho inchar. Ele pulsava a cada batida do coração. Chegamos a um banco e Sadie me mandou sentar.
— Não há tempo.
— Sente-se, moço. — Ela me deu um empurrão inesperado e caí sentado no banco, que tinha no encosto o anúncio de uma funerária local. Sadie fez que sim rapidamente, como fazem as mulheres ao terminar uma tarefa complicada, depois pisou no bulevar Harry Hines, abrindo a bolsa ao mesmo tempo e remexendo lá dentro. O latejamento do joelho foi temporariamente suspenso quando o meu coração pulou até a garganta e lá ficou.
Um carro se desviou dela, buzinando. Ela escapou por menos de 30 centímetros. O motorista sacudiu o punho fechado ao prosseguir pelo quarteirão e depois ergueu o dedo do meio para completar. Quando berrei para que voltasse, ela nem olhou na minha direção. Puxou a carteira enquanto os carros passavam velozes, soprando o cabelo para trás do rosto marcado. Ela estava tão fria quanto uma manhã de primavera. Pegou o que queria, largou a carteira de volta na bolsa e depois ergueu uma nota verde bem acima da cabeça. Parecia uma líder de torcida do secundário antes de um jogo importante.
— Cinquenta dólares! — gritava ela. — Cinquenta dólares por uma carona até Dallas! Rua Principal! Rua Principal! Tenho de ver Kennedy! Cinquenta dólares!
Isso não vai dar certo, pensei. A única coisa que vai acontecer é ela ser atropelada pelo passado obst...
Um Studebaker enferrujado parou gritando diante dela. O motor batia e retinia. Havia um buraco vazio onde antes ficava um dos faróis. Um homem de calças largas e camiseta regata desceu. Na cabeça (e puxado até as orelhas) havia um chapéu de caubói de feltro verde com uma pena índia na faixa. Ele sorria. O sorriso exibia a falta de pelo menos seis dentes. Dei uma olhada e pensei: Aí vem encrenca.
— Dona, você é maluca — disse o caubói do Studebaker.
— Quer cinquenta dólares ou não? Basta nos levar a Dallas.
O homem franziu os olhos para a nota, tão despreocupado com os carros que buzinavam e se desviavam quanto a própria Sadie. Ele tirou o chapéu, bateu-o na calça que pendia dos quadris e depois o pôs de volta no lugar, puxando novamente até que a aba pousasse no alto das orelhas de abano.
— Dona, isso aí não é cinquenta, é dez.
— O resto está na minha carteira.
— Então por que eu não pego ela? — Ele agarrou a grande bolsa e segurou uma das alças. Desci o meio-fio, mas achei que ele a tomaria e sumiria antes que eu chegasse até ela. E se eu realmente chegasse até ela, ele provavelmente me daria uma surra. Embora magro, ainda era mais pesado do que eu. E tinha dois braços bons.
Sadie não largou. Puxada em sentidos opostos, a bolsa se escancarou como uma boca em agonia. Ela enfiou a mão livre lá dentro e tirou uma faca de açougueiro que me pareceu conhecida. Com ela, Sadie abriu o antebraço dele. O corte começava acima do punho e terminava na dobra suja da parte interna do cotovelo. Ele gritou de dor e surpresa, largou a alça e recuou, fitando-a.
— Sua piranha maluca, você me cortou!
Ele correu para a porta aberta do carro, que ainda tentava se surrar até a morte. Sadie avançou e esfaqueou o ar na frente do rosto dele. O cabelo dela caíra nos olhos. Os lábios eram uma linha implacável. O sangue do braço ferido do caubói do Studebaker tamborilou no asfalto. Os carros continuavam a passar. Incrivelmente, ouvi alguém berrar: “Mostre a ele, dona! ”
O caubói do Studebaker recuou para a calçada, os olhos nunca abandonando a faca. Sem me olhar, Sadie disse:
— É com você, Jake.
Por um segundo não entendi, depois me lembrei do 38. Tirei-o do bolso e o apontei para ele.
— Está vendo isso, Tex? Está carregado.
— Você é tão maluco quanto ela. — Agora ele segurava o braço contra o peito, marcando de sangue a camiseta. Sadie deu a volta correndo para o lado do passageiro do Studebaker e abriu a porta. Ela me olhou por sobre o teto e fez um gesto impaciente de chamada com uma das mãos. Eu não acreditava que poderia amá-la mais, mas naquele momento vi que estava errado.
— Você devia ter aceitado o dinheiro ou continuado a dirigir — disse eu. — Agora quero ver se sabe correr. Faça isso imediatamente senão ponho uma bala na sua perna e aí você não consegue mais.
— Você é um canalha filho da puta — disse ele.
— Sou, sim. E você é um ladrão filho da puta que logo terá um buraco de bala. — Engatilhei a arma. O caubói do Studebaker não me pôs à prova. Virou-se e correu para oeste pela Hines de cabeça baixa, segurando o braço, praguejando e derramando uma trilha de sangue.
— Só pare quando chegar a Love! — berrei atrás dele. — São quase cinco quilômetros nessa direção que você vai! Diga alô ao presidente!
— Entre, Jake. Vamos sair daqui antes que a polícia chegue.
Entrei atrás do volante do Studebaker, fazendo uma careta quando o joelho inchado protestou. O câmbio era manual, o que significava que eu teria de usar a perna ruim na embreagem. Cheguei o banco para trás o mais que pude, escutando o monte de lixo atrás estalar e se esmagar, e partimos.
— Aquela faca — disse eu. — É...?
— A que Johnny usou para me cortar, isso. O xerife Jones a devolveu depois do inquérito. Achou que era minha e talvez tivesse razão. Mas não da minha casa na Bee Tree. Tenho quase certeza que Johnny a trouxe com ele da nossa casa em Savannah. Estou com ela na bolsa desde então. Porque queria algo para me proteger, só por prevenção... — Os olhos dela se encheram d’água. — E este é um caso desses, não é? É um baita caso desses.
— Guarde de volta na bolsa. — Pisei na embreagem, que estava horrivelmente dura, e consegui passar a segunda marcha do Studebaker. O carro cheirava como um galinheiro que tivesse ficado uns dez anos sem ter sido limpo.
— Vai sujar tudo de sangue aqui dentro.
— Guarde assim mesmo. Você não pode andar por aí brandindo uma faca, ainda mais quando o presidente vem à cidade. Querida, aquilo foi mais do que corajoso.
Ela guardou a faca e depois começou a limpar os olhos com os punhos fechados, como uma menininha que ralasse o joelho.
— Que horas são?
— Dez para as onze. Kennedy pousa em Love Field daqui a quarenta minutos.
— Tudo está contra nós — disse ela. — Não é?
Dei uma olhada nela e disse:
— Agora você entende.
8
Chegamos à rua North Pearl antes que o motor do Studebaker pifasse. Subiu vapor do capô. Algo metálico bateu na rua. Sadie gritou de frustração, bateu na coxa com o punho fechado e usou várias palavras feias, mas fiquei quase aliviado. Pelo menos não teria mais de lutar com a embreagem. Pus a alavanca de marcha em ponto morto e deixei o carro fumegante rolar até a lateral da rua. Ele descansou diante de um beco com NÃO FECHE PASSAGEM pintado no paralelepípedo, mas esse crime específico me parecia menor do que um ataque com uma arma fatal e um roubo de carro.
Saí e manquei até o meio-fio, onde Sadie já estava.
— Que horas agora? — perguntou ela.
— Onze e vinte.
— Até onde temos de ir?
— O Texas School Book Depository fica na esquina da Houston com a Elm. Quatro quilômetros e meio. Talvez mais. — As palavras mal saíram da minha boca e ouvimos o rugir dos motores de um jato vindo atrás de nós. Olhamos para cima e vimos o Air Force One na rota de descida.
Sadie afastou cansada o cabelo do rosto.
— O que vamos fazer?
— Agora, vamos andar — respondi.
— Ponha o braço nos meus ombros. Deixe que eu leve parte do peso.
— Não preciso fazer isso, querida.
Mas, um quarteirão depois, precisei.
9
Chegamos perto do cruzamento da North Pearl com a avenida Ross às onze e meia, bem na hora em que o 707 de Kennedy estaria parando perto da recepção oficial... que incluía, é claro, a mulher com o buquê de rosas. A esquina à frente era dominada pela catedral do Santuário de Guadalupe. Nos degraus, debaixo de uma estátua da santa de braços abertos, estava um homem sentado com muletas de madeira de um lado e uma panela esmaltada do outro. Encostado na panela havia um cartaz dizendo SOU ALEIJADO! POR FAVOR DÊ O QUE PUDER SEJA UM BOM SAMARIANO DEUS AMA VOCÊ.
— Onde estão as suas muletas, Jake?
— Em Eden Fallows, no armário do quarto.
— Você esqueceu as suas muletas?
As mulheres são boas em perguntas retóricas, não são?
— Não tenho usado muito ultimamente. Em pequenas distâncias, estou quase bom. — Isso soava marginalmente melhor do que admitir que o principal na minha cabeça fora sumir do pequeno povoado de reabilitação antes que Sadie chegasse.
— Bom, um par delas seria muito útil agora.
Ela correu à frente com rapidez invejável e falou com o mendigo nos degraus da igreja. Quando cheguei mancando, ela pechinchava com ele.
— Um par de muletas como esse custa nove dólares e você quer cinquenta por uma só?
— Preciso de uma, pelo menos, para voltar para casa — disse ele com sensatez. — E parece que o seu amigo precisa de uma para chegar a qualquer lugar.
— E toda essa história de Deus ama você, seja um bom samaritano?
— Ora — disse o mendigo, esfregando pensativo o queixo barbado —, Deus ama você, mas eu sou apenas um pobre aleijado. Se não gosta dos meus termos, faça como o fariseu e passe pelo outro lado. É o que eu faria.
— Não duvido. E se eu simplesmente as furtasse, sua coisa gananciosa?
— Acho que conseguiria, mas aí Deus não amaria mais você — disse ele, e caiu na gargalhada. Era um som extraordinariamente alegre para um homem tão aleijado. Ele ia melhor no quesito dentário do que o caubói do Studebaker, mas não muito melhor.
— Dê o dinheiro a ele — disse eu. — Só preciso de uma.
— Ah, eu vou lhe dar o dinheiro. Só detesto que me fodam.
— Dona, isso é uma vergonha para a população masculina do planeta Terra, se me permite dizer.
— Olhe lá o que diz — disse eu. — Você está falando da minha noiva. — Agora eram onze e quarenta.
O mendigo nem ligou para mim. Olhava a carteira de Sadie.
— Tem sangue nela. Você se cortou fazendo a barba?
— Não se candidate ainda ao programa de Ed Sullivan, querido, você não é nenhum Alan King. — Sadie tirou a nota de dez que mostrara no trânsito mais duas de vinte. — Tome — disse ela, e ele as pegou. — Estou falida. Satisfeito?
— Você ajudou um pobre aleijado — disse o mendigo. — Você é que devia estar satisfeita.
— Pois não estou! — gritou Sadie. — E tomara que os seus malditos olhos caiam dessa sua cabeça feia!
O mendigo me deu uma olhada filosófica de homem para homem.
— Melhor levar ela pra casa, Zé Contente, acho que ela vai começar aqueles dias dela.
Pus a muleta debaixo do braço direito — quem tem sorte com os ossos acha que a gente usa uma muleta única no lado machucado, mas não é assim — e peguei o cotovelo de Sadie com a mão esquerda.
— Vamos. Não há tempo.
Enquanto nos afastávamos, Sadie deu um tapa na bunda vestida de jeans, olhou para trás por sobre o ombro e gritou:
— Aqui, ó!
O mendigo respondeu:
— Traga de volta e chegue aqui pertinho, querida, cuido dela de graça!
10
Descemos a North Pearl andando... ou melhor, Sadie andou e eu manquitolei. Era cem vezes melhor com a muleta, mas não havia como chegarmos ao cruzamento de Houston e Elm antes de meio-dia e meia.
À nossa frente havia um andaime. A calçada seguia debaixo dele. Desviei Sadie para a rua.
— Jake, por que diabos...
— Porque vai cair em cima da gente. Pode acreditar.
— Precisamos de uma carona. Precisamos mesmo... Jake? Por que está parando?
Parei porque a vida é uma canção e o passado se harmoniza. Em geral, essas harmonias nada significavam (ou assim eu pensava na época), mas de vez em quando o intrépido visitante da Terra de Antigamente pode utilizar alguma. Rezei com toda a força para que fosse uma dessas vezes.
Estacionado na esquina da North Pearl com a San Jacinto, estava um conversível Ford Sunliner 1954. O meu fora vermelho e esse era azul-noite, mas ainda assim... talvez...
Fui depressa até ele e experimentei a porta do passageiro. Trancada. É claro. Às vezes a gente tem sorte, mas totalmente de graça? Nunca.
— Vai fazer ligação direta?
Eu não fazia ideia de como era isso e desconfiava que provavelmente era mais difícil do que parecia em seriados como Bourbon Street Beat . Mas eu sabia levantar a muleta e bater várias vezes o apoio da axila na janela até o vidro quebrar com um desenho de teia de aranha e afundar. Ninguém nos olhou porque não havia ninguém na calçada. Toda a ação acontecia a sudeste. Dali podíamos ouvir o rugido de ondas da multidão que agora se reunia na rua Principal na expectativa da chegada do presidente Kennedy.
O vidro de segurança cedeu. Inverti a muleta e usei a ponta de borracha para empurrá-lo para dentro. Um de nós teria de se sentar atrás. Se desse certo, quer dizer. Em Derry, eu mandara fazer uma cópia da chave da ignição do Sunliner e a colara no fundo do porta-luvas, debaixo dos documentos do carro. Talvez esse sujeito tivesse feito o mesmo. Talvez essa harmonia específica chegasse até aí. A probabilidade era tênue... mas a probabilidade de Sadie me encontrar na rua Mercedes fora tão tênue que daria para ler o jornal através dela, e aquela dera certo. Apertei com o polegar o botão cromado do porta-luvas desse Sunliner e comecei a tatear lá dentro.
Harmonize, seu filho da puta. Harmonize, por favor. Me dê uma ajudinha só desta vez.
— Jake? Por que acha qu...
Os meus dedos encontraram uma coisa e tirei uma latinha de Sucrets. Quando a abri, achei não uma chave, mas quatro. Não sabia o que as outras três abririam, mas não tive dúvidas sobre a que eu queria. Seria capaz de encontrá-la no escuro, só pelo formato.
Cara, eu amava aquele carro.
— Bingo — disse eu, e quase caí quando ela me abraçou. — Você dirige, querida. Eu me sento atrás para descansar o joelho.
11
Eu sabia que não devia tentar a rua Principal; estaria bloqueada com cavaletes e carros da polícia.
— Pegue a Pacific até onde der. Depois, use ruas secundárias. Basta manter o barulho da multidão à esquerda e acho que vai dar certo.
— Quanto tempo temos?
— Meia hora. — Na verdade eram vinte e cinco minutos, mas achei que meia hora soava mais confortador. Além disso, não queria que ela tentasse nenhuma manobra arriscada dirigindo e sofresse um acidente. Ainda tínhamos tempo — teoricamente, pelo menos —, mas mais um desastre e seria o fim.
Ela não tentou nenhuma manobra arriscada, mas dirigiu com destemor. Demos com uma árvore caída bloqueando uma das ruas (é claro que sim), e ela subiu no meio-fio e passou pela calçada. Chegamos até o cruzamento da rua North Record com a Havermill. De lá não pudemos mais avançar, porque os dois últimos quarteirões da Havermill, até o ponto onde cruzava com a Elm, não existiam mais. Tinham se transformado em estacionamento. Um flanelinha com uma bandeira alaranjada nos acenou para avançarmos.
— Cinco pratas — disse. — Dois minutos de caminhada até a Principal, vocês têm bastante tempo. — Embora desse uma olhada duvidosa na minha muleta quando disse isso.
— Estou mesmo falida — disse Sadie. — Não estava mentindo.
Puxei a carteira e dei 5 ao homem.
— Ponha atrás do Chrysler — disse ele. Estacione bem direitinho.
Sadie lhe jogou as chaves.
— Você estaciona bem direitinho. Vamos, querido.
— Ei, por aí não! — berrou o flanelinha. — Aí é a Elm! Vocês têm de ir para a Principal! É por lá que ele vem!
— Sabemos o que estamos fazendo! — gritou Sadie. Torci para ela estar certa. Avançamos entre os carros amontoados, Sadie à frente. Eu jogava e me contorcia com a muleta, tentando evitar retrovisores externos e acompanhá-la. Agora dava para ouvir locomotivas e vagões de carga clangorosos no pátio de manobras atrás do Book Depository.
— Jake, estamos deixando uma pista com um quilômetro de largura.
— Eu sei. Tenho um plano. — Um exagero gigantesco, mas soava bem.
Saímos na Elm e apontei o prédio do outro lado da rua, dois quarteirões mais abaixo.
— Lá. É onde ele está.
Ela olhou o cubo vermelho acocorado com as janelas a espreitar e depois me virou o rosto consternado, de olhos arregalados. Observei, com algo parecido com interesse clínico, que a pele do pescoço dela estava toda arrepiada.
— Jake, é horrível!
— Eu sei.
— Mas... o que há de errado nele?
— Tudo. Sadie, temos de correr. Estamos quase na hora.
12
Atravessamos a Elm na diagonal, eu manquitolando atrás, quase correndo. A maior parte da multidão estava na rua Principal, mas havia mais gente enchendo a Dealey Plaza e formando filas ao longo da Elm, na frente do Book Depository. Lotavam o meio-fio até o viaduto. Moças sentavam-se nos ombros dos namorados. Crianças que logo poderiam estar gritando em pânico sujavam alegres o rosto com sorvete. Vi um homem vendendo raspadinha de gelo e uma mulher com um imenso penteado bufante mascateando fotos de um dólar de Jack e Jackie em roupa de gala.
Quando chegamos à sombra do Depository, eu suava, o meu sovaco berrava com a pressão constante da muleta e o joelho esquerdo parecia amarrado com um cinto apertado. Eu mal conseguia dobrá-lo. Ergui os olhos e vi funcionários do Depository olhando por algumas janelas. Não dava para ver ninguém na janela do canto sudeste do sexto andar, mas Lee estaria lá.
Olhei o relógio. Meio-dia e vinte. Dava para acompanhar o avanço da carreata pelo ribombo que aumentava na parte baixa da rua Principal.
Sadie experimentou a porta e me deu um olhar angustiado.
— Trancada!
Lá dentro, vi um negro de boina com aba inclinada num ângulo elegante. Fumava um cigarro. Al fora ótimo com a marginália no seu caderno, e perto do fim — escritos ao acaso, quase rabiscados — registrara o nome de vários colegas de Lee. Não me esforçara para estudá-los porque não vira que uso terreno teriam para mim. Ao lado de um desses nomes — o que pertencia ao sujeito de boina, eu não tinha dúvidas —, Al escrevera: Primeiro de quem suspeitaram (provavelmente pq negro). Era um nome incomum, mas nem assim eu conseguia me lembrar, fosse porque Roth e os seus capangas tinham-no surrado até sair da minha cabeça (junto com montes de outras coisas) ou porque, para começar, eu não prestara atenção suficiente.
Ou só porque o passado era obstinado. E que importância tinha? Simplesmente não vinha. O nome não estava em lugar nenhum.
Sadie socou a porta. O negro de boina ficou olhando, impassível. Deu um trago no cigarro e depois acenou para ela com as costas da mão: vá embora, dona, vá embora.
— Jake, pense em alguma coisa! POR FAVOR!
Meio-dia e vinte e um.
Um nome incomum, claro, mas por que era incomum? Fiquei surpreso ao descobrir que era algo que eu realmente sabia.
— Porque era de mulher — disse eu.
Sadie se virou para mim. O rosto estava corado, a não ser na cicatriz, que se destacava numa confusão branca.
— O quê?
De repente, comecei a bater no vidro.
— Bonnie! — gritei. — Ei, Bonnie Ray! Deixe a gente entrar! A gente conhece Lee! Lee! LEE OSWALD!
Ele registrou o nome e atravessou o saguão num passo lento de enlouquecer.
— Não sabia que o magrelo daquele filhodamãe tinha amigos — disse Bonnie Ray Williams ao abrir a porta e depois recuar quando entramos correndo. — Deve estar na sala de descanso, esperando o presidente com o resto do...
— Me escute — disse eu. — Não sou amigo dele e ele não está na sala de descanso. Ele está no sexto andar. Acho que quer atirar no presidente Kennedy.
O grandalhão riu alegremente. Jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota.
— Aquele mijão não tem coragem de afogar gatinhos num saco. Ele só sabe se sentar no canto e ler livros.
— Estou lhe dizendo...
— Vou subir até o segundo. Se quiserem vir comigo, tudo bem, acho. Mas não falem mais bobagens sobre Leela. É assim que a gente chama ele, Leela. Atirar no presidente! Qual! — Ele acenou com a mão e saiu andando.
Pensei: Você pertence a Derry, Bonnie Ray. Eles se especializam em não ver o que está bem na frente deles.
— Escada — disse eu a Sadie.
— O elevador seria...
O fim de toda oportunidade que poderia nos restar, é o que seria.
— Vai parar entre os andares. Escada.
Peguei a mão dela e a puxei na sua direção. A escada era uma garganta estreita com degraus de madeira corcovados por anos de tráfego. Havia um corrimão enferrujado à esquerda. No primeiro degrau, Sadie se virou para mim.
— Me dê a arma.
— Não.
— Você nunca chegará a tempo. Eu chegarei. Me dê a arma.
Quase cedi. Não que eu achasse que merecia ficar com ela; agora que o momento do verdadeiro divisor de águas chegara, não importava quem detivesse Oswald, desde que fosse feito. Mas estávamos apenas a um passo do rugido da máquina do passado, e seria o meu fim se eu me arriscasse a deixar Sadie dar aquele último passo na minha frente para ser sugada pelas suas correias e lâminas giratórias.
Sorri, me inclinei e a beijei.
— Você não me pega — disse eu, e comecei a subir. Por sobre o ombro, gritei: — Se eu dormir, ele é todo seu!
13
— Vocês são malucos — ouvi Bonnie Ray Williams dizer num tom de voz levemente admoestador. Depois veio o barulho leve de passos quando Sadie me seguiu. Eu estava com a muleta à direita — não mais apoiado nela, mas quase pulando sobre ela — e segurava o corrimão à esquerda. A arma no bolso do paletó esporte balançava e batia no meu quadril. O joelho berrava. Deixei que gritasse.
Quando cheguei ao patamar do segundo andar, furtei uma olhada no relógio. Era meio-dia e vinte e cinco. Não; vinte e seis. Dava para ouvir o rugido da multidão ainda a se aproximar, uma onda prestes a se quebrar. A carreata passara pelos cruzamentos da Principal com a Ervay, com a Akard, com a Field. Em dois minutos, três, no máximo, chegaria à rua Houston, viraria à direita e passaria pelo antigo tribunal de Dallas a 25 quilômetros por hora. A partir daquele ponto, o presidente dos Estados Unidos seria um alvo fácil. Na mira 4x instalada na Mannlicher-Carcano, os Kennedy e os Connally pareceriam tão grandes quanto os atores na tela do Lisbon Drive-In. Mas Lee esperaria mais um pouco. Ele não era suicida; queria escapar. Se atirasse cedo demais, a equipe de segurança no automóvel à frente da carreata veria o relâmpago da arma e atiraria de volta. Ele esperaria até aquele carro e a limusine presidencial fazerem o ângulo para entrar na Elm à esquerda. Não apenas um franco-atirador; uma merda de um atirador pelas costas.
Eu ainda tinha três minutos.
Ou talvez apenas dois e meio.
Ataquei a escada entre o segundo e o terceiro andares, ignorando a dor no joelho, forçando-me a subir como um maratonista perto do final de uma longa corrida. O que, é claro, eu era.
Abaixo de nós, escutei Bonnie Ray berrar alguma coisa que tinha maluco e diz que Leela vai atirar.
Até eu chegar à metade da escada do terceiro andar, sentira Sadie bater nas minhas costas como um corredor que instasse o cavalo a correr mais, mas aí ela ficou um pouco para trás. Escutei-a ofegar e pensei: cigarros demais, querida. O meu joelho não doía mais; a dor fora temporariamente enterrada num jorro de adrenalina. Mantive a perna esquerda o mais reta possível, deixando a muleta fazer o trabalho pesado.
A curva. Até o quarto andar. Agora eu também ofegava, e a escada parecia mais íngreme. Como uma montanha. O apoio no alto da muleta do mendigo estava escorregadio de suor. O meu coração pulava; os ouvidos retiniam com o som dos vivas da multidão lá embaixo. O olho da imaginação se abriu e pude ver a carreata que se aproximava: o carro da segurança, depois a limusine presidencial com as motocicletas Harley-Davidson do Departamento de Polícia de Dallas ao lado, os policiais usando capacetes brancos presos ao queixo e óculos escuros.
Outra curva. A muleta escorregando, depois se firmando. Para o alto de novo. A muleta batendo. Agora eu sentia o cheiro doce de serragem da reforma do sexto andar: operários substituíam por novas as tábuas velhas do assoalho. Mas não no lado de Lee. Lee tinha o lado sudeste só para si.
Cheguei ao patamar do quinto andar e fiz a última curva, a boca aberta para inspirar, a camisa um trapo encharcado contra o peito ofegante. Suor ardente entrou nos meus olhos e pisquei para expulsá-lo.
Três caixas de livros carimbadas com ESTRADAS PARA TODA PARTE e LEITORES DE 4º E 5º ANO bloqueavam a escada para o sexto andar. Apoiei-me na perna direita e bati a ponta da muleta numa delas, fazendo-a girar para longe. Atrás de mim, podia ouvir Sadie, agora entre o quarto e o quinto andares. Logo, parecia que eu acertara ao ficar com a arma, mas quem saberia? A julgar pela minha experiência, saber que somos o principal responsável por mudar o futuro nos faz correr mais depressa.
Enfiei-me pela fenda que criara. Para isso, tive de pôr o meu peso todo por um segundo sobre a perna esquerda. Ela deu um uivo de dor. Gemi e me agarrei no corrimão para não cair para a frente na escada. Olhei o relógio. Dizia meio-dia e vinte e oito, mas e se estivesse atrasado? A multidão rugia.
— Jake... pelo amor de Deus, depressa... — Sadie, ainda na escada, antes do patamar do quinto andar.
Parti pelo último lance, e o som da multidão começou a sumir num grande silêncio. Quando cheguei ao topo, só havia o raspar da minha respiração e as marteladas ardentes do meu coração superexigido.
14
O sexto andar do Texas School Book Depository era um quadrado ensombrecido salpicado de ilhas de caixas de livros empilhadas. As luzes do teto estavam acesas onde o assoalho era substituído. Estavam apagadas no lado onde Lee Harvey Oswald planejava fazer a história dali a cem segundos ou menos. Sete janelas davam para a rua Elm, as cinco do meio grandes e semicirculares, as das pontas quadradas. O sexto andar estava escuro perto da escada, mas cheio de luz nebulosa na área que dava para a rua Elm. Graças à serragem flutuante da reforma do assoalho, os raios de sol que se inclinavam pelas janelas pareciam grossos a ponto de cortar. No entanto, o raio que entrava pela janela do canto sudeste fora bloqueado por uma barricada de caixas de livros empilhadas. O ninho do franco-atirador ficava no lado oposto ao meu, numa diagonal que ia de noroeste a sudeste.
Atrás da barricada, à luz do sol, um homem armado estava à janela. Estava inclinado, olhando para fora. A janela estava aberta. Uma leve brisa fazia o seu cabelo e o colarinho da camisa ondular. Ele começou a erguer o fuzil.
Saí numa corrida bamboleante, num slalom pelas pilhas de caixas, enfiando a mão no bolso do casaco para pegar o 38.
— Lee! — berrei. — Pare, seu filho da puta!
Ele virou a cabeça e me fitou boquiaberto, os olhos arregalados. Por um momento, ele foi apenas Lee — o sujeito que rira e brincara com Junie no banho, aquele que às vezes abraçava a esposa e lhe beijava o rosto virado para cima — e depois a boca fina e um tanto afetada se enrugou numa careta que mostrava os dentes superiores. Quando isso aconteceu, ele se transformou em algo monstruoso. Duvido que você acredite, mas juro que é verdade. Ele parou de ser um homem e se tornou o fantasma demoníaco que perseguiria os Estados Unidos daquele dia em diante, pervertendo o seu poder e estragando todas as boas intenções.
Se eu deixasse.
O ruído da multidão aumentou de novo, milhares de pessoas aplaudindo e dando vivas e gritando a mais não poder. Escutei e Lee também. Ele sabia o que isso significava: agora ou nunca. Girou de volta para a janela e apoiou no ombro a coronha do fuzil.
Eu tinha a pistola, a mesma que usara para matar Frank Dunning. Não apenas parecida; naquele momento, era a mesma arma. Pensei assim naquele momento e penso assim agora. O cão tentou se prender no forro do bolso, mas puxei o 38, ouvindo o tecido se rasgar.
Atirei. O meu tiro foi para o alto e só explodiu lascas do alto da moldura da janela, mas bastou para salvar a vida de John Kennedy. Oswald deu um tranco com o som do tiro e o projétil de 10 gramas do Mannlicher-Carcano foi para o alto, estilhaçando uma janela do tribunal do condado.
Houve gritos e berros perplexos abaixo de nós. Lee se virou de novo para mim, o rosto uma máscara de fúria, ódio e desapontamento. Ergueu o fuzil outra vez, e agora não miraria no presidente dos Estados Unidos. Ele engatilhou o ferrolho — claque-claque — e atirei nele de novo. Embora estivesse a três quartos do caminho no salão, a menos de oito metros, errei de novo. Vi a lateral da camisa dele se torcer, mas foi tudo.
A minha muleta bateu numa pilha de caixas. Cambaleei para a esquerda, agitando a mão com a arma para me equilibrar, mas não houve oportunidade. Só por um instante, pensei em como, no dia em que a conhecera, Sadie literalmente caíra nos meus braços. Sabia que isso ia acontecer. A história não se repete, mas se harmoniza, e o que costuma fazer é a música do diabo. Dessa vez, fui eu que tropecei, e essa foi a diferença fundamental.
Não a ouvia mais na escada... mas ainda podia ouvir os seus passos rápidos.
— Sadie, abaixe-se! — gritei, mas o grito se perdeu com o latido do fuzil de Oswald.
Ouvi a bala passar por cima de mim. Ouvi ela gritar.
Então houve mais tiros, dessa vez vindos de fora. A limusine presidencial acelerara, indo na direção do viaduto a toda velocidade, os três casais lá dentro mergulhando e se abraçando. Mas o carro da segurança parara do outro lado da rua Elm, perto da Dealey Plaza. Os policiais das motocicletas tinham parado no meio da rua, e pelo menos quatro dúzias de pessoas agiam como observadores de artilharia, apontando a janela do sexto andar onde um homem magro de camisa azul era claramente visível.
Ouvi um tamborilado de pancadas, um som como de granizo caindo na lama. Eram as balas que erraram a janela e atingiram os tijolos acima dela ou dos dois lados. Muitas não erraram. Vi a camisa de Lee se inflar como se um vento tivesse começado a soprar dentro dela — um vento vermelho que abriu buracos no tecido: um acima do mamilo direito, um no esterno, um terceiro onde seria o umbigo. Um quarto rasgou o pescoço. Ele dançou feito boneca na luz nebulosa e cheia de serragem, e aquela careta terrível nunca saiu do seu rosto. No final não era um homem, estou lhe dizendo; era outra coisa. Aquilo que entra em nós quando damos ouvidos aos nossos piores anjos.
Uma bala acertou em cheio uma das lâmpadas do teto, estilhaçou o bulbo e o fez balançar. Então uma bala arrancou o topo da cabeça do candidato a assassino, assim como uma das balas de Lee arrancara o topo da cabeça de Kennedy no mundo de onde eu vinha. Ele desmoronou em cima da sua barricada de caixas, derrubando-as no chão.
Gritos lá embaixo. Alguém berrava “O homem caiu, eu vi ele cair!”.
Passos correndo, subindo. Joguei o 38 girando rumo ao corpo de Lee. Tive apenas presença de espírito suficiente para saber que seria muito surrado, talvez até morto pelos homens que subiam a escada se me encontrassem com uma arma nas mãos. Comecei a me levantar, mas o joelho não me sustentava mais. Provavelmente isso também era bom. Talvez eu não fosse visível da rua Elm, mas se fosse eles atirariam em mim. Assim, me arrastei até onde estava Sadie, apoiando o peso nas mãos e puxando a perna esquerda atrás de mim como uma âncora.
A frente da blusa dela estava encharcada de sangue, mas pude ver o buraco. Ficava bem no meio do peito, pouco acima da subida dos seios. Mais sangue escorria da boca. Ela sufocava. Pus os braços debaixo dela e a ergui. Os olhos dela nunca deixaram os meus. Estavam brilhantes nas sombras nebulosas.
— Jake. — A voz raspava.
— Não, querida, não fale.
Mas ela nem deu atenção — quando é que dera?
— Jake, o presidente!
— Salvo. — Na verdade eu não o vira inteiro quando a limusine disparou, mas vira Lee dar um tranco quando deu o seu único tiro na rua, e isso me bastava. E eu diria a Sadie que ele estava salvo mesmo que não estivesse.
Os olhos dela se fecharam, depois reabriram. As passadas agora estavam muito próximas, virando no patamar do quinto andar e partindo pelo último lance de escada. Lá embaixo, a multidão berrava excitada e confusa.
— Jake.
— O quê, querida?
Ela sorriu.
— Como dançamos!
Quando Bonnie Ray e os outros chegaram, eu estava sentado no chão com ela no colo. Eles passaram por mim correndo. Quantos, não sei. Quatro, talvez. Ou oito. Ou uma dúzia. Nem me dei ao trabalho de olhar. Eu a segurava, ninando a cabeça junto ao meu peito, deixando o sangue dela encharcar a minha camisa. Morta. A minha Sadie. Ela caíra na máquina, afinal de contas.
Nunca fui homem de chorar, mas quase todos os homens que perdem a mulher que amam chorariam, não acha? Sim. Mas eu, não. Porque sabia o que tinha de ser feito.