Novembro de 63
Capítulo 4
1
Al deixou que eu o ajudasse a ir até o quarto e até murmurou “Obrigado, amigo” quando me ajoelhei para lhe desamarrar e descalçar os sapatos. Ele só reclamou quando me ofereci para ajudá-lo a ir ao banheiro.
— Fazer do mundo um lugar melhor é importante, mas ser capaz de ir ao troninho por conta própria também é.
— Tudo bem, desde que tenha certeza de que consegue.
— Agora à noite tenho certeza, e amanhã me preocupo com amanhã. Vá para casa, Jake. Comece a ler o caderno. Tem muita coisa lá. Durma com ele. Venha me ver de manhã e me diga o que decidiu. Ainda estarei aqui.
— Probabilidade de 95 por cento?
— Pelo menos 97 por cento. No geral, estou me sentindo bem animado. Eu não tinha certeza nem de chegar até aqui com você. Bastou contar e fazer você acreditar para tirar um peso da minha cabeça.
Eu não tinha certeza de que acreditava, mesmo depois da minha aventura naquela tarde, mas não disse nada. Dei-lhe boa noite, lembrei-o de não perder a conta dos comprimidos (“Tá, tá”) e fui embora. Fiquei do lado de fora olhando um minuto o gnomo com a bandeira da Estrela Solitária antes de descer a calçada até o carro.
Não se meta com o Texas , pensei... mas talvez fosse necessário. E, dadas as dificuldades de Al para mudar o passado — os pneus furados, o motor fundido, a ponte caída —, achei que, se eu fosse em frente, o Texas se meteria comigo.
2
Depois daquilo tudo, achei que só conseguiria dormir lá pelas duas ou três da madrugada e que havia uma boa probabilidade de não dormir nada. Mas às vezes o corpo impõe os seus imperativos. Quando cheguei em casa e me servi de uma bebidinha (poder guardar bebidas em casa outra vez era uma das várias pequenas vantagens da minha volta ao estado de solteiro), os meus olhos pesavam; quando terminei o uísque e li as nove ou dez primeiras páginas do Livro de Oswald de Al, mal conseguia mantê-los abertos.
Lavei o copo na pia, fui para o quarto (deixando atrás de mim um rastro de roupas, coisa que provocaria um ataque em Christy), e caí na cama de casal onde agora dormia solteiro. Pensei em estender a mão para apagar o abajur da mesinha de cabeceira, mas o meu braço estava pesado, pesado. Agora corrigir redações na sala dos professores estranhamente silenciosa parecia algo que acontecera há muitíssimo tempo. Não que fosse estranho; todo mundo sabe que, para uma coisa tão inflexível, o tempo é maleável como ele só.
Aleijei aquela menina. Pus ela de volta na cadeira de rodas.
Quando você desceu aqueles degraus da despensa hoje à tarde, nem sabia quem era Carolyn Poulin, logo não seja imbecil. Além disso, talvez em algum lugar ela ainda esteja andando. Talvez passar por aquela toca crie realidades alternativas, ou fluxos de tempo, ou alguma meleca assim.
Carolyn Poulin, sentada na cadeira de rodas, recebendo o diploma. Lá naquele ano em que Hang on Sloopy, dos McCoys, estava no topo das paradas.
Carolyn Poulin, andando pelo jardim de lírios em 1979, quando Y.M.C.A, do Village People, estava no topo das paradas; às vezes se ajoelhando para arrancar uma erva daninha, depois se levantando de novo e continuando a andar.
Carolyn Poulin na floresta com o pai, prestes a ficar aleijada.
Carolyn Poulin na floresta com o pai, prestes a entrar numa adolescência comum de cidade pequena. Naquele fluxo do tempo, me perguntei, onde ela estaria quando os noticiários do rádio e da televisão anunciaram que o 35º presidente dos Estados Unidos levara um tiro em Dallas?
John Kennedy pode viver. Você pode salvá-lo, Jake.
E isso realmente melhoraria as coisas? Não havia garantia.
Eu me senti como quem tenta abrir caminho para sair de uma meia de nylon.
Fechei os olhos e vi páginas voando de um calendário — o tipo de transição banal que se usava nos filmes antigos. Elas voaram pelo meu quarto como passarinhos.
Mais uma ideia veio antes que eu apagasse: o calouro imbecil com o projeto de cavanhaque ainda mais imbecil no queixo, sorrindo e murmurando: Sapo Harry não lava o pé, não lava porque não quééééé. E Harry me impedindo quando fui chamar o garoto às falas. Não, não precisa, dissera ele. Estou acostumado.
Então apaguei, nocauteado.
3
Acordei com as primeiras luzes e o canto dos pássaros me cutucando o rosto, certo de que tinha chorado pouco antes de acordar. Eu sonhara e, embora não conseguisse me lembrar do que era, deve ter sido tristíssimo, porque nunca fui de chorar.
Rosto seco. Sem lágrimas.
Virei a cabeça no travesseiro para olhar o relógio na mesinha de cabeceira e vi que faltavam apenas dois minutos para as seis. Dada a qualidade da luz, aquela seria uma linda manhã de junho, e a escola estava de férias. O primeiro dia das férias de verão costuma ser tão alegre para os professores quanto para os alunos, mas me senti triste. Triste. E não só porque tinha de tomar uma decisão difícil.
A meio caminho do chuveiro, três palavras pularam na minha cabeça: Kauabunga, Buffalo Bob!, dizia a voz do boneco da TV na década de cinquenta.
Parei, nu, olhando o meu reflexo de olhos arregalados no espelho em cima da cômoda. Nisso me lembrei do sonho, e não admira que acordasse me sentindo triste. Sonhei que estava na sala de professores lendo redações de inglês para adultos enquanto, do outro lado do corredor, na quadra, outro jogo de basquete do secundário chegava ao final de mais um tempo. A minha mulher acabara de sair da reabilitação. Torcia para ela estar em casa quando chegasse lá e não tivesse de passar uma hora no telefone até encontrá-la e ir buscá-la em algum buraco local.
No sonho, eu passara a redação de Harry Dunning para o alto da pilha e começara a ler:
Não foi um dia foi uma noite. A noite que mudou minha vida foi a noite que meu pai matou minha mãe e dois irmão...
Isso atraíra toda a minha atenção, e depressa. Ora, atrairia a atenção de qualquer um, não é? Mas os meus olhos tinham apenas começado a se encher de água quando cheguei à parte sobre a roupa que ele usava. Também fazia muito sentido. Quando as crianças saíam naquela noite especial de outono com sacolas vazias que esperavam trazer de volta cheias de pilhagem doce, as fantasias sempre refletiam a moda da época. Cinco anos atrás, parecia que metade dos garotos que apareceram à minha porta usavam óculos de Harry Potter e um decalque de cicatriz em forma de raio na testa. Na minha viagem de estreia como pedinte de balas, muitas luas atrás, eu saíra retinindo pela calçada (com a minha mãe seguindo três metros atrás de mim, por insistente pedido meu) vestido de soldado da Força de O império contra-ataca. Então, seria surpresa Harry Dunning usar roupa de caubói?
— Kauabunga, Buffalo Bob — disse eu ao meu reflexo e, de repente, corri para o escritório. Não guardo todos os trabalhos dos alunos, nenhum professor faz isso — a gente se afogaria neles! —, mas me acostumei a xerocar as redações melhores. São ótimas ferramentas de ensino. Nunca usaria a de Harry numa aula, era pessoal demais, mas achei que tinha feito uma cópia dela assim mesmo porque me provocara uma reação emocional muito forte. Abri a gaveta de baixo e comecei a examinar o ninho de rato de pastas e folhas soltas. Depois de quinze minutos suados, achei. Sentei-me na cadeira da escrivaninha e comecei a ler.
4
Não foi um dia foi uma noite. A noite que mudou minha vida foi a noite que meu pai matou minha mãe e dois irmão e me maxucou muito. Maxucou minha irmã também, tanto que ela entrou em coma. Dali três anos ela morreu sem acordar. O nome dela era Ellen e eu gostava muito dela. Ela adorava colher floris pra botar nos vazos. O que aconteceu foi que nem um filme de terror. Nunca vou ver filme de horror por que na noite de Halloween de 1958 eu vivi um horror desse.
O meu irmão Troy era velho demais pra travessura ou gostozura (15 ano). Ficou vendo
TV com a minha mãe e disse que ia nos ajudar a comer as bala quando a gente voltasse e Ellen, ela disse não não vai, ponha a roupa e vá buscar as sua, e todo mundo riu porque todo mundo adorava Ellen, ela só tinha 7 ano mas era que nem Lucile Ball, ela fazia todo mundo rir, até o meu pai (quer dizer se tivesse sobrio quando tava bebado ficava sempre louco da vida). Ela ia como Princesa Summerfall Winterspring (olhei pra ver como é que escreve) e eu ia como Buffalo Bob, os dois do programa de HOWDY DOODY que a gente gostava de assistir. “Digam crianças que horas são?” e “Vamos ouvir a Galeria dos Petizes” e “Kauabunga, Buffalo Bob!!!”. Eu e Ellen a gente adorava aquele pograma. Ela adora a Princeza e eu adoro Buffalo Bob e a gente adora Howdy! A gente queria que o meu irmão Tugga (o nome dele era Arthur mas todo mundo chamava ele de Tugga, não lembro porque) fosse de “Prefeito Fineus T. Bluster” mas ele não quis, disse que Howdy Doody era pograma de criança, que ia de “Franquistem” mesmo depois que Ellen disse que a mascara dava muinto medo. E Tugga também falou m**da sobre levar a minha espingarda Daisy de chumbinho porque ele disse que Buffalo Bob não usava nenhuma espingarda na televizão e a minha mãe disse: “Você pode levar se quiser Harry porque não é de verdade nem atira balas e Buffalo Bob não ia ligar.” Essa foi a última coiza que
ela me disse e fico contente porque foi uma coisa legal porque ela era muito durona.
Aí a gente tava se preparando pra sair e eu disse pera um poco tenho de ir no banheiro
porque eu tava muito empolgado. Todo mundo riu de mim até mamãe e Troy no sofá mas ir mijar naquela hora salvou minha vida porque foi aí que o meu pai chegou com aquele martelo. O meu pai era mau quando bibia e batia na minha mãe “de vez em sempre”. Uma vez quando Troy tentou impedi ele discutindo com ele ele quebrou o brasso de Troy. Daquela vez ele quase foi pra cadeia (meu pai). Aí a minha mãe e o meu pai tava “separado” nessa época que to escrevendo e ela estava querendo se divorcia dele mas isso não era fácil em 1958 como é agora.
Aí ele chegou na porta e eu tava no banheiro mijando e eu ouvi a minha mãe dizer:
“Saia daqui com essa coisa, você não é pra tá aqui.” E depois foi que ela começou a gritar. Então depois todo mundo tava gritando.
Havia mais — três páginas terríveis —, mas não era eu quem tinha de ler.
5
Ainda faltavam alguns minutos para as seis e meia, mas achei o telefone de Al no catálogo e digitei o número sem hesitar. Também não o acordei. Ele atendeu no primeiro toque, a voz mais parecida com um latido do que com fala humana.
— Ei, amigo, você acordou com as galinhas, hem?
— Tenho uma coisa para lhe mostrar. Uma redação. Você até conhece quem escreveu. Tem de conhecer; a foto dele está no seu Muro das Celebridades.
Ele tossiu e disse:
— Tenho muitas fotos no Muro das Celebridades, amigo. Acho que deve haver até uma de Frank Anicetti, da época do primeiro Festival Moxie. Me ajude um pouco aí.
— É melhor eu lhe mostrar. Posso dar uma passadinha?
— Se aguentar me ver de roupão, pode vir. Mas agora que você teve a sua noite de sono, vou lhe perguntar: já se decidiu?
— Acho que antes tenho de fazer outra viagem de volta.
Desliguei antes que ele pudesse fazer mais perguntas.
6
Ele parecia pior do que nunca com a luz da manhã entrando pela janela da sala. O roupão de atoalhado branco pendia em torno dele como um paraquedas desinflado. Como não fizera quimio, ainda tinha cabelo, mas estava caindo e fino como o de um bebê. Os olhos pareciam ter se afundado ainda mais nas órbitas. Ele leu duas vezes a redação de Harry Dunning, começou a baixá-la e leu de novo. Finalmente, ergueu os olhos para mim e disse:
— Jesus Cristinho de muleta numa biga!
— A primeira vez que li, chorei.
— Com razão. A parte sobre a espingarda de chumbinho é que me pegou. Na década de cinquenta, havia um anúncio dessas espingardas na contracapa de praticamente todas as revistinhas que apareciam nas bancas. Toda a garotada do meu quarteirão — todos os meninos, pelo menos — só queria duas coisas: uma espingarda Daisy de chumbinho e um gorro de guaxinim como o de David Crockett. Ele está certo, não havia balas, nem de fingimento, mas a gente derramava um pouco de óleo Johnson dentro do cano. Aí quando a gente bombeava o ar e puxava o gatilho, saía uma fumacinha azul. — Ele voltou a olhar as páginas xerocadas. — O filho da puta matou a mulher e três filhos com um martelo? Jesus.
Aí ele começou a bater com ele, escrevera Harry. Corri de volta pra sala e tinha sangue pelas parede e um negócio branco no sofá. Eram os miolos da minha mãe. Ellen, ela tava caída no chão com a cadeira de balanso em cima das perna e sangue saindo das orelha e do cabelo. A televisão ainda tava ligada, era aquele pograma que mamãe gostava de Elery Queen, que resolve os crimes.
O crime daquela noite não tinha nada a ver com os problemas elegantes e exangues que Ellery Queen desvelava; aquilo foi um massacre. O menino de 10 anos que parou para mijar antes de sair atrás de doces voltou do banheiro a tempo de ver o pai bêbado e enfurecido rachar a cabeça de Arthur “Tugga” Dunning quando o rapaz tentou rastejar para a cozinha. Então ele se virou e viu Harry, que ergueu a espingardinha Daisy e disse: “Me deixe em paz, papai, senão eu atiro.”
Dunning correu para o menino, brandindo o martelo ensanguentado. Harry atirou nele com a espingarda de ar comprimido (deu para escutar o cá-tchôu que ela deve ter feito, mesmo que eu nunca tivesse atirado com nenhuma), depois a largou e correu para o quarto que dividia com o agora falecido Tugga. O pai esquecera de fechar a porta da frente quando entrou, e em algum lugar — “parecia que era mil quilômetros dali”, escrevera o zelador — vizinhos berravam e crianças atrás de doce gritavam.
Dunning, quase com certeza, teria matado também o filho que restava se não tivesse tropeçado na “cadeira de balanso” virada. Caiu de cara no chão, se levantou e correu até o quarto do filho mais novo. Harry tentava se enfiar debaixo da cama. O pai o puxou e lhe deu um golpe no lado da cabeça que, sem dúvida, mataria o menino se a mão do pai não escorregasse no cabo ensanguentado; em vez de rachar o crânio de Harry, a martelada só amassou uma parte acima da orelha direita.
Não dismaei mas foi quaze. Continuei engatinhando pra debaixo da cama e mal senti ele bater na minha perna mas ele bateu e quebrou em quatro lugar.
Um homem do outro quarteirão que vinha passando pelo bairro pedindo doces com a filha entrou correndo nesse momento. Apesar do massacre na sala, o vizinho teve a presença de espírito de pegar a pá de cinza no balde de ferramentas ao lado do fogão de lenha da cozinha. Com ela, atingiu Dunning atrás da cabeça quando o homem tentava virar a cama e pegar o filho semiconsciente que sangrava.
Depois eu dismaei que nem Ellen só que tive a sorte de acordar. Os medico disse que iam ter de emputar minha perna mas no fim não emputaram.
Não, ele ficou com a perna e acabou se tornando zelador da Lisbon High School, conhecido por gerações de alunos como Sapo Harry. Será que as crianças seriam mais gentis se soubessem a razão de ele mancar? Provavelmente não. Embora emocionalmente delicados e muito fáceis de ferir, os adolescentes são escassos na empatia. Isso vem mais tarde na vida, quando vem.
— Outubro de 1958 — disse Al na voz áspera de latido. — Devo acreditar que é coincidência?
Lembrei-me do que disse à versão adolescente de Frank Anicetti sobre o conto de Shirley Jackson e sorri.
— Às vezes um charuto é só um charuto e uma coincidência é só uma coincidência. Só sei que estávamos falando de outro divisor de águas.
— E não encontrei essa história no Enterprise por quê?
— Não aconteceu por aqui. Aconteceu em Derry, no norte do estado. Quando teve condições de sair do hospital, Harry foi morar com os tios em Haven, uns 40 quilômetros ao sul de Derry. Eles o adotaram e o puseram para trabalhar na fazenda da família quando ficou claro que não conseguia acompanhar as aulas na escola.
— Parece Oliver Twist ou coisa assim.
— Não, eles foram bons com o rapaz. Lembre-se de que não havia aulas de recuperação naquela época, e ainda não tinham inventado a expressão “crianças especiais”...
— Eu sei — disse Al secamente. — Naquela época, criança especial era retardada, imbecil ou mongoloide.
— Mas ele não era isso nem é agora — disse eu. — Não mesmo. Acho que o problema foi o choque, sabe? O trauma. Ele levou anos para se recuperar daquela noite, e quando conseguiu a escola já ficara para trás.
— Pelo menos até voltar para a educação de adultos, e nisso já estava na meia-idade, quase velho. — Al balançou a cabeça. — Que desperdício.
— Bobagem — disse eu. — Uma vida boa nunca é desperdiçada. Poderia ter sido melhor? Poderia. Posso fazer isso acontecer? Com base em ontem, talvez possa. Mas na verdade a questão não é essa.
— Então qual é? Porque para mim isso parece Carolyn Poulin outra vez, e esse caso já está provado. Sim, podemos mudar o passado. E não, o mundo não explode como uma bola de encher quando a gente faz isso. Você me serviria outra xícara de café, Jake? E aproveite para se servir também. Está quente e parece que você está precisando.
Enquanto servia o café, avistei uns pãezinhos doces. Quando lhe ofereci um, ele fez que não.
— Comida sólida dói quando engulo. Mas se está decidido a me fazer engolir calorias, tem um pacote de seis garrafinhas de Ensure na geladeira. Na minha opinião, esse troço diz que é nutritivo mas tem gosto de catarro gelado. Pelo menos dá para engolir.
Quando lhe levei um deles numa das taças de vinho que vi no armário, ele deu uma gargalhada.
— Acha que assim vai melhorar o gosto?
— Pode ser. Se fingir que é pinot noir.
Ele tomou metade e vi que lutava com a garganta para que ficasse lá dentro. Foi uma batalha que ele ganhou, mas empurrou a taça para longe e voltou a pegar a caneca de café. Não bebeu, só a envolveu com as mãos, como se tentasse absorver um pouco do calor. Ao ver isso, recalculei o tempo que ainda lhe restava.
— Então — disse ele. — Por que isso é diferente?
Se não estivesse tão doente, ele veria por si mesmo. Era um cara inteligente.
— Porque Carolyn Poulin nunca foi um bom teste. Você não salvou a vida dela, Al, só as pernas. Ela continuou a ter uma vida boa e completamente normal em ambas as versões: aquela em que leva um tiro de Cullum e a outra em que você se intrometeu. Em nenhuma delas se casou. Não houve filhos em nenhuma das versões. É como... — Tropecei. — Não quero ofender, Al, mas o que você fez foi como o médico que salva um apêndice inflamado. Ótimo para o apêndice, mas ele nunca faz nada muito importante, mesmo que esteja saudável. Entende o que estou dizendo?
— Entendo. — Mas achei que ele ficou meio chateado. — Carolyn Poulin parecia o melhor possível, amigo. Na minha idade, o tempo é limitado mesmo quando a gente tem saúde. Eu estava de olho num prêmio maior.
— Não estou criticando. Mas a família Dunning é um teste melhor, porque não é apenas uma menina paralisada, por pior que tenha sido para ela e para a família. Estamos falando de quatro pessoas assassinadas e uma quinta aleijada pelo resto da vida. Além disso, nós o conhecemos. Depois de conseguir o diploma do secundário, eu o levei à lanchonete para um hambúrguer, e quando viu a beca e o capelo, você pagou a conta. Lembra?
— Lembro. Foi aí que tirei a foto para o Muro.
— Se eu conseguir, se eu impedir o pai dele de brandir aquele martelo, acha que aquela foto ainda estará lá?
— Não sei — disse Al. — Talvez não. Talvez eu nem me lembre que já esteve lá.
Isso era um pouco teórico demais para mim e deixei passar sem comentários.
— E pense nas outras três crianças: Troy, Ellen e Tugga. Sem dúvida algum deles se casará caso viva e cresça. E talvez Ellen se torne uma comediante famosa. Ele não disse aí que ela era tão engraçada quanto Lucille Ball? — Inclinei-me para a frente. — Eu só quero um exemplo melhor do que acontece quando a gente muda um divisor de águas. Preciso disso antes de brincar com algo tão grande quanto o assassinato de Kennedy. O que diz, Al?
— Digo que entendo o que está dizendo. — Al lutou para se levantar. Era doloroso vê-lo, mas quando comecei a me erguer, ele me fez um gesto para que voltasse a me sentar. — Não, fique aí. Tenho uma coisa pra você. Está na outra sala. Vou buscar.
7
Era uma caixa de metal. Ele me entregou e me pediu para levá-la para a cozinha. Disse que seria mais fácil espalhar as coisas na mesa. Quando nos sentamos, ele a destrancou com uma chave que usava no pescoço. A primeira coisa que tirou foi um envelope pardo grosso. Abriu e despejou uma grande pilha desarrumada de papel-moeda. Catei uma folha de todo aquele alface e, pensativo, a olhei. Era uma nova de vinte, mas em vez de Andrew Jackson na frente, vi Grover Cleveland, que provavelmente não estaria em nenhuma lista dos dez maiores presidentes americanos. Atrás havia uma locomotiva e um navio a vapor que pareciam destinados a uma colisão debaixo das palavras FEDERAL RESERVE NOTE.
— Parece dinheiro de Banco Imobiliário.
— Não é não. E há menos aí do que parece, porque não há notas de mais de vinte. Hoje em dia, quando um tanque cheio pode custar trinta ou 35 dólares, uma nota de cinquenta não chama atenção, nem mesmo numa loja de 1,99. Naquela época é diferente, e você não vai querer chamar atenção.
— Essa é a grana das apostas?
— Uma parte. São principalmente as minhas economias. Trabalhei como cozinheiro de 1958 a 1962, o mesmo que aqui, e um homem sozinho consegue economizar bastante, ainda mais quando não sai com mulheres caras. E eu não saía. Nem com as baratas, aliás. Era amigo de todo mundo e não dava intimidade a ninguém. Aconselho você a fazer o mesmo. Em Derry e em Dallas, se for até lá. — Ele remexeu o dinheiro com o dedo fino. — Tem um pouco mais de nove mil, se bem me lembro. Compram o que sessenta mil comprariam hoje.
Fitei o dinheiro.
— O dinheiro volta. Ele fica, não importa quantas vezes você use a toca de coelho. — Já tínhamos tratado disso, mas eu ainda tentava enfiar a ideia na cabeça.
— É, embora também ainda esteja lá... recomeça do zero, lembra?
— Isso não é um paradoxo?
Ele me olhou, cansado, a paciência a desgastá-lo.
— Não sei. Fazer perguntas que não têm resposta é perda de tempo, e tempo eu não tenho.
— Desculpe, desculpe. O que mais tem aí?
— Pouca coisa. Mas a beleza é não precisar de muito. Era uma época muito diferente, Jake. A gente pode ler sobre ela nos livros de história, mas só dá para entender de verdade quando se mora lá um tempo. — Ele me passou um cartão da Previdência Social. O número era 005-52-0223. O nome, George T. Amberson. Al tirou uma caneta da caixa e me estendeu. — Assine.
Peguei a caneta, que era um brinde promocional. Escrito no corpo, estava CONFIE O SEU CARRO AO HOMEM QUE USA A ESTRELA TEXACO. Sentindo-me um pouco como
Daniel Webster ao fazer o seu pacto com o diabo, assinei o cartão. 1 Quando tentei devolvê-lo, ele fez que não.
O próximo item era a carteira de motorista do Maine de George T. Amberson, que afirmava que eu tinha 1,92 m, olhos azuis, cabelo castanho, peso 90 kg. Nascera em 22 de abril de 1923 e morava na rua Bluebird, 19, em Sabattus, que, por acaso, era o meu endereço em 2011.
— Um metro e noventa e dois, certo? — perguntou Al. — Tive de chutar.
— Quase. — Assinei a carteira de motorista, que era um pedaço comum de cartolina. Cor: bege burocrático. — Sem foto?
— O estado do Maine está a anos disso, amigo. Os outros 48 estados também.
— Quarenta e oito?
— O Havaí só vai virar estado ano que vem.
— Ah. — Senti um pouco de falta de ar, como se alguém acabasse de me dar um soco no estômago. — Então... a gente é parado por estourar o limite de velocidade e o policial simplesmente supõe que a gente é quem a carteira diz que é?
— Por que não? Se você disser alguma coisa sobre ataques terroristas em 1958, o povo vai achar que está falando de adolescentes derrubando vacas. Assine esses também.
Ele me entregou um Cartão de Cortesia Hertz, um cartão de compra de gasolina Cities Service, um cartão de crédito Diners Club e outro American Express. O Amex era de celuloide, o Diners de cartolina. O nome de George T. Amberson estava neles. Datilografado, não impresso.
— Você pode receber um genuíno cartão Amex de plástico no ano que vem, se quiser.
Sorri.
— Sem talão de cheques?
— Eu poderia lhe arranjar um, mas de que adiantaria? Toda papelada preenchida em nome de George Amberson sumiria no próximo recomeço. E também todo dinheiro que eu pusesse na sua conta.
— Ah. — Estava me sentindo idiota. Tá certo.
— Não seja duro com você mesmo, tudo isso ainda é novo. Mas é bom abrir uma conta. Sugiro não mais do que mil. Mantenha a maior parte da grana em dinheiro vivo, onde você possa pegar.
— Caso eu tenha de voltar correndo.
— Isso. E os cartões de crédito só servem para reforçar a identidade. As contas reais que abri para arranjar os dois vão sumir quando você voltar. Mas podem ser úteis, a gente nunca sabe.
— George recebe correspondência na rua Bluebird, 19?
— Em 1958, a rua Bluebird não passa de um endereço num mapa de Sabattus, amigo. O condomínio onde você mora ainda não foi construído. Se alguém lhe perguntar, diga que são negócios. Vão acreditar. Os negócios são como um deus em 1958; todo mundo adora mas ninguém entende. Tome.
Ele me jogou uma carteira masculina maravilhosa. Babei.
— Isso é avestruz?
— Queria que você parecesse próspero — disse Al. — Procure algumas fotos para pôr nela junto com a identificação. Arranjei também algumas coisinhas para você. Mais esferográficas, uma delas na moda, com uma combinação de abridor de cartas e régua na ponta. Uma lapiseira Scripto. Um protetor de bolso. Em 1958, eram considerados necessários e não coisa de CDF. Um relógio Bulova com pulseira elástica cromada Speidel; todos os elegantes cobiçarão isso aí, amigo. Você mesmo pode examinar o resto. — Ele tossiu com força por um bom tempo, fazendo careta. Quando parou, havia grandes gotas de suor no rosto.
— Al, quando você reuniu isso tudo?
— Quando percebi que não conseguiria chegar a 1963, deixei o Texas e vim para casa. Já estava pensando em você. Divorciado, sem filhos, esperto e, o melhor de tudo, jovem. Ah, aqui, quase esqueci. Essa é a semente de onde tudo brotou. Tirei o nome de uma lápide no cemitério de São Cirilo e escrevi uma petição ao secretário de Estado do Maine.
Ele me entregou a minha certidão de nascimento. Passei os dedos sobre o carimbo em relevo. Tinha um toque sedoso e oficial.
Quando ergui os olhos, vi que ele pusera outra folha de papel na mesa. O título era SPORTS 1958-1963.
— Não perca isso. Não só por ser o seu vale-refeição, mas também porque você terá de responder um monte de perguntas se isso cair nas mãos erradas. Ainda mais quando os resultados se comprovarem.
Comecei a guardar tudo de volta na caixa e ele fez que não.
— Tenho uma pasta Lord Buxton para você no meu armário, já lindamente gasta nas bordas.
— Não preciso, estou com a minha mochila. Está na mala do carro.
Ele fez cara de riso.
— Aonde você vai ninguém usa mochila, só os escoteiros, e só quando vão acampar e acantonar. Você tem muito a aprender, amigo, mas se andar com cuidado e não se arriscar, chega lá.
Percebi que ia mesmo fazer aquilo e que ia acontecer de imediato, quase sem preparação. Fiquei me sentindo um visitante no porto de Londres, no século XVII, que descobre de repente que está prestes a virar marinheiro à força.
— Mas o que faço agora? — Isso saiu quase como um balido.
Ele ergueu as sobrancelhas — grossas e agora tão brancas quanto o pouco cabelo da cabeça.
— Salva a família Dunning. Não foi o que conversamos?
— Não é isso. O que faço quando me perguntarem a minha profissão? O que é que eu digo?
— O seu tio rico morreu, lembra? Diga que está gastando a herança inesperada aos pouquinhos, fazendo ela durar bastante para escrever um livro. Não há um escritor frustrado no fundo de todo professor de inglês? Ou estou errado?
Na verdade, não estava.
Ele ficou me olhando ali sentado — exausto, magro demais, mas não sem simpatia. Talvez até com piedade. Finalmente, disse, bem baixinho:
— É grande, não é?
— É — respondi. — E Al... cara... eu sou pequeno.
— Você pode dizer o mesmo de Oswald. Um covarde que atira de emboscada. E, segundo a redação de Harry Dunning, o pai dele é apenas um bêbado cruel com um martelo.
— Nem é mais isso. Morreu de envenenamento estomacal agudo na Penitenciária Estadual Shawshank. Harry disse que provavelmente foi maria louca. Isso é...
— Sei o que é maria louca. Vi muito disso quando fiquei estacionado nas Filipinas. Cheguei a tomar um pouco, para minha tristeza. Mas ele não está morto aonde você vai. Nem Oswald.
— Al... sei que está doente e sei que sente dor. Mas iria à lanchonete comigo? Eu... — Pela primeira e última vez, usei a forma habitual de tratamento dele. — Amigo, não quero começar isso sozinho. Estou apavorado.
— Eu não perderia isso por nada. — Ele enfiou a mão no sovaco e se levantou com uma careta que fez os lábios subirem até as gengivas. — Pegue a pasta. Vou me vestir.
8
Eram quinze para as oito quando Al destrancou a porta do trailer prateado que o Famoso Gordobúrguer chamava de lar. Todos os cromados luzidios atrás do balcão pareciam fantasmagóricos. Os bancos pareciam sussurrar ninguém mais vai sentar na gente. Os grandes açucareiros à moda antiga pareciam sussurrar de volta ninguém se servirá conosco outra vez... a festa acabou.
— Abram caminho para a L. L. Bean — disse eu.
— É verdade — respondeu Al. — A merda da marcha do progresso.
Ele estava sem fôlego, ofegante, mas não parou para descansar. Levou-me por trás do balcão até a porta da despensa. Fui atrás, passando de uma mão para a outra a pasta com a minha nova vida dentro. Era do tipo antigo, com fivelas. Se eu entrasse com ela na minha sala de aula da LHS, a maioria dos garotos riria. Alguns, aqueles com senso de estilo nascente, talvez aplaudissem a moda retrô.
Al abriu a porta para os cheiros de legumes, temperos, café. Mais uma vez estendeu a mão por trás do meu ombro para acender a luz. Fitei o chão de linóleo cinzento do mesmo modo que um homem fita uma piscina que pode estar cheia de tubarões famintos, e quando Al me deu um tapinha no ombro, pulei.
— Desculpe — disse ele —, mas você tem de levar isso. — Ele segurava uma moeda de meio dólar. Cinquentinha. — O Homem do Cartão Amarelo, lembra-se dele?
— Claro que lembro. — Na verdade, eu esquecera tudo sobre ele. O meu coração batia com tanta força que o globo ocular parecia pulsar na órbita. A língua tinha gosto de tapete velho, e quando ele me entregou a moeda, quase a deixei cair.
Ele me deu um olhar crítico final.
— Os jeans estão bons por enquanto, mas é bom você dar uma passada na Mason’s Menswear, no norte da rua Principal, e arranjar umas calças sociais antes de ir para o norte. Lãzinha ou sarja cáqui são boas para o dia a dia. Ban-Lon para ocasiões sociais.
— Ban-Lon?
— Basta pedir, eles sabem. Você também vai precisar de camisas sociais. Finalmente, um terno. E algumas gravatas e um prendedor. Compre um chapéu, também. Não um boné de beisebol, um bom panamá.
Havia lágrimas vazando pelo canto dos olhos dele. Isso me assustou mais profundamente do que tudo o que ele dissera.
— Al? Qual é o problema?
— Só estou apavorado, tanto quanto você. Mas não há necessidade de nenhuma cena sentimental de despedida. Se voltar, estará aqui em dois minutos, não importa quanto tempo fique em 1958. É só o tempo suficiente de ligar a máquina de café. Se der certo, tomaremos uma bela xícara juntos e você pode me contar tudo.
Se. Que palavra grande.
— Você pode rezar, também. Haverá tempo para isso, não é?
— Claro. Vou rezar para tudo dar certíssimo. Não fique tonto demais com o lugar onde está e não se esqueça de que está lidando com um homem perigoso. Mais perigoso do que Oswald, talvez.
— Vou tomar cuidado.
— Tudo bem. Fique de boca fechada o máximo que puder até pegar o jeitão e a linguagem do lugar. Vá devagar. Não faça marola.
Tentei sorrir, mas não sei se consegui. A pasta parecia pesadíssima, como se estivesse cheia de pedras em vez de dinheiro e identidade falsa. Achei que ia desmaiar. Ainda assim, que Deus me ajude, uma parte minha ainda queria ir. Mal podia esperar para ir. Queria ver o país no meu Chevrolet; os Estados Unidos me pediam para ligar.
Al estendeu a mão magra e trêmula.
— Boa sorte, Jake. Deus te abençoe.
— George, né?
— George, isso. Agora vá. Como diziam na época, está na hora de dar no pé.
Virei-me e entrei devagar na despensa, me movendo como quem tenta localizar o alto da escada com a luz apagada.
No terceiro passo, achei.
1 Referência ao conto “The Devil and Daniel Webster” (1937), do escritor Stephen Vincent Benét (1898-1943). Daniel Webster (1782-1852) foi um advogado e político americano famoso pela oratória e, no conto, defende um fazendeiro que vendeu a alma ao diabo. (N. da T.)