Novembro de 63
Capítulo 30
1
Desci do meu último Greyhound na rodoviária da avenida Minot, em Auburn, no Maine, pouco depois do meio-dia de 26 de novembro. Após mais de oitenta horas viajando quase sem parar, aliviadas apenas por curtos intervalos de sono, eu me sentia como uma invenção imaginária minha. Fazia frio. Deus limpava a garganta e, de um céu cinza sujo, cuspia uma neve casual. Eu comprara calças jeans e duas camisas de cambraia azul mescla para substituir o branco-cozinha, mas essas roupas não bastavam. Eu esquecera o tempo do Maine durante a minha estada no Texas, mas o meu corpo recordou apressado e começou a tremer. A minha primeira parada foi a Louie’s for Men, onde encontrei um casaco forrado de pelo de ovelha do meu tamanho e o levei até o vendedor.
Ele baixou o seu exemplar do Lewiston Sun para me atender, e vi a minha foto — é, aquela do livro do ano da DCHS — na primeira página. ONDE ESTÁ GEORGE AMBERSON?, perguntava a manchete. O vendedor registrou a venda e me rabiscou uma notinha. Cutuquei a minha foto.
— O que acha que aconteceu com esse sujeito?
O vendedor me olhou e deu de ombros.
— Ele não quer publicidade e acho que está certo. Amo demais a minha mulher e, se ela morresse de repente, não ia querer ninguém tirando a minha foto pro jornal nem pondo a minha fuça chorosa na TV. E você?
— Não — respondi —, acho que não.
— Se eu fosse esse sujeito, só apareceria de novo em 1970. Deixava o tumulto amainar. Que tal um belo gorro para combinar com o casaco? Tenho uns de flanela que chegaram ontem mesmo. A proteção das orelhas é boa e grossa.
Então, comprei um gorro para combinar com o casaco novo. Depois, manquei dois quarteirões de volta à rodoviária, balançando a mala na ponta do meu braço bom. Parte minha queria ir a Lisbon Falls naquele exato minuto e me assegurar de que a toca de coelho ainda estava lá. Mas, se estivesse, eu a usaria, não seria capaz de resistir, e depois de cinco anos na Terra de Antigamente, a minha parte racional sabia que eu não estava pronto para a força total do ataque daquela que, na minha cabeça, se tornara a Terra do Depois. Precisava primeiro de descanso. Descanso de verdade, não cochilar numa poltrona de ônibus enquanto crianças pequenas choravam e homens meio bêbados riam.
Havia quatro ou cinco táxis parados no meio-fio, na neve que agora regirava em vez de apenas ser cuspida. Entrei no da frente, apreciando o sopro quente do aquecedor. O motorista se virou, um sujeito gordo com um emblema dizendo UNIFORME APROVADO no boné surrado. Era um estranho total para mim, mas eu sabia que, quando ligasse o rádio, estaria sintonizado na WJAB de Portland, e quando tirasse o cigarro do bolso da camisa, seriam Lucky Strikes. O que vai, volta.
— Pra onde, chefe?
Eu lhe disse que me levasse ao Tamarack Motor Court, na 196.
— É pra já.
Ele ligou o rádio e pegou os Miracles cantando Mickey’s Monkey.
— Ah, essas danças modernas! — resmungou, pegando o maço de cigarros. — Só fazem ensinar os garotos a rebolar e se sacudir.
— Dançar é viver — disse eu.
2
A recepcionista era outra, mas me deu o mesmo quarto. É claro que daria. A diária era um pouco mais cara e a velha TV fora substituída por outra mais nova, mas o mesmo letreiro estava encostado à antena em cima: NÃO USE “PAPEL-ALUMÍNIO!” A recepção ainda era uma merda. Não havia noticiários, só novelas.
Desliguei. Pus na porta a placa NÃO PERTURBE. Fechei as cortinas. Depois me despi e me enfiei na cama, na qual, sem contar uma ida onírica ao banheiro para aliviar a bexiga, dormi 12 horas. Quando acordei, estava no meio da noite, faltava luz e um forte vento noroeste soprava lá fora. Uma brilhante lua crescente subia alta no céu. Peguei no armário o segundo cobertor e dormi mais cinco horas.
Quando acordei, a aurora iluminava o Tamarack Motor Court com os tons e sombras claros de uma fotografia da National Geographic. Havia gelo nos carros estacionados diante de algumas unidades e dava para ver a minha respiração. Experimentei o telefone, sem esperar nada, mas um rapaz na recepção atendeu prontamente, embora ainda soasse semiadormecido. Claro, disse ele, os telefones funcionavam e ele teria o máximo prazer de me chamar um táxi; aonde eu queria ir?
Lisbon Falls, respondi. Esquina da Principal com a Estrada Velha de Lewiston.
— A Fruit? — perguntou ele.
Eu estivera longe tanto tempo que por um instante não entendi. Então a ficha caiu.
— Isso mesmo. A Kennebec Fruit.
Voltando pra casa, disse a mim mesmo. Que Deus me ajude, estou voltando pra casa.
Só que estava errado: 2011 não era casa e eu só ficaria lá pouco tempo — isto é, supondo que conseguisse chegar lá. Talvez minutos, apenas. Agora, Jodie era casa. Ou seria, quando Sadie chegasse lá. Sadie, a virgem. Sadie, com as pernas compridas, o cabelo comprido e a tendência a tropeçar em tudo que estivesse no caminho... só que, no momento crítico, fora eu que caíra.
Sadie, com o rosto sem marcas.
Ela era casa.
3
O motorista de táxi daquela manhã era uma cinquentona de compleição sólida, envolta numa velha parca preta, e o boné que usava era do Red Sox em vez de ter uma insígnia dizendo UNIFORME APROVADO. Quando entramos à esquerda na 196, na direção de Lisbon Falls, ela perguntou:
— Já ouviu a notícia? Aposto que não... tá sem luz pra lá, né?
— Que notícia? — perguntei, embora uma certeza assustadora já se insinuasse nos meus ossos. Kennedy estava morto. Eu não sabia se fora um acidente, um enfarte ou um homicídio, afinal de contas, mas estava morto. O passado era obstinado e Kennedy estava morto.
— Terremoto em Los Angeles. — Ela pronunciou Las Angeliis. — Tem anos que todo mundo fala que a Califórnia ia acabar caindo no oceano, e sei lá, parece que tinham razão. — Ela balançou a cabeça. — Não vou dizer que é por causa do jeito frouxo que eles vivem, aquelas estrelas de cinema e tal, mas sou uma boa batista e não vou dizer que não é.
Agora passávamos pelo Lisbon Drive-In. FECHADO DURANTE O INVERNO, dizia o letreiro. ESPERAMOS VOCÊ COM MUITO MAIS EM 64!
— Foi muito grave?
— Estão dizendo que tem sete mil mortos, mas quando a gente escuta um número desses já sabe que vai subir. A maioria das malditas pontes caiu, as estradas estão destruídas e tem fogo por toda parte. Parece que a parte da cidade onde moram os negros se queimou todinha. Warts! (Verrugas!) Isso lá é nome de bairro? Quer dizer, mesmo um bairro de gente preta? Verrugas! Humpf!
Não respondi. Pensava em Trapos, o nosso filhote quando eu tinha 9 anos e ainda morava no Wisconsin. Eu podia brincar com ele no quintal de manhã antes que o ônibus da escola chegasse. Estava ensinando ele a sentar, buscar, rolar, coisas assim, e ele estava aprendendo — cachorrinho esperto! Eu gostava muito dele.
Quando o ônibus chegava, eu tinha de fechar o portão do quintal antes de correr para embarcar. Trapos sempre se deitava no degrau da cozinha. A minha mãe o chamava e lhe servia o café da manhã depois que voltava de levar o meu pai à estação ferroviária local. Eu sempre me lembrava de fechar o portão — ou pelo menos não me lembro de ter esquecido de fechar —, mas um dia, quando voltei da escola, a minha mãe me disse que Trapos morrera. Fora para a rua e um caminhão de entrega o atropelara. Ela nunca me repreendeu com a boca, nenhuma vez, mas me repreendeu com os olhos. Porque ela também amava Trapos.
— Eu o fechei como sempre — disse eu, entre lágrimas, e, como já disse, acredito que fechei. Talvez porque sempre tivesse fechado. Naquela noite, eu e papai o enterramos no quintal. Provavelmente não é permitido, disse papai, mas não conto a ninguém se você não contar.
Fiquei muito, muito tempo acordado naquela noite, perseguido pelo que não conseguia lembrar e apavorado com o que poderia ter feito. Sem falar em culpa. Aquela culpa ficou muito tempo comigo, um ano ou mais. Se eu tivesse me lembrado com certeza, de um modo ou de outro, tenho certeza de que ela teria me deixado mais depressa. Mas não conseguia. Tinha fechado o portão ou não? Várias vezes eu direcionava a mente para a última manhã do meu cachorrinho e não conseguia me lembrar de nada com clareza, a não ser de agitar a sua tira de couro e gritar: “Busca, Trapos, busca!”
Foi assim na viagem de táxi até Lisbon Falls. Primeiro tentei me dizer que sempre houvera um terremoto no final de novembro de 1963. Era apenas um daqueles factoides — como a tentativa de assassinar Edwin Walker — que eu esquecera. Como dissera a Al Templeton, eu me formara em inglês, não em história.
Não dava certo. Se um terremoto daqueles tivesse acontecido nos Estados Unidos em que eu vivera antes de descer pela toca de coelho, eu teria sabido. Houve desastres muito maiores — o tsunami no oceano Índico em 2004 matara mais de duzentas mil pessoas —, mas sete mil era um número grande para os Estados Unidos, mais do dobro das baixas ocorridas em 11 de Setembro.
Depois me perguntei como o que eu fizera em Dallas poderia ter causado o que essa mulher robusta afirmara ter acontecido em Los Angeles. A única resposta que encontrei foi o efeito borboleta, mas como poderia acontecer tão depressa ? Sem chance. De jeito nenhum. Não havia nenhuma série concebível de causas e efeitos entre os dois eventos.
Ainda assim, uma parte lá no fundo da minha cabeça sussurrou: Você fez isso. Você causou a morte de Trapos porque deixou o portão do quintal aberto ou não o fechou direito... e causou isso. Você e Al vieram com um blá-blá-blá muito nobre sobre salvar milhares de vidas no Vietnã, mas essa é a sua primeira contribuição real à Nova História: 7 mil mortos em Los Angeles.
Simplesmente não podia ser. Mesmo que fosse...
Não há lado ruim, dissera Al. Se der merda, basta voltar e consertar. Fácil como apagar um palavrão do quadro-neg...
— Moço? — disse a motorista. — Chegamos. — Ela se virou para me olhar com curiosidade. — Já estamos aqui há quase três minutos. Mas é um pouco cedo para compras. Tem certeza de que é aqui que o senhor quer ficar?
Eu só sabia que era ali que eu tinha de ficar. Paguei o que estava no taxímetro, acrescentei uma gorjeta generosa (afinal de contas, era dinheiro do FBI), desejei-lhe um bom dia e desci.
4
Lisbon Falls estava fedorenta como sempre, mas pelo menos havia luz; o sinal luminoso do cruzamento piscava ao balançar com o vento noroeste. A Kennebec Fruit estava às escuras, a vitrine da frente ainda vazia de maçãs, laranjas e bananas que ali seriam exibidas mais tarde. A placa pendurada na porta da frente verde dizia ABRIMOS ÀS 10 HORAS. Alguns carros andavam pela rua Principal e alguns pedestres passavam correndo com a gola do casaco erguida. No entanto, do outro lado da rua, a fábrica Worumbo funcionava a toda. Dava para ouvir o chont-HUUCH, chont-HUUCH dos teares, mesmo de onde eu estava. Então ouvi outra coisa: alguém me chamava, embora não por nenhum dos meus nomes.
— Jimla! Ei, Jimla!
Virei-me para a fábrica, pensando: Ele voltou. O Homem do Cartão Amarelo voltou dos mortos, que nem o presidente Kennedy.
Só que não era o Homem do Cartão Amarelo, assim como o motorista do táxi que me pegara na rodoviária não era o mesmo que me levara de Lisbon Falls para o Tamarack Motor Court em 1958. Só que os dois motoristas eram quase iguais, porque o passado se harmoniza, e o homem do outro lado da rua se parecia com o que me pedira um dólar porque era dia de grana dupla na fachada verde. Era muito mais novo que o Homem do Cartão Amarelo e o seu sobretudo preto estava mais novo e mais limpo... mas era quase o mesmo casaco.
— Jimla! Venha cá! — Ele acenou. O vento agitou a bainha do sobretudo; fez a placa à esquerda dele balançar na corrente do mesmo jeito que o sinal luminoso balançava no seu fio. Mas eu ainda conseguia ler: PASSAGEM PROIBIDA ALÉM DESTE PONTO ATÉ CONSERTO DO CANO DE ESGOTO .
Cinco anos , pensei, e esse ridículo cano de esgoto anda está rompido.
— Jimla! Não me faça ir até aí buscá-lo!
Provavelmente ele poderia; o seu antecessor suicida fora capaz de chegar até a fachada verde. Mas tive certeza de que, se eu mancasse pela Estrada Velha de Lewiston com velocidade suficiente, essa nova versão teria pouca chance. Talvez conseguisse me seguir até o supermercado Red & White, onde Al comprava a sua carne; mas se eu chegasse ao Chevron do Titus ou ao Alegre Elefante Branco, poderia dar meia-volta e lhe mostrar a língua. Ele estava preso perto da toca de coelho. Caso contrário, eu o teria visto em Dallas. Disso eu tinha tanta certeza quanto de que a gravidade impede a gente de flutuar para o espaço.
Como se quisesse confirmar, ele gritou:
— Jimla, por favor! — O desespero que vi no seu rosto era como o vento: tênue, mas de certo modo implacável.
Olhei o trânsito dos dois lados, não vi nada e atravessei a rua até onde ele estava. Quando me aproximei, vi mais duas diferenças. Como o antecessor, ele usava um chapéu fedora, só que limpo em vez de imundo. E, como o antecessor, um cartão colorido saía da faixa do chapéu como um passe de repórter à moda antiga. Só que esse não era amarelo, alaranjado nem preto.
Era verde.
5
— Graças a Deus — disse ele. Pegou uma das minhas mãos nas dele e a apertou. A carne das palmas dele estava quase tão fria quanto o ar. Afastei-me dele, mas com gentileza. Não senti perigo nele, só aquele desespero tênue e insistente. Embora em si isso pudesse ser perigoso; podia ser tão afiado quanto a lâmina da faca que John Clayton usara no rosto de Sadie.
— Quem é você? — perguntei. — E por que me chama de Jimla? Jim LaDue está muito longe daqui, moço.
— Não sei quem é Jim LaDue — disse o Homem do Cartão Verde. — Fiquei afastado da sua corda o máximo...
Ele parou. O rosto se contorceu. O lado das mãos subiu até as têmporas e pressionou ali, como se quisesse manter os miolos lá dentro. Mas foi o cartão preso na faixa do chapéu que mais me atraiu a atenção. A cor não estava inteiramente fixa. Por um instante ela regirou e oscilou, me fazendo lembrar o protetor de tela que toma conta do meu computador depois de uns quinze minutos ocioso. O verde espiralou num amarelo-canário claro. Então, quando ele baixou as mãos devagar, voltou a ser verde. Mas talvez um verde menos vivo do que quando o vi pela primeira vez.
— Fiquei longe da sua corda o máximo possível — disse o homem de sobretudo preto —, mas não foi totalmente possível. Além disso, agora há muitas cordas. Graças a você e ao seu amigo cozinheiro, há muito lixo.
— Não entendo nada disso — disse eu, mas não era bem verdade. Eu conseguia pelo menos imaginar o que era o cartão que esse homem (e o seu antecessor cachaceiro) usava. Era como os crachás usados por quem trabalhava em usinas nucleares. Só que, em vez de medir a radiação, os cartões monitoravam... o quê? A sanidade? Verde, todos os parafusos no lugar. Amarelo, alguns começavam a se soltar. Alaranjado, chamem os homens de branco. E quando o cartão ficava preto...
O Homem do Cartão Verde me observava com atenção. Do outro lado da rua, parecia não ter mais de 30 anos. Ali, parecia mais próximo dos 45. Só que, quando a gente chegava perto a ponto de olhar os olhos dele, parecia mais velho do que as eras e não muito certo da cabeça.
— Você é um tipo de guardião? Toma conta da toca de coelho?
Ele sorriu... ou tentou.
— Era assim que o seu amigo dizia. — Do bolso, ele tirou um maço de cigarros. Não tinha rótulo. Era algo que eu nunca vira, nem na Terra de Antigamente nem na Terra do Depois.
— Essa é a única?
Ele puxou um isqueiro, pôs as mãos em concha para evitar que o vento apagasse a chama e acendeu a ponta do cigarro. O cheiro era doce, mais parecido com maconha do que com tabaco. Mas não era maconha. Embora ele nunca tenha dito, acho que era algo medicinal. Talvez não muito diferente do meu pozinho Goody’s contra dor de cabeça.
— Há algumas. Pense num copo de refrigerante largado e esquecido.
— Tudo bem...
— Dois ou três dias depois, todo o gás se foi, mas ainda restam algumas bolhas. O que você chama de toca de coelho não é nenhuma toca. É uma bolha. Quanto a tomar conta... não. Não mesmo. Seria legal, mas há muito pouco que possamos fazer que não piore a situação. Esse é o problema de viajar no tempo, Jimla.
— O meu nome é Jake.
— Ótimo. O que fazemos, Jake, é observar. Às vezes avisamos. Como Kyle tentou avisar o seu amigo cozinheiro.
Então o maluco tinha nome. Um nome perfeitamente normal. Kyle, pelo amor de Deus. Isso piorou a situação, porque os deixou mais reais.
— Ele nunca tentou avisar Al! Ele só pedia um dólar para comprar vinho barato!
O Homem do Cartão Verde tragou o cigarro e olhou o concreto rachado, franzindo a testa como se houvesse algo escrito lá. Chont-HUUCH, chont-HUUCH, disseram os teares.
— No começo, tentou sim — disse ele. — Do jeito dele. O seu amigo ficou empolgado demais com o mundo novo que encontrara para prestar atenção. E naquela época Kyle já estava cambaleando. É um... como vocês dizem? Um risco ocupacional. O que fazemos provoca enorme pressão mental. Sabe por quê?
Fiz que não.
— Pense um instante. Quantas pequenas explorações e viagens de compras o seu amigo cozinheiro fez antes de ter a ideia de ir a Dallas impedir Oswald? Cinquenta? Cem? Duzentas?
Tentei me lembrar de quanto tempo a lanchonete do Al ficara no terreno da fábrica e não consegui.
— Provavelmente até mais do que isso.
— E o que ele lhe disse? Que toda viagem era a primeira vez?
— Isso. Um recomeço do zero.
Ele deu um riso cansado.
— Claro que sim. Todos acreditam no que veem. Ainda assim, ele deveria saber. Você deveria saber. Cada viagem cria a sua própria corda, e quando há cordas suficientes, elas se embaralham. Será que passou pela cabeça do seu amigo por que podia comprar a mesma carne várias vezes? Ou por que as coisas que levava de 1958 nunca sumiam quando fazia a viagem seguinte?
— Eu lhe perguntei isso. Ele não sabia, então deixou pra lá.
Ele começou a sorrir, mas o sorriso virou careta. O verde começou a desbotar mais uma vez no cartão preso no chapéu. Ele deu uma tragada profunda no cigarro de cheiro doce. A cor voltou e se firmou.
— É, ignorava o óbvio. É o que todos fazemos. Mesmo depois que a sanidade começou a cambalear, é claro que Kyle sabia que as idas àquela loja de bebidas pioravam a sua situação, mas mesmo assim continuou. Não posso condená-lo; tenho certeza de que o vinho aliviava a dor. Principalmente no final. Toda situação poderia ter sido melhor se ele não conseguisse chegar à loja de bebidas; se ela ficasse fora do círculo, mas não ficava. E, na verdade, quem poderia saber? Não há culpa aqui, Jake. Nenhuma condenação.
Isso era bom de escutar, mas só porque significava que podíamos conversar sobre esse tema lunático como homens quase racionais. Não que os sentimentos dele tivessem muita importância para mim, de qualquer modo; eu ainda tinha de fazer o que tinha de fazer.
— Como você se chama?
— Zack Lang. De Seattle, originalmente.
— Seattle quando?
— Essa é uma pergunta sem relevância para a atual discussão.
— Faz mal a você estar aqui, não faz?
— Faz. A minha sanidade não vai durar muito tempo se eu não voltar. E os efeitos residuais ficarão comigo para sempre. Alta taxa de suicídio entre nós, Jake. Altíssima. Os homens — e somos homens, não seres sobrenaturais nem de outro planeta, se for o que você está pensando — não são feitos para manter na cabeça múltiplas cordas da realidade. Não é como usar a imaginação. Não tem nada a ver com isso. É claro que temos treinamento, mas ainda dá para sentir essa coisa nos comendo. Como ácido.
— Então cada viagem não é um recomeço do zero.
— É e não é. Elas deixam resíduos. Toda vez que o seu amigo cozinheiro...
— O nome dele era Al.
— Isso, suponho que eu já sabia, mas a minha memória começou a se desfazer. É como doença de Alzheimer, só que não é Alzheimer. É porque o cérebro não consegue conciliar todas essas finas camadas de realidade. As cordas criam imagens múltiplas do futuro. Algumas são nítidas, a maioria é nebulosa. Provavelmente foi por isso que Kyle achou que o seu nome era Jimla. Deve ter escutado esse nome numa das cordas.
Ele não o escutou, pensei. Ele o viu em algum tipo de Cordorama. Num outdoor no Texas. Talvez até através dos meus olhos.
— Você não sabe a sorte que tem, Jake. Para você, viajar no tempo é simples.
Nem tão simples assim, pensei.
— Houve paradoxos — disse eu. — De todo tipo. Não houve?
— Não, esse não é o nome certo. São resíduos. Eu não acabei de lhe dizer? — Ele parecia francamente não ter certeza. — Eles engripam a máquina. Finalmente, chega uma hora em que a máquina simplesmente... para.
Pensei no motor que explodira no Studebaker que eu e Sadie roubamos.
— Comprar carne várias vezes em 1958 não era muito ruim — disse Zack Lang. — Ah, provocava problemas mais à frente, mas era suportável. Então começaram as grandes mudanças. Salvar Kennedy foi a maior de todas.
Tentei falar e não consegui.
— Está começando a entender?
Não inteiramente, mas dava para ver o contorno geral, que me deixou absolutamente apavorado. O futuro estava nas cordas. Como um títere. Bom Deus.
— O terremoto... Eu o causei mesmo. Quando salvei Kennedy, eu... o quê? Rompi o contínuo espaço-tempo? — Isso devia ter soado estúpido, mas não. Soou seriíssimo. A minha cabeça começou a latejar.
— Você precisa voltar agora, Jake. — Ele falava suavemente. — Precisa voltar e ver exatamente o que fez. O que todo o seu trabalho duro e, sem dúvida, bem-intencionado produziu.
Eu não disse nada. Tinha me preocupado com a volta, mas agora também tinha medo. Haverá frase mais agourenta do que precisa ver exatamente o que fez? Não consegui pensar em nenhuma.
— Vá. Dê uma olhada. Fique um pouco. Mas só um pouco. Se não for endireitado logo, haverá uma catástrofe.
— De que tamanho?
Ele falou com calma.
— Pode destruir tudo.
— O mundo? O sistema solar? — Tive de encostar a mão na lateral do barracão de secagem para me manter de pé. — A galáxia? O universo?
— Mais do que isso. — Ele fez uma pausa, querendo se assegurar de que eu entendera. O cartão no chapéu espiralou, ficou amarelo, espiralou de volta para o verde. — A própria realidade.
6
Andei até a corrente. A placa que dizia PASSAGEM PROIBIDA ALÉM DESTE PONTO ATÉ CONSERTO DO CANO DE ESGOTO guinchava no vento. Olhei de novo para Zack Lang, aquele viajante sabe-se lá de quando. Ele me olhou sem expressão, a bainha do sobretudo preto adejando em torno das canelas.
— Lang! As harmonias! Eu provoquei todas elas. Não foi?
Ele pode ter feito que sim. Não tenho certeza.
O passado combatia a mudança porque ela era destrutiva para o futuro. A mudança criava...
Pensei num antigo anúncio das fitas Memorex. Mostrava um copo de cristal se esfacelando com vibrações sonoras. Por pura harmonia.
— E a cada mudança que eu conseguia fazer, essas harmonias aumentavam. Esse é o verdadeiro perigo, não é? A merda dessas harmonias.
Nenhuma resposta. Talvez soubesse e tivesse esquecido; talvez nunca tivesse sabido.
Calma, disse a mim mesmo... como dissera cinco anos antes, quando os primeiros fios grisalhos ainda não tinham aparecido no meu cabelo. É só ir com calma.
Passei debaixo da corrente, o joelho esquerdo dando gritinhos, depois parei um segundo com a alta lateral verde do barracão de secagem à minha esquerda. Dessa vez, não havia pedaço de concreto para marcar o lugar onde começava a escada invisível. A que distância da corrente ficava? Não conseguia me lembrar.
Andei devagar, devagar, os sapatos se arrastando no concreto rachado. Chont-HUUCH, chont-HUUCH, diziam os teares... e então, quando dei o sexto passo e o sétimo, o som mudou para muito-LONGE, muito-LONGE. Dei outro passo. Mais outro. Logo chegaria ao fim do barracão de secagem e estaria no pátio mais além. Sumira. A bolha explodira.
Dei mais um passo e, embora não houvesse degrau, por um instante vi o meu sapato em dupla exposição. Ele estava no concreto, mas também estava num linóleo verde sujo. Dei outro passo e eu era uma dupla exposição. A maior parte do meu corpo estava em pé ao lado do barracão de secagem da fábrica Worumbo no final de novembro de 1963, mas parte minha estava em outro lugar que não era a despensa do Al’s Diner.
E se eu não saísse no Maine, nem mesmo na Terra, mas em alguma outra dimensão estranha? Algum lugar com um céu vermelho maluco e um ar que envenenaria os meus pulmões e faria o meu coração parar?
Olhei para trás de novo. Lang estava lá com o casaco açoitado pelo vento. Ainda não havia expressão nenhuma no seu rosto. Você está por sua conta e risco , parecia dizer o rosto vazio. Não posso obrigá-lo a fazer nada.
Era verdade, mas a menos que eu passasse pela toca de coelho rumo à Terra do Depois, não seria capaz de voltar à Terra de Antigamente. E Sadie ficaria morta para sempre.
Fechei os olhos e consegui dar mais um passo. De repente, senti um leve cheiro de amônia e algum outro mais desagradável. Depois de atravessar o país nos fundos de um monte de ônibus Greyhound, aquele segundo cheiro era inconfundível. Era o aroma nada cativante de um banheiro minúsculo que precisava de muito mais do que aromatizador de ambiente Glade na parede para adoçá-lo.
De olhos fechados, dei mais um passo e ouvi aquele estranho som estalado dentro da cabeça. Abri os olhos. Estava num banheiro pequeno e imundo. Não havia vaso sanitário; fora removido, deixando apenas a sombra suja da base. Um desodorizante velho para mictório, que da cor azul vivo de funcionamento desbotara para um cinza apático, jazia no canto. Formigas marchavam de um lado para o outro em cima dele. O canto onde eu saíra estava fechado por caixas de papelão cheias de garrafas e latas vazias. Lembrou-me o ninho de atirador de Lee.
Empurrei algumas caixas e abri caminho para o pequeno cômodo. Parti para a porta e depois reempilhei as caixas. Não fazia sentido facilitar que alguém tropeçasse na toca de coelho por engano. Então, saí de volta em 2011.
7
Estava escuro na última vez que entrara na toca de coelho, então é claro que estava escuro agora, porque era apenas dois minutos depois. Mas muita coisa mudara naqueles dois minutos. Dava para ver até na escuridão. Em algum momento dos últimos quarenta e oito anos, a fábrica pegara fogo. Só restavam algumas paredes enegrecidas, uma chaminé caída (que me lembrou, inevitavelmente, aquela que eu vira no terreno da Metalúrgica Kitchener, em Derry) e várias pilhas de escombros. Não havia sinal de Your Maine Snuggery, L. L. Bean Express nem nenhuma outra loja chique. Ali estava uma fábrica em ruínas às margens do Androscoggin. Nada mais.
Na noite de junho em que eu partira rumo aos cinco anos da minha missão de salvar Kennedy, a temperatura era agradavelmente amena. Agora estava um calor de rachar. Tirei o casaco forrado de pelo de ovelha que comprara em Auburn e o joguei no banheiro malcheiroso. Quando fechei a porta de novo, vi a placa: BANHEIRO ENGUIÇADO! SEM VASO!!! CANO DE ESGOTO ROMPIDO!!!
Presidentes jovens e bonitos morriam e presidentes jovens e bonitos viviam, mulheres jovens e bonitas viviam e depois morriam, mas aparentemente o cano de esgoto rompido debaixo do pátio da antiga fábrica Worumbo era eterno.
A corrente também estava lá. Andei até ela pelo flanco do velho e sujo edifício de cimento que substituíra o barracão de secagem. Quando passei debaixo da corrente e dei a volta até a frente do prédio, vi uma loja de conveniência abandonada chamada Quik-Flash. As vitrines estavam quebradas e todas as prateleiras tinham sido removidas. O lugar era apenas uma casca onde uma luz de emergência, a bateria quase esgotada, zumbia como uma mosca moribunda contra uma vidraça no inverno. Havia pichações pintadas com tinta spray nos restos de assoalho e luz apenas suficiente para ler: SAIA DA CIDADE SEU PAQUISTANÊS FILHO DA MÃE.
Atravessei o concreto quebrado do pátio. O terreno onde antes os operários estacionavam sumira. Nada fora construído ali; era apenas um retângulo vazio cheio de garrafas quebradas, peças de quebra-cabeça de asfalto velho e touceiras inermes de capim cortado. Camisinhas usadas pendiam de algumas como antigas serpentinas. Ergui os olhos para as estrelas e não vi nenhuma. O céu estava coberto de nuvens baixas, finas apenas o suficiente para permitir que um pouco de luar vago se insinuasse. O sinal luminoso do cruzamento da rua Principal com a rodovia 196 (antes conhecida como Estrada Velha de Lewiston) fora substituído em algum momento por um semáforo, mas estava apagado. Tudo bem; não havia tráfego em nenhuma direção.
A Fruit sumira. Havia um buraco de porão onde existira. Do outro lado, onde em 1958 ficava a fachada verde e em 2011 deveria haver um banco, estava algo chamado Cooperativa de Alimentos da Província do Maine. Só que as janelas também estavam quebradas, e toda mercadoria que pudesse haver lá dentro sumira há muito tempo. O lugar estava tão estripado quanto o Quik-Flash.
A meio caminho do cruzamento deserto, um som alto, rasgado e aquoso me deixou paralisado. A única coisa que eu podia imaginar fazendo um barulho daqueles era algum tipo de exótico avião de gelo, derretendo ao romper a barreira do som. O chão debaixo dos meus pés tremeu brevemente. Um alarme de carro arrotou e parou. Cães latiram e depois se calaram, um a um.
Terremoto em Las Angeliis, pensei. Sete mil mortos.
Faróis se derramaram pela rodovia 196 e me apressei rumo à outra calçada. O veículo era um onibusinho quadrado com ROTATÓRIA escrito no letreiro iluminado do destino. Isso fez um sino soar baixinho, não sei por quê. Alguma harmonia, suponho. No teto do ônibus havia vários aparelhos giratórios que se pareciam com ventiladores. Turbinas de vento, talvez? Seria possível? Não havia som de motor de combustão, só um leve zumbido elétrico. Observei até o crescente largo da única luz de ré sumir de vista.
Tudo bem, então os motores a gasolina foram eliminados nessa versão do futuro — essa corda, para usar o termo de Zack Lang. Isso era bom, não era?
Talvez, mas o ar tinha um jeito pesado e meio morto quando eu o puxava para o pulmão, e havia um tipo de sensação olfativa posterior que me lembrou o cheiro do transformador do meu trem elétrico quando, ainda menino, eu o forçava demais. Hora de desligar e deixar descansar um pouco, dizia o meu pai.
Havia algumas lojas na rua Principal que pareciam estar meio funcionando, mas a maioria era um monte de escombros. A calçada estava rachada e cheia de lixo. Vi meia dúzia de carros estacionados, todos híbridos de gasolina e eletricidade ou equipados com os aparelhos giratórios no teto. Um deles era um Honda Zephyr; outro era um Takuro Spirit; um terceiro, um Ford Breeze. Pareciam velhos e alguns tinham sido depredados. Todos tinham adesivos cor-de-rosa no para-brisa com letras pretas grandes o suficiente para ler mesmo na penumbra: PROVÍNCIA DO MAINE ADESIVO “A” MOSTRE SEMPRE O TALÃO DE RACIONAMENTO .
Uma gangue de garotos estava à toa no outro lado da rua, rindo e conversando.
— Ei! — gritei para eles. — A biblioteca ainda está aberta?
Eles me olharam. Vi o piscar de vaga-lume dos cigarros... só que o cheiro que me chegou era maconha, quase com certeza.
— Vá se foder! — berrou um deles.
Outro se virou, baixou as calças, me mostrou a bunda.
— Se achar algum livro por lá, é todo seu!
Houve risos generalizados e eles saíram andando, falando em voz baixa e olhando para trás.
Não me importava que me mostrassem a bunda — não era a primeira vez — mas não gostei dos olhares, muito menos da voz baixa. Podia haver algo conspiratório lá. Jake Epping não acreditava muito nisso, mas George Amberson, sim; George passara por poucas e boas, e foi George que se abaixou, pegou dois pedaços de concreto do tamanho de punhos e os enfiou no bolso, só para dar sorte. Jake achou que era bobagem, mas não fez objeção.
Um quarteirão mais acima, o bairro comercial (do jeito que era) acabou de repente. Vi uma mulher idosa andando com pressa e dando olhares nervosos nos garotos, que agora estavam um pouco mais acima, do outro lado da Principal. Ela usava lenço e algo que parecia um respirador, do tipo que gente com doença pulmonar obstrutiva crônica ou enfisema avançado costuma usar.
— A senhora sabe se a biblioteca...
— Me deixe em paz! — Os olhos dela eram arregalados e medrosos. A lua brilhou rapidamente por uma fenda nas nuvens e vi que o rosto dela estava coberto de feridas. A que estava abaixo do olho direito parecia ter comido até o osso. — Tenho documentos que dizem que posso sair, tem selo do Conselho, portanto me deixe em paz! Vou visitar a minha irmã! Aqueles garotos já são bastante ruins, e logo vão começar a aprontar. Se me tocar, toco o zumbidor e um guarda vai aparecer!
De certo modo, duvidei disso.
— Senhora, só quero saber se a biblioteca ainda...
— Está fechada há anos e todos os livros sumiram! Agora fazem Reuniões de Ódio por lá. Me deixe em paz, já disse, senão chamo o guarda!
Ela saiu às pressas, olhando por sobre o ombro de tantos em tantos segundos para se certificar de que eu não ia atrás dela. Deixei que a distância entre nós fosse suficiente para que se sentisse confortável e depois continuei subindo a rua Principal. O meu joelho se recuperava um pouco do esforço de subir escadas no Book Depository, mas eu ainda mancava e mancaria por um bom tempo. Havia luz acesa atrás de cortinas fechadas em algumas casas, mas tive bastante certeza de que não era produzida pela Central Maine Power. Eram lampiões a gás, em alguns casos lampiões de querosene. A maioria das casas estava escura. Algumas eram ruínas carbonizadas. Havia uma suástica nazista numa das ruínas e as palavras RATO JUDEU pintadas com spray em outra.
Aqueles garotos já são bastante ruins, e logo vão começar a aprontar.
E... ela dissera mesmo Reuniões de Ódio?
Diante de uma das poucas casas que pareciam em bom estado — era uma mansão comparada à maioria delas — vi uma vara longa para amarrar cavalos, como nos filmes de faroeste. E cavalos de verdade tinham sido amarrados ali. Quando o céu clareou em outro daqueles espasmos difusos, vi os círculos de bosta, alguns frescos. A entrada tinha portão. A lua se encobrira de novo e não consegui ler a placa nas barras de ferro, mas não precisava ler para saber que dizia CAIA FORA.
Agora, lá na frente, ouvi alguém enunciar uma única palavra:
— Boceta!
Não soava jovem, como um dos meninos selvagens, e vinha do meu lado da rua, não do deles. O sujeito parecia irritadíssimo. Também parecia falar sozinho. Andei na direção da voz.
— Filho da puta! — gritou a voz, exasperada. — Cu de merda!
Ele devia estar um quarteirão mais acima. Antes de chegar lá, ouvi um barulho alto e metálico e a voz masculina gritou:
— Saiam daqui! Seus malditos filhosdaputa de nariz escorrendo! Saiam daqui antes que eu puxe a pistola!
Risos zombeteiros saudaram a frase. Eram os maconheiros aprontadores, e a voz que respondeu pertencia sem dúvida àquele que me mostrara a bunda.
— A única pistola que você tem é a que está aí dentro das calças, e aposto que o cano está bem mole!
Mais risos. Foram seguidos por um alto spannng metálico.
— Seus fodidos, vocês quebraram um dos meus raios! — Quando o homem gritou com eles de novo, a voz tinha um quê de medo relutante. — Não, não, fiquem do seu maldito lado!
As nuvens se abriram. A lua espiou. Com a sua luz incerta, vi um velho numa cadeira de rodas. Estava a meio caminho de uma das ruas que cruzavam a Principal — Goddard, se o nome não tivesse mudado. Uma das rodas estava presa num buraco, fazendo a cadeira se inclinar feito bêbada para a esquerda. Os meninos se cruzavam na frente dele. O garoto que mandara eu me foder segurava uma atiradeira com uma pedra de bom tamanho. Isso explicava os barulhos.
— Tem alguma granavelha, vovô? Aliás, tem grananova ou comida em lata?
— Não! Se não têm decência para me tirar desse buraco onde caí, pelo menos vão embora e me deixem em paz!
Mas eles estavam aprontando, e isso não fariam. Iam roubar-lhe a merdinha que por acaso tivesse, talvez surrá-lo, derrubá-lo com certeza.
Jake e George se uniram e ambos se enfureceram.
A atenção dos aprontadores estava fixa no velhote da cadeira de rodas e eles não me viram cruzar em diagonal na direção deles — assim como eu cruzara o sexto andar do School Book Depository. O braço esquerdo ainda não estava muito bom, mas o direito estava ótimo, fortalecido por três meses de fisioterapia, primeiro em Parkland, depois em Eden Fallows. E eu ainda tinha um pouco da pontaria que me fizera ocupar a terceira base no time de beisebol da escola secundária. Lancei o primeiro pedaço de concreto a nove metros de distância e peguei o Homem Bunda no centro do peito. Ele gritou de dor e surpresa. Todos os meninos — eram cinco — se viraram para mim. Quando o fizeram, vi que o rosto deles estava tão desfigurado quanto o da mulher assustada. O que tinha a atiradeira, o jovem Senhor Foda-se, era o pior. Só havia um buraco onde deveria estar o nariz.
Transferi o segundo pedaço de concreto da mão esquerda para a direita e o joguei no garoto mais alto, que usava calças enormes e largas com a cintura puxada até quase o esterno. Ele ergueu o braço para se defender. O concreto o atingiu, derrubando na rua o baseado que segurava. Ele deu uma olhada no meu rosto, girou e saiu correndo. O Homem Bunda o seguiu. Restavam três.
— Vá pra cima deles, filho! — guinchou o velho na cadeira de rodas. — Eles merecem, por Cristo!
Eu tinha certeza que sim, mas eram mais numerosos e a minha munição acabara. Quando se lida com adolescentes, a única maneira possível de vencer numa situação dessas é não demonstrar medo, só genuína ofensa adulta. A gente simplesmente continua avançando, e foi o que fiz. Com a mão direita, segurei o jovem Senhor Foda-se pela frente da camiseta esfarrapada e, com a esquerda, arranquei a atiradeira da sua mão. Ele me fitou de olhos arregalados e não resistiu.
— Seu titica — disse eu, pondo o rosto bem perto do dele, sem ligar para o nariz que não existia. Ele cheirava a suor, fumaça de baseado e profunda sujeira. — Que titica você tem na cabeça para perseguir um velho numa cadeira de rodas?
— Quem é vo...
— Charlie Fodido Chaplin. Fui à França só pra ver a contradança. Agora caiam fora daqui.
— Me devolva a minha...
Eu sabia o que ele queria e bati com ela no centro da testa dele. Fez uma das feridas sangrar e deve ter doído pra diabo, porque os olhos dele se encheram de lágrimas. Isso me deu nojo e me deixou com pena, mas tentei não demonstrar nenhum dos dois.
— Não vai receber nada, seu titica, a não ser a chance de cair fora daqui antes que eu arranque as bolas inúteis do seu saco doente e enfie as duas no buraco onde ficava o seu nariz. Uma chance só. Aproveite. — Inspirei fundo e berrei na cara dele, num jorro de barulho e cuspe: — Fora!
Observei a fuga deles, sentindo vergonha e exultação em partes quase iguais. O velho Jake fora ótimo para aquietar salas de aula turbulentas nas tardes de sexta-feira antes das férias, mas era até aí que ia o seu talento. Mas o novo Jake era meio George. E George passara por poucas e boas.
Detrás de mim veio um forte ataque de tosse. Pensei em Al Templeton. Quando parou, o velho disse:
— Colega, eu mijaria cinco anos de pedras do rim só para ver esses panacas desprezíveis porem sebo nas canelas desse jeito. Não sei quem você é, mas ainda tenho um pouco de Glenfiddich na minha despensa — o verdadeiro — e se você me tirar desse maldito buraco na rua e me empurrar até em casa, divido com você.
A lua sumira de novo, mas quando voltou pelas nuvens esfarrapadas vi o seu rosto. Ele tinha barba branca e comprida e uma cânula enfiada no nariz, mas, mesmo cinco anos depois, não tive dificuldade nenhuma de reconhecer o homem que me pusera nessa confusão.
— Olá, Harry — disse eu.