Novembro de 63
Quinta Parte - 22/11/63
QUINTA PARTE
22/11/63
CAPÍTULO 23
1
Do Morning News, de Dallas, 11 de abril de 1963 (página 1):
ATIRADOR TENTA MATAR WALKER
Eddie Hughes
Um atirador com um fuzil de alta potência tentou matar o general de brigada Edwin A.
Walker em sua casa na noite de quarta-feira, segundo a polícia, e, por menos de uma polegada, não acertou o controvertido ex-combatente.
Walker elaborava a sua declaração do imposto de renda às nove da noite quando a bala
entrou pela janela dos fundos e se cravou numa parede perto dele.
A polícia disse que, provavelmente, um leve movimento de Walker lhe salvou a vida. — Alguém tinha mirado com perfeição — disse o detetive Ira Van Cleave. — Quem
quer que fosse, sem dúvida pretendia matá-lo.
Walker tirou da manga direita vários fragmentos do revestimento do projétil e ainda
extraía do cabelo cacos de vidro e restos da bala quando os repórteres chegaram.
O general declarou que voltara ao lar em Dallas na segunda-feira, depois da primeira
palestra de uma série chamada “Operação Cavalgada da Meia-Noite”. Ele também contou aos repórteres...
Do Morning News, de Dallas, 12 de abril de 1963 (página 7):
DOENTE MENTAL FERE EX-ESPOSA E SE MATA
Mack Dugas
(JODIE) Na noite de quarta-feira, o diretor “Deke” Simmons, de 77 anos, chegou tarde
demais para salvar Sadie Dunhill de ser ferida, mas a situação poderia ter ficado muito pior para a conhecida bibliotecária de 28 anos da Denholm Consolidated School District.
De acordo com Douglas Reems, policial de Jodie, “se Deke não chegasse quando
chegou, é quase certo que a srta. Dunhill fosse assassinada”. Quando entrevistado pelos repórteres, Simmons só declarou: “Não quero falar sobre isso, já passou.”
De acordo com o policial Reems, Simmons dominou John Clayton, bem mais jovem, e
lhe arrancou o pequeno revólver. Clayton, então, puxou a faca com que ferira a ex-esposa e a usou para cortar a própria garganta. Simmons e outro homem, George Amberson, de Dallas, tentaram interromper a hemorragia, sem sucesso. Clayton foi declarado morto na cena do crime.
O sr. Amberson, ex-professor da escola distrital Denholm Consolidated que chegou
pouco depois de Clayton ser desarmado, não foi encontrado para entrevistas, mas, na cena do crime, disse ao policial Reems que Clayton, doente mental em tratamento, podia estar vigiando a ex-esposa há meses. A equipe da Denholm Consolidated High School fora avisada e a diretora Ellen Dockerty obteve uma fotografia, mas dizem que Clayton disfarçou a sua aparência.
A srta. Dunhill foi levada de ambulância para o Parkland Memorial Hospital, em
Dallas, onde o seu estado foi considerado estável.
2
Eu só consegui vê-la no sábado. Passei a maior parte das horas decorridas até lá na sala de espera, com um livro que não conseguia ler. O que era bom, porque tive muita companhia — a maioria dos professores da DCHS apareceu para ver como Sadie estava, assim como quase uma centena de alunos, os que não tinham carteira de motorista levados a Dallas pelos pais. Muitos ficaram para doar sangue e substituir as bolsas que Sadie usara. Logo a minha pasta estava lotada de cartões de boa recuperação e bilhetes preocupados. Havia flores suficientes para a sala das enfermeiras parecer uma estufa.
Achei que me acostumara a viver no passado, mas ainda assim me choquei com o quarto de Sadie no Parkland quando finalmente me permitiram entrar. Era um quarto individual, quente demais e quase do tamanho de um armário. Não havia banheiro; um feio vaso sanitário que só um anão conseguiria usar com conforto se acocorava no canto, com uma cortina de plástico semiopaco para puxar (e dar semiprivacidade). Em vez de botões para erguer e baixar a cama, havia uma manivela, a tinta branca desgastada por muitas mãos. É claro que não havia monitores mostrando sinais vitais gerados por computador nem televisor para o paciente.
Uma única garrafa de vidro com alguma coisa — talvez soro fisiológico — pendia de uma haste de metal. Um tubo ia dela até as costas da mão esquerda de Sadie, onde desaparecia debaixo de uma atadura volumosa.
Mas não tão volumosa quanto a que se enrolava no lado esquerdo da cabeça. Um feixe de cabelo fora cortado desse lado, dando-lhe uma aparência torta e castigada... e é claro que ela fora castigada. Os médicos tinham deixado uma fenda minúscula para o olho. Esse e o outro do lado não ferido nem enfaixado do rosto se abriram quando ela ouviu os meus passos e, embora estivesse dopada, aqueles olhos registraram um raio momentâneo de terror que me apertou o coração.
Então, cansada, ela virou o rosto para a parede.
— Sadie... querida, sou eu.
— Oi, eu — disse ela, sem se virar.
Toquei-lhe o ombro, que o avental deixara nu, e ela o afastou de mim.
— Por favor, não me olhe.
— Sadie, isso não importa.
Ela se virou para mim. Olhos tristes e carregados de morfina me olharam, um deles espiando por uma vigia de gaze. Uma mancha feia, vermelho-amarelada, escorria pelas ataduras. Supus que sangue e algum tipo de pomada.
— Importa, sim — respondeu ela. — Não é como o que aconteceu com Bobbi Jill. — Ela tentou sorrir. — Sabe como é uma bola de beisebol, todos aqueles pontos vermelhos? É assim que Sadie está agora. Eles sobem, descem e dão a volta toda.
— Vão sumir.
— Você não entende. Ele cortou a minha bochecha toda, até dentro da boca.
— Mas você está viva. E amo você.
— Diga isso quando tirarem as ataduras — disse ela com a voz baça e dopada. — A noiva de Frankenstein vai ficar parecida com Liz Taylor.
Peguei a mão dela.
— Certa vez eu li uma coisa...
— Acho que não estou muito disposta a discussões literárias, Jake.
Ela tentou se virar para longe de novo, mas segurei a mão dela.
— Era um provérbio japonês. “Quando há amor, marcas de varíola são lindas como covinhas.” Vou amar o seu rosto, não importa como fique. Porque ele é seu.
Ela começou a chorar, e a segurei até que se acalmou. Na verdade, achei que tinha adormecido, até que disse:
— Sei que a culpa é minha, eu me casei com ele, mas...
— Não é culpa sua, Sadie, você não sabia.
— Eu sabia que havia algo errado com ele. Ainda assim, fui em frente. Acho que foi principalmente porque a minha mãe e o meu pai queriam muito. Eles ainda não vieram, e estou contente. Porque também ponho a culpa neles. É horrível, não é?
— Enquanto estiver distribuindo culpas, guarde uma porção para mim. Vi aquele maldito Plymouth dele pelo menos duas vezes bem na minha frente e talvez mais algumas com o canto do olho.
— Você não precisa se sentir culpado por isso. O detetive da polícia estadual e o ranger do Texas que me interrogaram disseram que a mala do carro de Johnny estava cheia de placas. Disseram que provavelmente ele as roubou em postos de gasolina. E tinha um monte de plásticos, como é que você chama...
— Adesivos. — Pensei no que me enganara naquela noite no Candlewood. AVANTE, SOONERS. Cometera o erro de desdenhar a visão repetida do Plymouth branco e vermelho como mais uma harmonia do passado apenas. Eu devia saber que não. Eu teria sabido se metade da minha cabeça não estivesse em Dallas com Lee Oswald e o general Walker. E se a culpa tinha importância, também havia uma porção para Deke. Afinal de contas, ele vira o homem, registrara aquelas depressões na lateral da cabeça.
Deixe para lá, pensei. Aconteceu. Não pode ser desfeito.
Na verdade, podia.
— Jake, a polícia sabe que você não é... quem você diz que é?
Afastei o cabelo do lado direito do rosto dela, onde ainda estava comprido.
— Estou bem nesse quesito.
Deke e eu tínhamos sido interrogados pelos mesmos policiais que interrogaram Sadie antes que os médicos a levassem para a sala de operações. O detetive da polícia estadual nos dera uma morna reprimenda sobre homens que assistem a faroeste demais na TV. O ranger reforçou, depois apertou a nossa mão e disse: “No lugar dos senhores, eu teria feito exatamente a mesma coisa.”
— Deke praticamente me deixou de fora. Ele quer garantir que o conselho escolar não implique com o seu retorno no ano que vem. Para mim, parece inacreditável que ser cortada por um lunático possa provocar demissão devido à torpeza moral, mas Deke acha que é melhor que...
— Não posso voltar. Não vou aguentar os garotos me olhando do jeito que estou agora.
— Sadie, se você soubesse quantos já vieram aqui...
— É muita gentileza, tem muita importância, e são eles mesmos que eu não conseguiria encarar. Não entende? Acho que lidaria bem com os que riem e fazem piadas. Na Geórgia, dei aulas com uma mulher que tinha lábio leporino e aprendi muito com o jeito como ela lidava com a crueldade adolescente. São os outros que acabariam comigo. Os bem-intencionados. Os olhares de solidariedade... e aqueles que não aguentam olhar. — Ela inspirou trêmula e profundamente e depois explodiu: — Também estou zangada. Sei que a vida é dura, acho que no fundo todo mundo sabe disso, mas por que tem de ser cruel também? Por que tem de morder?
Abracei-a. O lado não marcado do rosto estava quente e latejava.
— Não sei, querida.
— Por que não há segunda chance?
Abracei-a. Quando a respiração dela ficou regular, soltei-a e me levantei em silêncio para ir embora. Sem abrir os olhos, ela disse:
— Você me falou que havia algo a que tinha de assistir na noite de quarta-feira. Acho que não era Johnny Clayton cortando a própria garganta, era?
— Não.
— Você perdeu?
Pensei em mentir, não menti.
— Perdi.
Agora os olhos dela se abriram, mas foi uma luta e não ficariam abertos muito tempo.
— Você terá uma segunda chance?
— Não sei. Não importa.
Isso não era verdade. Porque importaria para a esposa e os filhos de John Kennedy; importaria para os seus irmãos; talvez para Martin Luther King; quase certamente para as dezenas de milhares de jovens americanos que estavam agora no curso secundário e que, se nada mudasse o rumo da história, seriam convidados a vestir a farda, voar para o outro lado do mundo, abrir as bochechas inferiores e se sentar no grande consolo verde que foi o Vietnã.
Ela fechou os olhos. Saí do quarto.
3
Não havia alunos atuais da DCHS no saguão quando saí do elevador, mas havia um casal de ex-alunos. Mike Coslaw e Bobbi Jill Allnut estavam sentados em cadeiras de plástico rígido com revistas não lidas no colo. Mike pulou de pé e apertou a minha mão. De Bobbi Jill, ganhei um abraço bom e forte.
— É muito grave? — perguntou ela. — Quero dizer — ela esfregou a ponta dos dedos na própria cicatriz que sumia —, pode ser consertada?
— Não sei.
— Conversou com o dr. Ellerton? — perguntou Mike. Ellerton, considerado o melhor cirurgião plástico do centro do Texas, era o médico que fizera a sua mágica em Bobbi Jill.
— Esta tarde ele está no hospital fazendo a ronda. Deke, a dona Ellie e eu temos uma consulta marcada daqui a... — conferi o relógio — 20 minutos. Vocês dois querem vir?
— Claro — disse Bobbi Jill. — Sei que ele consegue dar um jeito. Ele é um gênio.
— Então, venham. Vejamos o que o gênio pode fazer.
Mike deve ter lido o meu rosto, porque apertou o meu braço e disse:
— Talvez não seja tão ruim quanto pensa, sr. A.
4
Era pior.
Ellerton nos passou as fotografias — nítidas, lustrosas, em preto e branco, que me fizeram lembrar de Weegee e Diane Arbus. Bobbi Jill levou um susto e virou o rosto. Deke grunhiu baixinho, como se levasse um golpe. A dona Ellie as folheou estoicamente, mas perdeu toda cor, a não ser pelas duas bolas de ruge que chamejavam no rosto.
Nas duas primeiras, a bochecha de Sadie pendia em abas esfarrapadas. Isso eu vira na noite de quarta-feira e estava preparado. Mas não estava preparado para a boca caída de vítima de derrame e a bolsa frouxa de carne sob o olho esquerdo. Elas a deixavam com uma cara de palhaço que me deu vontade de bater a cabeça na mesa da salinha de reuniões de que o médico se apropriara para o nosso encontro. Ou talvez — seria melhor — correr até o necrotério onde jazia Johnny Clayton para surrá-lo mais um pouco.
— Quando os pais dessa moça chegarem hoje à noite — disse Ellerton — terei de ser esperançoso e cheio de tato, porque os pais merecem tato e esperança. — Ele franziu a testa. — Embora fosse de se esperar que viessem antes, dada a gravidade do estado da sra. Clay...
— Srta. Dunhill — disse Ellie, com calma selvageria. — Ela estava legalmente divorciada daquele monstro.
— Sim, claro, obrigado pela correção. Seja como for, vocês são amigos dela e acredito que mereçam menos tato e mais verdade. — Ele olhou friamente uma das fotografias e batucou a bochecha rasgada de Sadie com uma unha curta e limpa. — Isso pode ser melhorado, mas nunca consertado. Não com as técnicas à minha disposição. Talvez daqui a um ano, quando o tecido sarar completamente, eu consiga consertar o pior da assimetria.
As lágrimas começaram a correr pelo rosto de Bobbi Jill. Ela segurou a mão de Mike.
— O dano permanente à sua aparência é infeliz — disse Ellerton —, mas há outros problemas também. O nervo facial foi cortado. Ela terá dificuldade para comer com o lado esquerdo da boca. O olho caído que veem nessas fotografias ficará assim pelo resto da vida, e o duto lacrimal foi parcialmente seccionado. Mas a visão talvez não seja prejudicada. Esperemos que não.
Ele suspirou e abriu as mãos.
— Dada a promessa de técnicas maravilhosas como a microcirurgia e a regeneração nervosa, talvez consigamos fazer mais em casos assim daqui a vinte ou trinta anos. Por enquanto, o máximo que posso dizer é que farei todo o possível para consertar o que for consertável.
Mike falou pela primeira vez. A sua voz estava amarga.
— Uma pena que a gente não esteja em 1990, né?
5
Foi um grupinho calado e desanimado que saiu do hospital naquela tarde. Na entrada do estacionamento, a dona Ellie tocou a minha manga.
— Eu devia ter lhe dado ouvidos, George. Sinto muito, muitíssimo.
— Não sei se faria diferença — disse eu —, mas se quiser me compensar, peça a Freddy Quinlan que me telefone. Ele é o corretor de imóveis que me ajudou quando vim para Jodie. Quero ficar perto de Sadie neste verão, e isso significa que preciso alugar uma casa.
— Você pode ficar comigo — disse Deke. — Tenho muito espaço.
Virei-me para ele.
— Tem certeza?
— Você me faria um favor.
— Gostaria de pagar...
Ele fez um gesto de desdém.
— Você paga em mantimentos. Isso resolve.
Ele e Ellie tinham ido no Ranch Wagon de Deke. Observei-os sair com o carro e depois me arrastei até o meu Chevrolet, que agora, talvez injustamente, parecia um carro que dava azar. Nunca eu quisera menos voltar à rua West Neely, onde sem dúvida ouviria Lee descontar em Marina o seu desapontamento por não ter acertado o general Walker.
— Sr. A.? — Era Mike. Bobbi Jill estava alguns passos atrás, com os braços cruzados com força sob os seios. Parecia fria e infeliz.
— Diga, Mike.
— Quem vai pagar a conta do hospital da srta. Dunhill? E todas aquelas cirurgias de que ele falou? Ela tem seguro?
— Tem. — Mas não chegava nem perto, não para uma coisa daquelas. Pensei nos pais dela, mas o fato de ainda não terem aparecido era preocupante. Não poderiam culpá-la pelo que Clayton fizera... poderiam? Não via como, mas eu viera de um mundo no qual as mulheres, na maior parte, eram tratadas como iguais. Mil novecentos e sessenta e três nunca parecera tanto um país estrangeiro quanto naquele momento.
— Ajudarei o máximo que puder — disse eu, mas quanto seria isso? A minha reserva de dinheiro era suficiente para me sustentar durante mais alguns meses, mas não para pagar meia dúzia de cirurgias de reconstrução facial. Eu não queria voltar à Financeira Fé na avenida Greenville, mas achei que voltaria se precisasse. O Kentucky Derby aconteceria dali a menos de um mês e, de acordo com a seção de corridas das anotações de Al, o vencedor seria Chateaugay, um azarão. Uma aposta de mil poderia produzir sete ou oito mil, suficientes para cuidar da estada de Sadie no hospital e, a preços de 1963, pelo menos algumas cirurgias posteriores.
— Tenho uma ideia — disse Mike, depois olhou por sobre o ombro. Bobbi Jill lhe deu um sorriso encorajador. — Quer dizer, Bobbi Jill e mim, a gente tivemos.
— Bobbi Jill e eu tivemos, Mike. Você não é mais criança, não fale como se fosse.
— Claro, claro, desculpe. Se o senhor puder voltar à lanchonete por uns dez minutos, nós explicamos.
Fui. Tomamos café. Escutei a ideia deles. E concordei. Às vezes, quando o passado se harmoniza, o sábio pigarreia e canta junto.
6
Houve uma baita discussão no apartamento em cima do meu naquela noite. Baby June contribuiu com a sua opinião, berrando a mais não poder. Não me dei ao trabalho de escutar; de qualquer forma, o berreiro seria quase todo em russo. Então, por volta das oito, caiu um silêncio desacostumado. Supus que tinham ido dormir cerca de duas horas mais cedo do que de hábito, e foi um alívio.
Pensava em eu mesmo ir dormir quando o iate do Cadillac dos Mohrenschildt parou no meio-fio. Jeanne deslizou para fora; George pulou do carro com o seu eterno élan de boneco de mola. Ele abriu a porta traseira do lado do motorista e tirou um grande coelho de uma improvável pelúcia roxa. Pela fenda das cortinas, fiquei um instante boquiaberto com isso até que a ficha caiu: o dia seguinte era domingo de Páscoa.
Eles seguiram para a escada externa. Ela andava; George, à frente, trotava. As suas pisadas retumbantes nos degraus decrépitos abalaram o prédio inteiro.
Ouvi vozes espantadas sobre a minha cabeça, abafadas mas claramente questionadoras. Pisadas correram pelo meu teto, fazendo chocalhar a luminária da sala. Será que os Oswald acharam que era a polícia de Dallas chegando para uma prisão? Ou talvez um dos agentes do FBI que tinham vigiado Lee enquanto ele e a família moravam na rua Mercedes? Torci para o coração do canalhinha estar na garganta, sufocando-o.
Houve um alvoroço de batidas à porta no alto da escada e Mohrenschildt gritou jovialmente:
— Abra, Lee! Abra, seu pagão!
A porta se abriu. Pus os fones mas não ouvi nada. Então, bem na hora em que decidia se experimentava o microfone no Tupperware, Lee ou Marina ligou o abajur com o microfone. Funcionava outra vez, pelo menos por enquanto.
— ... para o bebê — dizia Jeanne.
— Ah, obrigada! — disse Marina. — Muito obrigada, Jeanne, muito gentil!
— Não fique aí parado, camarada, nos ofereça alguma coisa para beber! — disse Mohrenschildt. Soava como se já tivesse tomado algumas doses.
— Só tenho chá — respondeu Lee. Ele soava petulante e semidesperto.
— Chá está ótimo. Tenho aqui no bolso algo que vai acordá-lo. — Quase o vi piscar.
Marina e Jeanne passaram a falar russo. Lee e Mohrenschildt, as passadas mais pesadas inconfundíveis, foram na direção da cozinha, onde eu sabia que não os escutaria. As mulheres estavam perto do abajur e as vozes delas encobririam a conversa dos homens.
Então Jeanne, em inglês:
— Ah, céus, isso é uma arma?
Tudo parou, inclusive — assim pareceu — o meu coração.
Marina riu. Era um risinho tilintante de coquetel, hahaha, artificial pra diabo.
— Ele perde emprego, não temos dinheiro, e essa pessoa maluca compra espingarda. Eu digo, guarda armário, seu idiota maluco, para não atrapalhar gravidez.
— Só quero praticar tiro ao alvo, só isso — disse Lee. — Eu era muito bom nos fuzileiros. Nunca errava o alvo.
Outro silêncio. Pareceu durar para sempre. Então, a grande risada amistosa de Mohrenschildt ribombou.
— Vamos lá, nem tente enrolar um enrolador. Como foi que errou, Lee?
— Não sei do que está falando.
— Do general Walker, rapaz! Alguém quase espalhou aquele cérebro odiador de negros pela parede do escritório naquela casa dele na Turtle Creek. Quer dizer que não sabia?
— Não tenho lido jornal ultimamente.
— É? — perguntou Jeanne. — O que estou vendo naquele tamborete não é o Times Herald?
— Quis dizer que não leio as notícias. Deprimentes demais. Só os quadrinhos e os anúncios de emprego. O Grande Irmão diz: arrume emprego senão o bebê passa fome.
— Então não foi você que errou aquele tiro à queima-roupa, é? — perguntou Mohrenschildt.
Implicando com ele. Provocando.
A questão era o porquê. Porque nem nos sonhos mais loucos Mohrenschildt acreditaria que um pobre coitado como Ozzie Coelho era o atirador da noite de quarta-feira... ou porque sabia que era? Talvez porque Jeanne notara a espingarda? Desejei de todo coração que as mulheres não estivessem lá. Se pudesse escutar Lee e o seu peculiar amigo conversarem de homem para homem, as minhas perguntas talvez fossem respondidas. Daquela maneira, eu ainda não podia ter certeza.
— Acha que eu seria maluco a ponto de atirar em alguém com J. Edgar Hoover olhando por cima do meu ombro? — Parecia que Lee tentava entrar no espírito da coisa, Ria com George em vez de Cante com Mitch, mas não fazia um serviço muito bom.
— Ninguém acha que você atirou em alguém — disse Jeanne, com voz calmante. — Basta prometer que, quando a menina começar a andar, você vai arranjar um lugar mais seguro do que o armário para guardar essa sua espingarda.
Marina respondeu a isso em russo, mas eu já dera uma olhada no bebê de vez em quando no jardim lateral e sabia o que ela estava dizendo — que June já andava.
— Junie gostará do lindo presente — disse Lee —, mas não comemoramos a Páscoa. Somos ateus.
Talvez ele fosse, mas, de acordo com as anotações de Al — com a ajuda do seu admirador George Bouhe —, Marina batizara June secretamente mais ou menos na época da crise dos mísseis.
— Nós também — disse Mohrenschildt. — É por isso que comemoramos o Coelho de Páscoa! — Ele se aproximara do abajur e a sua gargalhada quase me ensurdeceu.
Eles conversaram mais dez minutos, misturando inglês e russo. Então, Jeanne disse:
— Agora vamos deixar vocês em paz. Acho que tiramos vocês da cama.
— Não, não, estávamos acordados — disse Lee. — Obrigado pela visita.
George disse:
— Logo conversamos, Lee, que tal? Vá ao clube de campo. Organizaremos uma reunião de garçons!
— Claro, claro. — Agora eles se deslocavam na direção da porta.
Mohrenschildt disse outra coisa, mas baixo demais para eu entender mais do que poucas palavras. Podia ser pegou de volta. Ou levou uma volta, embora eu achasse que essa gíria não era comum nos anos sessenta.
Quando o pegou de volta? Foi o que ele disse? Como se fosse quando pegou a arma de volta?
Toquei a fita de novo meia dúzia de vezes, mas com velocidade tão lenta simplesmente não havia como saber. Fiquei acordado muito depois de os Oswald irem dormir; ainda estava acordado às duas da madrugada, quando June chorou um pouco e foi ninada pela mãe de volta à terra dos sonhos. Pensava em Sadie, dormindo o sono inquieto da morfina no Hospital Parkland. O quarto era feio e a cama, estreita, mas eu seria capaz de dormir lá, isso eu tinha certeza.
Pensei em Mohrenschildt, aquele ator maníaco que rasgava camisas. O que disse, George? O que disse ali no final? Foi quando o pegou de volta? Foi nada digno de nota? Foi que isso não lhe dê uma volta? Ou outra coisa sem nada a ver?
Finalmente, dormi. E sonhei que estava num parque de diversões com Sadie. Chegamos a uma galeria de tiro ao alvo onde Lee estava com a espingarda enfiada no oco do ombro. O sujeito atrás do balcão era George de Mohrenschildt. Lee deu três tiros e não acertou nenhum.
— Sinto muito, filho — disse Mohrenschildt —, nada de prêmio para quem não acerta o alvo.
Depois, se virou para mim e sorriu.
— Adiante-se, filho, talvez você tenha mais sorte. Alguém vai matar o presidente, por que não você?
Acordei assustado com a primeira luz fraca do dia. Em cima de mim, os Oswald continuavam dormindo.
7
A tarde do domingo de Páscoa me encontrou de volta na Dealey Plaza, sentado num banco de praça, olhando o hostil cubo de tijolos do School Book Depository e me perguntando o que fazer em seguida.
Dali a dez dias, Lee deixaria Dallas e iria para Nova Orleans, a sua cidade natal. Arranjaria emprego lubrificando máquinas numa empresa cafeeira e alugaria o apartamento da rua Magazine. Depois de passar cerca de duas semanas com Ruth Paine e os filhos em Irving, Marina e June se juntariam a ele. Eu não os seguiria. Não com Sadie tendo de enfrentar um longo período de recuperação e um futuro incerto.
Eu mataria Lee entre esse domingo de Páscoa e o dia 24? Provavelmente poderia. Depois de perder o emprego na Jaggars-Chiles-Stovall, ele passava a maior parte do tempo no apartamento ou distribuindo folhetos de Tratamento Justo a Cuba no centro de Dallas. De vez em quando, ia à biblioteca pública, onde parecia ter desistido de Ayn Rand e Karl Marx a favor de faroestes de Zane Grey.
Matá-lo na rua ou na biblioteca da rua Young seria uma receita certa para a prisão instantânea, mas se o fizesse no apartamento do andar de cima enquanto Marina estava em Irving ajudando a melhorar o russo de Ruth Paine? Eu poderia bater à porta e enfiar uma bala na cabeça dele quando a abrisse. Serviço feito. Sem risco de errar o alvo à queima-roupa. O problema era o depois. Eu teria de fugir. Se não fugisse, seria a primeira pessoa que a polícia interrogaria. Afinal de contas, eu era o vizinho de baixo.
Eu poderia afirmar que não estava lá quando aconteceu, e talvez comprassem a ideia por algum tempo, mas quanto demoraria até descobrirem que o George Amberson da rua West Neely era o mesmo George Amberson que, pouco tempo antes, estivera presente numa cena de violência na travessa Bee Tree, em Jodie? Isso exigiria verificação, e a verificação logo revelaria que o certificado de professor de George Amberson vinha de uma fábrica de diplomas no Oklahoma e que as referências dele eram falsas. Nesse momento, seria bem provável que me prendessem. A polícia poderia obter um mandado para abrir o meu cofre de depósito se descobrissem que eu o tinha, e provavelmente descobririam. O meu banqueiro, sr. Richard Link, veria o meu nome e/ou foto no jornal e se apresentaria. O que a polícia entenderia das minhas memórias? Que eu tinha motivos para matar Oswald, por mais loucos que fossem.
Não, eu teria de fugir para a toca de coelho, abandonar o Chevy em algum ponto de Oklahoma ou Arkansas e depois pegar um trem ou ônibus. E, se voltasse a 2011, nunca poderia usar a toca de coelho de novo sem provocar um recomeço. Isso significaria deixar Sadie eternamente para trás, sozinha e desfigurada. É claro que ele fugiu de mim, pensaria ela. Falou bonito sobre cicatrizes de varíola serem lindas como covinhas, mas assim que soube do prognóstico de Ellerton — feia agora, feia para sempre —, fugiu para as montanhas.
Ela poderia até achar que não era culpa minha. Essa era a possibilidade mais podre de todas.
Mas não. Não. Eu podia pensar numa pior ainda. Suponhamos que eu voltasse a 2011 e descobrisse que, afinal de contas, Kennedy fora assassinado em 22 de novembro? Eu ainda não tinha certeza de que Oswald estava sozinho. Quem era eu para dizer que dez mil teóricos da conspiração estavam errados, ainda mais com base nos poucos fiapos de informação que toda a minha espreita e perseguição tinham reunido?
Talvez eu verificasse a Wikipedia e descobrisse que o atirador estivera na encosta gramada, afinal de contas. Ou no telhado da combinação de cadeia e tribunal na rua Houston, armado com um fuzil de franco-atirador em vez de uma Mannlicher-Carcano comprada pelo correio. Ou escondido num esgoto da rua Elm, observando a aproximação de Kennedy com um periscópio, como afirmavam alguns entusiastas de conspirações mais malucas.
Mohrenschildt era algum tipo de agente da CIA. Até Al Templeton, que tinha quase certeza de que Oswald agira sozinho, admitia isso. Estava convencido de que era apenas um agente menor que repassava pequenas fofocas da América Central e do Sul para manter na superfície os seus vários negócios com petróleo. Mas e se fosse mais? A CIA detestara Kennedy desde que ele se recusara a mandar soldados americanos para apoiar os combatentes sitiados na baía dos Porcos. O seu trato cauteloso com a crise dos mísseis aprofundara esse ódio; os agentes quiseram usá-la como pretexto para acabar com a guerra fria de uma vez por todas, pois tinham certeza de que a propagandeada “desvantagem dos mísseis” era ficção. Podia-se ler muito disso nos jornais diários, às vezes nas entrelinhas das notícias, às vezes declarado francamente nos editoriais.
Suponhamos que alguns elementos mais ladinos da CIA tivessem convencido George de Mohrenschildt a assumir uma missão muito mais perigosa? Não matar o presidente pessoalmente, mas recrutar indivíduos não muito equilibrados que se dispusessem a fazer o serviço? Mohrenschildt aceitaria uma oferta dessas? Achei que talvez sim. Ele e Jeanne viviam em grande estilo, mas eu não fazia nenhuma ideia de como sustentavam o Cadillac, o clube de campo e a casa imensa na rua Simpson Stuart. Servir de relé, de curto-circuito entre um presidente americano alvejado e um órgão que teoricamente existia para fazer o que ele pedisse... Seria um serviço perigoso, mas se o potencial de lucro fosse suficiente, um homem que vivesse acima dos seus meios talvez se sentisse tentado. E nem precisaria ser pagamento em dinheiro, essa é que era a beleza da coisa. Bastavam aquelas concessões maravilhosas na Venezuela, no Haiti, na República Dominicana. Além disso, esse tipo de trabalho poderia atrair alguém pomposo e exibido como Mohrenschildt. Ele gostava de ação e não dava a mínima para Kennedy.
Graças a John Clayton, não pude sequer eliminar Mohrenschildt do atentado contra Walker. Foi a espingarda de Oswald, tudo bem, mas suponhamos que Lee se visse incapaz de atirar quando chegou a hora? Achei que seria bem típico do panaca titubear no momento crítico. Dava para ver Mohrenschildt tirando a Carcano das mãos trêmulas de Lee e resmungando entredentes: Me dê isso, eu mesmo faço.
Mohrenschildt se sentiria capaz de atirar atrás da lata de lixo que Lee pretendia usar como trincheira de atirador? Uma linha das anotações de Al me levou a pensar que a resposta era sim: Ganhou campeonato de tiro ao alvo de 1961 no clube de campo.
Se eu matasse Oswald e Kennedy morresse do mesmo jeito, tudo teria sido à toa. E depois? Enxague e repita? Matar Frank Dunning outra vez? Salvar Carolyn Poulin outra vez? Ir para Dallas outra vez?
Conhecer Sadie outra vez?
Ela não estaria marcada, e isso era bom. Eu saberia como era o maluco do ex-marido, com cabelo pintado e tudo, e dessa vez conseguiria impedi-lo antes que se aproximasse. Bom, também. Mas só pensar em passar por tudo isso já me deixava exausto. Também achava que não conseguiria matar Lee a sangue-frio, pelo menos não com base nas provas circunstanciais que tinha. No caso de Frank Dunning, eu sabia com certeza. Eu vira.
Então... qual seria o próximo passo?
Eram quatro e quinze e decidi que o próximo passo seria visitar Sadie. Parti para o carro estacionado na rua Principal. Na esquina da Houston, logo depois do antigo tribunal, tive a sensação de ser observado e me virei. Não havia ninguém na calçada atrás de mim. Era o depósito de livros didáticos que observava, todas aquelas janelas vazias dando para a rua Elm aonde chegaria a carreata presidencial uns duzentos dias depois daquele domingo de Páscoa.
8
Quando cheguei, serviam o jantar no andar de Sadie: ensopadinho. O cheiro trouxe de volta uma imagem viva do modo como o sangue jorrara sobre a mão e o antebraço de John Clayton antes que caísse no carpete, com a cara misericordiosamente para baixo.
— Olá, sr. Amberson — disse a enfermeira-chefe quando me apresentei. Era uma mulher grisalha de uniforme e gorro branco engomado. Um relógio de bolso estava preso ao busto formidável. Ela me olhava atrás de uma muralha de buquês. — Houve muitos gritos por lá ontem à noite. Só lhe conto isso porque o senhor é o noivo, não é?
— Sou — concordei. Sem dúvida era o que eu queria ser, com ou sem rosto cortado.
A enfermeira se inclinou na minha direção entre dois vasos cheiíssimos. Algumas margaridas roçaram o seu cabelo.
— Veja bem, não costumo fofocar sobre os meus pacientes e ralho com as enfermeiras mais novas que fofocam. Mas o modo como os pais dela a trataram não foi correto. Acho que não posso culpá-los totalmente por virem de carona da Geórgia com os pais daquele lunático, mas...
— Espere. Está me dizendo que os Dunhill e os Clayton vieram no mesmo carro?
— Acho que foram todos muito amigos em outros tempos, então tudo bem, ótimo, mas dizer a ela, enquanto visitavam a filha, que os seus bons amigos Clayton estavam no andar térreo tirando o corpo do filho do necrotério... — Ela balançou a cabeça. — Papai nem abriu a boca, mas aquela mulher...
Ela olhou em volta para se assegurar de que ainda estávamos sozinhos, viu que estávamos e se virou de novo para mim. O rosto simples e campestre estava carrancudo e ofendido.
— Ela nunca se calava. Uma pergunta sobre como a filha se sentia e depois foi pobres Clayton isso, pobres Clayton aquilo. A sua srta. Dunhill segurou a língua até a mãe dizer que era uma vergonha eles terem de trocar de igreja outra vez. Aí a moça perdeu a paciência e começou a berrar para eles irem embora.
— Bom para ela — disse eu.
— Ouvi ela gritar: “Querem ver o que o filho dos seus amigos fez comigo?” e, querido, foi aí que comecei a correr. Ela tentava tirar as ataduras. E a mãe... ela se inclinava para a frente , sr. Amberson. Ansiosa. Queria mesmo ver. Fiz eles saírem e pedi a um dos residentes que desse uma injeção na srta. Dunhill para ela se acalmar. O pai, que mais parecia um ratinho, tentou pedir desculpas pela mulher. “Ela não sabia que ia deixar Sadie nervosa”, disse ele. “Pois é”, respondi, “e o senhor? O gato comeu a sua língua?” E sabe o que a mulher disse, pouco antes de entrarem no elevador?
Fiz que não.
— Ela disse: “Não pode ter sido culpa dele, pode? Ele sempre brincava no nosso quintal e era um menino tão doce.” Dá para acreditar?
Dava. Porque eu achava que já vira a sra. Dunhill, por assim dizer. Na rua West Seventh, correndo atrás do filho mais velho e berrando a plenos pulmões. Pare, Robert, não ande tão depressa, ainda não acabei com você!
— O senhor talvez a ache... emocionada demais — disse a enfermeira. — Só queria que soubesse que há boas razões para isso.
9
Ela não estava emocionada demais. Eu teria preferido que estivesse. Se existe depressão serena, era lá que estava a cabeça de Sadie naquela noite de Páscoa. Pelo menos estava sentada na cadeira, com um prato intocado de ensopadinho à sua frente. Emagrecera; o corpo comprido parecia flutuar na bata branca de hospital que puxou em torno de si quando me viu.
Mas ela sorriu — com o lado do rosto que ainda podia — e virou a bochecha boa para ser beijada.
— Olá, George — é melhor que eu o chame assim, não acha?
— Pode ser. Como está, querida?
— Dizem que estou melhor, mas parece que alguém mergulhou a minha cara em querosene e depois ateou fogo. É porque estão tirando os analgésicos. Deus não queira que eu me vicie neles.
— Se precisar de mais, posso dar um jeito.
Ela fez que não.
— Eles me deixam zonza e preciso pensar. E também tornam mais difícil controlar as emoções. Tive uma baita briga com a minha mãe e o meu pai.
Só havia aquela única cadeira, a menos que a gente contasse o vaso sanitário agachado no canto, e me sentei na cama.
— A enfermeira-chefe me informou. Com base no que ela ouviu, você teve todo o direito de explodir.
— Talvez, mas de que adianta? Mamãe não vai mudar nunca. Vai ficar horas falando que me ter quase a matou, mas não tem sentimentos por ninguém. É falta de tato e é falta de mais uma coisa também. Essa coisa tem nome, mas não consigo lembrar.
— Empatia?
— Isso. E ela tem a língua afiadíssima. Com o passar dos anos, fez o meu pai murchar até virar um toco. Hoje em dia, ele raramente fala.
— Você não precisa vê-los de novo.
— Acho que preciso. — Eu gostava cada vez menos da sua voz calma e distante. — Mamãe diz que vão arrumar o meu antigo quarto e, na verdade, não tenho mais para onde ir.
— O seu lar é em Jodie. E o seu emprego.
— Acho que já conversamos sobre isso. Vou apresentar a minha demissão.
— Não, Sadie, não. Essa é uma péssima ideia.
Ela sorriu o melhor que pôde.
— Você parece a dona Ellie. Que não acreditou quando você disse que Johnny era um perigo. — Ela pensou melhor e acrescentou: — É claro que eu também não. Nunca deixei de ser idiota com ele, não é?
— Você tem uma casa.
— É verdade. E prestações de hipoteca que não posso pagar. Terei de me desfazer dela.
— Eu pago.
Isso ela entendeu. Pareceu chocada.
— Você não tem dinheiro para isso!
— Tenho, sim. — O que era verdade... pelo menos, por enquanto. Além disso, sempre havia o Kentucky Derby e Chateaugay. — Vou me mudar de Dallas e morar com Deke. Ele não quer cobrar aluguel, o que libera bastante dinheiro para pagar a casa.
Uma lágrima se esgueirou até a borda do olho direito e ali tremeu.
— Você não está entendendo. Não posso me virar sozinha, ainda não. E não vou “ser hospedada”, a menos que seja em casa, onde mamãe contratará uma enfermeira para ajudar nas partes mais nojentas. Ainda me resta um pouco de orgulho. Não muito, mas um pouco.
— Eu cuidarei de você.
Ela me fitou, os olhos arregalados.
— O quê?
— Você me escutou. E no que me diz respeito, Sadie, pode enfiar o seu orgulho lá onde nunca bate sol. Por acaso, eu amo você. E se você me ama, vai parar de falar tanta bobagem sobre voltar a morar com a víbora da sua mãe.
Ela conseguiu dar um leve sorriso ao ouvir isso e depois ficou ali sentada, calada, as mãos no colo da bata frouxa.
— Você veio ao Texas fazer alguma coisa e não era cuidar de uma bibliotecária escolar boba demais para perceber que corria perigo.
— O meu negócio em Dallas está suspenso.
— Pode ficar suspenso?
— Pode. — E assim, simplesmente, foi decidido. Lee iria para Nova Orleans e eu voltaria para Jodie. O passado não parava de brigar comigo e venceria esse assalto. — Você precisa de tempo, Sadie, e tenho tempo. Podemos muito bem passar esse tempo juntos.
— Você não vai me querer. — Ela disse isso com uma voz que era pouco mais do que um sussurro. — Não do jeito que estou agora.
— Mas quero.
Ela me olhou com olhos que temiam ter esperanças mas tinham mesmo assim.
— Por que quereria?
— Porque você é a melhor coisa que já me aconteceu.
O lado bom da boca começou a tremer. A lágrima transbordou na bochecha e foi seguida por outras.
— Se eu não tiver de voltar a Savannah... se eu não tiver de morar com eles... com ela... talvez então eu consiga, não sei, ficar só um pouquinho bem.
Abracei-a.
— Você vai ficar muito melhor do que isso.
— Jake? — A voz dela estava abafada pelas lágrimas. — Você faria algo por mim antes de sair?
— O que, querida?
— Leve embora esse maldito ensopadinho. O cheiro está me enjoando.
10
A enfermeira de ombros de defensor do futebol americano e relógio preso ao peito se chamava Rhonda McGinley, e no dia 18 de abril insistiu em empurrar a cadeira de rodas de Sadie não só até o elevador mas até o meio-fio, onde Deke esperava com a porta do carona da camionete aberta.
— Não quero vê-la aqui de volta, querida — disse a enfermeira McGinley depois que ajudamos Sadie a entrar no carro.
Sadie sorriu distraída e nada disse. Ela estava — para falar com toda a franqueza — doidaça de tudo. O dr. Ellerton fora examinar o seu rosto naquela manhã, um processo dolorosíssimo que exigira analgésicos a mais.
McGinley se virou para mim.
— Ela vai precisar de muito carinho e amor nos próximos meses.
— Farei o possível.
Partimos. Quinze quilômetros ao sul de Dallas, Deke disse:
— Tire isso dela e jogue pela janela. Estou preocupado com esse maldito trânsito.
Sadie adormecera com um cigarro fumegando entre os dedos. Me inclinei sobre o banco e o puxei. Ela gemeu quando fiz isso e disse:
— Ah, não, Johnny, por favor, não.
Olhei os olhos de Deke. Só por um segundo, mas o bastante para eu ver que pensávamos a mesma coisa: uma longa estrada à frente. Longa estrada.
11
Fui morar na casa em estilo espanhol de Deke na rua Sam Houston. Pelo menos para consumo público. Na verdade, fui morar com Sadie na travessa Bee Tree, 135. Temi o que encontraríamos quando a ajudássemos a entrar e acho que Sadie também, doidona ou não. Mas a dona Ellie e Jo Peet, do Departamento de Economia Doméstica, tinham recrutado algumas garotas de confiança que, antes da volta de Sadie, passaram um dia inteiro limpando, polindo e esfregando para tirar das paredes todos os vestígios da imundície de Clayton. O tapete da sala fora levado e substituído. O novo era de um cinza industrial, dificilmente uma cor empolgante, mas provavelmente uma boa escolha: coisas cinzentas guardam pouquíssimas lembranças. As roupas mutiladas foram removidas e substituídas por novas.
Sadie nunca disse nada sobre o tapete novo e as roupas diferentes. Pode ser que nem tenha notado.
12
Eu passava os dias lá, preparando refeições, trabalhando no jardinzinho (que adoeceria mas não chegaria a morrer em outro verão escaldante do centro do Texas) e lendo para ela A casa soturna. Também nos envolvemos em várias novelas vespertinas: The Secret Storm, Young Doctor Malone, From These Roots e a nossa favorita, The Edge of Night.
Ela mudou a divisão do cabelo do centro para a direita, num estilo Veronica Lake que cobriria as cicatrizes piores quando as ataduras fossem finalmente retiradas. Não que isso fosse acontecer logo; a primeira cirurgia reconstrutora — um esforço conjunto envolvendo quatro médicos — estava marcada para 5 de agosto. Ellerton disse que haveria pelo menos mais quatro.
Eu voltava para a casa de Deke depois que Sadie e eu fazíamos a nossa ceia (que ela raramente mais do que tocava), porque as cidades pequenas são cheias de grandes olhos grudados em bocas loquazes. Era melhor que esses grandes olhos vissem o meu carro na casa de Deke depois que o sol se punha. Ao escurecer, eu andava três quilômetros de volta à casa de Sadie, onde dormia no sofá-cama novo até as cinco da manhã. Quase sempre era um descanso interrompido, porque eram raras as noites em que Sadie não me acordava aos gritos e se debatendo para sair de pesadelos. Durante o dia, Johnny Clayton estava morto. Depois de escurecer, ele ainda a perseguia com faca e revólver.
Eu ia até ela e a acalmava o melhor possível. Às vezes, ela ia devagar até a sala comigo e fumava um cigarro antes de arrastar os pés até a cama, sempre puxando o cabelo como proteção sobre o lado ruim do rosto. Não me deixava trocar o curativo. Isso ela fazia sozinha, no banheiro, com a porta fechada.
Depois de um pesadelo especialmente terrível, entrei e a achei em pé ao lado da cama, nua e chorando. Estava absurdamente magra. A camisola se amontoara aos seus pés. Ela me escutou e se virou, um dos braços sobre os seios e a outra mão sobre a virilha. O cabelo caiu de volta sobre o ombro direito, onde era o seu lugar, e vi as cicatrizes inchadas, os pontos grandes, a carne caída e amarrotada sobre o osso malar.
— Saia! — gritou ela. — Não me olhe assim, por que não sai?
— Sadie, o que é? Por que tirou a camisola? O que aconteceu?
— Molhei a cama, tá? Tenho de trocar a roupa de cama, então por favor saia e me deixe vestir alguma coisa!
Fui até os pés da cama, peguei a colcha de retalhos que estava ali dobrada e a envolvi com ela. Quando virei uma das pontas para fora num tipo de gola que escondia a bochecha, ela se acalmou.
— Vá para a sala e tome cuidado para não tropeçar nessa coisa. Fume um cigarro. Eu troco a cama.
— Não, Jake, está suja.
Eu a segurei pelos ombros.
— Isso é o que Clayton diria, e ele está morto. É só um pouco de mijo.
— Tem certeza?
— Tenho. Mas, antes de ir...
Virei para baixo a gola improvisada. Ela se encolheu e fechou os olhos, mas ficou imóvel. Só suportando, mas ainda achei que era um progresso. Beijei a carne pendente que fora a sua bochecha e depois subi de novo a colcha para escondê-la.
— Como pode? — perguntou ela sem abrir os olhos. — É horrível.
— Não. É só outra parte sua que eu amo, Sadie. Agora vá para a sala enquanto eu troco os lençóis.
Quando terminei, me ofereci para me deitar com ela até que adormecesse. Ela se encolheu como fizera quando eu baixara a colcha e fez que não.
— Não consigo, Jake. Sinto muito.
De pouquinho em pouquinho, disse a mim mesmo ao voltar a pé para a casa de Deke à primeira luz cinzenta da manhã. De pouquinho em pouquinho.
13
Em 24 de abril, disse a Deke que tinha algo que precisava fazer em Dallas e lhe pedi que ficasse com Sadie até eu voltar por volta das nove. Ele concordou com bastante boa vontade e, às cinco horas daquela tarde, eu estava sentado do outro lado do terminal de ônibus Greyhound na rua South Polk, perto do cruzamento da rodovia 77 com a ainda nova I-20, de quatro pistas. Eu lia (ou fingia ler) o último James Bond, O espião que me amava.
Às cinco e meia, uma camionete parou no estacionamento ao lado do terminal. Ruth Paine dirigia. Lee desceu, foi até a traseira e abriu a porta de trás. Marina, com June no colo, saiu do banco. Ruth Paine ficou atrás do volante.
Lee tinha apenas duas peças de bagagem: uma sacola de lona verde-oliva e um estojo de espingarda acolchoado, do tipo com alças. Ele as levou para um ônibus Scenicruiser com o motor em marcha lenta. O motorista pegou a sacola e a espingarda e as guardou no compartimento de bagagem aberto depois de uma olhada casual na passagem de Lee.
Este foi até a porta do ônibus, se virou e abraçou a esposa, beijando-a nos dois lados do rosto e depois na boca. Pegou o bebê e sacudiu o seu queixinho. June riu. Lee riu com ela, mas vi lágrimas nos seus olhos. Ele beijou a testa de June, a abraçou, devolveu a filha a Marina e subiu correndo os degraus do ônibus sem olhar para trás.
Marina andou até a camionete, onde Ruth Paine agora estava em pé. June estendeu os braços para a mulher mais velha, que a abraçou com um sorriso. Ficaram ali algum tempo, observando os passageiros embarcarem, depois foram embora.
Fiquei onde estava até o ônibus partir às seis da tarde, bem na hora. O sol que se punha ensanguentado a oeste relampejou pelo letreiro do destino, encobrindo momentaneamente o que estava escrito ali. Depois consegui ler de novo, três palavras que significavam que Lee Harvey Oswald estava fora da minha vida, pelo menos por enquanto:
NEW ORLEANS EXPRESS
Observei o veículo subir a rampa de acesso da I-20 Leste e depois andei dois quarteirões até onde estacionara o carro para voltar a Jodie.
14
O palpitador: aquilo de novo.
Paguei o aluguel de maio do apartamento da rua West Neely, embora precisasse começar a tomar cuidado com os meus dólares e não tivesse nenhuma razão concreta para isso. Tinha apenas a sensação informe mas forte de que deveria manter uma base de operações em Dallas.
Dois dias antes do Kentucky Derby, fui até a avenida Greenville, absolutamente decidido a apostar quinhentos dólares na colocação de Chateaugay. Raciocinei que seria menos memorável do que apostar que o azarão venceria. Estacionei a quatro quarteirões da Financeira Fé e tranquei o carro, precaução necessária naquela parte da cidade mesmo às onze da manhã. Andei rapidamente a princípio, mas depois — novamente sem nenhuma razão concreta — os meus passos começaram a se arrastar.
A meio quarteirão da mesa de apostas disfarçada de financeira constituída, parei completamente. Mais uma vez pude ver o corretor — sem viseira nessa manhã — encostado à porta do estabelecimento fumando um cigarro. Ali em pé, na forte inundação de luz do sol, ladeado pelas sombras intensas da porta, parecia o personagem de um quadro de Edward Hopper. Não havia possibilidade de ele me ver naquele dia, porque fitava um carro estacionado do outro lado da rua. Era um Lincoln cor de creme com placa verde. Acima dos números estavam as palavras SUNSHINE STATE. O que não significava que fosse uma harmonia. Que certamente não significava que pertencia a Eduardo Gutierrez, de Tampa, o corretor de apostas que costumava sorrir e dizer Eis que chega o meu ianqui da Ianquilândia. Aquele que, quase com certeza, mandara queimar a minha casa à beira-mar.
Assim mesmo, dei meia-volta e andei para o meu carro com os quinhentos que pretendia apostar ainda no bolso.
O palpitador.