Novembro de 63
Capítulo 15
1
Às dez horas daquela manhã de domingo, pulei no Sunliner e percorri trinta quilômetros até Round Hill. Havia uma drogaria na rua principal e estava aberta, mas vi na porta um adesivo RUGIMOS PELOS DENHOLM LIONS e me lembrei de que Round Hill fazia parte do Quarto Distrito Consolidado. Fui adiante até Kileen. Lá, um farmacêutico velho que tinha uma semelhança estranha, mas provavelmente só coincidência, com o sr. Keene lá de Derry piscou para mim ao me entregar um saco de papel pardo e o troco.
— Não faça nada contra a lei, filho.
Devolvi a piscadela do jeito esperado e voltei a Jodie. Dormira tarde, mas quando me deitei e tentei tirar um cochilo, não cheguei nem na vizinhança do sono. Assim, fui ao Weingarten e comprei um bolo quatro quartos, afinal de contas. Parecia coisa velha de domingo, mas não me importei e achei que Sadie também não se importaria. Com ou sem piquenique, eu tinha bastante certeza de que a comida não era o primeiro item da pauta do dia. Quando bati à porta dela, havia um monte de borboletas na boca do meu estômago.
O rosto de Sadie estava sem maquiagem. Ela não usava nem batom. Os olhos estavam grandes, escuros e assustados. Por um instante, tive certeza de que bateria a porta na minha cara e eu a ouviria ir embora correndo o mais rápido que as pernas compridas lhe permitissem. E só.
Mas ela não correu.
— Entre — disse ela. — Fiz salada de frango. — Os lábios começaram a tremer. — Tomara que você goste... goste de m-muita m-maio...
Os joelhos dela começaram a se contrair. Larguei no chão a caixa com o bolo dentro e a segurei. Achei que ela ia desmaiar, mas não. Sadie pôs os braços em torno do meu pescoço e segurou com força, como uma mulher que se afoga agarrada a um tronco flutuante. Pude sentir o seu corpo latejar. Pisei no diabo do bolo. Depois ela. Iscuuuch.
— Estou apavorada — disse ela. — E se eu não for boa nisso?
— E se eu não for? — Não era inteiramente uma piada. Fazia muito tempo. Pelo menos quatro anos.
Pareceu que ela nem me ouviu.
— Ele nunca me quis. Não do jeito que eu esperava. E o jeito dele é o único que conheço. O toque, depois a vassoura.
— Calma, Sadie. Respire fundo.
— Foi à farmácia?
— Fui, em Kileen. Mas não precisamos...
— Precisamos, sim. Eu preciso. Antes que eu perca a pouca coragem que me resta. Venha.
O quarto dela ficava no fim do corredor. Era espartano: uma cama, uma escrivaninha, algumas gravuras na parede, cortinas de chintz a balançar com o sopro leve do ar-condicionado da janela, ligado no mínimo. Os joelhos dela começaram a ceder de novo, eu a segurei de novo. Era um jeito esquisito de dançar swing. No chão, havia até pegadas do professor de dança Arthur Murray. Bolo quatro quartos. Eu a beijei e os lábios dela grudaram nos meus, secos e frenéticos.
Empurrei-a de leve e prendi as costas dela na porta do armário. Ela me olhou solenemente, o cabelo nos olhos. Afastei-o e depois, muito gentilmente, comecei a lamber os seus lábios secos com a ponta da minha língua. Fui devagar, com o cuidado de chegar aos cantos.
— Melhor? — perguntei.
Ela não respondeu com a voz, mas com a língua. Sem apertar o meu corpo contra o dela, comecei a passar a mão bem devagar para cima e para baixo do seu longo comprimento, desde onde eu sentia o batimento rápido do pulso até os dois lados da garganta, o peito, os seios, o estômago, o plano liso e inclinado do osso pubiano, em torno de uma nádega, depois até a coxa. Ela estava de jeans. O tecido sussurrou sob a palma da minha mão. Ela se inclinou para trás e a cabeça bateu na porta.
— Ai! — disse eu. — Você está bem?
Ela fechou os olhos.
— Estou bem. Não pare. Me beije mais um pouco. — Depois ela balançou a cabeça. — Não, não me beije. Os meus lábios de novo. Me lamba. Gosto disso.
Lambi. Ela suspirou e enfiou os dedos debaixo do meu cinto, nas costas. Depois até a frente, onde ficava a fivela.
2
Eu queria ir depressa, todas as partes do meu corpo berravam por velocidade, me diziam para mergulhar fundo, queriam aquela sensação perfeita de agarramento que é a essência do ato, mas fui devagar. Pelo menos no começo. Então, ela disse: “Não me faça esperar, já basta disso”, e assim beijei o oco suado da sua têmpora e avancei os quadris. Como se fizéssemos uma versão horizontal da Madison. Ela ofegou, recuou um pouco e depois ergueu os quadris para me encontrar.
— Sadie? Tudo bem?
— Aimeudeus — disse ela, e ri. Ela abriu os olhos e me olhou com curiosidade e esperança. — Acabou ou tem mais?
— Um pouco mais — disse eu. — Não sei quanto. Não fico com uma mulher há muito tempo.
Acontece que havia bastante tempo. Só alguns minutos de tempo real, mas às vezes o tempo é diferente — como ninguém sabia melhor do que eu. No final, ela começou a ofegar.
— Ai, meu, ai meu meu, ai meu meu meu Deus, ai meu doce!
Foi o som de descoberta gananciosa na voz dela que me fez ir além, então não foi bem simultâneo, mas alguns segundos depois de ela erguer a cabeça e enterrar o rosto no oco do meu ombro. Uma mãozinha fechada bateu na minha omoplata uma vez, duas vezes... depois se abriu como uma flor e ficou parada. Ela caiu de volta nos travesseiros; me fitava com uma expressão espantada, de olhos arregalados, que era um pouco assustadora.
— Gozei — disse ela.
— Percebi.
— A minha mãe me disse que isso não acontecia com mulheres, só com homens. Ela disse que o orgasmo feminino era um mito. — Ela deu um riso trêmulo. — Ai, meu Deus, o que ela perdeu.
Ela se apoiou no cotovelo, pegou a minha mão e a pôs sobre o seio. Debaixo dele, o coração batia e batia.
— Me diga, sr. Amberson... quanto tempo até podermos fazer de novo?
3
Quando o sol avermelhado afundou na duradoura fumaça de gás e petróleo a oeste, Sadie e eu nos sentamos no seu minúsculo quintal sob uma bela nogueira-pecã, comendo sanduíches de salada de frango e tomando chá gelado. Sem bolo, é claro. O bolo foi perda total.
— É ruim para você ter de usar aquelas... sabe, aquelas coisas de farmácia?
— É normal — disse eu. Na verdade não era e nunca fora. Haveria aperfeiçoamentos em muitíssimos produtos americanos entre 1961 e 2011, mas ouçam as palavras de Jake, as camisinhas são praticamente as mesmas. Podem ter nomes mais bonitos e até sabores (para quem tem gosto esquisito), mas continuam a ser um espartilho que a gente põe no pinto.
— Eu tinha um diafragma — disse ela. Não havia mesa de piquenique e ela estendera um cobertor no chão. Nisso ela pegou um pote plástico que continha os restos de uma salada de cebola e pepino e começou a tirar e pôr a tampa, forma de manuseio que alguns considerariam freudiano. Inclusive eu.
— A minha mãe me deu uma semana antes que Johnny e eu nos casássemos. Chegou até a me explicar como usar, embora não conseguisse me olhar nos olhos, e se alguém pingasse uma gota d’água no rosto dela tenho certeza de que chiaria. — Não faça um bebê nos primeiros dezoito meses — disse ela. — Dois anos, se conseguir que ele espere. Desse jeito você pode viver do salário dele e economizar o seu.
— Não é o pior conselho do mundo. — Eu estava sendo cauteloso. Estávamos num campo minado. Ela sabia disso tanto quanto eu.
— Johnny é professor de ciências. É alto, mas não tanto quanto você. Eu estava cansada de ir a toda parte com homens mais baixos do que eu, e acho que foi por isso que aceitei quando ele me convidou para sair pela primeira vez. Finalmente, sair com ele virou hábito. Achei que ele era legal e no fim da noite nunca parecia que lhe brotava um par de mãos a mais. Na época, achei que essas coisas eram amor. Eu era muito ingênua, não era?
Fiz um gesto de gangorra com a mão.
— Nos conhecemos na faculdade, na Georgia Southern, e depois arranjamos emprego na mesma escola secundária em Savannah. Mista, mas particular. Tenho quase certeza de que o pai dele deu um jeitinho para que isso acontecesse. Os Clayton não têm dinheiro — não mais, embora tivessem antigamente —, mas ainda são valorizados na sociedade de Savannah. Pobres mas nobres, sabe?
Não sabia — as questões de quem era da sociedade ou não nunca foram importantes na minha infância —, mas murmurei um assentimento. Ela guardava aquilo há muito tempo e parecia quase hipnotizada.
— Então eu tinha um diafragma, tinha, sim. No seu estojinho feminino com uma rosa na tampa. Só que nunca usei. Nunca precisei. Finalmente o joguei no lixo depois de um daqueles bota-foras. Era como ele dizia, botar pra fora. “Tenho de botar pra fora”, costumava dizer. E depois, a vassoura. Entende?
Eu não entendia nada.
Sadie riu, e novamente me lembrei de Ivy Templeton.
— Espere dois anos, foi o que ela disse! Poderíamos ter esperado vinte sem necessidade de diafragma!
— O que aconteceu? — Segurei o alto dos braços dela de leve. — Ele batia em você? Batia em você com o cabo da vassoura? — Havia outro uso para um cabo de vassoura — eu lera Last Exit to Brooklyn —, mas aparentemente isso ele não fizera. Ela era virgem mesmo; a prova estava nos lençóis.
— Não — disse ela. — A vassoura não era para bater. George, acho que não consigo falar mais sobre isso. Não agora. Eu me sinto... não sei... como uma garrafa de refrigerante que foi sacudida. Sabe o que quero?
Achei que sabia, mas fiz o que era bem-educado e perguntei.
— Quero que você me leve lá para dentro e depois tire a camisinha. — Ela ergueu as mãos acima da cabeça e se alongou. Não se dera ao trabalho de vestir o sutiã de novo, e pude ver os seios se erguerem debaixo da blusa. Os mamilos deixavam sombras minúsculas, como pontos finais, contra o pano à luz do fim da tarde.
Ela disse:
— Hoje não quero reviver o passado. Hoje só quero ferver.
4
Uma hora depois, vi que ela cabeceava. Beijei-a primeiro na testa e depois no nariz para acordá-la.
— Tenho de ir. No mínimo para tirar o carro do seu jardim antes que os vizinhos comecem a ligar para os amigos.
— Também acho. Ao lado moram os Sanford, e Lila Sanford é a aluna-bibliotecária do mês.
E eu tinha bastante certeza de que o pai de Lila participava do conselho escolar, mas nada disse. Sadie brilhava, e não havia necessidade de estragar isso. Pelo que os Sanford sabiam, estávamos sentados no sofá com os joelhos fechados, esperando que Dennis, o Pimentinha acabasse e o grande programa de Ed Sullivan começasse. Se às onze o meu carro ainda estivesse na entrada de garagem de Sadie, a ideia deles poderia mudar.
Ela observou enquanto eu me vestia.
— O que acontece agora, George? Conosco?
— Quero ficar com você, se você quiser ficar comigo. É o que quer?
Ela se sentou, o lençol amontoado em torno da cintura, e estendeu a mão para o cigarro.
— Muito. Mas sou casada, e isso não vai mudar até o verão que vem, em Reno. Se eu tentasse a anulação, Johnny brigaria comigo na Justiça. Droga, os pais dele brigariam comigo.
— Se formos discretos, tudo vai dar certo. Mas temos de ser discretos. Disso você sabe, não é?
Ela riu e acendeu o cigarro.
— Ah, sei. Como sei.
— Sadie, você tem tido problemas disciplinares na biblioteca?
— Hem? Alguns, claro. O de sempre. — Ela deu de ombros; os seios balançaram; desejei não ter me vestido tão depressa. Por outro lado, quem eu queria enganar? James Bond poderia estar a postos para o terceiro tempo, mas Jake/George estava esgotado. — Sou a garota nova da escola. Estão me testando. É um pé naquele lugar, mas nada além do esperado. Por quê?
— Acho que os seus problemas vão desaparecer. Os alunos adoram quando os professores se apaixonam. Até os garotos. Para eles, é como um programa de TV.
— Eles saberão que nós...
Pensei no caso.
— Algumas garotas, sim. As que têm experiência.
Ela soprou a fumaça.
— Ótimo. — Mas não parecia totalmente desgostosa.
— Que tal jantar no The Saddle, em Round Hill? Acostumar as pessoas a nos verem como um casal.
— Está bem. Amanhã?
— Não, amanhã tenho o que fazer em Dallas.
— Pesquisa para o livro?
— Hã-hã. — Ali estávamos nós, novos em folha, e eu já mentia. Não gostei, mas não vi outro jeito. Quanto ao futuro... me recusei a pensar nisso naquele momento. Tinha o meu brilho próprio para proteger. — Terça?
— Combinado. E, George?
— O quê?
— Temos de dar um jeito de continuar fazendo isso.
Sorri.
— O amor dará um jeito.
— Acho que essa parte é mais luxúria.
— São ambos, talvez.
— Você é um doce, George Amberson.
Cristo, até o nome era mentira.
— Vou lhe contar sobre Johnny e eu. Quando puder. E você quiser escutar.
— Eu quero. — Achei que tinha. Para que aquilo desse certo, eu teria de entender. Ela. Ele.
A vassoura. — Quando estiver pronta.
— Como o seu estimado diretor gosta de dizer: “Alunos, isso será um desafio, mas valerá a pena.”
Ri.
Ela apagou o cigarro.
— Uma coisa eu gostaria de saber. A dona Mimi nos aprovaria?
— Tenho bastante certeza que sim.
— Também acho. Vá para casa em segurança, querido. E é melhor levar aquilo. — Ela apontava o saco de papel da Farmácia Kileen. Estava em cima da cômoda. — Se eu tiver o tipo de visita intrometida que abre o armário dos remédios depois do xixi, terei de dar explicações.
— Boa ideia.
— Mas deixe bem à mão, meu doce.
E ela piscou.
5
No caminho de casa, fiquei pensando naquelas camisinhas. Marca Trojan... e estriadas para o prazer dela, de acordo com a caixa. A madame não tinha mais o diafragma (embora achasse que ela arranjaria um na próxima ida a Dallas) e as pílulas anticoncepcionais só estariam amplamente disponíveis dali a um ano ou dois. Mesmo então, os médicos teriam medo de receitá-las, se é que me lembrava corretamente do meu curso de sociologia moderna. Portanto, por enquanto seriam Trojans. Usava-as não para o prazer dela, mas para que não tivesse um bebê. O que era divertido quando a gente pensava que eu só seria um bebê dali a mais quinze anos.
Pensar no futuro é confuso de várias maneiras.
6
Na noite seguinte, voltei ao estabelecimento de Silent Mike. A placa na porta dizia FECHADO e o lugar parecia vazio, mas, quando bati, o meu colega eletrônico me deixou entrar.
— Bem na hora, sr. Doe, bem na hora — disse ele. — Vejamos o que acha. Eu acho que me superei.
Fiquei ao lado da vitrine cheia de rádios transístor e esperei enquanto ele sumia na sala dos fundos. Voltou segurando um abajur em cada mão. As cúpulas estavam encardidas, como se tivessem sido ajustadas por muitíssimos dedos sujos. A base de um deles estava lascada e ele ficava torto no balcão: o Abajur Inclinado de Pisa. Estavam perfeitos, e eu lhe disse isso. Ele sorriu e pôs dois gravadores de caixinha junto aos abajures. E também uma sacola fechada contendo vários pedaços de fio tão fino que era quase invisível.
— Quer uma aulinha?
— Acho que entendi — disse eu, e pus cinco notas de vinte no balcão. Fiquei um pouco comovido quando ele tentou devolver uma delas.
— Cento e oitenta foi o preço que combinamos.
— Os outros vinte são para você esquecer que estive aqui.
Ele pensou um instante, depois pôs o polegar na nota de vinte desgarrada e a puxou para o grupo de amiguinhas verdes.
— Isso eu já fiz. Por que não a considero uma gorjeta?
Enquanto ele punha o material num saco de papel pardo, a simples curiosidade me atingiu e lhe fiz uma pergunta.
— Kennedy? Não votei nele, mas desde que não receba ordens do papa, acho que vai dar certo. O país precisa de alguém mais jovem. É uma época nova, sabe?
— Se ele viesse a Dallas, acha que ele ficaria bem?
— Provavelmente. Mas não dá para ter certeza. No geral, se eu fosse ele ficaria ao norte da linha Mason-Dixon.
Sorri.
— Noite feliz, dorme em paz?
Silent Mike (Holy Mike) disse:
— Não comece.
7
Havia uma série de escaninhos para correspondência e anúncios da escola na sala dos professores do primeiro andar. Na manhã de terça-feira, na minha hora de descanso, achei no meu um envelopinho fechado.
Caro George,
Se ainda quiser me levar para jantar hoje à noite, terá de ser por volta das cinco,
porque tenho aula de manhã cedo esta semana inteira e na próxima, para me preparar para a Feira de Livros de Outono. Talvez possamos comer a sobremesa lá em casa.
Tenho bolo quatro quartos, se quiser uma fatia.
Sadie
— Por que está rindo tanto, Amberson? — perguntou Danny Laverty. Ele corrigia redações com uma intensidade de olhos vazios que indicava ressaca. — Conte, estou precisando rir também.
— Não — disse eu. — Piadinha particular. Você não entenderia.
8
Mas nós entendemos; bolo quatro quartos virou o nome e comemos bastante dele naquele outono.
Éramos discretos, mas é claro que havia gente que sabia o que estava acontecendo. Provavelmente houve fofocas, mas nenhum escândalo. Moradores de cidade pequena raramente são cruéis. Conheciam a situação de Sadie, pelo menos em termos gerais, e entendiam que não podíamos assumir nenhum compromisso público, pelo menos por enquanto. Ela não ia à minha casa; isso causaria o tipo errado de falação. Nunca fiquei na dela depois das dez da noite; isso também causaria o tipo errado de falação. Não havia como eu deixar o meu Sunliner na garagem dela e passar a noite, porque o fusquinha de Sadie, por menor que fosse, a enchia quase de parede a parede. E eu não faria isso de jeito nenhum, porque alguém acabaria sabendo. Em cidades pequenas, tudo se sabe.
Eu a visitava depois da escola. Passava lá para a refeição que ela chamava de ceia. Às vezes, íamos ao Al’s Diner e comíamos Prongbúrgueres ou filés de peixe; às vezes, íamos ao The Saddle; duas vezes a levei aos bailes de sábado à noite no Grange local. Assistimos a filmes no cinema Gem da cidade no Mesa de Round Hill ou no Drive-In Starlite de Kileen (que os garotos chamavam de corrida de submarino). Num bom restaurante como The Saddle, ela podia beber um copo de vinho antes do jantar e eu, uma cerveja durante, mas tomávamos cuidado de não sermos vistos em nenhuma taberna local e, sem dúvida, não no Red Rooster, a única boate de Jodie, lugar de que os nossos alunos falavam com desejo e espanto. O ano era 1961 e a segregação racial podia estar finalmente amolecendo no meio — os negros tinham conquistado o direito de se sentar junto ao balcão do Woolworth’s em Dallas, Fort Worth e Houston — mas professores de escola não bebiam no Red Rooster. Não se quisessem manter o emprego. Nunca-nunca-nunca.
Quando fazíamos amor no quarto de Sadie, ela sempre deixava um par de calças, um suéter e um par de mocassins do seu lado da cama. Ela dizia que era a roupa de emergência. A única vez que a campainha tocou enquanto estávamos nus (estado que ela passara a chamar de flagrante delícia), ela se enfiou naquelas roupas em dez segundos cravados. Voltou, rindo e acenando com um exemplar de A sentinela.
— Testemunhas de Jeová. Disse a eles que estava salva e eles foram embora.
Certa vez, enquanto comíamos presunto com quiabo na cozinha depois, ela disse que o nosso namoro lhe lembrava aquele filme com Audrey Hepburn e Gary Cooper — Um amor na tarde.
— Às vezes me pergunto se não seria melhor à noite. — Ela disse isso com certa melancolia. — Quando gente comum faz.
— Você terá oportunidade de descobrir — disse eu. — Guenta aí, baby.
Ela sorriu e beijou o canto da minha boca.
— Você inventa umas expressões interessantes, George.
— Ah, é — respondi —, sou muito original.
Ela empurrou o prato.
— Estou pronta para a sobremesa. E você?
9
Não muito depois de as Testemunhas de Jeová baterem à porta de Sadie — deve ter sido no início de novembro, porque eu terminara de montar o elenco da minha versão de Doze homens e uma sentença —, eu estava do lado de fora varrendo as folhas do gramado quando alguém disse:
— Olá, George, como vai?
Virei-me e vi Deke Simmons, agora viúvo pela segunda vez. Ficara no México mais tempo do que se pensava, e quando todos começavam a acreditar que ficaria por lá, voltara. Era a primeira vez que o via. Estava muito bronzeado, mas magérrimo. As roupas pareciam penduradas nele, e o cabelo, cinza férreo no dia da festa de casamento, agora estava quase todo branco e sumindo no alto.
Larguei o ancinho e corri para ele. Queria apertar a sua mão, mas em vez disso o abracei. Ele se espantou — em 1961, Homens de Verdade Não se Abraçam —, mas depois riu.
Segurei-o com os braços estendidos.
— Você está ótimo!
— Bela tentativa, George. Mas me sinto melhor do que antes. A morte de Mims... Sabia que ia acontecer, mas ainda assim me derrubou. Admito que nisso a cabeça nunca alcança o coração.
— Entre, tome um café.
— Ah, gostaria sim.
Conversamos sobre o tempo que ele passou no México. Conversamos sobre a escola. Conversamos sobre o time invicto de futebol americano e os próximos jogos de outono. Depois ele pousou a xícara e disse:
— Ellen Dockerty me pediu para dizer algumas coisas sobre você e Sadie Clayton.
Oh-oh. E eu pensara que íamos tão bem.
— Ela agora é Dunhill. É o nome de solteira.
— Sei tudo sobre a situação dela. Sabia quando a contratamos. Ela é uma boa moça e você é um bom homem, George. Com base no que Ellie me disse, vocês dois estão manejando uma situação difícil com bastante tato.
Relaxei um pouco.
— Ellie disse que tinha bastante certeza de que nenhum de vocês ouviu falar dos Bangalôs Candlewood, pertinho de Kileen. Ela não se sentiu à vontade para lhe contar e pediu que eu o fizesse.
— Bangalôs Candlewood?
— Eu costumava levar Mims até lá em muitas noites de sábado. — Ele remexia a xícara de café com mãos que agora pareciam grandes demais para o corpo. — Pertencem a um casal de professores aposentados de Arkansas ou Alabama. Um daqueles estados com A, pelo menos. Professores homens aposentados. Se é que você me entende.
— Acho que entendo, sim.
— São gente boa, muito discretos com o seu relacionamento e com o relacionamento de alguns hóspedes. — Ele ergueu os olhos da xícara. Corava um pouco, mas também sorria. — Não é uma taberna para orgias, se é o que está pensando. Muito longe disso. Os quartos são bons, os preços são sensatos e o pequeno restaurante na estrada serve comida caseira. Às vezes as moças precisam de lugares assim. Talvez os homens também. Aí não precisam de muita pressa. E não se sentem vulgares.
— Obrigado — agradeci.
— Não há de quê. Mimi e eu passamos muitas noites agradáveis no Candlewood. Às vezes, só assistíamos à TV de pijama e depois íamos dormir, mas isso pode ser maravilhoso quando se tem uma certa idade. — Ele sorriu com melancolia. — Ou quase. Íamos dormir ouvindo os grilos. Ou às vezes um coiote uivava, muito longe, lá no mato. Para a lua, sabe. Eles fazem mesmo isso. Uivam para a lua.
Ele tirou um lenço do bolso de trás com a lentidão dos velhos e limpou as bochechas com ele.
Estendi-lhe a mão e Deke a apertou.
— Ela gostava de você, embora nunca conseguisse decidir o que pensar a seu respeito. Dizia que você lhe lembrava o jeito como mostravam fantasmas naqueles filmes antigos da década de 30. “Ele é inteligente e brilhante, mas não está aqui”, dizia.
— Fantasma eu não sou — respondi. — Juro.
Ele sorriu.
— Não? Finalmente consegui conferir as suas referências. Isso foi depois que você já trabalhava conosco como substituto e fez aquele serviço maravilhoso com a peça. As do Distrito Escolar de Sarasota são boas, mas fora isso... — Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo. — E o seu diploma é de uma fábrica em Oklahoma.
Pigarrear não adiantou nada. Não consegui falar.
— Quer saber o que isso significa para mim? Bem pouco. Houve uma época, nesta parte do mundo, em que se alguém entrasse na cidade com alguns livros no embornal, óculos no nariz e gravata no pescoço, seria contratado como mestre-escola e ficaria vinte anos no emprego. E não foi há muito tempo. Você é um professor danado de bom. Os garotos sabem, eu sei e Mims também sabia. E para mim isso significa muito.
— Ellen sabe que falsifiquei as referências? — Porque Ellen Dockerty era a diretora em exercício e, depois da reunião do conselho escolar em janeiro, o cargo seria permanentemente dela. Não havia outros candidatos.
— Não, nem vai saber. Não por mim, pelo menos. Acho que não precisa. — Ele se levantou. — Mas há uma pessoa que precisa saber a verdade sobre onde você andou e o que fez, e é uma certa bibliotecária. Quer dizer, caso você tenha boas intenções quanto a ela. Tem?
— Tenho — respondi, e Deke concordou como se isso resolvesse tudo.
Eu adoraria que sim.
10
Graças a Deke Simmons, Sadie finalmente pôde descobrir como era fazer amor depois do pôr do sol. Quando lhe perguntei como foi, ela respondeu que foi maravilhoso.
— Mas mal posso esperar para acordar ao seu lado pela manhã. Está ouvindo o vento?
Estava. Uivava pelos beirais.
— Esse som não dá vontade de se aconchegar?
— Dá.
— Agora vou lhe dizer uma coisa. Espero que não o deixe sem graça.
— Diga.
— Acho que me apaixonei por você. Talvez seja só o sexo, já ouvi dizer que é um erro que muitos cometem, mas acho que não.
— Sadie?
— Sim? — Ela tentava sorrir, mas parecia assustada.
— Amo você também. Sem talvez e sem erros.
— Graças a Deus — disse ela, e se aconchegou.
11
Na segunda visita aos Bangalôs Candlewood, ela estava pronta para falar de Johnny Clayton.
— Mas apague a luz, tá?
Fiz o que ela pediu. Sadie fumou três cigarros enquanto falava. No final, chorou muito, talvez menos de dor recordada do que de vergonha. Para a maioria de nós, acho que é mais fácil admitir os erros do que a estupidez. Não que ela tivesse sido estúpida. Há um mundo de diferença entre estupidez e ingenuidade, e, como a maioria das moças de classe média que chegaram à maturidade nas décadas de 40 e 50, Sadie não sabia quase nada sobre sexo. Disse que nunca tinha visto um pênis de verdade antes de olhar o meu. Tivera vislumbres do de Johnny, mas disse que, se a pegasse olhando, ele segurava o rosto dela e o virava com força quase dolorosa.
— Mas sempre doía — disse ela. — Sabe?
John Clayton era de uma família religiosa convencional, sem nenhuma maluquice. Era agradável, atento, medianamente atraente. Não tinha o melhor senso de humor do mundo (quase nenhum seria mais próximo da verdade), mas parecia adorá-la. Os pais dela o adoravam. Claire Dunhill ficou louquinha por Johnny Clayton. E é claro que ele era mais alto do que Sadie, mesmo quando ela usava salto alto. Depois de anos de piadas sobre varapaus, isso tinha importância.
— A única coisa incômoda antes do casamento era a sua organização compulsiva — disse Sadie. — Mantinha todos os livros em ordem alfabética e ficava muito irritado quando eram trocados de lugar. Ficava nervoso mesmo quando se tirava um só da prateleira; dava para sentir, era um tipo de tensão. Fazia a barba três vezes por dia e lavava as mãos o tempo todo. Se alguém lhe apertasse a mão, ele arranjava uma desculpa para correr ao banheiro e lavar de novo o mais cedo possível.
— E também as roupas com cores combinando — disse eu. — No corpo e no armário, e maldito fosse quem as tirasse do lugar. Ele arrumava as coisas na despensa em ordem alfabética? Ou às vezes se levantava à noite para conferir se os queimadores do fogão estavam desligados e as portas, trancadas?
Ela se virou para mim, os olhos arregalados e espantados no escuro. A cama guinchou amistosa; o vento soprou; uma vidraça solta chocalhou.
— Como sabe?
— É uma síndrome. Transtorno obsessivo-compulsivo. TOC, para resumir. Howard... — Parei. Howard Hughes é um caso grave , ia começando a dizer, mas talvez ainda não fosse verdade. Mesmo que fosse, provavelmente ninguém sabia. — Um velho amigo meu sofria disso. Howard Temple. Não importa. Ele a machucou, Sadie?
— Não de verdade, nada de surras nem socos. Me deu um tapa certa vez, foi tudo. Mas as pessoas ferem de outras maneiras, não é?
— É.
— Eu não podia conversar com ninguém sobre isso. Com certeza, não com a minha mãe. Sabe o que ela me disse no dia do casamento? Que se eu dissesse meia oração antes e meia oração durante, tudo daria certo. Durante era o mais perto que ela chegava da expressão relação sexual . Tentei conversar sobre isso com a minha amiga Ruthie, mas uma vez só. Foi depois das aulas e ela me ajudava a arrumar a biblioteca. “O que acontece por trás da porta do quarto não é da minha conta”, foi o que ela disse. Parei porque na verdade não queria falar daquilo. Tinha muita vergonha.
Então veio tudo num jorro. Parte do que ela disse foi velado pelas lágrimas, mas captei a ideia. Em determinadas noites — uma vez por semana, talvez duas — ele lhe dizia que precisava “botar pra fora”. Ficavam deitados na cama, lado a lado, ela de camisola (ele insistia que ela usasse camisolas que fossem opacas), ele com calções de boxe. Esses calções foram o mais perto de nudez que ela viu. Ele baixava o lençol até a cintura, e ela via a ereção dele erguer o tecido.
— Uma vez ele mesmo olhou aquela tendinha. Só uma vez, que eu me lembre. E sabe o que disse?
— Não.
— “Como somos nojentos.” Depois, disse: “Acabe com isso para que eu possa dormir.”
Ela enfiava a mão debaixo do lençol e o masturbava. Nunca demorava muito, às vezes apenas segundos. Em algumas ocasiões, ele tocava os seios dela enquanto ela realizava essa função, mas em geral as mãos dele ficavam cruzadas no alto do peito. Quando acabava, ele ia ao banheiro, se lavava e voltava de pijama. Tinha sete pijamas, todos azuis.
Então era a vez de ela ir ao banheiro lavar as mãos. Ele insistia que ela assim fizesse durante pelo menos três minutos, e com água tão quente que a pele ficasse vermelha. Quando voltava à cama, erguia a palma das mãos até o rosto dele. Se o cheiro de Lifebuoy não fosse forte o bastante para satisfazê-lo, ela precisava repetir tudo.
— E, quando eu voltava, a vassoura estava lá.
Ele a punha em cima do lençol se fosse verão, sobre o cobertor se fosse inverno. Bem reta, no meio da cama. O lado dele e o dela.
— Se eu ficasse inquieta e me mexesse, ele acordava. Não importava que o sono dele fosse profundo. E me empurrava de volta para o meu lado. Com força. Ele chamava isso de “transgredir a vassoura”.
A vez em que ele lhe deu um tapa foi quando ela perguntou como teriam filhos se ele nunca metia nela.
— Ele ficou furioso. Foi por isso que me deu um tapa. Depois pediu desculpas, mas na hora o que disse foi: “Acha que vou me enfiar no seu buraco de mulher cheio de germes e trazer filhos a esta terra imunda? Ela vai explodir de qualquer modo, quem lê jornal sabe que está chegando, e a radiação vai nos matar. Morreremos com feridas por todo o corpo, tossindo os bofes para fora. Pode acontecer qualquer dia.”
— Jesus. Não admira que você o deixasse, Sadie.
— Só depois de quatro anos desperdiçados. Levei esse tempo todo para me convencer de que merecia mais da vida do que arrumar pelas cores a gaveta de meias do meu marido, lhe bater uma punheta duas vezes por semana e dormir com um diabo de uma vassoura. Essa era a parte mais humilhante, a parte que eu tinha certeza de que nunca conseguiria contar a ninguém... porque era engraçada.
Não achei que fosse engraçada. Achei que ficava em algum lugar na zona crepuscular entre a neurose e a pura e simples psicose. Também achei que escutava a perfeita Fábula dos Anos Cinquenta. Era fácil imaginar Rock Hudson e Doris Day dormindo com uma vassoura entre eles. Quer dizer, se Rock não fosse gay.
— E ele não veio atrás de você?
— Não. Me candidatei a uma dúzia de escolas e dei como endereço de resposta uma caixa postal. Me sentia como uma mulher que tivesse um caso, se escondendo. E foi assim que a minha mãe e o meu pai me trataram quando descobriram. O meu pai cedeu um pouco — acho que ele suspeita que era muito ruim, embora é claro que não queira saber nenhum detalhe; mas a minha mãe? Ela, não. Está furiosa comigo. Teve de mudar de igreja e largar o Grupo de Costura. Porque não conseguia manter a cabeça erguida, é o que diz.
De certa maneira, isso parecia tão cruel e maluco quanto a vassoura, mas eu não disse nada. Um aspecto diferente da questão me interessou mais do que os pais sulistas e convencionais de Sadie.
— Clayton não lhes disse que você tinha ido embora? Entendi direito? Nunca foi visitá-los?
— Não. A minha mãe entendeu, é claro. — O sotaque sulista de Sadie, geralmente leve, se aprofundou. — Envergonhei tanto aquele pobre rapaz que ele não quis contar a ninguém. — Ela largou o sotaque. — Também não estou sendo sarcástica. Ela entende a vergonha e entende o encobrimento. Nessas duas coisas, Johnny e mamãe estão em perfeita harmonia. Era c o m ela que ele devia ter se casado. — Ela deu um riso um tanto histérico. — Mamãe provavelmente adoraria aquela vassoura velha.
— Nenhuma notícia dele? Nem mesmo um cartão-postal dizendo: “Ei, Sadie, vamos acertar as contas para podermos seguir com a vida?”
— Como poderia? Ele não sabe onde estou e tenho certeza de que não se importa.
— Há alguma coisa que você queira dele? Porque tenho certeza de que um advogado...
Ela me beijou.
— A única coisa que quero está aqui na cama comigo.
Chutei os lençóis até os tornozelos.
— Olhe para mim, Sadie. É de graça.
Ela olhou. E depois tocou.
12
Em seguida, cochilei. Não profundamente — ainda conseguia ouvir o vento e aquela vidraça chocalhante — mas cheguei a ponto de sonhar. Sadie e eu estávamos numa casa vazia. Estávamos nus. Algo se movia no andar de cima — batia e fazia ruídos desagradáveis. Poderiam ser passos, mas parecia haver pés demais. Não me senti culpado porque seríamos descobertos sem roupa. Me senti apavorado. Escritas com carvão na massa corrida descascada de uma parede, estavam as palavras LOGO MATAREI O PRESIDENTE. Abaixo, alguém acrescentara NÃO DEMORA ELE TÁ CHEIO DE DOENSA. Isso fora escrito com batom escuro. Ou talvez fosse sangue.
Tud, clump, tud.
Vindo de cima.
— Acho que é Frank Dunning — cochichei para Sadie. Segurei o braço dela. Fazia muito frio. Era como segurar o braço de um morto. Uma mulher surrada até a morte com uma marreta, talvez.
Sadie fez que não. Olhava para o teto, a boca trêmula.
Clud, tump, dud.
Pó de massa corrida caindo.
— Então é John Clayton — cochichei.
— Não — disse ela. — Acho que é o Homem do Cartão Amarelo. Ele trouxe o Jimla.
Acima de nós, os barulhos pararam de repente.
Ela agarrou o meu braço e começou a sacudi-lo. Os olhos dela estavam do tamanho do rosto.
— É isso! É o Jimla! E ele nos escutou! O Jimla sabe que estamos aqui!
13
— Acorde, George! Acorde!
Abri os olhos. Ela estava ao meu lado, apoiada no cotovelo, o rosto um borrão pálido.
— O quê? Que horas são? Temos de ir? — Mas ainda estava escuro e o vento ainda era forte.
— Não, ainda nem é meia-noite. Você teve um pesadelo. — Ela riu, um pouco nervosa. — Sobre futebol, talvez? Porque você dizia “Jimla, Jimla”.
— É? — Sentei na cama. Houve o riscar de um fósforo e o rosto dela foi momentaneamente iluminado quando ela acendeu um cigarro.
— É. Dizia, sim. Você disse um monte de coisa.
Isso não era bom.
— Como o quê?
— A maior parte eu não entendi, mas uma coisa foi bem clara. “Derry é Dallas”, você disse. Depois disse de trás para diante. “Dallas é Derry.” O que era isso? Você se lembra?
— Não. — Mas é difícil mentir de forma convincente quando a gente acaba de acordar, ainda meio tonto, e vi ceticismo no rosto dela. Antes que isso afundasse em descrença, houve uma batida na porta. Às quinze para a meia-noite, uma batida na porta.
Nos entreolhamos.
A batida soou de novo.
É o Jimla. Essa ideia era muito clara, muito certa.
Sadie pôs o cigarro no cinzeiro, enrolou o lençol no corpo e correu para o banheiro sem dizer palavra. A porta se fechou atrás dela.
— Quem é? — perguntei.
— É o sr. Yorrity, senhor... Bud Yorrity.
Um dos professores gays aposentados que eram donos do lugar.
Saí da cama e enfiei as calças.
— O que foi, sr. Yorrity?
— Tenho um recado para o senhor. A senhora disse que era urgente.
Abri a porta. Ele era um homenzinho com um roupão puído. O cabelo era uma nuvem frisada pelo sono em torno da cabeça. Numa das mãos, havia um pedaço de papel.
— Que senhora?
— Ellen Dockerty.
Agradeci pelo incômodo e fechei a porta. Desdobrei o papel e li o recado.
Sadie saiu do banheiro, ainda enrolada no lençol. Os olhos estavam arregalados e assustados.
— O que foi?
— Houve um acidente — respondi. — Vince Knowles capotou com a picape fora da cidade. Mike Coslaw e Bobbi Jill estavam com ele. Mike foi jogado longe. Quebrou o braço. Bobbi Jill tem um corte feio no rosto, mas Ellie diz que, fora isso, está bem.
— E Vince?
Pensei no modo como todos diziam que Vince dirigia — como se não houvesse amanhã. Agora não havia. Não para ele.
— Morreu, Sadie.
A boca se escancarou.
— Não pode ser! Ele só tem 18 anos!
— Eu sei.
O lençol se libertou dos braços que relaxaram e formou uma poça em torno dos pés. Ela cobriu o rosto com as mãos.
14
A minha versão revista de Doze homens e uma sentença foi cancelada. O que ocupou o seu lugar foi Morte de um estudante, peça em três atos: o velório na funerária, o culto na Igreja Metodista da Graça, a cerimônia fúnebre no Cemitério West Hill. Esse espetáculo enlutado teve o comparecimento da cidade inteira ou quase, a ponto de não fazer diferença.
Os pais e a irmã caçula e estupefata de Vince estrelaram o velório, sentados em cadeiras dobráveis ao lado do caixão. Quando me aproximei deles com Sadie ao lado, a sra. Knowles se levantou e me abraçou. Quase sufoquei com os odores de perfume White Shoulders e antiperspirante Yodora.
— O senhor mudou a vida dele — cochichou ela no meu ouvido. — Ele me contou. Pela primeira vez, tirou boas notas porque queria atuar.
— sra. Knowles, sinto muito, muitíssimo — disse eu. Então uma ideia terrível me passou pela cabeça e a abracei com mais força, como se abraçar pudesse apagá-la: Talvez seja o efeito borboleta. Talvez Vince tenha morrido porque vim para Jodie.
O caixão estava flanqueado por fotomontagens da vida brevíssima de Vince. Num cavalete na frente, sozinha, estava uma foto dele com o figurino de Ratos e homens e aquele chapéu velho e surrado de feltro. O rosto inteligente de rato espiava por baixo. Vince realmente não fora um grande ator, mas aquela foto o pegara usando um sorriso absolutamente perfeito de espertinho. Sadie começou a soluçar, e eu sabia por quê. A vida muda de repente. Às vezes na nossa direção, mas com mais frequência sai girando para longe, flertando e faiscando ao se afastar: até logo, querida, foi bom enquanto durou, não foi?
E Jodie era boa — boa para mim. Em Derry eu era um estranho, mas Jodie era um lar. Eis o lar: o cheiro do mato e o modo como os morros ficavam alaranjados de flores no verão. O leve sabor de tabaco na língua de Sadie e o guincho do piso de madeira oleada da minha casa. Ellie Dockerty se preocupando a ponto de nos mandar um recado no meio da noite, talvez para podermos voltar à cidade sem sermos descobertos, provavelmente só para que soubéssemos. A mistura quase sufocante de perfume e desodorante quando a sra. Knowles me abraçou. Mike pondo o braço — o que não estava enterrado no gesso — à minha volta no cemitério e depois apertando o rosto contra o meu ombro até conseguir se controlar de novo. O corte feio e vermelho no rosto de Bobbi Jill também é lar, e pensar que, a menos que fizesse uma cirurgia plástica (que a família não poderia pagar), viraria uma cicatriz que lhe lembraria pelo resto da vida que vira um garoto vizinho seu morrer ao lado da estrada, a cabeça quase arrancada dos ombros. Lar é a braçadeira preta que Sadie usou, que usei, que todo o corpo docente usou durante uma semana. E Al Stevens colando a foto de Vince na vitrine da lanchonete. E as lágrimas de Jimmy LaDue quando se levantou diante da escola inteira e dedicou a temporada invicta a Vince Knowles.
Outras coisas, também. Gente dizendo olá na rua, gente acenando para mim do carro, Al Stevens levando eu e Sadie até a mesa dos fundos que ele começara a chamar de “nossa mesa”, jogar cribbage nas tardes de sexta-feira com Danny Laverty na sala dos professores por um centavo o ponto, discutir com a idosa srta. Mayer sobre quem fazia o melhor noticiário, se Chet Huntley e David Brinkley ou Walter Cronkite. A minha rua, a minha casa comprida, me acostumar de novo a usar máquina de escrever. Ter uma namorada e receber selinhos de descontos da loja Sperry & Hutchinson ao pagar as compras e manteiga de verdade na pipoca do cinema.
Lar é ver a lua nascer sobre a terra ampla e adormecida e ter alguém que podemos chamar à janela para olharmos juntos. Lar é onde dançamos com os outros, e dançar é viver.
15
O Ano de Nosso Senhor de 1961 estava terminando. Num dia de garoa, umas duas semanas antes do Natal, cheguei em casa depois da escola, mais uma vez enrolado no meu casaco rancheiro de couro cru, e ouvi o telefone tocar.
— Aqui é Ivy Templeton — disse uma mulher. — Você nem deve se lembrar de mim, né?
— Eu me lembro muito bem, sra. Templeton.
— Num sei nem por que resolvi ligar, o diabo daquelas dez pratas já gastei tem muito tempo. Só que alguma coisa sobre o senhor grudou na minha cabeça. Rosette também. Ela chama o senhor de “o homem que catou a minha bola”.
— Vai se mudar, sra. Templeton?
— Diabo, isso aí é mais que cem por cento certo. Mamãe vem de Mozelle amanhã com o caminhão.
— A senhora não tem carro? Ou ele quebrou?
— Prum lixo daqueles, até que o carro tá andano bem, mas Harry num vai dirigir. Nem o carro nem mais nada. Ele tava trabalhano no diabo do serviço lá da Manpower mês passado. Caiu numa vala e um caminhão de brita passou por cima dele quando tava vindo de ré. Quebrou a coluna.
Fechei os olhos e vi os restos esmagados do caminhão de Vince sendo levados pela rua Principal atrás do reboque da Gogie’s Sunoco. Sangue cobrindo todo o interior do para-brisa quebrado.
— Sinto muito ouvir isso, sra. Templeton.
— Ele vai viver, mas não vai andar nunca mais. Vai ficar na cadeira de roda e mijar num saquinho, isso é o que ele vai fazer. Mas primeiro vai pra Mozelle na traseira do caminhão da mamãe. Vamos roubar o colchão lá do quarto pra ele deitar. É como levar o cachorro nas férias, né?
Ela começou a chorar.
— Tô devendo dois mês de aluguel, mas isso num me assusta não. Sabe o que me assusta, sr. Puddentane, Se me Perguntar, É o Que Vou Falar? Tenho só a mixaria de trinta e cinco dólares e acabou. Aquele parasita do Harry, se tivesse ficado em pé eu não tava nesse buraco. Pensei que tava no buraco antes, mas agora olha só isso!
Houve uma longa fungada aquosa no meu ouvido.
— Quer saber? O carteiro tá me olhando de jeito, e acho que por vinte dólar dá pra lhe dar uma trepada no diabo do chão da sala. Se o diabo dos vizinho do outro lado da rua não ficar vigiando a gente enquanto a gente tiver fazendo. Não dá pra levar ele pro quarto, dá? É lá que tá o meu marido que quebrou a coluna. — Ela raspou uma risada. — Vô lhe dizer, porque não vem cá no seu conversível bonito? Me leve prum motel aí. Gaste um pouco mais, arranje um que tenha sala. Rosette pode assistir à TV e a gente dá uma trepada. Você pareceu que ia ser bom nisso.
Não disse nada. Tivera uma ideia brilhante feito lâmpada.
Se o diabo dos vizinho do outro lado da rua não ficar vigiando a gente fazendo.
Havia um homem que eu deveria estar vigiando. Quer dizer, além do próprio Oswald. Um homem cujo nome por acaso também era George e que se tornaria o único amigo de Oswald.
Não confie nele, escrevera Al nas suas anotações.
— Taí, Sr. Puddentane? Não? Se não tá, foda-se e té...
— Não desligue, sra. Templeton. Suponhamos que eu pague o aluguel atrasado e lhe pague umas cem pratas a mais? — Era muito mais do que eu precisava pagar pelo que queria, mas tinha o dinheiro e ela precisava dele.
— Moço, agora mesmo dou procê com o meu pai olhando por duzentas pratas.
— Não precisa dar pra mim, sra. Templeton. Só precisa me encontrar naquele estacionamento no fim da rua. E me levar uma coisa.
16
Estava escuro na hora em que cheguei ao estacionamento do depósito da Montgomery Ward, e a chuva começara a engrossar um pouco, do jeito que fica quando tenta virar neve. Isso não acontece com frequência no terreno montanhoso ao sul de Dallas, mas às vezes não é nunca. Torci para conseguir voltar a Jodie sem derrapar para fora da estrada.
Ivy estava sentada atrás do volante de um velho sedã triste com estribos enferrujados e uma janela de trás rachada. Entrou no meu Ford e imediatamente se inclinou na direção do aquecedor, que estava ligado a toda. Usava duas camisas de flanela em vez de casaco e tremia.
— Que gostoso. Aquele Chev é mais frio que a teta de uma bruxa. O aquecedor pifou. Trouxe o tutu, sr. Puddentane?
Eu lhe dei um envelope. Ela o abriu e folheou algumas notas de vinte que tinham ficado na prateleira de cima do meu armário desde que eu recebera a aposta sobre a Série Mundial na Financeira Fé mais de um ano antes. Depois ergueu do assento o traseiro substancial, enfiou o envelope no bolso de trás do jeans e remexeu no bolso do peito da camisa mais junto do corpo. Tirou uma chave e a bateu na minha mão.
— Isso serve?
Servia muito bem.
— É cópia, certo?
— Como o senhor falou. Mandei fazer na loja de ferragem da rua McLaren. Por que quer a chave daquela latrina gloriosa? Por duzentos, o senhor podia alugar por quatro meses.
— Tenho as minhas razões. Me fale dos vizinhos do outro lado da rua. Aqueles que poderiam vigiar você e o carteiro fazendo no chão da sala.
Ela se remexeu inquieta e fechou um pouco mais as camisas sobre o busto igualmente substancial.
— Eu só tava brincando.
— Eu sei. — Não sabia, e não importava. — Só quero saber se os vizinhos podem mesmo ver dentro da sua sala.
— Claro que podem, e eu poderia ver a sala deles se não tivessem cortina. Que eu compraria pra minha casa se tivesse dinheiro. Nisso de intimidade, é igual morar na rua. Acho que eu podia pendurar um saco de aniagem tirado bem dali — ela apontou as latas de lixo alinhadas no lado leste do depósito —, mas parece coisa de puta.
— Os vizinhos com vista moram em que casa? Na 2.704?
— Na 2.706. Antes era Slider Burnett com a família, mas eles se mudaram logo depois do Halloween. Ele era palhaço substituto de rodeio, dá pra acreditar? Quem já ouviu falar dessa profissão? Agora é um sujeito chamado Hazzard com os dois filhos e acho que a mãe dele. Rosette não brinca com os garotos, diz que são sujos. O que é novidade vindo daquela porquinha. A velha vovó tenta falar e só sai bobagem. O lado da cara dela não mexe. Num sei como é que ela ajuda, se arrastando daquele jeito. Se eu ficar assim, pode me dar um tiro. Ô, cachorrada! — Ela balançou a cabeça. — Vou lhe dizer uma coisa, eles num vão ficar muito tempo lá. Ninguém fica na rua Cedes. Tem um cigarro aí? Eu devia largar. Quando a gente não tem nem 25 centavo pro cigarro, é porque tá na hora de parar.
— Não fumo.
Ela deu de ombros.
— Então deixa pra lá. Agora posso comprar, não é? Estou rica pra diabo. Você não é casado, é?
— Não.
— Então tem namorada. Dá pra sentir o perfume deste lado do carro. Perfume bom.
Isso me fez sorrir.
— É, tenho uma namorada.
— Que bom. Ela sabe que você fica andando pelo lado sul de Fort Worth depois de escurecer, fazendo coisas esquisitas?
Eu não disse nada, mas às vezes isso basta como resposta.
— Deixa pra lá. Isso é com você e ela. Agora estou quente e vou voltar. Se amanhã ainda estiver frio e chovendo assim, não sei o que vamos fazer com o Harry na traseira do caminhão da mamãe. — Ela me olhou, sorrindo. — Quando eu era pequena, achava que ia virar Kim Novak quando crescesse. Agora Rosette acha que vai ficar no lugar de Darlene na Turma do Mickey. Puta que pariu.
Ela começou a abrir a porta e eu disse:
— Espere.
Tirei o lixo dos bolsos — drops, lenço de papel, uma caixa de fósforos que Sadie enfiara ali, anotações para uma prova de inglês que pretendia dar ao primeiro ano antes das férias de Natal — e depois lhe entreguei o casaco rancheiro.
— Fique com isso.
— Num vou ficar com o diabo do seu casaco! — Ela pareceu chocada.
— Tenho outro em casa. — Não tinha, mas podia comprar, e isso era mais do que ela podia fazer.
— Que qui vou dizer pro Harry? Que achei debaixo do diabo de uma folha de repolho?
Sorri.
— Diga-lhe que trepou com o carteiro e comprou com o que ganhou. O que ele vai fazer, correr atrás de você pela rua e lhe dar uma surra?
Ela riu, um grasnido áspero de cuco que era estranhamente encantador. E aceitou o casaco.
— Lembranças a Rosette — disse eu. — Diga-lhe que vou visitá-la nos sonhos.
Ela parou de sorrir.
— Espero que não, moço. O que ela teve com você foi um pesadelo. Quase derrubou a casa de tanto gritar. Me acordou de um sono pesado às duas da manhã. Ela disse que o homem que catou a bola dela tinha um monstro no banco de trás do carro e ela estava com medo que o monstro comesse ela. Me deixou apavorada, foi sim, ela gritando daquele jeito.
— O monstro tinha nome? — É claro que tinha.
— Ela disse que era um jimla. Vai ver que queria dizer um gênio, como nas histórias de Aladim e os Sete Véus. Mas eu tenho que ir. O senhor se cuide.
— Você também, Ivy. Feliz Natal.
Ela grasnou o seu riso de cuco outra vez.
— Quase esqueci disso. Procê também. Não esqueça o presente da sua garota.
Ela trotou até o carro velho com o meu casaco — casaco dela, agora — jogado sobre os ombros. Nunca mais a vi.
17
A chuva só congelava nas pontes e, da minha outra vida — aquela na Nova Inglaterra —, eu sabia que tinha de tomar cuidado nelas, mas ainda assim foi uma longa viagem de volta a Jodie. Bastou pôr água no fogo para fazer uma xícara de chá e o telefone tocou. Dessa vez era Sadie.
— Estou tentando falar com você desde a hora da ceia para lhe perguntar sobre a festa de Natal do treinador Borman. Começa às três. Vou se você me levar, porque aí podemos ir embora cedo. Dizemos que temos reservas para jantar no The Saddle, ou coisa parecida. Mas preciso responder ao convite.
Vi o meu convite ao lado da máquina de escrever e senti uma pontada de culpa. Estava ali havia três dias e eu nem sequer abrira.
— Você quer ir? — perguntei.
— Não acharia ruim aparecer por lá. — Houve uma pausa. — Onde você estava todo esse tempo?
— Em Fort Worth. — Quase acrescentei: fazendo compras de Natal. Mas não. A única coisa que eu comprara em Fort Worth fora informação. E a chave de uma casa.
— Foi fazer compras?
Mais uma vez, tive de lutar para não mentir.
— Eu... Sadie, na verdade não posso dizer.
Houve uma pausa longa, muito longa. Fiquei com vontade de fumar. Talvez tivesse desenvolvido o vício por contato. Deus sabia que eu fumava por procuração o dia todo, todos os dias. A sala dos professores era uma neblina azul constante.
— É uma mulher, George? Outra mulher? Ou estou sendo intrometida?
Bom, havia Ivy, mas não era desse tipo de mulher que ela estava falando.
— No departamento feminino, só há você.
Outra daquelas pausas longas, muito longas. No mundo, Sadie podia se mover descuidadamente; na cabeça, nunca era assim. Finalmente, ela disse:
— Você sabe muito sobre mim, coisas que jamais pensei que contaria a alguém, mas quase não sei nada sobre você. Acho que acabei de perceber isso. Sadie pode ser estúpida, George, não é?
— Você não é estúpida. E uma das coisas que você sabe é que a amo.
— É... — Ela soou desconfiada. Recordei o pesadelo que tivera naquela noite, nos Bangalôs Candlewood, e a cautela que vira no rosto dela quando lhe disse que não lembrava. Era aquele mesmo ar no rosto dela agora? Ou talvez uma expressão um pouco mais profunda do que mera cautela?
— Sadie? Estamos bem?
— Estamos. — Soando um pouco mais segura agora. — Claro que estamos. A não ser pela festa do treinador. O que quer fazer? Lembre-se de que todo o maldito Departamento Escolar estará lá, e a maioria deles estará bêbado de cair na hora em que a sra. Treinadora servir o bufê.
— Vamos — disse eu, animado demais. — Que vai rolar a festa, vai rolar.
— Rolar o quê?
— Diversão. Foi o que eu quis dizer. Ficamos lá uma hora, talvez hora e meia, depois pulamos fora. Jantar no The Saddle. Está bom pra você?
— Ótimo. — Parecíamos um casal negociando o segundo encontro depois que o primeiro ficara inconcluso. — Vamos nos divertir.
Pensei em Ivy Templeton sentindo o fantasma do perfume de Sadie e perguntando se a minha garota sabia que eu estava me enfiando em Fort Worth depois do escurecer, fazendo coisas esquisitas. Pensei em Deke Simmons dizendo que havia uma pessoa que merecia saber a verdade sobre onde eu estivera e o que fizera. Mas eu contaria a Sadie que matara Frank Dunning a sangue-frio para que ele não assassinasse a mulher e três dos quatro filhos? Que eu fora ao Texas para impedir um assassinato e mudar o rumo da História? Que eu sabia que podia fazer isso porque viera de um futuro onde estaríamos tendo essa conversa pelo computador?
— Sadie, tudo vai dar certo. Isso eu lhe juro.
— Ótimo — disse ela de novo. E, em seguida: — Vejo você amanhã, George, na escola. — E desligou, muito gentil e bem-educada.
Fiquei segurando o telefone por vários segundos, fitando o nada bem à frente. Começou um matraquear nas janelas que davam para o quintal. A chuva finalmente se transformara em neve.