Novembro de 63
Capítulo 26
Durante as onze semanas seguintes, mais uma vez levei duas vidas. Havia aquela da qual eu mal sabia — a vida exterior — e a que eu conhecia bem demais. Essa era a interior, na qual eu costumava sonhar com o Homem do Cartão Amarelo.
Na vida exterior, a senhora do andador (Alberta Hitchinson; Sadie a procurou e lhe levou um buquê de flores) ficou ao meu lado na calçada e berrou até que um vizinho saiu, viu a situação e ligou para a ambulância que me levou para Parkland. O médico que me tratou foi Malcolm Perry, que mais tarde trataria tanto de John F. Kennedy quanto de Lee Harvey Oswald quando estavam morrendo. Comigo ele teve mais sorte, embora fosse por pouco.
Eu sofrera dentes quebrados, nariz quebrado, arco zigomático quebrado, joelho esquerdo fraturado, braço esquerdo quebrado, dedos luxados e lesões abdominais. Também sofrera uma lesão cerebral, que foi a que mais preocupou Perry.
Disseram-me que acordei e urrei quando apalparam a minha barriga, mas não tenho lembrança disso. Fui cateterizado e, imediatamente, comecei a mijar o que os anunciadores de boxe chamariam de “clarete”. A princípio os meus sinais vitais ficaram estáveis, depois começaram a piorar. Conferiram o meu tipo sanguíneo e me deram quatro bolsas de sangue... que, Sadie me contou mais tarde, os residentes de Jodie compensaram cem vezes mais com uma campanha de doação de sangue no final de setembro. Ela teve de me contar várias vezes, porque eu não parava de me esquecer. Fui preparado para a cirurgia abdominal, mas primeiro uma consulta neurológica e uma punção raquidiana — não havia coisas como tomografias e ressonâncias magnéticas na Terra de Antigamente.
Também me contaram que conversei com duas enfermeiras que me prepararam para a punção. Disse a elas que a minha mulher tinha problemas de bebida. Uma delas disse que isso era muito ruim e me perguntou o nome dela. Eu lhes disse que era um peixe chamado Wanda e dei uma boa gargalhada. Depois, desmaiei de novo.
O meu baço estava destruído. Eles o removeram.
Enquanto eu ainda estava apagado e o meu baço ia sei lá para onde vão os órgãos já sem utilidade mas não absolutamente vitais, fui entregue à Ortopedia. Lá, o meu braço quebrado foi entalado e a perna quebrada, posta no gesso. Muita gente o assinou nas semanas seguintes. Às vezes eu conhecia o nome; em geral, não.
Fui mantido sob sedação, com a cabeça estabilizada e a cama erguida exatos trinta graus. O fenobarbital não era porque eu estivesse consciente (embora às vezes eu murmurasse, como disse Sadie), mas porque tinham medo que de repente eu acordasse e me lesionasse ainda mais. Em essência, Perry e os outros médicos (Ellerton também vinha acompanhar regularmente o meu progresso) tratavam a minha carne machucada como uma bomba que ainda não explodira.
Até hoje, ainda não sei direito o que são hematócrito e hemoglobina, mas os meus começaram a se recuperar e isso agradou a todos. Fizeram outra punção lombar três dias depois. Essa mostrou sinais de sangue velho, e no que diz respeito a punções lombares, velho é melhor do que novo. Indicava que eu sofrera um trauma cerebral significativo, mas eles poderiam abrir mão de abrir um brrr-raco no meu crânio, procedimento arriscado dadas todas as batalhas que o meu organismo travava em outras frentes.
Mas o passado é obstinado e se protege de mudanças. Cinco dias depois de internado, a carne em torno da incisão da esplenectomia começou a ficar vermelha e quente. No dia seguinte, a incisão reabriu e tive febre. O meu estado, que fora baixado de gravíssimo para grave depois da segunda punção, voltou correndo para gravíssimo. De acordo com a minha ficha, eu fiquei “sedado por ordem do dr. Perry e com mínima reação neurológica”.
Em 7 de setembro, acordei rapidamente. Ou assim me contaram. Uma mulher, bonita apesar da cicatriz no rosto, e um velho de chapéu de caubói no colo estavam sentados na minha cama.
— Sabe o seu nome? — perguntou a mulher.
— Puddentane — respondi. — Se me perguntar, é o que vou falar.
O sr. Jake George Puddentane Epping-Amberson passou sete semanas em Parkland antes se ser transferido para um centro de reabilitação — um pequeno conjunto habitacional para doentes — na zona norte de Dallas. Durante aquelas sete semanas, tomei antibiótico na veia para a infecção que se instalara onde antes estava o meu baço. A tala do braço quebrado foi substituída por um gesso comprido, que também se encheu de nomes que eu não conhecia. Pouco antes de me mudar para Eden Fallows, o centro de reabilitação, fui promovido a um gesso curto no braço. Mais ou menos nessa época, uma fisioterapeuta começou a torturar o meu joelho para que recuperasse algo parecido com mobilidade. Disseram que gritei muito, mas não me lembro.
Malcolm Perry e o resto da equipe de Parkland salvaram a minha vida, disso não tenho dúvida. Também me deram um presente involuntário e desagradável que perdurou durante a minha estada em Eden Fallows. Foi uma infecção secundária causada pelos antibióticos bombeados no meu organismo para combater a primária. Tenho lembranças enevoadas de vomitar e da impressão de passar dias inteiros com a bunda numa comadre. Lembro de pensar, em certo momento, tenho de ir à Drogaria Derry falar com o sr. Keene. Preciso de Kaopectate. Mas quem era o sr. Keene, e onde ficava Derry?
Eles me deixaram sair do hospital quando comecei a segurar a comida lá dentro de novo, mas já estava quase quinze dias em Eden Fallows quando a diarreia parou. Nisso, era quase Halloween. Sadie (geralmente eu me lembrava do nome dela; às vezes me escapava) me trouxe uma cabeça de abóbora de papel. Essa lembrança é claríssima, porque gritei quando vi. Eram os gritos de alguém que esqueceu algo importantíssimo.
— O quê? — perguntou ela. — O que é, querido? Qual é o problema? É Kennedy? Alguma coisa sobre Kennedy?
— Ele vai matar todo mundo com um martelo! — gritei para ela. — Na noite de Halloween! Tenho de impedir!
— Quem? — Ela pegou as minhas mãos agitadas, o rosto assustado. — Impedir quem?
Mas não consegui me lembrar e adormeci. Dormia muito, e não só por causa da lesão na cabeça que sarava devagar. Estava exausto, era pouco mais do que um fantasma do meu antigo eu. No dia da surra, pesava oitenta e quatro quilos. Quando me tiraram do hospital e me instalaram em Eden Fallows, pesava sessenta e três.
Essa era a vida exterior de Jake Epping, homem que fora muito surrado e depois quase morreu no hospital. A minha vida interior eram trevas, vozes e momentos de compreensão que eram como relâmpagos: me cegavam com o seu brilho e sumiam antes que eu conseguisse mais do que vislumbres da paisagem com a sua luz. Ficava quase o tempo todo perdido, mas de vez em quando eu me achava.
Eu estava com um calor infernal e uma mulher me alimentava lascas de gelo que estavam divinamente frescas. Essa era A MULHER DA CICATRIZ, que às vezes era Sadie.
Eu estava no vaso sanitário no canto do quarto sem ideia nenhuma de como chegara ali, liberando galões de merda ardente e aguada, o lado do corpo coçando e latejando, o joelho aos berros. Lembro-me de desejar que alguém me matasse.
Eu estava tentando sair da cama porque tinha de fazer algo importantíssimo. Parecia que o mundo inteiro dependia de mim para isso. O HOMEM COM CHAPÉU DE CAUBÓI estava lá. Ele me segurou e me ajudou a voltar para a cama antes que eu caísse no chão.
— Ainda não, filho — disse ele. — Você está longe de ter força suficiente.
Eu estava falando — ou tentando falar — com um par de policiais fardados que foram fazer perguntas sobre a surra que eu levara. Um deles tinha no peito uma tira com o nome TIPPIT. Tentei lhe dizer que ele corria perigo. Tentei lhe dizer que se lembrasse de 5 de novembro. Era o mês certo, mas o dia errado. Não consegui me lembrar da data real e, frustrado, comecei a socar a minha cabeça estúpida. Os policiais se entreolharam, estarrecidos. NÃO TIPPIT chamou a enfermeira. Ela veio com o médico, o médico me deu uma injeção e fui embora flutuando.
Eu estava escutando Sadie ler para mim, primeiro Judas, o obscuro , depois Tess of the D’Urbervilles. Eu conhecia essas histórias e escutá-las de novo era confortador. Em certo momento, durante Tess, lembrei-me de uma coisa.
— Fiz Tessica Caltrop nos deixar em paz.
Sadie ergueu os olhos.
— Quer dizer Jessica? Jessica Caltrop? Foi mesmo? Como? Você se lembra?
Mas não. Sumira.
Eu estava olhando Sadie quando ela ficava em pé junto à minha janelinha, fitando a chuva lá fora e chorando.
Mas na maior parte do tempo, eu estava perdido.
O HOMEM COM CHAPÉU DE CAUBÓI era Deke, mas certa vez achei que era o meu avô, e isso me deixou muito apavorado, porque o vovô Epping estava morto e...
Epping, esse era o meu sobrenome. Agarre-se a isso, disse a mim mesmo, mas no começo não consegui.
Várias vezes, UMA MULHER IDOSA DE BATOM VERMELHO veio me visitar. Às vezes eu achava que o nome dela era dona Mimi; às vezes, que era dona Ellie; certa vez tive bastante certeza de que era Irene Ryan, que fez a vovó Clampett no filme A família Buscapé. Disse a ela que jogara o meu celular num lago.
— Agora ele dorme com os peixes. Ah, como eu queria ter aquele danado de volta.
UM JOVEM CASAL veio. Sadie disse:
— Veja, são Mike e Bobbi Jill.
Eu disse:
— Mike Coleslaw.
O RAPAZ disse:
— Quase, sr. A. — Ele sorriu. Uma lágrima escorreu pela sua bochecha quando ele sorriu.
Mais tarde, quando iam a Eden Fallows, Sadie e Deke se sentavam comigo no sofá. Sadie pegava a minha mão e perguntava:
— Qual é o nome dele, Jake? Você nunca me disse o nome dele. Como vamos detê-lo se não soubermos quem é nem onde vai estar?
— Vou acabar com ele — disse eu. Tentei com muita força. Fez a parte de trás da minha cabeça doer, mas tentei com mais força ainda. — Fazer ele parar.
— Você não vai conseguir parar um percevejo sem a nossa ajuda — disse Deke.
Mas Sadie era querida demais e Deke, velho demais. Para começar, ela não deveria ter contado nada a ele. Mas talvez tudo bem, porque na verdade ele não acreditava.
— Se vocês se envolverem, o Homem do Cartão Amarelo vai impedir vocês — disse eu. — Sou o único que ele não pode impedir.
— Quem é o Homem do Cartão Amarelo? — perguntou Sadie, inclinando-se para a frente e segurando as minhas mãos.
— Não lembro, mas ele não pode me impedir porque não sou daqui.
Só que ele estava me impedindo. Ou algo estava. O dr. Perry disse que a minha amnésia era rasa e transitória, e tinha razão... mas só até certo ponto. Se tentasse demais lembrar as coisas que mais importavam, a minha cabeça doía ferozmente, o meu andar coxo virava tropeço e a minha visão ficava borrada. O pior de tudo era a tendência a adormecer de repente. Sadie perguntou ao dr. Perry se era narcolepsia. Ele disse que provavelmente não, mas achei que parecia preocupado.
— Ele acorda quando você chama ou sacode?
— Sempre — disse Sadie.
— É mais comum acontecer quando ele fica nervoso porque não consegue se lembrar de alguma coisa?
Sadie concordou que era.
— Então tenho quase certeza de que passará, assim como a amnésia está passando.
Finalmente, de pouquinho em pouquinho, o meu mundo interior começou a se fundir ao exterior. Eu era Jacob Epping, era professor e de algum modo tinha viajado no tempo para impedir o assassinato do presidente Kennedy. A princípio, tentei rejeitar a ideia, mas eu sabia demais sobre os anos vindouros e essas coisas não eram visões. Eram lembranças. Os Rolling Stones, as sessões para o impeachment de Clinton, o World Trade Center em chamas. Christy, a minha ex-esposa perturbada e perturbadora.
Certa noite, quando eu e Sadie assistíamos a Combat, me lembrei do que fizera a Frank Dunning.
— Sadie, matei um homem antes de vir para o Texas. Foi num cemitério. Foi preciso. Ele ia assassinar a família inteira.
Ela me olhou de olhos arregalados e boca aberta.
— Desligue a TV — pedi. — O sujeito que faz o sargento Saunders, não consigo me lembrar do nome dele, vai ser decapitado pela pá do helicóptero. Por favor, Sadie, desligue.
Ela desligou e se ajoelhou na minha frente.
— Quem vai matar Kennedy? Onde ele estará quando fizer isso?
Tentei o mais que pude, e não adormeci, mas não consegui me lembrar. Eu fora do Maine para a Flórida, disso eu me lembrava. No Ford Sunliner, um carro maravilhoso. Fora da Flórida para Nova Orleans e, quando saí de Nova Orleans, vim para o Texas. Lembrei ter escutado Earth Angel no rádio quando atravessei a fronteira estadual, a 110 por hora na rodovia 20. Lembrei uma placa: BEM-VINDO AO TEXAS. E um outdoor anunciando CHURRASCARIA SONNY’S, 27 MILHAS. Depois disso, um buraco no filme. Do outro lado, surgiam lembranças de morar e dar aulas em Jodie. Lembranças mais vivas de dançar swing com Sadie e me deitar com ela nos Bangalôs Candlewood. Sadie me disse que eu também morara em Fort Worth e Dallas, mas ela não sabia onde; só tinha dois números telefônicos que não funcionavam mais. Eu também não sabia onde, embora achasse que um dos lugares podia ser na rua Cadillac. Ela verificou os mapas urbanos e disse que não havia rua Cadillac em nenhuma das cidades.
Agora eu me lembrava de muitas coisas, mas não do nome do assassino nem de onde estaria quando tentasse. E por que não? Porque o passado escondia isso de mim. O passado obstinado.
— O assassino tem uma filha — disse eu. — Acho que o nome dela é April.
— Jake, vou lhe fazer uma pergunta. Pode deixar você danado, mas como muita coisa depende disso — o destino do mundo, segundo você —, é preciso.
— Fique à vontade. — Eu não conseguia pensar em nada que ela pudesse me perguntar que me deixaria zangado.
— Você está mentindo pra mim?
— Não — respondi. Era verdade. Naquela hora.
— Eu disse a Deke que precisávamos ligar para a polícia. Ele me mostrou uma reportagem do Morning News que dizia que já houve duzentas ameaças de morte e denúncias de possíveis assassinos. Ele diz que tanto os direitistas de Dallas e Fort Worth quanto os esquerdistas de San Antonio estão tentando apavorar Kennedy para não vir ao Texas. Diz que a polícia de Dallas está entregando todas as ameaças e denúncias ao FBI e eles não estão fazendo nada. Diz que a única pessoa que J. Edgar Hoover detesta mais do que JFK é o seu irmão Bobby.
Eu não dava muita importância a quem J. Edgar Hoover detestava.
— Acredita em mim?
— Acredito — respondeu ela, e suspirou. — Vic Morrow vai morrer mesmo?
Esse era o nome dele, claro.
— Vai.
— Fazendo Combat?
— Não, um filme.
Ela caiu em lágrimas.
— Não morra, Jake, por favor. Eu só quero que você melhore.
Eu tinha um monte de pesadelos. Os locais variavam — às vezes era uma rua vazia que lembrava a rua Principal de Lisbon Falls, outras era o cemitério onde eu atirara em Frank Dunning, outras era na cozinha de Andy Cullum, o ás do cribbage — mas em geral era a lanchonete de Al Templeton. Nós nos sentávamos num compartimento com as fotos do Muro das Celebridades da Cidade olhando para nós. Al estava doente — moribundo —, mas os seus olhos estavam cheios de viva intensidade.
— O Homem do Cartão Amarelo é a personificação do passado obstinado — disse Al. — Sabe disso, não sabe?
Sim, eu sabia.
— Ele achou que você morreria com a surra, mas você não morreu. Ele achou que você morreria com as infecções, mas você não morreu. Agora ele está protegendo essas lembranças, as principais, porque sabe que é a sua última esperança de detê-lo.
— Como pode? Ele morreu.
Al balançou a cabeça.
— Não, esse sou eu.
— Quem é ele? O que é ele? E como pode voltar a viver? Ele cortou a própria garganta e o cartão ficou preto! Eu vi!
— Não sei, colega. Só sei que ele não pode impedir você se você se recusar a parar. Você tem de chegar àquelas lembranças.
— Então me ajude! — berrei e agarrei a garra dura da sua mão. — Me diga o nome do sujeito! É Chapman? Manson? Ambos me lembram alguma coisa, mas nenhum parece certo. Você me meteu nisso, então me ajude!
Nesse momento do sonho, Al abre a boca para me ajudar, mas o Homem do Cartão Amarelo intervém. Se estamos na rua Principal, ele sai da fachada verde ou da Kennebec Fruit. Se é o cemitério, ele se levanta de um túmulo aberto como um zumbi de George Romero. Se é a lanchonete, a porta se escancara. O cartão que usa na fita do fedora é tão preto que parece um buraco retangular no mundo. Está morto e em decomposição. O antigo sobretudo está manchado de mofo. As órbitas são bolas de vermes a se contorcer.
— Ele não pode lhe contar nada porque é dia de grana dupla! — grita o Homem do Cartão Amarelo que agora é o Homem do Cartão Preto.
Viro-me de novo para Al, só que Al se tornou um esqueleto com um cigarro preso entre os dentes, e acordo todo suado. Busco as lembranças, mas elas não estão lá.
Deke me trouxe as reportagens de jornal sobre a visita iminente de Kennedy, na esperança de que fizessem alguma coisa se soltar. Não fizeram. Certa vez, enquanto eu estava deitado no sofá (acabara de acordar de um dos meus sonos súbitos), ouvi os dois discutindo de novo sobre chamar a polícia. Deke dizia que denúncias anônimas seriam desconsideradas e se tivessem um nome envolvido nos poriam todos em encrencas.
— Não me importo! — gritou Sadie. — Sei que você acha que ele está maluco, mas e se estiver certo? Como vamos nos sentir se Kennedy voltar de Dallas a Washington num caixão?
— Se você chamar a polícia, eles vão se concentrar em Jake, doçura. E, de acordo com você, ele matou um homem na Nova Inglaterra antes de vir para cá.
Sadie, Sadie, gostaria que não tivesse contado isso a ele.
Ela parou de discutir, mas não desistiu. Às vezes, tentava me tirar as coisas de surpresa, do jeito que, supostamente, se pode acabar com os soluços de alguém lhe dando um susto. Não funcionou.
— O que vou fazer com você? — perguntou ela com tristeza.
— Não sei.
— Tente chegar lá de outra maneira. Tente se esgueirar.
— Já tentei. Acho que o sujeito esteve no exército ou nos fuzileiros. — Esfreguei a nuca, onde a dor começava outra vez. — Mas pode ter sido a marinha. Merda, Christy, não sei.
— Sadie, Jake. O meu nome é Sadie.
— Não foi o que eu disse?
Ela balançou a cabeça e tentou sorrir.
No dia 12, terça-feira seguinte ao Dia dos Veteranos, o Morning News publicou um longo editorial sobre a visita iminente de Kennedy e o que ela significava para a cidade. “A maioria dos moradores parece disposta a dar as boas-vindas de braços abertos ao presidente jovem e inexperiente”, dizia o texto. “A empolgação é grande. É claro que o fato de a sua linda e carismática esposa vir com ele não atrapalha em nada.”
— Mais sonhos sobre o Homem do Cartão Amarelo ontem à noite? — perguntou Sadie quando chegou. Ela passara o feriado em Jodie, principalmente para regar as plantas e “salvar as aparências”, como dizia.
Fiz que não.
— Querida, você tem ficado aqui muito mais do que em Jodie. Qual é a sua situação no emprego?
— A dona Ellie me pôs em meio expediente. Estou conseguindo, e quando eu for com você... se formos... Acho que terei de ver o que acontece.
O seu olhar se afastou de mim e ela se ocupou acendendo um cigarro. Ao vê-la levar tempo demais arrumando o cigarro na mesa de centro e depois mexendo com os fósforos, percebi uma coisa desanimadora: Sadie também tinha dúvidas. Eu previra um final pacífico para a Crise dos Mísseis, soubera que Dick Tiger ia cair no quinto assalto... mas ela ainda tinha dúvidas. E eu não podia achar ruim. Se a nossa posição se invertesse, eu teria as minhas.
Então ela se animou.
— Mas tenho um substituto excelente, e aposto que você consegue adivinhar quem é.
Sorri.
— É... — Não consegui pegar o nome. Conseguia vê-lo (o rosto envelhecido e bronzeado de sol, o chapéu de caubói, a gravata fininha), mas naquela manhã de terça-feira não conseguia nem chegar perto. A cabeça começou a doer na parte de trás, onde batera no assoalho, mas que assoalho, em que casa? Era uma foda abismal não saber.
Kennedy chegaria em dez dias e eu não conseguia nem lembrar o nome daquela merda daquele velho.
— Tente, Jake.
— Estou tentando — respondi. — Estou tentando, Sadie!
— Espere um instante. Tive uma ideia.
Ela deixou o cigarro fumegante num dos sulcos do cinzeiro, se levantou, saiu pela porta da frente, fechou-a. Então a abriu e falou numa voz comicamente rouca e profunda, dizendo o que o velho dizia sempre que vinha visitar:
— Como está indo hoje, filho? Se alimentando direitinho?
— Deke — disse eu. — Deke Simmons. Foi casado com a dona Mimi, mas ela morreu no México. Fizemos uma cerimônia em sua memória.
A dor de cabeça sumira. Simples assim.
Sadie bateu palmas e correu para mim. Ganhei um beijo longo e maravilhoso.
— Viu? — disse ela quando se afastou. — Você consegue. Ainda não é tarde demais. Qual é o nome dele, Jake? Qual é o nome daquele pederasta maluco?
Mas não consegui me lembrar.
Em 16 de novembro, o Times Herald publicou a rota da carreata de Kennedy. Começaria no Love Field e terminaria no Trade Mart, onde ele falaria ao Dallas Citizens Council e convidados. O propósito nominal desse discurso seria saudar o Centro de Pesquisas de Pós-Graduação e parabenizar Dallas pelo progresso econômico da última década, mas o Times Herald teve o prazer de informar aos que ainda não sabiam que a verdadeira razão era pura política. O Texas votara em Kennedy em 1960, mas 1964 parecia duvidoso apesar de na chapa haver um bom filho de Johnson City. Os cínicos ainda chamavam o vice-presidente de “Landslide Lyndon”, Lyndon, a avalanche, referência à candidatura ao Senado em 1948, um negócio decididamente suspeito em que venceu por 87 votos. Isso era história antiga, mas a longevidade do apelido dizia muito sobre a postura confusa dos texanos a seu respeito. O serviço de Kennedy — e de Jackie, é claro — era ajudar Landslide Lyndon e John Connally, o governador do Texas, a atiçar os fiéis.
— Veja isso — disse Sadie, traçando a rota com a ponta do dedo. — Quarteirões e quarteirões da rua Principal. Depois a rua Houston. Há prédios altos pelo caminho inteiro. O homem estará na rua Principal? Tem de estar, não acha?
Mal escutei, porque vira outra coisa.
— Veja, Sadie, a carreata vai passar pelo bulevar Turtle Creek!
Os olhos dela se acenderam.
— É lá que vai acontecer?
Balancei a cabeça, em dúvida. Provavelmente não, mas eu sabia alguma coisa sobre o bulevar Turtle Creek, e tinha a ver com o homem que eu viera deter. Enquanto pensava nisso, algo flutuou na superfície.
— Ele vai esconder o fuzil e voltar depois para buscá-lo.
— Esconder onde?
— Não importa, porque essa parte já aconteceu. Essa parte é o passado. — Cobri o rosto com as mãos porque, de repente, a luz na sala ficou forte demais.
— Agora pare de pensar nisso — disse ela, e afastou a reportagem do jornal. — Relaxe, senão terá outra daquelas suas dores de cabeça e precisará de um daqueles comprimidos. Eles deixam você todo mole.
— É — respondi. — Eu sei.
— Você precisa de um café. Um café forte.
Ela foi à cozinha fazer. Quando voltou, eu ressonava. Dormi quase três horas e poderia ter ficado mais ainda na Terra do Cochilo, mas ela me sacudiu para me acordar.
— Qual é a última coisa de que se lembra sobre vir para Dallas?
— Não me lembro.
— Onde ficou? Num hotel? Num motel? Num quarto alugado?
Por um instante, tive uma lembrança enevoada de um pátio e muitas janelas. Um porteiro? Talvez. Então foi embora. A dor de cabeça aumentava de novo.
— Não sei. Só me lembro de atravessar a fronteira estadual na rodovia 20 e ver a placa de uma churrascaria. E isso foi a quilômetros de Dallas.
— Sei disso, mas não precisamos ir tão longe, porque, se estava na 20, você ficou na 20. — Ela deu uma olhada no relógio. — Hoje já está tarde demais, mas amanhã vamos dar um passeio dominical.
— Provavelmente não vai funcionar. — Mas assim mesmo senti uma fagulha de esperança.
Ela passou a noite comigo e, na manhã seguinte, saímos de Dallas pela Honeybee Highway, a estrada da abelha, como dizem os residentes, na direção leste, rumo à Louisiana. Sadie estava no volante do meu Chevy, o que não era problema porque a ignição arrebentada fora substituída. Deke cuidara disso. Ela foi até Terrell, depois entrou na 20 e fez o retorno no estacionamento de terra esburacada de uma igreja ao lado da estrada. Sangue do Redentor, de acordo com o quadro de avisos no gramado desbotado. Abaixo do nome, havia uma mensagem em letras brancas coladas. Devia dizer JÁ LEU A PALAVRA DO ALTÍSSIMO HOJE, mas algumas letras tinham caído, e só restava Á LEU A PALAVRA DO AL ÍSSIMO HOJ.
Ela me olhou com certa ansiedade.
— Consegue me levar de volta, querido?
Eu tinha certeza de que conseguiria. Era uma reta só, e o Chevy era automático. Não precisaria usar a minha perna rija. O único problema era...
— Sadie? — perguntei assim que me instalei atrás do volante pela primeira vez desde agosto e cheguei o banco para trás o mais que pude.
— Sim?
— Se eu adormecer, segure o volante e desligue o motor.
Ela deu um sorriso nervoso.
— Ah, pode crer.
Conferi o trânsito e saí. A princípio não ousei ir muito além de 70, mas era meio-dia de domingo e tínhamos a estrada praticamente só para nós. Comecei a relaxar.
— Limpe a cabeça, Jake. Não tente se lembrar de nada, só deixe acontecer.
— Eu queria estar no meu Sunliner — disse eu.
— Então faça de conta que é o seu Sunliner e deixe ele ir para onde quiser.
— Tudo bem, mas...
— Nem mas, nem meio mas. Está um dia lindo. Você está vindo para um lugar novo e não tem de se preocupar com o assassinato de Kennedy porque ainda vai demorar muito para acontecer. Anos.
Sim, estava um dia lindo. E não, não adormeci, embora estivesse muito cansado — desde a surra que não saía por tanto tempo. A minha cabeça não parava de voltar àquela igrejinha de beira de estrada. Muito provavelmente, uma igreja de negros. Provavelmente cantavam os hinos de um jeito que os brancos nunca cantariam e liam A PALAVRA DO AL ÍSSIMO com muitos aleluias e glórias a Jesus.
Agora estávamos chegando a Dallas. Virei esquerdas e direitas — provavelmente mais direitas, porque o meu braço esquerdo ainda estava fraco e virar para aquele lado doía, mesmo com a direção hidráulica. Logo me perdi nas ruas laterais.
Estou perdido, tudo bem, pensei. Preciso que alguém me dê instruções, do jeito que aquele garoto fez em Nova Orleans. Para o Hotel Moonstone.
Só que não era Moonstone, era Monteleone. E o hotel onde eu ficara em Dallas era... era...
Por um instante, achei que sumiria, como até o nome de Sadie fazia às vezes. Mas aí vi o porteiro, e todas aquelas janelas cintilantes dando para a rua Commerce, e aí caiu a ficha.
Eu ficara no Adolphus Hotel. Isso. Porque ficava perto de...
Não vinha. Essa parte ainda estava bloqueada.
— Querido? Tudo bem?
— Tudo — respondi. — Por quê?
— Você quase pulou.
— É a minha perna. Um pouco de cãibra.
— Nada disso parece conhecido?
— Não — respondi. — Nada disso.
Ela suspirou.
— Outra ideia que não dá em nada. Acho que é melhor voltarmos. Quer que eu dirija?
— Talvez seja melhor. — Manquei até o lugar do carona, pensando Adolphus Hotel. Escreva isso quando chegar de volta a Eden Fallows. Para não esquecer.
Quando chegamos à pequena casinha de três cômodos, rampas, cama de hospital e corrimões dos dois lados do vaso sanitário, Sadie me disse que eu devia me deitar um pouco.
— E tome um dos seus comprimidos.
Fui para o quarto, tirei os sapatos — um processo lento — e me deitei. Mas não tomei o comprimido. Queria manter a mente limpa. Tinha de mantê-la limpa dali em diante. Kennedy e Dallas estavam a apenas cinco dias.
Você ficou no Adolphus Hotel porque era perto de alguma coisa. O quê?
Bom, era perto da rota da carreata que fora publicada no jornal, o que reduzia as coisas a... caramba, apenas dois mil prédios. Sem falar de todas as estátuas, monumentos e muros atrás dos quais um suposto franco-atirador poderia se esconder. Quantos becos pelo caminho? Dúzias. Quantos viadutos com linha de fogo direta para os pontos de passagem na West Mockingbird, na avenida Lemmon, no bulevar Turtle Creek? A carreata passaria por todas elas. Quantos mais para a Principal e a Houston?
Você precisa se lembrar de quem ele é ou de onde ele vai atirar.
Se eu me lembrasse de uma dessas coisas, me lembraria da outra. Disso eu sabia. Mas a minha cabeça não parava de voltar àquela igreja na rodovia 20, onde fizemos o retorno. Sangue do Redentor na Estrada da Abelha. Muita gente via Kennedy como um redentor. Sem dúvida Al Templeton vira. Ele...
Os meus olhos se arregalaram e parei de respirar.
Na sala, o telefone tocou e ouvi Sadie atender, mantendo a voz baixa porque achava que eu estava dormindo.
A PALAVRA DO AL ÍSSIMO.
Recordei o dia em que vira o nome inteiro de Sadie com parte dele bloqueada, e tudo o que dava para ler era “Doris Dun”. Essa era uma harmonia da mesma magnitude. Fechei os olhos e visualizei a placa da igreja. Então visualizei a minha mão em cima de ÍSSIMO.
O que restava era A PALAVRA DO AL.
As anotações de Al. Eu tinha o caderno dele!
Mas onde? Onde estava?
A porta do quarto se abriu. Sadie olhou para dentro.
— Jake? Está dormindo?
— Não — respondi. — Só deitado em silêncio.
— Lembrou alguma coisa?
— Não — respondi. — Desculpe.
— Ainda há tempo.
— Há. Todo dia me voltam coisas novas.
— Querido, era Deke. Tem um micróbio rondando a escola e ele o pegou com toda a força. Perguntou se posso trabalhar amanhã e terça-feira. Talvez na quarta também.
— Vá — disse eu. — Se você não for, ele tentará ir. E ele não é mais um garotinho. — Na minha cabeça, quatro palavras piscavam como o letreiro de neon de um bar: A PALAVRA DO AL, A PALAVRA DO AL, A PALAVRA DO AL.
Ela se sentou junto de mim na cama.
— Tem certeza?
— Tenho, sim. Muita companhia, também. DAVIN vem amanhã, não se esqueça. — DAVIN era Dallas Area Visiting Nurses, as enfermeiras que faziam visitas domiciliares na área de Dallas. No meu caso, o principal serviço era se assegurar de que eu delirava, o que poderia indicar que o meu cérebro sangrava, afinal de contas.
— Certo. Nove horas. Está no calendário, caso você se esqueça. E o dr. Ellerton...
— Vem almoçar. Disso eu me lembro.
— Ótimo, Jake. Isso é ótimo.
— Ele disse que traria sanduíches. E milk-shakes. Ele quer me engordar.
— Você precisa engordar.
— Mais terapia na quarta. Tortura da perna de manhã, tortura do braço de tarde.
— Não gosto de abandonar você tão perto de... você sabe.
— Se alguma coisa me ocorrer, telefono, Sadie.
Ela pegou a minha mão e se curvou até tão perto que consegui sentir o cheiro do seu perfume e o leve aroma de fumo do seu hálito.
— Jura?
— Juro, claro.
— Volto na quarta à noite o mais tardar. Se Deke não puder trabalhar na quinta, a biblioteca terá de ficar fechada.
— Vai dar tudo certo.
Ela me beijou de leve, começou a sair do quarto e depois se virou.
— Estou quase torcendo para Deke estar certo e tudo isso ser um delírio. Não suporto a ideia de que sabemos e talvez não consigamos impedir. Que podemos estar simplesmente sentados na sala assistindo à televisão quando alguém...
— Vou me lembrar — disse eu.
— Vai mesmo, Jake?
— É preciso.
Ela concordou com a cabeça, mas mesmo com as cortinas fechadas, pude ver a dúvida no rosto dela.
— Ainda podemos cear antes de eu ir. Feche os olhos e deixe aquele comprimido trabalhar. Durma um pouco.
Fechei os olhos, certo de que não dormiria. Tudo bem, porque precisava pensar na Palavra do Al. Dali a pouco, consegui sentir o cheiro de algo cozinhando. Cheirava bem. Quando saí do hospital, ainda vomitando ou cagando de dez em dez minutos, todos os cheiros me enojavam. Agora a situação melhorara.
Comecei a cochilar. Pude ver Al sentado diante de mim num dos compartimentos da lanchonete, o gorro de papel inclinado sobre a sobrancelha esquerda. Fotos de figurões de cidade pequena nos olhavam, mas Harry Dunning não estava mais na parede. Eu o salvara. Talvez na segunda vez o tivesse salvado também do Vietnã. Não havia como saber.
— Ele ainda está segurando você, não é, colega? — perguntou Al.
— É. Ainda está.
— Mas agora você está perto.
— Não o bastante. Não faço ideia de onde pus aquele maldito caderno seu.
— Você o guardou bem trancado num lugar seguro. Isso ajuda?
Comecei a dizer não e pensei: A Palavra do Al está trancada. Trancada. Porque...
Abri os olhos e, pela primeira vez em semanas, um grande sorriso se abriu no meu rosto.
Estava num cofre de depósitos num banco.
A porta se abriu.
— Está com fome? Guardei na estufa.
— Hem?
— Jake, você dormiu mais de duas horas.
Sentei e girei as pernas para o chão.
— Então vamos comer.