Novembro de 63
Anotações Finais
30/9/58
Enfiei-me no quarto 7 do Tamarack Motor Court.
Paguei com dinheiro de uma carteira de avestruz que me foi dada por um velho amigo. O dinheiro, como a carne comprada no supermercado Red & White e as camisas compradas na Mason’s Menswear, fica. Se cada viagem realmente fosse um recomeço do zero, essas coisas não ficariam, mas não é e elas ficam. O dinheiro não era de Al, mas pelo menos o agente Hosty me deixara fugir, o que pode vir a ser uma coisa boa para o mundo.
Ou não. Não sei.
Amanhã será 1º de outubro. Em Derry, os garotos Dunning mal podem esperar o Halloween e já planejam as fantasias. Ellen, aquela gracinha ruiva e bonitinha, planeja ir de Princesa Summerfall Winterspring. Nunca terá a oportunidade. Se eu fosse a Derry hoje, poderia matar Frank Dunning e salvar o Halloween dela, mas não vou. E não vou a Durham salvar Carolyn Poulin da bala perdida de Andy Cullum. A questão é: irei a Jodie? Não posso salvar Kennedy, isso está fora de questão, mas a história futura do mundo seria tão frágil que não permitiria a dois professores da escola secundária se conhecer e se apaixonar? Casar, dançar com músicas dos Beatles como I Want to Hold Your Hand, levar vidas irrelevantes?
Não sei, não sei.
Ela pode não querer nada comigo. Não teremos mais 35 e 28 anos; dessa vez, eu terei 42 ou 43. Pareço até mais velho. Mas acredito no amor, sabe; o amor é uma mágica singularmente portátil. Não acho que esteja escrito nas estrelas, mas acredito que sangue chama sangue e mente chama mente e coração chama coração.
Sadie dançando o Madison, a cor alta nas faces, rindo. Sadie me dizendo para lamber a sua boca de novo.
Sadie me perguntando se gostaria de entrar e comer bolo quatro quartos. Um homem e uma mulher. É coisa demais a pedir?
Não sei, não sei.
O que fiz aqui, perguntará você, agora que pus de lado as minhas asas de anjo da guarda? Escrevi. Tenho uma caneta-tinteiro — aquela que me foi dada por Mike e Bobbi Jill, você se lembra deles — e subi a rua até um mercado onde comprei dez cartuchos. A tinta é preta, o que combina com o meu estado de espírito. Também comprei duas dúzias de blocos grossos de papel ofício e enchi todos, menos o último. Perto do mercado há uma loja Western Auto, onde comprei uma pá e um baú de aço, do tipo com fechadura de segredo. O custo total das minhas compras foi de 17 dólares e 19 centavos. Esses itens bastam para tornar o mundo escuro e imundo? O que acontecerá com o vendedor cuja rota decretada mudou — apenas pela nossa breve transação — em relação ao que seria sem ela?
Não sei, mas disso eu sei: certa vez dei a um jogador de futebol escolar a oportunidade de brilhar como ator e a sua namorada ficou desfigurada. Você pode dizer que não fui responsável, mas sabemos que não é assim, não sabemos? A borboleta abre as suas asas.
Durante três semanas, escrevi o dia inteiro, todos os dias. Doze horas em alguns dias. Quatorze em outros. A caneta correndo, correndo. A minha mão doía. Eu a deixava de molho e escrevia mais um pouco. Em algumas noites fui ao Lisbon Drive-In, onde cobram preço especial para pedestres: trinta centavos. Sentava-me nas cadeiras de armar diante do bar, junto ao parquinho infantil. Assisti novamente a O mercador de almas. Assisti a A ponte do rio Kwai e Ao sul do Pacífico. Assisti ao PROGRAMA DUPLO HORRORÍFICO que consistia de A mosca e A bolha assassina. E me perguntei o que estava alterando. Se matasse um inseto, me perguntava o que mudaria dali a dez anos. Ou vinte. Ou quarenta.
Não sei, não sei.
Eis outra coisa que sei. O passado é obstinado pela mesma razão que o casco da tartaruga é obstinado: porque a carne viva dentro dele é tenra e indefesa.
E mais uma coisa. As múltiplas opções e possibilidades da vida cotidiana são a música conforme a qual dançamos. São como as cordas de um violão. Basta tangê-las para criar um som agradável. Uma harmonia. Mas aí comece a acrescentar cordas. Dez cordas, cem cordas, mil, um milhão. Porque elas se multiplicam! Harry não sabia o que era aquele som rasgado e aquoso, mas tenho quase certeza que sei: era o som de harmonia demais criada por cordas demais.
Cante um dó agudo com voz suficientemente alta e, sem dúvida alguma, conseguirá estilhaçar um fino cristal. Toque no seu aparelho de som os harmônicos agudos certos com volume suficiente e estilhaçará vidraças. Segue-se (pelo menos para mim) que, se pusermos cordas suficientes no instrumento do tempo, podemos estilhaçar a realidade.
Mas o recomeço é quase do zero a cada vez. Claro, deixa resíduos. O Homem do Cartão Ocre assim disse e acredito nele. Mas se eu não fizer nenhuma mudança grande... se eu não fizer nada além de ir a Jodie e reencontrar Sadie pela primeira vez... se por acaso nos apaixonarmos...
Quero que isso aconteça e acho que provavelmente aconteceria. Sangue chama sangue, coração chama coração. Ela vai querer filhos. E, aliás, eu também. Digo a mim mesmo que um filho a mais ou a menos também não fará diferença. Ou não muita diferença. Ou dois. Até três. (Afinal de contas, esta é a Era das Famílias Grandes.) Viveremos discretamente. Não criaremos ondas.
Só que cada filho é uma onda.
Cada respiração nossa é uma onda.
Você tem de voltar uma última vez , disse o Homem do Cartão Ocre. Você tem de fechar o círculo. Querer não tem nada a ver com isso.
Posso realmente pensar em pôr o mundo em risco — talvez a própria realidade — pela mulher que amo? Isso faz a insanidade de Lee parecer trivial.
O homem com o cartão enfiado na aba do chapéu espera por mim ao lado do barracão de secagem. Consigo senti-lo lá. Talvez não esteja mandando ondas telepáticas, mas com certeza parece que sim. Volte. Você não tem de ser o Jimla. Não é tarde demais para ser Jake outra vez. Ser o mocinho, o anjo da guarda. Não importa salvar o presidente; salve o mundo. Faça isso enquanto ainda é tempo.
É.
Farei.
Provavelmente farei.
Amanhã.
Amanhã será bastante cedo, não será?
1/10/58
Ainda aqui no Tamarack. Ainda escrevendo.
A minha incerteza sobre Clayton é a pior. Era em Clayton que pensava ao atarraxar o último cartucho na minha fiel caneta-tinteiro e é nele que estou pensando agora. Se soubesse que ela estaria a salvo, acho que conseguiria deixá-la em paz. John Clayton ainda aparecerá na casa de Sadie na travessa Bee Tree se eu me subtrair da equação? Talvez nos ver juntos tenha sido o que o fez passar para o outro lado. Mas ele a seguiu até o Texas antes mesmo que soubesse de nós, e se o fizer de novo, dessa vez pode cortar a garganta dela em vez do rosto. Deke e eu não estaríamos lá para impedi-lo, com certeza.
Só que talvez ele soubesse de nós. Sadie pode ter escrito a alguma amiga em Savannah, que pode ter contado a alguma amiga, e a notícia de que Sadie andava saindo com alguém — alguém que não conhecia os imperativos da vassoura — podia finalmente ter chegado ao ex. Se nada disso acontecesse porque eu não estava lá, Sadie ficaria bem.
A dama ou o tigre?
Não sei, não sei.
O tempo está se transformando em outono.
6/10/58
Fui ao drive-in ontem à noite. Para eles, é o último fim de semana. Na segunda-feira, porão uma placa dizendo FECHADO PARA A TEMPORADA e acrescentarão algo como DUAS VEZES MELHOR EM 59! O último programa consistia de dois curtas, um desenho animado do Pernalonga e outro par de filmes de horror, Macabro e Força diabólica. Ocupei a cadeira de armar de sempre e assisti a Macabro sem ver o filme. Estava com frio. Tinha dinheiro para comprar um casaco, mas agora temo comprar muita coisa. Não paro de pensar nas mudanças que poderia provocar.
Quando o primeiro filme terminou, entrei no bar mesmo assim. Queria um café quente. (Pensando Isso não pode mudar muita coisa, pensando também Como é que você sabe?) Quando saí, só havia na pracinha uma criança que apenas um mês atrás ainda estaria de férias. Era uma menina com uma jaqueta jeans e calça vermelho vivo. Pulava corda. Parecia Rosette Templeton.
— Desci pela rua, a rua tinha lama — cantava ela. — Bati o dedão, o dedão ficou com sangue. Você tá aqui? Conte um, dois, três, quatro! O meu amor tem pé de pato!
Não consegui ficar. Tremia demais.
Talvez os poetas possam matar o mundo por amor, não sujeitinhos ordinários como eu. Amanhã, supondo que a toca de coelho ainda esteja lá, vou voltar. Mas antes de ir...
Café não foi a única coisa que comprei naquele bar.
7/10/58
O baú de aço da Western Auto está na cama, aberto. A pá está no armário (o que a faxineira pensou, não faço ideia). A tinta do último cartucho está acabando, mas tudo bem; mais duas ou três páginas me levarão ao final. Porei o manuscrito no baú e o enterrarei perto do laguinho onde, certa vez, joguei fora o celular. Vou enterrá-lo bem fundo naquele solo escuro e macio. Talvez algum dia alguém o ache. Talvez seja você. Isto é, se houver um futuro e se houver você. Isso é algo que logo descobrirei.
Digo a mim mesmo (com esperança, com medo) que as minhas três semanas no Tamarack não podem ter mudado muito; Al passou quatro anos no passado e voltou a um presente intacto... embora eu admita que fiquei curioso sobre a sua possível relação com o holocausto do World Trade Center ou o grande terremoto japonês. Digo a mim mesmo que não há ligação... mas ainda gostaria de saber.
Também tenho de lhe contar que não considero mais 2011 como o presente. Philip Nolan era o Homem Sem Pátria; sou o Homem Sem Referência de Tempo. Desconfio que sempre serei. Mesmo que 2011 ainda exista, serei um estrangeiro de visita.
Ao meu lado na escrivaninha há um cartão-postal com uma foto de carros estacionados diante de uma grande tela. É o único tipo de cartão-postal que vendem no bar do Lisbon Drive-In. Escrevi a mensagem e escrevi o endereço: Sr. Deacon Simmons, Jodie High School, Jodie, Texas. Comecei a escrever Denholm Consolidated High School, mas a JHS só se tornaria DCHS no ano que vem ou no seguinte.
A mensagem diz: Caro Deke: Quando a sua nova bibliotecária chegar, cuide dela. Ela precisará de um anjo da guarda, principalmente em abril de 1963. Por favor, acredite em mim.
Não, Jake, ouço o Homem do Cartão Ocre sussurrar. Se John Clayton tem de matá-la e não a matar, haverá mudanças... e, como você viu com os próprios olhos, as mudanças nunca são para melhor. Por melhores que forem as suas intenções.
Mas é Sadie!, digo a ele, e, embora nunca tenha sido homem de chorar, agora as lágrimas começam a vir. Elas doem, elas ardem. É Sadie e eu a amo! Como posso ficar parado se ele pode matá-la?
A resposta é tão obstinada quanto o próprio passado: Feche o círculo.
Assim, rasgo o cartão-postal em pedacinhos, coloco-os no cinzeiro do quarto, ponho fogo neles. Não há alarme contra fumaça para berrar ao mundo o que fiz. Só há o som rascante dos meus soluços. É como se eu a matasse com as minhas próprias mãos. Logo enterrarei o meu baú de aço com o manuscrito dentro e depois voltarei a Lisbon Falls, onde sem dúvida o Homem do Cartão Ocre ficará contentíssimo de me ver. Não chamarei um táxi; pretendo fazer o caminho todo a pé, sob as estrelas. Acho que quero me despedir. Os corações não se partem de verdade. Ah, se pudessem.
Agora não vou a lugar nenhum a não ser a cama, onde deitarei no travesseiro o meu rosto molhado e rezarei a um Deus no qual não consigo acreditar direito para que mande a Sadie um anjo da guarda para que ela viva. E ame. E dance.
Adeus, Sadie.
Você nunca me conheceu, mas amo você, querida.