Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 10 de 35

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Novembro de 63

Terceira Parte - Viver no Passado

TERCEIRA PARTE

 

VIVER NO PASSADO

CAPÍTULO 9

1

Eu diria que a essa hora eu estava além das surpresas, mas o que vi bem à esquerda de Al me fez cair o queixo: um cigarro fumegando no cinzeiro. Passei a mão pela frente dele e o apaguei.

— Você quer tossir e pôr para fora o que ainda lhe resta de tecido pulmonar que funcione?

Ele não respondeu. Nem sei se escutou. Ele me fitava de olhos arregalados.

— Senhor Jesus, Jake... quem o escalpelou?

— Ninguém. Vamos sair daqui antes que eu sufoque com essa fumaça passiva. — Mas era uma bronca inútil. Nas semanas que passara em Derry, eu me acostumara ao cheiro de cigarro aceso. Logo adotaria o hábito se não me cuidasse.

— Você foi escalpelado — disse ele. — Só não sabe ainda. Há um pedaço de couro cabeludo pendurado atrás da sua orelha e... quanto sangue você perdeu até agora? Um litro? E quem fez isso com você?

— A, menos de um litro. B, Frank Dunning. Se isso resolve as perguntas, agora é a minha vez. Você disse que ia rezar. Por que está fumando?

— Porque estava nervoso. E porque não importa mais. A vaca já foi para o brejo.

Eu mal conseguiria argumentar quanto a isso.

2

Al andou devagar até atrás do balcão, onde abriu um armário e pegou uma caixa de plástico com uma cruz vermelha. Sentei-me num dos bancos altos e olhei o relógio. Eram quinze para as oito quando Al destrancou a porta para entrarmos na lanchonete. Provavelmente, cinco para as oito quando desci pela toca de coelho e saí no País das Maravilhas por volta de 1958. Al afirmava que cada viagem durava exatamente dois minutos, e o relógio na parede parecia confirmar. Eu passara 52 dias em 1958, mas os ponteiros marcavam 7h59 da manhã.

Al estava reunindo gaze, esparadrapo, desinfetante.

— Se abaixe para eu conseguir ver — disse ele. — Ponha o queixo bem no balcão.

— Pode esquecer a água oxigenada. Aconteceu faz quatro horas e já coagulou. Está vendo?

— Melhor prevenir do que remediar — disse ele, e pôs em fogo o alto da minha cabeça.

— Ahhh!

— Dói, não é? Porque ainda está aberto. Você quer algum charlatão de 1958 tratando o seu couro cabeludo infeccionado antes de seguir para o Grande Dia? Pode acreditar, amigo, não queira. Aguente firme. Tenho de cortar o cabelo, senão o esparadrapo não vai grudar. Ainda bem que está bem curto.

Clip-clip-clip. Depois, ele aumentou a dor — merda no ventilador, como se diz — apertando a gaze na laceração e pondo esparadrapo.

— Daqui a alguns dias você pode tirar a gaze, mas é bom cobrir isso aí com o chapéu até lá. Vai ficar meio feioso aí em cima por algum tempo, mas se o cabelo não crescer de volta você pode pentear o resto para cobrir. Quer uma aspirina?

— Quero. E um café. Dá pra arranjar? — Embora o café só fosse ajudar por pouco tempo. O que eu precisava era de sono.

— Dá. — Ele ligou o interruptor da Bunn-o-Matic e começou a remexer de novo na caixinha de primeiros socorros. — Parece que você emagreceu um pouco.

Olha só quem fala, pensei.

— Andei doente. Peguei um vírus de vinte e quatro... — Foi aí que parei.

— Jake, qual é o problema?

Eu olhava as fotos emolduradas de Al. Quando eu descera pela toca de coelho, havia ali uma fotografia minha com Harry Dunning. Sorríamos e erguíamos para a câmera o diploma de Harry no supletivo.

Ela sumira.

3

— Jake? Amigo? O que foi?

Peguei a aspirina que ele deixara no balcão, enfiei na boca e engoli a seco. Depois, me levantei e fui devagar até o Muro das Celebridades. Eu me sentia como um homem feito de vidro. Onde, nos últimos dois anos, ficara a minha foto com Harry, havia agora outra de Al apertando a mão de Mike Michaud, deputado federal do Segundo Distrito do Maine. Michaud devia ter concorrido à reeleição, porque Al usava dois bótons no avental de cozinheiro. Um dizia MICHAUD PARA O CONGRESSO. O outro, LISBON AMA MIKE. O excelentíssimo deputado usava uma camiseta Moxie laranja vivo e erguia para a câmera um Gordobúrguer que pingava.

Tirei a foto do gancho.

— Há quanto tempo isso está aqui?

Ele olhou e franziu a testa.

— Nunca vi essa foto na vida. Deus sabe que dei apoio a Michaud nas duas últimas eleições — droga, dou apoio a todos os democratas que não são pegos transando com auxiliares de campanha — e o conheci num comício em 2008, mas esse foi em Castle Rock. Ele nunca veio à lanchonete.

— Parece que veio. Esse aqui é o seu balcão, não é?

Ele pegou a foto nas mãos, agora tão magras que eram pouco mais do que garras, e a segurou perto do rosto.

— É — respondeu ele. — Com certeza.

— Então existe o efeito borboleta. Essa foto é a prova.

Ele a olhou fixamente, sorrindo um pouco. Espantado, acho. Ou talvez com um pouco de medo. Depois, me entregou a foto de volta e foi para trás do balcão servir o café.

— Al? Ainda se lembra de Harry, não lembra? Harry Dunning?

— É claro que sim. Ele não foi a razão de você ir a Derry e quase ter a cabeça arrancada?

— Ele e o resto da família, isso mesmo.

— E você os salvou?

— Todos menos um. O pai pegou Tugga antes que a gente conseguisse detê-lo.

— A gente é quem?

— Vou lhe contar tudo, mas primeiro tenho de ir para casa dormir.

— Amigo, não temos muito tempo.

— Sei disso — respondi, pensando Só preciso olhar você, Al. — Mas estou caindo de sono. Para mim, é uma e meia da madrugada, e tive... — a minha boca se abriu num enorme bocejo — ... uma noite e tanto.

— Tudo bem. — Ele trouxe o café: uma xícara cheia de café preto para mim, meia xícara para ele, generosamente coberta de creme. — Me conte o que puder enquanto toma isso.

— Primeiro, me explique como consegue se lembrar de Harry se ele nunca foi zelador da LHS e nunca na vida comprou um hambúrguer seu. Depois, me explique por que você não se lembra que Mike Michaud visitou a lanchonete se aquela foto diz que visitou.

— Você não sabe com certeza se Harry Dunning ainda não está na cidade — respondeu Al. — Na verdade, você não sabe com certeza que ele não é zelador da Lisbon High.

— Seria uma baita coincidência se fosse. Mudei muito o passado, Al, com a ajuda de um camarada chamado Bill Turcotte. Harry não deve ter ido morar com a tia e o tio em Haven, porque a mãe não morreu. Nem o irmão Troy nem a irmã Ellen. E Dunning nunca chegou perto de Harry com aquele martelo. Se mesmo assim Harry morar em Lisbon Falls depois de todas essas mudanças, eu seria o cara mais surpreso do planeta.

— Há como verificar — disse Al. — Tem um laptop no escritório. Vamos lá nos fundos. — Ele foi na frente, tossindo e se apoiando nas coisas. Levei comigo a minha xícara de café; ele deixou a dele para trás.

Escritório era um nome grandioso demais para o cubículo do tamanho de um armário depois da cozinha. Mal tinha tamanho suficiente para nós dois. As paredes eram empapeladas com memorandos, licenças e normas de higiene do estado do Maine e dos federais. Se quem passava boatos e fofocas sobre o Famoso Gatobúrguer visse toda aquela papelada — que incluía um Certificado de Higiene Classe A depois da última inspeção da Comissão de Restaurantes do Estado do Maine — talvez fosse obrigado a rever a sua posição.

O MacBook de Al estava sobre uma escrivaninha do tipo que me lembro de ter usado no terceiro ano. Ele desmoronou numa cadeira mais ou menos do mesmo tamanho com um grunhido de dor e alívio.

— A escola tem site na internet, não tem?

— Claro.

Enquanto esperávamos o laptop abrir, me perguntei quantos e-mails teriam se acumulado durante os meus 52 dias de ausência. Depois lembrei que, na verdade, só ficara dois minutos fora. Bobo, eu.

— Acho que não estou entendendo mais nada, Al — disse.

— Sei como se sente. É só aguentar firme, amigo, você vai... espere, lá vamos nós. Vejamos. Cursos... cronograma de verão... corpo docente... diretoria... serviços gerais.

— Clique aí — disse eu.

Ele massageou o touchpad, murmurou, moveu a cabeça, clicou e depois fitou a tela do computador como um swami consultando a sua bola de cristal.

— Então? Não me deixe ansioso.

Ele virou o laptop para que eu pudesse olhar. EQUIPE DE SERVIÇOS GERAIS DA LHS, dizia. A MELHOR DO MAINE! Havia uma fotografia de dois homens e uma mulher em pé no meio da quadra do ginásio. Todos sorriam. Todos usavam moletons dos Lisbon Greyhounds. Nenhum deles era Harry Dunning.

4

— Você se lembra dele como zelador e como seu aluno porque foi você que desceu pela toca de coelho — disse Al. Estávamos de volta à lanchonete, sentados num dos compartimentos. — Eu me lembro dele porque usei a toca de coelho ou só porque estou perto dela. — Ele pensou um pouco. — Provavelmente é isso. Um tipo de radiação. O Homem do Cartão Amarelo também está perto dela, só que do outro lado, e ele também sente. Você o viu, e sabe.

— Agora ele é o Homem do Cartão Laranja.

— Como é que é?

Bocejei de novo.

— Se eu tentar lhe contar agora, vou fazer uma baita bagunça. Quero levar você para casa e depois ir para casa também. Preciso comer alguma coisa, porque estou com uma fome de urso...

— Faço uns ovos mexidos para você — disse ele. Começou a se levantar e depois caiu sentado com barulho e começou a tossir. Cada inalação era um chiado seco que lhe sacudia o corpo inteiro. Algo matraqueou na garganta dele como uma carta de baralho nos raios de uma roda de bicicleta.

Pus a mão no seu braço.

— O que você vai fazer é ir para casa, tomar algum remédio e descansar. Durma, se puder. Sei que eu posso. Oito horas. Vou ligar o despertador.

Ele parou de tossir, mas ainda dava para ouvir aquela carta de baralho matraqueando na garganta.

— Dormir. Do tipo bom. Eu me lembro disso. Tenho inveja de você, amigo.

— Estarei na sua casa às sete da noite. Não, digamos oito. Isso me dará tempo de verificar algumas coisas na internet.

— E se tudo estiver fora do tempo? — Ele sorriu de leve com a piada... na qual, é claro, eu já pensara mil vezes.

— Então voltarei amanhã e me aprontarei para fazer o serviço.

— Não — disse ele. — Você vai desfazer o serviço. — Ele espremeu a minha mão. Os dedos eram finos, mas ainda tinham força. — É a razão disso tudo. Encontrar Oswald, desfazer a merda que ele fez e tirar do seu rosto aquele sorrisinho de satisfação.

5

Quando liguei o carro, a primeira coisa que fiz foi estender a mão para a robusta alavanca de marchas na coluna de direção e empurrar o pedal elástico do Ford com o pé esquerdo. Quando os meus dedos se fecharam em torno de nada e o sapato só encontrou o tapete, ri. Não deu para segurar.

— O que foi? — perguntou Al no banco do carona.

Eu sentia falta do meu Ford Sunliner, era isso, mas tudo bem; logo o compraria de novo. Como na próxima vez teria menos recursos, pelo menos no começo (o meu depósito no Hometown Trust sumiria, perdido no próximo reinício), eu teria de pechinchar mais com Bill Titus.

Achei que conseguiria.

Agora eu era diferente.

— Jake? Qual foi a graça?

— Nada.

Procurei mudanças na rua Principal, mas todos os prédios costumeiros estavam presentes e conferidos, inclusive a Kennebec Fruit, que, como sempre, parecia precisar apenas de duas contas atrasadas para falir. A estátua do Chefe Worumbo ainda estava na praça da cidade, e a faixa na vitrine da Cabell’s Móveis ainda afirmava ao mundo que NINGUÉM VENDE MAIS BARATO.

— Al, você se lembra da corrente que a gente tem de passar por baixo para voltar à toca de coelho, não lembra?

— Claro.

— E da placa pendurada nela?

— Aquela sobre o cano de esgoto. — Ele estava sentado como um soldado que acha que a rua à frente pode estar minada, e toda vez que dávamos um solavanco ele fazia uma careta.

— Quando voltou de Dallas, quando percebeu que estava doente demais para conseguir, a placa ainda estava lá?

— É — disse ele depois de refletir um momento. — Estava. Isso é engraçado, não é? Quem leva quatro anos para consertar um cano de esgoto arrebentado?

— Ninguém. Não num pátio de fábrica onde entram e saem caminhões o dia todo e a noite inteira. Então por que isso não chamou a atenção?

Ele balançou a cabeça.

— Não faço ideia.

— Talvez esteja lá para impedir que alguém entre por engano na toca de coelho. Mas, se assim for, quem pôs ela lá?

— Não sei. Não sei nem se o que você está dizendo está certo.

Entrei na rua dele, na esperança de deixá-lo são e salvo dentro de casa e depois percorrer os onze ou doze quilômetros até Sabattus sem dormir ao volante. Mas havia mais uma coisa na minha cabeça e eu precisava dizer. No mínimo para que ele não alimentasse esperança demais.

— O passado é obstinado, Al. Ele não quer mudar.

— Eu sei. Eu disse isso a você.

— Disse mesmo. Mas o que estou pensando agora é que a resistência à mudança é proporcional a quanto o futuro pode ser alterado por qualquer ato dado.

Ele me olhou. As manchas debaixo dos olhos estavam mais escuras do que nunca, e os olhos propriamente ditos brilhavam de dor.

— Pode me explicar em língua de gente?

— Mudar o futuro da família Dunning foi mais difícil do que mudar o futuro de Carolyn Poulin, em parte porque havia mais gente envolvida, mas, principalmente, porque a moça viveria de qualquer maneira. Doris Dunning e os filhos teriam morrido todos... e um deles acabou morrendo mesmo, embora eu pretenda remediar isso.

Um fantasma de sorriso lhe tocou os lábios.

— Que bom. Só tome o cuidado de se abaixar um pouco mais da próxima vez. Poupe-se de lidar com uma cicatriz embaraçosa na qual o cabelo pode não voltar a crescer.

Eu tinha ideias a esse respeito, mas não me dei ao trabalho de falar. Entrei com o carro até a casa dele.

— Estou dizendo que talvez eu não consiga impedir Oswald. Pelo menos não na primeira vez. — Ri. — Mas, ora bolas, também não passei na primeira vez que fiz prova de motorista.

— Nem eu, mas eles não me obrigaram a esperar cinco anos para tentar de novo.

Era uma boa questão.

— Quantos anos você tem, Jake? Trinta? Trinta e dois?

— Trinta e cinco. E dois meses mais perto dos 36 do que hoje de manhã, mas o que são alguns meses entre amigos?

— Se você foder com tudo e tiver de recomeçar, terá 45 anos quando o carrossel der a segunda volta. Muita coisa pode acontecer em dez anos, ainda mais com o passado contra você.

— Sei disso — respondi. — Veja o que aconteceu com você.

— Peguei câncer de pulmão por fumar, é só. — Ele tossiu como se quisesse provar, mas vi dúvida além de dor nos seus olhos.

— Provavelmente foi só isso. Tomara que seja só isso. Mas é outra coisa que não sa...

A porta da frente da casa se abriu de repente. Uma mocetona de jaleco verde-limão e sapatos brancos de enfermeira veio meio correndo na nossa direção. Viu Al amarfanhado no banco do carona do meu Toyota e escancarou a porta.

— Sr. Templeton, onde estava? Vim lhe dar os seus remédios e, quando vi que a casa estava vazia, pensei que...

Ele conseguiu sorrir.

— Sei o que você pensou, mas estou bem. Bonito, não, mas bem.

Ela me olhou.

— E o senhor. O que está fazendo saindo com ele assim? Não dá para ver como está frágil?

É claro que dava. Mas como dificilmente eu poderia lhe contar o que estávamos fazendo, fiquei de boca fechada e me preparei para levar a minha bronca como um homem.

— Tínhamos um assunto importante para discutir — disse Al. — Tudo bem? Entendeu?

— É a mesma...

Ele empurrou a porta do carro.

— Me ajude a entrar, Doris. Jake tem de ir para casa.

Doris.

Como Doris Dunning.

Ele não notou a coincidência — e sem dúvida era apenas isso, o nome é bastante comum —, mas isso retiniu na minha cabeça do mesmo jeito.

6

Consegui chegar em casa e dessa vez foi o freio de mão do Sunliner que me vi procurando. Quando desliguei o motor, pensei que o meu Toyota era um penico de plástico e fibra de vidro, apertado, mesquinho e basicamente desagradável comparado com o carro com que me acostumara em Derry. Entrei, fui alimentar o gato e vi que a comida no prato dele ainda estava fresca e úmida. Por que não estaria? Em 2011, estava ali havia apenas uma hora e meia.

— Coma direitinho, Elmore — disse eu. — Há gatos passando fome na China que adorariam um prato de Friskies à Moda do Chefe.

Elmore me deu o olhar que eu merecia e saiu pela portinhola. Pus no micro-ondas um par de refeições congeladas Stouffer (pensando como o monstro de Frankenstein quando aprendia a falar: micro-ondas bom, carro moderno ruim ). Comi tudo, joguei o lixo fora e fui para o quarto. Despi a minha simples camisa branca de 1958 (agradecendo a Deus porque a Doris de Al estava zangada demais para notar as manchas de sangue), me sentei no lado da cama para desamarrar os sapatos sensatos de 1958 e em seguida me deixei cair para trás. Tenho bastante certeza de que adormeci enquanto ainda estava no meio do caminho.

7

Esqueci tudo sobre despertadores e poderia ter dormido até bem depois das cinco da tarde, mas Elmore pulou no meu peito às quatro e quinze e começou a farejar o meu rosto. Isso queria dizer que ele limpara o prato e requisitava uma nova dose. Forneci mais comida ao felino, joguei água fria no rosto e comi um prato de flocos de milho Special K, achando que levaria dias para restabelecer a ordem adequada das minhas refeições.

De barriga cheia, fui para o escritório e liguei o computador. A biblioteca da cidade foi a minha primeira ciberparada. Al tinha razão: todos os números do Lisbon Weekly Enterprise estavam no banco de dados. Tive de me tornar Amigo da Biblioteca antes de acessar o prêmio, o que me custou dez dólares, mas, dadas as circunstâncias, o preço a pagar pareceu pequeno.

O número do Enterprise que eu procurava era datado de 7 de novembro. Na página 2, ensanduichada entre uma reportagem sobre um acidente de trânsito fatal e outra sobre suspeita de incêndio proposital, havia uma matéria com o título POLÍCIA LOCAL PROCURA HOMEM MISTERIOSO. O homem misterioso era eu... ou melhor, o meu alter ego na época de Eisenhower. O Sunliner conversível fora encontrado, as manchas de sangue devidamente notadas. Bill Titus identificou o Ford como aquele que vendera a um tal sr. George Amberson. O tom do texto me comoveu: simples preocupação pelo paradeiro de um homem sumido (e possivelmente ferido). Gregory Dusen, o meu gerente no Hometown Trust, me descreveu como “um sujeito bem-educado que fala bem”. Eddie Baumer, proprietário da Barbearia Baumer, disse essencialmente a mesma coisa. Nenhum sopro de suspeita atribuído ao nome Amberson. As coisas poderiam ter sido diferentes caso tivessem me ligado a um certo caso sensacional em Derry, mas não ligaram.

Também não ligaram no número da semana seguinte, onde fui reduzido a mera notinha na coluna policial: CONTINUA BUSCA POR HOMEM DO WISCONSIN. No número depois desse, o Weekly Enterprise só falava da próxima temporada de férias, e George Amberson desapareceu inteiramente no jornal. Mas eu estivera lá. Al gravara o nome dele numa árvore. Encontrei o meu num jornal velho. Esperara por isso, mas olhar a prova real ainda espantava.

Depois, fui ao site do Daily News de Derry. Foi bem mais caro obter acesso aos arquivos — US$ 34,50 —, mas em poucos minutos eu olhava a capa do número de 1º de novembro de 1958.

Seria de esperar que um crime sensacional estaria na primeira página de um jornal local, mas em Derry — a Cidadezinha Peculiar — eles mantinham o máximo silêncio possível sobre as suas atrocidades. A grande reportagem do dia tinha a ver com Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos numa reunião em Genebra para discutir um possível tratado para proibir testes nucleares. Debaixo dessa havia uma reportagem sobre um prodígio do xadrez de 14 anos chamado Bobby Fischer. Bem no pé da primeira página, no lado esquerdo (onde nos dizem os especialistas em comunicação que é o último lugar onde se olha, quando se olha), havia um título VIOLÊNCIA ASSASSINA CAUSA 2 MORTES. De acordo com a reportagem, Frank Dunning, “membro destacado da comunidade empresarial e participante de muitas iniciativas de caridade”, chegara à casa da ex-mulher “em estado de ebriedade” pouco depois das oito horas da noite de sexta-feira. Depois de uma discussão com a esposa (que com certeza não ouvi... e estava lá), Dunning a atingiu com um martelo, quebrando-lhe o braço, e depois matou o filho de 12 anos, Arthur Dunning, quando o menino tentou defender a mãe.

A reportagem continuava na página 12. Quando cheguei lá, fui saudado por um instantâneo do meu velho amigo da onça Bill Turcotte. De acordo com o texto, “o sr. Turcotte estava de passagem quando ouviu gritos e berros na residência dos Dunning”. Correu pela calçada, viu o que acontecia pela porta aberta e mandou o sr. Frank Dunning “parar com aquele martelo”. Dunning se recusou; o sr. Turcotte avistou uma faca de caça embainhada no cinto de Dunning e a puxou; Dunning se virou com o sr. Turcotte e se atracou com ele; na luta que se seguiu, Dunning foi esfaqueado e morreu. Momentos depois, o heroico sr. Turcotte sofreu um ataque cardíaco.

Fiquei ali olhando o antigo instantâneo — Turcotte em pé, orgulhoso, com um dos pés sobre o estribo de um sedã do final da década de 40, cigarro no canto da boca — e batucando os dedos na coxa. Dunning fora esfaqueado pelas costas, não pela frente, e com uma baioneta, não uma faca de caça. Dunning nem sequer tinha uma faca de caça. A marreta, que não foi identificada como tal, fora a sua única arma. A polícia poderia não ter visto esses detalhes gritantes? Não via como, a menos que fossem tão cegos quanto Ray Charles. Mas, para a Derry que eu passara a conhecer, tudo isso fazia muito sentido.

Achei que estava sorrindo. A história era tão maluca que se tornava admirável. Todas as pontas soltas foram amarradas. Havia o marido bêbado e enlouquecido, a família encolhida e apavorada e o passante heroico (sem indicação de aonde ia quando passou). O que mais era preciso? E não se fazia menção de um certo Estranho Misterioso na cena. Era tudo tão Derry.

Remexi a geladeira, achei um resto de pudim de chocolate e o comi em pé junto à bancada, olhando o quintal. Peguei Elmore no colo e lhe fiz carinho até ele se contorcer para ir para o chão. Voltei ao computador, apertei uma tecla para fazer sumir o protetor de tela num passe de mágica e olhei mais um pouco a foto de Bill Turcotte. O intrometido heroico que salvara a família e sofrera um ataque cardíaco devido ao esforço.

Finalmente, fui até o telefone e liguei para o auxílio à lista.

8

Na lista telefônica, não havia Doris, Troy nem Harold Dunning em Derry. Como último recurso, tentei Ellen, sem esperar nada; mesmo que ainda morasse na cidade, provavelmente adotara o sobrenome do marido. Mas às vezes chutes perdidos dão certo (Lee Harvey Oswald sendo um caso especialmente maligno). Fiquei tão surpreso quando o robô telefônico tossiu um número que nem estava segurando o lápis. Em vez de pedir auxílio à lista de novo, apertei 1 para ligar para o número solicitado. Se tivesse tempo para pensar, não tenho certeza de que teria feito isso. Às vezes é melhor não saber, não é? Às vezes temos medo de saber. Vamos até lá e damos meia-volta. Mas me agarrei bravamente ao fone e ouvi um telefone de Derry tocar uma, duas, três vezes. A secretária eletrônica provavelmente atenderia depois do próximo toque e decidi que não deixaria recado. Não saberia o que dizer.

Mas, no meio do quarto toque, uma mulher disse:

— Alô!

— É Ellen Dunning?

— Bom, acho que depende de quem está ligando. — Ela soava divertida e cautelosa. A voz era enfumaçada e um tanto insinuante. Se não soubesse a verdade, teria imaginado uma mulher de trinta e poucos anos e não uma de sessenta ou quase. Era a voz, pensei, de alguém que a usava profissionalmente. Cantora? Atriz? Talvez humorista, afinal de contas? Nada disso parecia provável em Derry.

— Eu me chamo George Amberson. Conheci o seu irmão Harry há muito tempo. Estou de volta ao Maine e achei que talvez pudesse entrar em contato com ele.

— Harry? — Ela pareceu espantada. — Meu Deus! Foi no Exército?

Teria sido? Pensei depressa e decidi que não podia ser essa a minha história. Armadilhas demais em potencial.

— Não, não, em Derry. Quando éramos garotos. — A inspiração bateu. — Costumávamos brincar no Centro Recreativo. Mesmos times. Éramos muito amigos.

— Bom, sinto muito lhe contar, sr. Amberson, mas Harry morreu.

Por um instante, fiquei emudecido com o choque. Só que isso não dá certo no telefone, não é? Consegui dizer:

— Meu Deus, sinto muito.

— Foi há muito tempo. No Vietnã. Durante a Ofensiva de Tet.

Sentei-me, me sentindo enjoado. Eu o salvara de mancar e de ficar com a cabeça meio nebulosa só para reduzir a sua vida em quarenta anos, mais ou menos? Terrível. A cirurgia fora um sucesso, mas o paciente morrera.

Enquanto isso, o espetáculo tinha de continuar.

— E como vai Troy? E você, como está? Você era só uma menininha naquela época, que andava de bicicleta com rodinhas. E cantava. Você cantava o tempo todo. — Ensaiei um risinho. — Céus, você deixava a gente maluco.

— Hoje em dia só canto na Noite do Caraoquê do Bennigan’s Pub, mas nunca me cansei de falar. Sou DJ da WKIT, em Bangor. Sabe, disc-jockey?

— Hã-hã. E Troy?

— Vivendo la vida loca em Palm Springs. Ele é o rico da família. Ganhou uma grana com os computadores. Começou no princípio, na década de 70. Hoje almoça com Steve Jobs e coisas assim. — Ela riu. Foi um riso fantástico. Aposto que gente de todo o leste do Maine ligava o rádio só para ouvi-lo. Mas quando ela voltou a falar, a voz era mais baixa e o humor sumira. Do sol à sombra, exatamente assim. — Quem o senhor é de verdade, sr. Amberson?

— Como assim?

— Faço programas com telefonemas nos fins de semana. Uma venda de garagem nos sábados: “Tenho um cortador de grama, Ellen, quase novo em folha, mas não estou conseguindo pagar as prestações e aceito a melhor oferta a partir de cinquenta pratas.” Coisas assim. No domingo, é política. O povo liga para falar mal de Rush Limbaugh ou afirmar que Glenn Beck devia ser candidato a presidente. Conheço vozes. Se o senhor foi amigo de Harry na época do Centro Recreativo, teria de ter uns 60 anos, mas não tem. Pela voz, o senhor não passa dos 35.

Jesus, bem na mosca.

— Todo mundo me diz que tenho voz de garoto. Aposto como lhe dizem o mesmo.

— Bela tentativa — disse ela simplesmente, e na mesma hora soou mais velha. — Tenho anos de treinamento para pôr o sol da voz. E o senhor?

Não consegui pensar numa resposta, e fiquei em silêncio.

— Além disso, ninguém telefona para saber notícias de alguém com quem brincou na escola primária. Não cinquenta anos depois, isso não acontece.

Eu bem que podia desligar, pensei. Consegui o que queria, até mais do que pensava. Vou desligar. Mas o telefone parecia colado na minha orelha. Não sei direito se o largaria mesmo que visse fogo subindo pelas cortinas da sala.

Quando ela voltou a falar, havia uma armadilha na voz dela.

— Você é ele?

— Não sei o que a senhora...

— Havia mais alguém lá naquela noite. Harry o viu e eu também. Você é ele?

— Que noite? — Só que soou q’noi, porque os meus lábios estavam dormentes. Era como se alguém tivesse posto uma máscara sobre o meu rosto. Forrada de neve.

— Harry disse que era o seu anjo da guarda. Acho que você é ele. Então, onde você estava?

Agora era ela que não soava clara, porque começara a chorar.

— Senhora... Ellen... não estou entenden...

— Eu o levei ao aeroporto quando ele foi convocado e a licença acabou. Ia para o Vietnã e disse a ele que tomasse cuidado. Ele disse: “Não se preocupe, mana, tenho um anjo da guarda que cuida de mim, lembra?” Então, onde você estava em 6 de fevereiro de 1968, sr. Anjo? Onde você estava quando o meu irmão morreu em Khe Sanh? Onde você estava, seu filho da puta?

Ela disse mais alguma coisa, mas não sei o que foi. Nisso ela já chorava demais. Desliguei. Fui até o banheiro. Entrei na banheira, puxei a cortina e pus a cabeça entre os joelhos, e fiquei olhando o tapete de borracha com margaridas amarelas. Então, gritei. Uma vez. Duas. Três vezes. E eis o pior: não quis apenas que Al nunca me tivesse falado da maldita toca de coelho. Fui além disso. Quis que ele morresse.

9

Tive uma sensação ruim quando parei na entrada da garagem dele e vi que a casa estava inteiramente às escuras. Ficou pior quando tentei abrir a porta e vi que estava destrancada.

— Al?

Nada.

Achei um interruptor e acendi a luz. A sala principal tinha a limpeza estéril dos cômodos arrumados regularmente mas não muito usados. As paredes estavam cobertas de fotografias emolduradas. Quase todas eram de pessoas que eu não conhecia — parentes de Al, supus —, mas reconheci o casal na foto pendurada acima do sofá: John e Jacqueline Kennedy. Estavam à beira-mar, provavelmente em Hyannis Port, e abraçados. Havia um cheiro de Glade no ar que não mascarava bem o cheiro de quarto de doente que vinha do interior da casa. Em algum lugar, bem baixinho, The Temptations cantavam My Girl. Luz do sol num dia nublado e tudo o mais.

— Al? Você está aí?

Onde mais? No Studio Nine, em Portland, dançando discoteca e tentando ganhar universitárias? Eu sabia que não. Fizera um desejo e às vezes os desejos se realizam.

Tateei atrás dos interruptores da cozinha, achei e inundei o cômodo com tanta luz fluorescente que dava para extrair um apêndice. Na mesa havia um estojo plástico para remédios, do tipo que guarda comprimidos para uma semana. A maioria desses estojos é pequena, cabe num bolso ou bolsa, mas este era quase do tamanho de uma enciclopédia. Ao lado havia um recado rabiscado num pedaço de papel de caderno Ziggy: Se esquecer o das 8, MATO VOCÊ!!!! Doris.

My Girl terminou e Just My Imagination começou. Segui a música até o fedor de quarto de doente. Al estava na cama. Parecia relativamente tranquilo. No fim, uma única lágrima escorrera do canto externo de cada olho fechado. O rastro ainda estava úmido o bastante para brilhar. O tocador de CD multidisco estava na mesinha de cabeceira da esquerda. Havia um bilhete na mesinha também, com um vidro de remédio em cima para segurá-lo. Não serviria de peso de papel se houvesse a mais leve brisa, porque estava vazio. Olhei o rótulo: OxyContin, vinte miligramas. Peguei o bilhete.

Desculpe, amigo, não deu para esperar. Dor demais. Você está com a chave da lanchonete e sabe o que fazer. Também não se engane pensando que consegue tentar de novo, porque coisa demais pode acontecer. Faça direito pela primeira vez. Talvez fique danado comigo por envolver você nisso. Eu ficaria, no seu lugar. Mas não dê para trás. Por favor, não faça isso. A caixa de lata está debaixo da cama. Lá dentro tem mais uns quinhentos dólares que guardei na época.

É com você, amigo. Umas duas horas depois de Doris me achar pela manhã, o

proprietário provavelmente passará um cadeado na lanchonete, por isso tem de ser hoje. Salve ele, ok? Salve Kennedy e tudo muda.

Por favor.

Al

Seu canalha, pensei. Você sabia que eu poderia pensar melhor, e esse foi o jeito que você deu, não é?

Claro que eu tinha pensado melhor. Mas pensar não é optar. Se ele achava que eu voltaria atrás, se enganara. Deter Oswald? É claro. Mas nesse momento Oswald era estritamente secundário, parte de um futuro nebuloso. Um jeito engraçado de falar quando se pensa em 1963, mas absolutamente exato. Era a família Dunning que estava na minha cabeça.

Arthur, também conhecido como Tugga: eu ainda poderia salvá-lo. Harry também.

Kennedy poderia mudar de ideia, dissera Al. Ele falava do Vietnã.

Mesmo que Kennedy não mudasse de ideia e caísse fora, Harry estaria no mesmo lugar exato na mesma hora exata em 6 de fevereiro de 1968? Achava que não.

— Tudo bem — disse eu. — Tudo bem. — Curvei-me sobre Al e beijei o seu rosto. Senti o leve gosto salgado daquela última lágrima. — Durma bem, amigo.

10

De volta a casa, inventariei o conteúdo da minha pasta Lord Buxton e da extravagante carteira de avestruz. Eu tinha as anotações exaustivas de Al sobre os movimentos de Oswald depois que deu baixa dos fuzileiros navais em 11 de setembro de 1959. A minha identidade ainda estava positiva e operante. A situação financeira era melhor do que eu esperava; com o dinheiro a mais que Al guardara somado ao que eu já tinha, o meu caixa líquido ainda estava bem acima de cinco mil dólares.

Havia hambúrguer na gaveta de carne da geladeira. Preparei alguns e pus no prato de Elmore. Acariciei-o enquanto ele comia.

— Se eu não voltar, procure os Ritters na casa vizinha — disse. — Eles cuidarão de você.

É claro que Elmore não deu atenção a isso, mas eu sabia que ele o faria se eu não estivesse ali para alimentá-lo. Os gatos são sobreviventes. Peguei a pasta, fui até a porta e combati a vontade rápida mas forte de correr para o quarto e me esconder debaixo das cobertas. O meu gato e a minha casa estariam ali quando eu voltasse, se conseguisse fazer o que pretendia? E se estivessem, ainda me pertenceriam? Não havia como dizer. Quer saber de uma coisa engraçada? Nem quem é capaz de viver no passado sabe o que o futuro lhe reserva.

— Ei, Ozzie — disse, baixinho. — Vou atrás de você, seu fodido.

Fechei a porta e saí.

11

A lanchonete era esquisita sem Al, porque parecia que ele ainda estava lá — o seu fantasma, quero dizer. Os rostos no Muro das Celebridades pareciam me fitar, perguntando o que eu fazia ali, me dizendo que ali não era o meu lugar, exortando-me a deixar tudo em paz antes que eu soltasse a mola-mestra do universo. Havia algo especialmente inquietante na foto de Al e Mike Michaud, pendurada no lugar da minha foto com Harry.

Fui até a despensa e comecei a dar passinhos pequenos e arrastados à frente. Finja que está tentando achar o alto de uma escada com a luz apagada, dissera Al . Feche os olhos, amigo, é mais fácil assim.

Fechei. Dois passos adiante, escutei aquele pop de equalização da pressão nos ouvidos O calor atingiu a minha pele; o sol brilhou pelas minhas pálpebras fechadas; ouvi o chont-HUUCH, chont-HUUCH dos teares. Era 9 de setembro de 1958, dois minutos antes do meio-dia. Tugga Dunning estava vivo outra vez e o braço da sra. Dunning ainda não se quebrara. Não muito longe dali, no posto Chevron do Titus, um elegante Ford Sunliner conversível vermelho me aguardava.

Mas primeiro eu tinha de cuidar do ex-Homem do Cartão Amarelo. Dessa vez ele receberia o dólar que pedia, porque eu me esquecera de pôr no bolso uma moeda de cinquenta centavos. Mergulhei debaixo da corrente e parei tempo suficiente para pôr uma nota de um dólar no bolso da frente das calças.

Foi ali que ela ficou, porque, quando contornei o barracão de secagem, achei o Homem do Cartão Amarelo esparramado no concreto com os olhos abertos e uma poça de sangue se espalhando em torno da cabeça. A garganta fora cortada de orelha a orelha. Numa das mãos estava o caco verde e afiado da garrafa de vinho que usara para fazer o serviço. Na outra, segurava o cartão, aquele que, supostamente, tinha algo a ver com o fato de ser dia de grana dupla na fachada verde. O cartão que já fora amarelo e depois alaranjado agora estava preto retinto.