Novembro de 63
Capítulo 10
1
Atravessei o estacionamento dos funcionários pela terceira vez, não propriamente correndo. Mais uma vez dei um tapinha no Plymouth Fury branco e vermelho ao passar. Para dar sorte, acho. Nas próximas semanas, meses e anos, eu precisaria de toda a sorte que pudesse arranjar.
Dessa vez, não fui à Kennebec Fruit e não tinha a intenção de comprar roupas nem carros. Amanhã ou depois de amanhã eu faria isso, mas hoje talvez fosse um mau dia para ser um estranho em Falls. Logo, logo alguém encontraria um cadáver na fábrica e um estranho poderia ser interrogado. A identidade de George Amberson não estava à altura disso, ainda mais porque a carteira de motorista tinha o endereço de uma casa na rua Bluebird que ainda não fora construída.
Cheguei ao ponto de ônibus dos operários diante do estacionamento bem na hora em que o ônibus com LEWISTON EXPRESS como destino no letreiro veio roncando. Embarquei e entreguei a nota de um dólar que pretendera dar ao Homem do Cartão Amarelo. O motorista fez sair um punhado de prata do porta-moedas cromado que usava no cinto. Deixei quinze centavos na caixinha da passagem e andei pelo corredor balançante até um banco nos fundos, atrás de dois marinheiros cheios de espinhas — provavelmente da Base Aérea Naval de Brunswick — que conversavam sobre as garotas que pretendiam encontrar numa boate de striptease chamada Holly. A conversa era marcada por uma troca de robustos socos no ombro e muitos risos borbulhantes.
Observei a rodovia 196 se desenrolar quase sem a ver. Não parava de pensar no morto. E no cartão, que agora era preto retinto. Queria deixar uma boa distância entre mim e aquele cadáver perturbador o mais depressa possível, mas parara o suficiente para tocar o cartão. Não era papelão, como eu pensara a princípio. Também não era plástico. Celuloide, talvez... só que também não parecia isso exatamente. Parecia pele morta, do tipo que se descasca de um calo. Não havia nada escrito nele, pelo menos nada que eu pudesse ver.
Al achara que o Homem do Cartão Amarelo era apenas um pinguço que enlouquecera pela combinação infeliz de bebida e proximidade da toca de coelho. Eu não questionara isso até que o cartão ficou laranja. Agora mais do que questionava; eu simplesmente não acreditava. O que ele era, afinal de contas?
Morto, é o que ele é. E é tudo o que ele é. Então, deixe pra lá. Você tem muito a fazer.
Quando passamos pelo Lisbon Drive-In, puxei a cordinha para tocar o sinal. O motorista parou no próximo poste telefônico pintado de branco.
— Tenha um bom dia — disse-lhe quando ele puxou a alavanca que abria as portas.
— Num tem nada de bom nessa corrida a não ser a cerveja gelada na hora de largar — disse ele, e acendeu um cigarro.
Alguns segundos depois, eu estava em pé no acostamento de cascalho da estrada, com a pasta pendurada na mão esquerda, observando o ônibus sacolejar na direção de Lewiston, soltando uma nuvem de gases de exaustão. Na traseira havia um anúncio mostrando uma dona de casa com uma panela faiscante numa das mãos e uma Esponja Mágica S.O.S. na outra. Os enormes olhos azuis e o sorriso de batom vermelho e cheio de dentes indicavam uma mulher que podia estar a minutos de um catastrófico colapso mental.
O céu estava sem nuvens. Grilos cantavam no capim alto. Em algum lugar, uma vaca mugiu. Com o fedor de diesel do ônibus soprado para longe pela leve brisa, o ar tinha um cheiro doce, fresco e novo. Comecei a percorrer a pé os quatrocentos metros, mais ou menos, até o Tamarack Motor Court. Uma caminhada curta, mas antes que eu chegasse ao meu destino, duas pessoas pararam e perguntaram se eu queria carona. Agradeci e disse que eu estava bem. E estava. Quando cheguei ao Tamarack, assoviava.
Setembro de 1958, Estados Unidos da América.
Com ou sem Homem do Cartão Amarelo, era bom estar de volta.
2
Passei o resto daquele dia no meu quarto, examinando as anotações de Al sobre Oswald pela enésima vez, agora prestando atenção especial às duas páginas do final, intituladas CONCLUSÕES SOBRE COMO PROCEDER. Tentar assistir à TV, que, em essência, pegava apenas um canal, era um exercício absurdo, e quando o crepúsculo caiu andei até o drive-in e paguei o preço especial para pedestres de trinta centavos. Havia cadeiras dobráveis instaladas diante do bar. Comprei um saco de pipocas e um gostoso refrigerante sabor canela chamado Pepsol e assisti a O mercador de almas com vários outros pedestres, a maioria idosos que se conheciam e batiam papo amistosamente. O ar estava gelado na hora em que Um corpo que cai começou e eu estava sem paletó. Andei de volta até o motel e dormi profundamente.
Na manhã seguinte, peguei o ônibus de volta a Lisbon Falls (nada de táxi; eu me considerava em modo econômico, pelo menos por enquanto) e fiz do Alegre Elefante Branco a minha primeira parada. Estava cedo e ainda fresco, e o beatnik estava lá dentro, sentado num sofá puído e lendo Argosy.
— Oi, vizinho — disse ele.
— Oi, você. O senhor vende malas?
— Ah, tenho algumas em estoque. Duzentas ou trezentas no máximo. Vá até os fundos e...
— E olhe à direita — disse eu.
— Isso mesmo. Já esteve aqui?
— Todos já estivemos aqui — disse eu. — Essa coisa é maior do que futebol profissional.
Ele riu.
— Boa, Jackson. Vá escolher a vencedora.
Escolhi a mesma valise de couro. Depois, atravessei a rua e comprei o Sunliner de novo. Dessa vez, regateei mais e o consegui por trezentos. Quando a pechincha terminou, Bill Titus me mandou falar com a filha.
— Não parece que o senhor é daqui — disse ela.
— Sou originalmente do Wisconsin, mas estou no Maine há algum tempo. Negócios.
— Imagino que o senhor não estava em Falls ontem, não é? — Quando respondi que não, ela explodiu uma bola de chiclete e disse: — Pois perdeu a novidade. Acharam um velho bêbado morto diante do barracão de secagem da fábrica. — Ela baixou a voz. — Suicídio. Cortou a própria garganta com um caco de vidro. Dá para imaginar?
— Que coisa horrível — disse eu, enfiando na carteira a nota fiscal do Sunliner. Fiz as chaves do carro pularem na palma da mão. — Era daqui?
— Não, e sem identidade. Provavelmente veio do condado num vagão de carga, foi o que o meu pai disse. Para a colheita de maçã em Castle Rock, talvez. O sr. Cady — ele é o vendedor da fachada verde — disse ao meu pai que o camarada chegou ontem de manhã e tentou comprar uma garrafa de meio litro, mas estava bêbado e fedia e o sr. Cady o pôs para fora. Então ele deve ter ido até o pátio da fábrica para beber o que lhe restava, e quando acabou ele quebrou a garrafa e cortou a garganta com um dos cacos. — Ela repetiu: — Dá para imaginar?
Pulei o corte de cabelo e pulei o banco, também, mas comprei roupas novamente na Mason’s Menswear.
— O senhor deve gostar desse tom de azul — comentou o vendedor, e ergueu a camisa no alto da minha pilha. — É da mesma cor que essa que está usando.
Na verdade, era a camisa que eu estava usando, mas não disse nada. Só confundiria nós dois.
3
Subi a rodovia Uma Milha por Minuto naquela tarde de quinta-feira. Dessa vez não precisei comprar um chapéu quando cheguei a Derry, porque me lembrara de acrescentar um bom panamá às compras que fiz na Mason’s. Hospedei-me no Derry Town House, jantei no refeitório, depois fui ao bar e pedi uma cerveja a Fred Toomey. Desta vez, não me esforcei para envolvê-lo numa conversa.
No dia seguinte, aluguei o meu velho apartamento na avenida Harris e, longe de me manter acordado, o som dos aviões que pousavam na verdade me acalentou para dormir. No dia depois deste, fui à Machen’s Produtos Esportivos e disse ao vendedor que estava interessado em comprar uma arma portátil porque era corretor de imóveis e blá-blá-blá. O vendedor me trouxe o meu .38 Police Special e mais uma vez me afirmou que era uma boa proteção. Comprei-o e o pus na pasta. Pensei em descer a rua Kansas até a areazinha de piquenique para observar Rique-do-dique e Bevvie-da-neve treinarem os passos de Jump Street, e então percebi que os perdera. Gostaria de ter pensado em verificar os números de final de novembro do Daily News durante o meu breve retorno a 2011; eu talvez descobrisse se tinham vencido o show de talentos.
Adotei o hábito de ir ao Acendedor de Lampiões para tomar uma cerveja no início da noite, antes que o lugar começasse a encher. Às vezes, pedia Sobras de Lagosta. Nunca vi Frank Dunning ali, nem quis. Tinha outra razão para fazer do Acendedor de Lampiões uma parada regular. Se tudo desse certo, logo eu seguiria para o Texas, e queria aumentar o meu tesouro pessoal antes de partir. Fiz amizade com Jeff, o bartender, e certa noite, no final de setembro, ele mencionou um assunto do qual eu mesmo vinha planejando tratar.
— De quem você gosta na Série, George?
— Dos Yankees, é claro — respondi.
— Você dizendo isso? Um sujeito do Wisconsin?
— Orgulho pelo estado natal não tem nada a ver com isso. Os Yankees são um time predestinado este ano.
— Nunca vai acontecer. Os arremessadores estão velhos. A defesa é furada. Mantle não está bom das pernas. A dinastia do Bombardeiro do Bronx acabou. Milwaukee pode até dar uma lavada.
Ri.
— Tudo isso faz sentido, Jeff, dá pra ver que você estuda o jogo, mas confesse: você detesta os Yanks como todo mundo na Nova Inglaterra, e isso destruiu a sua capacidade de avaliação.
— Você poria dinheiro no que diz?
— Claro. Cinquinho. Faço questão de não tirar mais do que cinquinho dos escravos assalariados. Fechado?
— Fechado. — E apertamos as mãos.
— Tudo bem — disse eu. — Agora que isso está resolvido e como estamos tratando de assuntos de beisebol e apostas, os dois maiores passatempos americanos, eu gostaria de saber se você me indicaria onde isso é levado a sério nesta cidade. Se me permite a linguagem poética, quero fazer uma aposta maior. Me traga outra cerveja e tire uma para você.
Falei aposta maior à moda do Maine — posta maió — e ele riu ao tirar um par de Narragansetts (que eu aprendera a chamar de Nasty Gansett, a horrível Gansett; quando em Roma, sempre que possível se deve falar como os romanos).
Brindamos e Jeff me perguntou o que eu queria dizer com levado a sério. Fingi pensar e lhe disse.
— Quinhentinho? Nos Yankees? Quando os Braves têm Spahn e Burdette? Sem falar em Hank Aaron e Steady Eddie Mathews? Você está maluco.
— Talvez sim, talvez não. A partir de primeiro de outubro, veremos, não é? Há alguém em Derry que aceitaria uma aposta desse tamanho?
Eu sabia o que ele ia dizer em seguida? Não. Não sou tão presciente. Fiquei surpreso? Não de novo. Porque o passado não é apenas obstinado; ele está em harmonia consigo mesmo e com o futuro. Vivenciei essa harmonia várias vezes.
— Chaz Frati. Provavelmente você já o viu aqui. Ele tem um monte de casas de penhor. Eu não diria que é exatamente um bookmaker, mas fica bastante ocupado na época do campeonato da Série Mundial e durante a temporada de basquete e futebol americano das escolas secundárias.
— E você acha que ele aceitará a minha proposta.
— Claro. Vai lhe dar vantagem e tudo. Só... — Ele olhou em volta, viu que ainda tínhamos o bar só para nós, mas mesmo assim baixou a voz para um sussurro. — Só não o enrole, George. Ele conhece gente. Gente forte.
— Já entendi — disse eu. — Obrigado pela dica. Na verdade, vou lhe fazer um favor e não cobrar aqueles cinco quando os Yankees vencerem a Série.
4
No dia seguinte, entrei na Penhores & Empréstimos Sereia de Chaz Frati, onde fui confrontado por uma dama grande, de rosto de pedra, com uns 150 quilos talvez. Ela usava um vestido roxo, contas indianas e mocassins nos pés inchados. Disse-lhe que estava interessado em conversar com o sr. Frati sobre uma proposta de negócios bastante grande e ligada a esportes.
— Isso é aposta em língua de gente? — perguntou ela.
— A senhora é da polícia? — perguntei.
— Sou — disse ela, tirando uma cigarrilha Tiparillo de um bolso do vestido e acendendo-a com um Zippo. — Sou J. Edgar Hoover, meu filho.
— Bom, sr. Hoover, o senhor me pegou. Estou falando de uma aposta.
— World Series ou futebol americano dos Tigers?
— Não sou da cidade e não saberia a diferença entre um Derry Tiger e um Bangor Baboon. É beisebol.
A mulher enfiou a cabeça numa porta fechada por uma cortina nos fundos do cômodo, apresentando-me um traseiro que, sem dúvida, seria um dos maiores do centro do Maine, e berrou:
— Ei, Chazzy, venha cá. Aqui tem um ao vivo.
Frati saiu e beijou o rosto da grande dama.
— Obrigado, amor. — As mangas estavam arregaçadas e dava para ver a sereia. — Posso ajudar?
— Assim espero. O nome é George Amberson. — Estendi a mão. — Sou do Wisconsin e, embora o meu coração esteja com os rapazes de casa, na hora do campeonato a minha carteira está com os Yankees.
Ele se virou para a prateleira de trás, mas a grande dama já estava com o que ele queria — um desgastado livro-caixa verde com EMPRÉSTIMOS PESSOAIS na frente. Ele o abriu e folheou até uma página em branco, molhando periodicamente a ponta do dedo.
— De quanto da sua carteira estamos falando, primo?
— Que tipo de vantagem recebo por quinhentos pela vitória? — A gorda riu e soprou fumaça.
— Nos Bombardeiros? Meio a meio, primo. Estritamente meio a meio.
— Que tipo de vantagem recebo por quinhentos nos Yankees em melhor de sete?
Ele pensou e depois se virou para a grande dama. Ela balançou a cabeça, ainda achando graça.
— Não dá — disse ela. — Se não me acredita, mande um telegrama e verifique com Nova York.
Suspirei e batuquei os dedos num estojo de vidro cheio de relógios e anéis.
— Tudo bem, que tal essa: quinhentos e os Yankees vencem três jogos contra um.
Ele riu.
— Belo senso de humor, primo. Deixe eu consultar a chefia.
Ele e a grande dama (Frati lembrava um anão de Tolkien perto dela) cochicharam entre si e depois ele voltou ao balcão.
— Se está dizendo o que estou pensando, aceito quatro por um. Mas se os Yankees não vencerem três por um e caírem de volta, você perde o pacote. Eu gosto de deixar bem claros os termos da aposta.
— Mais claro, impossível — disse eu. — E... sem ofensa a você nem à sua amiga...
— Somos casados — disse a grande dama —, portanto não nos chame de amigos. — E ela riu mais um pouco.
— Sem ofensa a você nem à sua senhora, mas quatro por um não basta. Já se for oito por um... então é justo para ambas as partes.
— Eu lhe dou cinco por um, mas paro por aí — disse Frati. — Para mim, isso é apenas passatempo. Se quer Vegas, vá a Vegas.
— Sete — insisti. — Vamos, sr. Frati, trabalhe junto comigo nisso.
Ele e a grande dama conferenciaram. Então, ele voltou e ofereceu seis por um, que aceitei. Ainda era uma probabilidade baixa para uma aposta tão maluca, mas não quis prejudicar Frati tanto assim. É verdade que ele me entregara a Bill Turcotte, mas tivera as suas razões.
Além disso, isso foi em outra vida.
5
Naquela época, o beisebol era jogado como tem de ser jogado — ao sol forte da tarde e em dias no início de outono que ainda pareciam de verão. Todos se juntavam na frente da loja de eletrodomésticos Benton’s, na Cidade Baixa, para assistir ao jogo em Zeniths de 21 polegadas empoleiradas em pedestais na vitrine. Acima delas havia um cartaz dizendo POR QUE ASSISTIR NA RUA QUANDO SE PODE ASSISTIR EM CASA? CREDIÁRIO FÁCIL!
Ah, sim. Crediário fácil. Isso era mais parecido com os Estados Unidos onde eu crescera.
Em primeiro de outubro, Milwaukee venceu os Yankees por 1 a 0, atrás de Warren Spahn. Em 2 de outubro, Milwaukee enterrou os Bombardeiros, 13 a 5. Em 4 de outubro, quando a Série voltou ao Bronx, Don Larsen arrasou Milwaukee por 4 a 0, com a ajuda de Ryne Duren, que não fazia ideia de para onde ia a bola depois que lhe saía da mão e, consequentemente, apavorava os batedores que tinham de enfrentá-lo. O fechamento perfeito, em outras palavras.
Escutei a primeira parte daquele jogo no rádio, no meu apartamento, e assisti aos dois últimos tempos com o povo reunido diante da Benton’s. Quando acabou, fui à farmácia e comprei Kaopectate (provavelmente a mesma garrafa gigante tamanho econômico da última viagem). Mais uma vez, o sr. Keene me perguntou se eu estava sofrendo do vírus. Quando lhe disse que me sentia bem, o velho canalha pareceu desapontado. Eu realmente me sentia bem, e não esperava que o passado me jogasse exatamente as mesmas bolas rápidas de Ryne Duren, mas achei melhor me preparar.
Ao sair da farmácia, o meu olho foi atraído por um mostruário com um cartaz que dizia LEVE COM VOCÊ UM POUQUINHO DO MAINE! Havia cartões-postais, lagostas infláveis de brinquedo, saquinhos perfumados de húmus macio de pinheiro, réplicas da estátua de Paul Bunyan da cidade e pequenas almofadas decorativas mostrando a Standpipe de Derry — a Standpipe era uma torre circular onde ficava a água potável da cidade. Comprei uma delas.
— Para o meu sobrinho em Oklahoma City — disse ao sr. Keene.
Os Yankees tinham vencido o terceiro jogo da Série na hora em que parei no posto Texaco da extensão da avenida Harris. Havia uma placa na frente das bombas dizendo MECÂNICO DE PLANTÃO 7 DIAS POR SEMANA — NO HOMEM DA ESTRELA VOCÊ PODE CONFIAR!
Enquanto o frentista enchia o tanque e lavava o para-brisa do Sunliner, fui até a garagem, encontrei um mecânico de plantão chamado Randy Baker e pechinchei um pouco com ele. Baker ficou curioso, mas gostou da minha proposta. Vinte dólares trocaram de mãos. Ele me deu o telefone do posto e da sua casa. Saí de tanque cheio, para-brisa limpo e mente satisfeita. Bom... relativamente satisfeita. Era impossível planejar todas as contingências.
Devido aos preparativos para o dia seguinte, passei no Acendedor de Lampiões para tomar a minha cerveja da noite mais tarde do que de costume, mas não havia risco de encontrar Frank Dunning. Era o dia de ele levar os garotos ao jogo de futebol em Orono, e no caminho de volta eles parariam no Ninety-Fiver para comer mariscos fritos e tomar milk-shakes.
Chaz Frati estava no bar, tomando uísque com água.
— É melhor torcer para os Braves vencerem amanhã, senão você perde quinhentos — disse ele.
Eles venceriam, mas eu estava pensando em coisas maiores. Ficaria em Derry tempo suficiente para recolher os meus três mil com o sr. Frati, mas pretendia terminar o meu verdadeiro serviço no dia seguinte. Se tudo corresse como eu esperava, terminaria com Derry antes que Milwaukee marcasse o único ponto de que precisavam no sexto tempo.
— Bom — disse eu, pedindo uma cerveja e algumas Sobras de Lagosta —, isso teremos de ver, não é?
— É verdade, primo. Essa é a graça da aposta. Se importa se eu lhe fizer uma pergunta?
— Não. Desde que não se ofenda se eu não responder.
— É isso que gosto em você, primo, esse senso de humor. Deve ser coisa do Wisconsin. O que me deixa curioso é por que você está na nossa bela cidade.
— Imóveis. Acho que já lhe disse isso.
Ele chegou mais perto. Deu para sentir o cheiro de creme capilar Vitalis no cabelo preto e lustroso e de balinhas Sen-Sen no seu hálito.
— E se eu dissesse “possível local para centro comercial”, levaria um dez?
Assim, conversamos por algum tempo, mas essa parte você já sabe.
6
Eu disse que fiquei longe do Acendedor de Lampiões quando achava que Frank Dunning estaria lá porque já sabia sobre ele tudo o que precisava saber. É verdade, mas não toda a verdade. Isso preciso deixar claro. Caso contrário, você nunca entenderá por que me comportei do jeito que me comportei no Texas.
Imagine entrar numa sala e ver um castelo de cartas complexo, de muitos andares, sobre a mesa. A sua missão é derrubá-lo. Se fosse só isso, seria fácil, não é? Uma pisada forte ou um bom golpe de ar — do tipo que a gente consegue quando chega a hora de apagar todas as velinhas de aniversário — bastariam para o serviço. Mas não é só isso. O caso é: você tem de derrubar aquele castelo de cartas num momento específico. Até então, ele tem de ficar de pé.
Eu sabia onde Dunning estaria na tarde de domingo, 5 de outubro de 1958, e não queria me arriscar a mudar o seu rumo, nem que fosse por um pontinho ou um rabisco. Até cruzar os olhos com ele no Acendedor de Lampiões poderia provocar isso. Você pode fazer um muxoxo e dizer que sou cauteloso demais; pode dizer que é improvável que uma coisinha dessas tire os fatos do rumo. Mas o passado é tão frágil quanto asas de borboleta. Ou um castelo de cartas.
Eu fora a Derry derrubar o castelo de cartas de Frank Dunning, mas até lá teria de protegê-lo.
7
Dei boa noite a Chaz Frati e voltei ao meu apartamento. A garrafa de Kaopectate estava no armário de remédios do banheiro e a nova almofada de lembrança com a Standpipe bordada com linha dourada, na mesa da cozinha. Peguei uma faca na gaveta dos talheres e, cuidadosamente, cortei a almofada na diagonal. Pus o revólver lá dentro, enfiando-o no fundo do recheio.
Não tinha certeza de que dormiria, mas dormi, e profundamente. Faça o melhor possível e deixe o resto com Deus é só uma das muitas frases que Christy arrastava de volta das reuniões do AA. Não sei se Deus existe ou não — para Jake Epping, o júri ainda não se decidiu a respeito —, mas quando fui para a cama naquela noite, tinha bastante certeza de que fizera o melhor possível. Agora, só me restava dormir e torcer para que o meu melhor bastasse.
8
Não houve micróbio intestinal. Dessa vez, acordei às primeiras luzes com a dor de cabeça mais paralisante da minha vida. Enxaqueca, supus. Não sei com certeza, porque isso eu nunca tive. Ver luz, por mais fraca que fosse, produzia um baque enjoado e rotativo que ia da nuca à base do seio da face. Os olhos jorravam lágrimas insensíveis.
Levantei (até isso doeu), pus um par de óculos de sol baratos que comprara na viagem até Derry e tomei cinco aspirinas. Elas ajudaram o suficiente para eu me vestir e pôr o sobretudo. Precisaria dele; a manhã estava cinzenta e gelada, ameaçando chover. De certa forma, isso era uma vantagem. Não sei se sobreviveria à luz do sol.
Precisava me barbear, mas deixei para lá; achei que ficar em pé debaixo de uma luz forte — duplicada no espelho do banheiro — poderia fazer o meu cérebro simplesmente se desintegrar. Não dava para imaginar como eu passaria esse dia, por isso não tentei. Um passo de cada vez, disse a mim mesmo enquanto descia a escada devagar. Com uma das mãos, segurava o corrimão com força e, com a outra, a almofada de lembrança. Devia estar parecido com uma criança crescida com um ursinho de pelúcia. Um passo de cada...
O corrimão quebrou.
Por um instante me inclinei para a frente, a cabeça latejando, as mãos acenando loucamente no ar. Larguei a almofada (a arma lá dentro bateu com barulho) e me agarrei à parede acima da cabeça. No último segundo antes que a inclinação se transformasse numa queda de quebrar o pescoço, os meus dedos se agarraram à luminária de parede à moda antiga aparafusada na massa corrida. Ela se soltou, mas o fio aguentou o suficiente para eu recuperar o equilíbrio.
Sentei-me na escada com a cabeça latejando sobre os joelhos. A dor pulsava em sincronia com a batida da britadeira do coração. Os olhos lacrimosos pareciam grandes demais para as órbitas. Eu poderia lhe dizer que queria me arrastar de volta para o apartamento e desistir, mas isso não seria verdade. A verdade era que eu queria morrer bem ali na escada e acabar com aquilo. Existe quem tenha dores de cabeça assim não de vez em quando, mas com frequência? Nesse caso, que Deus os ajude.
Só havia uma coisa que poderia me pôr de novo em pé e forcei o cérebro dolorido não só a pensar, mas a ver: o rosto de Tugga Dunning obliterado de repente enquanto ele se arrastava na minha direção. O cabelo e o cérebro saltando no ar.
— Tudo bem — disse eu. — Tudo bem, pois é, tudo bem.
Peguei a almofada e desci cambaleando o resto da escada. Saí num dia nublado que parecia tão luminoso quanto uma tarde no Saara. Procurei as chaves. Não estavam lá. O que encontrei onde elas deveriam estar foi um buraco de bom tamanho no bolso da frente direita das calças. Não estava lá na noite da véspera, disso eu tinha quase certeza. Dei meia-volta com passos pequenos e irregulares. As chaves estavam no patamar, no meio de um monte de troco derramado. Abaixei-me com uma careta, conforme um peso de chumbo deslizava para a frente dentro da minha cabeça. Peguei as chaves e fui até o Sunliner. E, quando tentei a ignição, o meu Ford antes confiável se recusou a ligar. Houve um clique do solenoide. E só.
Eu tinha me preparado para essa eventualidade; o que não tinha me preparado era para arrastar a minha cabeça envenenada escada acima outra vez. Nunca na vida desejei com tanto fervor o meu Nokia. Com ele, eu ligaria atrás do volante e ficaria sentado quietinho, de olhos fechados, até Randy Baker chegar.
Não sei como, consegui subir a escada, passar pelo corrimão quebrado e pela luminária pendurada na massa corrida esfacelada como uma cabeça morta num pescoço quebrado. Ninguém atendeu no posto de gasolina — era cedo e era domingo — e tentei o telefone da casa de Baker.
Provavelmente morreu , pensei. Teve um enfarte no meio da noite. Morto pelo passado obstinado, com Jake Epping como cúmplice não indiciado.
O meu mecânico não estava morto. Atendeu no segundo toque, a voz sonolenta, e quando lhe disse que o meu carro não dava partida, ele fez a pergunta lógica:
— Como sabia disso ontem?
— Sou bom de adivinhar — disse eu. — Venha o mais rápido possível, certo? Haverá mais vinte para você se conseguir que o carro ande.
9
Quando Baker trocou o cabo da bateria que misteriosamente se soltara à noite (talvez no mesmo momento em que aquele buraco apareceu no bolso da minha calça) e nem assim o Sunliner pegou, ele verificou as válvulas e descobriu que estavam muito corroídas. Havia sobressalentes na sua grande caixa de ferramentas verde e, quando instaladas, o meu carro de combate ganhou vida.
— Provavelmente não é da minha conta, mas o senhor só devia ir de volta para a cama. Ou ao médico. Está pálido como um fantasma.
— É só uma enxaqueca. Vou ficar bem. Vamos olhar a mala. Quero verificar o estepe.
Verificamos o estepe. Vazio.
Segui-o até o posto Texaco numa garoa leve e constante. Os carros por que passamos estavam com os faróis ligados, e mesmo com óculos escuros cada par parecia abrir furos no meu cérebro. Baker destrancou a ilha de manutenção e tentou encher o estepe. Não conseguiu. Saía ar por uma meia dúzia de rachaduras quase tão finas quanto poros da pele humana.
— Hã — disse ele. — Nunca vi isso. O pneu deve estar com defeito.
— Ponha outro no aro — disse eu.
Fui até os fundos do posto enquanto ele fazia isso. Não conseguia aguentar o som do compressor. Encostei-me nos blocos de concreto e ergui o rosto, deixando a garoa fria cair na pele quente. Um passo de cada vez, disse a mim mesmo. Um passo de cada vez.
Quando tentei pagar o pneu a Randy Baker, ele fez que não.
— O senhor já me deu metade do salário da semana. Eu seria um canalha se aceitasse mais. Só estou com medo de que o senhor saia da estrada ou coisa assim. É mesmo tão importante?
— Familiar doente.
— O senhor é que está doente.
Isso eu não podia negar.
10
Saí da cidade pela rodovia 7, reduzindo a velocidade para olhar os dois lados de cada cruzamento, tivesse ou não a preferência. Essa foi uma excelente ideia, porque um caminhão de brita totalmente carregado ultrapassou um sinal vermelho no cruzamento da 7 com a estrada Velha de Derry. Se eu não tivesse quase parado apesar do sinal verde, o meu Ford teria sido destruído. E eu transformado em hambúrguer dentro dele. Meti a mão na buzina apesar da dor na cabeça, mas o motorista nem deu atenção. Parecia um zumbi atrás do volante.
Nunca conseguirei fazer isso, pensei. Mas, se não conseguisse deter Frank Dunning, como poderia ter esperanças de deter Oswald? Por que ir ao Texas?
Mas não foi isso que me fez avançar. Foi a lembrança de Tugga. Sem mencionar os outros três garotos. Eu os salvara uma vez. Se não os salvasse de novo, como fugir ao conhecimento seguro de que participara do seu assassinato só por provocar um novo recomeço?
Aproximei-me do Derry Drive-In e entrei no caminho de cascalho que levava à bilheteria fechada. O caminho era ladeado por abetos decorativos. Estacionei atrás deles, desliguei o motor e tentei sair do carro. Não consegui. A porta não abria. Bati o ombro contra ela algumas vezes e, quando nem assim se abriu, vi que a tranca estava abaixada, muito embora isso fosse muito antes da época dos carros que se autotrancavam, e eu não a abaixara. Puxei-a. Ela não saiu. Balancei. Ela não saiu. Abri a janela, me inclinei para fora e consegui usar a minha chave na fechadura abaixo do botão cromado da maçaneta externa. Dessa vez a tranca subiu. Saí e peguei a almofada.
A resistência à mudança é proporcional a quanto o futuro pode ser alterado por qualquer ato dado, eu dissera a Al com a minha melhor voz professoral, e era verdade. Mas não fizera ideia do custo pessoal. Agora fazia.
Andei devagar pela rodovia 7 acima, o colarinho erguido contra a chuva e o chapéu puxado bem sobre as orelhas. Quando vinham carros — eram pouco frequentes —, eu sumia entre as árvores que ladeavam o meu lado da estrada. Acho que uma ou duas vezes pus as mãos ao lado da cabeça para me assegurar de que ela não estava inchando. Parecia que estava.
Finalmente, as árvores acabaram. Foram substituídas por um muro de pedra. Atrás do muro estavam colinas manicuradas pontilhadas de lápides e monumentos. Eu chegara ao Cemitério Longview. Encarei um morro e lá estava a barraquinha de flores do outro lado da estrada. Estava fechada e escura. Geralmente, os fins de semana eram dias cheios de visitas a parentes mortos, mas com um tempo daqueles os negócios andariam devagar, e supus que a velha senhora dona do lugar estava dormindo um pouquinho até mais tarde. Mas depois ela abriria. Eu vira com os meus próprios olhos.
Subi no muro, esperando que ele desmoronasse sob mim, mas não. E assim que realmente entrei no Longview, uma coisa maravilhosa aconteceu: a dor de cabeça começou a diminuir. Sentei-me numa lápide debaixo da copa pendente de um olmo, fechei os olhos e conferi o nível de dor. O que fora um 10 aos berros — talvez até aumentado para 11, como num amplificador Spinal Tap — baixara para 8.
— Acho que passei, Al — disse eu. — Acho que devo estar do outro lado.
Ainda assim, avancei com cuidado, atento a mais truques — árvores caindo, ladrões de túmulos, talvez até um meteoro em chamas. Não houve nada. Quando cheguei aos túmulos lado a lado marcados ALTHEA PIERCE DUNNING e JAMES ALLEN DUNNING, a dor de cabeça baixara para 5.
Olhei em volta e vi um mausoléu com um nome conhecido gravado no granito cor-de-rosa: TRACKER. Fui até lá e experimentei o portão de ferro. Em 2011, estaria trancado, mas era 1958 e ele se abriu facilmente... embora com um guincho de dobradiças enferrujadas digno de um filme de terror.
Entrei, abrindo caminho aos chutes por um monte de folhas velhas e quebradiças. Havia um banco de pedra para meditação correndo pelo meio da cripta; de cada lado, gavetas de pedra para Trackers datadas desde 1831. De acordo com a placa de cobre na frente desse mais antigo, estavam lá dentro os ossos de monsieur Jean Paul Traiche.
Fechei os olhos.
Deitei-me no banco de meditação e cochilei.
Dormi.
Quando acordei, era quase meio-dia. Fui até a porta da frente do túmulo dos Tracker para esperar Dunning... assim como Oswald, dali a cinco anos, sem dúvida esperaria a carreata de Kennedy na sua veneziana no sexto andar do Texas School Book Depository.
A dor de cabeça sumira.
11
O Pontiac de Dunning apareceu mais ou menos à mesma hora em que Red Schoendienst marcava o ponto vencedor dos Milwaukee Braves naquele dia. Dunning estacionou no caminho mais próximo, saiu, levantou o colarinho e se curvou para pegar as cestas de flores. Desceu o morro até o túmulo dos pais levando uma em cada mão.
Agora que a hora chegara, eu estava bastante bem. Alcançara o outro lado do que quer que fosse que tentava me segurar. A almofada estava debaixo do meu casaco. A minha mão dentro dela. A grama molhada abafou os meus passos. Não havia sol para lançar a minha sombra. Ele não soube que eu estava atrás dele até que disse o seu nome. Então ele se virou.
— Quando venho visitar os meus pais, não gosto de companhia — disse ele. — Quem diabos é você, afinal? E o que é isso? — Ele olhava a almofada, que eu tirara. Eu a usava como uma luva.
Escolhi responder apenas à primeira pergunta.
— Eu me chamo Jake Epping. Vim aqui lhe fazer uma pergunta.
— Então faça e depois me deixe em paz. — Pingava chuva da aba do chapéu dele. Do meu também.
— Qual é a coisa mais importante na vida, Dunning?
— O quê?
— Para um homem, quero dizer.
— Você é maluco, é? E para que a almofada, afinal de contas?
— Faça a gentileza. Responda à pergunta.
Ele deu de ombros.
— A família, acho.
— Também acho — disse eu, e puxei o gatilho duas vezes. O primeiro tiro foi um baque abafado, como bater num tapete pendurado. O segundo foi um pouco mais alto. Achei que a almofada pegaria fogo — vira isso no Poderoso chefão 2 —, mas só fumegou um pouco. Dunning caiu, esmigalhando a cesta de flores que pusera no túmulo do pai. Ajoelhei-me ao lado dele, o joelho afundando na água da terra molhada, pus a ponta rasgada da almofada contra a sua têmpora e atirei de novo. Só para garantir.
12
Arrastei-o para dentro do mausoléu dos Tracker e larguei a almofada chamuscada sobre o seu rosto. Quando saí, alguns carros passavam devagar pelo cemitério e algumas pessoas estavam de guarda-chuva junto a túmulos, mas ninguém prestou nenhuma atenção em mim. Andei sem pressa rumo ao muro de pedra, parando de vez em quando para olhar um túmulo ou monumento. Assim que me vi protegido pelas árvores, voltei correndo para o meu Ford. Quando ouvia carros passando, me enfiava no bosque. Num desses recuos, enterrei a arma debaixo de trinta centímetros de terra e folhas. O Sunliner esperava sem ter sido mexido onde o deixei, e pegou de primeira. Voltei ao meu apartamento e escutei o final do jogo de beisebol. Chorei um pouco, acho. Foram lágrimas de alívio e não de remorso. Não importava o que me acontecesse, a família Dunning estava salva.
Naquela noite, dormi como um bebê.
13
Havia muita coisa sobre a Série Mundial no Derry Daily News de segunda- -feira, inclusive uma boa foto de Schoendienst chegando à base na corrida vencedora depois de um erro de Tony Kubek. De acordo com a coluna de Red Barber, os Bombardeiros do Bronx já eram. “Enfie o garfo neles”, opinou. “Os Yanks estão mortos, vida longa aos Yanks.”
Nada sobre Frank Dunning para começar a semana de trabalho em Derry, mas ele foi matéria de primeira página no jornal de terça-feira, junto com uma foto que o mostrava sorrindo com aquela alegria do tipo as-mulheres-me-adoram. O brilho diabólico de George Clooney nos seus olhos estava positivo e operante.
EMPRESÁRIO ENCONTRADO MORTO NO CEMITÉRIO LOCAL
Dunning se destacava em muitas obras de caridade
De acordo com o chefe de polícia de Derry, o departamento estava seguindo todas as boas pistas e esperava-se uma prisão em breve. Entrevistada por telefone, Doris Dunning declarou estar “chocada e arrasada”. Não se mencionou o fato de que ela e o falecido moravam separados. Vários amigos e colegas de trabalho do Center Street Market exprimiram choque semelhante. Todos pareciam concordar que Frank Dunning tinha sido um camarada absolutamente maravilhoso e ninguém podia imaginar por que alguém quereria matá-lo.
Tony Tracker estava especialmente ofendido (talvez porque o cadáver fora encontrado no banco de corpos da família). “Por esse camarada, deveriam trazer de volta a pena de morte”, disse ele.
Na quarta-feira, 8 de outubro, os Yankees arrancaram dos Braves uma vitória de 2 a 1 no County Stadium; na quinta-feira, conseguiram um empate de 2 a 2 no oitavo tempo, marcando quatro pontos e encerrando a Série. Na sexta-feira, voltei à Penhores & Empréstimos Sereia, esperando ser recebido ali por D. Ranzinza e pelo Sr. Triste. A grande dama mais do que atendeu às minhas expectativas: franziu o lábio quando me viu e berrou “Chazzy! O sr. Cheiodagrana está aqui!” Então passou pela porta com a cortina e saiu da minha vida.
Frati veio usando o mesmo sorriso de esquilo que eu vira pela primeira vez no Acendedor de Lampiões, na minha viagem anterior ao extravagante passado de Derry. Numa das mãos, segurava um envelope bem recheado com G. AMBERSON escrito na frente.
— Aí está você, primo — disse ele —, grande como a vida e duas vezes mais bonito. E aqui está o seu quinhão. Fique à vontade para contar.
— Confio em você — disse eu, e enfiei o envelope no bolso. — Você está muito alegre para quem acabou de perder mais de três mil.
— Não nego que você interferiu com os ganhos dos Clássicos de Outono deste ano — disse ele. — Interferiu seriamente, embora eu ainda tenha conseguido algum. Sempre consigo. Mas estou no jogo principalmente porque, cumecsediz, é um serviço público. O povo vai apostar, o povo sempre vai apostar, e eu pago na hora quando devo pagar. E também gosto de apostar. É um tipo de passatempo meu. E sabe quando mais gosto?
— Não.
— Quando aparece alguém como você, um verdadeiro caçador de ouro que enfrenta as probabilidades e sai vitorioso. Isso restaura a minha fé na natureza aleatória do universo.
Fiquei me perguntando se ele ainda a acharia aleatória se pudesse ver a cola de Al Templeton.
— A opinião da sua mulher não parece ser, digamos, tão católica.
Ele riu, e os olhinhos pretos faiscaram. Ganhar, perder ou empatar, o homenzinho com a sereia no braço simplesmente gozava a vida. Admirei isso.
— Ah, Marjorie. Quando algum pobre coitado aparece aqui com o anel de noivado da esposa e uma história triste, ela se derrete toda. Mas nas coisas do esporte, é outra mulher. Aí ela leva para o lado pessoal.
— O senhor a ama muito, não é, sr. Frati?
— Como a lua e as estrelas, primo. Como a lua e as estrelas.
Marjorie andara lendo o jornal daquele dia, que ainda estava no balcão de vidro contendo os anéis e coisas. A manchete dizia CAÇA AO ASSASSINO MISTERIOSO CONTINUA — FRANK DUNNING VAI PARA A ÚLTIMA MORADA.
— O que acha que foi isso aí? — perguntei.
— Não sei, mas uma coisa vou lhe contar. — Ele se inclinou para a frente e o sorriso sumiu. — Ele não era o santo em que o pasquim local o transformou. Eu poderia lhe contar histórias, primo.
— Vá em frente, tenho o dia inteiro.
O sorriso reapareceu.
— Não. Em Derry, nos guardamos para nós mesmos.
— Assim notei — disse eu.
14
Queria voltar à rua Kossuth. Sabia que os policiais estariam vigiando a casa dos Dunning para ver se alguém demonstrava um interesse incomum pela família, mas assim mesmo a vontade era muito forte. Não era Harry que eu queria ver; era a irmã caçula. Havia coisas que queria lhe dizer.
Que ela deveria ir buscar gostosuras ou travessuras no Halloween, por mais triste que estivesse por causa do pai.
Que seria a princesa índia mais bonita e mágica que o mundo já vira e que voltaria para casa com um monte de doces.
Que tinha pela frente pelo menos cinquenta e três longos anos movimentados, provavelmente muito mais.
Principalmente, que algum dia o irmão Harry teria vontade de vestir uma farda e virar soldado e que ela deveria fazer tudo, tudo, tudo o que pudesse para dissuadi-lo.
Só que as crianças esquecem. Todo professor sabe disso.
E acham que vão viver para sempre.
15
Era hora de partir de Derry, mas eu tinha um último servicinho a fazer antes de ir embora. Esperei até segunda-feira. Naquela tarde, 13 de outubro, joguei a minha valise na mala do Sunliner e me sentei atrás do volante tempo suficiente para rabiscar um bilhete. Enfiei-o num envelope, colei e escrevi o nome do destinatário na frente.
Fui até a Cidade Baixa, estacionei e entrei no Sonolento Dólar de Prata. Estava vazio, a não ser por Pete, o bartender, como eu esperava. Ele lavava copos e assistia à novela Love of Life na telinha. Virou-se relutante para mim, de olho em John e Marsha ou sei lá quais eram os nomes.
— O que deseja, amigo?
— Nada, mas você pode me fazer um favor. Pelo qual vou compensá-lo com o som de cinco dólares americanos.
Ele não pareceu impressionado.
— É mesmo? Qual é o favor?
Pus o envelope no balcão.
— Entregue isso quando o destinatário chegar.
Ele olhou o nome na frente do envelope.
— O que quer com Billy Turcotte? E por que não o entrega pessoalmente?
— É uma missão bastante simples, Pete. Quer os cinquinho ou não?
— Claro. Desde que não cause mal nenhum. Billy é uma boa alma.
— Não vai lhe causar mal nenhum. Pode até lhe fazer bem.
Pus cinco dólares em cima do envelope. Pete os fez sumir e voltou à novela. Saí. Provavelmente Turcotte recebeu o envelope. Se ele fez ou não alguma coisa depois de ler o que estava dentro é outra questão, uma das muitas para as quais nunca terei resposta. Eis o que escrevi:
Caro Bill:
Há algo errado com o seu coração. Você tem de ir logo ao médico senão será tarde
demais. Pode parecer piada, mas não é. Pode parecer que não tenho como saber uma coisa dessas, mas sei. Sei com tanta certeza quanto você sabe que Frank Dunning assassinou a sua irmã Clara e o seu sobrinho Mikey. POR FAVOR, ACREDITE EM MIM E VÁ AO MÉDICO!
Um amigo
16
Entrei no meu Sunliner e, enquanto dava a ré no estacionamento inclinado, vi o rosto estreito e desconfiado do sr. Keene me espiando na farmácia. Abri a janela, pus o braço para fora e lhe dei uma banana. Depois, subi o Morro Milha Acima e saí de Derry pela última vez.