Novembro de 63
Capítulo 31
1
Ele ainda morava na rua Goddard. Empurrei-o pela rampa até a varanda, onde ele tirou um molho de chaves assustador. Precisava delas. A porta da frente tinha nada menos do que quatro fechaduras.
— Alugada ou própria?
— Ah, é toda minha — disse ele. — No estado.
— Que bom. — Antes, era alugada.
— Você ainda não me contou como é que sabe o meu nome.
— Primeiro vamos àquele drinque. Acho que estou precisando.
A porta se abriu para uma sala que ocupava toda a metade da frente da casa. Ele me disse ôa, como se eu fosse um cavalo, e acendeu um lampião a gás. Com a luz vi mobília do tipo chamado de “velha mas em condições de uso”. Havia um lindo tapete trançado no chão. Nenhum diploma do supletivo de inglês — e, é claro, nenhuma redação emoldurada chamada “O dia que mudou a minha vida” —, mas havia muitos ícones católicos e muitas fotos. Foi sem surpresa que reconheci algumas pessoas. Afinal de contas, eu as conhecera.
— Tranque a porta aí atrás, pode ser?
Eu nos isolei da escura e perturbadora Lisbon Falls e passei os dois ferrolhos.
— O outro ferrolho também, se não se importa.
Girei-o e escutei um pesado clanque. Enquanto isso, Harry rodava pela sala e acendia o mesmo tipo de lampião de querosene de manga comprida que eu me lembrava vagamente de ter visto na casa da minha avó Sarie. Era uma luz melhor para a sala do que o lampião a gás, e quando apaguei a sua luz branca e quente, Harry Dunning aprovou com a cabeça.
— Como se chama, senhor? O meu nome o senhor já sabe.
— Jake Epping. Acho que não se lembra desse nome, não é?
Ele pensou um pouco e balançou a cabeça.
— Deveria?
— Provavelmente, não.
Ele estendeu a mão. Tremia de leve com alguma paralisia incipiente.
— Aperto a sua mão mesmo assim. Aquilo poderia ter acabado mal.
Apertei a sua mão alegremente. Olá, novo amigo. Olá, velho amigo.
— Tudo bem, agora que cuidamos daquilo podemos beber de consciência limpa. Vou buscar aquele single malt. — Ele partiu para a cozinha, rolando as rodas com braços um pouco trêmulos mas ainda fortes. A cadeira tinha um motorzinho, mas não funcionava ou ele poupava a bateria. Ele me olhou por sobre o ombro. — Você não é perigoso, é? Quer dizer, para mim?
— Para você, não, Harry. — Sorri. — Sou o seu anjo da guarda.
— Isso é esquisito pra caralho — disse ele. — Mas, hoje em dia, o que não é? — Ele entrou na cozinha. Logo, mais luzes brilharam. Luz caseira, amarelo-alaranjada. Aqui, tudo parecia caseiro. Mas lá fora... no mundo...
Que diabos eu fizera exatamente?
2
— A que vamos beber? — perguntei quando estávamos com os copos na mão.
— A tempos melhores do que este. Está bom para o senhor, sr. Epping?
— Muito bom. E me chame de Jake.
Brindamos. Bebemos. Eu não me lembrava da última vez que bebera algo mais forte do que cerveja Lone Star. O uísque parecia mel fervente.
— Sem eletricidade? — perguntei, olhando os lampiões. Ele baixara todos eles, possivelmente para economizar querosene.
Harry fez uma cara azeda.
— Você não é daqui, não é?
Pergunta que já ouvira de Frank Anicetti, na Fruit. Na minha primeiríssima viagem ao passado. Naquela época, mentira. Não queria fazer isso agora.
— Não sei direito como responder, Harry.
Ele deu de ombros.
— Dizem que recebemos energia três dias por semana, e este deveria ser um desses dias, mas a luz caiu por volta das seis da tarde. Acredito na Province Electric como acredito em Papai Noel.
Enquanto pensava nisso, me lembrei dos adesivos nos carros.
— Há quanto tempo o Maine faz parte do Canadá?
Ele me deu um olhar de você-está-maluco-cara, mas pude ver que achava divertido. A estranheza e também a realidade daquilo. Gostaria de saber quando ele conversara de verdade com alguém pela última vez.
— Desde 2005. Alguém bateu na sua cabeça ou o quê?
— Para dizer a verdade, bateu. — Fui até a cadeira de rodas, me apoiei no joelho que ainda se dobrava de boa vontade e sem dor e lhe mostrei o lugar nas costas da cabeça onde o cabelo nunca voltara a crescer. — Levei uma surra e tanto há alguns meses...
— É, vi você mancar quando correu para aqueles garotos.
— ... e agora há muita coisa de que não me lembro.
De repente, o chão tremeu debaixo de nós. A chama dos lampiões de querosene tremulou. As fotos nas paredes chocalharam e um Jesus de gesso de sessenta centímetros de altura, com os braços abertos, fez um passeio irrequieto rumo à borda da prateleira sobre a lareira. Parecia alguém que pensava em suicídio e, dado o atual estado de coisas que eu observara, não lhe tirava a razão.
— Pipoqueira — disse Harry objetivamente quando o tremor passou. — Delas você se lembra, não é?
— Não. — Levantei-me, fui até a lareira e empurrei Jesus de volta para junto da sua Santa Mãe.
— Obrigado. Já perdi metade dos malditos discípulos da prateleira do quarto, e choro por cada um deles. Eram da minha mãe. Pipoqueiras são tremores de terra. Temos vários, mas a maioria dos grandes terremotos acontece no Meio-Oeste ou lá na Califórnia. Na Europa e na China também, é claro.
— O pessoal já está atracando os barcos em Idaho? — Eu ainda estava junto à lareira, agora olhando as fotos emolduradas.
— Ainda não chegou a esse ponto, mas... você sabe que quatro ilhas japonesas sumiram, não sabe?
Olhei-o consternado.
— Não.
— Três eram pequenas, mas Hokaido sumiu também. Afundou no maldito oceano quatro anos atrás, como se estivesse num elevador. Os cientistas dizem que tem algo a ver com a crosta terrestre. — Ele acrescentou objetivamente: — Dizem que, se isso não parar, vai acabar com o planeta por volta de 2080. Então o sistema solar terá dois cinturões de asteroides.
Tomei o resto do meu uísque num só gole, e as lágrimas de crocodilo do álcool duplicaram momentaneamente a minha visão. Quando a sala se solidificou de novo, apontei uma foto de Harry com uns 50 anos. Ainda estava na cadeira de rodas, mas parecia forte e saudável, pelo menos da cintura para cima; as calças do terno ondulavam sobre as pernas diminutas. Junto dele estava uma mulher com um vestido rosa que me lembrou o tailleur de Jackie Kennedy em 22/11/63. Recordei a minha mãe dizer que nunca devia chamar de “comum” o rosto de uma mulher que não fosse bonita; segundo ela, melhor seria um “rosto bom”. Essa mulher tinha um rosto bom.
— Sua mulher?
— É. Essa foto foi tirada no aniversário de vinte e cinco anos de casados. Ela morreu dois anos depois. Tem muito disso acontecendo. Os políticos vão dizer que as bombas atômicas fizeram isso — vinte e oito ou vinte e nove foram trocadas desde o Inferno de Hanói em 1969... Eles juram até ficarem de cara azul, mas todo mundo sabe que as feridas e o câncer só começaram a piorar mesmo depois que Vermont Yankee pegou a Síndrome da China. Isso aconteceu depois de anos de protestos contra o lugar. “Ah”, diziam, “não haverá grandes terremotos em Vermont, não aqui, no Reino de Deus, só os tremorezinhos e as pipoqueiras de sempre”. Pois é. Veja só o que aconteceu.
— Está dizendo que um reator explodiu em Vermont?
— Espalhou radiação sobre a Nova Inglaterra inteira e o sul de Quebec.
— Quando?
— Jake, você está gozando com a minha cara?
— Claro que não.
— Dezenove de junho de 1999.
— Sinto muito pela sua esposa.
— Obrigado, filho. Era uma boa mulher. Uma mulher adorável. Não merecia o que lhe aconteceu. — Ele passou o braço devagar por sobre os olhos. — Faz muito tempo que não falo dela, mas também faz muito tempo que não tenho ninguém com quem conversar. Posso lhe servir mais um pouco desse suco de alegria?
Ergui os dedos só um pouquinho separados. Não pretendia ficar ali muito tempo; tinha de absorver depressa toda essa história falsificada, toda essa escuridão. Tinha muita coisa a fazer e uma das mais importantes era trazer de volta à vida a minha mulher adorável. Isso significaria outro papinho com o Homem do Cartão Verde. Não queria estar calibrado nessa hora, mas mais um pouquinho não faria mal. Eu precisava. As emoções pareciam paralisadas, o que talvez fosse bom, porque a cabeça rodopiava.
— Ficou paralítico na Ofensiva de Tet? — Pensando: É claro que sim, mas poderia ter sido pior; na última rodada, você morreu.
Os olhos dele ficaram vazios um instante, depois o rosto clareou.
— Pensando bem, acho que era Tet. A gente chamou de o Grande Fode Tudo de Saigon, em 1967. O helicóptero onde eu estava caiu. Tive sorte. A maioria dos que estavam a bordo morreu. Alguns eram diplomatas, outros só garotos.
— Tet de 1967 — disse eu. — Não de 1968.
— Isso mesmo. Você nem devia ter nascido, mas sem dúvida leu a respeito nos livros de História.
— Não.
Deixei que servisse um pouco mais de uísque no meu copo — só o suficiente para cobrir o fundo — e disse:
— Sei que o presidente Kennedy quase foi assassinado em novembro de 1963. Depois disso, não sei mais nada.
Ele balançou a cabeça.
— É a amnésia mais engraçada que já vi.
— Kennedy foi reeleito?
— Contra Goldwater? Pode apostar o cu que foi.
— Ele manteve Johnson como vice?
— Claro. Kennedy precisava do Texas. E conseguiu. O governador Connally trabalhou feito escravo por ele naquela eleição, por mais que desprezasse a Nova Fronteira de Kennedy. Ficou conhecida como Endosso da Vergonha. Por causa do que quase aconteceu em Dallas naquele dia. Tem certeza de que não sabe disso? Nunca aprendeu nada disso na escola?
— Você viveu isso, Harry. Então me conte.
— Não me importo — disse ele. — Puxe uma pedra, filho. Pare de olhar essas fotos. Se não sabe que Kennedy se reelegeu em 1964, claro que não pode conhecer ninguém da minha família.
Ah, Harry, pensei.
3
Quando eu era pequeno — 4, talvez até 3 anos — um tio bêbado me contou a história de Chapeuzinho Vermelho. Não a que está nos livros de contos de fadas comuns, mas a versão proibida para menores, cheia de gritos, sangue e o barulho surdo do machado do lenhador. A minha lembrança de ouvi-la está viva até hoje, mas só alguns detalhes permanecem: os dentes nus do lobo num sorriso faiscante, por exemplo, e a vovó encharcada de sangue renascendo da barriga aberta do lobo. Esse é o meu jeito de dizer que, se está esperando A concisa história alternativa do mundo contada por Harry Dunning a Jake Epping, pode esquecer. Não foi apenas o horror de descobrir como tudo dera errado, erradíssimo. Foi a necessidade de voltar e ajeitar a situação.
Mas algumas coisas se destacam. A busca mundial de George Amberson, por exemplo. Nenhuma alegria aí — George sumira tão bem quanto o juiz Crater, aquele famoso, que desaparecera em 1930 e nunca fora encontrado —, mas nos quarenta e oito anos depois da tentativa de assassinato em Dallas, Amberson se tornara um personagem quase mítico. Salvador ou parte da conspiração? Houve verdadeiras convenções para discutir o assunto, e, ao ouvir Harry contar essa parte, foi impossível para mim não pensar em todas as teorias da conspiração que brotaram em torno da versão de Lee que conseguira o que queria. Como sabemos, alunos, o passado se harmoniza.
Kennedy esperava vencer Barry Goldwater com vantagem em 1964, mas venceu por menos de quarenta votos no Congresso, margem que só os fanáticos do Partido Democrata acharam respeitável. No início do segundo mandato, enfureceu as forças armadas e os eleitores de direita ao declarar que o Vietnã do Norte era “um perigo menor para a nossa democracia do que a desigualdade racial nas escolas e cidades”. Não retirou inteiramente os soldados americanos, mas eles ficaram restritos a Saigon e a um anel em torno da chamada — surpresa, surpresa — Zona Verde. Em vez de injetar grande quantidade de soldados, o segundo governo Kennedy injetou grande quantidade de dinheiro. Esse é o Jeito Americano.
A grande reforma dos direitos civis da década de 60 nunca aconteceu. Kennedy não era nenhum Lyndon Johnson, que, como vice-presidente, não tinha poderes para ajudá-lo. Os republicanos e os dixiecratas postergaram a votação cento e dez dias; um deles chegou a cair morto no chão e virou herói da direita. Quando finalmente cedeu, Kennedy fez uma observação improvisada que o perseguiria até a morte em 1983: “Os Estados Unidos brancos encheram a casa de material combustível; agora ela pegará fogo.”
Em seguida, vieram as revoltas raciais. Enquanto Kennedy se preocupava com elas, o exército norte-vietnamita invadiu Saigon — e o homem que me pusera naquilo ficou paralítico numa queda de helicóptero no convés de um porta-aviões americano. A opinião pública começou a ficar muito contrária a JFK.
Um mês depois da queda de Saigon, Martin Luther King foi assassinado em Chicago. O assassino era um agente renegado do FBI chamado Dwight Holly. Antes de ser morto, ele afirmou ter dado o tiro por ordem de Hoover. Chicago se incendiou. E também mais uma dúzia de cidades americanas.
George Wallace foi eleito presidente. Nisso, os terremotos começaram a sério. Wallace não podia fazer nada quanto a eles e decidiu bombardear Chicago para pacificá-la. Harry disse que isso foi em junho de 1969. Um ano depois, o presidente Wallace deu um ultimato a Ho Chi Minh: torne Saigon uma cidade livre como Berlim ou veja Hanói se transformar numa cidade morta como Hiroxima. O tio Ho se recusou. Se achou que Wallace blefava, se enganou. Hanói virou uma nuvem radiativa em 9 de agosto de 1969, vinte e quatro anos depois do dia em que Harry Truman jogou a bomba Fat Man em Nagasaki. O vice-presidente Curtis LeMay encarregou-se pessoalmente da missão. Num discurso ao país, Wallace disse que era a vontade de Deus. A maioria dos americanos concordou. O nível de aprovação de Wallace era alto, mas havia pelo menos um sujeito que não o aprovava. O nome era Arthur Bremer e, em 15 de maio de 1972, matou Wallace com um tiro durante a campanha da reeleição num shopping center de Laurel, no estado de Maryland.
— Com que tipo de arma?
— Acho que foi um revólver 38.
Com certeza. Talvez um Police Special, mas provavelmente um modelo Victory, o mesmo tipo de arma que tirara a vida do policial Tippit em outra corda do tempo.
Foi aí que comecei a perder o fio da meada. Que o pensamento Tenho de ajeitar isso, ajeitar isso, ajeitar isso começou a martelar na minha cabeça como um gongo.
Hubert Humphrey se tornou presidente em 1972. Os terremotos aumentaram. A taxa mundial de suicídios disparou. Surgiram fundamentalismos de todo tipo. O terrorismo fomentado por extremistas religiosos prosperou com eles. A Índia e o Paquistão entraram em guerra; floriram mais nuvens em formato de cogumelo. Bombaim nunca virou Mumbai. Virou cinza radiativa num vento canceroso.
O mesmo com Karachi. Só quando a Rússia, a China e os Estados Unidos prometeram bombardear ambos os países até voltarem à Idade da Pedra as hostilidades cessaram.
Em 1976, Humphrey perdeu para Ronald Reagan numa avalanche de costa a costa; o corcunda não venceu nem no seu estado natal de Minnesota.
Duas mil pessoas se suicidaram juntas em Jonestown, na Guiana.
Em novembro de 1979, estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã e fizeram não 66, mas mais de duzentos reféns. Cabeças rolaram na TV iraniana. Reagan aprendera o suficiente no Inferno de Hanói para manter as bombas nucleares nos arsenais e silos de mísseis, mas mandou beaucoup soldados. É claro que os reféns restantes foram massacrados e um grupo terrorista emergente que se autointitulava A Base — ou, em árabe, Al-Qaeda — começou a plantar minas em beiras de estrada aqui, ali e acolá.
— O homem sabia discursar como um filho da puta, mas não entendia nada sobre o islamismo militante — disse Harry.
Os Beatles voltaram a se reunir e fizeram um Concerto da Paz. Um terrorista suicida na multidão detonou o colete a matou trezentos espectadores. Paul McCartney ficou cego.
O Oriente Médio explodiu em chamas pouco depois.
A Rússia desmoronou.
Um grupo, provavelmente fanáticos russos linha-dura exilados, começou a vender armas nucleares a grupos terroristas, inclusive à Base.
— Em 1994 — disse Harry com a sua voz seca —, os campos petrolíferos de lá mais pareciam vidro preto. Do tipo que brilha no escuro. Mas, desde então, o terrorismo praticamente se extinguiu. Alguém explodiu uma mala nuclear em Miami dois anos atrás, mas não funcionou muito bem. Quer dizer, ainda vão se passar sessenta ou oitenta anos para alguém poder fazer festa em South Beach, e é claro que o golfo do México virou uma sopa morta, mas só dez mil pessoas morreram de envenenamento por radiação. Mas isso não era mais problema nosso. O Maine votou para se tornar parte do Canadá, e Clinton ficou contente de se livrar de nós.
— Bill Clinton é presidente?
— Céus, não. Ele estava bem cotado para candidato em 2004, mas morreu de enfarte na convenção. A mulher ocupou a vaga. Ela é o presidente.
— Está fazendo um bom trabalho?
Harry abanou com a mão.
— Nada mau... mas não dá para governar terremotos. E é isso que vai acabar conosco no final.
Lá em cima, veio de novo aquele som alto, rasgado e aquoso. Ergui os olhos. Harry, não.
— O que foi isso? — perguntei.
— Filho — disse ele —, parece que ninguém sabe. Os cientistas discutem, mas nesse caso acho que os pregadores é que devem ter descoberto. Dizem que é Deus se preparando para rasgar todas as obras das Suas mãos, do mesmo jeito que Sansão derrubou o templo dos filisteus. — Ele tomou o resto do uísque. Um pouco de cor florira nas suas bochechas... que, até onde eu podia ver, estava sem feridas de radiação. — E nisso, acho que podem estar certos.
— Cristo todo-poderoso — disse eu.
Ele me olhou diretamente.
— Ouviu história suficiente, filho?
Suficiente para uma vida inteira.
4
— Tenho de ir — disse eu. — Você vai ficar bem?
— Até não ficar mais. Igual a todo mundo. — Ele me olhou com atenção. — Jake, de onde você caiu? E por que diabos acho que o conheço?
— Talvez porque a gente sempre conhece o nosso anjo da guarda?
— Bobagem.
Eu queria ir embora. Em termos gerais, achei que a minha vida depois do próximo recomeço seria muito mais simples. Mas primeiro, porque esse era um bom homem que sofrera muito nas suas três encarnações, me aproximei de novo da lareira e peguei uma das fotos emolduradas.
— Cuidado com isso — disse Harry, irritado. — É a minha família.
— Eu sei. — Eu a pus nas suas mãos nodosas e manchadas pela idade, uma foto em preto e branco que, pelo jeito levemente desfocado da imagem, fora tirada com uma câmera instantânea Kodak. — Foi o seu pai quem tirou? Pergunto porque só ele não aparece.
Ele me olhou, curioso, depois baixou os olhos para a foto.
— Não — disse ele. — Foi tirada por uma vizinha no verão de 1958. O meu pai e a minha mãe estavam separados nessa época.
Eu me perguntei se a vizinha não seria aquela que eu vira fumando um cigarro enquanto alternava lavar o carro e molhar o cão da família. De certo modo, tinha certeza de que fora. Lá longe, na minha mente, como um som que se ouve subindo de um poço profundo, veio o canto das vozes das puladoras de corda: o meu pai dirige um sub-ma-ri-no.
— Ele tinha problemas com bebida. Naquela época isso não era muita coisa, muitos homens bebiam demais e ficavam debaixo do mesmo teto que as esposas, mas ele ficava mau quando bebia.
— Aposto que sim — disse eu.
Ele me olhou de novo, mais atentamente, e sorriu. A maioria dos dentes tinha sumido, mas o sorriso ainda era bastante agradável.
— Duvido que saiba do que está falando. Que idade você tem, Jake?
— Quarenta. — Embora tivesse certeza de que parecia mais velho naquela noite.
— O que significa que nasceu em 1971.
Na verdade fora em 1976, mas não havia como dizer isso sem discutir os cinco anos sumidos que tinham caído pela toca de coelho, como Alice no País das Maravilhas.
— Quase — disse eu. — Aquela foto foi tirada na casa da rua Kossuth. — Falado à moda de Derry: Cossut.
Cutuquei Ellen, em pé à esquerda da mãe, pensando na versão adulta com quem falara ao telefone — digamos, Ellen 2.0. Pensando também — era inevitável — em Ellen Dockerty, a versão harmônica que eu conhecera em Jodie.
— Não dá para dizer pela foto, mas ela era ruiva como uma cenoura, não era? Uma Lucille Ball tamanho caçula.
Harry nada disse, só abriu a boca.
— Ela virou comediante? Ou outra coisa? Rádio ou televisão?
— Ela faz um programa como DJ na CBC da província do Maine — disse ele, baixinho. — Mas como...
— Aqui está Troy... e Arthur, também chamado de Tugga... e aqui está você, abraçado pela sua mãe. — Sorri. — Do jeito que Deus planejou. — Ah, se pudesse ficar assim. Ah, se pudesse.
— Eu... você...
— O seu pai foi assassinado, não foi?
— Foi. — A cânula se desviara do nariz e ele a arrumou, a mão se mexendo devagar, como a mão de um homem que sonha de olhos abertos. — Levou um tiro no cemitério Longview quando punha flores no túmulo dos pais. Alguns meses depois desta foto. A polícia prendeu um homem chamado Bill Turcotte...
Ui. Eu não sabia disso.
— ... mas ele tinha um ótimo álibi e finalmente tiveram de soltá-lo. Nunca pegaram o assassino. — Ele segurou uma das minhas mãos. — Moço... filho... Jake... isso é maluquice, mas... foi você que matou o meu pai?
— Não seja bobo. — Peguei a foto e a pendurei de volta na parede. — Só nasci em 1971, lembra?
5
Andei devagar pela rua Principal de volta à fábrica em ruínas e à abandonada loja de conveniência Quik-Flash que ficava diante dela. Andei de cabeça baixa sem procurar Sem Nariz, Homem Bunda nem o resto do seu alegre bando. Achei que, se ainda estivessem na vizinhança, ficariam longe de mim. Pensariam que eu era maluco. Provavelmente era.
Somos todos malucos aqui foi o que o Gato de Cheshire dissera a Alice. Depois, sumira. Isto é, a não ser pelo sorriso. Pelo que me lembro, o sorriso ficou mais um pouco.
Agora eu entendia melhor. Não tudo, duvido que até os Homens dos Cartões entendessem tudo (e depois de passarem algum tempo no serviço, não entendiam quase nada), mas isso ainda não me ajudava na decisão que tinha de tomar.
Quando passei debaixo da corrente, algo explodiu a distância. Não me assustou. Imaginei que houvesse muitas explosões agora. Quando todos começam a perder a esperança, tem de haver explosões.
Entrei no banheiro nos fundos da loja de conveniência e quase tropecei no meu casaco de pelo de ovelha. Chutei-o de lado — não precisaria dele aonde ia — e andei devagar até a pilha de caixas que tanto se parecia com o ninho de Lee. Maldita harmonia.
Removi o suficiente delas para chegar ao canto e depois as empilhei com cuidado atrás de mim. Avancei passinho a passinho, pensando mais uma vez no jeito como a gente se sente no alto de uma escada na total escuridão. Mas dessa vez não havia degrau, só aquela duplicação esquisita. Avancei, observei a parte inferior do meu corpo cintilar e fechei os olhos.
Mais um passo. E outro. Agora eu sentia calor nas pernas. Mais dois passos e a luz do sol transformou em vermelho o preto atrás das pálpebras. Dei mais um passo e ouvi o pop dentro da cabeça. Quando ele passou, escutei o chont-HUUCH, chont-HUUCH dos teares.
Abri os olhos. O fedor do banheiro sujo e abandonado fora substituído pelo fedor de uma fábrica de tecidos funcionando a todo vapor num ano em que a Agência de Proteção Ambiental não existia. Havia cimento rachado sob os pés em vez de linóleo descascado. À minha esquerda, estavam os grandes latões de metal cheios de restos de tecido e cobertos de aniagem. À direita, o barracão de secagem. Eram onze horas e cinquenta e oito minutos da manhã de 9 de setembro de 1958. Harry Dunning era de novo um menininho. Carolyn Poulin estava no quinto ano da LHS, talvez escutando o professor, talvez devaneando sobre algum menino ou sobre a caçada com o pai dali a alguns meses. Sadie Dunhill, ainda não casada com o Sr. Quem Tem Vassoura Tem Tudo, morava na Geórgia. Lee Harvey Oswald estava no mar da China Meridional com a sua unidade dos fuzileiros. E John F. Kennedy era o jovem senador de Massachusetts, tendo sonhos presidenciais.
Eu estava de volta.
6
Andei até a corrente e passei debaixo dela. Do outro lado, fiquei absolutamente imóvel um instante, ensaiando o que faria. Então andei até o fim do barracão de secagem. Depois do canto, encostado à parede, estava o Homem do Cartão Verde. Só que o cartão de Zack Lang não era mais verde. Virara um tom lamacento de ocre, a meio caminho entre verde e amarelo. O sobretudo fora de estação estava empoeirado e o fedora antes elegante tinha um ar surrado, derrotado, até. As bochechas, antes bem-barbeadas, estavam agora por fazer... e alguns pelos eram brancos. Os olhos estavam injetados. Ele ainda não tinha bebido — pelo menos não consegui sentir o cheiro —, mas achei que logo beberia. Afinal de contas, a fachada verde ficava dentro do seu pequeno círculo de operação, e segurar na cabeça todas aquelas cordas do tempo tinha de doer. Passados múltiplos já era bastante ruim, mas somar múltiplos futuros? Qualquer um recorreria à bebida se houvesse bebida disponível.
Eu passara uma hora em 2011. Talvez um pouco mais. Quanto tempo fora para ele? Eu não sabia. Eu não queria saber.
— Graças a Deus — disse ele... como dissera antes. Mas, quando mais uma vez estendeu as mãos para pegar a minha, recuei. As unhas dele estavam compridas e pretas de sujeira. Os dedos tremiam. Eram as mãos, o casaco, o chapéu e o cartão na faixa do chapéu, de um bebum-em-formação.
— Sabe o que tem de fazer — disse ele.
— Sei o que você quer que eu faça.
— Querer não tem nada a ver com isso. Você tem de voltar mais uma vez. Se tudo correr bem, sairá na lanchonete. Logo ela será demolida e, quando isso acontecer, a bolha que provocou toda essa loucura explodirá. É um milagre ter durado tanto tempo. Você tem de fechar o círculo.
Ele estendeu as mãos para mim de novo. Dessa vez, fiz mais do que recuar; me virei e corri para o estacionamento. Ele correu atrás de mim. Por causa do meu joelho ruim, foi mais difícil do que poderia ter sido. Dava para escutá-lo logo atrás de mim quando passei pelo Plymouth Fury que era a reprodução do carro que eu vira e desdenhara certa noite no pátio dos Bangalôs Candlewood. Então cheguei ao cruzamento da Principal com a Estrada Velha de Lewiston. Do outro lado, o eterno roqueiro rebelde estava com uma bota apoiada na lateral da Fruit.
Corri pelos trilhos, com medo de que a minha perna ruim me traísse no cascalho, mas foi Lang quem tropeçou e caiu. Eu o escutei gritar — um grasnido desesperado e solitário — e senti por ele um instante de pena. Serviço duro, o dele. Mas não deixei que a pena me desacelerasse. Os imperativos do amor são cruéis.
O ônibus Lewiston Express estava chegando. Dei uma guinada pelo cruzamento e o motorista de ônibus buzinou para mim. Pensei noutro ônibus, lotado de gente que ia ver o presidente. E a senhora do presidente, é claro, aquela com o tailleur rosa. Rosas postas entre eles no banco. Não amarelas, vermelhas.
— Jimla, volte!
Estava certo. Afinal de contas, eu era o Jimla, o monstro do pesadelo de Rosette Templeton. Passei mancando pela Kennebec Fruit, agora bem à frente do Homem do Cartão Ocre. Essa era uma corrida que eu venceria. Eu era Jake Epping, professor de escola secundária; eu era George Amberson, candidato a romancista; eu era o Jimla, que punha o mundo inteiro em perigo a cada passo que dava.
Mesmo assim, continuei correndo.
Pensei em Sadie, alta, fresca, linda, e continuei correndo. Sadie, que tinha propensão a acidentes e tropeçaria num homem mau chamado John Clayton. Nele, machucaria mais do que as canelas. O mundo bem perdido para o amor — foi Dryden ou Pope?
Parei junto ao posto Chevron do Titus, ofegante. Do outro lado da rua, o beatnik proprietário do Alegre Elefante Branco fumava o seu cachimbo e me observava. O Homem do Cartão Ocre parou na entrada do beco atrás da Kennebec Fruit. Aparentemente, era o máximo aonde podia ir naquela direção.
Ele estendeu as mãos para mim, o que era ruim. Depois, caiu de joelhos e cruzou as mãos diante do corpo, o que era muito pior.
— Por favor, não faça isso! Você já sabe o custo!
Eu sabia e ainda assim continuei correndo. Havia uma cabine telefônica na esquina, logo depois da igreja de São José. Fechei-me lá dentro, consultei o catálogo, pus uma moedinha.
Quando o táxi veio, o motorista fumava Luckies e o rádio estava sintonizado na WJAB.
A história se repete.