Novembro de 63
Sexta Parte - O Homem do Cartão Verde
SEXTA PARTE
O HOMEM DO CARTÃO VERDE
CAPÍTULO 29
1
Não fui exatamente preso, mas me detiveram e me levaram para a delegacia de polícia de Dallas numa radiopatrulha. No último quarteirão do caminho, houve quem batesse nas janelas — alguns deles repórteres, a maioria cidadãos comuns — e espiasse lá dentro. De um jeito clínico e distante, me perguntei se talvez seria arrastado do carro e linchado por tentar assassinar o presidente. Não importava. O que mais me preocupava era a camisa manchada de sangue. Queria tirá-la; também queria usá-la para sempre. Era sangue de Sadie.
Nenhum dos policiais do banco da frente me fez perguntas. Acho que alguém mandou que não fizessem. Se tivessem perguntado, eu não responderia. Estava pensando. Conseguia porque a frieza se insinuava de novo sobre mim. Vesti-a como uma armadura. Eu podia consertar isso. Eu consertaria isso. Mas antes precisava de algumas conversas.
2
Puseram-me numa sala branca como gelo. Havia uma mesa e três cadeiras. Sentei-me numa delas. Do lado de fora, telefones tocavam e um telex matraqueava. Gente andava de um lado para o outro falando alto, às vezes gritando, às vezes rindo. O riso tinha um tom histérico. Era como os homens riem quando sabem que escaparam por pouco. Se desviaram da bala, por assim dizer. Talvez Edwin Walker tivesse rido assim na noite de 10 de abril, enquanto falava com repórteres e tirava cacos de vidro do cabelo.
Os mesmos dois policiais que me levaram do Book Depository me revistaram e pegaram as minhas coisas. Perguntei se podia ficar com os dois últimos saquinhos de Goody’s. Os dois policiais conferenciaram, depois os abriram e os despejaram na mesa, gravada com iniciais e marcada por queimaduras de cigarro. Um deles umedeceu o dedo, provou o pó e fez que sim.
— Quer água?
— Não. — Recolhi o pó na palma da mão e o despejei na boca. Era amargo. Por mim, tudo bem.
Um dos policiais saiu. O outro pediu a minha camisa ensanguentada, que tirei com relutância e entreguei. Então apontei para ele.
— Sei que é uma prova, mas trate-a com respeito. O sangue que está nela saiu da mulher que eu amava. Pode não ser muita coisa para você, mas também é da mulher que ajudou a impedir o assassinato do presidente Kennedy, e isso deveria ser.
— Só queremos descobrir o tipo sanguíneo.
— Ótimo. Mas ponha na minha lista de pertences pessoais. Quero ela de volta.
— Claro.
O policial que saíra voltou com uma camiseta branca lisa. Parecia a que Oswald usava — ou teria usado — na foto oficial tirada pouco depois da sua prisão no Texas Theatre.
3
Cheguei à pequena salinha de interrogatório à uma e vinte. Cerca de uma hora depois (não sei dizer exatamente porque não havia relógio e o meu Timex novo fora tirado com o resto dos meus pertences pessoais), os mesmos dois uniformes me trouxeram companhia. Um velho conhecido, na verdade: o dr. Malcolm Perry, carregando uma grande maleta preta de médico do interior. Olhei-o com leve espanto. Estava ali na delegacia me visitando porque não tinha de estar no Parkland Hospital, retirando pedacinhos de bala e estilhaços de osso do cérebro de John Kennedy. O rio da História já entrava num novo curso.
— Olá, dr. Perry.
Ele cumprimentou com a cabeça.
— Sr. Amberson.
A última vez que me vira, me chamara de George. Se eu tivesse alguma dúvida de que era suspeito, isso a confirmaria. Mas não. Já passara por isso e sabia o que aconteceria. Bonnie Ray Williams já lhes teria contado o suficiente.
— Entendo que voltou a machucar o joelho.
— Infelizmente, sim.
— Vamos dar uma olhada.
Ele tentou puxar para cima a perna esquerda da calça e não conseguiu. A articulação estava inchada demais. Quando pegou uma tesoura, ambos os policiais deram um passo à frente e puxaram a arma, mantendo-a apontada para o chão com o dedo fora da proteção do gatilho. O dr. Perry os olhou com leve espanto e depois cortou a perna da minha calça pela costura. Olhou, tocou, pegou uma seringa hipodérmica e tirou fluido. Trinquei os dentes e esperei que acabasse. Depois ele remexeu na bolsa, tirou uma atadura elástica e enrolou o joelho bem apertado. Isso deu algum alívio.
— Posso lhe dar algo para a dor, se esses policiais não fizerem objeção.
Não fizeram, mas eu fiz. A hora mais importante da minha vida — e da de Sadie — estava bem à frente. Não queria remédios nublando o meu cérebro quando ela chegasse.
— Tem Goody’s Headache Powder?
Perry franziu o nariz como se sentisse mau cheiro.
— Tenho aspirina Bayer e Emprin. Emprin é um pouco mais forte.
— Então quero esse. E, dr. Perry...
Ele ergueu os olhos da maleta.
— Sadie e eu não fizemos nada errado. Ela deu a vida pelo seu país... e eu daria a minha por ela. Só que não tive a chance.
— Se assim for, permita-me primeiro lhe agradecer. Em nome do país inteiro.
— O presidente, onde ele está agora? O senhor sabe?
O dr. Perry olhou os policiais, as sobrancelhas erguidas numa pergunta. Eles se entreolharam e um deles disse:
— Foi para Austin discursar num jantar, como estava marcado. Não sei se é louco de coragem ou simplesmente estúpido.
Talvez, pensei, o Air Force One caia e mate Kennedy e todos a bordo. Talvez ele tenha um enfarte ou um derrame fatal. Talvez algum outro vilão de titica exploda a sua bela cabeça. O passado obstinado trabalharia contra o que fora mudado como trabalhava contra o agente da mudança? Eu não sabia. Nem dava muita importância. Eu fizera a minha parte. O que aconteceria com Kennedy a partir desse momento estava fora das minhas mãos.
— Ouvi no rádio que Jackie não está com ele — disse Perry baixinho. — Ele a mandou na frente para o rancho do vice-presidente em Johnson City. Vai se encontrar com ela lá para passar o fim de semana, como planejado. Se o que diz é verdade, George...
— Acho que basta, doutor — disse um dos policiais. Sem dúvida bastava para mim; para Mal Perry, eu voltara a ser George.
O dr. Perry, que tinha o seu quinhão de arrogância médica, o ignorou.
— Se o que diz é verdade, vejo uma viagem a Washington no seu futuro. E, muito provavelmente, uma cerimônia de entrega de medalhas no Rose Garden.
Depois que ele saiu, fiquei sozinho de novo. Só que nem tanto; Sadie também estava lá. Como dançamos, dissera ela pouco antes de partir deste mundo. Eu podia fechar os olhos e vê-la na fila com as outras garotas, sacudindo os ombros e fazendo o Madison. Nessa lembrança ela sorria, o cabelo voava e o rosto estava perfeito. As técnicas cirúrgicas de 2011 poderiam ajudar muito a consertar o que John Clayton fizera com aquele rosto, mas achei que eu tinha uma técnica ainda melhor. Quer dizer, se tivesse a oportunidade de usá-la.
4
Deixaram que eu ficasse de molho no meu próprio caldo doloroso durante duas horas antes que a porta da sala de interrogatório voltasse a se abrir. Dois homens entraram. O que tinha cara de bassê debaixo de um chapéu Stetson branco se apresentou como capitão Will Fritz da polícia de Dallas. Trazia uma pasta — mas não a minha pasta, então tudo bem.
O outro sujeito tinha maxilares pesados, compleição de bebedor e cabelo curto e escuro que brilhava de tônico capilar. Os olhos eram argutos, inquisitivos e um pouco preocupados. Do bolso interno do paletó do terno, tirou uma carteira de identidade e a abriu.
— James Hosty, sr. Amberson. Federal Bureau of Investigation.
Você tem boas razões para estar preocupado , pensei. Estava encarregado de vigiar Lee, não estava, agente Hosty?
— Gostaria de lhe fazer algumas perguntas, sr. Amberson — disse Will Fritz.
— É — respondi. — E eu gostaria de sair daqui. Quem salva o presidente dos Estados Unidos não costuma ser tratado como criminoso.
— Vamos, vamos — disse o agente Hosty. — Mandamos vir o médico, não mandamos? E não um médico qualquer; o seu médico.
— Façam as suas perguntas — disse eu.
E se preparem para dançar.
5
Fritz abriu a pasta e tirou um saco plástico com uma etiqueta de prova colada. Lá dentro estava o meu 38.
— Encontramos isso caído junto à barricada de caixas montada por Oswald, sr. Amberson. Acha que era dele?
— Não, esse é um Police Special. É meu. Lee tinha um 38, mas era um modelo Victory. Se não estava no corpo dele, provavelmente o senhor o encontrará onde quer que estivesse morando.
Fritz e Hosty se entreolharam, surpresos, e voltaram a me olhar.
— Então admite que conhecia Oswald — disse Fritz.
— Conhecia, mas não muito bem. Não sabia onde estava morando, senão teria ido lá.
— Acontece — disse Hosty — que ele alugou um quarto na rua Beckley. Registrou-se com o nome O. H. Lee. Parece que tinha outra alcunha também. Alek Hidell. Ele a usava para receber correspondência.
— A mulher e as filhas não estavam com ele? — perguntei.
Hosty sorriu. Isso espalhou os maxilares cerca de quinhentos metros para cada lado.
— Quem está fazendo perguntas aqui, sr. Amberson?
— Nós dois — respondi. — Arrisquei a vida para salvar o presidente e a minha noiva perdeu a dela, por isso acho que tenho o direito de fazer perguntas.
Então esperei para ver até que ponto endureceriam. Se endurecessem de verdade, acreditavam mesmo que eu estava envolvido. Caso contrário, não, mas queriam ter certeza. Acabou sendo algo no meio.
Fritz usou um dedo rombudo para girar o saco com a arma dentro.
— Vou lhe dizer o que pode ter acontecido, sr. Amberson. Não digo que aconteceu, mas o senhor terá de nos convencer do contrário.
— Hã-hã. Já ligou para os pais de Sadie? Eles moram em Savannah. O senhor também deveria ligar para Deacon Simmons e Ellen Dockerty, em Jodie. Eram como pais substitutos para ela. — Pensei melhor. — Para nós dois, na verdade. Eu ia pedir a Deke que fosse meu padrinho de casamento.
Fritz não deu atenção a isso.
— O que pode ter acontecido é que você e a sua namorada estavam nisso junto com Oswald. E talvez no final tenham se acovardado.
A popularíssima teoria da conspiração. Todo lar deveria ter uma delas.
— Talvez tenham percebido no último instante que se preparavam para atirar no homem mais poderoso do mundo inteiro — disse Hosty. — Tiveram um instante de clareza. Aí, vocês o detiveram. Se assim foi, você terá bastante clemência.
É. Clemência que consistiria em quarenta, talvez até cinquenta anos na penitenciária de Leavenworth comendo cheeseburger em vez da morte numa cadeira elétrica do Texas.
— Então por que não estávamos lá com ele, agente Hosty? Em vez de surrar a porta para nos deixarem entrar?
Hosty deu de ombros. Explique você.
— E se estávamos tramando um assassinato, você deve ter me visto com ele. Por que sei que estava com ele sob vigilância pelo menos parcial. — Me inclinei para a frente. — Por que você não o impediu, Hosty? Esse serviço era seu.
Ele recuou como se eu tivesse erguido o punho para ele. Os maxilares se avermelharam.
Pelo menos por alguns instantes, o meu pesar enrijeceu num tipo de prazer malvado.
— O FBI estava de olho nele porque desertou para a Rússia, voltou a desertar para os Estados Unidos e depois tentou desertar para Cuba. Ele passou meses distribuindo panfletos pró-Fidel nas esquinas antes desse espetáculo de horror de hoje.
— Como sabe de tudo isso? — rugiu Hosty.
— Porque ele me contou. E aí, o que acontece? O presidente que tentou tudo que conseguiu imaginar para derrubar Castro do seu poleiro vem a Dallas. Como trabalhava no Book Depository, Lee tinha um lugar privilegiado para ver o desfile. Você sabia disso e não fez nada.
Fritz fitava Hosty com algo parecido com horror. Tenho certeza de que Hosty se arrependia do fato de o policial de Dallas estar na sala, mas o que poderia fazer? Era a delegacia de Fritz.
— Não o consideramos uma ameaça — disse Hosty rigidamente.
— Bom, esse claramente foi um erro. O que estava no bilhete que ele lhe deu, Hosty? Sei que Lee foi à sua sala e lhe deixou um bilhete quando disseram que você não estava, mas ele não quis me contar o que escreveu. Ele só deu aquele seu sorrisinho de foda-se. Estamos conversando sobre o homem que matou a mulher que eu amava e acho que mereço saber. Ele disse que faria alguma coisa que levaria o mundo a se levantar e prestar atenção? Aposto que sim.
— Não foi nada disso!
— Ora, então me mostre o bilhete. Agora é minha vez de desafiar.
— Toda comunicação com o sr. Oswald é assunto do Bureau.
— Acho que você não pode mostrar. Aposto como já virou cinza no vaso sanitário da sua sala, por ordem do sr. Hoover.
Se ainda não virara, viraria. Isso estava nas anotações de Al.
— Se você é tão inocente assim — disse Fritz —, conte como conheceu Oswald e por que estava armado.
— E por que a dama tinha uma faca de açougueiro coberta de sangue — acrescentou Hosty.
Isso me enfureceu.
— A dama tinha sangue em tudo! — berrei. — Na roupa, nos sapatos, na bolsa! O filho da puta lhe deu um tiro no peito, será que não notou?
Fritz:
— Acalme-se, sr. Amberson. Ninguém está acusando o senhor de nada. — Subtexto: Ainda.
Inspirei fundo.
— Conversaram com o dr. Perry? Vocês o mandaram me examinar e cuidar do meu joelho, logo devem ter conversado. O que significa que sabem que levei uma surra e quase morri em agosto passado. O homem que ordenou a surra e participou dela é um corretor de apostas chamado Akiva Roth. Acho que ele não queria me ferir tanto quanto feriu, mas é provável que eu tenha sido impertinente e ele tenha se irritado. Não me lembro. Tem muita coisa que não consigo lembrar desde aquele dia.
— Por que não foi à polícia depois que isso aconteceu?
— Porque eu estava em coma, detetive Fritz. Quando saí do coma, não me lembrava. Quando me lembrei — pelo menos de uma parte — recordei que Roth disse que estava ligado a um corretor de Tampa com quem eu fizera negócios e com um mafioso de Nova Orleans chamado Carlos Marcello. Isso fez com que parecesse arriscado procurar a polícia.
— Está dizendo que o Departamento de Polícia de Dallas é corrupto?
Eu não sabia se a raiva de Fritz era real ou fingida e não dava a mínima.
— Estou dizendo que assisto a Os intocáveis e sei que a Máfia não gosta de covardes. Comprei uma arma para a minha proteção pessoal, como é direito meu de acordo com a Segunda Emenda da Constituição, e passei a levar ela comigo. — Apontei o saquinho de provas. — Essa arma.
Hosty:
— Onde a comprou?
— Não me lembro.
Fritz:
— A sua amnésia é muito conveniente, não é? Como coisa de novela, The Secret Storm ou As the World Turns.
— Falem com Perry — repeti. — E deem outra olhada no meu joelho. A lesão voltou porque subi correndo seis lances de escada para salvar a vida do presidente. E isso direi à imprensa. E também direi que a minha recompensa por cumprir o meu dever de cidadão americano foi um interrogatório numa salinha quente sem sequer um copo d’água.
— Quer água? — perguntou Fritz, e compreendi que tudo poderia dar certo se eu não desse nenhum passo errado. O presidente escapara por um triz do assassinato. Esses dois homens, sem falar de Jesse Curry, o chefe de polícia de Dallas, sofreriam uma enorme pressão para apresentar um herói. Como Sadie estava morta, era eu que tinham.
— Não — respondi —, mas uma Coca-Cola seria bem legal.
6
Enquanto esperava pela minha Coca, pensei em Sadie dizendo Estamos deixando uma pista com um quilômetro de largura . Era verdade. Mas talvez eu conseguisse fazer isso funcionar a meu favor. Quer dizer, se um certo motorista de reboque de um certo posto Esso de Fort Worth tivesse feito o que o bilhete no limpador de para-brisa do Chevrolet pedira.
Fritz acendeu um cigarro e jogou o maço para mim. Fiz que não e ele o pegou de volta.
— Conte como o conheceu — disse ele.
Eu disse que conhecera Lee na rua Mercedes e que tínhamos desenvolvido boas relações. Eu escutava os seus discursos sobre os males dos Estados Unidos fascistas e imperialistas e sobre o maravilhoso Estado socialista que surgiria em Cuba. Ele dizia que Cuba era o ideal. A Rússia fora dominada por burocratas sem valor, e por isso fora embora de lá. Em Cuba havia o Tio Fidel. Lee não veio me dizer que o Tio Fidel podia andar sobre as águas, mas insinuou.
— Achava que era maluco, mas gostava da família dele. — Isso era verdade. Eu gostava da família dele e achava que era maluco.
— Para começar, como um educador profissional como o senhor foi morar no lixo daquela área de Fort Worth? — perguntou Fritz.
— Eu tentava escrever um romance. Descobri que não conseguiria se continuasse a dar aulas na escola. A rua Mercedes era um depósito de lixo, mas era barata. Achei que o livro levaria pelo menos um ano, e isso significava que eu teria de esticar a minha poupança. Quando ficava deprimido com a vizinhança, tentava fingir que morava num sótão da Rive Gauche.
Fritz:
— A poupança incluía dinheiro ganho em apostas com corretores?
Eu:
— Nessa vou citar a Quinta Emenda.
Com isso, Will Fritz realmente riu.
Hosty:
— Então conheceu Oswald e ficou amigo dele.
— Relativamente amigo. A gente não vira amigo íntimo de malucos. Pelo menos, não eu.
— Continue.
Lee e a família se mudaram; eu fiquei. Então, um dia, do nada, recebi um telefonema dele para dizer que ele e Marina estavam morando na rua Elsbeth, em Dallas. Que era um bairro melhor e que o aluguel era barato e abundante. Eu disse a Fritz e Hosty que nessa época já me cansara da rua Mercedes e fui a Dallas, almocei com Lee no balcão da Woolworth’s e depois dei uma volta pelo bairro. Aluguei o apartamento térreo da rua West Neely, 214, e quando o apartamento do andar de cima vagou, contei a Lee. Meio que devolvendo o favor.
— A mulher dele não gostava de morar na Elsbeth — disse eu. — O prédio da rua West Neely ficava pertinho da esquina e era muito melhor. E eles se mudaram.
Eu não fazia ideia da atenção com que confeririam a história, da correção da cronologia nem do que Marina lhes contaria, mas nada disso tinha importância para mim. Eu só precisava de tempo. Uma história que fosse apenas meio plausível podia servir, principalmente porque o agente Hosty tinha boas razões para me tratar com luvas de pelica. Se eu contasse o que sabia sobre a sua relação com Oswald, ele poderia passar o resto da carreira congelando a bunda lá em Fargo.
— Então aconteceu uma coisa que deixou as minhas orelhas em pé. Foi em abril passado. Bem perto da Páscoa. Eu estava sentado à mesa da cozinha trabalhando no meu livro quando um carro bacana, um Cadillac, acho, parou e duas pessoas desceram. Um homem e uma mulher. Bem-vestidos. Tinham um boneco de pelúcia para Junie. Ela é...
Fritz:
— Sabemos quem é June Oswald.
— Eles subiram a escada, e escutei o sujeito — tinha um sotaque meio alemão e um vozeirão retumbante —, escutei ele dizer Lee, como é que você errou?
Hosty se inclinou para a frente, os olhos o mais arregalados que podiam ficar naquele rosto carnudo.
— O quê?
— Você me escutou. Aí dei uma olhada no jornal, e adivinhe só? Alguém dera um tiro num general reformado quatro ou cinco dias antes. Um direitista dos grandes. Bem o tipo de sujeito que Lee odiava.
— O que você fez?
— Nada. Sabia que ele tinha uma pistola, ele me mostrou um dia, mas o jornal dizia que o sujeito que atirara em Walker usara um fuzil. Além disso, na época quase toda a minha atenção estava voltada para a minha namorada. Você perguntou por que ela levava uma faca na bolsa. A resposta é simples: vivia apavorada. Também foi atacada, só que não pelo sr. Roth. Foi o ex-marido. Ele lhe desfigurou muito a beleza.
— Vimos a cicatriz — disse Hosty —, e sentimos muito pela sua perda, Amberson.
— Obrigado. — Não parece que sente o bastante, pensei. — A faca que ela levava era a mesma que o ex... o nome dele era John Clayton... usou nela. Ela a levava para todo lado. — Pensei nela dizendo: Só por prevenção. Pensei nela dizendo: É um baita caso desses.
Cobri o rosto com as mãos um minuto. Eles esperaram. Deixei-as cair no colo e continuei numa voz sem entonação, como a do personagem Joe Friday. Somente os fatos, madame.
— Mantive o apartamento na West Neely, mas passei quase todo o verão em Jodie, cuidando de Sadie. Praticamente desisti da ideia do livro, estava pensando a voltar a trabalhar na Denholm Consolidated. Então dei com Akiva Roth e os seus capangas. Acabei eu mesmo no hospital. Quando me deixaram sair, fui para um centro de reabilitação chamado Eden Fallows.
— Conheço — disse Fritz. — Uma mistura de moradia e hospital.
— Isso, e Sadie era a minha assistente-chefe. Cuidei dela depois que o marido a cortou; ela cuidou de mim depois que Roth e os colegas me surraram. A coisa funciona assim. Há... não sei... um tipo de harmonia.
— Tudo acontece por uma razão — disse Hosty solenemente e, por um momento, tive vontade de me jogar por sobre a mesa e dar um soco no rosto corado e carnudo dele. Mas não porque estivesse errado. Na minha humilde opinião, tudo realmente acontece por alguma razão, mas gostamos da razão? Raramente.
— Quase no final de outubro, o dr. Perry me deu permissão de dirigir um pouco. — Essa era uma mentira deslavada, mas talvez demorassem para conferir com Perry... e se investissem em mim como o autêntico Herói Americano, talvez nem conferissem. — Fui para Dallas na terça-feira desta semana para visitar o prédio de apartamentos da West Neely. Quase por capricho. Queria ver se o lugar traria de volta mais alguma lembrança.
Eu fora mesmo à West Neely, mas para pegar a arma debaixo da varanda.
— Depois, decidi almoçar no Woolworth’s, como nos velhos tempos. E quem vejo no balcão? Lee, comendo um sanduíche de pão de centeio com atum. Sentei-me e lhe perguntei como ia a vida, e foi então que ele me contou que o FBI andava importunando ele e a esposa. Ele disse: “Vou ensinar esses canalhas a não foderem comigo, George. Se estiver assistindo à TV na tarde de sexta, talvez você veja alguma coisa.”
— Caramba — exclamou Fritz. — Você ligou isso à visita do presidente?
— Não naquela hora. Nunca acompanhei os movimentos de Kennedy tão de perto assim; sou republicano. — Duas mentiras pelo preço de uma. — Além disso, Lee logo passou para o seu assunto favorito.
Hosty:
— Cuba.
— Isso. Cuba e viva Fidel. Ele nem perguntou por que eu estava mancando. Estava totalmente envolvido com as coisas dele, entende? Mas Lee era assim mesmo. Comprei um pudim de leite para ele — cara, o do Woolworth’s é bom, e só custa 25 centavos — e lhe perguntei onde estava trabalhando. Ele disse que no Book Depository, na rua Elm. Disse isso com um grande sorriso, como se descarregar caminhões e levar caixas de um lado para o outro fosse a melhor coisa do mundo.
Continuei dizendo que não ligara muito para o que ele falava porque a minha perna doía e começava a sentir uma das minhas dores de cabeça. Voltei para casa em Eden Fallows e tirei um cochilo. Mas, quando acordei, aquela coisa de como-você-errou do tal alemão me veio à cabeça. Liguei a TV e estavam falando sobre a visita do presidente. Disse que foi aí que comecei a me preocupar. Revirei a pilha de jornais na sala, achei a rota da carreata e vi que passava bem na frente do Book Depository.
— Fiquei cozinhando isso durante a quarta-feira toda. — Agora eles estavam inclinados sobre a mesa, bebendo cada palavra. Hosty fazia anotações sem olhar o bloco. Fiquei me perguntando se ele conseguiria ler aquilo depois. — Eu me dizia: Ele podia estar falando sério. Depois dizia: Não, Lee é muito trovão pra pouca chuva. Ia e vinha desse jeito. Ontem de manhã liguei para Sadie, contei a ela a história toda e lhe perguntei o que achava. Ela ligou para Deke — Deke Simmons, o homem que era o seu pai substituto — e me ligou de volta. Disse que eu devia avisar à polícia.
— Não quero aumentar a sua dor, filho, mas se tivesse feito isso a sua namorada ainda estaria viva — disse Fritz.
— Espere. Você ainda não ouviu a história toda. — Nem eu, é claro; estava inventando bons pedaços enquanto contava. — Disse a ela e Deke que nada de polícia, porque se fosse inocente Lee ficaria encalacrado. É preciso entender que o sujeito mal se aguentava. A rua Mercedes era um depósito de lixo e a West Neely era só um pouco melhor, mas para mim, tudo bem — sou solteiro e tinha o meu livro para trabalhar. E mais algum dinheiro no banco. Mas Lee... ele tinha uma esposa bonita e duas filhas, a segunda recém-nascida, e mal conseguia pagar um teto para elas. Não era mau sujeito...
Nisso, tive vontade de verificar o meu nariz para ver se não estava crescendo.
— ... mas era um fodido classe A, desculpem a boca suja. Com as suas ideias malucas, era difícil parar num emprego. Ele dizia que, quando arranjava algum, o FBI ia lá e atrapalhava tudo. Disse que foi assim no emprego da gráfica.
— Isso é bobagem — disse Hosty. — O rapaz culpava todo mundo pelos problemas que ele mesmo criava. Mas concordamos em algumas coisas, Amberson. Ele era um fodido classe A, e eu tinha muita pena da mulher e das filhas. Muita pena mesmo.
— É? Que bom. Ainda assim, ele tinha emprego e eu não queria ser a causa da sua perda se só estivesse contando vantagem... que era coisa em que ele se especializara. Disse a Sadie que iria até o Book Depository amanhã — hoje, quer dizer — só para verificar. Ela disse que iria comigo. Eu disse que não, se Lee tivesse mesmo enlouquecido e fosse realmente fazer alguma coisa, ela correria perigo.
— Ele parecia ter enlouquecido quando almoçou com ele? — perguntou Fritz.
— Não, frio como um pepino, mas ele era sempre assim. — Inclinei-me na direção dele. — Quero que escute essa parte com muita atenção, detetive Fritz. Eu sabia que ela pretendia ir comigo, não importava o que eu dissesse. Deu para ouvir isso na voz dela. Então saí correndo dali o mais depressa possível. Fiz isso para proteger Sadie. Só por prevenção.
É um baita caso desses, sussurrou a Sadie na minha cabeça. Ela viveria lá até que eu voltasse a vê-la em carne e osso. Jurei que voltaria de qualquer jeito.
— Pensei em dormir num hotel, mas estavam todos lotados. Então me lembrei da rua Mercedes. Eu entregara a chave do número 2.706, onde morara, mas ainda tinha a chave do 2.703, do outro lado da rua, onde Lee tinha morado. Ele me deu para eu entrar e regar as plantas.
Hosty:
— Ele tinha plantas?
A minha atenção ainda estava fixa em Will Fritz.
— Sadie se alarmou quando descobriu que eu fora embora de Eden Fallows. Deke também. Então ele ligou para a polícia. Não uma vez só, várias vezes. Em todas elas, o policial que atendeu lhe disse que parasse de bobagens e desligou. Não sei se alguém se deu ao trabalho de registrar esses telefonemas, mas Deke lhe contará, e ele não tem razão para mentir.
Agora era Fritz que corava.
— Se você soubesse quantas ameaças de morte recebemos...
— Tenho certeza. E de muitos homens. Só não venha me dizer que, se tivéssemos chamado a polícia, Sadie ainda estaria viva. Não venha me dizer isso, certo?
Ele não disse nada.
— Como ela o encontrou? — perguntou Hosty.
Sobre isso eu não tinha de mentir, e não menti. Mas em seguida perguntariam sobre a ida da rua Mercedes em Fort Worth até o Book Depository em Dallas. Essa era a parte da minha história mais cheia de perigos. Não estava preocupado com o caubói do Studebaker; Sadie o cortara, mas só depois que ele tentara lhe roubar a bolsa. O carro estava nas últimas e eu tinha a sensação de que o caubói nem deve ter dado queixa de que fora roubado. É claro que tínhamos roubado mais um, mas dada a urgência da nossa missão, sem dúvida a polícia não correria atrás da questão. A imprensa a crucificaria se tentasse. O que me preocupava era o Chevrolet vermelho, aquele com rabos de peixe parecidos com sobrancelhas de mulher. O porta-malas com duas malas dentro podia ser explicado; já tínhamos passado fins de semana sujos nos Bangalôs Candlewood. Mas se dessem uma olhada no caderno de Al Templeton... Nem quis pensar nisso.
Houve uma batidinha de leve na porta da sala de interrogatório, e um dos policiais que me trouxera para a delegacia enfiou a cabeça lá dentro. Atrás do volante do carro-patrulha, e enquanto ele e o colega examinavam os meus pertences, parecera perigoso, o rosto de pedra, uma farda azul saída diretamente de um filme policial. Agora, inseguro e de olhos arregalados de empolgação, vi que não tinha mais de 23 anos e ainda convivia com um resto de acne adolescente. Atrás dele, pude ver um monte de gente, alguns de uniforme, outros não, espichando o pescoço para me olhar. Fritz e Hosty se viraram com impaciência para o intruso recém-chegado.
— Senhores, sinto muito interromper, mas é um telefonema para o sr. Amberson.
A cor voltou com toda a força ao papo de Hosty.
— Filho, estamos fazendo um interrogatório. Não me importa, nem que seja um telefonema do presidente dos Estados Unidos.
O policial engoliu em seco. O seu pomo de adão subiu e desceu como um macaco numa vara.
— Hã, senhores... é o presidente dos Estados Unidos.
Parecia que eles se importavam, afinal de contas.
7
Eles me levaram pelo corredor até a sala do chefe Curry. Fritz me segurava um dos braços e Hosty, o outro. Com os dois sustentando uns trinta quilos do meu peso, eu mal mancava. Havia repórteres, câmeras de TV e refletores imensos que deviam fazer a temperatura subir até uns 40 graus. Essas pessoas, um passo acima dos paparazzi, não tinham o que fazer numa delegacia depois de uma tentativa de homicídio, mas não fiquei surpreso. Noutra linha do tempo, tinham se amontoado depois da prisão de Oswald e ninguém os pusera para fora. Até onde eu sabia, ninguém sequer sugerira isso.
Hosty e Fritz, o rosto pétreo, forçaram caminho pelo amontoado. Lançaram-se perguntas a eles e a mim. Hosty berrou:
— O sr. Amberson fará uma declaração depois de ser minuciosamente interrogado pelas autoridades!
— Quando? — gritou alguém.
— Amanhã, depois de amanhã, talvez na semana que vem!
Houve gemidos. Fizeram Hosty sorrir.
— Talvez mês que vem. Agora ele está com o presidente Kennedy esperando na linha, portanto recuem!
Eles recuaram, tagarelando como gralhas.
O único aparelho para refrescar a sala do chefe Curry era um ventilador em cima da estante, mas o ar em movimento parecia uma bênção depois da sala de interrogatório e do micro-ondas da mídia no corredor. Havia um grande telefone preto sobre o mata-borrão. Ao lado, uma pasta com LEE H. OSWALD escrito em letras de imprensa na etiqueta. Era fina.
Peguei o telefone.
— Alô?
A voz anasalada da Nova Inglaterra que respondeu fez a minha coluna se arrepiar. Era um homem que agora estaria jazendo na mesa do necrotério, se não fôssemos eu e Sadie.
— Senhor Amberson? Aqui fala Jack Kennedy. Eu... hã... compreendo que eu e a minha esposa lhe devemos... hã... a nossa vida. Também compreendo que o senhor perdeu alguém de quem gostava muito. — Muito saiu muinto, do jeito que eu crescera ouvindo.
— Ela se chamava Sadie Dunhill, sr. presidente. Oswald lhe deu um tiro.
— Sinto muito pela... hã... sua perda, sr. Amberson. Posso chamá-lo... hã... de George?
— Como quiser. — Pensando: Essa conversa não está acontecendo. É um sonho.
— O seu país lhe dará uma grande manifestação de gratidão... e a você uma grande manifestação de condolências, tenho certeza. Permita que eu... hã... seja o primeiro a oferecer ambas.
— Obrigado, sr. presidente. — A minha garganta se fechava e mal consegui falar acima de um sussurro. Vi os olhos dela, tão brilhantes quando morria nos meus braços. Jake, como dançamos. Presidentes se preocupam com coisas assim? Será que sabem delas? Talvez os melhores saibam. Talvez por isso estejam lá.
— Há... hã... mais alguém que deseja lhe agradecer, George. A minha esposa não está aqui agora, mas ela... hã... pretende lhe telefonar hoje à noite.
— Sr. presidente, não sei direito onde estarei hoje à noite.
— Ela o encontrará. Ela é muito... hã... determinada quando quer agradecer a alguém. Agora me diga, George, como está você?
Eu lhe disse que estava bem, mas não estava. Ele prometeu me receber na Casa Branca em breve, e agradeci, mas achava que não haveria nenhuma visita à Casa Branca. Durante toda aquela conversa de sonho, enquanto o ventilador soprava o meu rosto suado e o vidro granitado da parte de cima da porta do chefe Curry brilhava com a luz sobrenatural dos refletores de TV lá fora, duas palavras pulsavam no meu cérebro.
Estou salvo. Estou salvo. Estou salvo.
O presidente dos Estados Unidos ligara de Austin para me agradecer por salvar a sua vida, e eu estava salvo. Podia fazer o que precisava fazer.
8
Cinco minutos depois de concluir a conversa surrealista com John Fitzgerald Kennedy, Hosty e Fritz me levaram às pressas pela escada dos fundos até a garagem onde Oswald teria levado um tiro de Jack Ruby. Então ela estivera lotada com a expectativa da transferência do assassino para a penitenciária do condado. Agora estava tão vazia que os nossos passos ecoavam. Os meus acompanhantes me levaram para o Adolphus Hotel e não me surpreendi ao me ver no mesmo quarto que ocupara quando chegara a Dallas. Tudo que vai, volta, dizem, e embora eu nunca fosse capaz de imaginar quem seriam os misteriosos sábios que tudo diziam, sem dúvida estavam certos no caso das viagens no tempo.
Fritz me disse que os policiais postados no corredor e lá embaixo no saguão eram estritamente para a minha própria proteção e para manter a imprensa a distância. (Hã-hã.) Depois, apertou a minha mão. O agente Hosty também apertou a minha mão, e quando o fez, senti um quadrado de papel dobrado passar da palma dele para a minha.
— Descanse um pouco — disse ele. — Você merece.
Quando se foram, desdobrei o quadradinho. Era uma folha do seu bloco de anotações. Ele escrevera três frases, provavelmente enquanto eu falava com Jack Kennedy.
O telefone está grampeado. Encontro você às nove da noite. Queime isso e jogue as cinzas no vaso sanitário.
Queimei o bilhete como Sadie queimara o meu, depois peguei o telefone e desenrosquei o bocal. Lá dentro, agarrado aos fios, havia um pequeno cilindro azul do tamanho de uma pilha AA. Achei divertido ver que o texto escrito nele estava em japonês — me fez pensar no meu velho amigo Silent Mike.
Soltei-o, guardei-o no bolso, rosqueei o bocal de volta e disquei 0. Houve uma pausa muito longa da telefonista depois que disse o meu nome. Estava prestes a desligar e tentar de novo quando ela começou a chorar e balbuciar agradecimentos por salvar o presidente. Se pudesse fazer alguma coisa, disse ela, se alguém no hotel pudesse fazer alguma coisa, eu só precisava ligar, o nome dela era Marie, ela faria qualquer coisa para me agradecer.
— Pois pode começar fazendo uma ligação para Jodie — disse eu, e lhe dei o número de Deke.
— Claro, sr. Amberson. Deus o abençoe, senhor. Vou fazer a ligação.
O telefone tocou duas vezes e Deke atendeu. A voz estava pesada e gutural, como se o resfriado tivesse piorado.
— Se for outro maldito repórter...
— Não é, Deke. Sou eu. George. — Fiz uma pausa. — Jake.
— Ah, Jake — disse ele, lamentoso, e depois começou a chorar. Esperei, segurando o fone com tanta força que a minha mão doeu. As minhas têmporas pulsavam. O dia morria, mas a luz que entrava pelas janelas ainda era clara demais. A distância, ouvi um ribombo de trovão. Finalmente, ele disse: — Você está bem?
— Estou. Mas Sadie...
— Eu sei. Está nos noticiários. Escutei enquanto ia para Fort Worth.
Então a mulher com o carrinho de bebê e o motorista do reboque do posto Esso tinham feito o que eu torcera para fazerem. Graças a Deus por isso. Não que parecesse muito importante enquanto eu ouvia esse velho de coração partido tentar controlar as lágrimas.
— Deke... acha que a culpa é minha? Entenderia se achar.
— Não — disse ele, finalmente. — Ellie também não. Quando Sadie se decidia por uma coisa, ia até o fim. E, Jake, se estava na rua Mercedes, em Fort Worth, fui eu quem lhe disse como encontrar você.
— Eu estava lá.
— O filho da puta atirou nela? No noticiário, foi o que disseram.
— Atirou. Ele queria atirar em mim, mas a minha perna ruim... Tropecei numa caixa ou coisa parecida e caí. Ela estava bem atrás de mim.
— Cristo. — A voz dele se fortaleceu um pouco. — Mas ela morreu fazendo o que era certo. É a isso que vou me agarrar. É a isso que você também tem de se agarrar.
— Sem ela, eu nunca teria chegado lá. Se você pudesse ter visto... como ela foi determinada... como foi corajosa...
— Cristo — repetiu ele. Saiu num suspiro. Ele parecia velho, velhíssimo. — Era tudo verdade. Tudo o que você disse. E tudo o que ela disse sobre você. Você é mesmo do futuro, não é?
Como fiquei contente de estar com o grampo no bolso. Duvidei que tivessem tempo de plantar outros grampos no quarto propriamente dito, mas ainda fechei as mãos junto ao bocal e baixei a voz.
— Nem uma palavra sobre isso à polícia nem aos repórteres.
— Bom Deus, não! — Ele pareceu indignado com a ideia. — Você nunca mais respiraria em liberdade!
— Você foi até lá pegar a nossa bagagem no porta-malas do Chevy? Mesmo depois...
— Pode apostar. Sabia que era importante, porque assim que ouvi a notícia soube que suspeitariam de você.
— Acho que vai dar tudo certo — disse eu —, mas você tem de abrir a minha pasta e... você tem incinerador?
— Tenho, atrás da garagem.
— Na pasta há um caderno azul. Ponha no incinerador e queime. Fará isso por mim? — E por Sadie. Ambos dependemos de você.
— Farei. Farei. Jake, sinto tanto pela sua perda.
— E eu pela sua. Sua e da srta. Ellie.
— Não é justo! — ele explodiu. — Não me importa que ele seja o presidente, não é justo!
— Não — disse eu. — Não é. Mas Deke... não era só o presidente. São todas as coisas ruins que aconteceriam se ele morresse.
— Acho que nisso terei de acreditar em você. Mas é difícil.
— Eu sei.
Fariam uma cerimônia em memória de Sadie na escola, como tinham feito pela srta. Mimi? É claro que fariam. As redes de TV mandariam equipes com câmeras e não haveria um único par de olhos secos nos Estados Unidos. Mas, quando o espetáculo acabasse, Sadie ainda estaria morta.
A menos que eu mudasse isso. Isso significaria passar por tudo outra vez, mas por Sadie eu o faria. Mesmo que ela me olhasse na festa onde a conheci e decidisse que eu era velho demais para ela (embora eu fosse fazer o possível para mudar a ideia dela a esse respeito). Havia até um lado bom: agora que eu sabia que Lee realmente fora o único atirador, não teria de esperar tanto para despachar o coitado.
— Jake? Ainda está aí?
— Estou. E lembre-se de me chamar de George quando falar sobre mim, tudo bem?
— Sem problemas. Posso estar velho, mas o meu cérebro ainda funciona bastante bem. Vou vê-lo de novo?
Não se o agente Hosty me disser o que quero ouvir, pensei.
— Se não nos vermos, é porque está tudo dando certo.
— Tudo bem. Jake... George... ela... ela disse alguma coisa no final?
Eu não ia lhe contar quais tinham sido as suas últimas palavras, isso era particular, mas podia lhe dar alguma coisa. Ele contaria a Ellie, que contaria a todos os amigos de Sadie em Jodie. Ela tivera muitos.
— Perguntou se o presidente estava salvo. Quando lhe disse que sim, ela fechou os olhos e se foi.
Deke começou a chorar de novo. O meu rosto pulsava. As lágrimas seriam um alívio, mas os meus olhos estavam secos como pedras.
— Adeus — disse eu. — Adeus, velho amigo.
Desliguei suavemente e fiquei sentado imóvel por um bom tempo, observando a luz do pôr do sol de Dallas cair vermelha pela janela. À noite céu vermelho, prazer de marinheiro , dizia o velho ditado... mas ouvi outro ribombo de trovão. Cinco minutos depois, quando consegui me controlar, peguei o telefone desgrampeado e liguei 0 mais uma vez. Disse a Marie que ia me deitar e pedi que me acordassem às oito. Também lhe pedi que pusesse um “não perturbe” no telefone até lá.
— Ah, isso já foi feito — disse ela, empolgada. — Nenhuma chamada encaminhada para o seu quarto, ordem do chefe de polícia. — A voz dela baixou um ponto. — Ele era maluco, sr. Amberson? Quer dizer, devia ser, mas parecia?
Lembrei-me dos olhos decepcionados e do esgar demoníaco.
— Ah, claro — disse eu. — Parecia, sim. Oito horas, Marie. Nada até lá.
Desliguei antes que ela dissesse alguma coisa. Então, descalcei os sapatos (livrar-me do esquerdo foi um processo lento e doloroso), me deitei e pus o braço sobre os olhos. Vi Sadie dançando o Madison. Vi Sadie me dizendo entre, gentil senhor, gosta de bolo quatro quartos? Vi-a nos meus braços, os brilhantes olhos moribundos erguidos para o meu rosto.
Pensei na toca de coelho e que toda vez que era usada havia um recomeço do zero.
Finalmente, dormi.
9
A batida de Hosty veio prontamente às nove. Abri a porta e ele entrou. Trazia uma pasta (mas não a minha pasta, então ainda estava tudo bem). Na outra havia uma garrafa de champanhe das boas, Moët et Chandon, com uma fita vermelha, azul e branca amarrada no gargalo. Parecia cansadíssimo.
— Amberson — disse ele.
— Hosty — respondi.
Ele fechou a porta e depois apontou o telefone. Tirei o grampo do bolso e o mostrei. Ele fez que sim.
— Não há outros? — perguntei.
— Não. Esse aí é do Departamento de Polícia de Dallas, e agora o caso é nosso. Ordens diretas de Hoover. Se alguém lhe perguntar sobre o grampo, você mesmo encontrou.
— Tudo bem.
Ele ergueu o champanhe.
— Com os cumprimentos da gerência. Insistiram que eu trouxesse. Gostaria de brindar ao presidente dos Estados Unidos?
Considerando que a minha linda Sadie agora jazia numa mesa do necrotério do condado, eu não tinha o mínimo interesse em brindar a nada. Eu conseguira e o sucesso tinha sabor de cinza na minha boca.
— Não.
— Nem eu, mas estou contente por ele estar vivo. Quer saber um segredo?
— Claro.
— Votei nele. Devo ser o único agente de todo o Bureau que votou nele.
Eu não disse nada.
Hosty sentou-se numa das duas poltronas do quarto e deu um longo suspiro de alívio. Pôs a pasta entre os pés e virou a garrafa para ver o rótulo.
— Mil, novecentos e cinquenta e oito. Os apreciadores de vinho provavelmente saberiam se foi um bom ano, mas sou mais da cerveja.
— Eu também.
— Então vai gostar da Lone Star que guardaram para você lá embaixo. Há um engradado e uma carta emoldurada que lhe promete um engradado por mês pelo resto da vida. Mais champanhe, também. Vi pelo menos uma dúzia de garrafas. Todo mundo, da Câmara de Comércio de Dallas até a Comissão de Turismo da cidade, mandou. Você tem uma televisão Zenith em cores ainda na caixa, um anel de ouro maciço com uma imagem do presidente da joalheria Calloway’s, um vale-compras de três ternos novos da Dallas Menswear e todo tipo de coisa, inclusive a chave da cidade. A gerência separou um quarto do primeiro andar para a sua pilhagem e aposto que amanhã de manhã terão de separar outro. E a comida! Tem gente trazendo bolos, tortas, timbales, carne assada, frango no espeto e comida mexicana suficiente para cinco anos de diarreia. Estamos mandando todo mundo embora, e eles detestam ter de ir, isso posso lhe dizer. Tem mulheres lá na frente do hotel que... bom, vamos dizer apenas que o próprio Jack Kennedy ficaria com inveja, e ele é um dom-juan lendário. Se soubesse o que há nos arquivos do diretor sobre a vida sexual daquele sujeito, você não acreditaria.
— A minha capacidade de acreditar pode surpreender.
— Dallas ama você, Amberson. Com os diabos, o país inteiro ama você. — Ele riu. O riso se transformou em tosse. Quando passou, ele acendeu um cigarro. Depois, olhou o relógio. — Às nove e sete, horário de Washington, da noite de 22 de novembro de 1963, você é o menininho mais querido dos Estados Unidos.
— E você, Hosty? Você me ama? E o diretor Hoover?
Ele pousou o cigarro no cinzeiro depois de uma única tragada, se inclinou para a frente e me espetou com os olhos. Estavam profundamente incrustados em dobras de carne, e estavam cansados, mas ainda assim eram muito brilhantes e atentos.
— Olhe para mim, Amberson. Bem nos olhos. Depois me diga se você estava nisso com Oswald ou não. E é bom que seja verdade, porque sei ver mentiras.
Dados os seus deslizes óbvios no trato de Oswald, não acreditei nisso, mas acreditei que ele acreditava. Assim, fitei o seu olhar e disse:
— Não estava.
Por um momento, ele nada disse. Depois suspirou, recostou-se e pegou o cigarro.
— Não. Não estava. — Ele expeliu fumaça pelas narinas. — Então para quem você trabalha? A CIA? Os russos, talvez? Não me parece, mas o diretor acredita que os russos adorariam queimar um agente bem escondido para impedir um assassinato que poderia provocar um incidente internacional. Talvez até a Terceira Guerra Mundial. Ainda mais quando o povo descobrir a época que Oswald passou na Rússia. — Ele disse Rúúúússia, como o televangelista Hargis fazia nas suas transmissões. Talvez no entender de Hosty fosse uma piada.
— Não trabalho para ninguém — disse eu. — Sou apenas um sujeito comum, Hosty.
Ele apontou o cigarro para mim.
— Guarde bem essa ideia. — Ele desafivelou a pasta de couro e tirou uma de papelão ainda mais fina do que a de Oswald que eu espiara na sala de Curry. Essa seria minha e engrossaria... mas não tão depressa quanto no século XXI, movido a computadores.
— Antes de Dallas, você esteve na Flórida. Na cidade de Sunset Point.
— Isso.
— Deu aulas como professor-substituto no sistema escolar de Sarasota.
— Correto.
— Antes disso, acreditamos que passou algum tempo em... Derren? Derren, no Maine?
— Derry.
— Onde fez exatamente o quê?
— Onde comecei o meu livro.
— Hã-hã, e antes disso?
— Aqui e ali, por toda parte.
— Quanto sabe dos meus contatos com Oswald, Amberson?
Fiquei calado.
— Não seja tão tímido. Aqui estamos só nós, meninas.
— O suficiente para provocar problemas para você e para o seu diretor.
— A não ser...
— Vamos dizer assim: o volume de problemas que causarei será diretamente proporcional ao volume de problemas que vocês me causarão.
— Seria justo dizer que, na questão de criar problemas, você inventará o que não sabe absolutamente... para prejuízo nosso?
Não disse nada.
Ele falou como se conversasse consigo mesmo:
— Não me surpreende que estivesse escrevendo um livro. Deveria ter continuado, Amberson. Provavelmente seria um sucesso. Porque você é bom pra cacete nisso de inventar, tenho de admitir. Você foi bastante plausível hoje à tarde. E sabe coisas que não era para saber, o que nos leva a acreditar que você está longe de ser um cidadão comum. Vamos lá, quem botou você nisso? Foi Angleton, da Firma? Foi, não é? Um canalha escorregadio e cultivador de rosas, isso é o que ele é.
— Sou só eu — respondi — e provavelmente sei menos do que você pensa. Mas, sim, sei o suficiente para deixar mal o Bureau. Que Lee me disse que foi contar a você que ia matar Kennedy, por exemplo.
Hosty apagou o cigarro com força suficiente para fazer subir um chafariz de fagulhas. Alguns pousaram nas costas da mão, mas ele não demonstrou sentir.
— Isso é uma mentira de merda!
— Eu sei — respondi. — E vou contar com a cara mais limpa do mundo. Se você me obrigar. A ideia de se livrar de mim já apareceu, Hosty?
— Me poupe dessa coisa de quadrinhos. Não matamos ninguém.
— Diga isso aos irmãos Diem lá no Vietnã.
Ele me olhava do jeito que alguém olharia um camundongo aparentemente inofensivo que mordesse de repente. E com dentes grandes.
— Como sabe que os Estados Unidos tiveram alguma coisa a ver com os irmãos Diem? De acordo com o que li nos jornais, estamos com as mãos limpas.
— Não vamos fugir do assunto. O caso é que agora sou popular demais para ser morto. Ou estou errado?
— Ninguém quer matar você, Amberson. E ninguém quer abrir buracos na sua história. — Ele latiu uma risada sem alegria. — Se começarmos a fazer isso, a coisa toda se desfaz. Ela é bem fininha.
— Romance instantâneo era a especialidade dela — disse eu.
— Hem?
— H. H. Munro. Também conhecida como Saki. O conto se chama A janela aberta. Procure. Quando se trata de criar bobagens no calor do momento, é muito instrutivo.
Ele me examinou, os olhinhos astutos preocupados.
— Não entendo mesmo você. Isso me preocupa. — A oeste, na direção de Midland, onde os poços de petróleo batucam sem parar e as chamas do gás obscurecem as estrelas, mais trovões ribombavam.
— O que quer de mim? — perguntei.
— Acho que, quando investigamos você um pouco além de Derren ou Derry ou seja lá o que for, encontramos... nada. Como se você saísse do nada.
Isso era tão perto da verdade que quase me tirou o fôlego.
— Queremos é que você volte ao nada de onde veio. A imprensa marrom vai inventar as especulações horríveis e teorias da conspiração de sempre, mas podemos lhe garantir que você sairá dessa com ótima reputação. Se é que isso lhe importa, claro. Marina Oswald sustentará a sua história ponto por ponto.
— Você já falou com ela, suponho.
— Supôs certo. Ela sabe que será deportada se não jogar direitinho. Os cavalheiros da imprensa não deram uma boa olhada em você; as fotos que sairão nos jornais de amanhã serão pouco mais do que borrões.
Sabia que ele tinha razão. Só fora exposto às câmeras naquela rápida caminhada pelo corredor até a sala do chefe Curry, e Fritz e Hosty, ambos grandes, me levavam debaixo do braço, bloqueando a linha de visão das melhores fotos. Eu também mantivera a cabeça baixa porque as luzes eram fortes demais. Havia muitas fotos minhas em Jodie, até um retrato no livro do ano em que eu dera aulas em horário integral, mas nessa época pré-jpeg e até pré-fax, só na terça ou quarta da outra semana elas seriam encontradas e publicadas.
— Eis uma história para você — disse Hosty. — Você gosta de histórias, não gosta? Coisas como essa tal Janela aberta?
— Sou professor de inglês. Adoro histórias.
— Esse sujeito, George Amberson, está tão cheio de pesar pela perda da namorada...
— Noiva.
— Noiva, isso, melhor ainda. Está tão pesaroso que larga tudo e simplesmente some. Não quer nem saber de publicidade, champanhe grátis, medalhas do presidente ou chuvas de papel picado. Ele só quer sumir e chorar a sua perda em particular. É o tipo de história de que os americanos gostam. Veem isso na TV o tempo todo. Em vez de “A janela aberta”, se chama “O herói modesto”. E há esse agente do FBI que se dispõe a apoiar cada palavra e até ler uma declaração deixada por você. Que tal?
Parecia maná dos céus, mas mantive o rosto inflexível.
— Vocês devem ter uma certeza e tanto de que consigo desaparecer.
— Temos.
— E fala a sério quando diz que não vou desaparecer no fundo do rio Trinity por ordem do diretor?
— Não, nada disso. — Ele sorriu. Devia ser tranquilizador, mas me fez lembrar de uma velha história do meu tempo de adolescente: Não se preocupe, você não vai engravidar, tive caxumba com 14 anos.
— Porque posso ter uma pequena apólice de seguro, agente Hosty.
Uma pálpebra se contorceu. Foi o único sinal de que a ideia o angustiava.
— Achamos que consegue desaparecer porque acreditamos... digamos apenas que você pode pedir ajuda assim que sair de Dallas.
— Nada de entrevista coletiva?
— É a última coisa que queremos.
Ele abriu a pasta outra vez. Dela, tirou um bloco de papel ofício amarelo. Passou-o para mim, com uma caneta do bolso do peito.
— Escreva-me uma carta, Amberson. Eu e Fritz a encontraremos amanhã de manhã quando viermos buscar você, mas pode endereçar a “Quem interessar possa”. Faça que seja boa. Faça que seja genial. Consegue isso, não consegue?
— Claro — respondi. — Romance instantâneo é a minha especialidade.
Ele sorriu sem humor e pegou a garrafa de champanhe.
— Acho que vou experimentar um pouco disso enquanto você romanceia. Nada para você, afinal de contas. Você terá uma noite movimentada. Quilômetros a percorrer antes de dormir e tudo o mais.
10
Escrevi cuidadosamente, mas não levou muito tempo. Num caso desses (não que em toda a história do mundo tivesse havido um caso exatamente igual a esse), achei que mais curto era melhor. Mantive a ideia do Herói Modesto de Hosty o tempo todo na cabeça. Fiquei muito contente por ter tido a oportunidade de dormir algumas horas. O descanso que conseguira fora eivado de sonhos malignos, mas a minha cabeça estava relativamente limpa.
Quando terminei, Hosty estava no terceiro copo de espumante. Tirara da pasta vários itens e os pusera na mesinha de café. Entreguei-lhe o bloco e ele começou a ler o que eu escrevera. Lá fora o trovão ribombou de novo e relâmpagos iluminaram brevemente o céu noturno, mas achei que a tempestade ainda estava distante.
Enquanto ele lia, examinei as coisas na mesinha do café. Lá estava o meu Timex, único item que, por alguma razão, não fora devolvido com o resto dos meus pertences quando saí da delegacia. Havia um par de óculos com aro de chifre. Peguei-os e experimentei. As lentes eram de vidro plano. Havia uma chave com haste oca em vez de serrilha. Um envelope que parecia conter umas mil pratas em notas usadas de vinte e cinquenta. Uma rede de cabelo. E um uniforme branco com duas peças — calça e blusão. O pano de algodão parecia tão fininho quanto Hosty afirmara que era a minha história.
— Essa carta é boa — disse Hosty, baixando o bloco. — Você parece meio triste, como Richard Kimble em O fugitivo. Assiste esse?
Eu vira a versão para o cinema com Tommy Lee Jones, mas não parecia a hora certa de citar isso.
— Não.
— Você será um fugitivo, tudo bem, mas só da imprensa e de um público americano que vai querer saber tudo a seu respeito, do tipo de suco que toma de manhã até o número da cueca. Você é uma história de interesse humano, Amberson, mas não é caso de polícia. Não matou a namorada; sequer atirou em Oswald.
— Tentei. Se não tivesse errado, ela ainda estaria viva.
— Nessa questão, você não teve muita culpa. É um salão bem grande lá, e os 38 não têm muita precisão a distância.
Verdade. Era preciso chegar a quinze metros. Assim me afirmaram, e mais de uma vez. Mas não disse nada. Achei que o meu breve relacionamento com o agente especial James Hosty estava quase terminado. Basicamente, mal conseguia esperar.
— Você está limpo. Só precisa ir a algum lugar onde o seu pessoal possa buscá-lo e levá-lo voando para a fantasmagórica Terra do Nunca. Isso você consegue?
No meu caso, a Terra do Nunca era uma toca de coelho que me transportaria para quarenta e oito anos no futuro. Supondo que a toca de coelho ainda estivesse lá.
— Acredito que sim.
— É melhor que consiga, porque se tentar nos prejudicar isso vai recair sobre o seu duplo. O sr. Hoover... digamos apenas que o diretor não é homem de perdoar.
— Me explique como é que vou sair do hotel.
— Você vai vestir essa roupa branca da cozinha, vai pôr os óculos e a rede. A chave liga o elevador de serviço. Vai levar você para o B-1. Você atravessa direto a cozinha e sai pela porta dos fundos. Tá me acompanhando?
— Estou.
— Tem um carro do Bureau à sua espera. Entre no banco de trás. Não fale com o motorista. Não é serviço de limusine. Você vai para a rodoviária. O motorista pode lhe dar uma das seguintes passagens: Tampa às onze e quarenta, Little Rock às onze e cinquenta ou Albuquerque à meia-noite e vinte. Não quero saber qual. Tudo o que você precisa saber é que aí acaba a nossa associação. A sua responsabilidade de ficar fora das vistas passa a ser só sua. E de para quem você trabalha, é claro.
— É claro.
O telefone tocou.
— Se for algum repórter espertinho que deu um jeito de passar, livre-se dele — disse Hosty. — E se disser uma palavra sobre a minha presença aqui, corto a sua garganta.
Achei que ele estava brincando, mas não tive certeza. Peguei o telefone.
— Não sei quem está falando, mas estou muito cansado e...
A voz aspirada do outro lado disse que não se demoraria. Para Hosty, fiz com os lábios Jackie Kennedy. Ele concordou e se serviu de um pouco mais do meu champanhe. Virei-me como se mostrar a Hosty as minhas costas pudesse impedir que ele ouvisse a conversa.
— sra. Kennedy, a senhora não precisava telefonar — disse eu —, mas assim mesmo me sinto honrado de falar com a senhora.
— Queria lhe agradecer pelo que fez — disse ela. — Sei que o meu marido já lhe agradeceu em nosso nome mas... sr. Amberson... — A primeira-dama começou a chorar. — Queria lhe agradecer em nome dos nossos filhos, que hoje puderam dar boa-noite à mãe e ao pai pelo telefone.
Caroline e John-John. Nunca tinham passado pela minha cabeça até aquele momento.
— sra. Kennedy, eu é que lhe agradeço.
— Soube que a moça que morreu se tornaria sua esposa.
— Isso mesmo.
— O senhor deve estar de coração partido. Por favor, aceite as minhas condolências. Não são suficientes, eu sei, mas é só o que tenho a oferecer.
— Obrigado.
— Se eu pudesse mudar a situação... se de algum modo pudesse fazer o relógio voltar...
Não, pensei. Esse serviço é meu, dona Jackie.
— Entendo. Obrigado.
Conversamos mais um pouco. Esse telefonema foi muito mais difícil do que o outro com Kennedy na delegacia. Em parte porque aquele parecera um sonho e esse não, mas acho que foi principalmente o medo residual que ouvi na voz de Jacqueline Kennedy. Ela parecia mesmo entender como tinham escapado por um fio. Não percebi isso no marido. Ele parecia acreditar que a Providência o tornara sortudo, abençoado, talvez até imortal. No final da conversa, lembro-me de ter lhe pedido que fizesse o marido parar de andar em carros abertos pelo resto do mandato.
Ela disse que eu podia contar com isso e me agradeceu novamente. Agradeci a ela mais uma vez e desliguei. Quando me virei, vi que o quarto era só meu. Em algum momento, enquanto conversava com Jacqueline Kennedy, Hosty saíra. Só o que restava dele eram duas guimbas no cinzeiro, um copo meio vazio de champanhe e outro bilhete rabiscado, ao lado do bloco de papel ofício amarelo com a minha carta a-quem-interessar-possa.
Livre-se do grampo antes de ir para a rodoviária , dizia. E embaixo: Boa sorte, Amberson. Sinto muito pela sua perda. H.
Talvez sentisse, mas isso é fácil, não é? Sentir muito é muito fácil.
11
Vesti o disfarce de auxiliar de cozinha e desci até o B-1 num elevador que cheirava a canja, molho de churrasco e Jack Daniel’s. Quando as portas se abriram, andei rapidamente pela cozinha cheirosa e enfumaçada. Acho que ninguém sequer me olhou.
Saí num beco onde um par de bebuns vasculhava uma lata de lixo. Eles não me olharam, embora erguessem os olhos quando um relâmpago horizontal clareou momentaneamente o céu. Um sedã Ford comum estava em marcha lenta na boca do beco. Entrei no banco de trás e partimos. O homem atrás do volante só disse uma coisa antes de parar na rodoviária Greyhound:
— Parece que vai chover.
Ele me ofereceu as três passagens como uma mão de pôquer. Peguei a de Little Rock. Tinha cerca de uma hora. Entrei na loja de presentes e comprei uma mala barata. Se tudo corresse bem, depois teria algo a pôr dentro dela. Não precisaria de muito; tinha todo tipo de roupa na minha casa em Sabattus e, embora aquele domicílio específico estivesse a quase cinquenta anos no futuro, eu achava que estaria lá em menos de uma semana. Um paradoxo que Einstein adoraria e que nunca passara pela minha mente triste e cansada é que, dado o efeito borboleta, era quase certo que não fosse mais minha. Se existisse.
Também comprei um jornal, uma edição extra do Slimes Herald. Havia uma única foto, talvez tirada por um profissional, mais provavelmente por algum transeunte de sorte. Mostrava Kennedy curvado sobre a mulher com quem eu falara há pouco tempo, a mulher que não teria manchas de sangue no tailleur rosa quando finalmente o despisse esta noite.
John F. Kennedy protege a esposa com o corpo enquanto a limusine presidencial se afasta às pressas de uma quase catástrofe nacional, dizia a legenda. Acima da foto, uma manchete em corpo trinta e seis. Havia espaço, porque era só uma palavra:
Abri a página 2 e dei com outra foto. Essa era de Sadie, parecendo absurdamente jovem, absurdamente linda. Sorria. Tenho a vida inteira pela frente, dizia o sorriso.
Sentado numa das cadeiras de ripas de madeira enquanto viajantes noturnos jorravam à minha volta e bebês choravam e soldados com sacos cilíndricos riam e homens de negócios engraxavam os sapatos e os alto-falantes no teto anunciavam chegadas e partidas, dobrei cuidadosamente o papel-jornal em torno das bordas daquela foto para que eu pudesse removê-la da página sem rasgar o rosto dela. Quando isso foi feito, olhei-a durante muito tempo e depois a dobrei e guardei na carteira. O resto do jornal, joguei fora. Não havia nada nele que eu quisesse ler.
O embarque no ônibus de Little Rock foi chamado às onze e vinte, e me juntei à multidão que se amontoava na porta certa. Além dos óculos falsos, não tentei esconder o rosto, mas ninguém me olhou com interesse específico; eu era apenas mais uma célula na corrente sanguínea da América em Trânsito, nenhuma mais importante do que a outra.
Mudei a vida de vocês hoje, pensei enquanto observava os que estavam presentes na virada do dia, mas não havia triunfo nem assombro na ideia; parecia não haver nenhuma carga emocional, nem positiva, nem negativa.
Entrei no ônibus e me sentei nos fundos. Havia muitos sujeitos fardados à minha frente, talvez indo para a base da Força Aérea em Little Rock. Se não fosse o que tínhamos feito naquele dia, alguns morreriam no Vietnã. Outros voltariam para casa aleijados. E agora? Quem saberia?
O ônibus partiu. Quando saímos de Dallas, a trovoada era mais forte e os relâmpagos, mais luminosos, mas ainda não havia chuva. Quando chegamos a Sulphur Springs, a tempestade ameaçadora estava atrás de nós e as estrelas tinham saído às dezenas de milhares, brilhantes como lasquinhas de gelo e duas vezes mais frias. Olhei-as algum tempo, depois me recostei, fechei os olhos e escutei os pneus do Grande Galgo comerem a Interstate 30.
Sadie, cantavam os pneus. Sadie, Sadie, Sadie.
Finalmente, um pouco depois das duas da manhã, dormi.
12
Em Little Rock, comprei passagem para o ônibus do meio-dia para Pittsburgh, com uma única parada em Indianápolis. Tomei o café da manhã na lanchonete ao lado de um velho que comia com um rádio portátil diante dele na mesa. Era grande e coberto de botões brilhantes. A principal reportagem ainda era a tentativa de assassinato, é claro... e Sadie. Sadie era notícia importantíssima. Teria uma cerimônia fúnebre com honras de Estado e seria enterrada no cemitério nacional de Arlington. Especulava-se que o próprio JFK faria o elogio fúnebre. Como assunto paralelo, George Amberson, o noivo da srta. Dunhill, também de Jodie, Texas, tivera uma entrevista coletiva à imprensa marcada para as dez da manhã que fora adiada para o fim da tarde — sem explicações. Hosty me dava o máximo espaço possível para fugir. Bom para mim. Para ele também, é claro. E para o seu precioso diretor.
“O presidente e os seus heroicos salvadores não são a única notícia que vem do Texas esta manhã”, disse o rádio do velho vaqueiro, e parei com a xícara de café preto suspensa a meio caminho entre o pires e os lábios. Houve um formigamento azedo na minha boca que eu passara a reconhecer. Um psicólogo talvez chamasse de presque vu — a sensação que às vezes se tem de que algo extraordinário está para acontecer —, mas o meu nome para aquilo era muito mais humilde: harmonia.
“Pouco depois de uma da madrugada, no ponto máximo de uma tempestade, um terrível tornado passou por Fort Worth e destruiu um depósito da Montgomery Ward e uma dúzia de casas. Há dois mortos e quatro desaparecidos.”
Que duas daquelas casas eram o 2.703 e o 2.706 da rua Mercedes eu não tinha dúvida; um vento zangado as apagara como a uma equação errada.