Novembro de 63
Capítulo 3
1
O gnomo tinha mesmo uma bandeira, mas não era americana. Não era nem sequer a bandeira do Maine com o alce. A bandeira que o gnomo segurava tinha uma listra azul vertical e duas listras horizontais largas, a de cima branca, a de baixo vermelha. Também tinha uma estrela solitária — uma bandeira texana. Dei um tapinha no chapéu pontudo do gnomo quando passei e subi os degraus da frente da casinha de Al na rua Vining, pensando numa música engraçada de Ray Wylie Hubbard: Screw You, We’re from Texas (Dane-se, somos do Texas.)
A porta se abriu antes que eu tocasse a campainha. Al usava um roupão de banho por cima do pijama e o novo cabelo branco formava emaranhados em saca-rolha — um dos casos mais graves de cabeça desgrenhada que eu já vira. Mas o sono (e os analgésicos, é claro) tinha lhe feito algum bem. Ainda tinha cara de doente, mas as rugas em torno da boca não estavam tão fundas, e o andar, enquanto me conduzia pelo toco de corredor até a sala, parecia mais firme. Não apertava mais a mão direita na axila esquerda, como se tentasse se segurar.
— Pareço um pouco mais com o antigo eu, não é? — perguntou na sua voz rascante enquanto se sentava na poltrona diante da TV. Só que não se sentou de verdade, simplesmente se posicionou e caiu.
— Parece. O que os médicos lhe disseram?
— O que consultei em Portland diz que não há esperança, nem com quimioterapia e radioterapia. Exatamente o que disse o médico que consultei em Dallas. Em 1962, quer dizer. É bom pensar que algumas coisas não mudam, não acha?
Abri a boca e a fechei de novo. Às vezes não há nada a dizer. Às vezes a gente simplesmente se desconcerta.
— Não adianta ficar com rodeios — disse ele. — Sei que a morte é embaraçosa para os outros, ainda mais quando quem está morrendo só pode culpar os próprios maus hábitos, mas não posso perder tempo sendo delicado. Logo estarei no hospital, no mínimo porque não vou conseguir ir e voltar do banheiro sozinho. Até parece que vou ficar sentado tossindo os bofes para fora afundado na minha própria merda.
— E a lanchonete?
— A lanchonete acabou, amigo. Mesmo que eu estivesse forte como um cavalo, acabaria no final deste mês. Sabe que eu alugava aquele espaço, não sabe?
Não sabia, mas fazia sentido. Embora a Worumbo ainda se chamasse Worumbo, agora era um shopping básico de moda, e isso significava que Al pagava aluguel a alguma empresa grande.
— Está na hora de renovar o contrato e a Mill Associates quer o espaço para montar uma coisa chamada — você vai adorar — L. L. Bean Express. Além disso, dizem que o meu pequeno Aluminaire é horroroso.
— Isso é ridículo! — disse eu, e com indignação tão genuína que Al deu uma risadinha. A risadinha tentou se metamorfosear num ataque de tosse e ele a sufocou. Ali, na intimidade do próprio lar, ele não usava lenços de papel, de pano nem guardanapos para lidar com a tosse; havia uma caixa de absorventes higiênicos tamanho grande na mesa ao lado da poltrona. Os meus olhos não paravam de cair neles. Mandava que saíssem de lá, talvez para olhar na parede a foto de Al com o braço em torno de uma mulher de boa aparência, mas eles não paravam de voltar. Essa é uma das grandes verdades da condição humana: quem precisa de Maxiabsorvente Stayfree Super para absorver a expectoração produzida pelo corpo ferido está fodido e malpago.
— Obrigado por dizer isso, amigo. Poderíamos beber a isso. Os meus dias de álcool acabaram, mas tem chá na geladeira. Talvez você possa me fazer essa honra.
2
Ele usava copos genéricos e robustos no restaurante, mas a jarra que continha o chá gelado parecia cristal Waterford. Um limão inteiro boiava placidamente em cima, a casca cortada para deixar o sabor escorrer. Entupi de gelo dois copos, servi o chá e voltei à sala. Al deu um gole longo e profundo no seu e fechou os olhos com gratidão.
— Caraca, isso é bom. Neste minuto, tudo no mundo de Al é bom. Aquela droga é maravilhosa. Viciante pra diabo, claro, mas maravilhosa. Chega a tirar um pouco a tosse. A dor vai começar a voltar à meia-noite, mas isso deve nos dar tempo suficiente para falar de tudo. — Ele deu outro gole e me lançou um olhar lamentável e divertido. — Parece que as coisas humanas são tremendas até o fim. Eu nunca adivinharia.
— Al, o que acontece com aquele... aquele buraco para o passado se tirarem o seu trailer e construírem uma loja no lugar?
— Não sei, assim como não sei como consigo comprar a mesma carne várias vezes. O que acho é que vai desaparecer. Acho que é uma esquisitice da natureza como o gêiser Velho Fiel, ou aquela estranha pedra que balança que fica lá no oeste da Austrália, ou o rio que corre para trás em algumas fases da lua. Coisas assim são delicadas, amigo. Uma mudancinha na crosta terrestre, uma alteração da temperatura, alguns bastões de dinamite e acabou.
— Então não acha que haverá... não sei... algum tipo de cataclismo? — O que eu visualizava na cabeça era uma brecha na cabine de um avião de carreira a dez mil metros de altitude e tudo sendo sugado, inclusive os passageiros. Vi isso num filme certa vez.
— Acho que não, mas como saber? Só sei que não há nada que eu possa fazer, de um jeito ou de outro. Quer dizer, a menos que você queira que eu passe o lugar para você. Isso eu posso fazer. Aí você iria à Sociedade Nacional de Conservação Histórica e diria: “Ei, caras, vocês não podem permitir que eles ponham uma loja de roupa no pátio da velha fábrica Worumbo. Tem um túnel do tempo lá. Sei que é difícil acreditar, mas posso lhes mostrar.”
Por um instante, cheguei mesmo a pensar nisso, porque provavelmente Al tinha razão: quase com certeza a fissura que levava ao passado era delicada. Pelo que eu sabia (ou ele sabia), podia explodir como uma bolha de sabão se o Aluminaire fosse apenas sacudido com força. Então pensei no governo federal descobrindo que poderiam mandar agentes especiais para o passado e mudar o que quisessem. Não sabia se isso seria possível, mas, se fosse, os caras que nos deram coisas divertidas como armas biológicas e bombas inteligentes guiadas por computador seriam os últimos que eu gostaria que levassem os seus vários planos para a história viva e desarmada.
No mesmo minuto em que essa ideia me ocorreu — não, no mesmo segundo —, soube o que Al tinha em mente. Só os termos específicos me escapavam. Pousei o chá gelado e me levantei.
— Não. Absolutamente não. Hã-hã.
Ele aceitou isso com calma. Eu poderia dizer que foi porque estava dopado de OxyContin, mas sabia que não. Ele podia ver que eu não queria ir embora simplesmente, não importava o que eu dissesse. A minha curiosidade (sem falar do meu fascínio) provavelmente estava tão eriçada quanto os espinhos de um ouriço. Porque uma parte minha queria saber os termos específicos.
— Vejo que posso pular o material introdutório e ir direto ao assunto — disse Al. — Isso é bom. Sente-se, Jake, e vou lhe explicar a minha única razão para não tomar todo o estoque de pílulas cor-de-rosa de uma vez. — E, como continuei em pé: — Você sabe que quer ouvir isso, e que mal tem? Mesmo que pudesse obrigar você a fazer alguma coisa aqui em 2011, e não posso, não conseguiria obrigar você a fazer nada naquela época. Quando voltar para lá, Al Templeton será um menino de 4 anos em Bloomington, Indiana, correndo pelo quintal com uma máscara de Zorro e ainda meio capenga no quesito uso do troninho. Portanto, sente-se. Como dizem os infomerciais, é sem compromisso.
Certo. Por outro lado, a minha mãe diria que a voz do diabo é doce.
Mas me sentei.
3
— Conhece a expressão divisor de águas, amigo?
Fiz que sim. Ninguém precisa ser professor de inglês para conhecer essa; ninguém precisa nem ser alfabetizado. Era um daqueles atalhos linguísticos incômodos que aparecem dia sim, dia não nos noticiários da TV a cabo. Outros seriam somar dois mais dois e há dois meses atrás. O mais incômodo de todos (invectivei várias e várias vezes contra ele aos meus alunos claramente entediados) é, há quem diga ou muita gente acha, que nada significam.
— Sabe de onde vem? A origem?
— Não.
— Cartografia. Um divisor de águas é uma área de terra, em geral montanhas ou florestas, que separam rios. A história também é um rio. Não acha?
— É. Acho que sim. — Tomei um pouco de chá.
— Às vezes os fatos que mudam a história são generalizados, como as chuvas fortes e prolongadas sobre todo um divisor de águas que fazem os rios transbordar. Mas os rios podem transbordar até em dias de sol. Só é preciso um aguaceiro prolongado numa pequena área do divisor de águas. Também há enchentes repentinas na história. Quer alguns exemplos? Que tal Onze de Setembro? Ou a vitória de Bush sobre Gore em 2000?
— Não dá para comparar uma eleição nacional com uma enchente repentina, Al.
— Talvez não todas, mas a eleição presidencial de 2000 criou uma nova categoria. Suponha que você pudesse voltar à Flórida no outono de 2000 e gastar duzentos mil dólares mais ou menos em nome de Al Gore.
— Tem uns problemas aí — disse eu. — Primeiro, não tenho duzentos mil dólares. Depois, sou professor. Posso lhe falar da fixação materna de Thomas Wolfe, mas quando se trata de política fico perdidinho.
Ele fez um gesto impaciente que quase fez o anel do Corpo de Fuzileiros sair voando do dedo emagrecido.
— Dinheiro não é problema. Nisso você vai ter de confiar em mim por enquanto. E o conhecimento prévio costuma dar um banho na experiência. Supostamente, a diferença na Flórida foi de menos de seiscentos votos. Acha que conseguiria comprar seiscentos votos no dia da eleição com duzentos mil, se fosse preciso comprar?
— Talvez — disse eu. — Provavelmente. Acho que eu isolaria algumas comunidades onde houvesse muita apatia e o comparecimento às urnas costumasse ser pequeno — nem precisaria de muita pesquisa — e então levava a caixinha.
Al sorriu, revelando a falta de dentes e as gengivas malsãs.
— Por que não? Durante anos deu certo em Chicago.
A ideia de comprar a presidência por menos do que o custo de dois Mercedes-Benz me calou.
— Mas quando se trata do rio da história, os divisores de água mais suscetíveis a mudanças são os homicídios — os que deram certo e os que não deram. O arquiduque Franz Ferdinand da Áustria levou um tiro de um zé-mané mentalmente instável chamado Gavrilo Princip e lá começou a Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, quando Claus von Stauffenberg não conseguiu matar Hitler em 1944 — quase, mas não deu —, a guerra continuou e outros milhões morreram.
Eu também já vira esse filme.
— Não podemos fazer nada com o arquiduque Ferdinand nem com Adolf Hitler — disse Al. — Estão fora do nosso alcance.
Pensei em acusá-lo de fazer suposições e fiquei de boca fechada. Eu me sentia um pouco como quem lê um livro muito triste. Um romance de Thomas Hardy, digamos. A gente sabe como vai terminar, mas, em vez de estragar a leitura, isso acaba aumentando o fascínio. É como ver um garoto fazer o trem elétrico correr mais e mais e esperar que descarrile numa das curvas.
— Quanto a Onze de Setembro, se quiser consertar terá de esperar 43 anos. Estará chegando aos 80, isso se conseguir.
Agora a bandeira da estrela solitária que o gnomo segurava fez sentido. Era uma lembrança do último passeio de Al ao passado.
— Você nem conseguiu chegar a 63, não foi?
A isso ele não respondeu, só me observou. Os olhos, que tinham parecido remelentos e vagos quando me fez entrar na lanchonete naquela tarde, agora pareciam claros. Quase jovens.
— Porque é disso que você está falando, não é? Dallas, 1963?
— Isso mesmo — disse ele. — Tive de desistir. Mas você não está doente, amigo. Está com saúde e na flor da idade. Pode voltar e pode impedir.
Ele se inclinou à frente, os olhos não apenas brilhantes; eles estavam ardentes.
— Você pode mudar a história, Jake. Entende isso? John Kennedy pode viver.
4
Conheço o básico da ficção de suspense — tenho de conhecer, já li suspense suficiente na minha vida —, e a regra básica é manter o leitor tentando adivinhar. Mas, se você já entendeu o meu personagem com base nos fatos extraordinários daquele dia, sabe que eu queria ser convencido. Christy Epping tinha se tornado Christy Thompson (menino encontra menina no acampamento do AA, lembra?), e eu era um homem sozinho. Nem havia filhos para disputarmos. Eu tinha um emprego e era bom nele, mas se lhe dissesse que era um desafio estaria mentindo. Viajar de carona pelo Canadá com um colega depois do último ano de faculdade foi a coisa mais próxima de uma aventura que eu já vivera e, dada a natureza alegre e solícita da maioria dos canadenses, não foi tão aventurosa assim. Agora, de repente, me ofereciam a oportunidade de me tornar o personagem principal não da história americana, mas da história do mundo. Portanto, sim, sim, sim, eu queria ser convencido.
Mas também estava com medo.
— E se não der certo? — Tomei o resto do chá gelado em quatro longos goles, os cubos de gelo batucando nos meus dentes. — E se, sabe Deus como, eu consiga impedir que aconteça e torne a situação pior e não melhor? E se eu voltar e descobrir que os Estados Unidos viraram um regime fascista? Ou que a poluição ficou tão ruim que todo mundo anda por aí com máscaras contra gás?
— Aí você volta de novo — disse ele. — De volta em dois minutos para o meio-dia de 9 de setembro de 1958. Cancela a coisa toda. Toda viagem é a primeira, lembra?
— Parece bom, mas e se as mudanças forem tão radicais que a sua lanchonetinha nem exista mais?
Ele sorriu.
— Aí você terá de levar a vida no passado. Mas seria tão ruim assim? Como professor de inglês, você ainda terá uma profissão no mercado, e sequer vai precisar. Fiquei lá quatro anos, Jake, e fiz uma pequena fortuna. Sabe como?
Eu tinha uma leve ideia, mas fiz que não.
— Apostas. Fui cuidadoso — não queria despertar suspeitas e claro que não queria nenhum capanga de bookmaker atrás de mim —, mas, depois de estudar quem ganhou todos os grandes eventos esportivos entre o verão de 1958 e o outono de 1963, a gente pode se dar ao luxo de ser cuidadoso. Não vou dizer que dê para viver feito um rei, porque isso é viver perigosamente. Mas não há razão para não viver bem. E acho que a lanchonete ainda estará aqui. Estava para mim, e mudei um monte de coisas. Todo mundo muda. Basta dar a volta no quarteirão para comprar uma bisnaga de pão e um litro de leite para mudar o futuro. Já ouviu falar do efeito borboleta? É uma teoria científica chiquetosa que, basicamente, se resume à ideia de que...
Ele começou a tossir de novo, o primeiro ataque prolongado desde que abrira a porta para mim. Agarrou um dos absorventes máxi da caixa, aplicou-o sobre a boca como uma mordaça e depois se dobrou. Sons horrorosos de vômito saíram do seu peito. Parecia que metade do seu mecanismo se soltara e chocalhava lá dentro como carrinhos de bate-bate num parque de diversões. Finalmente, passou. Ele olhou o absorvente, fez uma careta, dobrou e jogou fora.
— Desculpe, amigo. Essa menstruação oral é uma bosta.
— Jesus, Al!
Ele deu de ombros.
— Se não der para fazer piada, de que adianta? Agora, onde eu estava?
— Efeito borboleta.
— Isso. Significa que pequenos fatos podem ter, cumeqsediz, grandes ramificações. A ideia é que se alguém mata uma borboleta na China, talvez quarenta anos depois, ou quatrocentos, haverá um terremoto no Peru. Isso soa tão doido para você quanto para mim?
Soava, mas eu me lembrei de um velho paradoxo sobre viagens no tempo e me segurei.
— É, mas e se você voltasse atrás e matasse o seu próprio avô?
Ele me fitou, perplexo.
— Por que diabos alguém faria isso?
Era uma boa pergunta, e só lhe disse que continuasse.
— Hoje à tarde, você mudou o passado de várias pequenas formas, apenas entrando na Kennebec Fruit... mas a escada que levava até a despensa e de volta a 2011 ainda estava lá, não estava? E Lisbon Falls é a mesma de quando você partiu.
— Assim parece. Mas você está falando de uma coisa um tiquinho maior. Ou seja, salvar a vida de John Fitzgerald Kennedy.
— Ah, estou falando de muito mais do que isso, porque isso não é nenhuma borboleta na China, amigo. Também estou falando de salvar a vida de Robert Fitzgerald Kennedy, porque se John sobreviver em Dallas, provavelmente Robert não concorrerá à presidência em 1968. O país não estaria disposto a substituir um Kennedy pelo outro.
— Isso você não sabe com certeza.
— Não, mas escute. Acha que, se salvar a vida de John Kennedy, o irmão Robert ainda estaria no Ambassador Hotel ao meio-dia e quinze de 5 de junho de 1968? E mesmo que estivesse, Sirhan Sirhan ainda estaria trabalhando na cozinha?
Talvez, mas a probabilidade tinha de ser pequeníssima. Quando se punha um milhão de variáveis na equação, é claro que a resposta ia mudar.
— E que tal Martin Luther King? Ainda estaria em Memphis em abril de 1968? Mesmo que estivesse, ainda estaria na varanda do Lorraine Motel exatamente na hora certa para James Earl Ray lhe dar um tiro? O que acha?
— Se aquela teoria da borboleta estiver certa, provavelmente não.
— É o que penso também. E se Martin Luther King viver, os tumultos raciais que vieram depois da sua morte não acontecem. Talvez Fred Hampton não seja morto em Chicago.
— Quem?
Ele me ignorou.
— Aliás, talvez não haja Exército Simbionês de Libertação. Sem ele, nada de sequestro de Patty Hearst. Sem sequestro de Patty Hearst, uma pequena redução, talvez insignificante, do medo que os brancos de classe média sentem dos negros.
— Já estou perdidinho. Me formei em inglês, lembra?
— Você está perdidinho porque sabe mais sobre a Guerra de Secessão do século XIX do que sobre a guerra que dilacerou este país depois do assassinato de Kennedy em Dallas. Se eu lhe perguntasse quem estrelou A primeira noite de um homem, tenho certeza de que saberia responder. Mas se eu lhe pedisse que me dissesse quem Lee Oswald tentou assassinar poucos meses antes de matar Kennedy, você diria “Hem?”, porque por alguma razão tudo isso se perdeu.
— Oswald tentou matar alguém antes de Kennedy? — Isso era novidade para mim, mas quase todo o meu conhecimento sobre o assassinato de Kennedy vinha de um filme de Oliver Stone. Seja como for, Al não respondeu. Ele estava empolgado.
— E que tal o Vietnã? Foi Johnson que começou toda aquela escalada insana. Kennedy era um guerreiro frio, disso não há dúvida, mas Johnson foi além. Tinha o mesmo complexo de meu-caralho-é-maior-que-o-seu que o Bushinho exibiu quando ficou na frente das câmeras e disse “Pode trazer”. Kennedy talvez mudasse de ideia. Johnson e Nixon seriam incapazes disso. Graças a eles, perdemos quase sessenta mil soldados americanos no Vietnã. Os vietnamitas do Norte e do Sul perderam milhões. A conta do açougueiro seria assim tão alta se Kennedy não morresse em Dallas?
— Não sei. E você também não, Al.
— Isso é verdade, mas andei estudando bastante a história americana recente e acho que a probabilidade de melhorar a situação salvando a vida dele é muito boa. E, na verdade, não há lado ruim. Se der merda, basta voltar e consertar. Fácil como apagar um palavrão do quadro-negro.
— Ou então não consigo voltar, e nesse caso nunca saberei.
— Bobagem. Você é jovem. Se não for atropelado por um táxi nem tiver um enfarte, vai viver o suficiente para ver o que vai dar.
Fiquei sentado em silêncio, olhando o colo e pensando. Al deixou. Finalmente voltei a erguer a cabeça.
— Você deve ter lido muito sobre o assassinato e sobre Oswald.
— Tudo em que consegui pôr as mãos, amigo.
— Quanta certeza tem de que foi ele? Porque há umas mil teorias da conspiração. Até eu sei disso. E se eu voltar e o impedir e algum outro cara na colina gramada ou sei lá onde mandar Kennedy para o paraíso?
— Encosta gramada. E tenho quase certeza de que foi Oswald. Para começar, todas as teorias da conspiração são bem malucas, e a maioria delas foi refutada com o passar dos anos. Por exemplo, a ideia de que o atirador não era Oswald, mas alguém que se parecia com ele. O corpo foi exumado em 1981 e feito o teste de DNA. Era ele mesmo. O venenoso filho da mãe. — Ele fez uma pausa e depois acrescentou: — Eu o conheci, sabe.
Olhei bem para ele.
— Não acredito!
— Conheci, sim. Ele falou comigo. Foi em Fort Worth. Ele e Marina — a mulher dele, ela era russa — foram visitar o irmão de Oswald em Fort Worth. Se Lee gostava de alguém, era do irmão Bobby. Eu estava na frente da cerquinha do quintal de Bobby Oswald, encostado num poste telefônico, fumando um cigarro e fingindo ler o jornal. O meu coração parecia bater umas duzentas vezes por minuto. Lee e Marina saíram juntos. Ela estava com a filha dos dois, June, no colo. Uma isca de gente, menos de um ano. A menina estava dormindo. Ozzie usava calças cáqui e uma camisa social toda puída no colarinho. A calça tinha o vinco bem-feito, mas estava suja. Ele abandonara o corte reco dos fuzileiros, mas o cabelo ainda estava curto demais para agarrar. Marina... Jesus, que mulherão! Morena, olhos azuis brilhantes, pele impecável. Parecia uma estrela daquelas de cinema. Se for fazer, você verá com os seus próprios olhos. Ela lhe disse alguma coisa em russo quando desceram a calçada. Ele respondeu. Sorria ao responder, mas aí a empurrou. Ela quase caiu. A menina acordou e começou a chorar. O tempo todo, Oswald não parou de sorrir.
— Você viu isso. Viu de verdade. Você viu ele. — Apesar da minha própria viagem no tempo, estava pelo menos semiconvencido de que tinha de ser uma ilusão ou simplesmente mentira.
— Vi. Ela saiu pelo portão e passou por mim de cabeça baixa, segurando o bebê contra os seios. Como se eu não estivesse lá. Mas ele veio diretamente até mim, perto a ponto de eu sentir o cheiro do desodorante Old Spice que ele usava para tentar esconder o cheiro de suor. Havia cravos pelo nariz inteiro. Dava para dizer pelas roupas — e pelos sapatos, que estavam arranhados e arrebentados atrás — que ele não tinha onde cair morto, mas quando se olhava a cara dele a gente sabia que isso não importava. Não para ele, não mesmo. Ele se achava o máximo.
Al pensou um pouco e balançou a cabeça.
— Não, não é isso. Ele sabia que era o máximo. A questão era só esperar que o resto do mundo percebesse. Então ali está ele, na minha cara — distância para estrangular, e não pense que a ideia não me passou pela cabeça...
— E por que não fez isso? Ou foi logo aos finalmente e deu um tiro nele?
— Na frente da mulher e da filha? Conseguiria fazer isso, Jake?
Não tive de pensar muito.
— Acho que não.
— Nem eu. Tinha outras razões também. Uma delas era uma certa aversão à penitenciária... e à cadeira elétrica. A gente estava no meio da rua, não se esqueça.
— Ah.
— Isso, ah. Ele ainda estava com aquele sorrisinho no rosto quando se aproximou de mim. Arrogante e presunçoso, tudo ao mesmo tempo. Está com esse sorriso em quase todas as fotos que tiraram dele. Está com ele na delegacia de Dallas depois que o prenderam por matar o presidente e um policial de trânsito que por acaso atravessou o seu caminho quando ele tentava fugir. Ele me diz: “Está olhando o que, senhor?” Eu digo: “Nada, amigo.” E ele: “Então vá cuidar da sua vida.”
“Marina esperava por ele na calçada a uns cinco ou seis metros da gente, tentando ninar o bebê. Naquele dia fazia um calor dos infernos, mas ela usava um lenço na cabeça, do jeito que muitas europeias faziam na época. Ele foi até ela, segurou-a pelo cotovelo — como um policial em vez de marido — e diz ‘Pokhoda!’ Pokhoda! Ande, ande. Ela lhe disse alguma coisa, talvez para pedir que levasse o bebê um pouco. Pelo menos, é o que acho. Mas ele só a empurrou e disse: ‘Pokhoda, suka! ’ Ande, cadela. Ela andou. Eles foram na direção do ponto de ônibus. E foi isso.”
— Você sabe russo?
— Não, mas tenho bom ouvido e computador. Pelo menos aqui, de volta.
— Você viu ele mais vezes?
— Só de longe. Mas aí eu estava ficando bem doente. — Ele sorriu. — Não há churrasco do Texas tão bom quanto o de Fort Worth, e não pude comer. Às vezes este é um mundo cruel. Fui ao médico, recebi o diagnóstico que já poderia ter feito sozinho e voltei para o século XXI. Basicamente, não havia mesmo mais nada que ver. Só um magricela agressor de mulheres à espera de ficar famoso.
Ele se inclinou à frente.
— Sabe como era o homem que mudou a história americana? Era o tipo de garoto que joga pedra nos outros meninos e depois foge. Na época em que entrou para os fuzileiros — para ser igual ao irmão Bobby, ele idolatrava Bobby —, já tinha morado em quase duas dúzias de lugares, de Nova Orleans a Nova York. Tinha grandes ideias e não conseguia entender por que ninguém lhe dava ouvidos. Ficava louco com isso, furioso, mas nunca perdeu aquele sorrisinho presunçoso dele. Sabe como William Manchester o chamava?
— Não. — Eu nem sabia quem era William Manchester.
— Um pobre vira-lata. Manchester falava sobre todas as teorias da conspiração que brotaram depois do assassinato... e depois que o próprio Oswald levou um tiro e morreu. Quer dizer, disso você sabe, não é?
— Claro — disse eu, meio incomodado. — Foi um camarada chamado Jack Ruby. — Mas com os furos que eu já exibira no meu conhecimento, acho que ele tinha o direito de perguntar.
— Manchester disse que, se a gente puser o presidente assassinado num prato da balança e Oswald, o pobre vira-lata, no outro, não zera. De jeito nenhum, não zera. Quem quiser dar significado à morte de Kennedy, terá de acrescentar algo mais pesado. O que explica a proliferação de teorias da conspiração. Como ter sido a Máfia; Carlos Marcello ordenou o tiro. Ou a KGB. Ou Fidel, para se vingar da CIA que tentou matá-lo com charutos envenenados. Até hoje há gente que acredita que foi Lyndon Johnson, para assumir a presidência. Mas no final... — Al balançou a cabeça. — Quase com certeza foi Oswald. Já ouviu falar da Navalha de Occam, não ouviu?
Era bom saber alguma coisa.
— É um truísmo básico conhecido como lei da parcimônia. “Se todos os fatores forem iguais, a explicação certa costuma ser a mais simples.” Então por que você não o matou quando ele não estava na rua com a mulher e a filha? Você também foi fuzileiro. Quando soube que estava muito doente, por que simplesmente não matou o filho da puta?
— Porque 95 por cento de certeza não são 100 por cento. Porque, cabeça de merda ou não, ele era pai de família. Porque, depois de ser preso, Oswald disse que era um bode expiatório e eu queria ter certeza de que estava mentindo. Acho que ninguém consegue estar 100 por cento certo de nada nesta vida, mas eu queria chegar a 98 por cento. Mas não tinha a intenção de esperar até 22 de novembro e então detê-lo no Texas School Book Depository, o depósito de livros didáticos do Texas; isso seria deixar as coisas por um fio muito fino, por uma razão importante que tenho de lhe contar.
Os olhos dele não pareciam mais tão brilhantes, e as rugas do rosto voltavam a se aprofundar. Fiquei assustado ao ver como ficara rasa a sua reserva de força.
— Escrevi esse troço todo. Quero que você leia. Na verdade, quero que estude isso feito um CDF. Olhe em cima da TV, amigo. Faria isso? — Ele me deu um sorriso cansado e acrescentou: — Não estou a fim de me levantar agora.
Era um caderno azul e grosso. O preço carimbado na capa de papel era de 25 centavos. A marca era desconhecida para mim.
— O que é Kresge’s?
— A cadeia de lojas de departamentos conhecida hoje como Kmart. Não ligue para o que está na capa, só preste atenção ao que está dentro. É uma cronologia de Oswald, mais todas as provas acumuladas contra ele... que você, na verdade, não tem de ler se acreditar em mim, porque vai impedir o danadinho em abril de 1963, mais de meio ano antes de Kennedy ir a Dallas.
— Por que abril?
— Porque foi quando alguém tentou matar o general Edwin Walker... só que nisso ele não era mais general. Ele foi expulso em 1961, pelo próprio Kennedy. O general Eddie distribuía literatura segregacionista entre os soldados e ordenava-lhes que lessem aquilo.
— Foi Oswald que tentou atirar nele?
— É do que você precisa ter certeza. Mesma espingarda, disso não há dúvida, a balística provou. Eu estava esperando para ver ele atirar. Não podia me dar ao luxo de interferir, porque daquela vez Oswald errou. A bala resvalou na ripa de madeira no meio da janela da cozinha de Walker. Não muito, mas o suficiente. A bala literalmente lhe repartiu o cabelo, e lascas de madeira da janela cortaram um pouco o braço dele. Foi o único ferimento. Eu não diria que o homem merecia morrer — pouquíssimos homens são tão maus que mereçam levar um tiro de emboscada —, mas eu trocaria Walker por Kennedy a qualquer momento.
Dei pouca atenção a esse final. Estava folheando o Livro de Oswald de Al, páginas e páginas cobertas de anotações. Eram perfeitamente legíveis no começo, menos no final. As últimas páginas eram os rabiscos de um homem muito doente. Fechei a capa e disse:
— Se tivesse conseguido confirmar que foi Oswald quem atirou no general Walker, isso resolveria a sua dúvida?
— Resolveria. Eu precisava me assegurar de que ele é capaz disso. Ozzie é mau, Jake — o que o pessoal lá em 1958 chamava de pulha —, mas bater na mulher e manter a coitada quase como prisioneira porque ela não fala a língua não justifica assassinato. E mais uma coisa. Mesmo que o grande C não me pegasse, eu sabia que não teria outra chance de acertar se matasse Oswald e outra pessoa atirasse no presidente mesmo assim. Quando um homem passa dos 60, a garantia já se esgotou, se é que você me entende.
— Teria de matar? Não daria para... não sei... dar um jeito de enquadrar ele?
— Talvez, mas aí fiquei doente. Não sei se conseguiria nem mesmo se estivesse bem. No total, pareceu mais simples acabar com ele, assim que eu tivesse certeza. Como trucidar uma vespa antes que ela pique você.
Fiquei calado, pensando. O relógio na parede dizia dez e meia. Al começara a conversa dizendo que estaria bem até a meia-noite, mas só era preciso olhar para ele e saber que isso fora um caso louco de otimismo.
Levei o copo dele e o meu para a cozinha, lavei e pus no escorredor. Era como se houvesse o funil de um tornado atrás da minha testa. Em vez de vacas, cercas e pedaços de papel, o que fora sugado e girava eram nomes: Lee Oswald, Bobby Oswald, Marina Oswald, Edwin Walker, Fred Hampton, Patty Hearst. Havia siglas brilhantes nesse torvelinho também, girando como enfeites cromados de capô arrancados de carros de luxo: JFK, RFK, MLK, SLA. O ciclone tinha até som, duas palavras russas repetidas várias vezes com sotaque sulista: pokhoda, suka.
Ande, cadela.
5
— Quanto tempo tenho para decidir? — perguntei.
— Não muito. A lanchonete fecha no final do mês. Conversei com um advogado sobre conseguir mais tempo — meter um processo neles ou coisa assim —, mas ele não se mostrou muito esperançoso. Já viu numa loja de móveis cartazes dizendo FIM DE CONTRATO, LIQUIDAMOS TUDO?
— Claro.
— Em cada dez casos, nove são só bobajada para vender mais, mas este é o décimo caso. E não estou falando de uma lojinha de 1,99 que quer o espaço, estou falando da Bean’s, e quando se trata de varejo no estado do Maine, L. L. Bean é o dono do pedaço. Em 1º de julho, a lanchonete vai sumir do mapa. Mas isso não é o mais importante. Em 1º de julho, talvez eu já tenha ido embora. Posso pegar um resfriado e morrer de pneumonia em três dias. Posso ter um enfarte ou um derrame. Ou posso me matar sem querer com esses malditos comprimidos de OxyContin. A enfermeira que vem me ver pergunta todo dia se estou tomando cuidado para não exagerar na dose, e estou, mas dá para ver que ela ainda tem medo de chegar aqui um dia de manhã e me encontrar morto, provavelmente porque fiquei doidão e perdi a conta. Além disso, os comprimidos inibem a respiração, e o meu pulmão já era. Como se não bastasse, emagreci muito.
— Sério? Nem notei.
— Ninguém gosta de piadistas, amigo; quando tiver a minha idade, você vai saber. Seja como for, quero que leve isso além do caderno. — Ele me estendeu uma chave. — É da lanchonete. Se me ligar amanhã e a enfermeira disser que morri de noite, você terá de agir depressa. Quer dizer, sempre supondo que vai decidir agir.
— Al, você não está planejando...
— Só tentando ser cuidadoso. Porque isso é importante, Jake. Até onde sei, é mais importante do que tudo. Se já pensou em mudar o mundo, eis a sua oportunidade. Salve Kennedy, salve o irmão dele. Salve Martin Luther King. Impeça os tumultos raciais. Impeça o Vietnã, talvez. — Ele se inclinou para a frente. — Livre-se do pobre vira-lata, amigo, e poderá salvar milhões de vidas.
— Isso é que é papo de vendedor — disse eu —, mas não preciso da chave. Quando o sol nascer amanhã, você ainda estará neste planetinha azul.
— Noventa e cinco por cento de probabilidade. Mas não é suficiente. Leve a droga da chave.
Peguei a droga da chave e a pus no bolso.
— Agora vou deixar você descansar.
— Mais uma coisa antes de ir. Preciso lhe falar de Carolyn Poulin e Andy Cullum. Sente-se de novo, Jake. Isso vai levar alguns minutos.
Fiquei em pé.
— Nada disso. Você está esgotado. Precisa dormir.
— Vou dormir quando morrer. Sente-se.
6
Al disse que, depois de descobrir o que chamava de toca de coelho, a princípio ficou contente de usá-la para comprar mantimentos, fazer algumas apostas com um bookmaker que encontrou em Lewiston e aumentar o seu estoque de dinheiro da década de 50. De vez em quando, no meio da semana, também tirava umas férias no lago Sebago, apinhado de peixes saborosos e perfeitamente bons para comer. Todos temiam a chuva atômica dos testes da bomba A, explicou, mas o medo de se envenenar com o mercúrio dos peixes contaminados ainda estava no futuro. Ele chamava esses passeios (geralmente nas terças e quartas, mas às vezes ele ficava até sexta) de miniférias. O tempo estava sempre bom (porque era sempre o mesmo tempo) e a pesca, sempre fantástica (provavelmente alguns peixes ele pescou várias vezes).
— Sei muito bem como se sente com tudo isso, Jake, porque fiquei praticamente em choque naqueles primeiros anos. Quer saber o que dá nó na cabeça? Descer aquela escada no frio da pior tempestade de nordeste em janeiro e sair naquele sol forte de setembro. Tempo para mangas de camisa, estou certo?
Fiz que sim e lhe disse que continuasse. O pouco de cor que estivera no seu rosto quando cheguei tinha sumido todo, e ele tossia sem parar de novo.
— Mas, com o tempo, o homem se acostuma com qualquer coisa, e quando o choque finalmente diminuiu, comecei a achar que encontrara aquela velha toca de coelho por alguma razão. Foi quando comecei a pensar em Kennedy. Mas lá veio a sua pergunta me atentar: é possível mudar o passado? Eu não estava preocupado com as consequências — pelo menos, não no começo —, só queria saber se dava para fazer. Numa das minhas idas a Sebago, peguei o canivete e escrevi AL T. - 2007 numa árvore perto da cabana onde eu ficava. Quando voltei para cá, entrei no carro e fui até o lago Sebago. As cabanas onde eu ficava tinham sumido; agora há um hotel turístico. Mas a árvore ainda está lá. E também o que escrevi nela. Velho, alisado, mas ainda lá: AL T. - 2007. Aí soube que dava para fazer. Então comecei a pensar no efeito borboleta.
“Na época havia um jornal em Lisbon Falls, o Lisbon Weekly Enterprise , e a biblioteca passou todos os microfilmes para o computador em 2005. Apressa bastante as coisas. Procurei um acidente no outono ou início do inverno de 1958. Um tipo específico de acidente. Eu podia ter ido até o início de 1959, se necessário, mas descobri o que procurava em 15 de novembro de 1958. Uma menina de 12 anos chamada Carolyn Poulin estava caçando com o pai do outro lado do rio, na parte de Durham que hoje se chama Bowie Hill. Por volta das duas horas daquela tarde — era um sábado — um caçador de Durham chamado Andrew Cullum atirou num veado naquela mesma parte da floresta. Errou o veado e acertou a menina. Ela estava a quase meio quilômetro, mas mesmo assim ele atingiu a menina. Penso nessas coisas, sabe. Quando Oswald atirou no general Walker, a distância era de menos de cem metros. Mas a bala resvalou na ripa de madeira do meio da janela e ele errou. A bala que paralisou a menina Poulin percorreu 400 metros — muito mais do que a bala que matou Kennedy — e errou todos os troncos e galhos de árvore pelo caminho. Se tivesse resvalado num ramo, era quase certo que não pegaria a garota. Muito certo, é o que penso.”
Essa foi a primeira vez que a expressão a vida muda de repente me passou pela cabeça. Não foi a última. Al pegou outro maxiabsorvente, tossiu, cuspiu, jogou na cesta de lixo. Depois, inspirou o máximo que podia e continuou. Não tentei impedir. Estava totalmente fascinado outra vez.
— Procurei o nome dela na ferramenta de busca do Enterprise e achei mais algumas reportagens. Ela se formou na Lisbon High School em 1965, um ano depois do resto da turma; mas se formou e foi para a Universidade do Maine. Administração. Virou contadora. Mora em Gray, a menos de 15 quilômetros do lago Sebago, onde eu costumava ir nas minhas miniférias, e ainda trabalha como autônoma. Adivinha quem é um dos seus maiores clientes?
Balancei a cabeça.
— John Crafts, bem aqui de Lisbon Falls. Squiggy Wheaton, um dos vendedores, é freguês da lanchonete, e certo dia, quando me disse que iam fazer a contagem anual do estoque e a “mulher das contas” estava lá examinando os livros, resolvi ir até lá e dar uma olhada. Ela está com 65 anos agora e... sabe como algumas mulheres dessa idade conseguem ser mesmo bonitas?
— Sei — respondi. Pensava na mãe de Christy, que só atingiu o ponto máximo da boa aparência depois de cinquentona.
— Carolyn Poulin é assim. Tem um rosto clássico, do tipo que os pintores de duzentos ou trezentos anos atrás adorariam, e tem um cabelo branco como neve que ela usa comprido, caindo pelas costas.
— Você parece apaixonado, Al.
Ele ainda tinha força suficiente para me dar uma banana.
— Ela está em ótima forma também. Mas isso quase seria de esperar, né, de uma mulher solteira que passa o dia subindo e descendo da cadeira de rodas e entrando e saindo da van adaptada que ela usa. Sem falar de subir e descer da cama, entrar e sair do chuveiro, o resto todo. E ela faz isso mesmo; Squiggy diz que ela é completamente autossuficiente. Fiquei impressionado.
— Então você decidiu salvá-la. Como teste.
— Voltei pela toca de coelho, só que dessa vez fiquei mais de dois meses na cabana em Sebago. Disse ao proprietário que recebi uma grana quando o meu tio morreu. Você tem de se lembrar disso, amigo: isso de tio rico é provado e comprovado. Todo mundo acredita porque todo mundo quer. Aí chega o dia: 15 de novembro de 1958. Não me meti com os Poulin. Dada a minha ideia de impedir Oswald, estou muito mais interessado em Cullum, o que atirou. Pesquisei ele também e descobri que morava a um quilômetro e meio de Bowie Hill, perto da velha sede da associação rural de Durham. Pensei em chegar lá antes que ele saísse para a floresta. Não foi assim que aconteceu.
“Saí da minha cabana em Sebago bem cedinho, o que para mim foi bom, porque eu mal tinha descido um quilômetro e meio pela estrada e o carro da Hertz que eu usava furou o pneu. Peguei o estepe, troquei e, embora tudo parecesse estar certinho, dali a outro quilômetro e meio o estepe também furou.”
— Peguei carona até o posto Esso de Naples, onde o borracheiro me disse que estavam com serviço demais para sair e trocar o pneu de um Chevrolet da Hertz. Acho que ele estava danado por perder a caçada de sábado. Uma gorjeta de vinte dólares mudou a ideia dele, mas só cheguei a Durham depois do meio-dia. Peguei a velha estrada do Contorno do Lago porque é o caminho mais rápido, e quer saber? A ponte do riacho Chuckle tinha caído na maldita água. Grandes cavaletes brancos e vermelhos; braseiros soltando fumaça; grandes placas alaranjadas dizendo ESTRADA FECHADA. Nisso eu já tinha uma boa ideia do que estava acontecendo e a sensação lenta de que eu não conseguiria fazer o que me dispusera a fazer naquela manhã. Não se esqueça de que saí às oito horas, só para garantir, e levei mais de quatro horas para percorrer menos de 30 quilômetros. Mas não desisti. Contornei pela estrada da igreja metodista, forçando ao máximo aquele calhambeque alugado, deixando um rabão de poeira atrás — naquela época, todas as estradas da região eram de terra.
“Tudo bem, aí vejo carros e caminhões estacionados nas laterais ou no início das estradas da floresta aqui e ali, e também vejo caçadores andando com as armas penduradas no braço. Todos eles acenaram para mim — o povo é mais amistoso em 1958, disso não há dúvida. Acenei de volta também, mas o que eu realmente esperava era outro enguiço. Ou pneu estourado. Provavelmente isso me tiraria direto da estrada e me jogaria na vala, porque eu ia a 90 pelo menos. Lembro de ter visto um dos caçadores dando tapinhas no ar, do jeito que o povo faz para dizer para a gente ir mais devagar, mas nem dei atenção.
“Voei pelo monte Bowie acima e, logo depois da velha igreja dos quacres, espiei uma picape estacionada junto do cemitério. POULIN CONSTRUÇÕES E CARPINTARIA pintado na porta. Traseira vazia. Poulin e a filha na floresta, talvez sentados nalguma clareira, almoçando e conversando do jeito que pais e filhas conversam. Ou pelo menos como imagino que conversem, já que nunca tive nenhuma...”
Outro longo ataque de tosse, que terminou com um terrível som úmido de vômito.
— Ah, merda, como isso dói — gemeu ele.
— Al, você precisa parar.
Ele fez que não e limpou com o pulso uma mancha de sangue do lábio inferior.
— Eu preciso é pôr isso pra fora, por isso cale a boca e me deixe falar. Dei uma longa olhada na picape, ainda a 90 por hora o tempo todo, e, quando voltei a olhar a estrada, vi que havia uma árvore caída atravessada. Parei bem na hora de não bater. Não era uma árvore grande e, antes que o câncer começasse a crescer, eu era bastante forte. Além disso, estava louco de raiva. Saí e comecei a brigar com ela. Enquanto fazia isso — soltando todos os palavrões do mundo —, veio um carro pelo outro lado. O homem desce, com colete de caça alaranjado. Não sei direito se é o meu homem ou não — a foto dele nunca saiu no Enterprise —, mas ele parece ter a idade certa. Ele diz: “Deixe eu ajudar com isso, meu velho.” “Muito obrigado”, respondo, e estendo a mão. “Bill Laidlaw.”
“Ele aperta a minha mão e diz ‘Andy Cullum’. Então era ele. Com toda a dificuldade que tive para chegar a Durham, mal pude acreditar. Me senti como se tivesse ganhado na loteria. Agarramos a árvore e, juntos, conseguimos tirar ela dali. Quando acabou, me sentei na estrada e segurei o peito. Ele me perguntou se eu estava bem. ‘Ah, não sei’, digo eu. ‘Nunca tive um enfarte, mas que parece, parece.’ E foi por isso que o sr. Andy Cullum nunca foi caçar naquela tarde de novembro, Jake, e por isso também não atirou em nenhuma menininha. Estava ocupado levando o coitado do Bill Laidlaw até o Hospital Central Geral do Maine em Lewiston.”
— Você fez isso? Você fez mesmo isso?
— Pode apostar. Disse a eles no hospital que almoçara um sanduíche triplo de presunto, salame, queijo e salada com molho italiano e o diagnóstico foi “indigestão aguda”. Paguei 25 dólares em dinheiro e eles me soltaram. Cullum esperou e me levou de volta até o meu Hertz, que tal esse exemplo de boa vizinhança? Voltei para casa em 2011 naquela mesma noite... só que é claro que voltei só dois minutos depois de partir. Merdas assim deixam a gente com jet lag sem nem entrar num avião.
“A minha primeira parada foi a biblioteca da cidade, onde olhei novamente a reportagem da formatura do secundário em 1965. Antes, havia uma foto de Carolyn Poulin. O reitor da época — Earl Higgins, faz tempo que ele partiu para o outro lado — estava se abaixando para entregar o diploma a ela na cadeira de rodas, toda vestida de beca e capelo. A legenda embaixo dizia: Carolyn Poulin atinge um grande objetivo na longa estrada da recuperação.”
— Ainda estava lá?
— A reportagem sobre a formatura estava, pode apostar. O dia da formatura sempre sai na primeira página nos jornais de cidade pequena, disso você sabe, amigo. Mas depois que voltei de 1958, a foto era de um garoto com um corte tipo Beatles meia-boca em pé na tribuna e a legenda dizia: Orador da turma, Trevor “Buddy” Briggs fala à plateia na formatura . Eles davam o nome de todos os formandos — eram só cento e poucos — e Carolyn Poulin não estava entre eles. Então fui olhar a notícia da formatura de 1964, que era o ano em que ela teria se formado se não estivesse ocupada se recuperando de um tiro na espinha. Bingo. Sem foto nem menção especial, mas ela estava ali, entre David Platt e Stephanie Routhier.
— Apenas mais uma marchando ao som da fanfarra, certo?
— Certo. Então pus o nome dela na ferramenta de busca do Enterprise e achei algumas coisas depois de 1964. Poucas, três ou quatro. Sobre o que se esperaria de uma mulher comum levando uma vida comum. Ela foi para a Universidade do Maine, se formou em administração de empresas e depois foi fazer a pós em New Hampshire. Achei mais uma reportagem de 1979, pouco antes de o Enterprise fechar. Dizia: EX-MORADORA DE LISBON VENCE CONCURSO NACIONAL DE LÍRIOS. Havia uma foto dela, em pé sobre as duas pernas boas, com o lírio vencedor. Ela mora... morou... não sei qual é o certo, talvez ambos... numa cidade perto de Albany, no estado de Nova York.
— Casada? Filhos?
— Acho que não. Na foto, ela ergue o lírio vencedor e não há aliança na mão esquerda. Sei o que está pensando, não mudou muita coisa, ela só é capaz de andar. Mas quem sabe? Estava morando num lugar diferente e influenciou a vida sei lá de quantas pessoas diferentes. Pessoas que ela jamais conheceria se Cullum tivesse atirado e ela ficasse em Lisbon Falls. Viu o que quero dizer?
O que eu via era que realmente era impossível saber, fosse como fosse, mas concordei com ele, porque queria terminar aquilo antes que ele tivesse um troço. E queria que ele fosse dormir são e salvo antes que eu fosse embora.
— O que estou lhe dizendo, Jake, é que dá para mudar o passado, mas não é tão fácil quanto parece. Naquela manhã, eu me senti como quem tenta abrir caminho para sair de uma meia de nylon. Ela cede um pouco e depois se fecha tão apertada quanto antes. Mas, finalmente, consegui passar.
— Por que seria difícil? Por que o passado não quer ser mudado?
— Alguma coisa não quer que seja mudado, disso tenho bastante certeza. Mas pode ser feito. Se a gente levar a resistência em conta, pode ser feito. — Al me olhava, os olhos brilhantes no rosto emaciado. — Considerando tudo, a história de Carolyn Poulin termina com “E ela viveu feliz para sempre”, não acha?
— Acho.
— Olhe o lado de dentro da capa de trás do caderno que lhe dei, amigo, e talvez mude de ideia. Uma coisinha que imprimi hoje.
Fiz o que ele pediu e vi que havia um bolso de cartolina. Para guardar coisas como memorandos e cartões de visita, pensei. Havia uma única folha de papel dobrada dentro dele. Tirei, abri e olhei durante muito tempo. Era uma cópia impressa da página 1 do Weekly Lisbon Enterprise. A data debaixo do cabeçalho era 18 de junho de 1965. A manchete dizia: TURMA DE 65 DO LHS SE FORMA COM RISOS E LÁGRIMAS . Na fotografia, um careca (o capelo enfiado debaixo do braço para não cair da cabeça) se curvava para uma moça sorridente numa cadeira de rodas. Segurava uma das pontas do diploma; ela segurava a outra. Carolyn Poulin atinge um grande objetivo na longa estrada da recuperação, dizia a legenda.
Ergui os olhos para Al, confuso.
— Se você mudou o futuro e a salvou, como pode ter isso?
— Cada viagem é um recomeço, amigo. Lembra?
— Ai, meu Deus. Quando você voltou para deter Oswald, tudo o que fez para salvar Poulin foi apagado.
— Sim... e não.
— Como assim, sim e não?
— A viagem de volta para salvar Kennedy seria a última, mas eu não estava com pressa para ir ao Texas. Por que estaria? Em setembro de 1958, Ozzie Coelho — era assim que os colegas fuzileiros chamavam ele — nem estava nos Estados Unidos. Ele viajava alegremente pelo sul do Pacífico com a sua unidade, mantendo o Japão e Formosa a salvo para a democracia. Assim, voltei às Cabanas Shadyside, em Sebago, e fiquei por lá até 15 de novembro. De novo. Mas, quando chegou a hora, saí ainda mais cedo de manhã, o que foi uma excelente ideia minha, porque não furei nenhum pneu dessa vez. O maldito Chevy de aluguel bateu o pino. Acabei pagando sessenta pratas ao cara do posto de Naples para usar o carro dele durante o dia, e lhe deixei como segurança extra o meu anel dos fuzileiros. Tive outras aventuras, que não vou me dar ao trabalho de recapitular...
— A ponte ainda estava caída em Durham?
— Não sei, amigo, nem tentei ir por lá. Quem não aprende com o passado é um idiota, na minha opinião. Uma coisa que sabia era de que lado vinha Andrew Cullum, e não perdi tempo para chegar lá. A árvore estava caída na estrada como antes, e quando ele chegou eu lutava com ela, como antes. Logo tive dor no peito, como antes. Representamos a comédia inteira, Carolyn Poulin passou o sábado na floresta com o pai e quinze dias depois eu dei adeuzinho e peguei o trem para o Texas.
— Então como é que eu ainda tenho essa foto dela se formando na cadeira de rodas?
— Porque cada viagem pela toca de coelho é um recomeço. — Depois Al só olhou para mim, para ver se eu entendia. Dali a um minuto, entendi.
— Eu...?
— Isso mesmo, amigo. Você comprou uma root beer esta tarde. E também pôs Carolyn Poulin de volta na cadeira de rodas.