Novembro de 63
Capítulo 24
1
Dada a tendência da história a se repetir, pelo menos à minha volta, ninguém se surpreenderá ao descobrir que o plano de Mike Coslaw para pagar as contas de Sadie era uma reapresentação do Jodie Jamboree. Ele disse que conseguiria que os participantes originais reprisassem o papel, desde que marcássemos para o meio do verão, e cumpriu a promessa — quase todos estavam a bordo. Ellie concordou até em repetir a sua robusta apresentação de Camptown Races e Clinch Mountain Breakdown no banjo, embora afirmasse que os dedos ainda doíam da vez anterior. Escolhemos os dias 12 e 13 de julho, mas por enquanto a questão ainda estava em dúvida.
O primeiro obstáculo a superar era a própria Sadie, que ficou horrorizada com a ideia. Ela a chamou de “aceitar esmola”.
— Parece que isso é algo que você aprendeu no colo da sua mãe — comentei.
Ela me olhou com raiva um instante, depois baixou os olhos e começou a puxar o cabelo na direção do lado ruim do rosto.
— E se for? Só por isso está errado?
— Hum, me deixe pensar. Você está falando de uma lição de vida da mulher cuja maior preocupação, ao descobrir que a filha foi mutilada e quase morreu, foi a opinião dos colegas de igreja.
— É degradante — argumentou ela em voz baixa. — Submeter-se à misericórdia da cidade é degradante.
— Você não achou isso quando era Bobbi Jill.
— Você está me forçando, Jake. Não faça isso.
Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe a mão. Ela a puxou. Peguei de novo. Dessa vez ela me deixou segurar.
— Sei que não é fácil para você, querida. Mas há uma hora de receber e uma hora de dar. Não sei se está no Livro de Eclesiastes, mas mesmo assim é verdade. O seu seguro de saúde é uma piada. O dr. Ellerton nos deu um desconto nos honorários dele...
— Eu nunca pedi...
— Psiu, Sadie. Por favor. É o chamado serviço pro bono e ele quis. Mas há outros cirurgiões envolvidos. A conta das cirurgias será enorme e os meus recursos têm limite.
— Quase preferia que ele tivesse me matado — sussurrou ela.
— Nunca mais diga isso. — Ela se encolheu com a raiva da minha voz, e as lágrimas começaram. Agora só podia chorar com um dos olhos. — Querida, todos querem fazer isso por você. Deixe. Sei que a sua mãe mora na sua cabeça; acho que é assim com a mãe de quase todo mundo; mas você não pode ceder aos caprichos dela neste assunto.
— Esses médicos não podem me consertar. Nunca mais serei como eu fui. Ellerton me falou.
— Eles podem consertar uma boa parte. — O que soava só um pouco melhor do que eles podem consertar um pouco.
Ela suspirou.
— Você é mais corajoso do que eu, Jake.
— Você é muito corajosa. Fará isso?
— O Circo de Caridade de Sadie Dunhill. A minha mãe se borraria toda se descobrisse.
— Mais uma razão, eu diria. Mandaremos algumas fotos para ela.
Isso a fez sorrir, mas só por um momento. Sadie acendeu um cigarro com dedos que tremiam de leve e depois começou a alisar o cabelo para o lado do rosto outra vez.
— Eu terei de ir? Para que eles vejam o que os seus dólares estão comprando? Como um porco de raça no balcão de leilões?
— É claro que não. Embora eu duvide que alguém vá desmaiar. A maioria do povo daqui já viu coisa pior. — Como membros do corpo docente numa área de agricultura e pecuária, nós mesmos tínhamos visto coisa pior: Britta Carlson, por exemplo, que ficara muito queimada num incêndio, ou Duffy Hendrickson, cuja mão esquerda parecia um casco depois que o guincho que segurava o motor de um caminhão se soltou na garagem do pai.
— Não estou pronta para esse tipo de inspeção. Acho que nunca estarei.
Torci com todo o coração para que isso não fosse verdade. Os malucos do mundo — os Johnny Clayton, os Lee Harvey Oswald — não poderiam vencer. Se Deus não melhorasse a situação depois que eles tivessem as suas pequenas vitórias de merda, então caberia às pessoas comuns melhorar. Pelo menos, tinham de tentar. Mas essa não era hora de fazer sermões sobre o assunto.
— Ajudaria se eu dissesse que o próprio dr. Ellerton concordou em participar do espetáculo?
Ela esqueceu o cabelo um instante e me fitou.
— O quê?
— Ele quer ser o traseiro de Bertha. — Bertha, o Pônei Dançarino, era uma criação de lona dos garotos do Departamento de Artes. Perambulara durante vários esquetes, mas o seu grande número foi uma dança abanando o rabo ao som de Back in the Saddle Again, de Gene Autry. (O rabo era controlado por uma cordinha puxada pela metade traseira da Equipe Bertha.) O povo do interior, pouco famoso pelo senso de humor sofisticado, achou-a hilariante.
Sadie começou a rir. Pude ver que doía, mas ela não conseguiu se segurar. Recostou-se no sofá, uma das palmas apertada no meio da testa como para impedir que o cérebro explodisse.
— Tudo bem! — disse ela quando finalmente conseguiu voltar a falar. — Deixarei você fazer só para assistir a isso. — Depois, me olhou com raiva. — Mas verei durante o ensaio geral. Você não vai me pôr no palco onde todo mundo possa me olhar e cochichar: “Ah, coitadinha dela.” Está claro?
— Claríssimo — respondi e a beijei. Esse era um empecilho. O próximo seria convencer o melhor cirurgião plástico de Dallas a ir a Jodie no calor de julho e dar pulinhos debaixo da parte traseira de uma fantasia de lona de quase quinze quilos Porque na verdade eu não o convidara.
Isso acabou não sendo um problema; Ellerton se animou feito criança quando lhe apresentei a ideia.
— Acho que tenho até experiência prática — afirmou ele. — Faz anos que a minha mulher me diz que sou um bundão.
2
O último obstáculo acabou sendo o local. Em meados de junho, na época em que Lee era chutado de um atracadouro de Nova Orleans pelos marinheiros do USS Wasp por tentar distribuir os seus folhetos pró-Fidel, Deke foi à casa de Sadie. Beijou-a na bochecha boa (ela afastava o lado ruim do rosto quando alguém ia visitar) e me perguntou se eu gostaria de sair para tomar uma cerveja gelada.
— Vá — disse Sadie. — Vou ficar bem.
Deke nos levou para um lugar duvidoso com ar-condicionado e telhado de chapa chamado Prairie Chicken, quinze quilômetros a oeste da cidade. Era o meio da tarde e o lugar estava vazio, a não ser por dois bebedores solitários no balcão, a vitrola automática escura. Deke me entregou um dólar.
— Eu pago, você pede. Que tal o acordo?
Fui até o bar e peguei duas Buckhorns com colarinho.
— Se eu soubesse que você ia trazer Buckies, eu mesmo teria ido — reclamou Deke. — Moço, esse troço é mijo de cavalo.
— Acontece que eu gosto — respondi. — De qualquer modo, pensei que você bebia em casa. Acho que já ouvi você dizer: “O quociente de idiotas dos bares locais é meio alto demais para o meu gosto.”
— Ah, não quero mesmo cerveja nenhuma. — Agora que estávamos longe de Sadie, pude ver que ele estava possesso. — O que quero é dar um soco na cara de Fred Miller e chutar a bunda seca de Jessica Caltrop.
Eu conhecia os nomes e os rostos, embora, tendo sido apenas um humilde escravo assalariado, jamais tivesse conversado de verdade com nenhum deles. Miller e Caltrop eram dois terços do Conselho Escolar do Condado de Denholm.
— Não pare por aí — incentivei. — Enquanto está sedento de sangue, me diga o que quer fazer com Dwight Rawson. Ele não é o terceiro?
— É Rawlings mesmo — confirmou Deke, mal-humorado —, mas ele eu passo. Ele votou a nosso favor.
— Não sei do que você está falando.
— Eles não querem deixar a gente usar a quadra da escola para o Jamboree. Mesmo sendo no meio do verão e ela esteja lá, vazia.
— Está brincando? — Sadie me dissera que alguns elementos da cidade poderiam ficar contra ela, e eu não acreditara. O bobo do Jake Epping, ainda agarrado às suas fantasias de ficção científica do século XXI.
— Filho, como eu gostaria de estar. Eles falaram de preocupações com o seguro contra incêndio. Ressaltei que não tiveram nenhuma preocupação com seguros contra incêndio quando foi em benefício de uma aluna que sofrera um acidente, e a tal Caltrop — uma gata velha e seca, é o que ela é — disse: “Claro, Deke, mas foi durante o ano letivo.” Tudo bem, eles têm as suas preocupações, principalmente sobre como é que um membro do corpo docente teve o rosto cortado pelo maluco com quem se casou. Têm medo de que isso seja mencionado no jornal ou, que Deus não permita, numa das estações de TV de Dallas.
— Que importância isso tem? — perguntei. — Ele... por Cristo, Deke, ele nem era daqui! Ele era da Geórgia!
— Pra eles, isso não importa. Pra eles, o que importa é que ele morreu aqui, e estão com medo que isso prejudique a imagem da escola. Da cidade. E deles.
Eu me ouvi balir, um som não muito nobre vindo de um homem no ponto alto da vida, mas não pude impedir.
— Isso não faz sentido nenhum!
— Eles a demitiriam, se pudessem, só para se livrar do embaraço. Como não podem, estão torcendo para ela pedir demissão antes que os garotos tenham de olhar o que Clayton fez com o rosto dela. A merda da maldita hipocrisia de cidade pequena no seu melhor aspecto, meu garoto. Quando tinha vinte e poucos anos, Fred Miller costumava aprontar de tudo nos bordéis de Nuevo Laredo duas vezes por mês. Ou mais, se conseguisse arranjar com o pai um adiantamento da mesada. E sei de fonte bem segura que, quando era a simples Jessie Trapp do Rancho Sweetwater, Jessica Caltrop ficou muito gorda aos 16 anos e bem magra uns nove meses depois. Tenho vontade de lhes dizer que a minha memória é ainda mais comprida que os seus malditos narizes, e os deixaria bem sem graça se quisesse. Não precisaria nem me esforçar muito.
— Eles não podem culpar Sadie pela maluquice do ex-marido... podem?
— Cresça, George. Às vezes você age como se tivesse nascido num estábulo. Ou nalgum país onde as pessoas realmente pensam direito. Para eles, tudo é sexo. Para gente como Fred e Jessica, tudo é sempre sexo. Provavelmente acham que Alfalfa e Batatinha de Os batutinhas passam o tempo livre transando com Darla atrás do celeiro enquanto Buckwheat dá força. E quando acontece algo assim, a culpa é da mulher. Eles não vão sair por aí dizendo isso, mas no fundo acreditam que os homens são animais e que as mulheres é que não conseguem domá-los, bom, é assim na cabeça deles, filho, é assim na cabeça deles. Eu não vou deixar eles fazerem isso.
— Vai ter de deixar — disse eu. — Senão, a briga vai atingir Sadie. E agora ela está frágil. Isso pode acabar com ela completamente.
— É — comentou ele. Remexeu no bolso do peito para tirar o cachimbo. — É, eu sei. Só estou desabafando. Ontem, Ellie falou com o pessoal que administra o Grange Hall. Eles deixariam a gente montar o espetáculo lá, e cabem cinquenta pessoas a mais. Por causa do balcão, sabe.
— Então está ótimo — disse eu, aliviado. — A cabeça fria predomina.
— Só tem um problema. Eles querem quatrocentas pratas pelas duas noites. Se eu arranjar duzentas, você consegue arranjar as outras duzentas? Não vai receber nada de volta do que for apurado, né. Vai tudo para o tratamento médico de Sadie.
Eu sabia muito bem o custo do tratamento médico de Sadie; já pagara trezentos dólares para cobrir a parte da internação hospitalar que o seguro de merda não quis pagar. Apesar da boa ação de Ellerton, as outras despesas se acumulariam rapidamente. Quanto a mim, ainda não estava no fundo do poço financeiro, mas ele já era visível.
— George? O que diz?
— Meio a meio — concordei.
— Então tome essa sua cerveja de merda. Quero voltar à cidade.
3
Na saída daquele triste arremedo de estabelecimento onde se servem bebidas, um cartaz colado na vitrine chamou a minha atenção. No alto:
ASSISTA À LUTA DO SÉCULO NA TV DE CIRCUITO FECHADO!
AO VIVO DO MADISON SQUARE GARDEN!
TOM “MARTELO” CASE DE DALLAS CONTRA DICK TIGER!
DALLAS AUDITORIUM
QUINTA-FEIRA, 29 DE AGOSTO
ENTRADAS ANTECIPADAS À VENDA AQUI
Abaixo havia fotos lado a lado de dois brutamontes de peito nu com os punhos enluvados erguidos à moda mais aceita. Um era jovem e sem marcas. O outro sujeito parecia muito mais velho, com o nariz quebrado algumas vezes. Mas foram os nomes que me fizeram parar. Eu os conhecia de algum lugar.
— Nem pense nisso — disse Deke, balançando a cabeça. — Você se divertiria mais assistindo a uma luta entre um pit bull e um cocker spaniel. Um cocker spaniel velho.
— É mesmo?
— Tommy Case sempre teve um coração fortíssimo, mas agora é um coração de quarenta anos num corpo de quarenta anos. Ficou barrigudo e mal consegue se mexer. Tiger é jovem e rápido. Será campeão daqui a poucos anos se os empresários não fizerem bobagem. Enquanto isso, lhe arranjam tanques ambulantes como Case para mantê-lo em forma.
Para mim, soou como Rocky Balboa contra Apollo Creed, mas por que não? Às vezes, a vida imita a arte.
Deke disse:
— Agora a gente paga para assistir à TV num auditório. Caramba, quem diria?
— Acho que é a onda do futuro — comentei.
— E provavelmente vai lotar, pelo menos em Dallas, mas isso não muda o fato de Tom Case ser a onda do passado. Tiger vai fazer picadinho dele. Está tudo bem com essa coisa do Grange, George?
— Totalmente.
4
Aquele foi um junho estranho. De um lado, fiquei contentíssimo de ensaiar com o elenco que montara o Jamboree original. Foi um déjà-vu do melhor tipo. Do outro, eu me via pensando, com frequência cada vez maior, se alguma vez realmente pretendera tirar Lee Harvey Oswald da equação da história. Não conseguia acreditar que me faltava coragem para isso — eu já matara um homem mau, e a sangue-frio —, mas era inegável que tivera Oswald na mira e o deixara partir. Disse a mim mesmo que era o princípio da incerteza e não a família dele, mas não parava de ver Marina sorrindo e pondo as mãos na frente da barriga. Não parava de me perguntar se ele também não era um fraco. Disse a mim mesmo que ele voltaria em outubro. Então, é claro, me perguntei como isso mudaria a situação. A mulher dele ainda estaria grávida e a janela de incerteza, ainda aberta.
Enquanto isso, havia a lenta recuperação de Sadie para supervisionar, havia contas a pagar, havia formulários de seguro a preencher (a burocracia tão enfurecedora em 1963 quanto em 2011) e aqueles ensaios. O dr. Ellerton só pôde participar de um deles, mas aprendeu depressa e cavalgou a sua parte de Bertha, o Pônei Dançarino, com brio encantador. Depois do ensaio, disse que queria pôr a bordo outro cirurgião, um especialista em rostos do hospital Mass General. Eu lhe disse, com o coração apertado, que parecia uma ótima ideia.
— Vocês podem pagar? — perguntou. — Mark Anderson não é barato.
— Daremos um jeito — respondi.
Convidei Sadie para os ensaios quando a data do espetáculo se aproximou. Ela recusou gentilmente mas com firmeza, apesar da promessa anterior a ir pelo menos ao ensaio geral. Raramente saía de casa e, quando saía, ia apenas até o quintal dos fundos. Não fora à escola nem à cidade desde a noite em que John Clayton cortara o rosto dela e depois a própria garganta.
5
Passei o final da manhã e o início da tarde de 12 de julho no Grange Hall, fazendo um último ensaio técnico. Mike Coslaw, que se instalara no papel de produtor com a mesma naturalidade do papel de comediante de pastelão, me contou que o espetáculo de sábado à noite estava esgotado e que o de sexta estava 90 por cento vendido.
— Na hora chegará gente suficiente para lotar, sr. A. Pode contar com isso. Só espero que Bobbi Jill e eu não erre o bis.
— Bobbi Jill e eu erremos, Mike. E vocês não vão errar.
Tudo isso era bom. Menos bom era passar pelo carro de Ellen Dockerty saindo da travessa Bee Tree ao mesmo tempo em que eu entrava e depois encontrar Sadie sentada junto da janela da sala com lágrimas na bochecha não marcada e um lenço na mão fechada.
— O quê? — perguntei. — O que foi que ela lhe disse?
Sadie me surpreendeu conseguindo sorrir. Era um sorriso torto, mas não sem certo encanto travesso.
— Nada que não fosse verdade. Por favor, não se preocupe. Vou lhe fazer um sanduíche e você pode me contar como foi.
E foi o que fiz. E me preocupei, é claro, mas guardei comigo as minhas preocupações. E também os comentários sobre o tema de diretores intrometidos da escola secundária. Naquela noite, às seis, Sadie me inspecionou, refez o nó da minha gravata e depois espanou fiapos, reais ou imaginários, dos ombros do meu paletó esporte.
— Eu lhe diria para quebrar a perna, mas você pode achar que é sério.
Ela usava jeans velhos e um blusão que camuflava — um pouco, pelo menos — o emagrecimento. Fiquei recordando o vestido lindo que usara no Jodie Jamboree original. Um vestido lindo naquela noite com uma moça linda dentro. Isso foi então. Nessa noite, a moça — ainda bonita num dos lados — estaria em casa quando o pano subisse, assistindo a uma reprise de Rota 66.
— O que foi? — perguntou ela.
— Gostaria que você estivesse lá, só isso.
Fiquei arrependido assim que falei, mas ficou quase tudo bem. O sorriso dela desbotou e voltou. Do jeito que o sol faz quando passa atrás de uma nuvem que só é pequena.
— Você estará lá. O que significa que eu estarei. — Ela me olhou com timidez séria com o único olho que o seu cabelo de Veronica Lake deixava visível. — Se me ama, quero dizer.
— Eu a amo muito.
— É, acho que ama mesmo. — Ela beijou o canto da minha boca. — E amo você. Portanto, não quebre nenhuma perna e agradeça a todos por mim.
— Agradecerei. Não tem medo de ficar aqui sozinha?
— Ficarei bem. — Na verdade essa não era uma resposta à minha pergunta, mas era a melhor que ela podia dar por enquanto.
6
Mike estava certo sobre a lotação. Esgotamos o espetáculo de sexta-feira uma hora inteira antes da estreia. Donald Bellingham, o nosso diretor de palco, baixou as luzes da casa às oito da noite em ponto. Esperava me sentir decepcionado depois do original quase sublime com o final das tortas (que só pretendíamos repetir na noite de sábado, o consenso sendo que só queríamos limpar o palco do Grange Hall — e as duas primeiras fileiras de poltronas — uma única vez), mas essa apresentação foi quase tão boa. Para mim, o ponto alto da comédia foi aquele maldito cavalo dançarino. Em certo momento, a metade dianteira do dr. Ellerton, um enlouquecido e entusiasmadíssimo treinador Borman, quase derrubou Bertha do palco.
O público acreditou que aqueles vinte ou trinta segundos de cambaleio em torno das luzes da ribalta faziam parte do espetáculo e aplaudiu calorosamente a façanha. Eu, que sabia a verdade, me vi preso num paradoxo emocional que provavelmente nunca se repetirá. Estava nos bastidores ao lado de um quase paralítico Donald Bellingham, que ria loucamente enquanto o meu coração aterrorizado cambaleava nos píncaros da minha garganta.
A harmonia da noite veio durante o bis. Mike e Bobbi Jill foram até o centro do palco de mãos dadas. Bobbi Jill encarou a plateia e disse:
— A srta. Dunhill significa muitíssimo para mim, por causa da sua gentileza e da sua caridade cristã. Ela me ajudou quando precisei de ajuda, e me fez querer aprender a fazer o que vamos fazer para vocês agora. Agradecemos a todos por virem aqui hoje e demonstrar a sua caridade cristã. Não é, Mike?
— É — respondeu ele. — Vocês todos são o máximo.
Ele olhou para a esquerda do palco. Apontei Donald, curvado sobre o picape com o braço erguido, pronto para colocá-lo no sulco. Dessa vez, o pai de Donald saberia muitíssimo bem que o filho pegara emprestado um dos seus discos de big bands, porque estava na plateia.
Glenn Miller, aquele bombardeiro finado há tanto tempo, começou a tocar In the Mood, e no palco, ao ritmo das palmas da plateia, Mike Coslaw e Bobbi Jill Allnut voaram num Lindy a jato muito mais fervente do que eu jamais conseguira, com Sadie ou com Christy. Tudo era juventude, alegria e entusiasmo, e isso o deixou fantástico. Quando vi Mike apertar a mão de Bobbi Jill, dizendo-lhe pelo toque para girar na outra direção e passar debaixo das suas pernas, de repente estava de volta a Derry, observando Bevvie-da-neve e Rique-do-dique.
É tudo a mesma coisa, pensei. É um eco quase tão perfeito que não dá para saber qual é a voz viva e qual é a voz fantasmagórica que retorna.
Por um instante tudo ficou claro e, quando isso acontece, a gente vê que o mundo mal existe. Em segredo, todos não sabemos disso? É um mecanismo de gritos e ecos que se equilibra com tanta perfeição fingindo ser rodas e engrenagens, um relógio de sonhos que toca atrás de um vidro de mistério que chamamos de vida. Atrás? Embaixo e em volta? Caos, tempestades. Homens com martelos, homens com facas, homens com armas de fogo. Mulheres que distorcem o que não podem dominar e desdenham o que não conseguem entender. Um universo de perdas e horrores a cercar um único palco iluminado onde os mortais dançam em desafio às trevas.
Mike e Bobbi Jill dançaram no seu tempo, e o seu tempo era 1963, aquela época de cabelo reco, televisores com gabinete e rock de garagem feito em casa. Dançaram num dia em que o presidente Kennedy prometeu assinar um tratado de proibição de testes nucleares e disse aos repórteres que não tinha “intenção de permitir que as nossas forças militares se atolem na política oculta e nos rancores antigos do sudeste da Ásia”. Dançaram como Bevvie e Richie tinham dançado, como Sadie e eu tínhamos dançado, e eram belos, e os amei, não pela sua fragilidade, mas por causa dela. Ainda os amo.
Eles terminaram com perfeição, as mãos levantadas, ofegantes e encarando a plateia, que se pôs de pé. Mike lhes deu quarenta segundos inteiros para bater as mãos (é espantoso com que rapidez as luzes da ribalta conseguem transformar um humilde defensor de futebol americano num rematado canastrão) e então pediu silêncio. Finalmente, conseguiu.
— O nosso diretor, sr. George Amberson, quer dizer algumas palavras. Ele investiu muito esforço e criatividade neste espetáculo e espero que vocês lhe deem uma boa saudação.
Subi debaixo de novos aplausos. Apertei a mão de Mike e dei uma beijoca na bochecha de Bobbi Jill. Eles desceram do palco. Ergui as mãos para pedir silêncio e comecei o meu discurso cuidadosamente ensaiado, dizendo a eles que Sadie não poderia estar ali naquela noite mas que eu agradecia a todos em nome dela. Quem fala em público e vale o sal que come sabe se concentrar em integrantes específicos da plateia, e me concentrei num casal na terceira fila que se pareciam muitíssimo com Ma e Pa do quadro American Gothic. Eram Fred Miller e Jessica Caltrop, os membros do conselho escolar que nos negaram o uso da quadra da escola com base em que o ataque do ex-marido a Sadie era de mau gosto e devia ser ignorado na medida do possível.
Depois de quatro frases, fui interrompido por arfadas de surpresa. Elas foram seguidas por aplausos — isolados, a princípio, mas logo crescendo numa tempestade. O público ficou em pé de novo. Eu não fazia ideia do que aplaudiam até sentir uma mão leve e hesitante segurar o meu braço abaixo do cotovelo. Virei-me e vi Sadie em pé ao meu lado com o seu vestido vermelho. Ela prendera o cabelo no alto e o segurara com uma fivela cintilante. O rosto, ambos os lados dele, estava completamente visível. Fiquei chocado ao descobrir que, depois de inteiramente revelado, o dano residual não era tão horroroso quanto eu temia. Podia haver aí algum tipo de verdade universal, mas eu estava atordoado demais para investigá-la. Sem dúvida era difícil olhar aquele oco profundo e rasgado e as marcas picotadas dos pontos que sumiam. Também era difícil olhar a carne frouxa e o olho esquerdo aberto e antinatural, que não piscava mais em conjunto com o direito.
Mas ela sorria aquele encantador sorriso unilateral e, aos meus olhos, isso fazia dela Helena de Troia. Abracei-a e ela me abraçou de volta, rindo e chorando. Debaixo do vestido, o corpo dela inteiro latejava como um fio de alta tensão. Quando voltamos a encarar a plateia, todos estavam em pé dando vivas, a não ser Miller e Caltrop. Que olharam em volta, viram que eram os únicos ainda com a bunda sentada e, relutantes, se juntaram aos outros.
— Obrigada — disse Sadie quando silenciaram. — Obrigada a todos, do fundo do meu coração. Agradeço especialmente a Ellen Dockerty, que me disse que, se eu não viesse aqui olhar todos vocês nos olhos, me arrependeria pelo resto da vida. E muitíssimo obrigada, mais que tudo, a...
A mais mínima das hesitações. Tenho certeza de que a plateia não notou, o que fez de mim o único a saber como Sadie chegou perto de dizer a quinhentas pessoas o meu verdadeiro nome.
— ... a George Amberson. Amo você, George.
O que fez a casa cair, é claro. Em tempos sombrios quando até os sábios ficam incertos, as declarações de amor sempre fazem a casa cair.
7
Às dez e meia, Ellen levou Sadie, que estava exausta, para casa. Mike e eu apagamos as luzes do Grange Hall à meia-noite e saímos no beco.
— Vamos à festa de comemoração, sr. A.? Al disse que deixaria a lanchonete aberta até as duas, e abriu alguns barris. Ele não tem licença para isso, mas acho que ninguém vai pôr ele na cadeia.
— Eu não — respondi. — Estou acabado. A gente se vê amanhã à noite, Mike.
Fui até a casa de Deke antes de ir para a minha. Ele estava sentado na varanda, de pijama, fumando o último cachimbo.
— Noite especialíssima — disse ele.
— É.
— Aquela moça tem coragem. Uma montanha de coragem.
— Tem sim.
— Vai ser correto com ela, filho?
— Vou tentar.
Ele fez que sim.
— Ela merece isso, depois do outro. E até agora você está indo bem. — Ele deu uma olhada no meu Chevy. — Provavelmente você pode ir de carro hoje e estacionar bem na frente. Depois desta noite, acho que ninguém na cidade vai achar ruim.
Talvez ele tivesse razão, mas decidi que era melhor prevenir do que remediar e o estacionei, como fizera em tantas outras noites. Precisava de tempo para deixar as minhas emoções se acalmarem. Não parava de vê-la no brilho da ribalta. O vestido vermelho. A curva graciosa do pescoço. A bochecha lisa... e a rasgada.
Quando cheguei à travessa Bee Tree e me fiz entrar, a cama dobrável ainda estava escondida. Fiquei olhando isso, perplexo, sem saber o que pensar. Então, no quarto, Sadie chamou o meu nome — o meu nome verdadeiro. Bem baixinho.
O abajur estava aceso, lançando uma luz suave sobre os ombros nus e um dos lados do seu rosto. Os olhos estavam sérios e luminosos.
— Acho que o seu lugar é aqui — disse ela. — Quero que fique aqui. Você quer?
Tirei a roupa e me deitei ao lado dela. A mão dela se moveu debaixo do lençol, me encontrou e me acariciou.
— Está com fome? Porque tem bolo quatro quartos, se estiver.
— Ah, Sadie, estou morrendo de fome.
— Então, apague a luz.
8
Aquela noite na cama de Sadie foi a melhor da minha vida — não porque fechasse a porta para John Clayton, mas porque abriu a porta de novo para nós.
Quando acabamos de fazer amor, caí no primeiro sono profundo que tivera em meses. Acordei às oito da manhã. O sol já estava alto, os Angels cantavam My Boyfriend’s Back no rádio da cozinha e eu senti o cheiro de bacon frito. Logo ela me chamaria para a mesa, mas não agora. Ainda não.
Pus as mãos atrás da cabeça e olhei o teto, meio espantado ao perceber como fora estúpido — como fora quase voluntariamente cego — desde o dia em que permitira que Lee embarcasse no ônibus para Nova Orleans sem fazer nada para impedir. Eu precisava mesmo saber se George de Mohrenschildt tivera, em relação à tentativa de assassinato de Edwin Walker, mais responsabilidade além de estimular um homenzinho instável a tentar? Ora, havia realmente um jeito bem mais simples de decidir isso, não havia?
Mohrenschildt sabia, logo eu iria lhe perguntar.
9
Foi a melhor refeição de Sadie desde a noite em que Clayton invadira a sua casa, e eu também me saíra muito bem. Juntos, limpamos meia dúzia de ovos, torradas e bacon. Quando os pratos estavam na pia e ela fumava um cigarro com a segunda xícara de café, eu disse que queria lhe fazer uma pergunta.
— Se for sobre ir ao espetáculo hoje à noite, não sei se consigo duas vezes.
— É outra coisa. Mas, como você mencionou, exatamente o que Ellie lhe disse?
— Que já era hora de parar de sentir pena de mim e voltar ao desfile.
— Foi bem dura.
Sadie puxou o cabelo contra o lado ferido do rosto — aquele gesto automático.
— A dona Ellie não é famosa pelo tato nem pela delicadeza. Se ela me chocou, entrando aqui de repente e me dizendo que era hora de parar de vagabundagem? Chocou, sim. Ela estava com a razão? Estava, sim. — Ela parou de acariciar o cabelo e, de repente, o empurrou para trás com a base da mão. — É assim que vou ser daqui em diante, com alguma melhora, então acho que é melhor me acostumar. Sadie vai descobrir se aquele velho ditado sobre a beleza estar só na superfície é verdadeiro mesmo.
— Era sobre isso que eu queria conversar com você.
— Tudo bem. — Ela soltou fumaça pelas narinas.
— Suponhamos que eu pudesse levar você a um lugar onde os médicos conseguiriam consertar os danos ao seu rosto — não perfeitamente, mas bem melhor do que o dr. Ellerton e a sua equipe conseguiriam. Você iria? Mesmo que soubesse que nunca mais poderíamos voltar para cá?
Ela franziu a testa.
— Estamos falando de hipóteses?
— Na verdade, não.
Ela esmagou o cigarro devagar e deliberadamente, pensando.
— É como a dona Mimi, que foi ao México para tratamentos experimentais de câncer? Porque não acho que...
— Estou falando sobre os Estados Unidos, querida.
— Bom, se é nos Estados Unidos, não entendo por que não poderíamos...
— Eis o resto: talvez eu tenha de ir. Com ou sem você.
— E nunca mais voltar? — Ela parecia alarmada.
— Nunca. Nunca nenhum de nós poderia, por razões que são difíceis de explicar. Acho que você está pensando que estou maluco.
— Sei que não. — Os olhos estavam perturbados, mas ela falou sem hesitar.
— Talvez eu tenha de fazer algo que pareceria muito ruim para os homens da lei. Não é ruim, mas ninguém sequer acreditaria.
— Isso... Jake, isso tem algo a ver com aquela coisa que você me falou sobre Adlai Stevenson? O que ele disse sobre o inferno congelar?
— Mais ou menos. Mas eis o problema. Mesmo que eu consiga fazer o que tenho de fazer sem ser pego — e acho que consigo —, isso não muda a sua situação. O seu rosto ainda continuará marcado em grau maior ou menor. Nesse lugar aonde posso levar você, há recursos médicos com que Ellerton só poderia sonhar.
— Mas nunca poderíamos voltar. — Ela não falava comigo; ela tentava arrumar tudo na cabeça.
— Não. — Fora todo o resto, se voltássemos a 9 de setembro de 1958, a versão original de Sadie Dunhill já existiria. Isso dava um nó na cabeça em que eu nem queria pensar.
Ela se levantou e foi até a janela. Ficou lá muito tempo, de costas para mim. Esperei.
— Jake?
— Diga, querida.
— Você pode prever o futuro? Pode, não é?
Não respondi.
Com voz bem baixa, ela perguntou:
— Você veio do futuro para cá?
Não respondi.
Ela se virou. O rosto estava muito pálido.
— Veio, Jake?
— Vim. — Foi como se uma pedra de trinta quilos saísse do meu peito. Ao mesmo tempo, fiquei apavorado. Por nós dois, mas principalmente por ela.
— De... de quando?
— Querida, tem certeza de que...
— Tenho. De quando?
— Quase quarenta e oito anos.
— Estou... morta?
— Não sei. Não quero saber. Aqui é agora. E aqui somos nós.
Ela pensou nisso. A pele em torno das marcas vermelhas das lesões ficara branquíssima e quis ir até ela, mas tive medo de me mexer. E se ela gritasse e fugisse de mim?
— Por que veio?
— Para impedir que um homem faça uma coisa. Eu o matarei, se for preciso. Quer dizer, se tiver certeza absoluta de que ele merece morrer. Até agora, ainda não consegui isso.
— O que é a coisa?
— Daqui a quatro meses, tenho bastante certeza de que ele vai matar o presidente. Ele vai matar John Ken...
Vi os joelhos dela começarem a ceder, mas ela conseguiu ficar em pé tempo suficiente para eu a pegar antes que caísse.
10
Levei-a para o quarto e fui ao banheiro molhar um pano com água fria. Quando voltei, os olhos dela já estavam abertos. Ela me olhou com uma expressão que não consegui decifrar.
— Eu não devia ter lhe contado.
— Talvez não — disse ela, mas não se encolheu quando me sentei ao seu lado na cama e soltou um suspirinho de prazer quando comecei a acariciar o rosto dela com o pano frio, contornando o lugar ferido, onde todas as sensações, a não ser uma dor surda e profunda, tinham sumido. Quando terminei, ela me olhou solenemente. — Me diga uma coisa que vai acontecer. Acho que, para acreditar em você, você tem de fazer isso. Algo como Adlai Stevenson e o inferno congelando.
— Não posso. Me formei em inglês e não em história americana. Estudei a história do Maine no secundário, era obrigatório, mas não sei quase nada sobre o Texas. Eu não... — Mas percebi que sabia uma coisa. Sabia a última coisa da seção de apostas do caderno de Al Templeton, porque conferira duas vezes. Para o caso de você precisar de uma última transfusão de dinheiro, ele escrevera.
— Jake?
— Sei quem vai ganhar uma luta no Madison Square Garden mês que vem. O nome dele é Tom Case e ele vai nocautear Dick Tiger no quinto assalto. Se isso não acontecer, acho que você poderá chamar os homens de jaleco branco. Mas pode guardar isso só entre nós até lá? Muita coisa depende disso.
— Posso. Isso eu posso fazer.
11
Quase esperei que Deke ou a dona Ellie me pegassem pela lapela depois da apresentação da segunda noite, de cara séria, para me dizer que tinham recebido um telefonema de Sadie dizendo que eu perdera a cabeça cheia de amor. Mas isso não aconteceu e, quando voltei à casa de Sadie, havia um bilhete na mesa dizendo Me acorde se quiser um lanchinho à meia-noite.
Não era meia-noite, ainda não, e ela não estava dormindo. Os próximos quarenta minutos, mais ou menos, foram muito agradáveis. Depois, no escuro, ela perguntou:
— Não tenho de decidir nada agora, não é?
— Não.
— E não temos de falar sobre isso agora.
— Não.
— Talvez depois da luta. Aquela de que você falou.
— Talvez.
— Acredito em você, Jake. Não sei se sou maluca por isso, mas acredito. E amo você.
— Amo você também.
Os olhos dela brilharam no escuro — o que era amendoado e lindo, o que caíra mas ainda enxergava.
— Não quero que nada lhe aconteça e não quero que você machuque ninguém a não ser que seja absolutamente necessário. E nunca por engano. Nunca jamais. Promete?
— Prometo. — Isso era fácil. Era essa a razão de Lee Oswald ainda estar respirando.
— Vai tomar cuidado?
— Vou. Tomarei todo o...
Ela deteve a minha boca com um beijo.
— Porque não importa de onde você veio, para mim não há futuro sem você. Agora, vamos dormir.
12
Achei que a conversa recomeçaria pela manhã. Eu não fazia ideia do que — querendo dizer quanto — lhe contaria quando contasse, mas no fim não tive de lhe contar nada porque ela não perguntou. Em vez disso, ela me perguntou quanto o Sadie Dunhill Charity Show produzira. Quando lhe respondi que pouco mais de 3 mil dólares, com o conteúdo da caixa de doações no saguão somado à bilheteria, ela jogou a cabeça para trás e soltou uma linda e sonora gargalhada. Três mil não cobririam todas as contas dela, mas valia um milhão só ouvi-la rir... e não ouvi-la dizer algo como Por que se incomodar, se posso simplesmente cuidar disso no futuro? Porque eu não tinha total certeza de que ela realmente queria ir mesmo, que realmente acreditasse, e porque eu não tinha certeza de que queria levá-la.
Queria estar com ela, claro. Pelo mais perto de para sempre que fosse possível. Mas podia ser melhor em 1963... e em todos os anos que Deus ou a Providência nos dessem depois de 1963. Nós poderíamos ser melhores. Eu conseguia vê-la perdida em 2011, olhando cada par de calças de cintura baixa e cada tela de computador com espanto e inquietação. Eu nunca bateria nela nem gritaria com ela — não, Sadie não —, mas ela ainda podia se tornar a minha Marina Prusakova, morando num lugar estranho e exilada para sempre da sua terra natal.
13
Havia uma pessoa em Jodie que talvez soubesse como eu poderia aproveitar o último registro de aposta de Al. Era Freddy Quinlan, o corretor de imóveis. Ele organizava em casa um jogo de pôquer semanal, cinco centavos para entrar, vinte e cinco para ficar, e eu fora algumas vezes. Em vários desses jogos ele se gabara do seu talento com apostas em dois campos: futebol americano profissional e o Torneio Estadual de Basquete do Texas. Ele só me recebeu no seu escritório porque, como disse, fazia calor demais para jogar golfe.
— Estamos falando do quê aqui, George? Aposta de tamanho médio ou casa com terreno?
— Estou pensando em quinhentos dólares.
Ele assoviou, depois se recostou na cadeira e cruzou as mãos sobre uma barriguinha ajeitadinha. Eram apenas nove da manhã, mas o ar-condicionado funcionava a toda. Pilhas de folhetos de imóveis ondulavam na exaustão gelada.
— Isso é coisa séria. Se importa de dividir comigo uma boa coisa?
Como ele estava me fazendo um favor — pelo menos, assim o esperava —, contei. As sobrancelhas dele subiram tão alto que correram o risco de encontrar a linha recuada do cabelo.
— Carambola! Por que não joga o seu dinheiro no esgoto?
— Tive um pressentimento, só isso.
— George, ouça o seu papai. A luta de Case com Tiger não é um evento esportivo, é um balão de ensaio para essa nova coisa de circuito fechado da TV. Pode haver algumas lutas boas no resto do programa, mas a principal é uma piada. Tiger terá instruções para levar o pobre velhote durante sete ou oito assaltos e depois vai botar ele pra dormir. A não ser...
Ele se inclinou para a frente. A cadeira fez um scronc desagradável nalgum lugar lá embaixo.
— A não ser que você saiba alguma coisa. — Ele se recostou de novo e franziu os lábios. — Mas como poderia? Por Cristo, você mora em Jodie. Mas, se soubesse, você contaria a um amigo, não contaria?
— Não sei de nada — respondi, mentindo descaradamente (e feliz com isso). — É só um pressentimento, mas da última vez que tive um pressentimento forte assim, apostei que os Pirates venceriam os Yankees na Série Mundial e ganhei uma bolada.
— Muito bom, mas você conhece o antigo ditado: até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia.
— Pode me ajudar ou não, Freddy?
Ele me deu um sorriso confortador que dizia que um tolo e o seu dinheiro logo se separariam.
— Tem um sujeito em Dallas que gostaria de aceitar esse tipo de aposta. O nome dele é Akiva Roth. Trabalha na Financeira Fé, na avenida Greenville. Herdou o negócio do pai faz uns cinco ou seis anos. — Ele baixou a voz. — Dizem que levou um castigo. — Ele baixou a voz ainda mais. — Carlos Marcello.
Isso era exatamente o que eu temia, porque também fora esse o boato sobre Eduardo Gutierrez. Pensei de novo no Lincoln com placa da Flórida estacionado na frente da Financeira Fé.
— Não sei se quero que me vejam indo a um lugar desses. Talvez eu queira voltar a ensinar, e pelo menos dois membros do conselho escolar já se irritaram comigo.
— Você podia tentar Frank Frati, lá em Fort Worth. Ele tem uma casa de penhores. — Scronc, fez a cadeira quando ele se inclinou para a frente para olhar melhor a minha cara. — O que foi que eu disse? Ou você engoliu um mosquito?
— Não, não. É só que já conheci um Frati. Que também tinha uma loja de penhores e aceitava apostas.
— Talvez ambos tenham vindo do mesmo clã de poupança e empréstimos da Romênia. Seja como for, ele pode aceitar quinhentos — ainda mais uma aposta furada do jeito que você está falando. Mas não pagará a probabilidade que você merece. É claro que Roth também não, mas seria melhor do que com Frank Frati.
— Mas com Frank eu não terei a ligação com a Quadrilha. Não é?
— Acho que não, mas quem sabe? Corretores de apostas, mesmo em meio expediente, não são famosos por ligações comerciais de alto nível.
— Talvez eu devesse aceitar o seu conselho e guardar o meu dinheiro.
Quinlan ficou horrorizado.
— Não, não, não, não faça isso. Aposte que os Bears vencerão o NFC. Desse jeito você ganha uma bolada. Praticamente garanto.
14
Em 22 de julho, disse a Sadie que tinha de resolver algumas coisas em Dallas e que pediria a Deke que ficasse com ela. Ela respondeu que não havia necessidade, que ficaria bem. Recuperava o seu antigo eu. De pouquinho em pouquinho, sim, mas recuperava.
Ela não fez perguntas sobre a natureza do que eu tinha a resolver.
A minha parada inicial foi no First Corn, onde abri o meu cofre de depósito e verifiquei três vezes as anotações de Al para conferir se realmente me lembrava do que achava que lembrava. E, sim, Tom Case seria o inesperado vencedor, nocauteando Dick Tiger no quinto assalto. Al deve ter encontrado a luta na internet, porque muito antes disso já partira de Dallas — e da sensacional década de 60.
— Posso ajudar em mais alguma coisa hoje, sr. Amberson? — perguntou o banqueiro ao me escoltar até a porta.
Bom, você poderia rezar uma pequena oração para o meu velho amigo Al Templeton não ter engolido um monte de bobagens da internet.
— Talvez. Sabe onde posso encontrar uma loja de fantasias? Preciso ser o mágico na festa de aniversário do meu sobrinho.
A secretária do sr. Link, depois de uma rápida olhada nas Páginas Amarelas, me indicou um endereço na rua Young. Lá, consegui comprar o que precisava. Guardei no apartamento da rua West Neely — enquanto eu pagasse o aluguel, ele teria de servir para alguma coisa. Também deixei lá o meu revólver, que pus numa prateleira alta do armário. O microfone, que eu retirara do abajur do andar de cima, foi para o porta-luvas do meu carro, juntamente com o esperto gravadorzinho japonês. Eu me livraria deles em algum lugar no mato quando voltasse a Jodie. Não tinham mais utilidade para mim. O apartamento do andar de cima ainda não fora realugado e a casa tinha um silêncio de assombração.
Antes de sair da rua Neely, dei uma volta pelo quintal lateral cercado onde, apenas três meses antes, Marina tirara fotografias de Lee segurando o fuzil. Não havia nada para ver, apenas terra batida e algumas ervas daninhas. Então, quando me virei para partir, vi alguma coisa: um vislumbre vermelho debaixo da escada externa. Era um chocalho de bebê. Peguei-o e guardei no porta-luvas do meu Chevy junto com o microfone, mas, ao contrário do microfone, fiquei com ele. Não sei por quê.
15
A minha próxima parada foi o rancho que se esparramava na rua Simpson Stuart onde George de Mohrenschildt morava com a esposa Jeanne. Assim que o vi, rejeitei-o para a reunião que planejara. De um lado, não dava para ter certeza de que Jeanne estaria ou não em casa e essa conversa específica tinha de ser estritamente de homem para homem. Do outro, não era isolada o bastante. O Paul Quinn College, escola só para negros, ficava ali perto e devia haver cursos de verão. Não havia magotes de garotos, mas vi muitos, alguns a pé, outros de bicicleta. Nada bom para os meus propósitos. Era possível que a nossa discussão fosse barulhenta. Era possível que não fosse, de jeito nenhum, uma discussão — pelo menos no sentido do dicionário.
Algo me chamou a atenção. Estava no gramado da frente dos Mohrenschildt, onde irrigadores lançavam borrifos graciosos no ar e criavam arco-íris que pareciam pequenos a ponto de caber no bolso. Aquele não era ano de eleições, mas no início de abril — mais ou menos na época em que alguém dera um tiro no general Edwin Walker — o representante do Quinto Distrito caíra morto com um enfarte. Haveria uma segunda eleição para a sua cadeira em 6 de agosto.
A placa dizia ELEJA JENKINS PARA O 5 º DISTRITO! ROBERT “ROBBIE” JENKINS, O CAVALEIRO BRANCO DE DALLAS!
De acordo com os jornais, Jenkins era isso mesmo, um direitista que andava olho no olho com Walker e com o assessor espiritual de Walker, Billy James Hargis. Robbie Jenkins defendia os direitos dos estados, escolas iguais mas separadas e a reinstituição do bloqueio de Cuba da época da crise dos mísseis. A mesma Cuba que Mohrenschildt chamara de “aquela linda ilha”. A placa confirmou uma forte sensação que eu já desenvolvera sobre os Mohrenschildt. Ele era um diletante que, no fundo, não tinha nenhuma crença política. Apoiaria quem o divertisse ou lhe pusesse dinheiro no bolso. Lee Oswald não poderia fazer o último — era tão pobre que fazia mendigos parecerem cheios da grana —, mas a sua dedicação sem humor ao socialismo combinada às ambições pessoais grandiosas deram a Mohrenschildt muito da primeira.
Uma dedução parecia óbvia. Lee nunca percorrera o gramado nem sujara os tapetes dessa casa com os seus pés de pobre coitado. Essa era a outra vida de Mohrenschildt... ou uma delas. A minha sensação era de que podia ter várias, mantendo-as todas em compartimentos estanques. Mas isso não respondia à pergunta central: estivera entediado a ponto de acompanhar Lee na missão de assassinar o monstro fascista Edwin Walker? Eu não o conhecia o suficiente nem para tentar adivinhar.
Mas conheceria. O meu coração já se decidira.
16
A placa na vitrine da casa de penhores de Frank Frati dizia BEM-VINDO À CENTRAL DOS VIOLÕES, e havia muitos em exposição: acústicos, elétricos, doze cordas e uma guitarra com dois braços que me fez lembrar algo que vira num vídeo de Mötley Crüe. É claro que havia todos os outros detritos de vidas destruídas — anéis, broches, colares, rádios, pequenos aparelhos. A mulher que me confrontou era magra em vez de gorda, usava calças e uma blusa da Ship N Shore em vez de um vestido roxo e mocassins, mas o rosto de pedra era o mesmo da mulher que conhecera em Derry, e ouvi as mesmas palavras saírem da minha boca. Pelo menos, o bastante para passar pelo controle de qualidade.
— Eu gostaria de discutir com o sr. Frati uma proposta de negócios bastante vultosa e ligada a esportes.
— É? Quando está em casa com os pés pra cima isso se chama aposta?
— Você é da polícia?
— Claro, sou o chefe Curry, da Polícia de Dallas. Não dá para ver pelos óculos e pelas bochechas caídas?
— Não vejo óculos nem bochechas caídas, madame.
— É porque estou disfarçado. Em que quer apostar no meio do verão, colega? Não há nada para apostar.
— Case-Tiger.
— Em qual?
— Case.
Ela olhou o teto e depois gritou por sobre o ombro.
— É melhor vir aqui, pai, temos um de verdade.
Frank Frati tinha pelo menos o dobro da idade de Chaz Frati, mas a semelhança ainda estava lá. Eram aparentados, claro que eram. Se eu mencionasse que já fizera uma aposta com um sr. Frati em Derry, no Maine, sem dúvida teríamos uma agradável conversinha sobre o tamanho tão pequeno do mundo.
Em vez disso, fui direto à negociação. Poderia apostar quinhentos dólares que Tom Case venceria a luta com Dick Tiger no Madison Square Garden?
— Mas é claro — disse Frati. — O senhor também poderia enfiar um ferro em brasa lá naquele lugar, mas por que faria isso?
A filha deu uma risadinha rápida e viva.
— Que tipo de vantagem eu levaria?
Ele olhou a filha. Ela ergueu as mãos. Dois dedos levantados na esquerda, um na direita.
— Dois para um? Ridículo.
— A vida é ridícula, meu amigo. Vá assistir a uma peça de Ionesco, se não acredita. Recomendo Vítimas do dever.
Bom, pelo menos ele não me chamou de primo, como fizera o primo dele de Derry.
— Trabalhe um pouco comigo nisso, Sr. Frati.
Ele pegou um violão acústico Epiphone Hummingbird e começou a afiná-lo. Era assustadoramente rápido.
— Então me dê algo para trabalhar ou então vá lá para Dallas. Tem um lugar chamado...
— Conheço o lugar de Dallas. Prefiro Fort Worth. Já morei aqui.
— O fato de ter se mudado mostra mais bom senso do que apostar em Tom Case.
— Que tal Case por nocaute em algum momento dos sete primeiros assaltos? Que vantagem eu teria nisso?
Ele olhou a filha. Dessa vez ela ergueu três dedos na mão esquerda.
— E Case por nocaute nos cinco primeiros assaltos?
Ela deliberou e depois ergueu o quarto dedo. Decidi não forçar mais a barra. Escrevi o meu nome no livro dele e lhe mostrei a carteira de motorista, com o polegar em cima do endereço em Jodie como fizera ao apostar nos Pirates na Financeira Fé quase três anos antes. Depois, entreguei o meu dinheiro, cerca de um quarto de toda a liquidez que me restava, e enfiei o recibo na carteira. Dois mil seriam suficientes para pagar mais algumas despesas de Sadie e me aguentar pelo tempo restante que passaria no Texas. Além disso, eu não queria explorar esse Frati, assim como não quisera explorar Chaz Frati, muito embora ele tivesse posto Bill Turcotte atrás de mim.
— Voltarei no dia seguinte ao baile — disse eu. — Prepare o meu dinheiro.
A filha riu e acendeu o cigarro.
— Não foi isso que a moça do coro disse ao arcebispo?
— O seu nome é Marjorie, por acaso? — perguntei.
Ela ficou paralisada com o cigarro na frente do corpo e fumaça escapulindo entre os lábios.
— Como é que sabe? — Ela viu a minha cara e riu. — Na verdade, é Wanda, colega. Espero que aposte melhor do que adivinha nomes.
Na volta para o carro, esperei a mesma coisa.