Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 28 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 27

1

17/11/63 (domingo)

Sadie queria lavar a louça depois da refeição que ela chamava de ceia e eu, de jantar, mas eu lhe disse que fosse fazer a mala. Era pequena e azul, com cantos redondos.

— O seu joelho...

— O meu joelho pode aguentar alguns pratos. Você precisa cair na estrada já, se quiser uma boa noite de sono.

Dez minutos depois a louça estava lavada, a ponta dos meus dedos enrugada e Sadie, à porta. Com a malinha nas mãos e o cabelo cacheando-se em volta do rosto, para mim ela estava mais bonita do que nunca.

— Jake? Me conte uma coisa boa sobre o futuro.

Surpreendentemente, poucas coisas me vieram. Celulares? Não. Atentados suicidas? Provavelmente não. Calotas polares derretendo? Talvez outra hora.

Então, sorri.

— Vou lhe dar duas pelo preço de uma. A guerra fria acabou e o presidente é negro.

Ela começou a sorrir e depois viu que eu não estava brincando. A boca se escancarou.

— Está me dizendo que há um negro na Casa Branca?

— Isso mesmo. Embora na minha época eles prefiram ser chamados de afro-americanos.

— Está falando sério?

— Estou sim.

— Meu Deus!

— Muitíssima gente disse exatamente isso no dia seguinte à eleição.

— Ele... está fazendo um bom trabalho?

— As opiniões variam. Se quer a minha, ele está indo tão bem quanto seria de esperar, dada a complexidade.

— Depois disso, acho que vou voltar a Jodie. — Ela riu, distraída. — Meio tonta.

Ela desceu a rampa, pôs a mala no cubículo que servia de porta-malas do fusquinha e depois me mandou um beijo. Começou a entrar no carro, mas eu não podia deixar que se fosse assim. Não podia correr — o dr. Perry disse que isso só seria possível dali a oito meses, talvez um ano —, mas manquei rampa abaixo o mais depressa possível.

— Espere, Sadie, espere um minuto!

O sr. Kenopensky estava sentado na sua cadeira de rodas na casa ao lado, envolto numa jaqueta e segurando no colo o rádio de pilha Motorola. Na calçada, Norma Whitten fazia o seu caminho lento até a caixa de correio na esquina, usando um par de varas de madeira mais parecidas com bastões de esqui do que com muletas. Ela se virou e acenou para nós, tentando erguer o lado paralisado do rosto num sorriso.

Questionadora, Sadie me olhou no crepúsculo.

— Só queria lhe dizer uma coisa — expliquei. — Queria lhe dizer que você é a melhor coisa que já me aconteceu.

Ela riu e me abraçou.

— Você também, gentil senhor.

Demos um longo beijo e poderíamos ter demorado mais se não fosse o som seco de palmas à nossa direita. O sr. Kenopensky aplaudia.

Sadie se afastou, mas me segurou pelos pulsos.

— Você vai me ligar, não vai? Me mantenha... como é que você diz? No rolo?

— É isso, e manterei. — Eu não tinha a mínima intenção de mantê-la no rolo. Nem Deke nem a polícia.

— Porque você não pode fazer isso sozinho, Jake. Você está fraco demais.

— Sei disso — respondi. Pensando: É melhor que não. — Me ligue para eu saber que chegou bem.

Quando o fusquinha virou a esquina e desapareceu, o sr. Kenopensky disse:

— É bom agir direitinho, Amberson. Essa daí é pra guardar.

— Eu sei. — Fiquei no início da entrada de automóveis tempo suficiente para me assegurar de que a srta. Whitten voltava da caixa de correio sem cair.

Ela conseguiu.

Voltei para dentro.

2

A primeira coisa que fiz foi pegar o meu chaveiro em cima da cômoda e examinar as chaves, surpreso de Sadie nunca ter me mostrado todas elas para ver se despertavam a minha memória... mas é claro que ela não podia pensar em tudo. Havia uma dúzia contada. Eu não fazia ideia do que era a maioria delas, embora tivesse bastante certeza de que a Schlage abria a porta da frente da minha casa em... seria Sabattus? Achei que era isso, mas não tinha certeza.

Havia uma chavinha no anel. Estava gravado nela FC e 775. Era a chave de um cofre de depósito, tudo bem, mas qual era o banco? First Commercial? Parecia nome de banco, mas não era isso.

Fechei os olhos e olhei a escuridão. Esperei, quase certo de que o que eu queria viria... e veio. Vi um talão de cheques numa capa de jacaré sintético. Vi a minha mão abri-lo. Foi surpreendentemente fácil. Impresso no primeiro cheque estava não só o meu nome na Terra de Antigamente como o meu último endereço oficial na Terra de Antigamente.

R. W. Neely, 214, apto. 1

Dallas, TX

Pensei: Foi lá que roubaram o meu carro.

E pensei: Oswald. O nome do assassino é Oswald Coelho.

Não, é claro que não. Ele era um homem, não um personagem de desenho animado. Mas estava perto.

— Vou atrás de você, sr. Coelho — disse. — Ainda vou.

3

O telefone tocou pouco depois das nove e meia. Sadie chegara bem em casa.

— Será que você se lembrou de mais alguma coisa? Sou uma peste, eu sei.

— Nada. E você está muito longe de ser uma peste. — Ela também ficaria muito longe de Oswald Coelho, se eu tivesse algo a ver com isso. Sem falar da mulher dele, cujo nome podia ou não ser Maria, e a filhinha, que eu tinha certeza de se chamar April.

— Você estava brincando comigo sobre isso de haver um negro na Casa Branca, não estava?

Sorri.

— Espere só. Você verá com os seus próprios olhos.

4

18/11/63 (segunda-feira)

As enfermeiras do DAVIN, uma velha e formidável, a outra jovem e bonita, chegaram às nove horas da manhã em ponto. Fizeram o que tinham de fazer. Quando achou que eu fizera careta, me contorcera e gemera o suficiente, a mais velha me entregou um envelope de papel com dois comprimidos dentro.

— Dor.

— Acho que eu não...

— Tome — disse ela, mulher de poucas palavras. — Grátis.

Enfiei-os na boca, bochechei, engoli a água e depois pedi licença para ir ao banheiro. Lá, cuspi os dois. Quando voltei à cozinha, a enfermeira mais velha disse:

— Bom progresso. Não exagere.

— Claro que não.

— Pegaram?

— Como?

— Os imbecis que surraram você.

— Hã... ainda não.

— Anda fazendo o que não deve?

Dei-lhe o meu maior sorriso, aquele que Christy costumava dizer que me deixava com cara de apresentador de TV com crack na ideia.

— Não lembro.

5

O dr. Ellerton veio almoçar e trouxe sanduíches imensos de rosbife, batatas fritas crocantes pingando banha e os prometidos milk-shakes. Comi o máximo que consegui, o que foi muito mesmo. O meu apetite estava voltando.

— Mike deu a ideia de fazerem um novo espetáculo de variedades — disse ele. — Dessa vez em seu benefício. No final, o bom senso prevaleceu. Cidades pequenas têm limite para o que podem doar. — Ele acendeu um cigarro, jogou o fósforo no cinzeiro da mesa e inalou com prazer. — Alguma chance de a polícia pegar os bandidos que atacaram você? Soube de alguma coisa?

— Nada, mas duvido. Eles limparam a minha carteira, roubaram o meu carro e fugiram.

— O que estava fazendo naquele lado de Dallas, afinal? Não é exatamente a parte mais elegante da cidade.

Bom, aparentemente eu morava lá.

— Não me lembro. Talvez visitando alguém.

— Tem descansado o suficiente? Não está forçando demais o joelho?

— Não. — Embora desconfiasse que ia forçá-lo bastante em breve.

— Ainda adormece de repente?

— Isso está bem melhor.

— Fantástico. Acho...

O telefone tocou.

— Deve ser Sadie — disse eu. — Ela me liga na hora do almoço.

— Tenho de ir andando, mesmo. É ótimo ver que está engordando, George. Diga olá à moça bonita por mim.

Eu disse. Ela me perguntou se alguma lembrança pertinente tinha voltado. Pela expressão cuidadosa, soube que ligava do escritório central da escola — e teria de pagar o interurbano à sra. Coleridge quando terminasse. Além de fazer a contabilidade da DCHS, a sra. Coleridge tinha orelhas compridas.

Disse que não, nenhuma lembrança nova, mas que ia tirar um cochilo e torcia para algo aparecer quando acordasse. Acrescentei que a amava (era bom dizer algo que era a sinceridade de Deus), perguntei por Deke, lhe desejei boa tarde e desliguei. Mas não tirei um cochilo. Peguei as chaves do carro e a pasta e fui para o centro da cidade. Pedi a Deus para ter algo naquela pasta quando voltasse.

6

Dirigi devagar e com cautela, mas mesmo assim o meu joelho doía muito quando entrei no First Corn Bank e apresentei a chave do meu cofre.

O meu gerente saiu da sua sala para me receber, e o nome dele surgiu imediatamente: Richard Link. Os olhos dele se arregalaram de preocupação quando fui cumprimentá-lo mancando.

— O que lhe aconteceu, sr. Amberson?

— Acidente de carro. — Torcendo para que não tivesse visto ou tivesse se esquecido da notinha na página policial do Morning News. Eu mesmo não vira, mas fora publicada: Sr. George Amberson, de Jodie, surrado e roubado, foi encontrado inconsciente e levado ao Parkland Hospital. — Estou quase bom.

— Isso é bom de se ouvir.

Os cofres de depósito ficavam no porão. Negociei com as escadas uma série de saltitos. Usamos as nossas chaves e Link levou a caixa para mim até um dos cubículos. Colocou-a numa mesinha de canto apenas suficiente para lhe servir de apoio e apontou o botão na parede.

— Toque para chamar Melvin quando acabar. Ele virá ajudar.

Agradeci e, quando ele saiu, puxei a cortina que fechava a entrada do cubículo. Tínhamos destrancado a caixa, mas ela ainda estava fechada. Fitei-a, o coração batendo com força. O futuro de John Kennedy estava ali dentro.

Abri. Em cima havia um maço de notas e um monte de coisas do apartamento da rua Neely, inclusive o meu talão de cheques do First Corn. Embaixo havia um maço de manuscritos preso com dois elásticos. O LOCAL DO CRIME estava datilografado na folha de cima. Sem nome de autor, mas era trabalho meu. Embaixo havia um caderno azul: a Palavra do Al. Segurei-o nas mãos, cheio de uma certeza terrível de que, quando o abrisse, todas as páginas estariam vazias. O Homem do Cartão Amarelo as teria apagado.

Por favor, não.

Abri. Na primeira página, uma fotografia me olhou. Rosto estreito, não muito bonito. Lábios curvados num sorriso que eu conhecia bem — não o tinha visto com os próprios olhos? Era o tipo de sorriso que diz eu sei o que está acontecendo e você não, tadinho.

Lee Harvey Oswald. O pobre vira-lata que mudaria o mundo.

7

As lembranças vieram a toda enquanto eu estava ali sentado no cubículo, ofegante.

Ivy e Rosette na rua Mercedes. Sobrenome Templeton, como o de Al.

As puladoras de corda: O meu pai dirige um sub-ma-ri-no.

Silent Mike (Holy Mike) da Eletrônica Satélite.

George de Mohrenschildt rasgando a camisa como o Super-Homem.

Billy James Hargis e o general Edwin A. Walker.

Marina Oswald, a bela refém do assassino, em pé à minha porta no 214 da West Neely. Por favor, desculpa, viu moí marits?

O Texas School Book Depository.

Sexto andar, janela de sudeste. A que tinha a melhor vista da Dealey Plaza e da rua Elm quando se curvava na direção do trevo.

Comecei a tremer. Segurei os braços com força nos punhos fechados cruzados sobre o peito. Isso fez o esquerdo, quebrado pelo cano enrolado com feltro, doer, mas não me importei. Estava contente. Isso me ligava ao mundo.

Quando o tremor finalmente passou, enfiei o manuscrito inacabado, o precioso caderno azul e tudo o mais na minha pasta. Estendi a mão para o botão que chamaria Melvin e depois dei uma última olhada no fundo da caixa. Lá achei mais dois itens. Um era a aliança barata que eu comprara numa loja de penhores para dar credibilidade à história que contei na Eletrônica Satélite. O outro era o chocalho vermelho de bebê que pertencera à filhinha dos Oswald (June, não April). O chocalho foi para a pasta, o anel para o bolsinho da calça. Eu o jogaria fora no caminho de casa. Se e quando chegasse a hora, Sadie teria outro muito mais bonito.

8

Batidas no vidro. Depois, uma voz.

— ... está bem? O senhor está bem?

Abri os olhos, a princípio sem saber onde estava. Olhei para a esquerda e vi um policial fardado batendo na janela do Chevy do meu lado. Então veio. A meio caminho de Eden Fallows, cansado, exultante e apavorado, tudo ao mesmo tempo, aquela sensação de vou dormir entrou na minha cabeça. Parei imediatamente numa vaga próxima. Isso fora por volta das duas da tarde. Agora, pelo jeito da luz que se reduzia, devia ser umas quatro.

Abri a janela e disse:

— Sinto muito, policial. De repente comecei a sentir muito sono, e achei mais seguro estacionar.

Ele fez que sim.

— Claro, claro, o álcool faz isso. Quantas doses tomou antes de entrar no carro?

— Nenhuma. Sofri uma lesão na cabeça alguns meses atrás. — Girei o pescoço para ele ver o lugar onde o cabelo ainda não crescera.

Ele ficou meio convencido, mas mesmo assim pediu que eu bafejasse o seu rosto. Isso completou a outra metade.

— A carteira, por favor — disse ele.

Mostrei-lhe a minha carteira de motorista do Texas.

— Não está pensando em dirigir até Jodie, está?

— Não, policial, só até o norte de Dallas. Estou num centro de reabilitação chamado Eden Fallows.

Eu suava. Torci para que, se ele notasse, atribuísse o suor ao cochilo num carro fechado num dia quentinho de novembro. Também torci, com fervor, para que não pedisse para ver o que havia na pasta no banco ao meu lado. Em 2011, eu poderia me recusar a atender a um pedido desses e dizer que dormir no carro não era crime nenhum. Droga, a vaga não tinha sequer parquímetro. Mas, em 1963, um policial podia simplesmente pegar e examinar. Não acharia drogas, mas acharia dinheiro solto, um manuscrito com a palavra crime na capa e um caderno cheio de maluquices delirantes sobre Dallas e JFK. Ele me levaria para a delegacia mais próxima para ser interrogado ou de volta ao hospital para avaliação psiquiátrica? Os Walton levam tempo demais para dizer boa noite?

Ele ficou ali um instante, grande, de rosto corado, um policial de Norman Rockwell que ficaria melhor numa capa do Saturday Evening Post. Então me devolveu a carteira.

— Tudo bem, sr. Amberson. Volte a esse tal de Fallows e sugiro que estacione o carro para passar a noite quando chegar lá. O senhor está pálido, com ou sem cochilo.

— É exatamente o que planejo fazer.

Ao me afastar, pude ver pelo retrovisor que ele me observava. Tive certeza de que ia adormecer de novo antes de sair da vista dele. Dessa vez não haveria aviso; eu simplesmente sairia da rua e subiria na calçada, talvez atropelando dois ou três pedestres antes de acabar na vitrine de uma loja de móveis.

Quando finalmente estacionei diante da minha casinha com a rampa que levava à porta da frente, a cabeça doía, os olhos lacrimejavam, o joelho latejava... mas as minhas lembranças de Oswald continuavam firmes e claras. Joguei a pasta na mesa da cozinha e liguei para Sadie.

— Tentei ligar quando voltei da escola, mas você não estava — disse ela. — Fiquei preocupada.

— Estava no vizinho, jogando cribbage com o sr. Kenopensky. — Essas mentiras eram necessárias. Eu tinha de me lembrar disso. E tinha de contá-las direito, porque ela me conhecia.

— Ora, isso é bom. — Então, sem pausa nem mudança de voz: — Como ele se chama? Como é o nome do homem?

Lee Oswald. No fim das contas, ela quase me pegou de surpresa.

— Eu... ainda não sei.

— Você hesitou. Eu escutei.

Esperei a acusação, segurando o telefone com tanta força que doeu.

— Dessa vez quase surgiu na sua cabeça, não foi?

— Foi isso mesmo — concordei com cuidado.

Conversamos uns quinze minutos enquanto eu olhava a pasta que continha as anotações de Al. Ela me pediu que ligasse mais tarde. Prometi que sim.

9

Decidi esperar até depois do noticiário do Huntley-Brinkley Report para abrir de novo o caderno azul. Achava que não encontraria muita coisa de valor prático nesse momento. As últimas anotações de Al eram apressadas e superficiais; ele nunca esperara que a Missão Oswald demorasse tanto tempo. Nem eu. Chegar ao cretininho desafeiçoado era como viajar numa estrada cheia de galhos caídos, e no final o passado poderia conseguir se proteger, afinal de contas. Mas eu impedira Dunning. Isso me deu esperança. Eu tinha vislumbres de um plano que poderia permitir que eu detivesse Oswald sem ir para a prisão nem para a cadeira elétrica em Huntsville. Tinha excelentes razões para querer continuar livre. A melhor de todas estava em Jodie naquela noite, provavelmente servindo canja a Deke Simmons.

Percorri metodicamente o meu pequeno apartamento preparado para inválidos recolhendo coisas. Fora a minha velha máquina de escrever, não queria deixar para trás nenhum vestígio de George Amberson quando partisse. Torcia que fosse apenas na quarta-feira, mas se Sadie dissesse que Deke estava melhor e planejava voltar na noite de terça, eu teria de apressar as coisas. E onde me esconderia até que o meu serviço terminasse? Ótima pergunta.

Um toque de trompete anunciou o noticiário em rede nacional. Chet Huntley apareceu. “Depois de passar o fim de semana na Flórida, onde assistiu ao teste de lançamento de um míssil Polaris e visitou o pai doente, o presidente Kennedy teve uma segunda-feira movimentada e fez cinco discursos em nove horas.”

Um helicóptero — o Marine One — desceu enquanto a multidão à espera dava vivas. A tomada seguinte mostrava Kennedy se aproximando da multidão atrás de uma barreira improvisada, arrumando o cabelo despenteado com uma das mãos e a gravata com a outra. Ele andava bem à frente do contingente do Serviço Secreto, que corria para acompanhar. Observei, fascinado, ele realmente passar por uma abertura na barreira e mergulhar na massa de gente à espera, apertando mãos à direita e à esquerda. Os agentes que estavam com ele pareciam apavorados enquanto corriam atrás.

— Essa foi a cena em Tampa — continuou Huntley —, onde Kennedy ficou quase dez minutos apertando mãos. Ele assusta os homens cujo serviço é cuidar da sua segurança, mas dá para ver que o público o adora. E ele também, David, pois, apesar de toda a suposta altivez, ele gosta das exigências da política.

Kennedy agora se movia na direção da limusine, ainda apertando mãos e aceitando um ou outro abraço das damas. O carro era um conversível aberto, exatamente igual àquele em que sairia de Love Field para o encontro marcado com a bala de Oswald. Talvez fosse o mesmo. Por um momento, o filme borrado em preto e branco captou um rosto conhecido na multidão. Sentei-me no sofá e observei o presidente dos Estados Unidos apertar a mão do meu ex-corretor de apostas de Tampa.

Não havia como saber se Roth estava certo sobre a sífilis ou se só repetia um boato, mas Eduardo Gutierrez emagrecera muito, o cabelo estava rareando e os olhos pareciam confusos, como se ele não tivesse certeza de onde estava nem mesmo de quem era. Como o contingente do Serviço Secreto de Kennedy, os homens ao seu lado usavam paletós grossos apesar do calor da Flórida. Foi só um vislumbre, e então a imagem mudou para Kennedy partindo no carro aberto que o deixava tão vulnerável, ainda acenando e exibindo o sorriso.

De volta a Huntley, o rosto áspero mostrando agora um sorriso divertido.

— O dia teve mesmo um lado engraçado, David. Quando o presidente entrou no salão de baile do International Inn, onde a Câmara de Comércio de Tampa aguardava para ouvi-lo falar... bem, veja você mesmo.

De volta ao filme. Quando Kennedy entrou, acenando para a plateia de pé, um cavalheiro idoso, de chapéu dos Alpes e calções curtos com suspensórios, começou a tocar Hail to the Chief, o hino presidencial americano, num acordeão maior do que ele. O presidente fez cara de surpresa e depois ergueu ambas as mãos num gesto amistoso de caraca. Pela primeira vez o vi como passara a ver Oswald — como um homem de verdade. Na cara de surpresa e no gesto que se seguiu, vi algo ainda mais bonito do que senso de humor: a apreciação do absurdo essencial da vida.

David Brinkley também sorria.

— Se Kennedy se reeleger, talvez aquele cavalheiro seja convidado para tocar no baile da posse. Provavelmente, a Polca do barril de cerveja em vez de Hail to the Chief. Enquanto isso, em Genebra...

Desliguei a televisão, voltei ao sofá e abri o caderno de Al. Enquanto folheava até o fim, não parava de ver aquela cara de surpresa. E o sorriso. Senso de humor; noção de absurdo. O homem na janela do sexto andar do depósito de livros não tinha nenhum dos dois. Oswald provara isso várias vezes, e um homem desses não tem nada que mudar a História.

10

Fiquei consternado ao descobrir que cinco das seis últimas páginas do caderno de Al tratavam dos movimentos de Lee em Nova Orleans e do seu esforço infrutífero para chegar a Cuba através do México. Só a última página se concentrava no período anterior ao assassinato, e essas derradeiras anotações eram superficiais. Sem dúvida, Al sabia essa parte da história de cor e, provavelmente, imaginou que, se eu não tivesse pego Oswald até a terceira semana de novembro, seria tarde demais.

3/10/63: O de volta ao Texas. Ele e Marina “meio” separados. Ela na casa de Ruth

Paine, O quase só aparece no fim de semana. Com um vizinho (Buell Frazier). Ruth arranja emprego para O no Dep. Livros. Ruth chama O de “bom rapaz”.

O fica em Dallas nos dias úteis. Pensão.

17/10/63: O começa a trabalhar no Dep. Carrega livros, descarrega caminhões etc. 18/10/63: O faz 24 anos. Ruth e Marina lhe preparam uma festa surpresa. O agradece.

Chora.

20/10/63: 2ª filha nasce: Audrey Rachel. Ruth leva Marina ao hosp (Parkland)

enquanto O trabalha. Fuzil guardado na garagem de Paine, embrulhado em cobertor.

O visitado várias vezes por James Hosty, agente do FBI. Atiça a sua paranoia. 21/11/63: O vai à casa de Paine. Implora que Marina volte. M recusa. Última gota

para O.

22/11/63: O deixa todo o seu dinheiro na gaveta para Marina. Aliança também. Vai de

Irving para Dep. Livros com Buell Frazier. Leva pacote embrulhado em papel pardo. Buell pergunta o que é. O explica: “Varões de cortina para o apartamento novo.” Fuzil Mann-Carc provavelmente desmontado. Buell deixa carro em estacionamento público a 2 quarteirões de Dep. 3 min a pé.

11h50: O constrói ninho de atirador no canto SE do 6º andar com caixas de papelão

para se esconder de trabalhadores do outro lado que põem compensado para novo piso. Almoço. Ninguém lá, só ele. Todos esperando pres.

11h55: O monta e carrega Mann-Carc.

12h29: Carreata chega a Dealey Plaza.

12h30: O dá 3 tiros. 3º tiro mata JFK.

A informação que eu mais queria — a localização da pensão de Oswald — não estava nas anotações de Al. Segurei a vontade de jogar o caderno no outro lado da sala. Em vez disso, me levantei, vesti o paletó e saí. Estava quase totalmente escuro, mas uma lua quase cheia subia no céu. Com a sua luz, vi o sr. Kenopensky curvado na cadeira de rodas. O Motorola estava no colo.

Desci a rampa e fui até lá mancando.

— Sr. K.? Tudo bem?

Por um instante ele não respondeu nem sequer se mexeu e tive certeza de que morrera. Depois, ele levantou os olhos e sorriu.

— Só ouvindo música, filho. De noite tocam swing na KMAT, e isso me faz mesmo voltar.

Eu dançava lindy e bunny-hop como ninguém nos velhos tempos, mesmo que não dê pra ver agora. A lua não tá bonita?

Estava superbonita. Olhamos a lua algum tempo sem falar, e pensei no serviço que tinha de fazer. Talvez não soubesse onde Lee estaria naquela noite, mas sabia onde estava o fuzil: na garagem de Ruth Paine, embrulhado num cobertor. E se eu fosse lá e o pegasse? Talvez nem tivesse de arrombar. Essa era a Terra de Antigamente, onde o povo do interior não costumava trancar a casa, muito menos a garagem.

Só que... e se Al estivesse errado? Afinal de contas, ele já errara sobre o esconderijo da arma no atentado contra Walker. E mesmo que estivesse lá...

— No que está pensando, filho? — perguntou o sr. Kenopensky. — Tá com uma cara horrível. Tomara que não seja nenhum problema com a garota.

— Não. — Pelo menos, ainda não. — O senhor dá conselhos?

— Sim, senhor, dou sim. Velhos bobos que não podem mais rodar o laço nem cavalgar em linha só servem pra isso.

— Suponhamos que o senhor soubesse que um homem ia fazer uma coisa ruim. Que o coração dele estava absolutamente decidido. Se o senhor impedisse um homem desses uma vez, convencesse ele a desistir, digamos, acha que ele tentaria de novo ou aquele momento teria passado para sempre?

— É difícil dizer. Está talvez achando que quem marcou o rosto da sua garota vai voltar e tentar terminar o serviço?

— Algo assim.

— Um maluco. — Não era uma pergunta.

— É.

— Homens sãos costumam dar atenção a dicas — disse o sr. Kenopensky. — Os malucos, raramente. Vi isso muitas vezes no meu tempo no mato, antes da luz elétrica e do telefone. A gente avisa, eles voltam. Bate neles, eles atacam de emboscada — primeiro a gente, depois quem eles realmente querem. Joga eles na cadeia, eles esperam a hora de sair. O mais seguro a fazer com malucos é pôr eles na penitenciária por muito tempo. Ou matar eles.

— É o que penso também.

— Não deixe ele voltar para estragar o resto da beleza dela, se é isso o que ele quer. Se gosta dela tanto quanto parece, você tem essa responsabilidade.

E tinha mesmo, embora Clayton não fosse mais problema. Voltei ao meu apartamentinho modular, fiz um café bem forte e me sentei com um bloco de papel. O meu plano agora estava um pouco mais claro e queria começar a esboçar os detalhes.

Em vez disso, rabisquei. E adormeci.

Quando acordei, era quase meio-dia e a minha bochecha doía onde ficara apertada contra o oleado de xadrez que cobria a mesa da cozinha. Olhei o que estava no meu bloco. Não sei se desenhei antes de dormir ou se acordei tempo suficiente para desenhar e não me lembrava.

Era uma arma. Não um fuzil Mannlicher-Carcano, mas uma pistola. A minha pistola. Aquela que eu jogara debaixo dos degraus da varanda da rua West Neely, 214. Provavelmente ainda estava lá. Torci para ainda estar lá.

Eu precisaria dela.

11

19/11/63 (terça-feira)

Sadie me ligou pela manhã e disse que Deke estava um pouco melhor, mas que ela pretendia obrigá-lo a ficar em casa no dia seguinte também.

— Senão ele vai tentar vir e terá uma recaída. Mas vou fazer a mala antes de ir para a escola amanhã de manhã e vou para a sua casa assim que o sexto período terminar.

O sexto período acabava uma e dez. Isso significa que eu tinha de sair de Eden Fallows às quatro da tarde de amanhã, no máximo. Ah, se eu soubesse para onde.

— Estou louco para ver você.

— Você parece duro e esquisito. Está com outra dor de cabeça?

— Uma pequena — disse eu. Era verdade.

— Vá se deitar com um pano úmido em cima dos olhos.

— Pode deixar. — Eu não tinha a mínima intenção de fazer isso.

— Pensou em alguma coisa?

Na verdade, pensara. Pensara que pegar a arma de Lee não bastava. E atirar nele na casa de Ruth Paine não era boa opção. E não só porque eu provavelmente seria pego. Contando os dois filhos de Ruth, havia quatro crianças naquela casa. Talvez eu tentasse se Lee viesse a pé de um ponto de ônibus próximo, mas ele viria de carona com Buell Frazier, o vizinho que lhe arranjara emprego a pedido de Ruth Paine.

— Não — respondi. — Ainda não.

— Pensaremos em alguma coisa. Espere e verá.

12

Cruzei a cidade de carro (ainda devagar, mas com confiança crescente) até a rua West Neely, me perguntando o que faria se o apartamento térreo estivesse ocupado. Comprar uma nova arma, supus... mas o 38 Police Special era o que eu queria, no mínimo porque tivera um igual em Derry e aquela missão fora um sucesso.

De acordo com o apresentador Frank Blair do programa Today, Kennedy fora para Miami, recebido por um grande público de cubanos. Alguns erguiam placas dizendo VIVA JFK e outros levavam uma faixa escrito KENNEDY É UM TRAIDOR DA NOSSA CAUSA. Se nada mudasse, restavam a ele setenta e duas horas. Oswald, que tinha apenas um pouco mais, estaria no Book Depository, talvez pondo caixas de papelão num dos elevadores de carga, talvez na sala de descanso tomando café.

Talvez eu conseguisse pegá-lo lá — só entrar andando e acabar com ele —, mas seria agarrado e jogado no chão. Depois de matá-lo, se tivesse sorte. Antes, se não tivesse. Dos dois modos, a próxima vez que eu visse Sadie Dunhill seria atrás de um vidro reforçado com tela de arame. Se tivesse de me entregar para deter Oswald — sacrificar-me, em língua de herói —, achei que conseguiria. Mas não queria acabar assim. Queria Sadie e o meu bolo quatro quartos, também.

Havia uma churrasqueira pequena no gramado do número 214 da rua West Neely e uma cadeira de balanço nova na varanda, mas as janelas estavam fechadas e não havia carro na entrada. Estacionei na frente, disse a mim mesmo que a ousadia é bela e subi os degraus. Fiquei onde Marina ficara em 10 de abril quando foi me visitar e bati como batera. Se alguém atendesse à porta, eu seria Frank Anderson, visitando o bairro em nome da Encyclopaedia Britannica (eu era velho demais para Grit). Se a dona da casa mostrasse interesse, prometeria voltar no dia seguinte com as minhas amostras.

Ninguém atendeu. Talvez a dona da casa também trabalhasse. Talvez estivesse no outro quarteirão, visitando uma vizinha. Talvez estivesse no quarto que há pouco tempo fora meu, dormindo de ressaca. Para mim, barra limpa, como se diz na Terra de Antigamente. O lugar estava em silêncio, isso era importante, e a calçada, deserta. Nem a sra. Alberta Hitchinson, a sentinela de andador da vizinhança, estava em evidência.

Desci da varanda do meu jeito coxo e cambado, comecei a descer a entrada, me virei como se tivesse esquecido alguma coisa e espiei debaixo dos degraus. O 38 estava lá, meio enterrado em folhas com o cano curto aparecendo. Apoiei-me no joelho bom, catei-o e enfiei no bolso lateral do paletó esporte. Olhei em volta e não vi ninguém observando. Manquei até o carro, pus a arma no porta-luvas e fui embora.

13

Em vez de voltar a Eden Fallows, fui para o centro de Dallas e parei numa loja de equipamento esportivo para comprar um kit de limpeza de armas e uma caixa de munição. A última coisa que eu queria era que o 38 negasse fogo ou explodisse na minha cara.

A próxima parada foi o Adolphus. Não havia quartos disponíveis até a semana que vem, disse o porteiro — todos os hotéis de Dallas estavam lotados para a visita do presidente —, mas, por um dólar de gorjeta, ele teria o máximo prazer de pôr o meu carro no estacionamento do hotel.

— Mas tem de sair às quatro. É quando começam a chegar os hóspedes.

Nisso já era meio-dia. Eram só três ou quatro quarteirões até a Dealey Plaza, mas levei um bom tempo para chegar lá. Estava cansado e a dor de cabeça piorara, apesar de um analgésico Goody’s Powder. Os texanos dirigem com a mão na buzina e cada buzinada escavava o meu cérebro. Descansei várias vezes, me encostando na parede dos prédios e me sustentando como uma garça na perna boa. Um motorista de táxi de folga me perguntou se eu estava bem; garanti que estava. Era mentira. Estava confuso e péssimo. Quem tem o joelho ferrado não deveria levar o futuro do mundo nas costas.

Larguei a bunda agradecida no mesmo banco onde me sentara em 1960, poucos dias depois de chegar a Dallas. O olmo que me dera sombra naquele dia chocalhou os galhos nus agora. Estiquei o joelho dolorido, suspirei de alívio e voltei a minha atenção para o feio cubo de tijolo do Book Depository. As janelas que davam para as ruas Houston e Elm cintilavam ao sol gelado da tarde. Temos um segredo, diziam. Seremos famosas, principalmente aquela no canto sudeste do sexto andar. Seremos famosas e você não pode impedir. Uma sensação estúpida de ameaça cercava o prédio. Seria só eu que pensava assim? Vi várias pessoas atravessarem a Elm para passar pelo outro lado do prédio e achei que não. Lee agora estava dentro daquele cubo, e eu tinha certeza de que pensava em muitas coisas nas quais eu estava pensando. Será que consigo? Será que farei? Será o meu destino?

Robert não é mais seu irmão, pensei. Agora o seu irmão sou eu, Lee, o seu irmão em armas. Só que você não sabe.

Atrás do Depository, no pátio de manobras da ferrovia, uma locomotiva apitou. Um bando de pombos-de-coleira-branca levantou voo. Regiraram momentaneamente acima do anúncio da Hertz no alto do prédio e depois foram embora rumo a Fort Worth.

Se eu o matasse antes do dia 22, Kennedy seria salvo, mas quase com certeza eu acabaria na cadeia ou num hospital psiquiátrico durante vinte ou trinta anos. Mas se eu o matasse no dia 22? Talvez enquanto montava a arma?

Esperar até tão perto do fim do jogo seria um risco terrível e que eu tentaria evitar com todas as forças, mas achei que poderia ser feito e que, agora, era a melhor probabilidade. Seria mais seguro com um parceiro para me ajudar no jogo, mas só havia Sadie e eu não a envolveria. Nem mesmo, percebi friamente, se isso significasse que Kennedy teria de morrer ou eu teria de ir para a prisão. Ela já fora bastante ferida.

Comecei a voltar devagar para buscar o carro no hotel. Por cima do ombro, dei uma última olhada no Book Depository. Ele me olhava. Não tive dúvidas. E é claro que terminaria ali, eu fora idiota de imaginar outra coisa. Eu fora atraído por aquela carapaça de tijolos como uma vaca no corredor do matadouro.

14

20/11/63 (quarta-feira)

Acordei de repente ao amanhecer com algum sonho não lembrado, o meu coração batendo com força.

Ela sabe.

Sabe o quê?

Que você está mentindo para ela sobre tudo o que diz que não se lembra.

— Não — disse eu. A minha voz estava rouca de sono.

Sim. Ela tomou o cuidado de dizer que sairia depois do sexto período porque não quer que você saiba que planeja sair muito mais cedo. Ela não quer que você saiba até que ela apareça. Na verdade, ela pode até já estar a caminho. Você estará no meio da sua sessão matutina de fisioterapia, e ela chegará toda alegre.

Não queria acreditar nisso, mas parecia uma conclusão compulsória.

Então para onde eu iria? Sentado ali na cama às primeiras luzes daquela manhã de quarta-feira, isso também parecia uma conclusão compulsória. Era como se o meu subconsciente soubesse o tempo todo. O passado tem ressonância, ele ecoa.

Mas primeiro eu tinha mais uma tarefa a cumprir na minha máquina de escrever usada. Uma tarefa desagradável.

15

20 de novembro de 1963

Querida Sadie,

Andei mentindo para você. Acho que você já desconfia há algum tempo. Acho que planeja chegar cedo hoje. É

por isso que não me verá antes da visita de JFK a Dallas depois de amanhã.

Se tudo correr como espero, teremos uma vida longa e feliz num lugar diferente. O começo será estranho para

você, mas acho que se acostumará. Vou ajudar. Eu a amo e é por isso que não posso deixar que participe disso.

Por favor, acredite em mim, por favor, tenha paciência, e, por favor, não se surpreenda se ler o meu nome e ver a

minha foto nos jornais — se tudo se desenrolar como pretendo, provavelmente isso acontecerá. Acima de tudo, não tente me encontrar.

Todo o meu amor,

Jake.

PS: Queime isso.

16

Embalei a minha vida de George Amberson na mala do meu Chevy rabo de peixe, deixei um bilhete para a fisioterapeuta na porta e fui embora me sentindo pesado e saudoso. Sadie partira de Jodie antes mesmo do que eu pensara — antes do amanhecer. Saí de Eden Fallows às nove. Ela parou o fusca no meio-fio às nove e quinze, leu o bilhete cancelando a terapia e entrou com a chave que eu lhe dera. Encostado no carro da máquina de escrever havia um envelope com o nome dela escrito. Ela o rasgou, leu a carta, sentou-se no sofá diante da televisão vazia e chorou. Ainda chorava quando a terapeuta apareceu... mas queimara o bilhete, como eu pedira.

17

A rua Mercedes estava praticamente silenciosa sob o céu nublado. As puladoras de corda não estavam visíveis — talvez na escola, escutando extasiadas a professora lhes contar tudo sobre a próxima visita do presidente —, mas a placa ALUGA-SE estava novamente presa à cerca dilapidada da varanda, como eu esperara. Havia um telefone. Fui até o estacionamento do depósito da Montgomery Ward e liguei da cabine perto da plataforma de carga. Não tive dúvidas de que o homem que atendeu com um lacônico “Alô, aqui é Merritt” era o mesmo sujeito que alugara o 2.703 a Lee e Marina. Ainda conseguia ver o seu chapéu Stetson e as vistosas botas bordadas.

Disse-lhe o que queria e ele riu com descrença.

— Não alugo por semana. Esse aí é um belo lar, camarada.

— É um lixo — disse eu. — Já estive lá dentro. Eu sei.

— Agora, espere um instante...

— Não senhor, espere você. Pago cinquenta pratas para ficar nesse buraco durante o fim de semana. É quase o aluguel de um mês inteiro e você pode pôr a placa de volta na janela na próxima segunda-feira.

— Por que o senhor...

— Porque Kennedy está chegando e todos os hotéis de Dallas e Fort Worth estão lotados. Vim de longe para vê-lo e não pretendo acampar em Fair Park nem na Dealey Plaza.

Ouvi o clique e a chama de um isqueiro enquanto Merritt pensava.

— O tempo está passando — disse eu. — Tique-taque.

— Como se chama, camarada?

— George Amberson. — Eu quase quis ter me mudado sem ligar. Quase fiz isso, mas uma visita da polícia de Fort Worth era a última coisa de que eu precisava. Duvidei que os moradores de uma rua onde às vezes se explodiam galinhas para comemorar feriados dessem a mínima para invasores, mas seguro morreu de velho. Eu não estava mais contornando o castelo de cartas; agora estava morando nele.

— Encontro o senhor aí na frente daqui a meia hora ou quarenta e cinco minutos.

— Estarei lá dentro — disse eu. — Tenho a chave.

Mais silêncio. E depois:

— Onde conseguiu?

Eu não tinha a mínima intenção de envolver Ivy, mesmo que ainda estivesse em Mozelle.

— Com Lee. Lee Oswald. Ele me deu para eu entrar e regar as plantas.

— Aquele zé-ninguém tinha plantas?

Desliguei e voltei com o carro para o 2.703. O meu senhorio temporário, talvez motivado pela curiosidade, chegou no seu Chrysler apenas quinze minutos depois. Usava o Stetson e as botas vistosas. Eu estava sentado na sala da frente, escutando os fantasmas briguentos de gente que ainda vivia. Tinham muito a dizer.

Merritt queria me sondar sobre Oswald — era mesmo um maldito comunista? Disse que não, que era um bom garoto da Louisiana que trabalhava num lugar que dava para a carreata do presidente na sexta-feira. Disse que esperava que Lee me deixasse dividir com ele a vista.

— Que Kennedy se foda! — Merritt quase berrou. — Esse é comunista, com certeza. Alguém devia dar um tiro naquele filhodaputa e matar ele bem matado.

— Tenha um bom dia — disse eu, abrindo a porta.

Ele saiu, mas não ficou contente. Ali estava um camarada acostumado a ver os inquilinos se encolherem e se prostrarem. Ele se virou na entrada de concreto rachado e esfarelento.

— Deixe o lugar tão bonito quanto encontrou, está ouvindo?

Olhei a sala em volta com o tapete mofado, a massa corrida rachada e uma poltrona quebrada.

— Sem problemas — respondi.

Sentei-me de novo e tentei sintonizar os fantasmas outra vez: Lee e Marina, Marguerite e Mohrenschildt. Em vez disso, caí num dos meus sonos abruptos. Quando acordei, achei que o canto que ouvia devia vir de um sonho evanescente.

— Carlitos foi à FRANÇA! Só pra ver a CONTRADANÇA!

Ainda estava lá quando abri os olhos. Fui à janela e olhei. As puladoras de corda estavam um pouco mais altas e mais velhas, mas eram elas, sim, o Trio Assombro. A do meio estava toda pintada, embora parecesse ser pelo menos quatro anos nova demais para ter acne adolescente. Talvez fosse rubéola.

— Batendo continência!

— Pra vossa excelência — murmurei, e entrei no banheiro para lavar o rosto. A água que jorrou da torneira estava enferrujada, mas fria o suficiente para acabar de me acordar. Eu substituíra o relógio quebrado por um Timex barato e vi que eram duas e meia. Não estava com fome mas precisava comer alguma coisa, e fui até a churrascaria do sr. Lee. No caminho de volta, parei numa farmácia para comprar outra caixa de comprimidos contra dor de cabeça. Também comprei dois livrinhos de John D. MacDonald.

As puladoras de corda tinham sumido. A rua Mercedes, geralmente ruidosa, estava estranhamente calada. Como uma peça antes que o pano suba no último ato, pensei. Entrei para comer, mas embora as costeletas estivessem cheirosas e macias, acabei vomitando quase tudo.

18

Tentei dormir no quarto do casal, mas lá os fantasmas de Lee e Marina ficavam animados demais. Pouco antes da meia-noite, passei para o quarto menor. As meninas de lápis de cera de Rosette Templeton ainda estavam nas paredes e, de certa forma, achei reconfortantes os seus vestidos iguais (verde-floresta deveria ser o lápis de cera preferido de Rosette) e os grandes sapatos pretos. Achei que essas meninas fariam Sadie sorrir, principalmente a que usava a coroa de Miss América.

— Eu a amo, querida — disse eu, e adormeci.

19

21/11/63 (quinta-feira)

Não quis tomar café da manhã, assim como não quisera jantar na véspera, mas às 11 da manhã eu precisava desesperadamente de um café. Meio litro, se possível. Peguei um dos meus livros novos — Feche a grande porta, era o título — e fui até o Happy Egg, na rodovia Braddock. A TV atrás do balcão estava ligada e assisti a uma reportagem sobre a chegada iminente de Kennedy a San Antonio, onde seria recebido por Lyndon e Lady Bird Johnson. Também na festa: o governador John Connally e a esposa, Nellie.

Por trás do filme de Kennedy e da mulher andando na pista da base aérea de Andrews, em Washington, seguindo para o avião presidencial azul e branco, uma correspondente que soava como se fosse mijar nas calças falava sobre o novo penteado “fofo” de Jackie, destacado por uma “garbosa boina preta” e as linhas suaves do seu “chemisier com cinto de Oleg Cassini, costureiro preferido da primeira-dama”. Cassini podia mesmo ser o costureiro preferido dela, mas eu sabia que a sra. Kennedy tinha outra roupa embalada no avião. A costureira desse era Coco Chanel. Era de lã rosa, ornado com uma gola preta. E é claro que havia um chapeuzinho rosa para completar. A roupa combinaria bem com as rosas que lhe dariam em Love Field, não muito bem com o sangue que respingaria na saia, nas meias e nos sapatos.

20

Voltei à rua Mercedes e li os meus livros. Esperei o passado obstinado me esmagar como uma mosca incômoda — que o telhado caísse ou um buracão se abrisse e engolisse o 2.703 para dentro do chão. Limpei o meu 38, carreguei-o, depois descarreguei e limpei de novo. Quase torci para desaparecer num dos meus sonos súbitos — pelo menos, faria o tempo passar —, mas isso não aconteceu. Os minutos se arrastaram, transformando-se com relutância numa pilha de horas, cada uma delas levando Kennedy muito mais para perto do cruzamento da Houston com a Elm.

Nada de sonos súbitos hoje, pensei. Isso acontecerá amanhã. Quando chegar o momento crítico, eu simplesmente cairei na inconsciência. Da próxima vez que abrir os olhos, a façanha terá terminado e o passado terá se protegido.

Podia acontecer. Sabia que podia. Se acontecesse, eu teria uma decisão a tomar: encontrar Sadie e me casar com ela ou voltar e começar tudo de novo. Ao pensar melhor, descobri que na verdade não havia decisão a tomar. Eu não tinha forças para voltar e recomeçar. De um modo ou de outro, era assim. O último tiro do caçador.

Naquela noite, os Kennedy, Johnson e Connally jantaram em Houston, num evento organizado pela Liga de Cidadãos Latino-Americanos. A culinária era argentina: ensalada rusa e o ensopado conhecido como guiso. Jackie fez o discurso depois do jantar — em espanhol. Eu comi hambúrguer com fritas para viagem... ou tentei. Depois de algumas mordidas, essa refeição também foi para a lata de lixo nos fundos.

Eu terminara ambos os romances de MacDonald. Pensei em pegar o meu livro inacabado na mala do carro, mas a ideia de lê-lo era enjoativa. Acabei apenas sentado na poltrona meio arrebentada até escurecer. Depois, fui para o quartinho onde Rosette Templeton e June Oswald tinham dormido. Deitei-me de roupa e sapato, usando a almofada da cadeira da sala como travesseiro. Deixara a porta aberta e a luz da sala acesa. Com o seu brilho, dava para ver as meninas de lápis de cera com os vestidos verdes. Soube que passaria o tipo de noite que faz o dia longo que acabara de passar parecer curto; ficaria ali deitado de olhos abertos, os pés pendurados na ponta da cama até quase o chão, até as primeiras luzes de 22 de novembro se infiltrarem pela janela.

Foi longa. Fui torturado por e-ses, deveria-ter-sidos e pensamentos sobre Sadie. Esses foram os piores. A saudade dela e o desejo dela eram tão profundos que pareciam uma doença física. Em certo momento, provavelmente muito depois da meia-noite (eu desistira de olhar o relógio; o movimento lento dos ponteiros era deprimente demais), caí num sono profundo e sem sonhos. Só Deus sabe quanto tempo eu teria dormido na manhã seguinte se não me acordassem. Alguém me sacudia suavemente.

— Vamos, Jake. Abra os olhos.

Fiz o que mandavam, embora quando vi quem estava sentado ao meu lado na cama, a princípio tive certeza de que, afinal de contas, estava sonhando. Tinha de estar. Mas aí estendi a mão, toquei a perna da calça jeans desbotada e senti o tecido sob a palma. O cabelo estava puxado para cima, o rosto quase sem maquiagem, a desfiguração da bochecha esquerda clara e singular. Era Sadie. Ela me encontrara.