Novembro de 63

Stephen King · Capítulo 17 de 35

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Novembro de 63

Capítulo 16

1

A festa de Natal do treinador Borman foi um fracasso, e o fantasma de Vince Knowles não foi a única razão. No dia 21, Bobbi Jill Allnut se cansou de olhar aquele rasgo vermelho que passava pelo lado esquerdo do rosto até o queixo e tomou um monte de pílulas para dormir da mãe. Não morreu, mas passou duas noites no Parkland Memorial, o hospital onde o presidente e o assassino do presidente expirariam a menos que eu mudasse tudo. Em 2011 provavelmente haveria hospitais mais próximos — quase com certeza em Kileen, talvez até em Round Hill —, mas não durante o ano inteiro em que ensinei na DCHS.

O jantar no The Saddle também não foi grande coisa. O lugar estava lotado e festivo com a alegria pré-Natal, mas Sadie recusou a sobremesa e pediu para ir para casa cedo. Disse que estava com dor de cabeça. Não acreditei nela.

O baile da véspera de ano-novo na Bountiful Grange nº 7 foi um pouco melhor. Havia um grupo de Austin chamado The Jokers que estava mesmo botando para quebrar. Sadie e eu dançamos até os pés doerem sob redes penduradas cheias de balões. À meia-noite, The Jokers começaram a tocar uma versão de Auld Lang Syne à moda dos The Ventures e o cantor berrou:

— Que nenhum sonho fique pra depois em mil, novecentos e sessenta e dois!

Os balões caíram à nossa volta. Beijei Sadie e lhe desejei um feliz ano-novo enquanto valsávamos, mas, embora ela estivesse alegre e sorrisse a noite toda, não senti sorriso nos seus lábios.

— E feliz ano-novo pra você também, George. Podemos tomar um copo de ponche? Estou com muita sede.

Havia uma fila comprida no ponche com álcool, outra menor no sem álcool. Pus a mistura de limonada cor-de-rosa e ginger ale num copo de papel, mas quando voltei ao lugar onde ela ficara, Sadie tinha sumido.

— Acho que ela foi tomar ar fresco, campeão — disse Carl Jacoby. Ele era um dos quatro professores da oficina da escola, provavelmente o melhor, mas eu não o deixaria chegar nem a duzentos metros de uma ferramenta elétrica naquela noite.

Verifiquei os fumantes agrupados sob a escada de incêndio. Sadie não estava entre eles. Fui até o Sunliner. Ela estava sentada no banco do passageiro, com as saias volumosas em ondas que iam até o painel. Só Deus sabe quantas anáguas estava usando. Ela fumava e chorava.

Entrei no carro e tentei abraçá-la.

— Sadie, o que é? O que é, querida? — Como se eu não soubesse! Como se eu já não soubesse fazia tempo.

— Nada. — Chorando mais. — As minhas regras vieram, é só isso. Me leve para casa.

Eram apenas pouco mais de quatro quilômetros, mas pareceu uma viagem muito longa. Não falamos. Subi a entrada de garagem dela e desliguei o motor. Ela parara de chorar, mas ainda não dissera nada. Nem eu. Alguns silêncios podem ser confortáveis. Esse parecia fatal.

Ela tirou os Winston da bolsa, olhou e guardou de novo. O clique do fecho foi muito alto.

Ela me olhou. O cabelo era uma nuvem escura cercando o oval branco do rosto.

— Não tem nada que você queira me contar, George?

O que eu queria lhe contar mais do que tudo era que o meu nome não era George. Eu passara a não gostar desse nome. Quase o odiava.

— Duas coisas. A primeira é que amo você. A segunda é que não estou fazendo nada que me envergonhe. Ah, e dois-A: nada que envergonhe você.

— Bom. Isso é bom. E amo você, George. Mas vou lhe dizer uma coisa, se quiser escutar.

— Sempre vou escutar. — Mas ela estava me assustando.

— Tudo pode continuar na mesma... por enquanto. Enquanto eu ainda estiver casada com John Clayton, mesmo que seja só no papel e nunca tenha sido propriamente consumado, há coisas que sinto que não tenho o direito de perguntar a você... ou sobre você.

— Sadie...

Ela pôs o dedo nos meus lábios.

— Por enquanto. Mas jamais permitirei que outro homem ponha uma vassoura na cama. Está me entendendo?

Ela deu um beijo rápido onde os dedos tinham estado e depois subiu correndo o caminho até a porta, procurando a chave.

Foi assim que 1962 começou para o homem que dizia se chamar George Amberson.

2

O primeiro dia do novo ano nasceu frio e límpido, com a previsão do Relatório Matutino Rural ameaçando neblina e geada nas terras baixas. Eu levara os dois abajures grampeados para a garagem. Pus um deles no carro e fui até Fort Worth. Achei que, se havia um dia em que o esfarrapado parque de diversões da rua Mercedes fechava, seria aquele. Acertei. A rua estava silenciosa como... bom, silenciosa como o mausoléu dos Tracker quando arrastei o corpo de Frank Dunning para dentro dele. Velocípedes virados e alguns brinquedos estavam jogados em jardins pelados. Algum festeiro deixara um brinquedo maior — um monstruoso e velho Mercury — estacionado ao lado da varanda. As portas do carro ainda estavam abertas. Havia alguns restos tristes de serpentinas de papel crepom na terra pisada da rua e um monte de latas de cerveja — a maioria Lone Star — na sarjeta.

Olhei o 2.706 e não vi ninguém espiando pelas grandes janelas da frente, mas Ivy tinha razão: quem ficasse ali em pé teria uma linha de visão perfeita para a sala de estar do 2.703.

Estacionei nas tiras de cimento que se faziam de entrada de garagem como se tivesse todo o direito de estar no antigo lar da azarada família Templeton. Peguei o abajur e uma caixa de ferramentas novinha e fui até a porta da frente. Tive um mau momento quando a chave se recusou a funcionar, mas foi só porque estava nova. Quando a umedeci com um pouco de saliva e a sacudi um pouco, ela girou e eu entrei.

Havia quatro cômodos caso se contasse o banheiro, visível por uma porta que pendia aberta da única dobradiça inteira. O maior era uma combinação de sala de estar e cozinha. Os outros dois eram quartos. No maior, não havia colchão na cama. Lembrei Ivy dizer “É como levar o cachorro nas férias, né?” No menor, Rosette desenhara meninas de lápis de cera nas paredes, onde a massa corrida descascava e as ripas da parede apareciam. Todas usavam vestidos verdes e grandes sapatos pretos. Tinham marias-chiquinhas desproporcionais tão compridas quanto as pernas, e muitas chutavam bolas de futebol. Uma usava uma tiara de Miss América empoleirada no cabelo e um grande sorriso de batom vermelho. A casa ainda cheirava levemente à carne frita qualquer que Ivy preparara para a última refeição antes de voltar a Mozelle para morar com a mamãe, o seu diabrete e o marido de espinha quebrada.

Era ali que Lee e Marina começariam a fase americana do casamento. Fariam amor no maior dos dois quartos, e ele a surraria lá. Era onde Lee ficaria acordado na cama depois de longos dias montando portas contra tempestade e se perguntaria por que diabos não era famoso. Não tinha tentado? Não tinha tentado muito?

E, na sala, com o montanhoso assoalho de altos e baixos e o puído carpete verde-bile, Lee conheceria o homem em quem eu não deveria confiar, o responsável pela maioria e talvez por todas as dúvidas que Al tivera sobre o papel de Oswald como pistoleiro solitário. O nome daquele homem era George de Mohrenschildt, e eu queria muitíssimo ouvir o que ele e Oswald tinham a dizer um ao outro.

Havia uma velha cômoda num dos lados do aposento principal que ficava mais perto da cozinha. As gavetas eram uma bagunça de talheres descombinados e utensílios de cozinha lixentos. Afastei o móvel da parede e vi uma tomada. Excelente. Pus o abajur em cima da cômoda e o liguei. Sabia que alguém moraria ali algum tempo antes dos Oswald, mas achei que ninguém levaria embora o Abajur Inclinado de Pisa quando levantasse acampamento. Se levassem, eu tinha um substituto na garagem.

Abri um furo na parede até o lado de fora com a broca menor, empurrei a cômoda de volta para o lugar e experimentei o abajur. Funcionava direito. Guardei tudo e saí da casa, tomando o cuidado de trancar a porta. Depois, voltei a Jodie.

Sadie me ligou e perguntou se eu gostaria de ir à casa dela cear. Só frios, disse ela, mas haveria bolo quatro quartos de sobremesa, se eu estivesse interessado. Fui. A sobremesa estava maravilhosa como sempre, mas não foi a mesma coisa. Porque ela tinha razão. Havia uma vassoura na cama. Como o jimla que Rosette vira no banco de trás do meu carro, era invisível... mas estava lá. Invisível ou não, lançou uma sombra.

3

Às vezes um homem e uma mulher chegam a uma encruzilhada e ficam lá, relutando em tomar um caminho ou outro, sabendo que a escolha errada será o fim... e que há muita coisa que valeria a pena resguardar. Foi assim comigo e com Sadie durante o inverno implacavelmente cinzento de 1962. Ainda saíamos para jantar uma ou duas vezes por semana e ainda íamos aos Bangalôs Candlewood numa ou noutra noite de sábado. Sadie gostava de sexo, e essa era uma das coisas que nos mantinham unidos.

Em três ocasiões, sacudimos o esqueleto. Donald Bellingham era sempre o DJ, e, mais cedo ou mais tarde, nos pediam que reprisássemos o primeiro Lindy Hop. Os garotos sempre batiam palmas e assoviavam quando obedecíamos. E não era por educação. Ficavam autenticamente admirados, e alguns começaram mesmo a aprender os passos.

Ficamos contentes? Claro, porque a imitação realmente é a forma mais sincera de lisonja. Mas nunca fomos tão bons quanto naquela primeira vez, nunca tão intuitivamente fluidos. A graça de Sadie titubeava. Certa vez ela perdeu o equilíbrio num salto e teria caído de pernas para o ar se não fosse um par de robustos jogadores de futebol americano com reflexos rápidos por perto. Ela riu, mas deu para ver a vergonha no rosto dela. E a censura. Como se a culpa fosse minha. E, de certo modo, era.

Tinha de haver um rompimento. Poderia ter acontecido antes se não fosse o Jodie Jamboree. Esse foi o nosso amadurecimento, a oportunidade de demorar um pouco e pensar melhor antes de sermos forçados a tomar uma decisão que nenhum de nós queria tomar.

4

Ellen Dockerty me procurou em fevereiro e me perguntou duas coisas: primeiro, se eu pensaria melhor e assinaria um contrato para o ano letivo 1962-1963 e, depois, se voltaria a dirigir a peça de teatro da escola, já que a do ano anterior fora um sucesso tão retumbante. Neguei os dois pedidos, não sem uma pontada de dor.

— Se for o seu livro, você teria o verão inteiro para trabalhar nele — insistiu ela.

— Não seria suficiente — disse eu, embora naquele momento não desse a mínima a O local do crime.

— Sadie Dunhill diz que acha que você não dá a mínima àquele romance.

Era uma ideia que ela não dividira comigo. Fiquei abalado mas tentei não demonstrar.

— El, Sadie não sabe tudo.

— A peça, então. Pelo menos faça a peça. Desde que não envolva nudez, apoio o que você escolher. Dada a composição atual do conselho escolar e o fato de que eu mesma só tenho dois anos de contrato como diretora, essa é uma promessa e tanto. Pode dedicá-la a Vince Knowles, se quiser.

— Vince já teve uma temporada de futebol dedicada à sua memória, Ellie. Acho que basta.

Ela foi embora, vencida.

O segundo pedido veio de Mike Coslaw, que se formaria em junho e me disse que pretendia cursar teatro na faculdade.

— Mas o que eu mais gostaria de fazer era mais uma peça aqui. Com o senhor, sr. Amberson. Porque o senhor me mostrou o caminho.

Ao contrário de Ellie Dockerty, ele aceitou sem questionar a desculpa do meu falso romance, o que fez com que eu me sentisse mal. Péssimo, na verdade. Para um homem que não gostava de mentir, que vira o seu casamento desmoronar por causa de todas as mentiras que ouvira da esposa paro-com-isso-quando-quiser, sem dúvida eu andava contando uma carroça delas, como se dizia nos meus tempos de Jodie.

Levei Mike até o estacionamento dos alunos, onde estava a sua valiosa propriedade (um velho sedã Buick com para-lamas que cobriam as rodas) e lhe perguntei como estava o braço agora que tirara o gesso. Ele disse que estava bom e tinha certeza de que estaria pronto para os treinos de futebol no verão.

— Só que — disse ele —, se me cortarem, não vou ficar arrasado. Aí talvez eu possa fazer teatro amador além da escola. Quero aprender tudo, cenografia, iluminação, até figurino. — Ele riu. — Vão começar a me chamar de maricas.

— Concentre-se no futebol, em tirar boas notas e não sentir saudades demais no primeiro semestre — disse eu. — Por favor. Não estrague tudo.

Ele fez uma voz zumbi de Frankenstein.

— Sim... mestre...

— Como está Bobbi Jill?

— Melhor — disse ele. — Lá está ela.

Bobbi Jill esperava ao lado do Buick de Mike. Acenou para ele, depois me viu e na mesma hora virou de costas, como se estivesse interessada no campo de futebol e nos pastos além. Foi um gesto ao qual todos na escola tinham se acostumado. A cicatriz do acidente se tornara uma linha grossa e vermelha. Ela tentava cobri-la com cosméticos, o que simplesmente a deixava mais visível.

Mike disse:

— Eu já lhe disse para abandonar o pó de arroz, ela fica parecendo um anúncio da Funerária Soames, mas ela não quer saber. Também lhe disse que não fico com ela por piedade, nem pra que ela não tome mais pílulas. Ela diz que acredita em mim, e talvez acredite. Nos dias bons.

Observei-o correr até Bobbi Jill, segurá-la pela cintura e virá-la. Suspirei, me sentindo um pouco estúpido e muito teimoso. Uma parte minha queria fazer a maldita peça. Mesmo que não servisse para mais nada, preencheria o tempo enquanto eu esperava o começo do meu espetáculo. Mas não queria me prender à vida de Jodie mais do que já estava preso. Como qualquer possível futuro de longo prazo com Sadie, o meu relacionamento com a cidade precisava ficar à espera.

Se tudo desse certo, era possível que eu conseguisse ficar com a moça, o relógio de ouro e tudo o mais. Mas não podia contar com isso, por mais cuidadosamente que planejasse. Mesmo que conseguisse, talvez tivesse de fugir, e se não conseguisse, havia uma boa probabilidade de que a minha boa ação pelo bem do mundo fosse recompensada com a vida na cadeia. Ou a cadeira elétrica em Huntsville.

5

Foi Deke Simmons que finalmente me armou uma cilada para eu dizer sim. Ele fez isso me dizendo que eu seria maluco até mesmo em pensar no caso. Eu deveria ter reconhecido aquela artimanha de Ah, irmão Raposa, por favor, não me jogue de novo naquele espinheiro , mas ele foi muito manhoso. Muito sutil. Um perfeito irmão Coelho, pode-se dizer.

Estávamos na minha sala tomando café numa tarde de sábado enquanto um filme antigo passava na minha TV chuviscante — caubóis em Forte Hollywood enfrentando o ataque de mais ou menos dois mil índios. Lá fora, mais chuva caía. Deve ter havido pelo menos alguns dias de sol durante o inverno de 1962, mas não me lembro de nenhum. Só consigo me lembrar dos dedos frios da garoa sempre encontrando o seu caminho até a minha nuca raspada, apesar do colarinho erguido do casaco de pelo de ovelha que comprei para substituir o casaco rancheiro.

— Você não precisa se preocupar com aquela maldita peça só porque Ellen Dockerty está com bicho-carpinteiro por causa dela — disse Deke. — Termine o seu livro, faça sucesso e não olhe para trás. Vá para a boa vida de Nova York. Tome um drinque com Norman Mailer e Irwin Shaw no White Horse Tavern.

— Hã-hã — disse eu. John Wayne tocava corneta. — Acho que Norman Mailer não precisa se preocupar muito comigo. Nem Irwin Shaw.

— E você já fez bastante sucesso com Ratos e homens — disse ele. — Qualquer coisa que vier depois provavelmente vai desapontar na compa... Caramba, olhe isso! Uma flecha acabou de atravessar o chapéu de John Wayne! Ainda bem que era o modelo luxo de 70 litros!

Fiquei mais vexado do que deveria com a ideia de que a segunda tentativa poderia não ser tão boa. Pensei no modo como Sadie e eu não conseguíamos igualar o nosso primeiro desempenho na pista de dança apesar de todo o esforço.

Deke parecia completamente absorto pela TV quando disse:

— Além disso, Ratty Sylvester demonstrou interesse pela peça dos alunos. Tem falado em Arsênico e alfazema. Diz que ele e a mulher assistiram à peça em Dallas dois anos atrás e que era uma comédia das boas.

Bom Deus, aquela velharia. E Fred Sylvester, do Departamento de Ciências, como diretor? Achei que não confiaria em Ratty para dirigir um treinamento de incêndio na escola primária. Se um ator talentoso mas ainda muito inexperiente como Mike Coslaw acabasse com Ratty no comando, o seu processo de amadurecimento se atrasaria uns cinco anos. Ratty e Arsênico e alfazema. Jesus chorou.

— Não haveria tempo para montar nada muito bom, mesmo — continuou Deke. — Assim, acho melhor deixar que Ratty leve o tombo. Nunca gostei mesmo daquele patife medroso.

Ninguém gostava muito dele, até onde eu sabia, a não ser talvez a sra. Ratty, que corria ao seu lado em todas as escolas e funções letivas, envolta em hectares de organdi. Mas não seria ele a levar o tombo. Seriam as crianças.

— Eles podiam montar um espetáculo de variedades — disse eu. — Para isso haveria tempo suficiente.

— Ah, Cristo, George! Wallace Beery acabou de levar uma flecha no ombro! Acho que agora ele vai!

— Deke?

— Não, John Wayne vai levá-lo para lugar seguro. Esse velho bangue-bangue não faz sentido nenhum, mas eu adoro, e você?

— Você ouviu o que eu disse?

Entrou um anúncio. Keenan Wynn desceu de uma pá mecânica, tirou o capacete e disse ao mundo que andaria uma milha por um Camel. Deke se virou para mim.

— Não, acho que não prestei atenção.

Raposa esperta. Como se.

— Eu disse que haveria tempo de montar um espetáculo de variedades. Uma revista. Música, dança, piadas, alguns esquetes.

— Tudo menos garotas dançando cancã? Ou está pensando nisso também?

— Não se faça de bobo.

— Então vai ser um vaudevile. Sempre gostei de vaudevile. “Boa noite, sra. Calabash, onde quer que esteja” e tudo o mais.

Ele puxou o cachimbo do bolso do casaco, encheu-o de Prince Albert e acendeu.

— Sabe, na verdade costumávamos fazer coisa parecida lá no Grange. O espetáculo se chamava Jodie Jamboree. Mas não mais, desde o final dos anos 40. O pessoal ficou meio envergonhado com ele, embora ninguém aparecesse pra dizer. E a gente não chamava de vaudevile.

— Do que você está falando?

— Era um minstrel show, George. Todos os caubóis e trabalhadores das fazendas participavam. Pintavam a cara de preto, cantavam e dançavam, contando piadas falando do jeito que eles achavam que era um dialeto negro. Mais ou menos baseado no programa de rádio Amos ’n Andy.

Comecei a rir.

— Alguém tocava banjo?

— Para dizer a verdade, em algumas ocasiões a nossa atual diretora tocava.

— Ellen tocava banjo num minstrel show?

— Cuidado, você está começando a falar em decassílabos. Isso pode levar a ilusões de grandeza, parceiro.

Inclinei-me para a frente.

— Me conte uma das piadas.

Deke limpou a garganta e começou a falar com duas vozes graves.

— Dizaí, mano Tambo, pru que ocê comprô esse vidro de vaselina?

— Uai, foi pruque tava custano cinquenta centavo!

Ele me olhou com expectativa e percebi que a piada acabara.

— Eles riam? — Quase temi a resposta.

— De cair no chão e berrar por mais. A gente ouvia essas piadas na praça semanas depois. — Ele me olhou solenemente, mas os olhos cintilavam como lampadinhas de Natal. — Somos uma cidade pequena. A nossa necessidade de humor é bem humilde. A nossa ideia de graça rabelaisiana é um cego escorregando numa casca de banana.

Fiquei pensando. O bangue-bangue voltou, mas Deke parecia ter perdido o interesse. Estava me observando.

— Aquele troço ainda pode funcionar — disse eu.

— George, aquele troço sempre funciona.

— Também não precisam ser negros engraçados.

— Não poderia mais ser assim, de qualquer modo — disse ele. — Talvez na Louisiana ou no Alabama, mas não a caminho de Austin, que os sujeitos do Slimes Herald chamam de Cidade dos Comunas. E você não ia querer, não é?

— Não. Pode me chamar de sentimental, mas acho a ideia repulsiva. E pra quê? Piadas velhas... garotos de terno grande com ombreiras em vez de macacão de roceiro... garotas vestidas de melindrosa, com vestidos até os joelhos e cheios de franjas... Eu adoraria ver o que Mike Coslaw faria num esquete de comédia...

— Ah, seria de matar — disse Deke, como se fosse uma conclusão já tomada de antemão. — Excelente ideia. Pena que você não tenha tempo para experimentar.

Comecei a dizer alguma coisa mas aí outro daqueles relâmpagos me atingiu. Foi tão brilhante quanto o que iluminara o meu cérebro quando Ivy Templeton dissera que os vizinhos do outro lado da rua conseguiam ver a sua sala de estar.

— George? A sua boca está aberta. A vista é boa mas não apetitosa.

— Posso arranjar tempo — disse —, se você convencer Ellie Dockerty a aceitar uma condição.

Ele se levantou e desligou a TV sem dar sequer uma olhada, embora a luta entre Duke Wayne e a nação pawnee tivesse chegado ao clímax, com o Forte Hollywood ardendo como o inferno ao fundo.

— Diga.

Eu disse e depois:

— Tenho de falar com Sadie. Agora mesmo.

6

A princípio, ela se mostrou solene. Depois, começou a sorrir. O sorriso virou uma risada. E quando lhe disse a ideia que tivera no final da conversa com Deke, ela me abraçou. Mas para ela isso não bastava, e ela subiu até conseguir me abraçar com as pernas também. Naquele dia não houve vassoura entre nós.

— É brilhante! Você é um gênio! Vai escrever o roteiro?

— Pode apostar. E também não vai levar muito tempo. — Piadas velhas já revoavam pela minha cabeça: O treinador Borman olhou o suco de laranja durante vinte minutos porque na lata estava escrito CONCENTRADO. O nosso cachorro tem o rabo para dentro e a gente tinha de tirar radiografia para saber se ele estava contente. Andei num avião tão velho que um dos banheiros tinha uma placa Orville e o outro, Wilbur. — Mas preciso de muita ajuda com o resto. Acontece que preciso de uma produtora. Espero que aceite o serviço.

— Claro. — Ela escorregou de volta para o chão com o corpo ainda colado no meu. Isso produziu um relâmpago lamentavelmente curto de perna nua quando a saia subiu. Ela começou a andar de um lado para o outro na sala, fumando furiosamente. Tropeçou na poltrona (provavelmente pela sexta ou oitava vez desde que estávamos em termos íntimos) e recuperou o equilíbrio sem parecer nem notar, embora ao anoitecer ficasse com um belo hematoma na canela.

— Se está pensando em roupa de melindrosa da década de 20, posso pedir que Jo Peet faça o figurino. — Jo era a nova chefe do Departamento de Economia Doméstica, promovida ao cargo quando Ellen Dockerty foi confirmada como diretora.

— Que ótimo.

— A maioria das garotas da Economia Doméstica adora costurar... e cozinhar. George, precisaremos servir refeições noturnas, não é? Se os ensaios demorarem muito? E demorarão, porque estamos começando muitíssimo tarde.

— É, mas só uns sanduíches...

— Podemos fazer melhor do que isso. Muito. E música! Precisaremos de música! Terá de ser gravada, porque a banda nunca conseguiria tocar uma coisa dessas a tempo. — E então, juntos, dissemos “Donald Bellingham! ” em perfeita harmonia.

— E a publicidade? — perguntei. Começávamos a parecer Mickey Rooney e Judy Garland se preparando para montar um espetáculo no celeiro da tia Milly.

— Carl Jacoby e os seus garotos de Projeto Gráfico. Cartazes não só aqui, mas na cidade inteira. Porque queremos que a cidade toda venha, não só os parentes dos garotos do espetáculo. Só lugares em pé.

— Bingo — disse e beijei o nariz dela. Adorava a sua empolgação. Eu mesmo estava ficando bem empolgado.

— O que dizemos sobre o aspecto beneficente? — perguntou Sadie.

— Nada até termos certeza de que conseguiremos dinheiro suficiente. Não queremos alimentar falsas esperanças. O que acha de ir comigo a Dallas amanhã fazer algumas perguntas?

— Amanhã é domingo, meu bem. Depois da aula na segunda. Talvez antes mesmo de acabar, se você conseguir dispensa da sétima aula.

— Vou pedir a Deke que saia da aposentadoria para cobrir a recuperação de Inglês — disse eu. — Ele me deve uma.

7

Sadie e eu fomos a Dallas na segunda-feira, correndo pela estrada para chegar lá antes do fim do horário comercial. Acontece que a empresa que procurávamos ficava no bulevar Harry Hines, perto do Parkland Memorial. Lá, fizemos um monte de perguntas e Sadie fez uma demonstração rápida do que procurávamos. As respostas foram mais do que satisfatórias e, dois dias depois, comecei a minha penúltima aventura no show business como diretor de Jodie Jamboree, Novo e Hilariante Espetáculo de Vaudevile com Música e Dança. E tudo em nome de Uma Boa Causa. Não dissemos qual era a causa e ninguém perguntou.

Duas coisas sobre a Terra de Antigamente: há muito menos papelada e muito mais confiança.

8

Todo mundo na cidade apareceu, e Deke Simmons acertara numa coisa: aquelas piadas antigas pareciam nunca envelhecer. Pelo menos, não a dois mil e quinhentos quilômetros da Broadway.

Nas pessoas de Jim LaDue (que não era ruim e conseguiu até cantar um pouco) e Mike Coslaw (que foi absolutamente hilariante), o nosso espetáculo foi mais Dean Martin e Jerry Lewis do que Mr. Bones e Mr. Tambo com a cara pintada de preto. Os esquetes eram do tipo físico e, com um par de atletas a representar, provavelmente funcionaram melhor do que seria de esperar. Na plateia, houve tapas no joelho e botões arrebentaram. Provavelmente algumas cintas também.

Ellen Dockerty tirou o banjo da aposentadoria; para uma senhora de cabelo azul, ela tocou um intervalo irado. E acabou mesmo havendo cancã. Mike e Jim convenceram o resto do time de futebol americano a fazer um cancã engraçadíssimo, de calções e anáguas no sul e mais nada, só a pele, no norte. Jo Peet lhes arranjou perucas e eles pararam o trânsito. As damas da cidade pareceram doidinhas com aqueles rapazes de peito nu, com perucas e tudo.

No final, todo o elenco formou pares e encheu o palco do ginásio dançando swing freneticamente enquanto In the Mood berrava nos alto-falantes. Voavam saias; pés relampejavam; jogadores de futebol americano (agora vestindo terno largo e chapéu com aba pontuda) giravam garotas esguias. Na maioria, elas eram líderes de torcida que já sabiam alguma coisa sobre como arrastar os pés.

A música terminou; o elenco, rindo e ofegando, foi à frente para as reverências; e, quando a plateia se pôs de pé pela terceira (ou talvez fosse a quarta) vez desde que o pano subira, Donald pôs In the Mood para tocar de novo. Dessa vez, as moças e os rapazes correram para lados opostos do palco, pegaram as dúzias de tortas de creme que aguardavam em mesas nas coxias e começaram a jogá-las uns nos outros. A plateia rugiu de aprovação.

Essa parte do espetáculo o elenco conhecia e aguardara com expectativa, embora, como não voassem tortas reais durante os ensaios, eu não tivesse certeza de que iria dar certo. É claro que funcionou esplendidamente, como sempre acontece nas batalhas de tortas. Até então os garotos sabiam que esse era o clímax, mas eu tinha mais um truque na manga.

Quando eles avançaram para fazer a segunda reverência, o rosto escorrendo creme e o figurino respingado, In the Mood começou pela terceira vez. A maioria dos garotos olhou em volta com curiosidade e não viu a Fila do Corpo Docente se levantar segurando as tortas de creme que Sadie e eu tínhamos guardado atrás dos assentos. As tortas voaram e o elenco se cobriu de creme pela segunda vez. O treinador Borman tinha duas tortas e a sua mira era letal: ele acertou o seu quarterback e o astro defensor.

Mike Coslaw, o rosto pingando creme, começou a berrar:

— Sr. A.! Srta. D.! Sr. A.! Srta. D.!

O resto do elenco repetiu, depois a plateia, batendo palmas no ritmo. Subimos ao palco de mãos dadas, e Bellingham pôs para tocar de novo aquele maldito disco. Os garotos formaram filas dos dois lados, gritando:

— Dança! Dança! Dança!

Não tínhamos opção e, embora eu tivesse certeza de que a minha namorada escorregaria em todo aquele creme e quebraria o pescoço, fomos perfeitos pela primeira vez desde o baile de maria cebola. No final, apertei ambas as mãos de Sadie, vi o seu sinalzinho de cabeça — Vamos, pode fazer, confio em você — e a joguei entre as minhas pernas. Ambos os sapatos voaram sobre a primeira fila, a saia subiu delirante pelas coxas acima... e ela se pôs magicamente de pé, inteira, com as mãos estendidas para a plateia — que estava enlouquecida — e depois para os lados da saia suja de creme, numa reverência de dama antiga.

Acontece que os garotos também tinham um ás na manga, quase com certeza instigado por Mike Coslaw, embora ele nunca admitisse. Tinham guardado algumas tortas e, enquanto estávamos ali de pé, recebendo os aplausos, fomos atingidos por pelo menos uma dúzia, vinda de todas as direções. E a multidão, como dizem, enlouquece.

Sadie puxou a minha orelha para perto da boca, limpou com o dedo o creme batido que a cobria e cochichou:

— Como pode abandonar tudo isso?

9

E ainda não tinha acabado.

Deke e Ellen foram até o centro do palco, encontrando o caminho quase por mágica entre as poças, respingos e um monte de creme. Ninguém sonharia em jogar uma torta neles.

Deke ergueu a mão pedindo silêncio e, quando foi à frente, Ellen Dockerty falou com uma voz clara de sala de aula que cobriu facilmente os murmúrios e os risos residuais.

— Senhoras e senhores, a apresentação de hoje de Jodie Jamboree será seguida por mais três. — Isso provocou outra onda de aplauso. — Essas são apresentações beneficentes — continuou ela quando o aplauso se reduziu —, e tenho o prazer... sim, tenho muito prazer de lhes dizer quem será o beneficiado. No outono passado, perdemos um dos nossos valiosos alunos e todos choramos o falecimento de Vincent Knowles, que aconteceu muito, muito, muito cedo.

Agora havia um silêncio mortal no público.

— Uma menina que todos conhecem, uma das luzes condutoras do nosso corpo discente, foi gravemente ferida naquele acidente. O sr. Amberson e a srta. Dunhill marcaram para Roberta Jillian Allnut uma cirurgia facial reconstrutora neste mês de junho, em Dallas. Não haverá custo algum para a família Allnut; fui avisada pelo sr. Sylvester, que serviu de contador do Jodie Jamboree, que os colegas de Bobbi Jill e toda esta cidade asseguraram que o custo da cirurgia seja totalmente coberto.

Houve um momento de silêncio enquanto processavam a informação, e depois todos pularam de pé. O aplauso foi como trovoada de verão. Vi Bobbi Jill em pessoa nas arquibancadas. Ela chorava com as mãos cobrindo o rosto. Os pais a abraçavam.

Essa foi uma noite de cidade pequena, um daqueles burgos perto da estrada principal aos quais ninguém dá muita importância a não ser quem mora lá. E tudo bem, porque eles dão importância. Olhei Bobbi Jill, soluçando nas mãos. Olhei Sadie. Havia creme no seu cabelo. Ela sorriu. Eu também. Ela fez com a boca Amo você, George. Fiz de volta Amo você também. Naquela noite, amei todos eles, e a mim por estar com eles. Nunca me senti tão vivo nem tão feliz de estar vivo. Como poderia mesmo abandonar tudo isso?

A explosão veio duas semanas depois.

10

Era um sábado, dia de comprar mantimentos. Sadie e eu tínhamos adotado o hábito de ir juntos ao Weingarten’s, na rodovia 77. Empurrávamos os carrinhos com companheirismo, lado a lado, enquanto Mantovani tocava lá em cima, examinando as frutas e procurando as melhores ofertas de carne. Podia-se conseguir quase qualquer corte, desde que fosse frango ou carne bovina. Para mim, tudo bem; mesmo depois de quase três anos, eu ainda me espantava com os preços baixíssimos.

Naquele dia, eu tinha algo além de mantimentos na cabeça: a família Hazzard, que morava na rua Mercedes, 2.706, um barraco comprido do outro lado da rua e um pouco à esquerda da casa podre de dois andares que Lee Oswald logo chamaria de lar. O Jodie Jamboree me deixara ocupadíssimo, mas consegui fazer três viagens à rua Mercedes naquela primavera. Estacionei o meu Ford num terreno no centro de Fort Worth e peguei o ônibus da rua Winscott, que parava a uns quinhentos metros de lá. Nessas viagens, usava jeans, botas arranhadas e uma jaqueta de brim desbotado que comprara numa venda de garagem. A minha história, se alguém perguntasse: procurava um aluguel barato porque acabara de arranjar emprego de vigia noturno na Texas Sheet Metal, na zona oeste de Fort Worth. Isso fazia de mim um indivíduo de confiança (desde que ninguém fosse verificar) e dava uma razão para a casa ficar em silêncio, com as janelas fechadas, durante as horas do dia.

Nos meus passeios de ida e volta pela rua Mercedes até o depósito da Monkey Ward (sempre com um jornal dobrado na página de classificados de imóveis para alugar), avistei o sr. Hazzard, um gigante de trinta e poucos anos, os dois garotos com quem Rosette não brincaria e uma velha de rosto paralisado que arrastava um dos pés ao andar. Certa ocasião, a mamãe de Hazzard me olhou desconfiada junto da caixa de correio enquanto eu passava devagar pela trilha que servia de calçada, mas não falou.

No terceiro reconhecimento, vi um trailer velho e enferrujado preso atrás da picape de Hazzard. Ele e os garotos o carregavam de caixas enquanto a velha senhora ficava ali perto no capim que começava a verdejar, apoiada na bengala com a cara de desdém de quem teve um derrame, capaz de mascarar toda emoção. Eu apostava na total indiferença. O que senti foi felicidade. Os Hazzard estavam se mudando. Assim que saíssem, um trabalhador chamado George Amberson alugaria o número 2.706. O importante era me assegurar de que seria o primeiro da fila.

Eu tentava imaginar se haveria um modo certeiro de conseguir isso enquanto fazíamos as nossas compras de sábado. Num nível eu respondia a Sadie com os comentários certos, brincando com ela por passar tempo demais na geladeira de laticínios, empurrando o carrinho cheio de mantimentos até o estacionamento, pondo os sacos no porta-malas do Ford. Mas fazia tudo isso no piloto automático, com a maior parte da mente preocupada com a logística de Fort Worth, e essa foi a minha desgraça. Não prestei atenção no que saía da minha boca, e quando se leva vida dupla, isso é perigoso.

Enquanto voltava para a casa de Sadie com ela sentada em silêncio (silêncio demais) ao meu lado, eu cantava porque o rádio do Ford enguiçara. As válvulas também andavam fungando. O Sunliner ainda parecia chique e me apegara a ele por todo tipo de razão, mas ele já estava a sete anos da linha de montagem e percorrera uns 150 mil quilômetros.

Levei as compras de Sadie para a cozinha de uma vez só, soltando gemidos heroicos e cambaleando para fazer mais efeito. Não notei que ela não sorria e não fazia ideia de que o nosso curto período de reanimação terminara. Ainda pensava na rua Mercedes e me perguntava que tipo de espetáculo teria de montar por lá — ou melhor, quanto espetáculo. Seria delicado. Queria ser um rosto familiar, porque a familiaridade traz desinteresse além de desprezo, mas não queria me destacar. Depois havia os Oswald. Ela não falava inglês e ele era frio por natureza, tudo bem, mas o 2.706 ainda ficava pertíssimo. O passado pode ser obstinado, mas o futuro era delicado, um castelo de cartas, e eu tinha de tomar muito cuidado para não mudá-lo antes de estar pronto. Portanto, tinha de...

Foi aí que Sadie falou comigo e, pouco depois disso, a vida que eu passara a conhecer (e amar) em Jodie começou a desmoronar.

11

— George? Pode vir aqui à sala? Quero conversar com você.

— Não é melhor pôr os hambúrgueres e as costeletas de porco na geladeira? E acho que vi sorv...

— Deixe derreter! — berrou ela, e isso me tirou às pressas da minha cabeça.

Virei-me para ela, que já estava na sala. Ela pegou os cigarros na mesinha de canto ao lado do sofá e acendeu um. Com a minha gentil insistência, ela tentara reduzir (pelo menos perto de mim) e, de certa forma, isso pareceu mais agourento do que a voz alta.

Fui para a sala.

— O que foi, querida? Qual é o problema?

— Tudo. Que música era aquela?

O rosto dela estava pálido e fechado. Ela segurava o cigarro na frente da boca como um escudo. Comecei a perceber que dera uma escorregada, mas não sabia como nem quando, e isso era assustador.

— Não sei o que a você q...

— A música que você estava cantando no carro quando voltamos para casa. Aquela que você berrava a plenos pulmões.

Tentei me lembrar e não consegui. Só conseguia me lembrar de que estava pensando que na rua Mercedes eu teria de me vestir sempre como um trabalhador meio sem sorte para me encaixar no ambiente. Claro que estava cantando, mas isso eu costumava fazer enquanto pensava em outra coisa — todo mundo não faz isso?

— Alguma música pop que ouvi na KLIF, acho. Alguma coisa que ficou na minha cabeça. Você sabe que as músicas são assim. Não entendo por que está tão nervosa.

— Algo que ouviu na K-Life. Com letras como “Encontrei uma rainha cheia de gim num bar em Memphis, ela tentou me levar para uma voltinha lá em cima”?

Não foi só o meu coração que se apertou; tudo debaixo do meu pescoço pareceu diminuir quinze centímetros. Honky Tonk Women . Era isso que eu estava cantando. Uma música que só seria gravada dali a sete ou oito anos por um grupo que só teria um sucesso nos Estados Unidos depois de mais três. A minha cabeça estivera em outras coisas, mas mesmo assim... como pude ser tão burro?

— “Ela me quebrou o nariz e me deixou maluco”? No rádio? A Comissão Federal de Comunicações fecharia a estação que tocasse algo assim!

Então comecei a me zangar. Principalmente comigo... mas não só comigo. Eu andava numa maldita corda bamba e ela brigava comigo por causa de uma música dos Rolling Stones.

— Esfrie a cabeça, Sadie. É só um música. Não sei onde escutei.

— Isso é mentira e ambos sabemos.

— Você está pirando. Acho que é melhor eu pegar as minhas compras e ir para casa. — Tentei manter a voz calma. O som era muito familiar. Era o jeito que sempre tentava falar com Christy quando ela chegava em casa de pileque. A saia amassada, a blusa desalinhada, o cabelo todo desarrumado. Sem falar do batom manchado. Pela borda do copo ou pelos lábios de algum colega de bar?

Bastou pensar nisso para ficar mais zangado. Errado de novo, pensei. Não sabia se queria dizer Sadie ou Christy ou eu, e naquele momento nem liguei. Nunca ficamos mais zangados do que quando somos pegos no flagra, não é?

— Acho que é melhor você me dizer onde escutou aquela música, se pretende algum dia voltar aqui. E onde ouviu o que disse ao garoto do supermercado quando ele disse que poria dois sacos no frango para não vazar.

— Não faço a mínima ideia do que...

— “Excelente, bródi”, foi o que você disse. Acho que é melhor me contar onde ouviu isso. E vai rolar a festa. E pisante. E arrasar. Esfrie a cabeça e pirando, quero saber onde ouviu isso também. Porque você diz essas coisas que ninguém mais diz. Quero saber por que ficou tão apavorado com aquele coro estúpido de Jimla que falou dele dormindo. Quero saber onde fica Derry e porque é parecida com Dallas. Quero saber quando você se casou, com quem e por quanto tempo. Quero saber onde você esteve antes de ir à Flórida, porque Ellie Dockerty diz que não sabe, que algumas referências suas são falsas. “Parecem imaginosas”, foi o que ela disse.

Eu tinha certeza de que Ellen não soubera por Deke... mas descobrira. Na verdade não fiquei muito surpreso, mas sim furioso por que ela contara a Sadie.

— Ela não tinha o direito de lhe dizer isso!

Ela amassou o cigarro e sacudiu a mão quando pedacinhos de brasa viva pularam e a queimaram.

— Às vezes é como se você fosse... não sei... de outro universo! Um universo onde se canta sobre foder bêbadas em M-Memphis! Tentei d-dizer a mim mesma que isso não importa, que o a-amor vence tudo, só que não vence. Não vence a mentira. — A voz dela tremeu, mas ela não chorou. E os olhos dela ficaram fixos nos meus. Se só houvesse raiva neles, teria sido um pouco mais fácil. Mas havia súplica, também.

— Sadie, se você pud...

— Não vou. Não mais. Então não comece com a história de que não está fazendo nada de que se envergonhe nem que me envergonhe. Isso eu é que tenho de decidir. Tudo se resume ao seguinte: ou a vassoura vai embora, ou vai você.

— Se soubesse, você não...

— Então me conte!

— Não posso. — A raiva explodiu como uma bexiga estourada, deixando para trás um embotamento emocional. Baixei os olhos do rosto duro dela, e por acaso eles caíram sobre a escrivaninha. O que vi ali me fez perder o fôlego.

Era uma pequena pilha de formulários de emprego para o tempo que passaria em Reno no próximo verão. O de cima era do Hotel Cassino Harrah’s. Na primeira linha, ela escrevera o nome em letras de imprensa bem certinhas. O nome inteiro, inclusive o nome do meio que nunca me ocorrera lhe perguntar.

Estendi a mão bem devagar e pus os polegares sobre o primeiro nome e a segunda sílaba do último sobrenome. O que restou foi DORIS DUN.

Lembrei o dia em que falara com a mulher de Frank Dunning, fingindo ser um corretor de imóveis interessado no Centro Recreativo da Zona Oeste. Ela era vinte anos mais velha do que Sadie Doris Clayton, nascida Dunhill, mas ambas tinham olhos azuis, uma pele maravilhosa e bela silhueta de seios fartos. Ambas fumavam. Tudo isso poderia ser coincidência, mas não era. E eu sabia.

— O que está fazendo? — O tom acusador significava que a verdadeira pergunta era Por que não para de fugir e se esquivar, mas eu não estava mais zangado. Nem um pouquinho.

— Tem certeza de que ele não sabe onde você está? — perguntei.

— Quem? Johnny? Quer dizer, Johnny? Por que... — Foi aí que ela decidiu que era inútil. Vi no rosto dela. — George, você tem de ir embora.

— Mas ele pode descobrir — disse eu. — Porque os seus pais sabem, e os seus pais achavam que ele era o máximo dos máximos, você mesma disse.

Dei um passo na direção dela. Ela deu um passo atrás. Do jeito que a gente recua de uma pessoa que revelou não ter a cabeça muito certa. Vi medo nos olhos dela, e falta de compreensão, e nem assim consegui parar. Lembre-se de que eu mesmo estava apavorado.

— Mesmo que você lhes tenha dito para não contarem, ele conseguirá tirar isso deles. Porque é encantador. Não é, Sadie? Quando não está lavando compulsivamente as mãos nem arrumando os livros em ordem alfabética nem falando de como é nojento ter ereções, ele é muito, muito encantador. Sem dúvida ele encantou você.

— Por favor, vá embora, George. — A voz dela tremia.

Em vez disso, dei outro passo na direção dela. Ela deu um passo atrás para compensar, bateu na parede... e se encolheu. Vê-la fazer isso foi como um tapa na cara de um histérico ou um copo de água gelada jogado na cara de um sonâmbulo. Recuei para o arco entre a sala e a cozinha, as mãos erguidas ao lado do rosto, como um homem que se rende. Que era o que eu fazia.

— Estou indo. Mas, Sadie...

— Só não entendo como conseguiu fazer isso — disse ela. As lágrimas chegaram; rolavam devagar pelo seu rosto. — Ou por que se recusa a desfazer. Tínhamos algo tão bom.

— Ainda temos.

Ela fez que não. Devagar, mas com firmeza.

Atravessei a cozinha de um jeito que me pareceu flutuar em vez de andar, peguei a embalagem de sorvete de baunilha num dos sacos sobre a bancada e o pus no congelador da geladeira Coldspot. Parte minha pensava que isso era só um pesadelo e eu logo acordaria. A parte maior sabia que não.

Sadie ficou em pé no arco, me observando. Tinha um cigarro novo numa das mãos e os formulários de emprego na outra. Agora que eu vira, a semelhança com Doris Dunning era assustadora. O que provocou a pergunta de por que não vira antes. Porque estivera preocupado com outras coisas? Ou porque ainda não tinha compreendido inteiramente a imensidão das coisas com que andava mexendo?

Saí pela porta de tela e fiquei na soleira, olhando-a através do arame.

— Cuidado com ele, Sadie.

— Johnny é maluco num monte de coisas, mas não é perigoso — disse ela. — E os meus pais nunca lhe contariam onde estou. Eles prometeram.

— Todo mundo pode quebrar promessas e todo mundo pode deixar algo escapar. Principalmente gente que tem sofrido muita pressão e, para começar, já é mentalmente instável.

— Você tem de ir embora, George.

— Prometa que vai ficar de olho nele e vou.

— Prometo, prometo, prometo! — gritou ela. O jeito como o cigarro tremia entre os dedos era ruim; a combinação de choque, perda, pesar e raiva nos seus olhos vermelhos era muito pior. Consegui sentir que me seguiam até o carro.

Malditos Rolling Stones.