O Poder dos Inquietos
Superando o medo: as histórias de Sean e Aaron
Com o passar das semanas, comecei a sentir um conflito cada vez mais intenso entre duas alternativas indesejáveis. Não era nada divertido dormir na sala e planejar nossa vida de acordo com as várias equipes de reforma ao longo do dia. Apesar do desconforto da mudança, depois de dez dias sem muito progresso, finalmente comecei a pensar em sair dali. Nós passamos dois anos morando bem naquele apartamento, mas a situação estava realmente nos levando ao limite.
Quando me ausentei do apartamento para uma viagem de dois dias, Jolie me telefonou às 23h dizendo que estávamos sem água. Depois de ligações tensas ao dono do apartamento e ao supervisor da reforma, ainda não sabíamos ao certo o que estava acontecendo. O abastecimento de água seria retomado pela manhã ou em duas semanas. Quem sabe? A mensagem implícita era que deveríamos agradecer pelo nosso apartamento agora já não tão confortável e pelo colchão na sala.
A notícia do corte da água me tirou do sério. Eu era capaz de morar em um acampamento urbano e lidar com seguradoras não muito solícitas, mas não estava disposto a viver sem água por tempo indeterminado. Naquele momento, a dor de permanecer na situação se tornou maior que a dor de promover uma mudança. Aquele foi o momento em que me vi pronto para mudar. Jolie concordou e começamos imediatamente a procurar um novo apartamento.
Menos de três semanas depois, nos mudamos para Portland, Oregon, a algumas horas de Seattle. Não estava nos nossos planos mudar para outro estado, mas, como nossas carreiras são flexíveis, decidimos que tanto fazia mudar para outro estado ou mudar para o outro lado da cidade. Sempre simpatizamos com Portland e acabamos nos beneficiando de uma experiência originalmente negativa na forma de um apartamento alagado. Fico feliz de ter feito a mudança, mas isso nunca teria acontecido se a dor da situação no apartamento tivesse sido apenas um aborrecimento em vez do verdadeiro desastre no qual se transformou.
Superando o medo: as histórias de Sean e Aaron
Quando o apartamento alagou, fui forçado a pensar em realizar uma mudança. Em outras situações, temos muitas outras escolhas. Em virtude de eu trabalhar como um autônomo pela maior parte da minha vida, muitas pessoas me abordam querendo saber como elas podem assumir mais controle da própria vida seguindo o caminho do empreendedorismo ou outro tipo de carreira não convencional.
Tive conversas como essas com pessoas de diferentes formações, inclusive estudantes, engenheiros, jornalistas, artistas e investidores – para citar só algumas. Todas estavam interessadas em criar uma carreira não convencional. A diferença estava no nível de conscientização do “desespero silencioso” de cada uma delas. Algumas tinham interesse em trabalhar por conta própria apenas como uma possibilidade, ao passo que outras estavam dispostas a fazer todo o possível para se aproximar dessa meta. Dito de outra forma, algumas estavam prontas para aceitar a incerteza da mudança, enquanto outras não.
Vou lhe contar duas histórias para ilustrar essa importante distinção. Elas não são colagens de histórias de várias pessoas diferentes (as duas são completamente verdadeiras), mas também é importante dizer que vi os padrões de cada uma delas repetidas vezes.
HISTÓRIA 1: SEAN
Normalmente, as pessoas que estão prontas para mudar desejam a mudança mais do que qualquer outra coisa. Elas querem sair da situação atual e querem isso para ontem. Uma das pessoas que conheci, que se encaixa nessa descrição, é Sean Ogle. Com apenas 23 anos, Sean trabalhava em seu primeiro emprego sério, como analista financeiro, havia um ano. Como resultado de uma combinação de inteligência, empenho e estar no lugar certo na hora certa, o cargo era superior ao que muitos recém-formados começam a vida profissional.
Sean ganhava mais do que a maioria dos colegas e, assim que começou a trabalhar, fez a primeira grande compra de sua vida: um Subaru Legacy GT 2005. Só havia um problema: ele odiava o emprego. Ele passava o dia inteiro sentado em sua pequena sala, olhando para as paredes e desejando estar em qualquer outro lugar. Com o que restou de suas economias, Sean viajou para o Brasil com um amigo. Foi quando ocorreu a mudança. O Brasil, e o que o país representava, era bom. O emprego que ele tinha era ruim. “Basicamente”, ele me disse com um olhar decidido durante nossa primeira conversa, “estou disposto a fazer o que for preciso para sair dessa situação”.
Conversamos um pouco e lhe sugeri uma longa lista de fontes de informações. “Você terá um tempo logo para dar uma olhada nessas informações?”, eu perguntei.
“Está brincando?”, ele respondeu. “Passarei a tarde inteira nisso. Depois, se precisar, ficarei acordado até a meia-noite. ”
Ao sair do café, passamos pelo Subaru dele. “Belo carro”, comentei.
“Gosto dele”, Sean concordou. “Mas vou vendê-lo. Este carro não me levará aonde quero ir na vida. ”
Sean parecia estar levando a ideia a sério e eu estava quase convencido. A única coisa que me impedia de me convencer totalmente era o fato de eu já ter ouvido essa história antes. Voltaremos à história de Sean, mas antes gostaria de falar um pouco sobre Aaron.
HISTÓRIA 2: AARON
Quando Jolie e eu morávamos na África Ocidental, voltávamos uma vez por ano aos Estados Unidos para visitar parentes e amigos. Nessas ocasiões, também fazíamos apresentações em vários eventos para levantar fundos e divulgar o trabalho que estávamos realizando no exterior. Depois da última palestra, durante nosso primeiro retorno, um sujeito me abordou nos fundos da sala. Ele tinha interesse em trabalhar como voluntário e queria conversar comigo, mais tarde, naquela noite.
Sinceramente, eu não queria continuar a conversa à noite. Estávamos nos preparando para ir a Amsterdã na manhã seguinte, queríamos nos despedir das nossas famílias e ainda
não tínhamos feito as malas. Mas Aaron4 estava desesperado – no bom sentido. Parecia que ele estava falando sério, de forma que olhei para Jolie, ela assentiu com a cabeça e concordamos.
Às 22h30 naquela noite, Aaron foi à nossa casa e passamos uma hora conversando enquanto Jolie e eu fazíamos as malas. Nós contamos tudo sobre a África, o que nossa organização fazia e como ele poderia ajudar. Aaron estava interessadíssimo e fez muitas perguntas pertinentes. Depois de uma hora, estávamos realmente preocupados com os preparativos da nossa viagem da manhã seguinte. Eu não conseguia parar de olhar para o relógio e ele finalmente entendeu a situação. Nós nos despedimos e Aaron disse que manteria contato.
Jolie e eu voamos para a Europa e nos encontramos com alguns amigos antes de prosseguir para a África Ocidental. Completamente envolvidos com o trabalho, nos esquecemos totalmente de Aaron e ele nunca entrou em contato. Um ano depois, quando voltamos para casa, estávamos fazendo uma apresentação em um evento. Adivinhe o que aconteceu? Aaron estava sentado na primeira fila. Depois da palestra, ele me procurou um pouco envergonhado, dizendo que pretendia entrar em contato, mas várias coisas aconteceram. Ele, por exemplo, entrou em um novo relacionamento que achou que levaria a algo sério, de forma que adiou os planos de trabalhar como voluntário.
Mas, ele disse, o relacionamento terminou, ele estava pronto para começar de novo e queria conversar conosco, pois tinha mais perguntas. Dessa vez, me encontrei com Aaron em um café e conversamos por 45 minutos. Muitas das perguntas que ele fez eram as mesmas do ano anterior. E minhas respostas foram basicamente as mesmas: aqui está o prospecto, essa é a pessoa com quem pode falar, isso é o que precisa saber, cabe a você dar o pontapé inicial. Aaron ficava dizendo “Quero muito fazer isso”, mas sempre com um quê de hesitação. Quando nos despedimos, ele prometeu manter contato.
Mais um ano se passou e não tivemos notícias de Aaron. No ano seguinte, voltamos mais uma vez da África para casa e, um dia, no mesmo café, encontrei Aaron pela terceira vez. Tivemos praticamente a mesma conversa dos dois anos anteriores, mas, dessa vez, minhas respostas foram um pouco mais breves. Eu passei o tempo todo pensando: “Qual é o lance desse cara? Ele diz que quer muito isso, mas não está disposto a fazer nada para concretizar seu desejo”. Encontrei-me com Aaron pela última vez no último ano em que voltamos de visita aos Estados Unidos e não me surpreendi quando ele me contou que nada tinha mudado desde que nos conhecemos.
Talvez Aaron simplesmente não estivesse pronto e seu momento ainda não tinha chegado. Mas todos os anos, quando o via naquele café, eu ficava triste por ele. Eu sentia que Aaron queria que alguém o pegasse pela mão e tomasse as decisões por ele – algo que provavelmente não aconteceria.
Enquanto isso, Sean não ficou esperando que a oportunidade cruzasse por acaso seu caminho. Ele seguiu o conselho de Andy Warhol:“Dizem que o tempo muda as coisas, mas na verdade quem deve mudá-las é você”. Voltei a me encontrar com ele um mês depois da nossa primeira conversa. Ele levou um bloco repleto de anotações, uma lista de tarefas e perguntas. Indaguei como iam as coisas no trabalho e ele sorriu quando me contou: “A boa notícia é que estou ainda mais infeliz do que antes”. A situação estava tão tensa que ele precisou dizer ao chefe que ia ao médico para poder se encontrar comigo no café, naquela tarde. O lado bom disso tudo é que ele começou a dedicar várias horas por dia trabalhando em um novo blog sobre seus planos de viagem.