O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 23 de 58

Páginas do PDF

O Poder dos Inquietos

Confissões de um empreendedor renegado: a minha história

Confissões de um empreendedor renegado: a minha

história

No meu caso, as opções de redefinir as regras de trabalho foram diferentes das de Allan ou Susan. Confesso que nunca fui muito qualificado para a força de trabalho tradicional e não apresentei um desempenho espetacular nos poucos empregos de meio expediente que tive antes de partir em carreira solo aos 20 anos de idade.

Como descrevi no Capítulo 1, não tenho um histórico de abrir empresas multimilionárias. O que tenho é uma história de sobrevivência trabalhando por conta própria e fazendo o que for preciso. Com o tempo, passei a ver o empreendedorismo como uma força para fazer o bem no mundo – mas no começo, me limitei, em grande parte, a pagar o aluguel a cada mês.

Dizem que um empreendedor é uma pessoa que trabalha 24 horas por dia para ele mesmo para evitar trabalhar uma hora por dia para alguém. É justo dizer que essa afirmação descrevia bem meu trabalho por alguns anos. Não criei nenhum tipo de infraestrutura sustentável, o que me obrigava a fazer tudo sozinho. Para o bem ou para o mal, se não tinha vontade de fazer algo, eu simplesmente não fazia.

Eu seria o primeiro a dizer que esse não é o modelo mais inteligente a ser seguido e não estou necessariamente defendendo essa forma de agir. Mas, pelo menos nos primeiros anos, ele serviu bem aos meus propósitos. Eu estava focado em outras coisas – quatro anos na África, tocar em bares à noite, viajar, fazer a pós e assim por diante. Eu não estava enriquecendo, mas tinha o dinheiro necessário para fazer a maior parte das coisas que queria. Quando ganhava o suficiente para sobreviver durante o mês, parava de me preocupar com dinheiro até o mês seguinte.

Depois de me mudar para o exterior, continuei a me sustentar com bicos, prestando consultoria para contas do Google Adwords e criando sites para clientes em vários países. No começo, o trabalho só me tomava algumas horas por semana, mas, no meu terceiro ano no exterior, um novo negócio de divulgação de informações, que abrira em uma das voltas para casa, começou a decolar ao mesmo tempo que minhas responsabilidades de voluntariado se acumulavam. Meus colegas e clientes do negócio não faziam ideia de que eu morava na África e meus colegas de voluntariado na África desconheciam minhas atividades paralelas na internet. Algumas vezes ao mês eu configurava meu relógio para me despertar para conferências telefônicas por satélite às 3h da manhã, com os outros participantes ligando de Los Angeles e Londres. Ninguém sabia que eu estava tão longe, em locais como Serra Leoa e Libéria.

Eu trabalhava 45 horas semanais em projetos de voluntariado e pelo menos 20 horas semanais no negócio. Tudo ia bem – ou pelo menos tão bem quanto seria de se esperar, uma certa noite, a operação improvisada caiu por terra. Eu tinha acabado de voltar de um longo dia de trabalho em campo, entregando suprimentos médicos em uma vila a duas horas de distância da capital onde estava morando. Entrei na internet por meio de uma precária conexão por satélite e comecei a baixar meus e-mails. Eu planejava passar 20 ou talvez 30 minutos processando mensagens e fazendo o upload de pedidos antes de ir dormir.

Foi quando li a mensagem com o assunto “Atualização urgente” e vi que a mensagem vinha do meu novo centro de distribuição. A mensagem explicava que eles estavam fechando as portas da empresa imediatamente. “Os pedidos deixarão de ser enviados”, o proprietário dizia e, de fato, nenhum novo pedido havia sido entregue em três semanas. Quando telefonei desesperado para obter mais informações, o número não existia mais.

Olhando para trás, eu deveria ter percebido os sinais de alerta –o estoque não estava sendo reposto no banco de dados e eu vinha recebendo respostas pouco convincentes às minhas perguntas –, mas, entre levar caminhões de suprimentos de ajuda humanitária e ajudar a reunir pacientes de toda a região, eu simplesmente deixei de ver as bandeiras vermelhas. Lendo aquele e-mail, por meio de uma instável conexão de internet tarde da noite no meu pequeno escritório, eu me perguntei o que poderia fazer. Eu me vi com uma enorme crise nas mãos, pouco tempo para solucioná-la e estava realizando um importante trabalho na Serra Leoa, que não podia simplesmente deixar de lado para voltar aos Estados Unidos.

Em questão de horas, outros empresários, sentindo-se abandonados, começaram a desabafar em vários fóruns on-line, enfurecidos com a empresa que nos deixou sem um elo crítico da cadeia de suprimento. Eu também estava furioso, mas sabia que me concentrar na raiva não ajudaria. O centro de distribuição continuaria falido e eu continuaria sem uma solução para a crise. Eu sabia que o melhor a fazer seria me concentrar em uma solução para o problema. Eu poderia lidar com os sentimentos negativos depois.

Eu liguei para meu irmão, que já tinha trabalhado comigo no negócio mais de cinco anos antes, mas que agora tinha a própria empresa. “Ken”, eu disse, “preciso da sua ajuda”. Meu plano era pedir que ele atuasse como meu centro de distribuição provisório, enquanto eu procurava uma solução de longo prazo. Por sorte, ele topou me ajudar. Em seguida, telefonei para a gráfica para encomendar novos materiais, liguei para três outros centros de distribuição para ver se eles poderiam ajudar, e para vários outros clientes do fornecedor falido para verificar novas opções. Nos dez dias que se seguiram, substituímos 20 mil dólares em produtos e encontramos um novo fornecedor disposto a receber vários dos “clientes refugiados” do centro de distribuição falido.

No início, o processo de apagar o incêndio foi extremamente estressante. Nas primeiras horas, eu não fazia ideia se conseguiria ou não me recuperar de um problema tão inesperado. Mas, depois do último telefonema, lá pela meia-noite, fui tomado por uma profunda tranquilidade. Por mais estranho que fosse, senti que em alguns aspectos a crise era algo positivo para mim. Ela me forçou a reavaliar o que estava fazendo e pensar de maneira criativa para solucionar o problema, ao mesmo tempo em que minimizava o prejuízo.

“Vai dar tudo certo”, escrevi no meu diário enquanto esperava um dos meus fornecedores atender ao telefone. “Encontrarei um jeito de superar isso e sairei disso mais forte. ”

E, de fato, deu tudo certo. Meu irmão realizou um excelente trabalho, atuando como um centro de distribuição improvisado durante três semanas, o novo centro assumiu depois disso (prestando um serviço muito melhor que o centro falido) e eu saí mais confiante de que seria capaz de lidar com qualquer problema que surgisse.

A lição que aprendi foi que é possível se recuperar de qualquer coisa. Mesmo se o fornecedor desaparecer e você estiver a 8 mil quilômetros de distância, um empreendedor criativo precisa ser capaz de resolver a situação de alguma maneira. Ninguém mais pode assumir a culpa ou a responsabilidade pela recuperação.

Pode parecer uma contradição, mas, quando você consegue sobreviver a uma crise possivelmente “letal”, muitas vezes, sairá mais forte do que antes. O melhor de tudo foi que a maioria das pessoas ao meu redor não fazia ideia do que estava acontecendo. Meus clientes distantes ficaram satisfeitos e meus colegas do voluntariado na África nunca ficaram sabendo da crise que eu vinha enfrentando nas madrugadas. Passei mais um ano trabalhando como um voluntário antes de voltar ao meu país para fazer a pós-graduação e cheguei a reduzir o número de horas dedicadas ao meu negócio e, mesmo assim, ele continuou a crescer.