O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 41 de 58

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O Poder dos Inquietos

Uma educação nômade

Quando chegamos ao ponto de ônibus na periferia de Damasco uma hora depois, os canadenses e eu fomos abordados por inúmeros motoristas de táxi tentando conseguir uma corrida. Escolhendo um que aparentava ser especialmente solícito, fomos à famosa Cidade Antiga, fizemos o check-in em um hotel e passamos o resto do dia explorando mercados e mesquitas.

Nos dias seguintes, trabalhei em um cybercafé e no terraço do meu quarto das 9h às 13h, parando para almoçar e conhecer a cidade. Passava os fins de tarde e as noites com meus novos amigos e vários sírios que conhecemos na primeira noite. No fim da semana, me despedi com relutância e parti para Amã, Jordânia, onde tinha um voo para a Ásia e depois para casa. Foi triste deixar a cidade, mas sabia que estaria de volta algumas semanas depois. Ir a um lugar como a Síria poderia facilmente ser uma aventura única na vida, mas para mim não passava de mais um dia no escritório.

Uma educação nômade

Eu sempre gostei de mapas. Na infância, passava horas estudando mapas-múndi, traçando percursos para percorrer os Estados Unidos de carro, decorando o nome das capitais de todos os países e sonhando com lugares distantes. Por sorte, tive várias experiências interculturais que me ajudaram a valorizar as semelhanças e diferenças de povos em cantos remotos do mundo. Eu nasci no Estado da Virgínia, mas cresci em vários lugares diferentes, incluindo Montana, Alabama e as Filipinas. Meus pais moravam em regiões diferentes do país, de forma que pelo menos duas vezes por ano eu viajava como um menor desacompanhado em uma série de voos. Depois de algumas viagens, eu já conhecia os aeroportos de Atlanta, Minneapolis e Salt Lake City melhor que qualquer outro garoto de 10 anos e adorava me perder do funcionário da companhia aérea encarregado de me acompanhar e vaguear sozinho pela multidão.

Quando Jolie e eu nos mudamos para a África Ocidental em 2002, senti-me ainda mais à vontade ao viajar para lugares diferentes. Nos nossos dois últimos anos no exterior, atuei como diretor de programas da Mercy Ships, a instituição de caridade médica da qual ouvimos falar depois do 11 de Setembro. Parte do trabalho requeria que eu percorresse a região, reunindo-me com líderes governamentais, inspecionando portos e conhecendo clínicas.

Em um voo de Serra Leoa à República da Guiné, vi uma garrafa d’água colada com fita adesiva na parede com o rótulo “Extintor de Incêndio”. Felizmente, não precisei utilizá-la. Em outro voo, à Costa do Marfim, nosso pequeno e antigo avião já estava começando a taxiar pela pista de decolagem quando um sujeito africano de terno se aproximou correndo da aeronave, tentando freneticamente chamar nossa atenção. Para minha surpresa, o avião parou e permitiu que ele embarcasse – depois que ele colocou dinheiro na mão do copiloto.

As viagens eram fisicamente desgastantes, mas emocionalmente estimulantes. Volta e meia me pediam subornos, aprendi a falar francês enquanto estive detido na mansão presidencial na República da Guiné e enfrentei mosquitos da malária ao passar noites em casas de missionários na praia. Não gostei nada dos mosquitos, mas todo o resto me fascinava.

Depois de um ano viajando dessa forma, estava pronto para explorar mais do mundo. Uma viagem me levaria da Libéria a Benin (na África Ocidental) e de lá a Johannesburgo (na África do Sul). Como as opções de voo na África são limitadas, descobri que sairia mais barato voar de Benin à Europa e de lá para Johannesburgo. Por se tratar de uma longa viagem, organizei-me para tirar alguns dias na Europa antes de prosseguir para a próxima parada.

Eu já tinha ido à Europa várias vezes antes, mas só para países como a França e a Holanda, e nunca sozinho. Quando o agente de viagens estava reservando as passagens, descobri que poderia ir a Budapeste pelo mesmo preço que pagaria se desembarcasse em Paris. Perfeito. De Budapeste viajei a Praga de trem, e a jornada de seis horas me proporcionou um bom tempo para refletir sobre todos os locais que conhecera até então.

Comecei a contar todos os países que visitei e o total foi cerca de 50. “Poderia ser melhor”, pensei, “mas quanto custaria para conhecer 100?” Quando comecei a fazer as contas em termos de tempo e custo financeiro, percebi que custaria aproximadamente 30 mil dólares e vários anos de viagens regulares para conhecer os outros 50 países. Fiquei pasmo ao perceber como poderia sair relativamente barato. Meus amigos estavam comprando carros (normalmente grandes utilitários ou minivans na época) e, algumas vezes, pagavam mais de 30 mil dólares. No tempo em que morei no exterior, passei a valorizar a simplicidade e a frugalidade, de forma que não tinha desejo algum de gastar tanto dinheiro em um carro. Para mim, era muito mais fácil optar por conhecer o mundo.

Quando voltei aos Estados Unidos e entrei na pós-graduação, usei todos os intervalos entre os semestres para viajar para o exterior. No primeiro ano, fui a lugares tão variados quanto a Birmânia, Egito, Kosovo, Moldávia e Uganda. Quanto mais eu viajava, mas me sentia à vontade e mais aprendi sobre o que chamo de travel hacking – meu sistema de usar passagens ao redor do mundo (também conhecidas como tarifas RTW – Round The World), milhagens de programas de fidelidade e outros truques para reduzir o custo das viagens a cerca de 400 dólares por voo para qualquer lugar do mundo.

Como mencionei no Capítulo 2, o interessante de determinar grandes metas é que, quando realmente levamos o processo a sério, muitas vezes, descobrimos que leva menos tempo para atingi-las do que inicialmente esperávamos. Foi, sem dúvida, o que aconteceu com minha meta dos 100 países. Em uma das primeiras viagens, reservei uma passagem chamada “Circle Pacific”, para percorrer países do Pacífico, que me permitiu visitar vários países da Ásia partindo dos Estados Unidos e chegando à Ásia pelo norte (China, Coreia ou Japão), percorrer a região em algumas paradas (Vietnã, Hong Kong, Singapura) e voltar à América do Sul (saindo da Austrália ou Nova Zelândia). Na minha segunda parada em Hong Kong, peguei uma balsa para Macau, outro território chinês. No percurso de uma hora, revi minhas velhas notas sobre a jornada dos 100 países. Na ocasião, eu tinha chegado a cerca de 80 países, em menos de dois anos depois de determinar a meta de conhecer 100 países.

Foi quando me ocorreu: em vez de limitar a meta a apenas 100 países, por que não conhecer todos os 192? Passei o resto da viagem de balsa tentando traçar percursos e estimar quanto tempo levaria. Uma das coisas que diferencia uma meta de um sonho é um prazo concreto, de forma que estabeleci como prazo final meu 31° aniversário – pouco menos de cinco anos. Minha cabeça fervilhava enquanto caminhava por Macau. Será que eu conseguiria visitar todos os 192 países? E se algo desse errado ou meu dinheiro acabasse?

Depois de conversar com minha família e passar algumas semanas pensando a respeito ao voltar para casa, decidi abraçar formalmente a missão. Dependendo de quando você estiver lendo isso, estarei a caminho de atingir minha meta ou chegando ao final da minha jornada. Conheci vários lugares interessantes recentemente – Síria, Iraque, Paquistão, Mongólia, Suazilândia, entre outros –, mas fica cada vez mais difícil ir dos 100 aos 192 países por causa da natureza de pular de um lugar ao outro.

 

Atualmente, moro no Noroeste do Pacífico, mas esse é apenas o lugar onde fico entre minhas viagens ao resto do mundo. Também me sinto em casa em partes da Ásia, África e Europa. Percebi recentemente que tinha atingido uma meta importante que nunca determinei formalmente: praticamente o mundo inteiro se abriu para mim. Agora posso chegar a países aos quais nunca estive antes e instintivamente saber como transitar e sobreviver. Também sinto algo como uma volta ao lar em inúmeros lugares aos quais retorno com frequência em cada continente.