O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 53 de 58

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O Poder dos Inquietos

Conclusão

“Seja ousado, seja diferente, seja visionário, seja o que for

necessário para proteger a integridade do seu propósito e

a visão imaginativa contra os conformistas avessos ao

risco, as criaturas do senso comum, os escravos da

mediocridade.”

SIR CECIL BEATON

 

Sei muito bem que algumas ideias apresentadas neste livro não serão recebidas de braços abertos pelo público em geral. Se você leu até aqui, já sabe que não tenho interesse em falar para todos – e, como este livro foi criado para ajudá-lo a questionar o status quo, você pode muito bem imaginar qual será a reação do status quo.

A crítica mais comum às ideias não convencionais é que elas são impraticáveis ou impossíveis de serem implementadas. É expressa em afirmações como:

“Não podemos fazer só o que queremos. ”

“Alguns de nós precisam ser responsáveis. ”

“Isso não dá certo no mundo real. ”

“Você não gostaria de um cirurgião cardíaco não conformista, não é mesmo?”

“Impraticável”, “impossível” e “absurdo” são termos utilizados para marginalizar uma pessoa ou ideia que deixa de se adequar aos padrões convencionalmente esperados. Meu argumento é que o mundo, na verdade, precisa de mais pessoas que não se conformam e que se recusam a se adequar. Sem a determinação de pessoas “não razoáveis”, a maioria de nós (inclusive as pessoas “razoáveis”) estaria em uma situação muito pior. Martin Luther King Jr. foi acusado de falta de bom senso ao sugerir que todos os homens e mulheres livres deveriam ser tratados igualitariamente. Gandhi foi acusado de falta de bom senso ao sugerir que a Índia deveria se libertar do colonialismo inglês.

A inovação é o resultado do empenho de empreendedores e de outras pessoas dispostas a correr riscos e tentar coisas novas. Melhorias na justiça social resultam do empenho dos que questionam a autoridade. Em outras palavras, não considero uma crítica se for chamado de “louco” ou “sonhador”. É por isso que proponho uma alternativa às pessoas insatisfeitas. Deixe o “mundo real” para aqueles que se satisfazem com isso e venha para o mundo dos vivos. Você não vai se arrepender.

 

Trabalhei na equipe de liderança de uma igreja que não conseguia decidir entre a contratação de mais funcionários ou permitir que mais voluntários assumissem mais responsabilidades. As pessoas que defendiam a contratação de mais profissionais pagos argumentavam que, sem remuneração, ninguém estaria disposto a realmente se comprometer a ajudar. O outro grupo sustentava que grande parte do trabalho seria realizado por voluntários de qualquer maneira e, se as pessoas certas fossem encarregadas de tarefas específicas e claramente definidas, os voluntários se empenhariam mais do que qualquer empregado contratado.

Você pode imaginar que me coloquei ao lado das pessoas que defendiam o trabalho voluntário. Acredito que, se você pedir que as pessoas trabalhem de graça em uma missão difícil, obterá recrutas muito mais comprometidos do que de qualquer outra forma. Você já pode conhecer o exemplo clássico de “Shackleton” utilizado com frequência para ilustrar esse ponto. Ernest Shackleton, que liderou inúmeras expedições à Antártica no início do século XX, criou um pôster de recrutamento com a seguinte declaração:

“Procuram-se homens para jornada arriscada. Salários baixos, frio cortante, longos meses de escuridão completa, perigo constante, sem garantia de um retorno seguro. Honra e reconhecimento em caso de sucesso. ”

O anúncio foi ousado, audaz e altamente eficaz: Shackleton teve muitos problemas com queimaduras de pele provocadas pelo frio e recursos financeiros insuficientes, mas nunca teve muita dificuldade de recrutar tripulantes. Quando seu anúncio da “jornada arriscada” foi publicado, mais de 5 mil homens se candidataram para o emprego, que na época envolvia ficarem encalhados na Antártida por mais de um ano, bebendo gelo derretido e caçando focas para se alimentar.

Você pode não precisar acampar na Antártica e matar o próprio jantar, mas, se escolher algum tipo de jornada não convencional, provavelmente acabará se sentindo sozinho de tempos em tempos. Felizmente, você também se sentirá vivo. Muitos de nós descobrimos que a sensação de estarmos vivos mais do que compensa quaisquer consequências negativas de viver nos nossos próprios termos.

Algumas ideias perigosas

 

Analisamos diversas ideias perigosas ao longo deste livro. A crença de que a segurança profissional pode ser encontrada internamente e não em um emprego tradicional é extremamente perigosa. O fato de ser possível criar uma vida baseada nas coisas de que você gosta sem ser egoísta está longe de ser amplamente aceito. O modelo convencional ainda é o mito do adiamento da gratificação – passar a maior parte dos anos produtivos da nossa vida acumulando uma riqueza que só poderá ser usufruída depois de anos ou décadas, em um futuro distante.

Na verdade, a crença básica de que você deveria fazer o que quer na maior parte do tempo incomoda e perturba algumas pessoas. O mesmo pode ser dito da convicção de que nossa vida deveria ser dedicada a muito mais do que nossos próprios interesses. Antes de atacarmos para tomar o castelo (podemos começar ocupando a cidade), vamos analisar algumas outras ideias perigosas que vale a pena divulgar.

• Os estudantes poderiam se rebelar e revolucionar as

universidades, deslocando o equilíbrio de poder na direção do grupo que possibilita a existência da instituição – isto é, os próprios estudantes. Em nenhuma outra instituição do mundo, uma grande maioria entrega voluntariamente tanto poder a uma minúscula minoria. O sistema de notas e pontuação poderia ser abolido ou alterado e os currículos poderiam ser reelaborados para se voltar mais à tentativa e erro do que à mera memorização.

• As comunidades poderiam abolir 98% da indigência,

destinando espaço suficiente para “cidades-acampamento” e oferecendo abrigo gratuito durante um período de até

um ano. (Apesar das inúmeras objeções, isso foi implementado com sucesso em várias cidades no Estado de Washington (Estados Unidos), e em Quebec (Canadá).

• Por que instituições de caridade continuariam existindo se

não conseguiram solucionar os problemas que se propuseram a resolver? Se uma empresa fracassa, ela abre falência e fecha as portas. As instituições de caridade poderiam solucionar os problemas e sair do caminho.

• As prisões para criminosos não violentos poderiam ser

centros “abertos” onde os ocupantes iriam todos os dias para trabalhar em um emprego supervisionado que contribuiria para a sociedade e os ajudaria a se recuperar. (Isso já existe na Dinamarca e na Holanda.)

• Com o empenho suficiente de indivíduos e grupos, a

pobreza, a subnutrição e o analfabetismo sistêmicos poderiam ser completamente erradicados em poucos anos sem a necessidade de utilizar fundos públicos.

Não gostou desses pontos? Tudo bem, mas quais são suas ideias perigosas? As pessoas que apresentam, defendem e promovem ideias perigosas assumirão uma responsabilidade pessoal por elas. Elas não se satisfarão com o status quo e se empenharão para mudálo. Enquanto os outros se limitam a recuar e reclamar, elas fazem do mundo um lugar melhor.

O contrário da sorte

 

Gostaria, ao final deste tempo que passamos juntos, de desejar a você uma boa sorte, sabendo que a sorte tem pouca relação com o restante da sua jornada. Sorte, destino, condições na infância, privilégios sociais –nenhum desses elementos é completamente irrelevante, mas eles não contam a história toda. Uma combinação de fatores nos levou a sermos quem somos hoje e, para o bem ou para o mal, não podemos ser totalmente responsáveis pelo nosso passado.

Somos, no entanto, responsáveis pelo nosso futuro. O que importa daqui em diante tem pouca relação com a sorte e muito mais com nossas próprias escolhas. Vamos analisar mais detalhadamente a citação de Sir Cecil Beaton apresentada no início deste capítulo:

“Seja ousado, seja diferente, seja visionário, seja o que for

necessário para proteger a integridade do seu propósito e a visão imaginativa contra os conformistas avessos ao risco, as criaturas do senso comum, os escravos da mediocridade. ”

Seja ousado, seja diferente. Ao escolher viver uma vida notável, o fracasso é uma possibilidade real, mas o arrependimento é puramente opcional. Se um plano não der certo, você pode tentar algo diferente – mas, se nunca tentar, irá para o túmulo sem ter atingido seu pleno potencial, como sugeriu Henry David Thoreau.

Seja visionário. Você não precisa viver a vida de acordo com as expectativas dos outros. A maioria das invenções foi considerada impraticável em primeira análise. Na história do mundo, ideias provocativas que iam contra as autoridades raramente foram bem recebidas pelas pessoas que controlavam o acesso ao poder e à riqueza.

Proteja a integridade do seu propósito e a visão imaginativa contra os conformistas avessos ao risco. O mundo tem sonâmbulos e cínicos suficientes; e os outros precisam da sua ajuda. Cometi muitos erros ao longo da minha jornada não convencional. Mas me recusei a ficar acomodado e espero que você também não se acomode.

É um bom começo pegar o caminho menos percorrido, mas também é possível criar o próprio caminho. Espero encontrá-lo quando nossos caminhos se cruzarem.

Agora é sua vez.