O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 38 de 58

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O Poder dos Inquietos

Parte 1: Eliminar o desnecessário

Uso aqui o termo “convergência” no seguinte sentido: o estado no qual todos os elementos da nossa vida estão em alinhamento. Temos bons relacionamentos com parentes e amigos, nosso trabalho nos empolga e temos uma boa saúde, fazemos mais ou menos o que queremos todos os dias e sabemos que estamos fazendo uma diferença no mundo. Em resumo, nos vemos cheios de gratidão e diante de desafios regulares em uma vida ativa e abundante. Para atingir a convergência, duas atividades distintas (porém relacionadas) são necessárias: livrar-se de tarefas, obrigações e expectativas desnecessárias e acolher uma ampla variedade de outros elementos que enriquecem nossa vida.

 

Parte 1: Eliminar o desnecessário

Como Murakami descobriu, determinar os termos de uma vida não convencional começa com uma decisão ativa. Se quiser enfrentar o mundo e viver nos seus próprios termos, precisará ser relativamente resoluto, porque seu caminho estará repleto de novas distrações todos os dias. Essas distrações incluem:

• as 3 mil mensagens de marketing que a maioria de nós

recebe todos os dias;

• trabalho inútil imposto pelos outros ou que você cria para

si mesmo;

• obrigações ou responsabilidades desnecessárias; • normas sociais e crenças amplamente difundidas em

relação ao trabalho e ao tempo (a crença de que você

deve trabalhar um determinado número de horas por dia, por exemplo, sem considerar o que de fato é feito durante esse tempo).

Ao começar a redefinir a maneira como passará a dedicar seu tempo, se não souber ao certo quais responsabilidades deverá assumir, pode ser útil começar a aplicar um filtro a todas as opções com as quais você encontra. A resposta às duas perguntas – “Por que eu deveria fazer isso?” e “O que acontecerá se eu não fizer?” – esclarecerá a necessidade de assumir ou não vários tipos de responsabilidade.

Exemplo: Você tem uma reunião marcada e sabe que ela não será produtiva.

Pergunta: “Por que eu deveria fazer isso?” (Respostas possíveis: as pessoas esperam que eu compareça, nós nos reunimos toda semana, pode ser diferente desta vez etc.) Pergunta: “O que acontecerá se eu não comparecer?” (Respostas possíveis: provavelmente nada, alguém ficará irritado, alguém pode achar que foi esperto da minha parte não ter comparecido etc.)

Se a resposta for que você será demitido imediatamente, pode ser necessário engolir o sapo e comparecer à reunião. Provavelmente, você poderá encontrar uma maneira de não participar da reunião e, ao mesmo tempo, manter o emprego.

Na verdade, se quiser levar a abordagem realmente a sério, pode estender ainda mais o questionamento quando se vir diante de algo que não quer fazer. “O mundo acabará se eu não fizer isso? Alguém morrerá?” Se a resposta for negativa, você pode colocar a obrigação na coluna de “desnecessárias”. Você pode acabar cumprindo a obrigação, mas terá dado a si mesmo a possibilidade agir de outra forma, se preferir.

Se começar a implementar essa prática, aos poucos você aprenderá a discernir entre obrigações necessárias e desnecessárias. O próximo passo é dizer “não” ao maior número possível de obrigações desnecessárias. Isso é de uma importância crítica na determinação dos termos da sua vida e, quanto mais você se aproximar das suas metas pessoais, mais precisará recusar demandas pelo seu tempo. Você pode até precisar dedicar longos períodos ao que chamo de “exclusão radical” ou se afastar de absolutamente tudo que sirva como uma distração das suas prioridades.

A exclusão radical é mais um estado de ser do que uma atividade, apesar de poder ser útil dedicar um período específico para isso. Nessa fase, você busca restringir o número de novos elementos na sua vida para poder se concentrar em um projeto específico ou uma sessão de brainstorming. Foi o que Bill Gates decidiu fazer em suas “Think Weeks”, quando duas vezes ao ano ele se retirava para passar vários dias lendo, livre de todas as distrações. Um assistente levava sanduíches de queijo e refrigerante diet duas vezes ao dia enquanto Gates elaborava a futura estratégia da Microsoft para dominar o mundo. Na época, ele era o homem mais rico do planeta e o CEO da Microsoft, de forma que, se ele conseguiu encontrar um tempo para se distanciar da rotina, imagino que você também consiga. Na verdade, chego ao ponto de sugerir uma correlação entre a exclusão radical de Gates e seu sucesso.

Advertência: se você escolher eliminar as distrações e se retirar das obrigações sociais, nem todo mundo entenderá esse comportamento. Algumas pessoas podem se frustrar com você. Enquanto isso, você estará realizando mais do que todas essas pessoas.

 

LISTAS DE COISAS PARA DEIXAR DE FAZER

Um importante princípio do planejamento de vida é que você pode ter o que quiser, mas não pode ter tudo ao mesmo tempo. Para ser capaz de dedicar a maior parte do seu tempo a projetos e atividades que aprecia, você precisará abandonar, com determinação várias outras atividades.

A melhor maneira de parar de perder tempo com distrações desnecessárias é elaborar uma “lista de coisas para deixar de fazer”. É melhor que uma lista de afazeres, por ajudá-lo a ver o que o está puxando para baixo. A lista de coisas para deixar de fazer é exatamente o que o nome sugere: uma lista de coisas que você simplesmente não quer mais fazer.

Pense nas tarefas que drenam sua energia sem levar a nada útil. Sempre haverá tarefas que drenam sua energia e que levam a resultados nos quais você acredita – demanda muita energia ser um assistente social, por exemplo –, mas a lista de coisas para deixar de fazer deve incluir tarefas que o puxam para baixo sem lhe dar nenhum prazer e sem ajudar ninguém.

Tente pensar, no mínimo, em três a cinco coisas que você atualmente faz e que ocupam seu tempo e o distraem de tarefas mais importantes. Na primeira vez que elaborei minha lista de coisas para deixar de fazer, percebi que gastava, pelo menos, cinco horas por semana em coisas que não me traziam valor algum. Apesar de a vida ser repleta de coisas que não gostamos de fazer, o princípio é que muitas dessas coisas podem simplesmente deixar de ser feitas sem grandes repercussões.

 

VIVENDO COM 100 COISAS

Além de tarefas improdutivas e reuniões inúteis que nos puxam para baixo, o número de “coisas” físicas que temos também pode restringir nosso potencial. David Bruno, um escritor e empreendedor que estava se aproximando do fim de um projeto de negócios no qual ele passou cinco anos trabalhando, nos proporciona um excelente exemplo disso. O negócio nasceu no verso de um guardanapo da Starbucks e cresceu a ponto de ele vender sua participação na empresa e voltar a escrever e trabalhar em sites em período integral.

David se incomodava com o que considerava um consumismo excessivo na América e se preocupava com os efeitos disso em sua vida. Para combater esse problema, ele lançou o “desafio das 100 coisas”. Por pelo menos um ano, David se comprometeu a viver com apenas 100 coisas. De acordo com as regras que ele criou para o desafio das 100 coisas, “livros” contavam como um item, apesar de ele ter uma grande biblioteca, e “meias” e “roupas de baixo” contavam como um item cada, apesar de ele possuir várias meias e roupas de baixo.

David publicou sua lista de 100 coisas na internet e convidou as pessoas a se unir ao desafio, embora tenha deixado claro que se tratava de um projeto pessoal no qual ele estava se dedicando em benefício próprio. Ele descreveu o projeto como “meu jeito de personalizar minha batalha contra o consumismo”

. 16 Apesar de David hesitar em pedir que as pessoas se unissem ao desafio, não levou muito tempo para que o projeto das 100 coisas fosse amplamente divulgado no Facebook e na comunidade de blogueiros.

Não adotei à risca a regra das 100 coisas de David, mas gostei o suficiente da ideia para procurar no meu apartamento coisas das quais eu não precisava. Apesar de eu ter uma aversão declarada ao acúmulo de “coisas”, percebi que permiti que muitas delas entrassem despercebidas na minha vida desde que voltei aos Estados Unidos, depois de morar no exterior. Por que eu precisava de um velho computador que não usava há meses? Para que duas impressoras em vez de apenas uma? Eu provavelmente não me tornaria um jogador profissional de Guitar Hero, então, por que ainda tinha uma guitarra de plástico em um canto do quarto?

Decidi adotar uma estratégia ativa de reducionismo. Por pelo menos um mês, livrei-me de cinco coisas por dia. Não impus nenhuma restrição a essas cinco coisas e não me concentrei muito na forma de descarte – algumas eram doadas, outras iam para o Exército de Salvação e outras eram descartadas como recicláveis ou lixo comum. Quanto mais eu retirava coisas do meu espaço físico, mais me vi capaz de me concentrar no meu trabalho e em outras atividades prazerosas.

J. D. Roth, criador do site de finanças pessoais Get Rich

Slowly (www.getrichslowly.org), criou uma regra similar para seu guarda-roupa. Um dia, ele tirou todas as roupas do armário de seu quarto e as colocou no armário do quarto de hóspedes. Sempre que ele tirava alguma peça de roupa do armário do quarto de hóspedes para vestir, ele a colocava de volta ao armário de seu quarto. No decorrer de um ano, a maioria das ruas roupas preferidas tinha voltado ao armário original, mas muitos outros itens permaneceram no quarto de hóspedes. A regra era que, se não tivesse usado um item no intervalo de um ano, ele o doaria a um bazar beneficente.

A ideia de doar coisas, muitas vezes, leva a uma reação de relutância –“Mas eu posso precisar disso um dia” –, mas, diante da constatação de que as roupas não foram usadas, é difícil justificar esse argumento. Um interessante benefício inesperado de tirar todas as roupas do armário do corredor foi o fato de ir buscar os itens no quarto de hóspedes –era como fazer compras no shopping sem ter de pagar por nada.

ESCOLHAS, INFORMAÇÕES E OBRIGAÇÕES QUE

NORMALMENTE PODEM SER ELIMINADAS

Vimos como eliminar “coisas”, mas vamos estender um pouco mais o conceito. Por que não parar de se envolver em eventos, atividades ou com pessoas que só o atrapalham? Sei que alguns leitores considerarão isso cruel, mas tento evitar passar muito tempo com pessoas que considero negativas ou que tentam reduzir o valor da minha vida. Sei que provavelmente não tenho como mudar o comportamento delas, mas elas podem me influenciar a ser mais negativo do que eu gostaria, só por estarem próximas.

O mesmo se aplica às informações que consumimos. Tente desligar a TV por um mês e veja se você realmente deixa de saber algo importante. Se algo que ler, inclusive este livro, não for interessante e útil para você, deve abandonar a leitura e dedicar seu tempo a algo mais significativo. Aplique rigorosamente essa estratégia e verá mudanças positivas na sua vida, quase imediatamente.

Pensar no que excluir da sua vida, é como definir uma meta final ou um conjunto de melhores práticas: é algo extremamente pessoal e suas respostas provavelmente diferirão das minhas. No entanto, da mesma forma como temos feito ao longo de todo este livro, lhe oferecerei algumas sugestões para você considerar.

Abandone reuniões e TV. Seth Godin tem o blog de negócios mais popular do mundo, com uma base de centenas de milhares de leitores. Uma pergunta frequente é como ele tem tempo para fazer tudo, especialmente responder para todas as pessoas que lhe enviam e-mails. A resposta é que ele não assiste TV e não vai a reuniões, o que lhe proporciona entre quatro a cinco horas adicionais por dia em relação à maioria das pessoas.

Abandone o telefone. Use o telefone com pessoas com as quais quer conversar e ignore o resto. Cheque a secretária eletrônica no máximo uma vez por semana. Na verdade, a mensagem na sua secretária não deveria dizer: “Deixe sua mensagem e retornarei a ligação”. Você realmente quer retornar todas as ligações? Se não quer, deixe uma mensagem

só com seu nome. 17

Apesar de não ser senso comum, você também pode fazer isso nos negócios. Eu decidi, há muito tempo, parar de correr atrás de clientes. Eu divulgo um número de telefone nos meus sites de negócios, mas, na maioria dos casos, o número leva diretamente a uma gravação remetendo as pessoas de volta ao site. Quando os clientes solicitam ajuda pessoal por telefone, eu lhes informo: “Sinto muito, mas em razão das minhas frequentes viagens internacionais, não ofereço suporte por telefone. Entenderei se isso implicar perdê-lo como um cliente”. A prática é incrivelmente liberadora. Algumas pessoas reclamaram ao longo dos anos, mas faço questão de manter essa política e a esclareço da maneira mais transparente possível. É interessante notar que algumas pessoas que reclamaram e disseram que não comprariam de um comerciante que não tivesse um número de telefone de verdade, acabaram comprando mesmo assim.

Abandone o e-mail. Gosto do e-mail, de forma que não quero abandoná-lo por completo. Se o e-mail o estressa ou se você se descobrir incapaz de desgrudar os olhos da sua caixa de entrada, ele não constitui uma parte necessária da sua vida. Leo Babauta, do popular blog Zen Habits, recentemente abriu mão dos e-mails, e costumava enviar e receber cerca de 300

mensagens por dia. 18 Se você se sentir sobrecarregado, também poderá declarar a “falência de e-mails” e recomeçar do zero. Para fazer isso, respire fundo, arquive todas as mensagens e envie o seguinte e-mail a todos os contatos de sua lista:

Assunto: Declarei falência de e-mails Prezados amigos, familiares, colegas e spammers,

Sua mensagem é importante para mim, mas estou me sentindo sobrecarregado. Atualmente, minha caixa de entrada tem x mensagens não lidas. Desespero-me a cada vez que constato isso.

Para resolver o problema, decidi declarar “falência” e recomeçar do zero. Arquivei todas as mensagens antigas e não pretendo revê-las. A boa notícia é que serei mais criterioso a partir de agora. Obrigado pela compreensão.