O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 19 de 58

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O Poder dos Inquietos

Marginalização e o Departamento do Não

de nada”. 5

 

Praticamente, todas as pessoas que escolheram carreiras ou estilos de vida não convencionais ou que desejam questionar crenças convencionais enfrentarão a oposição das autoridades e do status quo. Independentemente de você desejar se tornar um ativista ou só viver do seu jeito, este capítulo lhe mostrará táticas utilizadas contra não conformistas de todo tipo.

Você também aprenderá como combater uma combinação de métodos diretos e indiretos. Keith Richards ilustra muito bem o confronto direto quando disse: “Se você quiser chutar a autoridade, é melhor usar os dois pés”. É verdade, porque, quando você a ataca de frente, ela tende a contra-atacar.

Felizmente, chutar a autoridade na cara não é o único jeito de lutar. Você também pode lutar indiretamente, contornando os obstáculos que encontrar ou mudando as regras do confronto. Para começar, vamos analisar algumas táticas utilizadas com frequência para impedir as pessoas de fazer as próprias escolhas.

 

Marginalização e o Departamento do Não

Por que as pessoas fazem o que se espera delas em vez do que realmente querem? Há várias razões para isso: por exemplo, inércia, medo de mudar e o fato de ninguém ter lhes dito que elas não precisam fazer o que se espera delas. E a lista não termina por aí: algumas vezes, as pessoas se conformam porque as autoridades são muito habilidosas em mantê-las assim. Muitas dessas autoridades são “guardiões”, que podem ser definidos como se segue:

Guardião. 1. Uma pessoa ou grupo com interesses velados em restringir as escolhas dos outros. 2. Um obstáculo que deve ser superado para se atingir um sucesso não convencional.

Os guardiões são especialmente eficazes em lhe dizer quais escolhas você tem, lhe dando, dessa forma, a ilusão de liberdade, ao mesmo tempo em que bloqueiam seu acesso ao que realmente importa. É como se lhe perguntassem: “Você prefere a ou b?”, sem permitir que você saiba que c, d e e também são escolhas válidas.

No caso de Tim DeChristopher, o governo fingia que os leilões eram justos por serem abertos a “todos”. Na realidade, poucas oportunidades são abertas a todos – nesse caso, os leilões eram abertos a todos com pelo menos 1, 7 milhão de dólares sobrando, efetivamente restringindo o processo a grandes companhias petrolíferas.

Perceber que poucas oportunidades são verdadeiramente democráticas é o primeiro passo para contestar a autoridade com sucesso. De modo geral, as universidades são abertas a todas as pessoas que dominaram a habilidade de passar em testes padronizados. Igrejas e instituições religiosas estão abertas a todos que concordam em adotar uma determinada doutrina que define crenças aceitáveis e inaceitáveis. Se um membro se desviar muito dos limites consentidos, ele será definido como um dissidente e será marginalizado pelo grupo.

Você pode não precisar competir com a Shell e a ExxonMobil em um leilão público, mas ainda deparará com uma variedade de outros guardiões. Quando você presta vestibular, um concurso ou se candidata a um emprego, por exemplo, encontrará guardiões que trabalham para determinar muitos aspectos importantes do seu relacionamento com os outros na instituição. Entre outras coisas, eles buscarão decidir:

• Se vale a pena levá-lo em consideração. • Se a instituição o considera uma ameaça que deve ser

evitada.

• Como você se compara a outras pessoas interessadas na

instituição (colegas, outros candidatos e as pessoas que avaliam seu currículo ou histórico escolar).

• Em que extensão você deve ser recompensado (na forma

de salário, bolsa de estudos etc.) por contribuir com a instituição.

Os guardiões são pessoas do “não”. Eles são bons em derrubar ideias e dar várias razões para negar uma solicitação ou convencer os outros de que uma determinada estratégia não dará certo. Muitas organizações possuem departamentos inteiros do não, que normalmente recebem o nome de

Departamento Jurídico ou de Recursos Humanos. 6

A tabela a seguir relaciona algumas ideias convencionais sobre instituições e as comparam com uma interpretação alternativa que considera essas ideias como tipos de guardiões.

 

Uma segunda análise de premissas convencionais

 

Premissa

Interpretação Alternativa

Convencional

 

A educação superior A educação superior reforça a prepara os estudantes pressão para se conformar com

para uma profissão. as normas de obediência social.

 

Associações e Associações e organizações organizações existem existem para restringir nossas para proteger as escolhas e criar monopólios. pessoas.

 

Instituições religiosas

proporcionam Instituições religiosas subjugam

respostas e os membros a uma crença experiências comum para aumentar o compartilhadas a seus próprio poder. membros.

 

Instituições de Instituições de caridade existem caridade existem para para se sustentar. ajudar as pessoas.

Empresas das áreas Empresas das áreas de de entretenimento e entretenimento e publicação publicação asseguram estabelecem um cartel que a meritocracia na promove a mediocridade e literatura, artes e limita a ação de artistas cinema. independentes.

 

Na prática de cada uma das premissas convencionais, o status quo é mantido, a ordem é imposta e os dissidentes são punidos. Ideias alternativas ameaçam seus fundamentos e são excluídas.

Observe que o papel da maioria dessas instituições também pode ser invertido para produzir uma mudança positiva. Posso dizer que cerca de 80% da minha experiência na educação superior representou um desperdício de tempo; os outros 20% foram importantes e úteis. As instituições religiosas podem ajudar comunidades e grupos que buscam compreender a fé, abraçando uma mentalidade aberta em vez de evitá-la. Instituições de caridade podem ajudar as pessoas e sair rapidamente do caminho, dando um bom exemplo de grandes histórias de sucesso. Infelizmente, as exceções são raras, e a autoridade convencional normalmente precisará ser contestada antes de essas histórias poderem se desenrolar.

ENGANANDO ALGUMAS PESSOAS POR ALGUM TEMPO

Digamos que você seja uma pessoa desonesta disposta a roubar os outros para obter um pedaço maior do bolo. (Sei que você jamais faria isso, mas vamos imaginar que sim.) Quando você percebe quanto controle os guardiões podem ter, eis algumas ferramentas que você poderia utilizar para convencer as pessoas a seguir seu plano caso vir sua autoridade sendo contestada ou questionada:

 

O ARGUMENTO “PORQUE SIM”

Os guardiões se mantêm no poder convencendo as pessoas de que são necessários. Por que fazemos as coisas assim? “Porque sim. ” “Porque sempre fizemos assim. ” “Porque alguém disse. ” Quando alguém ameaça a tradição ou começa questioná-la, os guardiões recorrerão a uma lógica baseada na história, mesmo se essa lembrança dos fatos históricos for incorreta.

O ARGUMENTO DO “PARA O BEM DA COLETIVIDADE”

De maneira bastante parecida com o argumento “Porque sim”, essa defesa se baseia na crença de que, quando alguém se desvia ou faz uma escolha não convencional, os outros podem, de alguma forma, ser prejudicados por essa escolha. É como o caso dos macacos na jaula que vimos no primeiro capítulo: se um macaco tiver permissão de comer as bananas penduradas no teto da jaula, todos os outros também vão querer. Não podemos ter um mundo onde todos podem comer bananas! Imagine o terror que isso provocaria na sociedade. (Enquanto isso, algumas das pessoas que restringem as escolhas alheias estão comendo muitas bananas; elas só querem manter a seção de frutas fora do alcance dos outros.)

O APELO A UM PODER SUPERIOR, MUITAS VEZES NÃO

ESPECIFICADO

O poder superior pode ser Deus, o chefe, o sistema, a corporação ou outras fontes gerais de autoridade. Na verdade, ele muitas vezes é deliberadamente vago – uma referência a normas ou regras informais da sociedade, por exemplo. As pessoas se referem ao poder superior quando não sabem ao certo por que algo é feito de determinada maneira, mas sabem que uma resposta do tipo “porque sim” não se sustentaria. A resposta é : “Bem, Fulano disse, então, deve ser verdade”.

 

A PREVISÃO “AS COISAS SERÃO DIFERENTES

QUANDO. . . ”

As palavras que se seguem à afirmação “As coisas serão diferentes quando...” variam, dependendo do contexto. Palavras comuns incluem “mais velho”, “filho” e “responsabilidade”. Quando eu era jovem, me diziam que as coisas seriam diferentes quando eu fosse responsável pela minha vida. Antes de me casar, ouvi que as coisas seriam diferentes depois do casamento. Atualmente, tenho ouvido muito a previsão “quando você tiver filhos” – normalmente no contexto “Você não poderá viajar tanto quando tiver filhos”.

Talvez seja verdade. Como não tenho filhos, é difícil saber – é por isso que esse tipo de argumento pode ser tão eficaz para os guardiões. No entanto, conheço muitas pessoas com filhos que viajam ainda mais do que eu. Vince e Jeanne Dee pegaram a estrada há três anos – e continuam viajando –, vivendo com dois mil dólares por mês e levando o filho deles, que ainda é uma criança, a mais de 40 países. Em alguns dos países mais pobres do mundo, missionários e voluntários criam os filhos, proporcionando a eles uma visão de mundo e experiências que jamais seriam possíveis em uma vida convencional. Em outras palavras, apesar de eu não ter filhos me parece possível viajar

ou viver uma vida não convencional em família . 7

Pelo fato de essas táticas serem tão comuns, tendemos a aceitá-las sem pensar muito a respeito. Também é difícil quando as táticas são vigorosamente impostas e você se sente sozinho ao questioná-las. Como vimos no Capítulo 3, a mudança só pode ocorrer quando a dor da transição se tornar menor que a dor de aceitar o status quo. Eis o que fazer quando você estiver pronto para aceitar a mudança e contestar a autoridade dos guardiões.

SIGA A ESTRATÉGIA DO AZARÃO (MUDE AS REGRAS DO

JOGO)

Quando Tim DeChristopher contestou os direitos das

companhias petrolíferas e participou de um leilão para a compra de terras, ele encontrou uma maneira de mudar as regras do jogo. Tim não foi o primeiro a reclamar da injustiça do leilão, mas foi o primeiro a usar a criatividade e perturbar o equilíbrio estabelecido.

Por meio de uma análise publicada no New Yorker, englobando desde o basquete até todas as batalhas travadas nos últimos 200 anos, Malcolm Gladwell mostrou como os azarões – times esportivos que tinham enormes chances de perder, exércitos com apenas um décimo do poderio do adversário e assim por diante – podem virar a mesa no combate aos “Golias”. Para começar, o artigo mostrava as chances de várias batalhas militares do tipo Davi e Golias realizadas nos últimos dois séculos. Nesse caso, substituiremos “Davi” por “azarão” e “Golias” por “autoridade”.

Resultados de campanhas militares convencionais

A autoridade derrota facilmente o azarão, como era de se esperar: 71, 5%.

O azarão derrota a autoridade em uma grande vitória inesperada: 28, 5%.

Todos nós gostamos de torcer pelo azarão, mas, se tivermos de apostar dinheiro nos resultados, a maioria de nós apostaria na vitória da autoridade. Como mostra a análise de Gladwell, em 7 de cada 10 vezes, Golias marchará diretamente para a vitória quando estratégias tradicionais são utilizadas. O interessante é que, quando as regras são mudadas e o azarão usa a criatividade, os resultados são praticamente invertidos:

Resultados de campanhas militares não convencionais

A autoridade derrota facilmente o azarão, como era de se esperar : 36, 5%.

O azarão derrota a autoridade: 63, 6%.

Gladwell argumenta que, mesmo em uma guerra convencional, os azarões vencerão 28% das vezes. Em uma batalha típica, Davi pode ter sorte e sair vitorioso quando a autoridade se permite baixar a guarda. Mas, quando o azarão adota uma estratégia não convencional e subverte as regras do jogo, a porcentagem de vitórias decola para 63%. Em outras palavras, quando o azarão usa estratégias não convencionais,

ele na verdade acaba sendo o 8 favorito . Apesar de todos os fatores aparentemente indicarem o contrário, se for esperto você apostará no adversário mais fraco.

Qual é a diferença entre as duas situações? A diferença é que, em uma situação, o azarão subverte deliberadamente as regras do confronto. Lembre que o verdadeiro propósito dos guardiões é restringir as escolhas (você tem a opção a ou b, mas não c, d ou e). A estratégia do azarão parte em busca de alternativas. No artigo de Gladwell, as alternativas incluíram Lawrence da Arábia escolhendo percorrer quase mil quilômetros pelo deserto para contornar e surpreender o inimigo, o Davi bíblico se recusando a usar uma armadura na batalha contra Golias e um time de basquete desfavorecido utilizando uma inovadora estratégia de defesa agressiva para confundir o adversário. A alternativa de Tim DeChristopher foi encontrar uma terceira opção de protesto como uma alternativa às opções pouco eficazes de escrever cartas ou apelar para a violência.

Em outros encontros com a autoridade, você pode simplesmente fingir que concorda, sorrir e no fim fazer o que quiser. Como mencionamos, é mais fácil pedir perdão do que permissão, mas, felizmente, você na verdade não precisa pedir nem perdão nem permissão com muita frequência.

 

MORALIDADE E A LEI

Martin Luther King Jr. observou que “nada que Hitler fez era ilegal na Alemanha” na ocasião. A escravidão em vários países não apenas foi legal durante centenas de anos, como na verdade era contra a lei ajudar escravos a se libertar. Casais homossexuais ainda não têm o direito de se casar na grande maioria dos países ao redor do mundo.

Não sou um anarquista; sou um cidadão que cumpre a lei e paga os impostos e não tenho desejo algum de derrubar o governo. Mas também há momentos nos quais a moralidade e a lei atuam claramente em lados opostos. Nessas ocasiões, nas quais a lei entra em conflito com a moralidade, coloco-me ao lado da moralidade e sou a favor de atos criativos de protesto – como o que Tim DeChristopher fez em Utah.

 

As autoridades não sabem de tudo. Você e eu sabemos disso – mas muitas delas dedicam muito tempo e esforço para nos convencer de que são experts e que devemos lhes dar atenção. Você provavelmente deparará com uma série de guardiões e outras figuras de autoridade no caminho entre onde está agora e onde gostaria de chegar.

Resistir à autoridade é, em grande parte, um processo ativo. Se você ameaçar a autoridade, esteja preparado para lutar. Você pode tentar chutar a autoridade, como disse Keith Richards, mas, se decidir fazer isso, é melhor usar os dois pés. Ou você pode ser criativo e encontrar uma maneira de mudar as regras do jogo, como fez Tim DeChristopher. Use pedras e um estilingue em vez de uma espada. Contorne os obstáculos.

De qualquer maneira, mantenha em mente o antigo provérbio chinês: “Quem diz que é impossível fazer algo não deveria interromper quem está fazendo”. Os guardiões são bons em interromper, de forma que você precisa ser bom em fazer o impossível.

LEMBRE-SE

• Se não estiver satisfeito com alguma situação, você

não precisa aceitá-la.

• Os guardiões são figuras de autoridade que buscam

restringir as escolhas alheias – você pode fazer a ou b, mas não c, d ou e.

• Os guardiões são bons em justificar suas ações por

meio do raciocínio circular. Uma linha de argumentação típica envolve a frase “Todo mundo está fazendo, então, por que você não faz também?”

• O confronto direto nem sempre é a melhor maneira

de questionar a autoridade. Em vez disso, use a estratégia do azarão para mudar as regras do jogo.

INTERLÚDIO

TODAS AS COISAS DE QUE VOCÊ NÃO PRECISA

Ao se deparar com os obstáculos internos do medo e da insegurança, e os obstáculos externos representados pelos guardiões e críticos, é fácil se sentir intimidado para desistir. Felizmente, muitas das coisas que algumas vezes consideramos pré-requisitos para o sucesso, na verdade, são relativamente desnecessárias.

Já analisamos o perdão e a permissão – como é mais fácil pedir perdão e como você na verdade não precisa da permissão de ninguém e pode fazer praticamente o que quiser. Mas a lista não para por aí. Eis algumas outras coisas que são completamente desnecessárias para seu sucesso.

Você não precisa de experiência. A experiência algumas vezes pode ajudar, mas o que realmente importa é onde você está agora e aonde vai em seguida. O lugar do passado é em um currículo.

Você não precisa de anos de preparativos. Bem, tecnicamente você não precisa de nenhum preparativo; na verdade você já se preparou. Isso se chama vida. Não importa o que o levou ao ponto em que está hoje, isso basta para levá-lo aonde deseja chegar em seguida.

Você não precisa de burocracia. A burocracia inclui diplomas, certificados, endossos, licenças, recomendações, indicações e assim por diante.

Você não precisa de um mentor. Ninguém terá mais interesse no seu desenvolvimento do que você mesmo. Você não pode terceirizar a responsabilidade pelo planejamento da sua vida.

É importante notar que não estou dizendo que essas coisas não sejam úteis. Só que elas são desnecessárias. Você não precisa delas para fazer qualquer coisa.

O QUE VOCÊ REALMENTE PRECISA

Se você não precisa da maioria dessas coisas, do que precisa?

Você precisa ter paixão. Você precisa ser absolutamente apaixonado pelas suas crenças. Se não tiver paixão por algo, você provavelmente ainda não descobriu seu verdadeiro talento. Continue procurando.

Você precisa de uma visão e uma tarefa. A visão lhe diz aonde você está indo e a tarefa diz o que fazer em seguida para chegar lá.

Você precisa da resposta para as duas perguntas mais importantes do universo. O que você realmente quer da vida? Como pode ajudar os outros de uma maneira que ninguém mais pode? Quando tiver as respostas, estará à frente da maioria das outras pessoas.

Você precisa se comprometer a manter o rumo. Muitas pessoas desistem cedo demais. Você é capaz de se manter na sua jornada por 10 mil horas ou mais? Se for o caso, está no caminho certo.

Importante: Qual é a grande diferença entre as coisas das quais você não precisa e as coisas das quais você precisa?

A maioria dos itens da primeira categoria depende dos outros. Todos os itens da segunda categoria dependem só de você.

Acima de tudo, você só precisa do suficiente. Você só precisa de dinheiro suficiente, tempo suficiente, coragem suficiente e assim por diante. E quanto é o suficiente? Depende da sua meta e cabe a você decidir.

Mas não se preocupe com o que não tem. Quando você abre mão de todas as coisas das quais não precisa, muitas outras coisas se tornam automaticamente muito mais fáceis.