O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 17 de 58

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O Poder dos Inquietos

Crie sua rede de segurança

Sua insatisfação no trabalho motivou Sean a levar a mudança a sério. Nos seis meses seguintes, ele se dedicou a quitar as dívidas e planejar a nova vida. Ele conheceu um grupo de pessoas que desenvolvia sites no Sul da Ásia. Ele estruturou sua vida de modo a lhe permitir a liberdade que tanto desejava. Vendeu o carro. Não foi fácil, mas Sean fez acontecer.

Em 15 de setembro, Sean marcou uma reunião com o chefe para dizer que a data de sua “alforria”, nas palavras dele, estava se aproximando. Sean se ofereceu para continuar trabalhando para a empresa, mas só se pudesse fazer isso em algum lugar longe de Portland. “Para mim foi ao mesmo tempo assustador e empolgante estar disposto a abandonar um emprego que a maioria das pessoas considerava excelente”, ele me contou. Duas semanas depois, seu chefe voltou com a resposta: “Obrigado, mas não aceitamos sua proposta”. Sean cumpriu o aviso prévio, fez as malas, incluindo o laptop que usaria para abrir seu pequeno negócio e partiu para uma nova aventura em Bangcoc, Tailândia.

 

Crie sua rede de segurança

O escritor Paulo Coelho escreveu: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira a seu favor”. De forma similar, você já deve ter ouvido o antigo ditado: “Salte e a rede de segurança surgirá”. O cético dentro de nós pode descartar sem hesitação essas ideias como meras fantasias de autoajuda. Acredito que há muito de verdade nelas, mas tudo bem se você não estiver convencido disso – ainda é possível reduzir o medo e aumentar as chances de sucesso antes de dar o salto. Para isso, desenvolvemos nossa rede de segurança e só depois saltamos. O processo envolve três passos: confrontar a grande muralha do medo, criar a rede de segurança e derrubar a muralha.

PASSO 1: CONFRONTAR A GRANDE MURALHA DO MEDO

O vencer o medo começa ao se reconhecer o medo. Como nossos temores e inseguranças muitas vezes são ilógicos, é interessante decompô-los até o nível mais básico. Isso pode ser feito elaborando-se uma lista de todos os seus temores em qualquer momento. Para um exemplo pessoal, veja a lista a seguir.

Lembre que nem mesmo as pessoas mais notáveis da história já nasceram competindo no Tour de France ou viajando para a Ásia para subir em montes de lixo. A maioria delas era composta de pessoas relativamente comuns como todo mundo e que simplesmente acordaram do sonambulismo em algum ponto do caminho. Elas tomaram algumas decisões fundamentais que alteraram para sempre sua vida – decisões como preencher uma ficha de inscrição ou ter uma conversa séria com o chefe.

 

ALGUMAS COISAS DAS QUAIS ATUALMENTE

TENHO MEDO

• Ainda estou só no Capítulo 3. Será que um

dia conseguirei terminar este livro?

• E se o livro for ruim? E se eu receber uma

crítica ruim? (Ou pior, e se ninguém sequer criticar?)

• Tenho medo das forças da mediocridade e

da letargia. De ficar confortável demais ou preguiçoso.

• Quando viajo, tenho medo de tentar falar

em outra língua.

• Algumas vezes, sinto-me paralisado. As

pessoas dizem que querem viajar comigo e eu penso: “E agora? Elas vão descobrir que nem sempre é tão empolgante quanto parece”.

• Tenho medo de as pessoas acharem que é

tudo fingimento.

• Tenho medo de envelhecer e deixar passar

alguma coisa fundamental. (Nas palavras de John Mayer: “A única coisa que faço bem é ser jovem”.)

 

PASSO 2: CRIAR A REDE DE SEGURANÇA

Aplique a mentalidade de “é proibido se arrepender”. Depois de reconhecê-lo, você precisa transformar seu modo de pensar e se preparar para realizar uma mudança. Alguns anos atrás, quando morava na África do Sul, comecei a pensar seriamente em viver uma vida sem remorsos. Percebi que, apesar de ter tido a sorte de grandes experiências na juventude, minha vida ainda tinha algumas áreas não desenvolvidas. Entre outras coisas, me preocupava muito com o que os outros pensavam de mim e tinha tanto medo de decepcioná-los que permitia que esse medo influenciasse muitas das minhas decisões.

 

Na África do Sul, alguns amigos me disseram que escalariam a Table Mountain em alguns dias e me convidaram para acompanhá-los. Eu inicialmente disse: “Não, tenho muito trabalho a fazer”, sabendo que tinha uma reunião e os participantes se perguntariam sobre o motivo da minha ausência. Passei os dias seguintes incomodado com a decisão. Finalmente, liguei para meus amigos e fui escalar a montanha com eles. Sei que isso pode soar como uma decisão insignificante – abrir mão de uma manhã de trabalho –, mas na ocasião

foi incrivelmente libertador. Eu me lembrei dela muitas vezes à medida que avançava a outros estágios da vida. Houve momentos, por exemplo, nos quais reconsiderei minha decisão de tentar visitar todos os países do mundo. Eu ainda poderia viajar sem uma meta tão exaustiva, mas sei que sempre me arrependerei se desistir de atingi-la. Ao aplicar a filosofia do “é proibido se arrepender”, minha perspectiva mudou radicalmente. Posso escalar montanhas durante a semana. Posso ir a países que a maioria dos ocidentais só conhece de ler a respeito. Daqui a vinte anos, sei que ficarei contente por ter feito isso.

Pense no pior cenário possível. Pergunte-se: “Qual é a pior coisa que poderia acontecer?”. Se algo der errado pode ser incrivelmente transformador. Isso ajuda a ver as coisas da perspectiva correta. Você ainda pode perguntar: “O mundo vai acabar se isso não acontecer como espero?” É chocante, mas descobri que a resposta costuma ser “não”. Alguns anos atrás, em Varsóvia, saí para uma longa corrida às margens do rio depois de tomar um generoso café da manhã no hotel. A vida era bela. Depois, entrei na internet para checar meus planos de viagem. No que inicialmente era uma tarefa de rotina, liguei para a Singapore Airlines para confirmar meu voo de volta, partindo da Ásia na semana seguinte.

“Lamento muito, senhor”, disse a simpática atendente do outro lado da linha, “Mas não estou encontrando sua reserva para esse voo”. Isso acontece muito comigo – em qualquer dado momento tenho uma série de complexos itinerários em curso, de forma que pedi que ela esperasse um pouco enquanto eu procurava o código localizador do voo. Quando encontrei a reserva no fundo da minha mochila e olhei com atenção, fiquei estupefato. “Voltarei a ligar mais tarde”, eu disse à atendente e desliguei o telefone. Para meu desalento, descobri que havia inadvertidamente confirmado a reserva de duas passagens não reembolsáveis de Tóquio a Seattle para o mês seguinte e minha reserva fora automaticamente cancelada. Por causa do meu erro, não tinha como voltar da minha viagem atual – que me levaria à Ásia em alguns dias e depois para os Estados Unidos. Minha primeira reação foi entrar em pânico. Lá estava eu, na Polônia, com um voo programado para a Ásia em alguns dias e sem meios de voltar para casa depois. Quando consegui me acalmar, me concentrei em tentar responder a

pergunta clássica: qual é a pior coisa que pode acontecer? No caso, eu ficaria preso no Japão sem ter como voltar para casa, e provavelmente precisaria comprar outra passagem. Não é nada divertido comprar uma passagem só de ida para o Japão com menos de uma semana de antecedência, mas, considerando tudo o que pode acontecer na vida, provavelmente não era um grande problema.

E foi praticamente o que acabou acontecendo. Fiquei me sentindo um idiota pelo erro cometido e odiei ter de pagar a conta do cartão de crédito para a passagem adicional – mas o mundo não acabou. Sempre que as pessoas me perguntam se já tive problemas com meu planejamento de viagens, agora tenho uma resposta fácil: “Bem, teve aquela vez em Varsóvia...”

Responsabilize-se publicamente pelas suas metas. Você também pode se responsabilizar em público por atingir suas metas para ajudá-lo a derrubar a muralha. Sean Macias (não o Sean da história anterior) passou anos tentando parar de fumar. Por fim, ele se decidiu definitivamente e abriu uma conta no Twitter chamada rebootself. A meta era “reiniciar” todos os aspectos de sua vida com o qual ele estava insatisfeito, começando com parar de fumar.

Sean convidou todos os interessados a acompanhar seu progresso. Ele postava atualizações todos os dias: “72 horas desde meu último cigarro...”, “Faz uma semana...”, “90 dias sem fumar...” e assim por diante. Mais de um ano depois, hoje ele é oficialmente um e-fumante e agora busca atingir outras metas relacionadas à saúde.

Dê a si mesmo um presente. Algumas pessoas podem não gostar muito da ideia de vincular recompensa ou punição ao se atingir metas (“O processo não deveria bastar?”) . Minha filosofia é: faça o que funcionar para você. Comprei passagens de avião para dar a volta ao mundo quando negociei a proposta para este livro. Nove meses depois, quando entreguei o manuscrito, reservei passagens para uma viagem à Armênia e ao Azerbaijão. Seus presentes podem não incluir viagens a cantos remotos do mundo, de forma que, naturalmente, você deve escolher algo que tenha a ver com suas preferências. PASSO 3: DERRUBAR A MURALHA

Depois de reconhecer o medo e nos preparar para a tarefa que nos aguarda, muitas vezes chegamos a um impasse: E agora, o que fazer? Presumindo que você saiba o que quer e só esteja com dificuldade de levar seu projeto adiante, costuma ser útil forçar uma decisão ativa. É nesse ponto que você deixa de vacilar e decide o caminho a tomar para dar o salto.

Forçar a decisão ativa é útil por algumas razões. Em primeiro lugar, isso costuma nos encorajar a nos desprender dos nossos medos, já que podemos perceber que eles são a única coisa que nos impede de agir. Em segundo lugar, mesmo se decidirmos não executar o plano que estamos considerando, tomar a decisão ativa de não seguir em frente, pelo menos, tirará esse plano do caminho. (Só considere que, se decidir abandonar um plano, você realmente precisará abrir mão dele. Se não fizer isso, você não estará em uma situação melhor do que antes de forçar a decisão.)

Vamos retomar a história original de Sloane Berrent e as histórias de Sean e Aaron. Sloane conseguiu vencer seus medos e ir às Filipinas, enquanto muitas outras pessoas consideravam a ideia e a abandonavam. Reconhecendo o medo e decidindo ir mesmo assim, Sloane chegou a Manila e mergulhou em um novo desafio que ajudaria as pessoas por meio de seu trabalho na Kiva, ao mesmo tempo em que ela também se preparava para a próxima aventura.

DEZESSEIS MESES DE PREPARATIVOS PARA A

OPRAH

Quando meu site atingiu um relativo sucesso, eu quis diversificar com atualizações gravadas em vídeo ao redor do mundo. Apesar de a minha principal habilidade de comunicação ser a escrita, eu sabia que a tendência na internet era de cada vez mais conteúdo em vídeo e é sempre bom apresentar as informações em diferentes mídias.

Só havia um problema: eu era terrível para gravar um vídeo. Quando começava a falar para uma câmera, eu congelava. Tinha dificuldade de manter contato visual com a câmera, gaguejava e usava em excesso expressões como “tipo”. Eu conseguia ver claramente os problemas, mas também sabia que precisaria de muita prática para

me livrar deles.

O que fazer? Meus textos estavam ganhando popularidade, sendo lidos por dezenas de milhares de pessoas todos os dias, e meus leitores tinham suas expectativas. Apesar de tudo, fui em frente com as atualizações apesar de tudo, normalmente fazendo várias tomadas para cada clipe e postando as melhores. Quando assisti aos primeiros vídeos, meu veredicto foi: “melhor do que eu esperava”. Em outras palavras, eles não eram terríveis, mas eu também sabia que um produtor da Oprah provavelmente não me chamaria. Como eu suspeitava, a maioria das pessoas era compreensiva. Mas também recebi algumas mensagens sinceras de alguns leitores: “Ei, Chris, você precisa trabalhar sua apresentação”. Eles estavam certos e eu sabia disso, mas segui em frente. Fui melhorando aos poucos. Fiz uma grande viagem no verão e gravei doze vídeos em quatro continentes. Em um longo voo, sentei-me ao lado de uma atriz que me deu algumas boas dicas. Ela disse: “As pessoas não querem que você seja um ator. Elas querem que você seja você mesmo”.

Não acho que o mundo corre algum risco de eu me tornar um ator. Mas superei o medo e aos poucos me acostumei com a ideia de falar para uma pequena luz piscante no meu laptop. Um representante da CNN me escreveu e perguntou se eles poderiam usar alguns dos meus vídeos. Alguém da NBC ligou e perguntou se eu não poderia levar uma pequena câmera e gravar imagens das minhas aventuras pelo mundo. “Claro, eu aceito o equipamento que vocês estão me dando de graça e aceito a chance de ser visto na TV por milhões de pessoas”. Não fui chamado pela Oprah, mas, quando ela ligar, acho que estarei pronto.

 

No entanto, apesar de querer mudar e apesar de sua capacidade de fazer pesquisas básicas, Aaron continuava preso atrás da muralha de medo. Ele vivia uma vida de desespero silencioso, espiando o outro lado, mas sem conseguir derrubar os tijolos. Enquanto isso, Sean não era tão diferente de Aaron no início. Ele tinha metas diferentes, mas o mesmo desejo de escapar, e sabia que estava em um caminho insatisfatório para ele.

Não acho que Sean seja uma pessoa melhor que Aaron. Os dois são sujeitos inteligentes e ambiciosos que estudaram e trabalharam muito. A diferença foi que Sean conseguiu vencer seus medos e Aaron não. Tanto para Sean quanto para Sloane, também não foi fácil, mas sem dúvida valeu a pena.

A maioria de nós é uma combinação de Sloane, Sean e Aaron. Temos grandes sonhos e ideias, mas também temos grandes medos. O processo de superar o medo leva a vida inteira e quase ninguém é verdadeiramente destemido. Em vez de fingir que ela não existe, você deve estar disposto a derrubar a grande muralha do medo. Você não será o primeiro a fazer isso e o que encontrará do outro lado pode surpreendê-lo. O que o aguarda do outro lado do muro?

LEMBRE-SE

• É normal ter medo! A meta é vencê-lo e não evitar

ou fingir que ele não existe.

• O medo de mudar deve se tornar menos intenso do

que o medo de permanecer na situação atual.

• Nem as pessoas mais notáveis são notáveis por

natureza. Na verdade, elas fizeram algumas escolhas fundamentais ao longo do caminho que as ajudaram a superar seus medos.

• Perguntar a si mesmo: “Qual é a pior coisa que

pode acontecer?”, ajuda a colocar as grandes decisões em perspectiva.