O Poder dos Inquietos

Chris Guillebeau · Capítulo 4 de 58

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O Poder dos Inquietos

Quem sou eu para lhe dizer essas coisas?

Não acredita nessas coisas? Sem problemas. Isso não me ofende e espero que você também não se ofenda. Mas, pensando no seu tempo, temo que nosso encaixe não é muito bom e que você se beneficiará mais dedicando-se a alguma outra coisa. Se concordou com o que foi dito até agora, ou pelo menos estiver disposto a fazer uma tentativa, eu o convido a me acompanhar pelo restante da jornada.

Uma última advertência antes de prosseguirmos: consequências perigosas podem resultar da reflexão ponderada sobre as ideias apresentadas aqui. Algumas pessoas largaram o emprego, mudaram de carreira, decidiram financiar instituições de caridade, viajaram para os cantos mais remotos do mundo, voltaram a estudar ou abandonaram completamente os estudos e promoveram todos os tipos de outras mudanças não convencionais na vida depois de refletir sobre suas motivações. Eu lhe contarei muitas dessas histórias à medida que avançarmos, mas devo começar contando como tudo isso começou.

Quem sou eu para lhe dizer essas coisas?

Vamos deixar uma coisa bem clara: sou a favor de uma filosofia sem gurus e não pretendo ter todas as respostas. Tudo o que fiz, para o melhor ou para o pior, foi escolher a liberdade como meu valor pessoal mais elevado e aprender a construir minha vida em torno dessa escolha.

Em uma história que contarei em mais detalhes adiante, no Capítulo 6, eu pulei o ensino médio e fui direto para a faculdade. Conheci minha esposa quando estávamos nos formando; Jolie também tinha interesse em morar no exterior e seguir um caminho profissional diferente do escolhido por outras pessoas com as quais convivíamos. Mais de dez anos depois, nós ainda estamos juntos.

Meu último emprego convencional foi aos 20 anos de idade, carregando caixas no turno da noite na filial da FedEx em Memphis, Tennessee. O emprego era horrível. Um dia voltei para casa às 4h da manhã (quem ficasse depois da meia-noite ganhava 50 centavos a mais por hora) e me sentei à mesa que comprei no Exército de Salvação por 15 dólares. Eu olhei ao redor do quarto e pensei: “Quer saber, não quero continuar fazendo isso”.

Impulsivamente, decidi dar uma olhada em um novo site, o

eBay (www.ebay.com). Escolhendo no meu apartamento um monte de coisas velhas que eu não precisava, tirei algumas fotos desses itens e decidi ver se alguém tinha interesse em comprá-los. Estávamos ainda no início da era da fotografia digital, de forma que o processo ainda era feito da maneira tradicional. Eu tirava as fotos com uma câmera de 35 mm, deixava o filme para revelar, pegava as fotos impressas no dia seguinte, levava as fotos para a biblioteca da universidade, escaneava as imagens e as enviava por e-mail ao meu irmão de 15 anos, que morava em Montana. Ken, meu irmão, tinha o próprio site que apresentava análises críticas de filmes de animação. Ele gentilmente abria um espaço no servidor e fazia o upload das minhas imagens aleatórias para que eu pudesse utilizá-las para oferecer os itens em leilão.

Na primeira semana, ganhei 19 dólares por hora, mais que o dobro do que ganhava na FedEx. No mesmo dia em que as vendas do leilão foram fechadas, eu deveria voltar ao trabalho depois de um fim de semana prolongado de três dias. Era dezembro e uma rara tempestade de neve passara por Memphis, deixando grande parte da cidade incapacitada. Com ou sem tempestade de neve, a vida na FedEx não parou, de forma que me preparei para sair de carro pela garagem do prédio. Ignorando as demandas urgentes de varejistas atarefados durante a temporada de Natal, meu carro se recusou a colaborar: quando comecei a dar marcha a ré, o carro deslizou no gelo, perdeu o controle e quase bateu no caminhão do meu vizinho. “Por que estou fazendo isso?”, perguntei-me. Desliguei o motor, entrei no meu apartamento e nunca mais voltei ao mundo do trabalho tradicional.

Eu, rapidamente, vendi tudo o que podia do meu apartamento e passei a comprar no atacado para revender no varejo. Encontrei uma boa oportunidade revendendo café jamaicano – eu comprava por 20 dólares o quilo e revendia por 34 dólares a experts de café –, de forma que comecei a receber sacas de 25 quilos de grãos no meu apartamento todas as semanas. No que passou a ser conhecido como o grande desastre do café de 1999, um dia, a mesa que comprara no Exército de Salvação entrou em colapso sob o peso de 80 sacas de café que eu tinha acabado de moer. Meu gato entrou em pânico com o desmoronamento da mesa e uma camada semipermanente de pó de café cobriu o piso do meu apartamento, mas não me preocupei muito com os danos. Naquele ponto, eu já poderia investir em uma mesa de qualidade superior, comprada na Home Depot por 40 dólares.

Além do negócio de revenda de café, aprendi como criar sites e desenvolvi uma lista de e-mails de compradores potenciais. Ao longo dos dois anos seguintes, sustentei-me trabalhando por conta própria em várias empreitadas criativas. Eu não me tornaria um milionário e definitivamente a escolha das atividades não era estratégica, mas estava dando certo. Eu era um músico amador e comecei a tocar com mais frequência pela cidade. Eu trabalhava de manhã, passava algumas horas à tarde estudando jazz e teoria musical, tocava em boates à noite e viajava a festivais locais nos fins de semana.

Eu estava me divertindo. Gostava de tocar e adorava o fato de poder trabalhar quando quisesse. Mas estava faltando alguma coisa – sentia a falta de um foco para minha vida. Trabalhava como voluntário na minha igreja e fazia doações, mas essas ações me pareciam básicas e insuficientes em comparação com as necessidades urgentes ao redor do mundo. Deprimido, após o 11 de Setembro, e navegando pela internet em busca de novas oportunidades de trabalho, li sobre um cirurgião que passou 17 anos vivendo em zonas de guerra na África.

A história era fascinante. Muitos médicos e outros profissionais trabalham ocasionalmente como voluntários durante breves períodos no exterior, mas lá estava um sujeito que escolheu passar quase toda a vida produtiva em alguns dos países mais pobres do mundo. Quando fiquei sabendo que ele morava a bordo de um navio-hospital e que estava procurando voluntários para trabalhar com ele em longo prazo, não tive dúvida.

Com Jolie, que na época trabalhava como professora do ensino médio, assinei um contrato de dois anos que se transformaram em quatro. O trabalho e o estilo de vida foram extremamente transformadores. Trabalhei com refugiados, militares, presidentes e viajei por toda a África Ocidental, negociando em nome da instituição médica beneficente que operava o navio-hospital. Apesar de ser um trabalho não remunerado, foi o melhor emprego do mundo e me proporcionou bases melhores do que qualquer universidade poderia ter me oferecido.

O momento de deixar o melhor emprego do mundo é antes de você se cansar dele. Com a notável exceção de Gary Parker, o cirurgião sobre o qual eu lera, muitas das pessoas que conheci que continuaram trabalhando ano após ano em países em situação pós-conflito se tornaram amargas e céticas no que se refere ao trabalho realizado. Não as culpo por isso – não é fácil trabalhar em zonas de guerra –, mas eu não queria que isso acontecesse comigo. Depois de quatro anos, senti que estava me cansando e não queria me unir ao grupo dos céticos.