O Poder dos Inquietos
Dinheiro, planejamento de vida e felicidade
“Nós sabíamos que, se ficássemos mais um ano em Indiana, nunca conseguiríamos viajar”, Adam me contou. “Não era a coisa mais lógica a fazer considerando que tínhamos uma filha pequena, mas para nós foi a decisão certa. ”
Quando se trata de extirpar as raízes e viajar pelo mundo, muitas pessoas tendem a dizer: “Eu também faria isso se tivesse dinheiro” ou “Seria divertido se não tivéssemos o financiamento do apartamento”. Adam e Courtney queriam mostrar que é possível seguir um grande sonho mesmo sem ser rico. Estendendo ainda mais a ideia, eles publicaram na internet uma lista de tudo o que tinham e se mudaram com Millie, na época com 1 ano de idade, de Indianápolis à Nova Zelândia para morar durante um ano. Eles mantêm a ênfase no controle do orçamento e seu site inclui uma seção que eles chamam de “transparência financeira radical”, na qual eles relacionam todas as despesas mensais – mas a guerra contra a dívida foi só o início da vida plena da qual a família Baker atualmente usufrui.
Dinheiro, planejamento de vida e felicidade
É desnecessário dizer que as finanças pessoais são pessoais. Da mesma forma como não deve deixar que os outros determinem suas metas e valores, você também deve buscar manter o controle das suas prioridades financeiras. Mais do que praticamente qualquer outro aspecto da identidade, se você não tiver uma visão clara do papel do dinheiro na sua vida, provavelmente acabará fazendo o que todo mundo faz.
A objeção típica para os exercícios de planejamento de vida que analisamos nos capítulos anteriores é: “Isso é bom, mas como pagar por tudo isso?”. Penso que essa objeção tenha origem no ceticismo, em geral, sobre as pessoas que vivem de acordo com as próprias vontades. Se todo mundo estiver pulando no abismo, você chamará a atenção se olhar friamente para o despenhadeiro e ponderar se realmente quer pular.
A parte mais importante do planejamento de vida não convencional é saber com clareza o que deseja. Como disse o Gato Risonho em Alice no País das Maravilhas, “Se você não souber aonde quer ir, qualquer caminho serve”. Aplicando isso a viver nos seus próprios termos, se você não souber o que realmente quer, como saberá como conquistar isso?
A segunda razão pela qual é importante determinar um direcio-namento claro, independentemente de quanto dinheiro tiver, é que muitas vezes descobrimos que a vida que desejamos está mais perto do que pensamos. Como vimos no Capítulo 2, a maioria de nós na verdade não quer se aposentar e passar todos os dias deitado na praia ou mantendo os criados ocupados em um castelo na Europa. Em vez disso, desejamos uma vida significativa, que inclua o tipo certo de trabalho e muito tempo para nos envolver em outras atividades que apreciamos.
Mesmo considerando que você não quer o jatinho particular e o castelo na Suíça, é bem verdade que viver custa dinheiro. Mas é bom saber exatamente de quanto precisa, o quanto gostaria de ter e o que fará quando atingir sua meta. Eu, por exemplo, cheguei a ganhar só oito mil dólares por ano quando estudava (e depois 12 mil dólares por ano trabalhando como voluntário) e até 250 mil dólares por ano como um empreendedor em alguns anos bons. Posso dizer, por experiência própria, que meu nível de felicidade não foi significativamente diferente se comparar a época em que ganhava oito mil dólares com os anos em que ganhei 250 mil dólares. Algumas coisas, sem dúvida, foram mais fáceis com
muito dinheiro, mas outras coisas ficaram mais difíceis. 13
Como disse Mae West, “Já fui rica e já fui pobre. Pode acreditar: é melhor ser rica”. Ela estava certa no que se refere a não ser pobre, mas a correlação entre dinheiro e felicidade tem seus limites. O nível de renda necessário para cada um ser feliz é extremamente pessoal e varia de acordo com a localização geográfica, mas estudos demonstram repetidamente que há um limite relativamente baixo além do qual felicidade e renda não se relacionam diretamente. De acordo com uma estimativa, depois de atingir uma renda de 40 mil dólares anuais, o nível de felicidade de uma pessoa não aumenta muito. A meta é saber onde você se posiciona na escala de dinheiro e felicidade, de forma a poder planejar sua vida de acordo.
FRUGALIDADE E DESPERDÍCIO
Um dos meus valores pessoais é a frugalidade, mas para mim frugalidade não é uma questão de espremer centavos em todas as áreas do meu orçamento. Na verdade, é uma questão de fazer escolhas conscientes para gastar em coisas que valorizo – e evitar gastar em outras coisas. Depois de pagar o aluguel e outras contas recorrentes, abordo meus gastos não essenciais da seguinte maneira:
1. Pago com satisfação por coisas que verdadeiramente
valorizo.
2. Evito ao máximo pagar por coisas que não valorizo. 3. Se todos os outros fatores forem iguais, valorizo mais as
experiências de vida do que posses materiais.
4. Investir nos outros é tão importante quanto minhas
próprias economias de longo prazo.
As viagens constituem minha maior despesa pessoal e gasto regularmente cerca de 20% da minha renda anual viajando. Muitas pessoas gastam 20% ou mais de sua renda, tentando reduzir as dívidas; eu tomo muito cuidado para não contrair dívidas. Se não puder pagar à vista, não compro.
Além de grandes despesas como passagens aéreas internacionais, também gosto do privilégio de gastar quantias pequenas e regulares em coisas que aprecio. Gosto de almoçar em restaurantes tailandeses ou mexicanos e tomar um café na Starbucks à tarde. Não como fora todos os dias, mas fiquei feliz em atingir uma renda fixa suficiente, que me permite almoçar fora quando quero.
Nesse ponto, minha prática da frugalidade difere das interpretações convencionais. Se você gosta de tomar café da manhã fora todos os dias e sente que o preço compensa, acredito que você não precisa deixar de fazê-lo. É muito mais importante se preocupar em eliminar as dívidas e manter o controle da maior parte dos seus gastos.
Apesar de planejar viajar pelo mundo e não me incomodar de comer fora vários dias por semana, sou absolutamente contra pagar por coisas que não valorizo. No meu caso, não sinto necessidade de ter um carro e optei por morar em uma cidade onde o transporte público é acessível e confiável. Também só gasto cerca de 100 a 200 dólares por ano em roupas.
É verdade que tenho algumas exceções à regra de pagar só pelo que valorizo. Não tenho como deixar de pagar a conta de luz, por exemplo, me certifico de reduzi-la o máximo que puder. Também não gosto de pagar 400 dólares por mês em um seguro-saúde que não cobre consultas médicas, mas,
trabalhando como autônomo, não tenho outra escolha. Sim, isso me incomoda, mas, depois de sofrer algumas lesões correndo e de uma cirurgia no tornozelo para Jolie, não acho que seria inteligente tentar viver sem assistência médica.
Além das exceções necessárias, tento fazer de tudo para assegurar que meus gastos estejam alinhados com meus valores. A próxima regra é que, em geral, prefiro experiências da vida a “coisas”. “Coisas” representam objetos que enchem a casa ao passo que experiências de vida representam coisas que faço. Shows de música, finais de semana em cidades das redondezas e jantares com amigos são experiências. Roupas, itens para o lar e praticamente tudo o que ocupa um espaço físico cai na categoria de “coisas”, que prefiro evitar ou, pelo menos, restringir.
Por fim, como sei que a vida tem sido muito generosa para mim até agora, quero me certificar de retribuir ativamente o que recebi investindo nos outros. Cada uma dessas ideias é discutida em mais detalhes na próxima seção.
ALGUNS PRINCÍPIOS
Apresentarei algumas sugestões de finanças pessoais aqui, mas a chave é ser consciente em relação aos seus valores. Não acredito necessariamente que meu caminho seja o melhor para todos, mas também sei que muitas pessoas sentem uma grande dissonância interna em relação a onde escolhem gastar seu dinheiro. Não importa como decide administrá-lo, mas ajuda muito se você souber claramente quais são seus valores.
Tempo não é dinheiro. Decidi adotar a frugalidade, em parte, como um meio para atingir um fim, mas também como um valor pessoal. Ser frugal em algumas áreas me permite gastar livremente em outras. Mas nem sempre se trata de uma relação direta – minha decisão de não pagar dois dólares em uma passagem de ônibus para voltar para casa de uma reunião um dia, não me permite pagar quatro mil dólares em passagens aéreas. Do ponto de vista do “tempo é dinheiro”, seria muito melhor pegar o ônibus para casa (10 minutos) do que voltar andando (30 minutos). Essa incongruência não me incomoda, porque não é minha meta viver da maneira mais otimizada possível. A chave é evitar fazer coisas só por hábito ou por falta de coragem de superar meu medo de mudar (veja o Capítulo 3).
Adiar a gratificação pode ser uma forma de fugir da vida.
O adiamento da gratificação, o princípio de sacrificar algo agora na esperança de se beneficiar disso no futuro, tem seus prós e contras. Estou escrevendo este livro um ano antes de sua publicação, abrindo mão de outras fontes de renda e dedicando muito tempo a isso na esperança de você um dia poder lê-lo – tudo porque acredito no projeto. Também depositei 300 dólares na minha conta de poupança este mês, outro sacrifício que fiz com satisfação.
Ao mesmo tempo, a prática do adiamento da gratificação também pode servir para ajudar as pessoas a evitar tomar muitas decisões na vida. Esse é um aspecto da minha vida financeira no qual eu definitivamente desejo o equilíbrio – não me importo em poupar para o futuro, mas não à custa de viver a vida hoje. E se você passar 40 anos poupando, adiando todo tipo de oportunidade, e for atropelado por um ônibus um dia antes de se aposentar? É melhor planejar para o futuro ao mesmo tempo que também vive no presente.
Não existe uma dívida “boa”. Algumas pessoas acreditam que alguns tipos de dívida são “bons” e outros tipos são “ruins”. A expressão “dívida boa” normalmente se refere a financiamento educacional ou financiamento de imóveis, ao passo que a “dívida ruim” se refere a dívidas no cartão de crédito ou outros empréstimos com altas taxas de juros. Pessoalmente, prefiro não dever nada a ninguém. Até a dívida considerada boa prende as pessoas a decisões que as incomodam durante todos os anos em que elas são forçadas a passar quitando a dívida.
Durante anos, tenho expressado minha preferência por alugar em vez de comprar uma casa ou apartamento e ficava claro nas conversas que eu quase sempre era uma minoria. Nos dias de hoje, fico feliz ao ver cada vez mais pessoas começando a perceber que um financiamento de trinta anos nem sempre beneficia a pessoa que se endivida. Também fico feliz ao ver que o mercado imobiliário está mais rigoroso e é muito mais difícil para as pessoas contratarem financiamentos quando as prestações constituem uma grande parcela de sua renda.
Para levar a poupança a sério, concentre-se mais em aumentar a renda do que em cortar as despesas. Isso acontece porque cortar despesas é essencialmente um comportamento fundamentado na escassez, ao passo que aumentar a renda é essencialmente um comportamento fundamentado na abundância. Por ser um empreendedor, tenho certo grau de controle sobre minha renda. Se quiser ganhar mais, há vários projetos que posso executar para aumentar a receita. Sei que não é fácil fazer isso, já que também gosto de poupar dinheiro e eliminar gastos desnecessários, de forma que analisarei essa distinção em mais detalhes no próximo capítulo. A questão é que pode ser mais fácil aumentar a receita, especialmente para as pessoas inclinadas a trabalhar por conta própria.
FUJA DA DÍVIDA ASSIM QUE PUDER
Se você já estiver endividado e deseja escapar, poderá optar por uma das seguintes linhas de ação:
1. encontre uma maneira de quitar a dívida o mais
rapidamente possível;
2. procure uma solução alternativa; com a ajuda de
instituições públicas especializadas, você poderá renegociá-la.
Para um perfil interessante de uma pessoa seguindo o primeiro caminho, veja o site de Adam Baker,
<www.manvsdebt.com>. Sean Ogle, apresentado no Capítulo 3, travou sua guerra contra a dívida usando praticamente toda a renda disponível para quitar seus cartões de crédito e o financiamento do carro. (Depois disso ele se aprofundou ainda mais no conceito e vendeu o carro.) Veja também o livro Tristezas não Pagam Dívidas, de Mara Luquet.
A propósito, se estiver endividado e em busca de uma saída, saiba que você não está sozinho. Uma ampla comunidade de blogueiros de finanças pessoais em todos os lugares do mundo montou os próprios sites visando divulgar dicas e estratégias para se livrar da dívida e adotar o princípio da frugalidade. Nos Estados Unidos, o mais famoso desses blogs é o site
<www.getrichslowly.org>, mas existem muitos outros por todo o mundo. Em português, existe o site do Gustavo
Cerbasi: <www.maisdinheiro.com.br>.
Por fim, pode ser necessário sacrificar ou adiar algumas coisas para controlar a dívida – mas, como mostra a história de Adam e de outras pessoas, você não precisa postergar toda sua vida em razão da dívida. É tão
importante viver a vida quanto escapar da dívida.
Busque a independência financeira, mas nunca se aposente. Para muitos de nós, a aposentadoria é uma ideia obsoleta – podemos querer nos aposentar e mudar de carreira ou de emprego, mas não queremos necessariamente parar de trabalhar por completo. Quando comecei a determinar minhas metas, decidi que queria ser financeiramente independente. Eu, originalmente, defini essa meta como ter o suficiente para poder viver de juros sem precisar mais trabalhar por dinheiro.
No decorrer dos anos seguintes, reavaliei essa meta e comecei a perceber que minha definição era um pouco tradicional demais. Considerando que nunca quis me aposentar formalmente, por que era tão importante acumular um grande capital? Percebi que seria melhor me concentrar em criar a segurança financeira por meio de uma estratégia baseada em renda. Vejamos qual é a diferença entre essas duas abordagens.
INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA BASEADA EM RIQUEZA
(NORMALMENTE UMA META TOTAL DE MAIS DE UM
MILHÃO DE DÓLARES)
Os especialistas financeiros adoram argumentar sobre esse tipo de coisa, mas o consenso permite um saque anual de 4% dos seus ativos financeiros totais. Isso significa que para atingir a independência financeira baseada em riqueza, você precisará poupar aproximadamente 25 vezes suas despesas anuais projetadas. Por exemplo, para poder sacar com segurança 40 mil dólares por ano, 3, 3 mil dólares por mês, você precisará acumular um milhão de dólares. Para sacar 100 mil dólares por ano (cerca de 8, 3 mil dólares por mês), você precisará ter 2, 5 milhões de dólares. Você também precisará dar importância aos efeitos da inflação, pois 40 mil dólares hoje não valerão os mesmos 40 mil dólares depois.
INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA BASEADA EM RENDA
(NORMALMENTE UMA META ANUAL DE 100 MIL
DÓLARES OU MENOS)
A independência financeira baseada em renda se fundamenta no princípio de substituir a renda proveniente de um empregador pela renda criada por conta própria. Em vez de tentar acumular riqueza (todo o dinheiro que você tem em uma conta de investimento), a ideia é pensar principalmente em aumentar e diversificar a renda. A meta aqui não é tanto acumular uma grande fortuna, mas mudar suas fontes de receita até o ponto de poder obter uma renda fixa suficiente