O que vamos fazer depois do trabalho?
Centralidade do trabalho
Ainda de acordo com Neri (2002), “a despeito de estarem em desvantagem educacional frente aos trabalhadores mais jovens”, os trabalhadores “mais velhos são sensíveis ao treino cognitivo e capazes de generalização de novas aprendizagens”, permitindo a adaptação “às mudanças tecnológicas” (p.11). Aliás, a autora destaca que “ambientes desafiadores exercem influência capital sobre a continuidade de seu funcionamento intelectual”. Além disso, “pessoas que envelhecem sem patologias podem apresentar alto grau de especialização cognitiva, derivada da influência da cultura, que supera as limitações decorrentes das alterações biológicas dependentes da idade” (p.16).
Centralidade do trabalho
Sendo socialmente construído, o significado do trabalho tem variado ao longo da história humana, refletindo o cenário do sistema produtivo, vigente em cada época desde quando o homem utilizava ferramentas rudimentares para conseguir o necessário para a sua sobrevivência até os dias de hoje (Cerqueira, 2012). Muitas vezes, para o senso comum, há uma ligação do trabalho com tortura, castigo, sofrimento e dor.
O trabalho é uma ação tipicamente humana. Diferentemente dos outros animais, com seu trabalho, o homem atua ativamente sobre o meio para obter os recursos de que necessita.
Na teoria marxista, a sociedade capitalista transforma em mercadoria a capacidade produtiva do trabalhador, promovendo a alienação do trabalhador, que não reconhece mais o produto do seu trabalho, tornando-se estranho a ele. O trabalhador passa a ser dependente das condições que lhe são impostas pelo modo de produção capitalista para produzir seu meio de subsistência, sem se dar conta de que reproduz, concomitantemente, “as condições de sobrevivência do sistema produtivo que o aprisiona e o explora” e que “determina o seu modo de vida e suas relações sociais” (Cerqueira, 2012, p.90).
Contudo, se por um lado o trabalho na sociedade capitalista se torna um mecanismo de alienação e exploração, por outro lado é o mantenedor da vida, instrumento de transformação da natureza e da sociedade, mediador das relações sociais e fundamental para a construção da identidade social e da afirmação da autoestima dos indivíduos. Por tudo isso, e por ser a fonte responsável por prover a subsistência do trabalhador e de sua família, o trabalho tende a ser o protagonista no cenário da vida das pessoas, determinando papel secundário aos outros elementos (idem, 2012).
O trabalho pode ser entendido como todo esforço, físico ou psíquico, do ser humano que, intervindo na natureza, produz um resultado (Marx, 1983; Albornoz, 1992; Chrisostomo, 2009; Zanelli et al., 2010; Roesler, 2012). Destaca-se o caráter processual do trabalho nessa relação homem-natureza, em que o homem, por meio do trabalho, põe em movimento as forças naturais que pertencem à sua corporeidade, relacionando-se com o ambiente por meio de seu corpo, por sua ação, com a finalidade de apropriar-se da matéria natural de uma forma que seja útil à sua própria vida, à sua sobrevivência. O trabalho está associado à transformação da natureza em produtos ou serviços. Assim, o trabalho é processo, ação e obra concluída. Por meio do trabalho, o homem atua sobre a natureza, transformando-a e, ao mesmo tempo, transformando sua própria natureza.
Segundo Zanelli et al. (2010), na sociedade contemporânea há uma centralidade da vida no trabalho. Dentro da perspectiva social, o trabalho é o principal ordenador da vida humana, pois regras, horários, atividades específicas e interações sociais são dispostas conforme as exigências que as tarefas do trabalho impõem. O trabalho proporciona uma rotina de horário, exigindo a presença física do trabalhador e estabelecendo contatos sociais com a equipe de trabalho, as quais configuram um cotidiano.
Em razão da importância da presença física e psicossocial do trabalho na
vida das pessoas, ao perderem o emprego, muitas ficam desorientadas,
deprimidas, desestruturam-se emocionalmente, sentem-se inúteis e com a
percepção, aliada a sentimentos, de que não têm contribuições úteis que
possam dar. (Zanelli et al., 2010, p.23)
Em função disso, pode-se dividir a vida de uma pessoa em três grandes etapas: a de preparação para o trabalho, com um papel destacado da família e da estrutura de ensino; a etapa do trabalho propriamente dito, que ocupa parte significativa de cada dia, durando geralmente cerca de 30 ou 35 anos; e a etapa do pós-trabalho, a aposentadoria, que, com os avanços da medicina e a melhoria da qualidade de vida, vem aumentando, podendo representar mais de trinta anos.
Outro olhar sobre o trabalho é necessário para que se possa pensar de forma diferente a relação homem e trabalho. Segundo Maar (2006), essa perspectiva tem sido pensada pela via da sociologia a partir das décadas de 1970 e 1980, como se nota no marco deixado pelo livro Adeus ao proletariado, de André Gorz, no qual é questionada a centralidade da vida no trabalho como categoria sociológica, tratando do trabalho assalariado. As relações com o trabalho produtivo vêm sendo diversificadas e modificadas desde então.
O tema da centralidade do trabalho precisa ser focalizado tendo em vista o processo de produção material da vida humana em sociedade e sua interação com os outros homens e com a natureza (Maar, 2006). O trabalho é fundamental à constituição da humanidade porque, por meio dele, busca-se atender as necessidades elementares do homem como ser social. Segundo Gorz (apud Soares; Costa, 2011), a centralidade do trabalho está no pensamento, na imaginação das pessoas, que o entendem como algo que possuem e não como algo que fazem em seu cotidiano. O sentido humanista emancipatório do trabalho calca-se na crítica ao economicismo, que, entre outros aspectos, instrumentaliza as relações sociais em termos de produtividade (Maar, 2006). Em outras palavras, comparada a uma máquina, em uma sociedade que repõe mão de obra a todo instante, a pessoa só se percebe útil à sociedade ao trabalhar.