O que vamos fazer depois do trabalho?

José Luiz Riani Costa · Capítulo 33 de 49

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O que vamos fazer depois do trabalho?

Nutrição e aposentadoria

Analisando-se os resultados dos levantamentos nacionais sobre saúde bucal realizados em 2003 e 2010, observa-se a melhora em alguns índices, evidenciando uma redução do ataque de cárie em diferentes faixas etárias. No entanto, a falta de dentes permanece sendo um problema de grande relevância, especialmente na população idosa. Nos últimos anos, tem ocorrido uma ampliação progressiva na produção de próteses dentárias totais no SUS, viabilizada pela implantação de Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) e Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias (LRPD) (Brasil, 2012). No que se refere aos planos privados de saúde, o fornecimento da prótese dentária total não faz parte da cobertura mínima obrigatória. Contudo, desde junho de 2010, as operadoras de planos privados de saúde são obrigadas a fornecer próteses odontológicas unitárias (fixadas sobre o remanescente da raiz do dente) para os beneficiários de planos com cobertura odontológica contratados após 1998 (ANS, 2010; ANS, 2013).

 

Nutrição e aposentadoria

Ao refletir sobre essa temática, cabe a indagar: por que é importante investigar a nutrição de indivíduos na aposentadoria, se nessa faixa etária suas escolhas sobre alimentos e padrões de refeições já estão definidos? Há quem advogue que seria mais importante realizar intervenções para influenciar as escolhas dos mais jovens. No entanto, a aposentadoria pode ser um momento oportuno para promover mudanças positivas nos hábitos alimentares. Vale lembrar que muitos trabalhadores habituaram-se a tomar refeições no local de trabalho, o que se altera com a aposentadoria. Outro fato importante é uma possível queda na renda, alterando o padrão de compra de alimentos.

Os padrões alimentares também podem sofrer influências, conforme estudo de Dunneram et al. (2013), que demonstrou que ocorrem modificações nos hábitos alimentares no período de pré-aposentadoria e que elas são intensificadas no período de pós-aposentadoria, dependendo de diversos determinantes, como: gênero, estado civil, renda, tabagismo, prática de atividade física e índice de massa corporal.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013 (PNS 2013), observa-se uma tendência de elevação no consumo recomendado de hortaliças e frutas entre as faixas etárias de 18 a 29 anos (34,1%), 30 a 59 anos (37,9%) e 60 a 64 anos (42,5%) (Brasil, 2015). Contudo, nota-se uma tendência de queda em tal consumo na faixa etária de 65 a 74 anos (40,6%) e entre os indivíduos com 75 anos ou mais (36,1%). A PNS 2013 indica ainda uma queda no consumo regular de doces entre as faixas etárias de 18 a 29 anos (29,6%), 30 a 59 anos (19,4%), 60 a 64 anos (16,6%) e 65 a 74 anos (16,4%). No entanto, nota-se uma tendência de elevação no consumo regular de doces nas pessoas com 75 anos ou mais (19,4%). Ou seja, as pessoas com 75 anos ou mais declaram um menor consumo de hortaliças e frutas e um maior consumo de doces, em comparação à faixa etária imediatamente anterior, de 65 a 74 anos (Brasil, 2015).

No que se refere ao consumo declarado de sal, a PNS 2013 sugere uma tendência progressiva de redução do consumo com o avançar da idade. A proporção mais elevada de consumo de sal ocorre na faixa etária de 18 a 29 anos (18%) e a menor proporção ocorre entre as pessoas com 75 anos ou mais (6,9%) (Brasil, 2015).

Estudo realizado por A. Sousa et al. (2011), com o objetivo de avaliar o perfil sociodemográfico e nutricional de servidores idosos em período de pré-aposentadoria da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), identificou que 52% apresentavam doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), 56% apresentavam excesso de peso e 76% possuíam risco elevado para desenvolver DCNT. Além disso, a frequência de consumo alimentar foi inadequada para vários grupos alimentares: saladas (58%), frituras (90%), embutidos (84%), biscoitos doces (64%) e refrigerantes (58%).

Alvarenga et al. (2009) observaram que as mudanças no estilo de vida social em decorrência da aposentadoria podem levar a um quadro de falta de apetite ou desinteresse pela alimentação. Alguns estudos identificaram relação entre a prevalência da obesidade e o envelhecimento, fase que geralmente coincide com o processo de aposentadoria. Sendo assim, os idosos aposentados, principalmente os sedentários, estão mais sujeitos à obesidade e, consequentemente, a um maior risco de desenvolver as doenças crônico-degenerativas como o diabetes mellitus tipo 2 e as doenças do sistema cardiovascular (Alvarenga et al., 2009; Gomes et al., 2006; Gigante et al., 1997).

Um estudo longitudinal sueco evidenciou que o consumo de doces e itens alimentares semelhantes aumentou após a aposentadoria (Steen et al., 1988), o que pode contribuir com o aumento no ganho de peso e massa gorda nessa faixa etária e, consequentemente, uma elevação na incidência de doenças associadas.

Lauque, Nourashemi e Soleilhavoup (1998), analisando mudanças na ingestão de nutrientes após a aposentadoria, através de um estudo longitudinal, encontraram que o consumo de álcool e pão aumentou. Esses resultados podem ser justificados, uma vez que o pão é uma comida rápida e de fácil acesso, enquanto a ingestão de álcool pode aumentar por conta do maior tempo livre ou pelo surgimento de doenças como depressão. No entanto, a PNS 2013 indica uma tendência progressiva de redução do consumo declarado de álcool com o avançar da idade (Brasil, 2015).

Ainda sobre o estilo de dieta na aposentadoria, um estudo de McGuiness citado por Lara et al. (2014) afirma que aposentados, ao obterem uma alimentação à base de vegetais, grãos, cereais integrais, relataram melhor qualidade de vida. Além disso, os benefícios da ingestão diária de frutas e vegetais repercutem na saúde dos aposentados, conforme o estudo de Lara et al. (2014).

Forman-Hoffman et al. (2008) afirmam que existe diferença nos hábitos alimentares na aposentadoria se comparados com os de pessoas que ainda estão na fase produtiva do trabalho, sendo que as mulheres são mais propensas a procurar hábitos mais saudáveis que os homens.

Assim, no momento de transição para a aposentadoria, recomenda-se a inclusão de ações que busquem orientar sobre uma alimentação mais saudável, na tentativa de incorporar hábitos que favoreçam a saúde. Uma boa fonte para essa discussão é o Guia alimentar para a população brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, cujas recomendações foram sintetizada nos “Dez Passos para uma Alimentação Adequada e Saudável” (Brasil, 2014). Tendo em vista que no momento da aposentadoria as pessoas tendem a se preocupar mais com sua saúde atual e futura, seria de extrema importância motivá-las a participar de programas de cuidados preventivos, como forma de incentivar hábitos alimentares e estilos de vida saudáveis. Uma atividade que pode ser incluída no Programa de Preparação para Aposentadoria (PPA) é um curso de culinária, especialmente se voltado para a alimentação saudável e de baixo custo, além de palestras que abordem tais conteúdos.