O que vamos fazer depois do trabalho?
Transição da vida centrada no trabalho para o tempo do pós-trabalho
Muitas vezes, são deixados de lado valores como a experiência, a maturidade, a sabedoria adquiridas ao longo dos anos de trabalho, especialmente em uma sociedade competitiva e em permanente mudança, fazendo que o aposentado possa sentir-se desorientado, carente de perspectiva ou objetivos, caindo em um mundo fechado, rotineiro, individual e, em alguns casos, depressivo (Pont, 1997).
Transição da vida centrada no
trabalho para o tempo do pós-
trabalho
Segundo definição do dicionário Aurélio, aposentadoria pode ser definida como o “ato de aposentar; estado do empregado ou funcionário (civil ou militar) que, tendo atingido certa idade, certo tempo de serviço ou por motivo de saúde, é posto em inatividade e passa a receber uma pensão; reforma (para militares)” (grifo nosso).
Ainda segundo o mesmo dicionário, “inativo” significa “que não tem atividade; inerte: ficar inativo. / Paralisado, paralítico: está com uma perna inativa. / Reformado ou aposentado (falando-se de militares, empregados ou funcionários). / Bras. Servidor público aposentado, reformado, que está na inatividade” (grifo nosso).
Assim, etimologicamente, e no senso comum, a aposentadoria está associada à ideia de alguém que se retira da vida pública, que se recolhe aos seus aposentos, ao espaço privado da sua habitação, ao lugar do não trabalho. Mas também, em outra perspectiva, tem-se a ideia da aposentadoria como um prêmio, um reconhecimento pela dedicação ao trabalho realizado durante um longo período. É quando o trabalhador está dispensado das rotinas diárias, está “legalmente liberado de um compromisso formal” (Roesler, 2012, p.69).
Para Erbolato (2002), a aposentadoria é considerada um evento normativo da velhice, podendo representar um marco para seu início. Para a autora, a perda do papel profissional e o afastamento dos relacionamentos ligados ao contexto ocupacional são frequentemente associados a prováveis consequências estressantes.
Levando-se em consideração a centralidade do trabalho e a sua influência na constituição psíquica das pessoas, podem-se imaginar as consequências da aposentadoria na vida dos trabalhadores, considerando-se que a aposentadoria é o momento em que se deixa de trabalhar cotidianamente, não se tem mais horários prefixados (Bittencourt et al., 2011).
A aposentadoria coincide com fenômenos como “ninho vazio”, período compreendido entre o momento em que o último filho deixa a casa e ocorre a morte de um dos parceiros, perda de participação social, tempo livre, entre outros (Sartori; Zilberman, 2009).
Embora a aposentadoria, muitas vezes, seja vista como algo que representa a libertação de horários e da rotina, muitos trabalhadores, ao se depararem com a realidade, não sabem o que fazer com o tempo livre (Novo; Fôlha, 2010).
Ao longo dos anos de trabalho, são criados vínculos e desenvolvidos afetos que podem tornar maiores as dificuldades do rompimento. Dessa forma, “é importante que se possa compreender e orientar essas mudanças de maneira positiva”, para que “possam ser superados os receios de se construir uma aposentadoria digna” (idem, p.4).
Como lembra Caldas (2012, p.75),
para algumas pessoas, a aposentadoria pode representar o ingresso em um
grupo de inativos para os quais a vida carece de significado. Mas, para
outras, pode ser a possibilidade de realização de novos projetos de vida.
Pode ser a oportunidade para se dedicar a uma atividade intelectual,
desportiva ou social, postergada por uma intensa vida de trabalho. O fato é
que somos nós que atribuímos o significado que essa fase da vida terá.
O período que envolve a aposentadoria deve ser entendido como um processo de longo prazo, que se inicia muito antes de a pessoa deixar a relação formal de trabalho e se estende até um tempo depois desse momento (França; Vaughan, 2008). Esse período pode ser visto como positivo para os que estão preparados, mas pode representar uma fase de incertezas, e, assim, uma visão negativa do que poderá acontecer (Bittencourt et al., 2011).
Tem sido destacada a importância das primeiras vivências da aposentadoria na “desmistificação de preconceitos e viabilização de ações” que possam dar suporte às mudanças sociais que ocorrem nesse período (Vasques-Menezes, 2012, p.187).
Não se pode esquecer que essa fase de transição pode ser diferente de uma pessoa para outra, “na forma que acontece e nas consequências que apresenta, pois essas podem variar de acordo com o passado do aposentado, suas condições de saúde prévias ao processo, e as circunstâncias envolvendo a aposentadoria em si” (Bittencourt et al., 2011, p.34).
No entanto, a busca das condições e variáveis de um envelhecimento bem-sucedido, que tenha qualidade de vida, incluindo aspectos físicos, psicológicos e sociais, não é apenas uma questão ou um ideal pessoal e social. Trata-se, também, de um desafio para a ciência, para o Estado e para a sociedade (Neri, 1993).
Outro aspecto importante a ser considerado é a qualidade de vida na velhice, devendo-se reconhecer que, para a promoção da boa qualidade de vida na idade madura, é preciso ir além dos limites da responsabilidade pessoal. Para Neri (2001), qualidade de vida na velhice envolve aspectos socioculturais, incluindo os biológicos, psicológicos e sociais, na interação entre pessoas que vivenciam processos de mudança em uma sociedade em mudança.
Assim, a avaliação da qualidade de vida na velhice implica abordar múltiplos critérios, envolvendo determinantes ou indicadores relacionados à longevidade, saúde biológica, saúde mental, satisfação, controle cognitivo, competência social, produtividade, atividade, eficácia cognitiva, status social, renda, continuidade de papéis familiares e ocupacionais, e continuidade de relações informais em grupos primários (principalmente rede de amigos) (Neri, 1993). Avaliar qualidade de vida envolve a comparação entre as condições disponíveis e as desejáveis (Neri, 2001).