O que vamos fazer depois do trabalho?

José Luiz Riani Costa · Capítulo 9 de 49

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O que vamos fazer depois do trabalho?

A questão do trabalho e a população idosa

Assim, na sociedade brasileira tem crescido um movimento social, em grande medida encabeçado pelos próprios idosos, de luta por uma vida não só mais longa, mas também mais digna. Cabe destacar aqui a melhor articulação dos conselhos de idosos, mobilizando-se por reconhecimento de direitos garantidos no Estatuto do Idoso, como saúde, transporte público, trabalho e enfrentamento da violência e do abandono.

 

A questão do trabalho e a população

idosa

A associação de uma série de fatores (aumento da população idosa, taxa de desemprego, desigualdade econômica e social, insuficiência da aposentadoria, inovação tecnológica acelerada etc.) vem trazendo um novo desafio ao mundo do trabalho.

O afastamento dos trabalhadores antes dos 60 anos, ou mesmo antes do

tempo que lhes permita completar o tempo para a aposentadoria coloca-os à

margem do processo produtivo formal e do acesso aos já escassos

benefícios sociais. Criam-se amplas redes de trabalho informal e de

subemprego, insuficientes para garantir os direitos da cidadania e

prejudiciais à produção de riqueza nacional. (Neri, 2002, p.8)

Nesse cenário, é importante que os idosos também tenham direito ao trabalho, mas, lamentavelmente, algumas empresas vêm empregando pessoas idosas para diversos serviços internos e/ou externos (que por analogia poderiam receber a denominação office old), muitas vezes sem vínculo empregatício, aproveitando-se, inclusive, do tratamento especial que os idosos conquistaram com tanta luta, como passe livre no transporte coletivo, caixas exclusivos em bancos e outras instituições etc.

L. G. Gonçalves (2002), em sua dissertação de mestrado, investigou as desigualdades em saúde entre idosos em relação à inserção no mercado de trabalho, por meio de dois estudos com indivíduos residentes em dez regiões metropolitanas. Um dos estudos foi realizado com idosos do sexo masculino e o outro foi realizado com idosas, apresentando os seguintes resultados:

Em síntese, nossos resultados mostraram que um quarto dos idosos trabalhava e que a inserção no mercado de trabalho expressa diferenças relativas à idade, à renda domiciliar, à escolaridade e ao fato de ser referência domiciliar. Além disso, este estudo identificou que a melhor condição de saúde, em especial a preservação da autonomia e da mobilidade física, é um importante fator para a permanência na vida ativa nas idades mais avançadas [...]. (p.21)

A participação das mulheres idosas no trabalho foi quase três vezes menor que a dos homens idosos [...]. Assim, o grande percentual de idosas que não trabalhavam e nem eram aposentadas, não representa uma característica desta faixa etária, mas reflete e acentua uma contingência de gênero. Por outro lado, o trabalho das idosas cuidando dos netos e da casa, viabiliza a participação das mais jovens em atividades remuneradas [...]. (p.44)

De acordo com Neri (2002, p.10), “a desvantagem para os trabalhadores mais velhos” é maior “em ocupações caracterizadas por rápida mudança tecnológica e que por isso requerem constante treinamento e reciclagem de conhecimentos e habilidades”.

No entanto, há dados empíricos suficientes que contrariam a noção de que ocorre um declínio generalizado, universal e irrecuperável nas capacidades intelectuais e de trabalho dos adultos maduros. Mais que isso, há informações de que a falta de oportunidades para treinamento e para reciclagem de habilidades é a maior responsável pelo obsoletismo do trabalhador, e não a pretensa decrepitude dos adultos mais velhos. Ao contrário, ambientes de trabalho enriquecidos, inovadores e desafiadores contribuem para a manutenção e o progresso das capacidades humanas e para a satisfação de seus integrantes. (Neri, 2002, p.8)

Para a autora (2002), “o fato de os trabalhadores mais velhos serem eficientes em muitas atividades que requerem persistência, precisão, experiência, capacidade de solução de problemas práticos, pontualidade, assiduidade e cuidado”, além do fato de serem mais “flexíveis e motivados a enfrentar desafios, desmentem muitos dos estereótipos correntes sobre o envelhecimento”, como os que os veem “como obsoletos, improdutivos, resistentes à mudança e desmotivados” (p.10-1). Por outro lado, “empresas onde os procedimentos de trabalho permanecem inalterados por períodos mais longos, ou naquelas que precisam investir numa imagem conservadora das tradições”, como “hotéis e pousadas; fábricas de remédios, fraldas e comidas para bebês; empresas de seguro e firmas de previdência privada tendem a valorizar” os trabalhadores mais velhos (p.11).