O que vamos fazer depois do trabalho?

José Luiz Riani Costa · Capítulo 3 de 49

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O que vamos fazer depois do trabalho?

Prefácio

O que vamos fazer depois do trabalho? Reflexões sobre a preparação para aposentadoria, livro cuidadosamente organizado por José Luiz Riani Costa, Amarilis Maria Muscari Riani Costa e Gilson Fuzaro Junior, traz à luz um importante (e atual) debate em torno de questões que associam trabalho, aposentadoria e processo de envelhecimento. As reflexões resultam de experiência acumulada na realização de atividades de extensão na Unesp/Rio Claro relacionadas à preparação para a aposentadoria. Entendo que abordar o tema, tendo em vista o testemunho de uma prática, abre espaço para que as vozes dos sujeitos que dela participaram sejam escutadas: um passo fundamental para que as sociedades capitalistas contemporâneas, em especial a sociedade brasileira, possam atentar para os interesses dos sujeitos, e não só do capital, no enfrentamento das múltiplas questões suscitadas pela aposentadoria como rito de passagem. Nessa perspectiva, problematizá-lo exige cada vez maior explicitação de seus fatores determinantes e de seus desdobramentos, principalmente quando se leva em conta um cenário em que, no Brasil, estão em causa longos anos de trabalho, idades cada vez mais avançadas e ativos financeiros cada vez menores.

Há um consenso, tanto entre estudiosos como entre leigos, de que a conquista de uma vida mais longa não pode estar desvinculada do bem viver. Fatores de natureza objetiva, mas também subjetiva, jogam aí seu papel, o que, sem dúvida alguma, torna bastante complexa a tarefa de discutir as mudanças implicadas no rito de passagem antes referido. Pode-se afirmar isso não apenas porque há um maior número de pessoas idosas no Brasil e no mundo (leia-se: maior número de pessoas com idade para se aposentar), mas em função da enorme heterogeneidade de demandas para concretizar o viver bem no interior desse grupo.

Não sem razão, reproduzir a ideia de que a aposentadoria é a passagem da categoria dos economicamente ativos para a de inativos soa como uma abordagem reducionista da questão. Mesmo desconfiando que, nos dias atuais, o par ativo/inativo não reflete adequadamente a vida vivida depois dela, para ir além nesta reflexão, parece-me ser necessário responder, entre outras, a indagações como: 1) qual o impacto desse rito de passagem em contextos socioculturais particulares e, consequentemente, como ele é coletivamente significado?; 2) quais os seus efeitos subjetivos e como determinam caminhos singulares no viver a vida na velhice?; 3) como trabalho, aposentadoria e velhice se entrelaçam enquanto acontecimentos marcantes no curso de vida?; 4) de que modo eles podem se integrar mais espontaneamente quando se tornam objeto de uma política? Afinal, trabalho não é só trabalho assalariado; aposentadoria é algo mais que “recolher-se aos aposentos” e velhice não é sinônimo de invalidez e; 5) o que responderia pelo frequente paradoxo de desejar mas, ao mesmo tempo, repelir a ideia de se aposentar?

De muitos modos, os capítulos que compõem este livro tangenciam essas e outras questões pertinentes ao tema, base para encaminhar proposições que orientem a implantação de programas de preparação para a aposentadoria (PPA) em instituições públicas

e privadas. Assim, o Capítulo 1 – “Envelhecimento e trabalho” – começa com uma breve discussão sobre o envelhecimento populacional, particularmente no Brasil, para então discorrer sobre a questão do trabalho quando ela está especificamente voltada para a

população idosa. Na sequência, o foco do debate do Capítulo 2 – “Preparação para a aposentadoria” – recai sobre a centralidade do trabalho na vida das pessoas e as consequências da transição de uma vida assim concebida para o tempo do pós-trabalho. Coloca-se em relevo a importância de ações efetivas no sentido de preparar os trabalhadores para a aposentadoria, ações que promovam uma abertura do olhar para outros modos de viver a vida, o que pode contribuir para tornar menos traumática a sua desvinculação com o mundo do trabalho. Ainda nesse capítulo, encontramos um detalhamento dos programas que buscam disponibilizar informações específicas sobre questões que incluem a disponibilização de recursos socioculturais e serviços da comunidade para esse

segmento da sociedade. No Capítulo 3 – “Saúde, envelhecimento e aposentadoria” –, o que está em causa é uma reflexão acerca do processo de envelhecimento e seus desdobramentos no âmbito da saúde. Destaque é dado à articulação entre saúde e trabalho, o que inclui problematizar a relação entre saúde e aposentadoria. O

Capítulo 4, por sua vez, coloca em pauta os “Aspectos psicossociais da aposentadoria”. A importância das redes de suporte social constitui um dos pontos fundamentais do debate, no qual se abre espaço para considerações sobre a relação entre aposentadoria e a

tarefa de cuidar de alguém. O Capítulo 5 volta a atenção para a relação entre “Atividade física e aposentadoria”. Partindo da hipótese de que a realização de atividade física seja de fundamental importância para viver a vida com qualidade, o debate ressalta os desafios a serem enfrentados para que isso se cumpra na vida pós-

trabalho. O Capítulo 6 traz um tema bastante atual: “Envelhecimento, novas tecnologias e aposentadoria”. Advoga-se a favor da ideia de que o uso de tecnologias abre uma gama de novas, interessantes e desafiadoras possibilidades para agregar qualidade ao cotidiano de sujeitos idosos. Atenta-se para o fato de que usufruir de seus benefícios depende de que tais tecnologias sejam mais acessíveis financeiramente a um número cada vez maior de usuários. Destaque é dado, no final do capítulo, para os robôs de assistência, ou robôs sociais, utilizados para estimulação cognitiva e interação, além de desempenho em diversas atividades

domésticas. No Capítulo 7, intitulado “Alimentação e nutrição no envelhecimento e na aposentadoria”, discutem-se os determinantes de um estilo de vida saudável, em que atividade física e nutrição comparecem como centrais. Atenção especial é dada à questão que envolve a influência da saúde bucal do idoso na alimentação e nutrição. “Outras possibilidades para a aposentadoria” é o tema

central do Capítulo 8. Mais especificamente, a reflexão está voltada para: a) os efeitos positivos da convivência com animais de estimação; nessa perspectiva, inclui-se tanto a Terapia Assistida por Animais, ou Pet-Terapia, quanto outras atividades assistidas por animais que oferecem oportunidades recreativas, motivacionais e educacionais que podem integrar um PPA; b) o cinema como uma alternativa de educação não formal no âmbito do PPA; c) a participação de aposentados na educação ambiental como outra

abordagem inovadora a ser encaminhada nos PPA’s. O Capítulo 9 apresenta as “Bases para um Programa de Preparação para a Aposentadoria”, tendo como fundamento a reflexão encaminhada nos capítulos anteriores e a experiência acumulada no PPA da

Unesp/Rio Claro. Nas “Considerações finais”, os autores reafirmam a expectativa de que o livro possa colaborar para o debate do tema no interior das instituições públicas e nas empresas, buscando garantir condições dignas de aposentadoria aos trabalhadores, bem

como de vida pós-trabalho. O livro apresenta, ainda, um “Apêndice” – com links de um conjunto de rádio releases (Podcasts) sobre

diversos assuntos abordados ao longo do livro – e um “Anexo” – com uma lista de filmes que podem ser utilizados em Programas de Preparação para a Aposentadoria.

Com a certeza de que a discussão encaminhada neste livro tem muito a contribuir para o aprofundamento do tema que coloca em cena, parabenizo seus autores pela iniciativa de sua publicação.

Suzana Carielo da Fonseca

Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da PUC-SP