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3. Saúde, envelhecimento e aposentadoria
3 – Saúde, envelhecimento e
aposentadoria1
Jessica Rodrigues Pereira, Paulo Fernando Moraes, Úrsula Virgínia Pereira, José Luiz Riani Costa
O envelhecimento normal apresenta mudanças biológicas universais e de caráter não patológico que são inerentes ao processo, como alterações hormonais, osteomusculares, cutâneas, sensoriais etc. O envelhecimento normal também pode apresentar uma diminuição da velocidade dos processos mentais, sem representar perda das funções cognitivas. Felizmente, com a disseminação de informações e implementação de políticas públicas voltadas à promoção da saúde, há um expressivo número de pessoas experimentando o envelhecimento saudável e bem-sucedido (Neri, 2002). Chaimowicz (1997) adverte que o ritmo e a intensidade dessas alterações dependem de características individuais, como a herança genética, e de fatores ambientais, ocupacionais, sociais, culturais etc. aos quais o indivíduo esteve exposto ao longo da vida.
Mas, muitas vezes, o envelhecimento está associado a mudanças patológicas ou a doenças associadas à idade, em função da vulnerabilidade a fatores extrínsecos e intrínsecos. Em muitos casos, mesmo diagnosticados com uma ou mais doenças, como hipertensão arterial, diabetes, artropatias etc., muitos idosos dizem sentir-se saudáveis, especialmente em função do controle de tais doenças e ausência de incapacidades. Apesar de a probabilidade de desenvolver certas doenças aumentar com a idade, envelhecer não é sinônimo de adoecer (Neri, 2002). No entanto, há uma parcela de pessoas que experimentam o envelhecimento associado a perdas físicas e cognitivas em um período relativamente curto (idem, 2002).
As doenças comumente associadas ao envelhecimento compreendem as cardiovasculares (doença aterosclerótica, hipertensão arterial etc.), as respiratórias (bronquite crônica, asma, enfisema e infecções respiratórias), as músculo-esqueléticas (artrose/osteoartrose/osteoartrite, dores lombares etc.), as neurológicas (doença de Parkinson, doença de Alzheimer, outras patologias neuropsiquiátricas), as metabólicas (diabetes, obesidade, osteoporose etc.) e as sensoriais (catarata, glaucoma, retinopatia diabética e presbiacusia) (Mazo et al., 2001).
Com relação às causas de morte na população idosa, predominam as doenças do aparelho circulatório, seguidas das neoplasias e doenças do aparelho respiratório. No primeiro grupo, destacam-se a doença cerebrovascular e a cardiopatia isquêmica. Entre as neoplasias, as mais frequentes no sexo masculino são as de pulmão, estômago e de próstata, sendo que, no sexo feminino, predominam as neoplasias de mama, do estômago e do colo uterino. Entre as doenças do aparelho respiratório, destacam-se a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e a pneumonia (Cabrera; Andrade; Wanjngarten, 2007).
Lima e Costa et al. (2000) realizaram estudo sobre a saúde da população idosa, com base em bancos de dados nacionais de mortalidade e de internações hospitalares, e, no que se refere às causas de morte, chegaram a dados semelhantes aos descritos anteriormente. Com relação às internações hospitalares, o estudo apontou que as principais causas entre os idosos foram “as doenças do aparelho circulatório e as doenças do aparelho respiratório, correspondendo de forma consistente a cerca da metade das internações hospitalares” (p.38).
Em relação à saúde bucal, as mudanças na demografia têm exigido maior atenção para o diagnóstico precoce do câncer bucal e da doença periodontal, entre outras patologias, além das tradicionais ações de restauração e de fornecimento de próteses (Costa, J., 2001). Mais informações sobre a saúde bucal e sua relação com os distúrbios de alimentação e nutrição são
apresentadas no Capítulo 7.
Birman (1995, p.39) chama a atenção para o fato de o idoso ser, frequentemente, “levado a um processo de “desnarcisação”, algumas vezes associado à ideia de que não há “qualquer possibilidade de horizonte de futuro”. Nesse sentido, o autor propõe uma releitura da psicopatologia da terceira idade que permita estudar os “efeitos simbólicos que podem ser produzidos na velhice quando impõe para o sujeito a inexistência de um projeto futuro”.
O autor afirma que existem três formas de o idoso “lidar e manejar o impasse de sua condição”: a depressão, quando a pessoa “revisita o passado sem ter qualquer possibilidade de retificá-lo”; a paranoia, quando faz “acusações dirigidas [...] aos outros, principalmente para as pessoas mais próximas, dos fracassos que a existência lhe produziu”, e a mania, caracterizada por “modalidades de travestismo juvenil [...] que pretendem exibir uma juventude que não é reconhecida pelos outros” (Birman, 1995, p.40-1).
A questão da saúde mental, embora não se constitua em uma causa de morte importante, representa um grande sofrimento para a população idosa. Além dos quadros demenciais, com destaque para a doença de Alzheimer, que geralmente ocorre após os 65 anos de idade, e a demência vascular, associada a hipertensão arterial e diabetes, deve-se registrar que “depressão, ansiedade e transtornos psicóticos, têm também alta prevalência. Os índices de suicídio atingem seus picos, especialmente entre homens idosos. O uso indevido de substância, inclusive álcool e medicamentos, também tem alta prevalência, embora seja quase sempre ignorado” (OPAS/ OMS, 2001, p.104).
A prevalência da Doença de Alzheimer vem apresentando um rápido crescimento, em todo o mundo, com maior intensidade nos países subdesenvolvidos. Além do tratamento farmacológico, que vem apresentando novidades promissoras, destaca-se o tratamento não farmacológico, por meio de exercícios físicos e treinamento cognitivo. Em relação a essa modalidade terapêutica, a Unesp/câmpus de Rio Claro desenvolve, desde 2006, um Projeto de Extensão cuja experiência foi relatada no livro Vivências sobre a Doença de Alzheimer na Unesp: diálogo entre ensino, pesquisa e extensão (Costa; Andrade; Stein, 2014).
O documento “Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências” (Ministério da Saúde, 2002, p.7) afirma que “os acidentes e as violências no Brasil configuram um problema de saúde pública de grande magnitude e transcendência, que tem provocado forte impacto na morbidade e na mortalidade da população”. Os acidentes e as violências aparecem reunidos na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), sob a denominação “causas externas”, englobando todos os tipos de lesões, como ferimentos, fraturas, queimaduras, intoxicações, afogamentos, entre outros. Embora tenham maior frequência em outras faixas etárias, os acidentes e as violências também têm chamado a atenção entre os idosos.
Segundo o Ministério da Saúde (2002, p.22), “a violência contra os idosos existe e manifesta-se sob diferentes formas: abuso físico, psicológico, sexual, abandono e negligência”. Some-se a essas formas de violência, o abuso financeiro e a autonegligência. A negligência “é uma forma de violência presente tanto em nível doméstico quanto institucional, levando muitas vezes ao comprometimento físico, emocional e social, gerando, em decorrência, aumento dos índices de morbidade e mortalidade”. A expressão “maus-tratos contra os idosos” é utilizada para designar “ações únicas ou repetidas que causam sofrimento ou angústia”, incluindo também a omissão em situações “em que haja expectativa de confiança”.
Debert (1999, p.83) cita uma pesquisa de Baptista e Juvêncio, realizada “nas Delegacias de Polícia de Proteção aos Idosos, em São Paulo”, que mostrou “que a violência nelas denunciada é cometida, sobretudo, por parentes que residem na mesma unidade doméstica que os idosos”.
O documento alerta para o fato de os idosos mais vulneráveis serem os que apresentam dependência física ou mental, “sobretudo quando apresentam déficits cognitivos, alterações do sono, incontinência e dificuldades de locomoção, necessitando, assim, de cuidados intensivos em suas atividades da vida diária”. Com relação ao agressor, a situação é mais complicada quando este é dependente econômico do idoso e/ou “quando o cuidador consome abusivamente álcool ou drogas, apresenta problemas de saúde mental ou se encontra em estado de elevado estresse na vida cotidiana” (Ministério da Saúde, 2002, p.22).