O que vamos fazer depois do trabalho?
A aposentadoria no processo de envelhecimento
As alterações não são apenas metabólicas e antropométricas. Há também consideráveis alterações psicossociais, como melhora no autoconceito, autoestima, imagem corporal, humor, tensão muscular, insônia. Pode-se observar, ainda, diminuição de riscos de depressão, estresse e ansiedade, podendo ocorrer diminuição do consumo de medicamentos e incrementos na socialização. Com a prática de exercícios físicos também pode haver prevenção ou retardo do declínio das funções cognitivas (Matsudo, 2009).
A aposentadoria no processo de
envelhecimento
Aposentadoria e envelhecimento são dois processos que costumam estar relacionados, pois os sujeitos se aposentam ao envelhecer. É possível que, para muitos, aposentar-se signifique ter envelhecido, pois a chegada da aposentadoria concretiza o momento em que se percebe que o tempo passou e é necessário finalizar o ciclo de trabalho.
Uma das características do envelhecimento é a redução da capacidade de manter o equilíbrio homeostático quando submetido a condições de sobrecarga funcional, acarretando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos, que podem levar à morte (Papaléo Netto, 1996). O organismo humano, desde a sua concepção até a morte, passa por diversas fases: desenvolvimento, puberdade, maturidade ou estabilização e envelhecimento. Ainda segundo Papaléo Netto (1996), é fácil reconhecer algumas manifestações do envelhecimento, além de cabelos brancos e rugas, como o aumento de ligações cruzadas de colágeno e a redução das capacidades máximas de trabalho e resistência.
Segundo documento do Ministério da Saúde,
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) define envelhecimento
como “um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível,
universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio
a todos os membros de uma espécie, de maneira que o tempo o torne
menos capaz de fazer frente ao estresse do meio ambiente e, portanto,
aumente sua possibilidade de morte”. (Brasil, 2006)
O processo de envelhecimento deve ser compreendido em sua totalidade, incluindo os aspectos orgânico e funcional, bem como as implicações na vida social. Assim, conforme Brêtas (2003), é preciso considerar que o envelhecimento é um processo complexo, pluridimensional, revestido por perdas e aquisições individuais e coletivas, fenômenos inseparáveis e simultâneos. Por mais que o ato de envelhecer seja individual, o ser humano vive na esfera coletiva e, como tal, sofre as influências da sociedade. A vida é social e culturalmente construída.
Segundo Emiliano (2005), o ato de aposentar-se pode mudar o comportamento dos sujeitos diante das relações sociais, alterando as percepções estruturadas no decorrer da vida, principalmente por estar atrelado à dificuldade de desvinculação das relações do ambiente de trabalho. Quando o indivíduo perde essa comunicação com o ambiente de trabalho, com a chegada da aposentadoria, seu status na sociedade também tende a diminuir e a família tem um papel importante para o equilíbrio pessoal do indivíduo e sua adaptação social (Santos, 1990).
O afastamento do trabalho provocado pela aposentadoria talvez seja, segundo França (1999), a perda mais importante da vida social das pessoas, pois pode resultar em outras perdas futuras, que tendem a afetar a sua estrutura psicológica. As consequências negativas percebidas com a ocorrência da aposentadoria são a diminuição da renda familiar, a ansiedade ante o vazio deixado pelo trabalho e o aumento na frequência a consultas médicas (França, 1999). Os sujeitos, ao envelhecer, nem sempre encontram papéis que os gratifiquem e possibilitem pertencimento social (Wolff, 2009) como havia no período em que trabalhavam.
Assim, a aposentadoria envolve perdas de vínculos, status ocupacional e, por vezes, renda. Conforme resultado da pesquisa “Idosos no Brasil”, na velhice ocorre em geral uma queda de renda (Neri, 2007).
Por outro lado, há oportunidade para uma vida religiosa mais atuante, a tentativa de realizar sonhos, como viajar com amigos, frequentar grupos de convivência, realizar passeios, participar de jogos voltados ao público idoso etc.
A busca de atividades físicas ou de lazer no maior período livre de que o aposentado passa a dispor pode ser uma ocupação interessante do tempo e possibilitar uma melhor preparação para essa nova etapa da vida. Cabe ressaltar que seus benefícios podem minimizar as doenças relacionadas ao trabalho e também prevenir problemas de saúde e fatores de risco, como estresse e ansiedade (Santos, 1990).
Há estudos que indicam que a aposentadoria é um processo de transição que interfere no aumento do engajamento em atividades físicas regulares (Barnett; Van Sluijs; Ogilvie, 2012) e que a motivação para a prática de atividade física se baseia na crença de que o aposentado supera a barreira “falta de tempo”, frequentemente referida por pessoas inseridas no mercado de trabalho (Caudroit; Stephan; Scanff, 2011).
Por outro lado, outro estudo realizado com 785 participantes aposentados da European Prospective Investigation into Cancer (Epic – Norfolk), no período de 2002 a 2006, mostra que houve declínio na atividade física geral com a aposentadoria. Em muitos casos, a aposentadoria foi associada ao aumento médio no tempo de visualização de TV, tendo o maior acréscimo ocorrido entre os trabalhadores manuais (Barnett et al., 2014).
Uma revisão sistemática, abrangendo os anos de 1980 a 2010, investigou a transição para a aposentadoria e as mudanças na atividade física, bem como sua relação com a classe socioeconômica e com os preditores dessas mudanças (Barnett; Van Sluijs; Ogilvie, 2012). Os autores utilizaram dezenove bases de dados e chegaram à seleção de igual número de estudos. Todos os estudos usaram a ocupação profissional para definir o nível de atividade física e dois estudos utilizaram os bens familiares como fator adicional. Três estudos relatam associação positiva entre atividade física e nível elevado de grau ocupacional do aposentado. Um estudo não encontrou declínio em trabalhadores sedentários, mas um significante declínio em trabalhadores manuais. O principal resultado foi o aumento da atividade física de lazer após a aposentadoria no grupo com maior nível socioeconômico (idem, 2012).
Em outra revisão sistemática realizada pelo mesmo grupo, identificou-se a tendência ao engajamento em atividades físicas recreacionais, que propiciam, além dos benefícios para a saúde, oportunidades para socialização, mudanças pessoais e ingresso em uma nova rotina de amizades e convívio social. Porém, essa adesão a atividades recreacionais é menor entre os aposentados pertencentes a grupos ocupacionais mais baixos, sendo necessários estudos futuros para compreender a questão (Barnett; Guell; Ogilvie, 2012).
A aposentadoria também tem sido associada a estilos saudáveis de vida, como parar de fumar, diminuição no consumo de álcool e aumento no tempo de atividade física de lazer (Sjösten et al., 2012).
Torna-se um dever dos profissionais que trabalham com idosos o apoio ao envelhecimento ativo na aposentadoria, minimizando perdas e agravos à saúde. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2005), o envelhecimento ativo é um processo no qual ocorre a “otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas”. Essa definição refere-se tanto a indivíduos quanto a grupos populacionais, permitindo que as pessoas percebam o seu potencial para a busca de oportunidades para a conquista do bem-estar considerando sua participação na sociedade de acordo com suas necessidades, desejos e capacidades, ao mesmo tempo que são garantidos segurança e cuidados adequados para seu alcance (OMS, 2005).
Bobbio (1997), após escrever sobre diversos temas relativos à vida humana, escreveu sobre o envelhecimento, quando ele mesmo experimentou os efeitos do avançar da idade. Para ele, o mundo dos velhos é o mundo da memória, do passado, sendo que muitos não dedicam seus pensamentos “àquilo que está por vir”. Esta pode ser a tendência para uma parcela das pessoas que se aposentam, mas é possível modificar isto por meio de uma série de iniciativas que envolvem o próprio indivíduo, a família, a sociedade e o Estado, incluindo diversos elementos que serão vistos nos capítulos seguintes.