O que vamos fazer depois do trabalho?

José Luiz Riani Costa · Capítulo 21 de 49

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O que vamos fazer depois do trabalho?

4. Aspectos psicossociais da aposentadoria

4 – Aspectos psicossociais da

aposentadoria

Carla Andrezza Andreatto, Amarilis Maria Muscari Riani Costa, Lais Scarpari, Ruth Gelehrter Costa Lopes

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que, embora a taxa de aposentados tenha aumentado por consequência do aumento da expectativa de vida, a taxa de aposentados ativos tende a diminuir gradativamente ao longo dos anos (OMS, 2005).

Do ponto de vista psicossocial, é necessário que sejam analisadas as atitudes dos trabalhadores diante de suas perdas e de seus ganhos, bem como os fatores individuais, sociais, familiares e econômicos da pessoa no processo da transição para a aposentadoria, de modo que o enfrentamento das perdas contemple planejamento e intervenções (Andreatto et al., 2013; França, 2004). Essa transição pode incluir diferentes tipos de trabalho, voluntário ou remunerado com carga horária reduzida, pois se acredita que o trabalho esteja inteiramente relacionado à identidade do indivíduo (França; Vaughan, 2008).

Para muitos, essa transição pode desencadear ansiedade, podendo estar associada, ao menos em parte, à falta de planejamento e suporte diante dessa nova fase da vida. Assim, faz-se necessária a implementação de PPA nas organizações, bem como propostas de planejamento de vida futura para esses indivíduos (Bossé; Aldwin; Levenson, 1991). Esses programas devem oferecer um espaço para a discussão dos aspectos positivos, tais como benefícios da prática de atividade física e da adoção de estilo de vida que promova a saúde, a prevenção de problemas físicos ou emocionais e a discussão de como a aposentadoria pode afetar o cônjuge ao longo do tempo, bem como a estruturação da vida após a aposentadoria, a fim de torná-la aprazível e significativa (Monteiro, 2001; Andreatto et al., 2013).

O fator tempo é usado pelos aposentados considerando dois padrões de vida comuns após a aposentadoria: o estilo de vida focado na família e o de investimento equilibrado. O primeiro estilo consiste de atividades acessíveis e com baixo custo, girando em torno da família e do lar, como assistir televisão, receber visitas de familiares e de amigos, conversar, ir a restaurantes, jogar cartas e outros entretenimentos. O segundo estilo normalmente é visto em indivíduos com nível de instrução mais elevado, que dividem seu tempo entre os eixos familiar, trabalho e lazer (Papalia; Olds, 2000). É importante destacar que esses fatores podem sofrer mudanças com a idade. No estudo de Kelly, Steinkamp e Kelly (1986), os aposentados mais jovens que estavam mais satisfeitos com sua qualidade de vida eram os que viajavam e participavam de eventos culturais regularmente, porém, após os 75 anos, as atividades familiares e domésticas traziam mais satisfação.

Diversos indivíduos que costumavam pintar nos fins de semana ou cuidar do jardim se esforçam para tornar essas atividades um hobby ou ofício, tornando-se essencial à sua vida após a aposentadoria (Mannell, 1993). Esse estilo de vida é chamado de lazer sério, dominado por atividades que exigem habilidade, atenção e comprometimento, sendo que os aposentados que o adotam tendem a ter plena satisfação na função (Kelly, 1994).

Os afro-americanos, após a aposentadoria, tendem a ser mais inclinados a atividades produtivas ou úteis, como costura, jardinagem e pescaria, quando comparados a pessoas brancas. Uma hipótese para esse quadro é que a discriminação racial, associada à pobreza, tenha excluído muitas atividades de lazer de suas vidas (Brown; Tedrick, 1993).

A maior disponibilidade de tempo permite o exercício de novos papéis em relação a diferentes questões da comunidade. Dal Rio (2002) observou que o tempo do pós-trabalho é caracterizado por alguns como uma nova etapa, na qual poderiam se dedicar a atividades comunitárias. Para a autora, aparentemente, essa decisão é tomada, entre outros fatores, para atender a valores religiosos e a necessidades pessoais de crescimento. Para algumas pessoas, o trabalho voluntário seria uma forma de exercer a cidadania e de retribuir o que receberam ao longo da vida, além de passar adiante sua experiência profissional. No entanto, o investimento em relações interpessoais, bem como a preocupação com o bem-estar do próximo (não familiar) não constituem, ainda, um papel social específico.

A maioria dessa população trabalha com populações de todas as idades, sendo que mais da metade está envolvida em trabalhos religiosos, dentro de igrejas e sinagogas (Papalia; Olds, 2000). Os trabalhos voluntários adquiriram status elevado, sendo que a população de idosos mais bem instruídos de hoje tem mais a contribuir e mais interesse nesse assunto (Chambre, 1993).

Um exemplo de trabalho voluntário para os aposentados é a Pastoral da Pessoa Idosa, que tem um caráter ecumênico, atuando em diversas partes do país, abordando temas como saúde, nutrição, educação, direitos, cidadania, organização comunitária e outros de interesse desse público. Uma forma de criar as condições para a implantação da Pastoral da Pessoa Idosa é incluir ações voltadas à população idosa na Pastoral da Saúde.

Existem diferentes caminhos para uma aposentadoria significativa e aprazível, conquistadas em duas vertentes em comum: realizar atividades compensadoras e ter relacionamentos compensadores (Papalia; Olds, 2000). Para muitos idosos, ambas são consideradas como sendo uma extensão de uma história desenvolvida durante toda a trajetória de uma longa vida (Kelly, 1994).

Ter uma relação agradável com as pessoas que nos rodeiam e saber enfrentar as adversidades da vida são algumas das características de quem vive de bem com a vida. Isto é importante para nossa qualidade de vida em qualquer idade, especialmente no processo de envelhecimento.

Para a OMS, qualidade de vida é:

a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.

Fica claro que esse conceito depende de cada pessoa, mas existem algumas coisas que são comuns a muitos, como o exercício dos direitos garantidos na Constituição e nas leis, o acesso a moradia digna, alimentação, atenção à saúde, entre outros. Também é evidente que a qualidade de vida depende de muitos fatores, incluindo elementos de avaliação, tanto positivos como negativos.