Os Ensaios
Sobre a ociosidade
e a devastação da cidade de Tebas, ao ver cruelm ente passar pelo fio da
espada tantos hom ens valentes, perdidos e sem m ais nenhum m eio de defesa
pública. Pois ali foram m ortos bem 6 m il, dos quais nenhum foi visto fugindo
nem pedindo m isericórdia. Ao contrário, procurando, uns aqui outros ali, pelas
ruas enfrentar os inim igos vitoriosos, provocando-os para fazê-los m orrer de
m orte honrosa. Nenhum foi visto que não tentasse se vingar ainda em seu
últim o suspiro, e com as arm as do desespero consolar-se de sua m orte com a
m orte de algum inim igo. A coragem aflita de todos eles não suscitou a m enor
piedade, e a duração de um dia não bastou a Alexandre para saciar sua
vingança. Essa carnificina durou até a últim a gota de sangue a derram ar e só
se deteve nas pessoas desarm adas, os velhos, m ulheres e crianças, para
transform á-los em 30 m il escravos.
Sobre a ociosidade
Capítulo VIII
O projeto de Os ensaios foi pensado por Montaigne para que controlasse as
desilusões melancólicas provocadas por sua reclusão, quando seus
pensamentos galoparam para longe, levando-o de roldão. É o que Milton
descreverá mais tarde, em Il Penseroso, em que diz que isso era algo típico
do melancólico em sua torre solitária. O capítulo sofreu poucas modificações
pois talvez tenha sido o início do prefácio de um projeto literário ainda vago.
Fazia pouco tempo que Montaigne se retirara da vida pública. Ali, recluso na
torre de seu castelo, ele pensa, como outrora Cícero, em praticar o otium (o
lazer letrado). Neste texto se encontra o esboço de um de seus objetivos iniciais: fazer um registro do fruto de suas “imaginações”, o que, com o
tempo, se transformará em “ensaios”, e, depois, em Os ensaios.
Assim com o em terras de alqueive, se são ricas e férteis, vem os proliferar 100 m il espécies de ervas silvestres e inúteis, e que para m antê-las é preciso
trabalhá-las e em pregá-las com certas sem entes, para nosso serviço; e assim
com o vem os que as m ulheres produzem sozinhas m assas e pedaços de carne
disform es, 15 m as que para produzir um a geração boa e natural é preciso enchê-las com outro sêm en, assim tam bém ocorre com os espíritos. Se não
os ocupam os em certo assunto que os refreie e contenha, atiram -se
desregrados, para cá e para lá, no vago cam po das im aginações.
Sicut aquae tremulum labris ubi lumen ahenis
Sole repercussum, aut radiantis imagine Lunae,
Omnia pervolitat late loca, iamque sub auras
Erigitur summique ferit laquearia tecti. 16
Assim , quando em um vaso de bronze a superfície trêm ula da água
reverbera a luz do sol ou os raios da lua, esse reflexo volteia de todos os
lados, eleva-se nos ares e vai atingir os painés do teto.
E não há loucura nem devaneio que não se produzam nessa agitação,
velut aegri somnia, vanae
Finguntur species. 17
parecidos com os sonhos de um doente, forj am -se im agens inconsistentes.
A alm a que não tem obj etivo estabelecido se perde, pois, com o se diz, estar
em toda parte é não estar em lugar nenhum .
Quisquis ubique habitat, Maxime, nusquam habitat. 18