Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 31 de 33

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Os Ensaios

Sobre os coches

É bem m ais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro. É com o dizem : “O

roto rindo do esfarrapado”.

Sobre os coches

Capítulo VI

O título, como o de outros ensaios, refere-se a uma pequena parte do leque

de temas aqui tratados. Montaigne relaciona o fantástico luxo e a

magnificência principesca com a crueldade, a vulgaridade e a ostentação

dos que nos governam. Por falar das vicissitudes da história da humanidade,

do Novo e do Velho Mundo, o capítulo ficou famoso e valeu a Montaigne

parte de sua reputação de espírito esclarecido numa época em que não

havia muitos assim. Os coches (que incluem todos os tipos de veículos com

rodas, até os carros extravagantes dos imperadores romanos) eram símbolo

do luxo. São comparados com a simplicidade das culturas dos índios

americanos, que nunca inventaram a roda, não tinham cavalos e usavam o

ouro apenas por sua beleza. A simplicidade dos incas e astecas enfatizava

ainda mais os horrores da conquista espanhola, imbuída de missão

evangelizadora mas na verdade cruel e interessada no ouro. Montaigne se

une à crítica que então se fazia às despesas suntuárias do rei Henrique III.

As três principais fontes do capítulo são De honesta disciplina, de Pietro

Crinito; De amphitheatro, de Justo Lipso; e Histoire générale des Indes, de

Francisco López de Gómara, que ele leu na tradução francesa.

É m uito fácil verificar que os grandes autores, escritores de causas, não se servem apenas das que consideram verdadeiras m as tam bém daquelas em

que não acreditam , contanto que tenham algum a invenção e beleza. O que

dizem é engenhoso e pensam que falam de m odo útil e verídico. Não podem os

nos assegurar da causa últim a, portanto acum ulam os várias para ver se, por

acaso, ela estará entre esse total,

Namque unam dicere causam,

Non satis est, verum plures unde una tamen sit. 473

Indicar um a só causa não basta, é preciso dar m uitas, das quais um a só

será a verdadeira.

Perguntais-m e de onde vem esse costum e de dar a bênção a quem espirra?

Produzim os três tipos de vento; o que sai por baixo é m uito suj o, o que sai

pela boca traz certa pecha de gula, o terceiro é o espirro. E porque vem da

cabeça e é sem desonra, fazem os-lhe essa honrosa acolhida. Não caçoeis

dessa sutileza, que (dizem ) é de Aristóteles. Parece-m e ter visto em Plutarco

(que é de todos os autores que conheço aquele que m elhor m isturou a arte e

a natureza, e o j ulgam ento e a erudição), quando trata da causa dos engulhos

do estôm ago que sofrem os que viaj am por m ar, que isso lhes é provocado

pelo m edo: tendo encontrado algum a razão pela qual prova que o m edo pode

produzir esse efeito. Eu, que sou m uito suj eito a isso, bem sei que essa causa

não m e afeta. E sei não por argum ento m as por experiência indiscutível. Sem

m encionar o que m e disseram , que o m esm o costum a acontecer com os

bichos, especialm ente com os porcos, portanto fora de qualquer apreensão de

perigo; e o que um conhecido m eu atestou-m e sobre si m esm o, que, sendo

m uito suj eito a isso, a vontade de vom itar lhe passara, duas ou três vezes,

quando estava transido de pavor num a grande torm enta. Com o aconteceu

com esse hom em da Antiguidade: Pejus vexabar quam ut periculum mihi

succurreret. 474 Eu estava m uito rudem ente sacudido para perceber o perigo.]

Na água, com o tam pouco em outro lugar (e com frequência m uitos m edos se

ofereceram a m im , se a m orte é um desses), nunca tive m edo que m e haj a

perturbado ou assustado. Às vezes ele nasce da falta de j ulgam ento, com o da

falta de coragem . Todos os perigos que vi, foi de olhos abertos, com a vista

livre, sã e íntegra. Ainda assim , é preciso coragem para ter m edo. Outrora a

coragem m e serviu, tanto quanto a outros, para conduzir e m anter em ordem

m inha fuga, a fim de que fosse, se não sem m edo, pelo m enos sem pavor e

sem atordoam ento. Era alvoroçada, m as não desorientada nem desesperada.

As grandes alm as vão bem m ais além e organizam fugas não só calm as e

saudáveis com o briosas. Mencionem os a que Alcibíades conta de Sócrates,

seu com panheiro de arm as: “Encontrei-o”, diz ele, “depois da debandada de

nosso exército, ele e Laquete, entre os últim os a fugir: e observei-o à vontade

e em segurança, pois eu estava m ontado num bom cavalo, e ele a pé, e assim

tínham os com batido. Observei prim eiram ente com o m ostrava presença de

espírito e resolução, em com paração com Laquete; e depois, a bravura de

seu andar, em nada diferente do usual: sua vista firm e e tranquila,

considerando e j ulgando o que se passava ao redor, olhando ora uns, ora

outros, am igos e inim igos, de um j eito que encoraj ava uns e indicava aos

outros que estava decidido a vender bem caro seu sangue e sua vida a quem

ensaiasse tirá-los, e assim se salvaram , pois não se costum a atacar a estes:

corre-se atrás dos apavorados”. Eis o testem unho desse grande com andante,

que nos ensina o que ensaiam os todos os dias: que não há nada que tanto nos atire aos perigos quanto a fom e inconsiderada de deles escapar. Quo

timoris minus est, eo minus ferme periculi est. 475 Menos se sente tem or, m enos se corre, é claro, do perigo.] Nosso povo está errado ao dizer: “aquele

tem e a m orte”, quando quer dizer que ele pensa nela e a prevê. A previdência

convém igualm ente ao que nos afeta no bem e no m al. Considerar e j ulgar o

perigo não é de j eito nenhum o contrário de assustar-se com ele. Não m e sinto

forte o suficiente para aguentar o choque e a im petuosidade dessa em oção do

m edo, tam pouco de outra em oção veem ente. Se um a só vez eu fosse por ele

vencido e aterrado, j am ais tornaria a m e levantar por com pleto. Quem tivesse

feito m inha alm a perder pé nunca a reporia direito em seu lugar. Ela se

reapalpa e se exam ina m uito vigorosa e profundam ente. E no entanto, nunca

deixaria cicatrizar e consolidar a ferida que a tivesse perfurado. Felizm ente

para m im , ainda nenhum a doença a abateu. A cada investida que recebo,

apresento-m e e oponho-m e todo arm ado. Assim , a prim eira que m e vencesse

m e deixaria sem recurso. Não posso enfrentar duas: em qualquer lugar que a

enchente arrebentasse m eu dique, eis-m e exposto e irrem ediavelm ente

afogado. Diz Epicuro que o sábio j am ais pode passar a um estado contrário à

sabedoria. Tenho certa ideia do oposto dessa sentença: quem tiver sido um a vez m uito louco nunca será m uito sábio um a outra vez. Deus m e dá frio

conform e a roupa e m e concede as paixões segundo os m eios que tenho de

suportá-las. Tendo a natureza m e descoberto de um lado, cobriu-m e de outro:

tendo-m e desarm ado de força, arm ou-m e de insensibilidade e de um a

apreensão do perigo m oderada ou enfraquecida. Agora não consigo suportar

m uito tem po (e na j uventude os suportava m ais dificilm ente) nem coche, nem liteira, nem barco, e odeio qualquer outro transporte que não o cavalo, tanto

na cidade com o nos cam pos. Mas consigo tolerar a liteira m enos que um

coche: e, pela m esm a razão, m ais facilm ente um a forte agitação na água, que

provoca o m edo, do que o m arulho que sentim os em tem po calm o. Com

aquela ligeira sacudida dada pelos rem os, escondendo o barco sob nós, sinto,

não sei com o, m inha cabeça e o estôm ago se em brulharem : da m esm a form a,

não consigo suportar debaixo de m im um a cadeira trepidante. Quando a vela

ou a corrente nos carregam da m esm a m aneira, ou nos rebocam , essa

agitação por igual não m e perturba de j eito nenhum . É a agitação ininterrupta

que m e faz m al: e m ais quando é lenta. Eu não saberia pintar sua form a de

outra m aneira. Os m édicos prescreveram -m e apertar e enfaixar o baixo-ventre

com um a toalha para rem ediar esse m al: o que não experim entei, tendo-m e

acostum ado a lutar contra os defeitos que existem em m im e dom á-los por

m im m esm o. Se tivesse na m em ória inform ação suficiente, não em pregaria

m eu tem po para listar aqui a infinita variedade de exem plos históricos do uso

dos coches a serviço da guerra: diferentes segundo as nações, segundo os

séculos: de grande efeito, parece-m e, e necessidade. Por isso é espantoso

que tenham os perdido qualquer conhecim ento disso. Direi apenas que, m uito

recentem ente, no tem po de nossos pais, os húngaros puseram -se a lutar com

m uita eficácia contra os turcos: em cada um dos coches havia um soldado

arm ado com um escudo redondo e um m osqueteiro, e inúm eros arcabuzes

enfileirados, prontos e carregados: tudo isso coberto por um a fileira de

paveses à m oda de um a galeota. Dispunham à frente de suas tropas 3 m il coches desses: e, depois que o canhão tinha atuado, faziam que os inim igos

atirassem e engolissem essa salva, antes de provarem o resto: o que não era

um leve avanço; ou arrem essavam os ditos coches contra os esquadrões

deles para desm antelá-los e abrir um a brecha. Além do auxílio que podiam

obter deles para flanquear em lugar crítico as tropas que m archavam no

cam po, ou para proteger às pressas um acam pam ento e fortificá-lo. No m eu

tem po, em um a de nossas fronteiras um fidalgo, incapacitado de corpo, não

encontrou cavalo capaz de suportar seu peso; e, tendo se envolvido num a rixa,

andava pela região em coche sem elhante ao que pintei, e sentia-se m uito

bem . Mas deixem os esses carros guerreiros. Os últim os reis de nossa

prim eira dinastia, com o se não fosse j á bem conhecida por m elhores títulos a

vadiagem deles, andavam pelo país num a carroça puxada por quatro bois.

Marco Antônio foi o prim eiro que se fez transportar em Rom a, e j unto com ele

um a m oça m enestrel, por leões atrelados a um carro. Heliogábalo fez o

m esm o depois, dizendo ser Cibele, a m ãe dos deuses, e tam bém foi

transportado por tigres, im itando o deus Baco; certas vezes tam bém atrelou

dois cervos a seu carro, e um a outra vez, quatro cães; e ainda quatro

raparigas nuas, fazendo-se puxar por elas, com pom pa, todo nu. O im perador

Firm o fez seu carro ser levado por avestruzes de m aravilhoso tam anho, de

m aneira que parecia m ais voar do que rodar. A estranheza dessas invenções

traz-m e à m ente esta outra ideia: é um a espécie de pobreza de espírito dos

m onarcas e um a prova de não perceberem o bastante o que são eles se

esforçarem para se valorizar e aparecer por m eio de despesas excessivas.

Seria coisa desculpável em país estrangeiro: m as entre seus súditos, onde o

m onarca pode tudo, é de sua própria dignidade que tira o m ais alto grau de

honra a que possa chegar. Assim com o, parece-m e, para um fidalgo é

supérfluo vestir-se com requinte na intim idade: sua casa, sua criadagem , sua

cozinha, respondem o suficiente por ele. O conselho que Isócrates dá a seu

rei não m e parece inj ustificado: que ele sej a esplêndido em m óveis e

utensílios, tanto m ais que é um a despesa duradoura, que passa até para seus

sucessores. E que fuj a de todas as m agnificências que se esvaem

im ediatam ente do uso e da m em ória. Eu gostava de m e enfeitar quando era

cadete, na falta de outro ornam ento, e aquilo m e caía bem . Mas há aqueles

sobre quem as belas roupas choram.476 Tem os histórias extraordinárias sobre a frugalidade de nossos reis em torno de suas pessoas e quanto a seus dons:

grandes reis em prestígio, em valor e em destino. Dem óstenes com bate

im piedosam ente a lei de sua cidade, que atribuía o dinheiro público às pom pas

dos j ogos e suas festas: quer que a grandeza da cidade se m ostre em

quantidade de barcos bem equipados e em bons exércitos bem providos. E

tem -se razão de acusar Teofrasto, que expõe em seu livro Sobre as riquezas

um a opinião contrária e defende tal natureza de despesa com o o verdadeiro

fruto da opulência. São prazeres, diz Aristóteles, que só tocam o populacho:

que se desvanecem na lem brança assim que deles nos saciam os, e pelos

quais nenhum hom em j udicioso e sério pode ter estim a. O dispêndio m e

pareceria bem m ais régio, assim com o m ais útil, j usto e duradouro se feito em

portos, em barcadouros, fortificações e m uralhas, em edificações suntuosas,

em igrej as, hospitais, colégios, reform a de ruas e estradas, naquilo que fez a

recom endável reputação do papa Gregório XIII por m uito tem po: e no que

nossa rainha Catarina m ostraria por longos anos sua liberalidade natural e sua m unificência se seus recursos bastassem ao seu gosto. O destino causou-m e

grande desprazer ao interrom per a bela estrutura da Pont Neuf, de nossa

grande cidade, e tirar-m e a esperança de vê-la em serviço antes de m orrer.

Além disso, aos súditos espectadores desses triunfos parece que estão lhes

m ostrando suas próprias riquezas e que as estão festej ando à custa deles.

Pois os povos costum am presum ir sobre os reis, com o fazem os com nossos

criados, que eles devem ter o cuidado de nos fornecer em abundância tudo o

que nos for necessário, m as j am ais devem tocar em nada disso para si

m esm os. E no entanto, o im perador Galba, tendo tom ado gosto em ouvir um

m úsico durante sua ceia, m andou buscar seu cofre e deu em m ãos um

punhado de escudos que ali pegou, com estas palavras: “Não são do povo,

são m eus”. Sej a com o for, no m ais das vezes acontece de o povo ter razão: o

dinheiro serve para encher os olhos, e não a barriga. A própria liberalidade

não m ostra todo o seu brilho em m ãos soberanas: as m ãos privadas têm m ais

direito a ela. Pois se o figuram os com exatidão, um rei não tem nada

propriam ente seu: ele m esm o se deve aos outros. A j urisdição não se dá em

favor do j uiz: é em favor do j urisdicionado. Faz-se um superior j am ais para

proveito próprio m as para proveito do inferior. E um m édico para o doente,

não para si. Toda m agistratura, assim com o toda arte, proj eta seus fins para

fora de si. Nulla ars in se versatur. 477Nenhum a arte tem seu fim em si.] É por isso que os preceptores da infância dos príncipes, que insistem em lhes

im prim ir essa virtude da generosidade e os exortam a não saber negar e a

estim ar nada tão bem em pregado com o o que darão (ensinam ento que, em

m eu tem po, vi ser m uito prezado), ou estão m ais preocupados com seu

próprio proveito que com o de seu senhor ou não entendem direito para quem

estão falando. É m uito fácil inculcar a liberalidade em quem tem com que

aplicá-la tanto quanto desej e, às expensas de outro. E com o ela é avaliada

não pela m edida do presente m as pela m edida dos m eios de quem a exerce,

vem a ser nula em m ãos tão poderosas. Eles se m ostram pródigos antes de

ser generosos. Portanto, é virtude de pouca recom endação se com parada

com outras virtudes régias. É a única, com o dizia o tirano Dionísio, que se dá

bem com a própria tirania. Eu antes ensinaria a um m onarca este verso do

lavrador antigo:

Τῆ Χεφὶ δεῖ σπεφειν, ὰλλὰ μὴ δλω τῶ θυλαχῶ, 478

“quem quiser colher fruto, deve sem ear com a m ão, e não despej ar do saco”.

É preciso espalhar a sem ente, não entorná-la. E quando um rei tem de dar, ou

m elhor, tem de pagar e devolver a tantas pessoas segundo cada um a tiver

m erecido, deve ser leal e prudente distribuidor. Se a liberalidade de um príncipe é indiscrim inada e im oderada, prefiro que ele sej a avaro. A virtude

régia parece consistir, m ais que em tudo, na j ustiça. E de todas as espécies

de j ustiça, a que m elhor distingue os reis é a que acom panha a generosidade.

Pois eles a reservaram particularm ente a seu cargo: ao passo que exercem

qualquer outra j ustiça por interm édio de outros. A generosidade im oderada é

um m eio fraco para adquirir a benquerença deles, pois repugna a m ais gente

do que satisfaz. Quo in plures usus sis; minus in multos uti possis. Quid autem est stultius, quam, quod libenter facias, curare ut id diutius facere non

possis?479 Quanto m ais tiver sido usada com um a m ultidão de pessoas, m enos será possível usá-la para m uitos. O que há de m ais estúpido do que se

em penhar em não m ais poder fazer por m uito tem po o que se sente prazer em

fazer?] E se é em pregada sem respeito ao m érito, envergonha a quem

recebe: e é recebida sem gratidão. Tiranos foram sacrificados à ira do povo

pelas m ãos daqueles m esm os que eles tinham iniquam ente favorecido:

hom ens dessa espécie estim am garantir a posse dos bens indevidam ente

recebidos quando m ostram ter desprezo e ódio por aquele de quem os

receberam , e nisso se aliam ao j ulgam ento e à opinião com uns. Os súditos de

um príncipe excessivo em dons tornam -se excessivos em dem andas: m oldam -

se não pela razão, m as pelo exem plo. Certam ente, m uitas vezes há m otivo

para enrubescerm os de nossa im pudência. Para serm os j ustos, j á som os

sobrepagos quando a recom pensa iguala nosso serviço: pois acaso não

devem os nada aos nossos príncipes, por obrigação natural? Se nosso

príncipe suporta nossas despesas, j á faz m uito; basta que as aj ude: o

excedente cham a-se benefício, o qual não se pode exigir, pois a própria

palavra liberalidade soa com o liberdade. Ao nosso m odo, isso nunca term ina:

o recebido não se leva m ais em conta: só gostam os da liberalidade futura. Por

isso, quanto m ais um príncipe se esgota ao dar, m ais se em pobrece em

am igos. Com o saciaria os desej os que crescem à m edida que se satisfazem ?

Quem tem o pensam ento em tom ar não pensa m ais no que tom ou. A cobiça

nada tem de tão próprio com o ser ingrata. Aqui o exem plo de Ciro virá a

calhar para servir aos reis deste tem po com o pedra de toque e perm itir-lhes saber se seus dons estão bem ou m al em pregados: e para fazê-los ver com o

esse im perador os outorgava de form a m ais feliz do que o fazem . Por isso

ficam reduzidos a fazer seus em préstim os j unto a súditos desconhecidos, e

m ais j unto àqueles a quem fizeram o m al do que j unto àqueles a quem fizeram

o bem ; e as aj udas que deles recebem só têm de gratuitas o nom e. Creso

criticava a generosidade de Ciro e calculava a quanto m ontaria seu tesouro se

tivesse tido as m ãos m ais fechadas. Ciro teve vontade de j ustificar sua

liberalidade: despachou m ensagens para todos os lados, para os grandes de seu Estado, que favorecera especialm ente, e pediu a cada um que o

socorresse com tanto dinheiro quanto pudesse, para um a necessidade sua: e

que de tudo lhe enviassem um a declaração. Quando todos esses registros

foram levados a ele, cada um de seus am igos, considerando que não era

fazer o suficiente oferecer-lhe som ente tanto quanto recebera de sua

m unificência, m as aí incluindo m uito de sua própria riqueza, viu-se que essa

som a m ontava a bem m ais do que se calculava com o pecúlio de Creso. Diante

disso, disse Ciro: “Não sou m enos am ante das riquezas que os outros

príncipes, e antes sou m ais econôm ico. Estás vendo com que tão pouca

despesa adquiri o tesouro inestim ável de tantos am igos: e o quanto m e são

m ais fiéis tesoureiros do que o seriam hom ens m ercenários, sem obrigação,

sem afeição: e m inha fortuna está m ais bem guardada do que em cofres, que

atraem para m im o ódio, a invej a e o desprezo dos outros príncipes”. Os

im peradores buscavam desculpa para a superfluidade de seus j ogos e

dem onstrações públicas no fato de que sua autoridade dependia de certa

form a (ao m enos na aparência) da vontade do povo rom ano, o qual desde

sem pre se acostum ara a ser presenteado com espetáculos e excessos desse

tipo. Mas eram pessoas privadas que tinham alim entado esse costum e de

gratificar seus concidadãos e com panheiros, principalm ente com a própria

bolsa, com tal profusão e m agnificência. Esse hábito teve um sabor m uito

diferente quando os soberanos vieram a im itá-lo. Pecuniarum translatio a

justis dominis ad alienos non debet liberalis videri. 480A transferência de dinheiro do legítim o proprietário para outro não deveria ser vista com o um a

liberalidade.] Pelo fato de seu filho ter tentado angariar com presentes a

sim patia dos m acedônios, Filipe repreendeu-o por carta, da seguinte m aneira:

“Com o? Tens vontade de que teus súditos te considerem seu banqueiro, não

seu rei? Queres ganhá-los? Ganha-os pelos benefícios de tua virtude, não

pelos benefícios de teu cofre”. Era, porém , um a bela coisa m andar trazer e

plantar nas arenas um a profusão de grandes árvores, m uito frondosas e m uito

verdes, representando um a grande floresta som bria, arrum ada em bela

sim etria: e, no prim eiro dia, j ogar ali dentro m il avestruzes, m il cervos, m il

j avalis e m il cam urças, abandonando-os à pilhagem do povo; e, no dia

seguinte, m andar m atar em sua presença cem grandes leões, cem leopardos

e trezentos ursos; e para o terceiro dia, fazer com bater à m orte cem pares de

gladiadores, com o fez o im perador Probo. Era tão bonito ver aqueles grandes

anfiteatros incrustados, por fora, de m árm ore decorado com lavores e

estátuas, e dentro reluzindo com raros enriquecim entos,

Baltheus en gemmis, en illita porticus auro. 481

Eis o deam bulatório coberto de pedrarias, eis o pórtico reluzindo de ouro.

E todos os lados daquele vasto espaço, ocupados e rodeados de alto a baixo

por sessenta ou oitenta fileiras de assentos tam bém de m árm ore, cobertos de

alm ofadas,

exeat, inquit,

Si pudor est, et de pulvino surgat equestri,

Cujus res legi non sufficit, 482

fora daqui, exclam a, se ele ainda sente algum a vergonha, que deixe as

alm ofadas reservadas aos cavaleiros, ele cuj os bens são insuficientes

perante a lei,

onde poderiam acom odar-se 100 m il hom ens sentados à vontade. E a praça

abaixo, onde se praticavam os j ogos, fazê-la prim eiram ente entreabrir-se, por

arte, e fender-se em cavernas representando antros que vom itavam os

anim ais destinados ao espetáculo; e depois, em segundo lugar, inundá-la com

um m ar profundo que carregava m uitos m onstros m arinhos, cheio de navios

arm ados a representar um a batalha naval; e em terceiro lugar, aplainá-la e

secá-la de novo para o com bate dos gladiadores; e, para o quarto ato,

espargi-la com verm elhão e estoraque, em vez de areia, para ali organizar um

banquete solene para toda aquela infinita m ultidão do povo: o últim o ato de um

só dia.

Quoties nos descendentis arenae

Vidimus in partes, ruptaque voragine terrae

Emersisse feras, et iisdem saepe latebris

Aurea cum croceo creverunt arbuta libro.

Nec solum nobis silvestria cernere monstra

Contigit, aequoreos ego cum certantibus ursis

Spectavi vitulos, et equorum nomine dignum,

Sed deforme pecus. 483

Quantas vezes vim os arena que se abaixava em certos pontos e do abism o

que se abria no solo surgir feras selvagens; e com frequência daquelas

m esm as profundezas se erguerem árvores de ouro com casca de açafrão?

Não só pudem os olhar os m onstros das florestas, m as observei de m eu

lado focas com batendo com ursos, e o tropel de cavalos dos rios, dignos

de seu nom e, m as horrendos.

Certas vezes fizeram nascer um a alta m ontanha cheia de árvores frutíferas e

árvores verdej antes, de cuj o cum e vertia um riacho com o da boca de um a

nascente viva. Outras vezes passava por ali um grande navio que se abria e

se desm anchava por si m esm o, e depois de ter lançado de seu ventre

quatrocentos ou quinhentos anim ais de com bate fechava-se de novo e sum ia,

sem nenhum a aj uda. Outra vez, do fundo daquela praça faziam j orrar fontes e

filetes de água, que esguichavam para o alto e, naquela altura infinita, iam

regando e perfum ando a m ultidão infinita. Para se protegerem da inclem ência

do tem po, estendiam sobre aquele im enso espaço toldos ora de púrpura com

trabalhos de agulha, ora de seda, de um a ou outra cor, e os colocavam e

retiravam num instante, conform e sua fantasia,

Quamvis non modico caleant spectacula sole,

Vela reducuntur cum venit Hermogenes. 484

Mesm o se os degraus queim am sob um sol im placável, retiram -se os

toldos à chegada de Herm ógenes.

Tam bém as redes que punham diante do povo, para defendê-lo da violência

daquelas feras arrebatadas, eram tecidas de ouro,

auro quoque torta refulgent

Retia. 485

as redes tam bém brilham do ouro de que são feitas.

Se existe algum a coisa que sej a desculpável em tais excessos, é quando a

invenção e a novidade causam adm iração, e não a despesa. Mesm o nessas

inutilidades descobrim os com o aqueles séculos eram férteis em outros

espíritos diferentes dos nossos. Dá-se com essa espécie de fertilidade o que

se dá com todas as outras produções da natureza. Isso não quer dizer que,

na época, ela tenha em pregado nessa finalidade seu derradeiro esforço. Nós

não avançam os, antes giram os e rodopiam os aqui e ali: passeam os sobre

nossos passos. Tem o que nosso conhecim ento sej a fraco em todos os

sentidos. Não enxergam os m uito longe nem m uito para trás. Ele abrange

pouco e vive pouco, curto tanto em extensão de tem po com o em extensão de

m atéria:

Vixere fortes ante Agamemnona

Multi, sed omnes illacrymabiles

Urgentur, ignotique longa

Nocte. 486

Houve vários heróis antes de Agam enon, m as um a longa noite esm aga a

todos, ignorados, sem que tenham sido pranteados.

Et supera bellum Trojanum et funera Trojae,

Multi alias alii quoque res cecinere poetae. 487

E antes da guerra troiana e da ruína de Troia, vários outros poetas

cantaram tam bém outras gestas.

E a narrativa de Sólon sobre o que aprendera com os sacerdotes do Egito a

respeito da longa vida de seu Estado e a m aneira de conhecer e conservar as

histórias estrangeiras não m e parece prova rej eitável nessa consideração. Si

interminatam in omnes partes magnitudinem regionum videremus, et

temporum, in quam se iniciens animus et intendens, ita late longeque

peregrinatur, ut nullam oram ultimi videat, in qua possit insistere: In hac

immensitate infinita, vis innumerabilium appareret formarum.488Se nos fosse dado ver a vastidão sem fim de todos os lados, do espaço e do tem po, onde,

aplicado e atento, nosso espírito viaj asse por todas as direções sem ver lim ite

últim o onde pudesse parar, nessa infinidade sem lim ites apareceria um a

m ultidão de form as inum eráveis.] Ainda que tudo o que veio do passado até

nós fosse verdade e fosse conhecido de alguém , seria m enos que nada em

com paração com o que é ignorado. E dessa m esm a im agem do m undo, que

flui enquanto aqui estam os, com o é ínfim o e raquítico o conhecim ento dos

m ais curiosos? Não só dos acontecim entos particulares, que o acaso m uitas

vezes torna exem plares e im portantes, m as do estado das grandes

sociedades e nações escapam -nos cem vezes m ais do que chega ao nosso

conhecim ento. Proclam am os o m ilagre da invenção de nossa artilharia, de

nossa im prensa: outros hom ens, num outro extrem o do m undo, na China, j á

desfrutavam delas m il anos antes. Se víssem os do m undo tanto quanto não

vem os, perceberíam os, com o é de crer, um a perpétua m ultiplicação e

sucessão de form as. Não há nada de único e raro em relação à natureza, m as

sim em relação a nosso conhecim ento: que é um deplorável alicerce de

nossas regras e que naturalm ente nos apresenta um a im agem m uito falsa das coisas. Assim com o em vão inferim os hoj e o declínio e a decrepitude do

m undo, pelos argum entos que tiram os de nossa própria fraqueza e

decadência,

Jamque adeo affecta est aetas, affectaque tellus:489

E j á nossa época é tão enfraquecida, e tão enfraquecida a terra:

assim incertam ente aquele poeta inferia seu nascim ento e j uventude pelo vigor

que via nos espíritos de seu tem po, abundantes em novidades e invenções de

diversas artes:

Verum, ut opinor, habet novitatem, summa, recensque

Natura est mundi, neque pridem exordia coepit:

Quare etiam quaedam nunc artes expoliuntur,

Nunc etiam augescunt, nunc addita navigiis sunt

Multa. 490

Mas em m inha opinião tudo é novo, o m undo é recente e seu com eço não é

rem oto; assim , certas artes ainda se aperfeiçoam , e m esm o ainda se

enriquecem ; e a arte náutica ainda conhece m uitos aperfeiçoam entos.

Nosso m undo acaba de descobrir um outro (e quem nos responde se é o

últim o de seus irm ãos, j á que até agora os Dem ônios, as Sibilas e nós

ignoram os este?), não m enos vasto, pleno e bem -dotado do que ele; todavia,

tão novo e tão criança que ainda lhe ensinam o seu á-bê-cê. Não faz cinquenta

anos ele não conhecia as letras, nem os pesos, nem as m edidas, nem as

roupas, nem o trigo, nem as vinhas. Ainda estava todo nu, no colo, e só vivia

dos recursos de sua m ãe nutriz. Se inferim os corretam ente nosso fim , assim com o aquele poeta inferiu a j uventude de seu século, este outro m undo

apenas estará vindo à luz quando o nosso sair dela. O universo cairá em

paralisia: um de seus m em bros ficará entrevado, o outro, vigoroso. Receio

que tenham os apressado m uito fortem ente seu declínio e sua ruína por nosso

contágio, e que lhe tenham os vendido m uito caro nossas opiniões e nossas

artes. Era um m undo criança: porém , não o açoitam os nem o subm etem os à

nossa disciplina apenas pela virtude de nosso valor e de nossas forças

naturais, nem o conquistam os por nossa j ustiça e bondade, nem o subj ugam os

por nossa m agnanim idade. A m aioria das respostas deles e das negociações

feitas com eles atestam que nada nos devem em natural clareza de espírito e

em pertinência. A espantosa m agnificência das cidades de Cuzco e México, e

entre m uitas coisas sem elhantes o j ardim daquele rei onde todas as árvores,

as frutas e todas as plantas, segundo a ordem e a grandeza que ocupam num

j ardim , eram excelentem ente figuradas em ouro, assim com o o eram em seu

gabinete todos os anim ais que nasciam em seu Estado e em seus m ares; e a

beleza de seus trabalhos em pedraria, plum as, algodão e em pintura m ostram

que na indústria eles tam bém não eram inferiores a nós. Mas quanto a

devoção, observância das leis, bondade, liberalidade, lealdade, franqueza,

m uito nos valeu não term os tanto quanto eles: pois perderam -se por essa

vantagem e venderam -se e traíram a si m esm os. Quanto à audácia e à

coragem , quanto à firm eza, à constância, à resolução contra as dores e a

fom e e a m orte, eu não recearia em contrapor os exem plos que encontrasse

entre eles e os m ais fam osos exem plos dos antigos que guardam os nos anais de nosso m undo de cá. Pois quanto aos que os subj ugaram , que retirem os

ardis e as artim anhas de que se serviram para enganá-los, e o j usto espanto

que provocava naquelas nações ver chegar tão inopinadam ente pessoas

barbudas, diferentes na língua, religião, na form a e na aparência, de um lugar

do m undo tão afastado e onde eles não sabiam que houvesse qualquer

habitação, m ontados sobre grandes m onstros desconhecidos confrontando

aqueles que nunca tinham visto não só um cavalo m as nenhum anim al

adestrado para carregar e transportar hom em ou outra carga; hom ens

guarnecidos de um a pele reluzente e dura, de um a arm a cortante e

resplandecente; confrontando os que pelo m ilagre do reflexo de um espelho ou

de um a faca iam trocando um a grande riqueza em ouro e em pérolas e que

não tinham conhecim ento nem m aterial com que, com todo o vagar,

soubessem furar nosso aço; acrescentem -se a isso os raios e trovões de

nossos canhões e arcabuzes, capazes de desorientar o próprio César, se hoj e

o surpreendessem tão inexperiente a esse respeito, e opondo-se a povos nus,

salvo ali onde havia chegado a invenção de algum tecido de algodão; sem , na

m aioria, outras arm as além de arcos, pedras, porretes e escudos de m adeira;

povos surpreendidos por aquela aparência de am izade e boa-fé, e com

curiosidade de ver coisas estrangeiras e desconhecidas: retire-se, digo, dos

conquistadores essa disparidade e tirada lhes será qualquer ocasião de tantas

vitórias. Quando olho para esse ardor indom ável com que tantos m ilhares de

hom ens, m ulheres e crianças apresentam -se e atiram -se tantas vezes aos

perigos inevitáveis, para a defesa de seus deuses e de sua liberdade: essa generosa obstinação em sofrer todos os extrem os e as dificuldades, e a

m orte, com m ais gosto do que em se subm eterem à dom inação daqueles por

quem foram tão vergonhosam ente iludidos: e alguns, ao serem pegos,

preferindo se deixar m atar de fom e e de j ej um a aceitar víveres das m ãos de

seus inim igos tão vilm ente vitoriosas, prevej o que se os tivessem atacado de

igual para igual, tanto em arm as com o em experiência e em núm ero, teria sido

um conflito tão perigoso, ou m ais, que outra guerra que conhecem os. Por que

não caiu nas m ãos de Alexandre, ou nas dos antigos gregos e rom anos, um a

tão nobre conquista? E um a tão grande m utação e alteração de tantos

im périos e povos, em m ãos que tivessem suavem ente polido e desbravado o

que ali havia de selvagem , e tivessem fortalecido e fom entado as boas

sem entes que a natureza ali produzira, m esclando não só ao cultivo das terras

e ao ornam ento das cidades as artes de cá, conform e fossem necessárias,

m as tam bém m esclando as virtudes gregas e rom anas às originais do país?

Que conserto teria sido, e que aperfeiçoam ento para toda a m áquina deste

m undo se os prim eiros exem plos e com portam entos nossos que se

apresentaram no lado de lá tivessem convidado aqueles povos à adm iração e

à im itação da virtude, e tivessem construído entre eles e nós um a fraternal

aliança e com preensão? Com o teria sido fácil tirar proveito de alm as tão

novas, tão fam intas de aprendizado, tendo na m aioria tão belas disposições

naturais? Ao contrário, nós nos servim os da ignorância e da inexperiência

deles para dobrá-los m ais facilm ente à traição, à luxúria, à avareza, e a todo

tipo de desum anidade e de crueldade, seguindo o exem plo e m odelo de nossos costum es. Quem j am ais fixou em tal preço o serviço da m ercancia e

do tráfico? Tantas cidades arrasadas, tantas nações exterm inadas, tantos

m ilhões de indivíduos passados pelo fio da espada, e a m ais rica e bela parte

do m undo tum ultuada pela negociação das pérolas e da pim enta: ignóbeis

vitórias! Nunca a am bição, nunca as inim izades públicas im peliram os hom ens,

uns contra os outros, a tão horríveis hostilidades e calam idades tão

m iseráveis. Costeando o m ar em busca de suas m inas, alguns espanhóis

pisaram terra num a região fértil e am ena, m uito habitada, e fizeram àquele

povo suas advertências costum eiras: que eram pessoas pacíficas, vindas em

longuíssim as viagens, enviadas pelo rei de Castela, o m aior príncipe da terra

habitável, a quem o papa, representando Deus na Terra, dera o principado de

todas as Índias. Que se eles quisessem lhe ser tributários seriam m uito

bondosam ente tratados: pediam -lhes víveres para sua alim entação e ouro

para a necesssidade de algum rem édio. Anunciavam -lhes, de resto, a crença

em um só Deus e a verdade de nossa religião, que os aconselhavam a

aceitar, e a isso acrescentando certas am eaças. A resposta foi esta: que

quanto a serem pacíficos, eles não tinham essa aparência, se é que o eram .

Quanto ao rei deles, j á que estava pedindo devia ser indigente e necessitado;

e aquele que lhe fizera essa distribuição de terras era hom em am ante da

dissensão, por ir dar a um terceiro coisa que não era sua e m etê-lo em

contenda contra os antigos possuidores. Quanto aos víveres, que lhes

forneceriam ; ouro, tinham pouco, e que era coisa pela qual não tinham

nenhum a estim a, visto que era inútil para o serviço de sua vida, a qual só se preocupavam em passar de m odo feliz e agradável: portanto, o que eles

conseguissem encontrar, salvo o que era em pregado no serviço de seus

deuses, que o tom assem sem m edo. Quanto a um só Deus, o discurso lhes

agradara m as não queriam m udar de religião, tendo dela se servido tão

utilm ente e por tanto tem po: e que só estavam acostum ados a receber

conselho de seus am igos e conhecidos. Quanto às am eaças, era sinal de falta

de j uízo ir am eaçando aqueles cuj a natureza e recursos eram desconhecidos.

Assim , que se apressassem prontam ente em sair de sua terra pois não

estavam acostum ados a ver com bons olhos as cortesias e advertências de

gente arm ada e estrangeira: do contrário, fariam com eles o m esm o que com

aqueles outros, e m ostraram -lhes as cabeças de uns hom ens j ustiçados em

volta da cidade. Eis um exem plo do balbucio dessa infância. Mas o certo é

que os espanhóis nem se detiveram nem fizeram ataques naquele lugar nem

em vários outros onde não encontraram as m ercadorias que procuravam ,

quaisquer que fossem as outras vantagens que lá houvesse: com o provam

m eus Canibais. Os dois m ais poderosos m onarcas daquele m undo de lá e

talvez deste aqui, reis de tantos reis, foram os últim os que eles expulsaram . O

do Peru foi preso num a batalha e posto a um resgate tão excessivo que

ultrapassa tudo o que é crível, m as que ele fielm ente pagou: e tendo dado por

sua conversação sinal de um a coragem franca, livre e constante e de um

entendim ento claro e tranquilo, os vencedores, depois de terem tirado 1 325

500 onças de ouro, além da prata e outras coisas que não m ontaram a m enos

(tanto assim que os cavalos deles só andavam ferrados de ouro m aciço), tiveram vontade de ver tam bém , à custa de qualquer traição que fosse, qual

podia ser o resto dos tesouros daquele rei e aproveitar-se livrem ente do que

ele preservara. Assacaram -lhe um a falsa acusação e um a falsa prova: que ele

tram ava fazer suas províncias se sublevarem para reconquistar a liberdade.

Com isso, por um belo j ulgam ento feito por aqueles m esm os que lhe tinham

im putado essa traição, condenaram -no a ser enforcado e estrangulado

publicam ente, tendo-o feito rem ir-se do torm ento de ser queim ado vivo pelo

batism o que lhe deram durante o próprio suplício. Acontecim ento horrível e

inaudito, que ele suportou, porém , sem se desm entir, nem por atitude nem por

palavra, de form a e gravidade verdadeiram ente régias. E depois, para aplacar

os povos espantados e estarrecidos com coisa tão estranha, sim ularam um

grande luto por sua m orte e ordenaram para ele suntuosos funerais. O outro,

rei do México, tendo por m uito tem po defendido sua cidade sitiada e m ostrado

nesse cerco tudo o que podem tanto a resistência com o a perseverança, se

algum dia príncipe e povo as dem onstraram ; e tendo seu infortúnio o

entregado vivo nas m ãos dos inim igos, com o com prom isso de ser tratado

com o rei, de m odo que na prisão ele nada dem onstrou de indigno desse título;

e não encontrando eles, em seguida a essa vitória, todo o ouro que tinham

prom etido a si m esm os, depois de tudo rem exer e revistar, com eçaram a

buscar inform ações infligindo aos prisioneiros que m antinham as m ais acerbas

torturas que conseguiram im aginar. Mas, nada tendo obtido, pois encontraram

coragens m ais fortes que seus torm entos, chegaram no final a tam anha raiva

que, contra sua fé e contra qualquer direito das gentes, condenaram à tortura o próprio rei e um dos principais senhores de sua corte, em presença um do

outro. Esse senhor, achando-se dom inado pela dor, cercado de braseiros

ardentes, voltou no final os olhos lam entosos para seu am o, com o para lhe

pedir perdão por não aguentar m ais: o rei, cravando altiva e severam ente os

olhos nele, com o crítica à sua covardia e pusilanim idade, disse-lhe som ente

estas palavras, com um a voz dura e firm e: “E eu, estou no banho? Estarei

m ais à vontade que tu?”. O outro, logo em seguida, sucum biu às dores e

m orreu no local. O rei, sem iassado, foi levado dali, não tanto por piedade

(pois que piedade j am ais tocou alm as tão bárbaras que, pela duvidosa

inform ação de algum a botij a de ouro a pilhar, faziam grelhar diante dos

próprios olhos um hom em , e ainda m ais um rei tão grande em fortuna e em

m érito?), m as sim porque sua constância tornava m ais e m ais vergonhosa a

crueldade deles. Depois, enforcaram -no, tendo ele coraj osam ente tentado se

livrar, arm ado, de tão longo cativeiro e suj eição: no que tornou seu fim digno

de um príncipe m agnânim o. Em outra ocasião, puseram para queim ar de um a

só vez, na m esm a fogueira, 460 hom ens vivos, quatrocentos do povo,

sessenta entre os principais senhores de um a província, que eram

sim plesm ente prisioneiros de guerra. Deles m esm os é que nos vêm essas

narrativas: pois não só as confessam com o delas se vangloriam e as

publicam . Seria com o prova de sua j ustiça, ou zelo por sua religião?

Certam ente, são vias m uito diversas e m uito hostis para um obj etivo tão

sagrado. Se tivessem se proposto propagar nossa fé, teriam considerado que

não é com a possessão de terras que ela se am plia, m as com a possessão de hom ens, e teriam se contentado o suficiente com as m ortes que as

necessidades da guerra im põem , sem a isso acrescentar indiscrim inadam ente

um a carnificina universal, com o se fossem anim ais selvagens, de tantos

quantos o ferro e o fogo conseguiram atingir, e só conservando,

voluntariam ente, os que quiseram transform ar em m iseráveis escravos para o

trabalho e o serviço em suas m inas. E vários chefes foram punidos com a

m orte no próprio local de sua conquista, por decreto dos reis de Castela, com

j usta razão ofendidos pelo horror de seu com portam ento, e quase todos

desestim ados e detestados. Deus perm itiu m erecidam ente que essas grandes

pilhagens fossem tragadas pelo m ar ao ser transportadas, ou pelas guerras

intestinas com que eles se devoraram entre si: e a m aior parte foi enterrada

ali m esm o, sem nenhum fruto de sua vitória. Quanto ao fato de a receita, m esm o colocada nas m ãos de um príncipe econôm ico e prudente,

corresponder tão pouco à esperança dada a seus predecessores e àquela

prim eira abundância de riquezas que se encontrou ao abordarem as novas

terras (pois m esm o que retirem m uito, vem os que não é nada em com paração

com o que era de esperar), foi porque o uso da m oeda era lá inteiram ente

desconhecido e, por conseguinte, o ouro deles estava todo acum ulado, não

tendo outro uso além da ostentação e da pom pa, com o um m óvel preservado

de pai para filho por vários reis poderosos, que sem pre esgotavam suas

m inas para fazer aquele grande am ontoado de vasos e estátuas que ornam

seus palácios e tem plos, ao passo que nosso ouro está todo em pregado ou

no com ércio. Nós o fragm entam os e alteram os de m il form as, o espalham os e

dispersam os. Im aginem os se nossos reis acum ulassem assim todo o ouro que

conseguissem encontrar em vários séculos e o guardassem inativo! Os do

reino do México eram de certo m odo m ais civilizados e m ais artistas do que as

outras nações de lá. Assim , j ulgavam , com o nós, que o universo estivesse

próxim o do fim , e interpretaram com o sinal a devastação que lhes levam os.

Acreditavam que a existência do m undo se reparte em cinco idades, cada um a

tão longa com o a vida de cinco sóis consecutivos, dos quais quatro j á tinham

esgotado seu tem po, e aquele que os ilum inava era o quinto. O prim eiro

m orreu j unto com todas as outras criaturas por um a inundação universal das

águas. O segundo, pela queda do céu sobre nós, que sufocou todas as coisas

vivas: atribuíam a essa idade os gigantes cuj as ossadas m ostraram aos

espanhóis, em tal proporção que a estatura deles vinha a ser vinte palm os de

altura. O terceiro, pelo fogo que incendiou e consum iu tudo. O quarto, por um a

fúria de ar e vento que abateu até m esm o várias m ontanhas: os hom ens não

m orreram m as foram transform ados em m acacos (a que im aginações não se

suj eita a frouxidão da credulidade hum ana!). Depois da m orte desse quarto

sol, o m undo ficou por 25 anos em perpétuas trevas, sendo que no 15o foram

criados um hom em e um a m ulher que refizeram a raça hum ana. Dez anos

depois, em determ inado dia que observaram , o sol apareceu, tendo sido

recriado, e desde então com eça a contagem de seus anos, a partir daquele

dia. No terceiro dia da criação m orreram os deuses antigos: os novos foram

nascendo depois, de vez em quando. De com o eles consideram o m odo com o

este últim o sol perecerá, m eu autor nada soube. 491 Mas a data dessa quarta m udança confere com a grande conj unção dos astros que produziu há oitocentos e tantos anos, segundo estim am os astrólogos, várias grandes

alterações e novidades no m undo. Quanto à pom pa e à m agnificência, pelas

quais entrei neste assunto, nem a Grécia, nem Rom a e nem o Egito podem ,

sej a em utilidade, sej a em dificuldade ou nobreza, com parar nenhum a de suas construções com a estrada que se vê no Peru, aberta pelos reis do país

desde a cidade de Quito até a de Cuzco (são trezentas léguas), reta, plana,

larga de 25 passos, pavim entada, guarnecida dos dois lados por belas e altas

m uralhas, e, ao longo destas, por dentro, dois riachos perenes m argeados de

belas árvores a que cham am de molly. Onde encontraram m ontanhas e

rochedos eles os talharam e aplainaram , e encheram os charcos de pedra e

cal. Ao térm ino de cada j ornada encontram -se belos palácios abastecidos de

víveres, roupas e arm as, tanto para os viaj antes com o para os exércitos que

por ali devem passar. Ao apreciar essa obra, com putei as dificuldades,

particularm ente relevantes naquele lugar. Não construíam com pedras

m enores de dez pés quadrados: não tinham outro m eio de carregá-las senão

com a força dos braços, arrastando a carga, e não conheciam sequer a arte

dos andaim es: assim , não tinham outro m étodo além de am ontoar m uita terra

encostada no edifício, à m edida que ele ia subindo, para retirá-la depois.

Retom em os nossos coches. Em vez de usarem coches ou qualquer outro

veículo, faziam -se transportar nos om bros dos hom ens. No dia em que foi

preso, esse últim o rei do Peru estava no m eio de sua tropa, sentado num a

cadeira de ouro e sendo transportado num a padiola de ouro. Tantos quantos

desses carregadores eram m ortos, para fazê-lo cair ao chão (pois os

espanhóis queriam pegá-lo vivo), tantos outros à porfia ocupavam o lugar dos