Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 33 de 33 · parte 1/3

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Os Ensaios

Sobre a experiência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

endurece o solo e aí estreita os canais abertos, retendo as chuvas finas,

im pedindo de queim arem o chão o ardor forte dem ais do sol que devora ou

o frio penetrante.

Ogni medaglia ha il suo reverso. [Toda m edalha tem seu reverso.] Eis por que Clitôm aco dizia antigam ente que Carnéades superara os trabalhos de

Hércules por ter arrancado dos hom ens o consentim ento: isto é, conj ectura e

tem eridade ao j ulgar. Essa ideia de Carnéades, tão vigorosa, a m eu ver é

m uito antiga, nasceu contra a im pudência dos que professam o saber e suas

pretensões desm edidas. Puseram Esopo à venda, j unto com dois outros

escravos: o com prador indagou do prim eiro o que ele sabia fazer, e este, para

se valorizar, respondeu “m ontanhas e m ilagres”, pois sabia isso e aquilo: o

segundo respondeu tanto ou m ais: quando foi a vez de Esopo, e que tam bém

lhe perguntaram o que sabia fazer, disse: “Nada, pois estes dois j á disseram

tudo: sabem tudo”. Assim aconteceu na escola da filosofia. O orgulho dos que

atribuíam ao espírito hum ano a capacidade de todas as coisas produziu em

outros, por irritação e em ulação, a opinião de que ele não é capaz de coisa

nenhum a. Uns baseiam na ignorância esses m esm os extrem ism os que os

outros baseiam no conhecim ento. A fim de que ninguém possa negar que o

hom em é im oderado em tudo, e que não tem outro lim ite além da necessidade

e da im possibilidade de ir m ais longe.

Sobre a experiência

Capítulo XIII

O capítulo final de Os ensaios fornece o fruto do julgamento de Montaigne sobre o lugar de nossa humanidade na vida de cada um de nós. Ele o

amarra firmemente ao contexto aristotélico. A frase inicial ecoa a primeira

frase de um dos livros mais famosos de Aristóteles, que diz que não há

desejo mais natural do que o desejo de conhecimento. As últimas palavras

de Os ensaios eram, na primeira edição, “diversidade e discordância”. Oito

anos depois, Montaigne escolhe concluir sua obra com a experiência. Assim,

é tentador ver aqui seu testamento intelectual. Montaigne fala de si mesmo.

Como envelhecer? Como enfrentar a doença e a dor? A morte? Suas

respostas vêm não tanto da leitura dos grandes filósofos, mas do convívio

com as pessoas, da observação do real. A sabedoria já não vem do alto, já

não é ditada pela razão; resulta de observações e ensinamentos acumulados

ano após ano: quanto mais envelhece, mais Montaigne se convence de que

não erra em seguir a natureza e em fugir tanto dos conselhos dos moralistas

como das consultas dos médicos. Apesar da dívida com Aristóteles, não

acredita que a experiência que existe por trás de Metafísica ou Física

substitua sua própria experiência: “Estudo a mim mesmo mais que a outro

assunto. É a minha metafísica, é a minha física”.

Não há desej o m ais natural que o desej o de conhecim ento. Ensaiam os todos os m eios que podem levar-nos a ele. Quando nos falta a razão, em pregam os

a experiência,

Per varios usus artem experientia fecit:

Exemplo monstrante viam,510

A experiência tem por diversas práticas produzido as artes, com o exem plo

m ostrando o cam inho,

que é um m eio m uito m ais fraco e m enos digno. Mas a verdade é coisa tão

grande que não devem os desprezar nenhum interm ediário que nos leve a ela.

A razão tem tantas form as que não sabem os a qual recorrer. Não m enos tem

a experiência. A consequência que querem os tirar da com paração entre os

acontecim entos é pouco segura, visto que eles são sem pre dessem elhantes.

Nessa com paração que fazem os sobre as coisas, nenhum a qualidade é tão

universal quanto sua diversidade e variedade. Os gregos, os latinos e nós

servim o-nos do exem plo dos ovos com o sendo o da m ais perfeita sem elhança.

Entretanto, houve hom ens, e em especial um em Delfos, que reconheciam

sinais de diferença entre os ovos, tanto assim que j am ais confundia um com o

outro. E havendo ali várias galinhas, sabia j ulgar de qual delas era o ovo. A

própria dessem elhança se introduz em nossas obras, nenhum a arte pode

alcançar a sem elhança. Nem Perroset511 nem nenhum outro consegue com tanto cuidado polir e branquear o reverso de suas cartas a ponto de certos

j ogadores não as diferenciarem ao vê-las sim plesm ente passar pelas m ãos de

outro. A sem elhança não torna as coisas tão “unas”, assim com o a diferença

as torna “outras”. A natureza obrigou-se a nada fazer “outro” que não fosse

dessem elhante. Por isso, não m e agrada a opinião daquele512 que pensava frear, pela profusão das leis, a autoridade dos j uízes, dando-lhes m astigados

os pedaços de que precisariam . Ele não percebia que há tanta liberdade e

am plitude na interpretação das leis com o em sua elaboração. E os que

pensam enfraquecer nossos debates e sustá-los ao nos lem brarem as

palavras expressas da Bíblia não podem ser sérios. Tanto m ais que o cam po

que se oferece a nosso espírito para exam inar o pensam ento de outro não é

m enos vasto do que o cam po em que ele expõe o seu. E seria com o se

houvesse m enos anim osidade e virulência em glosar do que em inventar.

Vem os com o aquele hom em se enganava. Pois tem os na França m ais leis do

que todo o resto do m undo j unto; e m ais do que seria necessário para regular

todos os m undos de Epicuro: Ut olim flagitiis, sic nunc legibus

laboramus. 513Com o outrora sofríam os com os crim es, hoj e estam os esm agados pelas leis.] E no entanto deixam os tão bem nossos j uízes

opinarem e decidirem que nunca houve liberdade tão poderosa e tão

licenciosa. O que ganharam nossos legisladores em distinguir 100 m il

categorias e fatos específicos e a eles ligar 100 m il leis? Esse núm ero não

tem a m enor relação com a diversidade infinita das ações hum anas. A

m ultiplicação de nossas invenções não conseguirá igualar a diversidade dos

exem plos. Som em -se a isso m ais cem vezes e ainda assim não será possível

que entre os acontecim entos futuros haj a só um que, em todo esse grande

núm ero de m ilhares de acontecim entos selecionados e repertoriados, possa

se j untar e em parelhar com outro tão exatam ente que não reste entre eles a

m enor particularidade e diferença e que não requeira um j ulgam ento

específico. Há pouca relação entre nossas ações, que estão em perpétua

m utação, e as leis fixas e im óveis. As leis m ais desej áveis são as m ais raras,

m ais sim ples e gerais. E m esm o assim creio que seria m elhor não ter

nenhum a delas do que tê-las em tal núm ero com o as tem os. A natureza

sem pre as elabora bem m elhores que aquelas que elaboram os para nós. A

prova é a idade de ouro pintada pelos poetas: e o estado em que vivem as

nações que não têm outras leis. Eis que algum as nações em pregam em suas causas, com o únicos j uízes, o prim eiro viaj ante que estiver cruzando suas

m ontanhas. E outras elegem , no dia de m ercado, alguém entre eles que

decide na hora todos os seus processos. Que perigo haveria se os m ais

sábios viessem assim decidir os nossos, dependendo dos casos, e depois de

um exam e com os próprios olhos, sem obrigação de se referirem a

precedentes e de criar outros? Para cada pé seu sapato. O rei Fernando,

quando enviou colonos para as Índias, providenciou sabiam ente que não se

levassem especialistas da j urisprudência: tem endo que os processos

proliferassem naquele novo m undo, por se tratar de ciência por natureza

geradora de altercação e divisão, e j ulgando, com o Platão, que prover o país

de j urisconsultos e m édicos é ruim . Por que é que nossa linguagem corrente,

tão côm oda para qualquer outro uso, torna-se obscura e ininteligível nos

contratos e testam entos? E por que quem se expressa tão claram ente em

tudo o que diz e escreve não encontra nenhum a m aneira de fazer declarações

que não caia na dúvida e na contradição? Talvez sej a porque os príncipes

dessa arte, aplicando-se com peculiar atenção na seleção de palavras solenes

e fórm ulas artificiais, tanto pesaram cada sílaba e esquadrinharam tão

m inuciosam ente cada tipo de ligação que ei-los atrapalhados e enrolados na

infinidade de figuras e partes do discurso tão picotadas que desafiam qualquer

regra ou prescrição, ou um a com preensão segura. Confusum est quidquid

usque in pulverem sectum est. 514 Tudo o que é reduzido a pó torna-se confuso.] Quem viu crianças tentando dividir em certo núm ero de segm entos

um a m assa de m ercúrio? Quanto m ais o apertam e am assam , e tentam

subm etê-lo à sua lei, m ais exasperam a liberdade desse nobre m etal: ele

escapa às m anipulações e vai se dividindo e se espalhando além de qualquer

conta. O m esm o acontece aqui, pois subdividindo essas sutilezas ensina-se

aos hom ens aum entarem suas dúvidas: colocam -nos em posição de estender

e diversificar as dificuldades: prolongam -nas, dispersam -nas. Sem eando as

questões e retalhando-as, fazem frutificar e pulular no m undo as incertezas e

as querelas, assim com o a terra torna-se m ais fértil à m edida que é

esm igalhada e profundam ente revolvida. Difficultatem facit doctrina. 515É a ciência que cria a dificuldade.] Duvidávam os de Ulpiano, e duvidam os tam bém

de Bartolo e Baldo. 516 Seria preciso apagar os traços dessa inum erável diversidade de opiniões, e não apossar-se dela e encher a cabeça da

posteridade. Não sei o que dizer disso, m as sentim os por experiência que

tantas interpretações dissipam a verdade e a quebram . Aristóteles escreveu

para ser com preendido; se não conseguiu, m enos conseguirá um m enos hábil,

e um terceiro, m enos que quem traduz o próprio pensam ento. Abrim os nossa

m atéria e, m acerando-a, a expandim os. De um assunto fazem os m il: e

m ultiplicando e subdividindo caím os na infinidade dos átom os de Epicuro.

Nunca dois hom ens j ulgaram da m esm a m aneira a m esm a coisa. E é

im possível ver duas opiniões exatam ente iguais: não só em diversos hom ens

m as no m esm o hom em , em horas diferentes. Norm alm ente encontro do que

duvidar naquilo que o com entário não se dignou tocar. Tropeço m ais

facilm ente em terreno plano, com o certos cavalos que conheço, que m ais

am iúde pisam em falso em cam inho uniform e. Quem negaria que as glosas

aum entam as dúvidas e a ignorância, j á que não se vê nenhum livro, sej a

hum ano, sej a divino, em que os hom ens trabalharam e cuj as dificuldades

tenham sido vencidas por suas interpretações? O centésim o com entarista

transm ite àquele que o sucede um livro m ais espinhoso e m ais escarpado do

que o prim eiro que o com entou. Quando concordarem os entre nós que tal livro

tem suficientes com entários e que de agora em diante não há m ais nada a

dizer? Isso pode ser m ais bem -visto nas chicanas. Confere-se força de lei a

infinitos doutores, a infinitos decretos e a outras tantas interpretações.

Porventura encontram os por isso algum a finalidade em nossa necessidade de

interpretar? Porventura vem os progresso e avanço com respeito à

serenidade? Precisam os de m enos advogados e j uízes do que quando essa

m assa de direito ainda estava em sua prim eira infância? Ao contrário,

obscurecem os e enterram os a inteligência. Não m ais a discernim os senão à

m ercê de tantas cercas e barreiras. Os hom ens desconhecem a doença

natural de seu espírito. Este apenas bisbilhota e procura; e vai

incessantem ente rodopiando, construindo, com o nossos bichos-da-seda, e

em aranhando-se em seu trabalho: nele se sufoca. Mus in pice. 517Um cam undongo no piche.] Pensa notar de longe não sei que aparência de clareza

e de verdade im aginárias: m as enquanto corre para lá, tantas dificuldades lhe

atravessam o cam inho, tantos obstáculos e novas pesquisas, que elas o

extraviam e inebriam . Não é m uito diferente do que acontece com os cães de

Esopo, que, avistando o que parecia um corpo m orto boiando no m ar, e não

conseguindo aproxim ar-se, resolveram beber aquela água, secar a passagem ,

e ali se afogaram . E isso coincide com o que dizia um certo Crates sobre os

escritos de Heráclito, que precisavam de um leitor bom nadador a fim de que a profundidade e o peso de sua doutrina não o tragassem e sufocassem . É só

nossa fraqueza individual que faz que nos contentem os com o que outros ou

nós m esm os encontram os nessa caça ao conhecim ento: um m ais hábil não se

contentará. Há sem pre lugar para um sucessor, e até para nós m esm os, e um

cam inho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está

no outro m undo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de

lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si m esm o. Sem pre se

em penha em ir m ais longe e vai além de suas forças. Seus im pulsos vão além

de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se

choca e se revira, só está vivo pela m etade. Suas buscas não têm térm ino

nem form a. Seu alim ento é o espanto, a caça, a incerteza. Com o declarava

Apolo, falando sem pre conosco de form a am bígua, obscura e oblíqua: não

nos saciando m as nos divertindo e nos ocupando. É um m ovim ento irregular,

perpétuo, sem m odelo e sem obj etivo. Suas invenções excitam -se, seguem -se

e engendram -se um a à outra.

Ainsi voit l’on, en un ruisseau coulant,

Sans fin l’une eau apres l’autre roulant,

Et tout de rang, d’un eternel conduict,

L’une suit l’autre, et l’une l’autre fuyt.

Par cette-cy celle-là est poussée,

Et cette-cy par l’autre est devancée:

Tousjours l’eau va dans l’eau, et tousjours est-ce

Mesme ruisseau, et toujours eau diverse.

Assim se vê num riacho correndo, sem fim um a água após outra rolando, e

perpetuam ente num eterno conduto; um a segue a outra, e um a da outra

foge. Por esta a outra é im pelida, e esta pela outra é precedida: a água

sem pre indo na água, e sem pre é o m esm o riacho, e sem pre água

diferente. 518

Há m ais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as

coisas: e m ais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazem os

m ais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de com entários, m as de autores

há grande escassez. O principal e m ais fam oso saber de nossos séculos não

é saber com preender os sábios? Não é essa a finalidade com um e últim a de

todos os estudos? Nossas opiniões enxertam -se um as nas outras. A prim eira

serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalam os, degrau a

degrau. E resulta que quem sobe m ais alto costum a ter m ais honra do que

m érito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os om bros do penúltim o. Quão

frequentem ente, e talvez tolam ente, estendi m eu livro até que ele falasse de

si? Tolam ente, quanto m ais não fosse por esta razão: eu devia m e lem brar do

que digo dos outros que fazem o m esm o; de que essas olhadelas tão

frequentes para suas obras provam que o coração estrem ece de am or por

elas; e de que m esm o as asperezas e o m enosprezo com que as castigam

são apenas m im os e repreensões de um a solicitude m aternal, seguindo

Aristóteles, para quem tanto prezar com o desprezar costum am nascer do

m esm o ar de arrogância. Pois não sei se todos aceitarão m inha desculpa de

que devo ter nisso m ais liberdade que os outros porque, j ustam ente, escrevo

sobre m im , e sobre m eus escritos e sobre m inhas outras ações, j á que m eu tem a se revira sobre si m esm o. Vi na Alem anha que Lutero deixou tantas, e

m esm o m ais, discórdias e desacordos sobre suas opiniões do que ele m esm o

levantou a respeito das Sagradas Escrituras. Nossa contestação é verbal.

Pergunto o que são natureza, prazer, círculo, fideicom isso. A questão é sobre

palavras e é paga na m esm a m oeda. Um a pedra é um corpo: m as se

pressionássem os: “E corpo, o que é?”, “Um a substância”, “E substância, o

que é?”, e assim por diante, encurralaríam os o interlocutor até o fim de seu

dicionário. Troca-se um a palavra por outra e quase sem pre por um a m ais

desconhecida ainda. Sei m elhor o que é “hom em ” do que sei o que é “anim al”,

ou “m ortal”, ou “racional”. Para esclarecer um a dúvida, dão-m e três: é a cabeça da Hidra. Sócrates perguntou a Mênon o que era a virtude: “Há”, disse

Mênon, “virtude de hom em e de m ulher, de m agistrado e de cidadão

particular, de criança e de velho”. “Ah, isso é m uito bom ”, exclam ou Sócrates,

“estávam os em busca de um a virtude e nos trazes um enxam e.” Fazem os um a

pergunta e nos devolvem um a colm eia. Com o nenhum fato e nenhum a form a

se parecem inteiram ente com outros, assim nenhum difere inteiram ente de

outro. Engenhosa m escla da natureza. Se nossas faces não fossem

sem elhantes, não se saberia discernir o hom em do anim al: se não fossem

dessem elhantes, não se saberia discernir um hom em de outro. Todas as

coisas se ligam por certa sem elhança. Todo exem plo é falho. E a relação que

se estabelece a partir da experiência é sem pre falha e im perfeita. Todavia,

j untam os as com parações por algum a ponta. Assim as leis adaptam -se e

assim com binam com cada um de nossos casos por algum a interpretação

escusa, forçada e oblíqua. Já que as leis éticas, que se referem aos deveres

particulares de cada um consigo, são tão difíceis de se estabelecer, com o

vem os que são, não é de espantar que o sej am ainda m ais as leis que

governam tantos indivíduos. Considerai a form a dessa j ustiça que nos rege; é

um a verdadeira prova da im becilidade hum ana, de tal form a há contradição e

erro. O que encontram os em m atéria de favoritism o e de rigor na j ustiça (e

encontram os tanto que não sei se o m eio-term o entre eles é frequente) são

partes doentias e m em bros anorm ais do próprio corpo e da essência da

j ustiça. Cam poneses vêm m e avisar, apressados, que deixaram ainda há

pouco, num a floresta que é m inha, um hom em ferido por cem golpes, que

ainda respira e pediu-lhes água, por piedade, e socorro para ser levantado.

Dizem que não ousaram se aproxim ar e fugiram , tem endo que as pessoas da

j ustiça os pegassem , com o acontece com os que são encontrados perto de

um hom em m orto, e que tivessem de prestar contas desse acidente, para sua

total desgraça, pois não têm com petência nem dinheiro para defender sua

inocência. O que lhes poderia dizer? É certo que esse ato de hum anidade lhes

teria causado aborrecim ento. Quantos inocentes descobrim os que foram

punidos? Digo: sem que tenha sido por culpa dos j uízes? E quantos houve que

não descobrim os? Eis o que aconteceu em m eu tem po: uns hom ens são

condenados à m orte por um hom icídio, com a sentença, se não proferida, ao

m enos concluída e decidida. Nessa altura, os j uízes são avisados pelos

oficiais de um tribunal subalterno, vizinho, de que eles detêm alguns

prisioneiros que confessam eloquentem ente o hom icídio e j ogam sobre os

fatos um a luz indubitável. Deliberam se por isso devem interrom per e diferir a execução da sentença dada contra os prim eiros. Consideram a novidade da

situação e suas consequências para suspender o j ulgam ento; e com o a

condenação está j uridicam ente feita, os j uízes ficam privados de

arrependim ento. Em sum a, aqueles pobres-diabos são sacrificados às form as

da j ustiça. Filipe, ou algum outro, evitou um inconveniente parecido da seguinte

m aneira: condenara um hom em a pagar pesadas m ultas a outro, por um

j ulgam ento proferido. Descobrindo-se a verdade certo tem po depois, viu-se

que ele j ulgara de form a iníqua. De um lado estavam as razões da causa: de

outro lado, as razões dos procedim entos j udiciais. De certo m odo ele satisfez

a am bas, deixando a sentença com o estava e recom pensando com o próprio

dinheiro o prej uízo do condenado. Mas estava lidando com um fato reparável,

ao passo que os m eus foram irreparavelm ente enforcados. Quantas

condenações vi m ais crim inosas que o crim e? Tudo isso m e faz relem brar

estas opiniões dos antigos: que é obrigado a agir m al no varej o quem quiser

agir bem no atacado, e a com eter inj ustiça nas pequenas coisas quem quiser

fazer j ustiça nas grandes; que a j ustiça hum ana é form ada segundo o m odelo

da m edicina, segundo o qual tudo o que é útil é tam bém j usto e honesto; e,

com o afirm am os estoicos, que a própria natureza age contra a j ustiça na

m aioria de suas obras; e, com o afirm am os cirenaicos, que não há nada j usto

em si, e que são os costum es e as leis que fazem a j ustiça; e o que os

teodorianos dizem : que é j usto para um sábio o furto, o sacrilégio e toda

espécie de indecência se ele vir que isso lhe é proveitoso. Não há rem édio.

Estou no m esm o ponto em que Alcibíades, que j am ais com parecerei, se puder, perante um hom em que decida a respeito de m inha cabeça, e que

m inha honra e m inha vida dependam m ais da habilidade e do cuidado de m eu

procurador que de m inha inocência. Eu m e arriscaria perante um a j ustiça que

m e reconhecesse tanto um a boa ação com o um a m á ação, e da qual tivesse

tanto a esperar com o a tem er. Manter-se ileso não é retribuição suficiente

para um hom em que faz m elhor do que não errar. Nossa j ustiça só nos

apresenta um a das m ãos; e ainda assim , a esquerda. Sej a quem for, qualquer

um sai dela com algum a perda. Na China, cuj as leis e artes, sem contato e

conhecim ento dos nossos, superam nossos exem plos em vários terrenos de

excelência, e cuj a história m e ensina quão m ais am plo e m ais diverso é o

m undo, o que nem os antigos nem nós im aginam os, os oficiais designados

pelo príncipe para inspecionar o estado de suas províncias punem aqueles

que com eteram no cargo m alversações m as tam bém rem uneram por m era

liberalidade os que se portaram bem , além da norm a habitual e além da

necessidade de seu dever. As pessoas se apresentam a eles não só para se

defenderem m as para ganhar algum a coisa: não sim plesm ente para serem

pagas, m as para receber dons. Graças a Deus, nenhum j uiz j á falou com igo

com o j uiz por qualquer causa que sej a, m inha ou de terceiros, crim inal ou civil.

Nenhum a prisão m e recebeu, nem sequer para passear ali dentro. A

im aginação torna-m e desagradável até sua visão, m esm o de fora. Tenho

tam anha queda pela liberdade que se alguém m e proibisse o acesso a algum

canto das Índias eu viveria de certa form a m enos à vontade. E enquanto

encontrar terra ou céu aberto em outra parte, não apodrecerei em lugar onde precise m e esconder. Meu Deus, com o suportaria m al a condição em que vej o

tantas pessoas que, por terem questionado nossas leis, vivem cravadas num

canto deste reino, privadas de entrada nas cidades principais e nas cortes e

do uso das vias públicas. Se essas leis a que sirvo m e am eaçassem som ente

a ponta do dedo, eu iria de im ediato procurar outras, onde quer que fosse.

Toda m inha pequena sabedoria, nestas guerras civis em que estam os, é

aplicada para que elas não interrom pam m inha liberdade de ir e vir. Ora, as

leis m antêm -se em vigor não porque são j ustas m as porque são leis. É o

fundam ento m ístico de sua autoridade: não têm outro. O que m uito lhes serve.

É frequente que sej am feitas pelos tolos. Mais frequentem ente por pessoas

que, em seu ódio à igualdade, têm falta de equidade. Mas sem pre por

hom ens, autores vãos e incertos. Não há nada tão grosseira e am plam ente,

nem tão correntem ente falível com o as leis. Quem lhes obedece porque são

j ustas não lhes obedece j ustam ente pelo que deveria. As nossas francesas,

por sua im perfeição e deform idade, auxiliam de certa form a a desordem que

vem os em sua aplicação e a corrupção que vem os em sua execução. A

autoridade delas é tão confusa e inconsistente que, de certo m odo, desculpa

tanto a desobediência com o o vício de interpretação, de adm inistração e de

observância. Portanto, sej a qual for o fruto que podem os tirar da experiência,

o que tirarm os dos exem plos estrangeiros m al servirá para nossas instituições

se não tirarm os proveito da experiência que tem os de nós m esm os, que nos é

m ais fam iliar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisam os. Estudo

a m im m esm o m ais que a outro assunto. É a m inha m etafísica, é a m inha física.

Qua Deus hanc mundi temperet arte domum,

Qua venit exoriens, qua defecit, unde coactis

Cornibus in plenum menstrua luna redit:

Unde salo superant venti, quid flamine captet

Eurus, et in nubes unde perennis aqua?

Sit ventura dies mundi quae subruat arces.

Quaerite quos agitat mundi labor. 519

Por qual arte Deus governa nossa m orada, o m undo; de onde vem a lua

quando se levanta, onde ela desaparece; e de onde, reunindo todo m ês

seus crescentes, torna a ser cheia; de onde vêm os ventos que com andam

o m ar com o que o Eurus leva com seu sopro; e de onde vem que, sem

cessar, a água retorna às nuvens? quando vier o dia que derrubar as

alturas do m undo, procurai, vós que vos atorm entais com os labores do

m undo.

Nesse universo, deixo-m e m anej ar com ignorância e negligência pela lei geral

do m undo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não

pode fazê-la m udar de cam inho. Ela não se diversificará para m im : é loucura

esperá-lo. E m aior loucura sentir pesar por isso, j á que ela é necessariam ente

a m esm a, pública e com um . A bondade e a capacidade do governante devem

nos dispensar por com pleto e sem reserva da preocupação com seu governo.

As inquirições e contem plações filosóficas servem apenas de alim ento à nossa

curiosidade. Os filósofos, com m uita razão, rem etem -nos às regras da natureza: m as elas pouco se im portam com tão sublim e conhecim ento. Eles as

falsificam e apresentam -nos da natureza um rosto pintado, colorido dem ais e

sofisticado dem ais: donde nascem retratos tão diversos de um obj eto tão

uniform e. Assim com o a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem

sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e

pom posa com o a que os filósofos inventam : m as afável, fácil, sossegada e

salutar. E a quem tem a felicidade de saber em pregá-la sim ples e

ordenadam ente, isto é, naturalm ente, ela faz m uito bem o que outra diz que

faz. Entregar-se o m ais sim plesm ente à natureza é entregar-se o m ais

sabiam ente. Oh! com o a ignorância e a despreocupação são um suave, m acio

e saudável travesseiro para repousar um a cabeça bem form ada. Eu preferiria

com preender bem a m im m esm o a com preender Cícero. Se eu fosse um bom

aluno, na experiência que tenho de m im encontraria o suficiente para m e tornar

sábio. Quem conserva na m em ória o excesso de sua cólera passada, e até

onde essa febre o arrastou, vê a feiura dessa paixão m elhor que em

Aristóteles e nutre por ela um ódio m ais j usto. Quem se lem bra dos m ales que

sofreu, dos que o am eaçaram , das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar

de um estado a outro, prepara-se com isso para as m utações futuras e para o

reconhecim ento de sua condição. A vida de César não é m ais exem plo para

nós do que a nossa. Tanto de um im perador com o de um hom em do povo, é

sem pre um a vida, à qual todos os acontecim entos hum anos dizem respeito.

Nós nos dizem os tudo de que m ais precisam os: basta escutarm os. Quem se

lem bra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio j ulgam ento não é um tolo se não adotar para sem pre a desconfiança? Quando vej o que

m e convenci, pela razão de outro, de um a ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele m e disse de novo, nem é de grande proveito a m inha

ignorância especial, m as em geral aprendo m inha debilidade e a traição de

m eu entendim ento, e com isso posso m elhorar todo o conj unto. Com todos os

m eus outros erros faço o m esm o: e sinto nessa regra grande utilidade para a

vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro indivividual com o um a

pedra em que tropecei. Aprendo a tem er m eu com portam ento em qualquer

lugar e trato de m elhorá-lo. Saber que dissem os ou fizem os um a tolice é

apenas isso; precisam os aprender que não passam os de um tolo,

ensinam ento bem m ais am plo e im portante. Os passos em falso que m inha

m em ória m e causou tão am iúde, quando j ustam ente m e parecia m ais segura

de si, não foram perdidos em vão. Por m ais que agora ela m e j ure e m e

garanta, eu balanço a cabeça: a prim eira obj eção que fizerem a seu

testem unho deixa-m e em suspenso. E nela não ousaria m e fiar em coisa de

peso, nem avalizá-la a respeito de outrem . E se não fosse porque o que faço

por falta de m em ória os outros o fazem ainda m ais frequentem ente por falta

de sinceridade, eu sem pre consideraria com o coisa de fato a verdade na boca

de outro, m ais que na m inha. Se cada um de nós observasse de perto os

efeitos e circunstâncias das paixões que o anim am , com o fiz com a que m e

coube com o quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a

im petuosidade e a corrida. Nem sem pre elas nos saltam ao pescoço na

prim eira investida, há am eaças e graus.

Fluctus uti prim coepit cum albescere ponto, Paulatim sese tollit mare, et altius undas

Erigit, inde imo consurgit ad aethera fundo. 520

Assim , quando a torrente com eça a branquear com a prim eira onda, pouco

a pouco o m ar se revolta e levanta suas ondas m ais alto, e logo se ergue

do abism o até os céus.

O j ulgam ento ocupa em m im um a cátedra m agistral, pelo m enos se esforça

cuidadosam ente para isso. Deixa m eus sentim entos seguirem seu curso: tanto

o ódio com o a am izade, e até a que sinto por m im m esm o, sem se alterar nem

se corrom per. Se não consegue m elhorar a seu j eito as outras partes, ao

m enos não se deixa deform ar por elas: faz seu j ogo à parte. O preceito para

que cada um conheça a si m esm o deve ser de grande im portância, posto que

aquele deus da ciência e da luz m andou colocá-lo no frontispício de seu

tem plo, 521 com o que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz tam bém que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem : e

Sócrates a verifica detalhadam ente em Xenofonte. Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é

preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoram os, e é

preciso em purrar um a porta para saber que ela nos está fechada. Donde

nasce essa sutileza platônica de que nem os que sabem têm de inquirir, posto

que sabem , nem os que não sabem , pois para inquirir há que saber o que se

quer inquirir. Assim , nessa ciência de conhecer a si m esm o o fato de cada um

se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o

suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, com o

Sócrates ensina a Eutidem o. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro um a profundidade e um a variedade tão infinitas que m eu aprendizado não tem

outro fruto além de m e fazer sentir quanto m e resta a aprender. À m inha

fraqueza tão frequentem ente reconhecida devo a tendência que tenho à

m odéstia, a obedecer às crenças que m e são prescritas, a um a constante

frieza e m oderação de opiniões, e devo o ódio a essa arrogância im portuna e

com bativa, que acredita e confia totalm ente em si m esm a e é inim iga absoluta

da disciplina e da verdade. Escutai essas pessoas fingindo-se de professores.

As prim eiras idiotices que propõem são no estilo em que se estabelecem as

religiões e as leis. Nihil est turpius quam cognitioni et perceptioni,

assertionem approbationemque praecurrere. 522Nada é m ais vergonhoso do que colocar a asserção e a decisão antes do conhecim ento e da percepção.]

Aristarco dizia que na Antiguidade m al se encontravam sete sábios no m undo,

e que em sua época m al se encontravam sete ignorantes. Não teríam os m ais

razão que ele de dizer isso em nossa época? A afirm ação e a obstinação são

sinais m anifestos de tolice. Este hom em aqui deu com o nariz no chão cem

vezes num só dia: ei-lo levantando a crista, tão decidido e inteiro com o antes.

Dir-se-ia que lhe infundiram desde então um a nova alm a e um entendim ento

vigoroso. E que acontece com ele o que aconteceu com aquele antigo filho da

Terra523 que recuperava nova firm eza e fortalecia-se com sua queda, cui cum tetigere parentem,

Jam defecta vigent renovato robore membra. 524

m al tocaram a Terra-Mãe, seus m em bros enfraquecidos encheram -se do

vigor de um a força renovada.

Será que esse teim oso indócil pensa em retom ar um novo espírito porque retom a um a nova disputa? É por m inha experiência que acuso a ignorância

hum ana, que é, a m eu ver, a lição m ais certa da escola do m undo. Os que não

a querem reconhecer em si m esm os por um exem plo tão fútil com o o m eu, ou

com o o deles, que a reconheçam por Sócrates, o m estre dos m estres. Pois o filósofo Antístenes dizia a seus discípulos: “Vam os, vós e eu, ouvir Sócrates.

Lá serei discípulo j unto convosco”. E afirm ando este dogm a de sua seita

estoica, de que para tornar um a vida plenam ente feliz e sem necessidade de

coisa nenhum a bastava a virtude, acrescentava: “exceto da força de

Sócrates”. Essa atenção que dedico longam ente a m e estudar leva-m e

tam bém a j ulgar os outros razoavelm ente bem : e há poucas coisas de que fale

com m ais felicidade e de m odo m ais j ustificado. Não raro acontece-m e ver e

analisar m ais exatam ente as condições de m eus am igos do que eles m esm os

o fazem . Surpreendi um deles pela pertinência de m inha descrição, e o adverti

sobre ele m esm o. Por ter, desde m inha infância, treinado em m irar m inha vida

na do outro, adquiri um a estudiosa disposição para fazer isso. E quando

penso no assunto, deixo escapar poucas coisas ao m eu redor que contribuem

para tanto: com portam entos, hum ores, discursos. Estudo tudo: o que devo

esquivar, o que devo seguir. Assim , com m eus am igos descubro por seus

com portam entos externos suas tendências internas. Não porém para

classificar essa infinita variedade de ações tão diversas e tão desconexas em

certos gêneros e capítulos, distribuindo claram ente m inhas seções e

distinções em classes e áreas conhecidas,

Sed neque quam multae species, et nomina quae sint,

Est numerus. 525

Quantas espécies elas contam , quais diferentes nom es têm , não

saberíam os enum erar.

Os eruditos falam e anotam suas ideias m ais precisa e m inuciosam ente. Eu,

que só vej o as que a experiência m e inform a, sem ordem , apresento as

m inhas no geral, e tateando. Com o aqui: profiro m inhas sentenças por

elem entos desconexos: é coisa que não se pode dizer de repente e em bloco.

Em alm as com o as nossas, inferiores e correntes, não se encontram

organização e consistência. A sabedoria é um edifício sólido e inteiro, em que

cada peça tem seu lugar e traz sua m arca. Sola sapientia in se tota conversa

est. 526Só a sabedoria é toda inteira voltada para si m esm a.] Deixo aos instruídos, e não sei se o conseguem em coisa tão intrincada, tão m iúda e

fortuita, o cuidado de arrum ar em grupos essa infinita diversidade de

aspectos; e de pôr um fim em nossa inconstância e ordená-la. Acho difícil não

só ligar nossas ações um as às outras, m as acho difícil designar corretam ente

cada um a delas em separado, de acordo com algum a qualidade principal, de

tal form a são am bíguas e de cores diferentes sob luzes diferentes. O que se

observa com o sendo raro em Perseu, rei da Macedônia, de que seu espírito, não se prendendo a nenhum a condição, ia errante por todo tipo de vida, e

m anifestando com portam entos tão inconstantes e vagabundos que nem ele

nem outro sabiam que tipo de hom em era, parece-m e convir m ais ou m enos a

todo m undo. E, acim a de todos, vi outro de sua estatura a quem essa

conclusão se aplicaria ainda m ais apropriadam ente, creio eu: nunca num a

posição m ediana, sem pre se arrebatando de um extrem o a outro, por causas

im previsíveis, nenhum a espécie de atitude sem surpreendente desvio ou recuo, nenhum a faculdade sim ples, tanto assim que o retrato m ais verossím il

que será possível fazer dele um dia m ostrará que fingia e esforçava-se em se

tornar conhecido com o irreconhecível. 527 Precisam os de ouvidos bem fortes para ouvirm os nos j ulgarem francam ente. E porque há poucos que possam

suportá-lo sem sentir um a estocada, os que se arriscam a em preendê-lo

conosco dão-nos um a singular dem onstração de am izade. Pois é am ar

saudavelm ente em preender arriscar-se a ferir e ofender para prestar serviço.

Acho duro j ulgar alguém em quem as m ás qualidades ultrapassam as boas.

Platão prescreve três elem entos para quem quer exam inar a alm a de outro:

conhecim ento, benevolência, ousadia. Perguntaram -m e certa vez em que eu

im aginaria ter sido bom se alguém tivesse pensado em m e em pregar enquanto

eu tinha idade para isso:

Dum melior vires sanguis dabat, aemula necdum

Temporibus geminis canebat sparsa senectus. 528

Quando um sangue m ais vivo tornava-m e vigoroso e a velhice inim iga ainda

não sem eava sua brancura em m inhas duas têm poras.

Em nada, respondi. E desculpo-m e com gosto por não saber fazer algum a

coisa que m e escravize a outro. Mas teria dito um as verdades a m eu am o e

teria controlado seus hábitos se ele quisesse. Não integralm ente, por lições

escolares, que não conheço; e não vej o surgir nenhum a verdadeira m elhora

nos que as conhecem . Mas observando-os passo a passo, em toda ocasião:

e j ulgando-os com um a olhadela, um a um , sim ples e naturalm ente. Fazendo-o

ver com o ele é para a opinião pública: opondo-m e a seus aduladores. Não há

nenhum de nós que poderia ser pior que nossos reis se fosse assim continuam ente corrom pido por essa canalha, com o são. Com o, se nem

m esm o Alexandre, esse grande rei e filósofo, conseguiu defender-se dela? Eu

teria tido bastante lealdade, j ulgam ento e liberdade para isso. Seria um a

função sem nom e, do contrário perderia sua eficácia e sua graça. E é um

papel que não pode pertencer a todos indiferentem ente. Pois a própria

verdade não tem esse privilégio de ser usada a qualquer hora e de qualquer j eito: seu uso, por nobre que sej a, tem suas fronteiras e seus lim ites. Sendo o

m undo com o é, volta e m eia acontece de soltarem a verdade no ouvido do

príncipe, não só sem proveito m as de m odo prej udicial e tam bém inj usto. E

não m e farão crer que um a correta repreensão não possa ser aplicada de

m odo errado: nem que considerações sobre o assunto não devam

frequentem ente ceder às considerações sobre a form a. Gostaria, para essa

função, de um hom em satisfeito com seu destino,

Quod sit, esse velit, nihilque malit, 529

Que ele desej e ser o que é e não queira m ais nada,

e nascido de fortuna m édia. Tanto m ais que, de um lado, poderia tocar viva e

profundam ente o coração de seu senhor, sem tem er com isso o curso de seu

próprio avanço. E, de outro lado, por ser de condição m édia teria

com unicação m ais fácil com todo tipo de pessoas. Gostaria que fosse um

hom em só: pois estender o privilégio dessa liberdade e intim idade a vários

geraria um a irreverência nociva. Sim , e deste eu requereria sobretudo a

fidelidade do silêncio. Não se deve acreditar num rei quando ele se vangloria

de sua coragem ao esperar o encontro com o inim igo para sua própria glória,

se para seu proveito e seu aperfeiçoam ento não consegue suportar a

liberdade das palavras de um am igo, que não têm outro poder além de

aguçar-lhe os ouvidos, estando em suas m ãos o restante do resultado. Ora,

não há nenhum a espécie de hom em que tenha tão grande necessidade quanto

estes de verdadeiras e livres advertências. Enfrentam um a vida pública e têm

de agradar à opinião de tantos espectadores que, com o se costum a

esconder-lhes tudo o que os desvia de seu cam inho, se veem , sem perceber,

confrontados com seus povos que os odeiam e detestam por m otivos que

quase sem pre eles poderiam ter evitado, sem sequer com prom eter seus

prazeres, se tivessem sido avisados e os tivessem corrigido a tem po.

Com um ente seus favoritos cuidam de si m ais que de seu senhor. E para eles

isso é bom , pois na verdade a m aioria das funções da verdadeira am izade

com o soberano são um a dura e perigosa prova. De m aneira que se precisa

não só de m uita afeição e franqueza, m as tam bém de coragem . Enfim , toda

essa m ixórdia que vou rabiscando aqui é apenas um registro dos ensaios de

m inha vida: que é bastante exem plar, no que se refere à saúde do espírito,

por pouco que se tom e a contrapelo seu ensinam ento. Mas no que se refere à

saúde corporal, ninguém pode fornecer experiência m ais útil que eu:

apresento-a pura, de m odo nenhum corrom pida ou alterada pelos artifícios ou

por opiniões. No caso da m edicina, a experiência está realm ente em seu

terreno ali onde a razão lhe deixa todo o espaço. Tibério dizia que quem vivera

vinte anos devia responder pelas coisas que lhe eram nocivas ou salutares e

saber portar-se sem a m edicina. E podia ter aprendido isso com Sócrates,

que, aconselhando a seus discípulos, devotadam ente e com o um estudo prim ordial, o estudo da própria saúde, acrescentava que era difícil que um

hom em inteligente, tom ando cuidado com seus exercícios, sua bebida e sua

com ida, não discernisse m elhor que qualquer m édico o que lhe era bom ou

ruim . A m edicina professa ter sem pre a experiência com o pedra de toque de

seus resultados. Assim , Platão tinha razão ao dizer que para ser um

verdadeiro m édico seria necessário que quem escolhesse essa prática tivesse

passado por todas as doenças que quer curar, e por todos os sintom as e

circunstâncias que teria de j ulgar. Deveriam contrair sífilis se quisessem saber

curá-la. Realm ente, eu confiaria nesse aí. Pois os outros nos guiam com o

aquele que, sentado diante de sua m esa, pinta os m ares, os escolhos e os

portos, e faz passar entre eles, com total segurança, o m odelo de um navio.

Jogai-o na prática e ele não sabe o que fazer. Os m édicos fazem um a

descrição de nossos m ales tal qual um corneteiro urbano que grita que um

cavalo ou um cão se perdeu, com tal pelam e, tal altura, tal orelha: m as

apresentai-o a ele e não o reconhecerá. Por Deus, que a m edicina m e preste

um dia um bom e perceptível auxílio, e verá com o proclam arei de boa-fé,

Tandem efficaci do manus scientiae. 530

Enfim rendo as arm as a um a ciência eficaz.

As disciplinas que prom etem m anter nosso corpo com saúde e a alm a com

saúde prom etem -nos m uito, m as tam bém são as que cum prem m enos o que

prom etem . E em nossa época os que entre nós professam essas artes

m ostram seus efeitos m enos que todos os outros hom ens. Deles pode-se

dizer, no m áxim o, que vendem drogas m edicinais: m as que sej am m édicos, isso não se pode dizer. Já vivi o bastante para fazer um balanço do regim e

que m e conduziu tão longe. Para quem quiser experim entá-lo, fiz a experiência

com o sendo seu escanção. Aqui estão alguns princípios, com o m inha m em ória

os fornecerá. Não tenho um m odo de m e com portar que não fosse variando

segundo as circunstâncias. Mas registro os que vi m ais frequentem ente em

uso, que estiveram m ais presentes em m im até este m om ento. Minha form a

de vida é parecida na doença com o na saúde: m esm a cam a, m esm os

horários, m esm as com idas m e são servidas, e m esm a bebida. A isso não

acrescento absolutam ente nada, a não ser a m oderação do m ais e do m enos,

segundo m inha força e m eu apetite. Minha saúde é m anter sem perturbá-lo

m eu estado costum eiro. Vej o que a doença m e desaloj a por um lado: a

acreditar nos m édicos, hão de m e desviar dela pelo outro lado: e eis-m e fora

de m inha estrada, pelo destino ou pela arte deles. Em nada acredito com

tanta certeza com o nisto: que o uso das coisas a que m e acostum ei há tanto

tem po não poderia m e fazer m al. Cabe ao hábito dar form a à nossa vida, tal

com o lhe agrada; nisso ele pode tudo. É a beberagem de Circe531 que diversifica nossa natureza, com o bem entende. Quantos povos, e a três

passos de nós, consideram ridículo o m edo do sereno, que tão visivelm ente

nos afeta? E nossos barqueiros e nossos cam poneses riem disso. Faça-se

um alem ão dorm ir sobre um colchão e ele cairá doente, assim com o um

italiano sobre plum as e um francês sem cortinado e sem lareira. O estôm ago

de um espanhol não resiste à nossa form a de com er, nem o nosso à de beber

de um suíço. Em Augsburgo um alem ão m e divertiu ao com bater o

desconforto de nossas lareiras com o m esm o argum ento de que nos servim os

habitualm ente para condenar os aquecedores deles. Pois na verdade aquele

calor parado, e depois o odor do m aterial de que são feitos, quando aquecido,

entontecem a m aioria dos que não estão acostum ados: eu, não. Mas,

pensando bem , sendo esse calor igual, constante e geral, sem clarão, sem

fum aça, sem o vento que a abertura de nossas cham inés nos traz, tem de fato

com que se com parar ao nosso. Por que não im itam os a arquitetura rom ana?

Pois dizem que, antigam ente, só se acendia o fogo das casas do lado de fora,

e ao pé destas: daí se aspirava o calor para todo o lar, através dos canos

postos na espessura da parede, os quais iam abraçando os lugares que

deviam ser aquecidos. Vi isso claram ente expresso, não sei onde, em Sêneca.

Aquele alem ão, ouvindo-m e elogiar as vantagens e as belezas de sua cidade,

que de fato o m erece, com eçou a lastim ar-se por m im porque eu devia deixá-

la. E dos prim eiros inconvenientes que m e citou foi o peso na cabeça que m e

trariam as lareiras em outros lugares. Ele ouvira alguém fazer essa queixa e

atribuía-nos esse inconveniente, não podendo, pelo costum e, percebê-lo em

sua casa. Todo calor que vem do fogo enfraquece-m e e pesa-m e. No entanto,

Eveno dizia que o m elhor condim ento da vida era o fogo. Adoto, porém ,

qualquer outro m odo bem diferente de escapar do frio. Receam os o vinho do

fundo do tonel; em Portugal, esse sabor é considerado um a delícia e é a

bebida dos príncipes. Em sum a, cada nação tem vários costum es e usos, que

são não só desconhecidos m as selvagens e surpreendentes para qualquer

outra nação. Que farem os com esse povo que só leva em conta testem unhos

im pressos, que não acredita nos hom ens se não estiverem em um livro, nem na verdade se não for de um a época fidedigna? Dam os dignidade a nossas

tolices quando as im prim im os. Para esse povo tem outro peso dizer: “eu li”, em vez de: “ouvi falar disso”. Mas eu, que não descreio m ais da boca que da

m ão dos hom ens, e que sei que se escreve tão levianam ente com o se fala, e

que estim o este século com o qualquer outro passado, m enciono de bom

grado tanto um am igo m eu quanto Aulo Gélio e Macróbio, e tanto o que vi

com o o que eles escreveram . E assim com o afirm am que a virtude não é

Continuar: parte 2 de 3