Os Ensaios
Sobre a experiência
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
endurece o solo e aí estreita os canais abertos, retendo as chuvas finas,
im pedindo de queim arem o chão o ardor forte dem ais do sol que devora ou
o frio penetrante.
Ogni medaglia ha il suo reverso. [Toda m edalha tem seu reverso.] Eis por que Clitôm aco dizia antigam ente que Carnéades superara os trabalhos de
Hércules por ter arrancado dos hom ens o consentim ento: isto é, conj ectura e
tem eridade ao j ulgar. Essa ideia de Carnéades, tão vigorosa, a m eu ver é
m uito antiga, nasceu contra a im pudência dos que professam o saber e suas
pretensões desm edidas. Puseram Esopo à venda, j unto com dois outros
escravos: o com prador indagou do prim eiro o que ele sabia fazer, e este, para
se valorizar, respondeu “m ontanhas e m ilagres”, pois sabia isso e aquilo: o
segundo respondeu tanto ou m ais: quando foi a vez de Esopo, e que tam bém
lhe perguntaram o que sabia fazer, disse: “Nada, pois estes dois j á disseram
tudo: sabem tudo”. Assim aconteceu na escola da filosofia. O orgulho dos que
atribuíam ao espírito hum ano a capacidade de todas as coisas produziu em
outros, por irritação e em ulação, a opinião de que ele não é capaz de coisa
nenhum a. Uns baseiam na ignorância esses m esm os extrem ism os que os
outros baseiam no conhecim ento. A fim de que ninguém possa negar que o
hom em é im oderado em tudo, e que não tem outro lim ite além da necessidade
e da im possibilidade de ir m ais longe.
Sobre a experiência
Capítulo XIII
O capítulo final de Os ensaios fornece o fruto do julgamento de Montaigne sobre o lugar de nossa humanidade na vida de cada um de nós. Ele o
amarra firmemente ao contexto aristotélico. A frase inicial ecoa a primeira
frase de um dos livros mais famosos de Aristóteles, que diz que não há
desejo mais natural do que o desejo de conhecimento. As últimas palavras
de Os ensaios eram, na primeira edição, “diversidade e discordância”. Oito
anos depois, Montaigne escolhe concluir sua obra com a experiência. Assim,
é tentador ver aqui seu testamento intelectual. Montaigne fala de si mesmo.
Como envelhecer? Como enfrentar a doença e a dor? A morte? Suas
respostas vêm não tanto da leitura dos grandes filósofos, mas do convívio
com as pessoas, da observação do real. A sabedoria já não vem do alto, já
não é ditada pela razão; resulta de observações e ensinamentos acumulados
ano após ano: quanto mais envelhece, mais Montaigne se convence de que
não erra em seguir a natureza e em fugir tanto dos conselhos dos moralistas
como das consultas dos médicos. Apesar da dívida com Aristóteles, não
acredita que a experiência que existe por trás de Metafísica ou Física
substitua sua própria experiência: “Estudo a mim mesmo mais que a outro
assunto. É a minha metafísica, é a minha física”.
Não há desej o m ais natural que o desej o de conhecim ento. Ensaiam os todos os m eios que podem levar-nos a ele. Quando nos falta a razão, em pregam os
a experiência,
Per varios usus artem experientia fecit:
Exemplo monstrante viam,510
A experiência tem por diversas práticas produzido as artes, com o exem plo
m ostrando o cam inho,
que é um m eio m uito m ais fraco e m enos digno. Mas a verdade é coisa tão
grande que não devem os desprezar nenhum interm ediário que nos leve a ela.
A razão tem tantas form as que não sabem os a qual recorrer. Não m enos tem
a experiência. A consequência que querem os tirar da com paração entre os
acontecim entos é pouco segura, visto que eles são sem pre dessem elhantes.
Nessa com paração que fazem os sobre as coisas, nenhum a qualidade é tão
universal quanto sua diversidade e variedade. Os gregos, os latinos e nós
servim o-nos do exem plo dos ovos com o sendo o da m ais perfeita sem elhança.
Entretanto, houve hom ens, e em especial um em Delfos, que reconheciam
sinais de diferença entre os ovos, tanto assim que j am ais confundia um com o
outro. E havendo ali várias galinhas, sabia j ulgar de qual delas era o ovo. A
própria dessem elhança se introduz em nossas obras, nenhum a arte pode
alcançar a sem elhança. Nem Perroset511 nem nenhum outro consegue com tanto cuidado polir e branquear o reverso de suas cartas a ponto de certos
j ogadores não as diferenciarem ao vê-las sim plesm ente passar pelas m ãos de
outro. A sem elhança não torna as coisas tão “unas”, assim com o a diferença
as torna “outras”. A natureza obrigou-se a nada fazer “outro” que não fosse
dessem elhante. Por isso, não m e agrada a opinião daquele512 que pensava frear, pela profusão das leis, a autoridade dos j uízes, dando-lhes m astigados
os pedaços de que precisariam . Ele não percebia que há tanta liberdade e
am plitude na interpretação das leis com o em sua elaboração. E os que
pensam enfraquecer nossos debates e sustá-los ao nos lem brarem as
palavras expressas da Bíblia não podem ser sérios. Tanto m ais que o cam po
que se oferece a nosso espírito para exam inar o pensam ento de outro não é
m enos vasto do que o cam po em que ele expõe o seu. E seria com o se
houvesse m enos anim osidade e virulência em glosar do que em inventar.
Vem os com o aquele hom em se enganava. Pois tem os na França m ais leis do
que todo o resto do m undo j unto; e m ais do que seria necessário para regular
todos os m undos de Epicuro: Ut olim flagitiis, sic nunc legibus
laboramus. 513Com o outrora sofríam os com os crim es, hoj e estam os esm agados pelas leis.] E no entanto deixam os tão bem nossos j uízes
opinarem e decidirem que nunca houve liberdade tão poderosa e tão
licenciosa. O que ganharam nossos legisladores em distinguir 100 m il
categorias e fatos específicos e a eles ligar 100 m il leis? Esse núm ero não
tem a m enor relação com a diversidade infinita das ações hum anas. A
m ultiplicação de nossas invenções não conseguirá igualar a diversidade dos
exem plos. Som em -se a isso m ais cem vezes e ainda assim não será possível
que entre os acontecim entos futuros haj a só um que, em todo esse grande
núm ero de m ilhares de acontecim entos selecionados e repertoriados, possa
se j untar e em parelhar com outro tão exatam ente que não reste entre eles a
m enor particularidade e diferença e que não requeira um j ulgam ento
específico. Há pouca relação entre nossas ações, que estão em perpétua
m utação, e as leis fixas e im óveis. As leis m ais desej áveis são as m ais raras,
m ais sim ples e gerais. E m esm o assim creio que seria m elhor não ter
nenhum a delas do que tê-las em tal núm ero com o as tem os. A natureza
sem pre as elabora bem m elhores que aquelas que elaboram os para nós. A
prova é a idade de ouro pintada pelos poetas: e o estado em que vivem as
nações que não têm outras leis. Eis que algum as nações em pregam em suas causas, com o únicos j uízes, o prim eiro viaj ante que estiver cruzando suas
m ontanhas. E outras elegem , no dia de m ercado, alguém entre eles que
decide na hora todos os seus processos. Que perigo haveria se os m ais
sábios viessem assim decidir os nossos, dependendo dos casos, e depois de
um exam e com os próprios olhos, sem obrigação de se referirem a
precedentes e de criar outros? Para cada pé seu sapato. O rei Fernando,
quando enviou colonos para as Índias, providenciou sabiam ente que não se
levassem especialistas da j urisprudência: tem endo que os processos
proliferassem naquele novo m undo, por se tratar de ciência por natureza
geradora de altercação e divisão, e j ulgando, com o Platão, que prover o país
de j urisconsultos e m édicos é ruim . Por que é que nossa linguagem corrente,
tão côm oda para qualquer outro uso, torna-se obscura e ininteligível nos
contratos e testam entos? E por que quem se expressa tão claram ente em
tudo o que diz e escreve não encontra nenhum a m aneira de fazer declarações
que não caia na dúvida e na contradição? Talvez sej a porque os príncipes
dessa arte, aplicando-se com peculiar atenção na seleção de palavras solenes
e fórm ulas artificiais, tanto pesaram cada sílaba e esquadrinharam tão
m inuciosam ente cada tipo de ligação que ei-los atrapalhados e enrolados na
infinidade de figuras e partes do discurso tão picotadas que desafiam qualquer
regra ou prescrição, ou um a com preensão segura. Confusum est quidquid
usque in pulverem sectum est. 514 Tudo o que é reduzido a pó torna-se confuso.] Quem viu crianças tentando dividir em certo núm ero de segm entos
um a m assa de m ercúrio? Quanto m ais o apertam e am assam , e tentam
subm etê-lo à sua lei, m ais exasperam a liberdade desse nobre m etal: ele
escapa às m anipulações e vai se dividindo e se espalhando além de qualquer
conta. O m esm o acontece aqui, pois subdividindo essas sutilezas ensina-se
aos hom ens aum entarem suas dúvidas: colocam -nos em posição de estender
e diversificar as dificuldades: prolongam -nas, dispersam -nas. Sem eando as
questões e retalhando-as, fazem frutificar e pulular no m undo as incertezas e
as querelas, assim com o a terra torna-se m ais fértil à m edida que é
esm igalhada e profundam ente revolvida. Difficultatem facit doctrina. 515É a ciência que cria a dificuldade.] Duvidávam os de Ulpiano, e duvidam os tam bém
de Bartolo e Baldo. 516 Seria preciso apagar os traços dessa inum erável diversidade de opiniões, e não apossar-se dela e encher a cabeça da
posteridade. Não sei o que dizer disso, m as sentim os por experiência que
tantas interpretações dissipam a verdade e a quebram . Aristóteles escreveu
para ser com preendido; se não conseguiu, m enos conseguirá um m enos hábil,
e um terceiro, m enos que quem traduz o próprio pensam ento. Abrim os nossa
m atéria e, m acerando-a, a expandim os. De um assunto fazem os m il: e
m ultiplicando e subdividindo caím os na infinidade dos átom os de Epicuro.
Nunca dois hom ens j ulgaram da m esm a m aneira a m esm a coisa. E é
im possível ver duas opiniões exatam ente iguais: não só em diversos hom ens
m as no m esm o hom em , em horas diferentes. Norm alm ente encontro do que
duvidar naquilo que o com entário não se dignou tocar. Tropeço m ais
facilm ente em terreno plano, com o certos cavalos que conheço, que m ais
am iúde pisam em falso em cam inho uniform e. Quem negaria que as glosas
aum entam as dúvidas e a ignorância, j á que não se vê nenhum livro, sej a
hum ano, sej a divino, em que os hom ens trabalharam e cuj as dificuldades
tenham sido vencidas por suas interpretações? O centésim o com entarista
transm ite àquele que o sucede um livro m ais espinhoso e m ais escarpado do
que o prim eiro que o com entou. Quando concordarem os entre nós que tal livro
tem suficientes com entários e que de agora em diante não há m ais nada a
dizer? Isso pode ser m ais bem -visto nas chicanas. Confere-se força de lei a
infinitos doutores, a infinitos decretos e a outras tantas interpretações.
Porventura encontram os por isso algum a finalidade em nossa necessidade de
interpretar? Porventura vem os progresso e avanço com respeito à
serenidade? Precisam os de m enos advogados e j uízes do que quando essa
m assa de direito ainda estava em sua prim eira infância? Ao contrário,
obscurecem os e enterram os a inteligência. Não m ais a discernim os senão à
m ercê de tantas cercas e barreiras. Os hom ens desconhecem a doença
natural de seu espírito. Este apenas bisbilhota e procura; e vai
incessantem ente rodopiando, construindo, com o nossos bichos-da-seda, e
em aranhando-se em seu trabalho: nele se sufoca. Mus in pice. 517Um cam undongo no piche.] Pensa notar de longe não sei que aparência de clareza
e de verdade im aginárias: m as enquanto corre para lá, tantas dificuldades lhe
atravessam o cam inho, tantos obstáculos e novas pesquisas, que elas o
extraviam e inebriam . Não é m uito diferente do que acontece com os cães de
Esopo, que, avistando o que parecia um corpo m orto boiando no m ar, e não
conseguindo aproxim ar-se, resolveram beber aquela água, secar a passagem ,
e ali se afogaram . E isso coincide com o que dizia um certo Crates sobre os
escritos de Heráclito, que precisavam de um leitor bom nadador a fim de que a profundidade e o peso de sua doutrina não o tragassem e sufocassem . É só
nossa fraqueza individual que faz que nos contentem os com o que outros ou
nós m esm os encontram os nessa caça ao conhecim ento: um m ais hábil não se
contentará. Há sem pre lugar para um sucessor, e até para nós m esm os, e um
cam inho por outro lugar. Não há fim em nossas investigações. Nosso fim está
no outro m undo. É sinal de estreiteza quando o espírito se satisfaz: ou sinal de
lassidão. Nenhum espírito poderoso se detém em si m esm o. Sem pre se
em penha em ir m ais longe e vai além de suas forças. Seus im pulsos vão além
de seus feitos. Se não avança e não se apressa, e não se força e não se
choca e se revira, só está vivo pela m etade. Suas buscas não têm térm ino
nem form a. Seu alim ento é o espanto, a caça, a incerteza. Com o declarava
Apolo, falando sem pre conosco de form a am bígua, obscura e oblíqua: não
nos saciando m as nos divertindo e nos ocupando. É um m ovim ento irregular,
perpétuo, sem m odelo e sem obj etivo. Suas invenções excitam -se, seguem -se
e engendram -se um a à outra.
Ainsi voit l’on, en un ruisseau coulant,
Sans fin l’une eau apres l’autre roulant,
Et tout de rang, d’un eternel conduict,
L’une suit l’autre, et l’une l’autre fuyt.
Par cette-cy celle-là est poussée,
Et cette-cy par l’autre est devancée:
Tousjours l’eau va dans l’eau, et tousjours est-ce
Mesme ruisseau, et toujours eau diverse.
Assim se vê num riacho correndo, sem fim um a água após outra rolando, e
perpetuam ente num eterno conduto; um a segue a outra, e um a da outra
foge. Por esta a outra é im pelida, e esta pela outra é precedida: a água
sem pre indo na água, e sem pre é o m esm o riacho, e sem pre água
diferente. 518
Há m ais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as
coisas: e m ais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazem os
m ais que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de com entários, m as de autores
há grande escassez. O principal e m ais fam oso saber de nossos séculos não
é saber com preender os sábios? Não é essa a finalidade com um e últim a de
todos os estudos? Nossas opiniões enxertam -se um as nas outras. A prim eira
serve de caule à segunda: a segunda à terceira. Assim escalam os, degrau a
degrau. E resulta que quem sobe m ais alto costum a ter m ais honra do que
m érito. Pois só subiu um bocadinho, sobre os om bros do penúltim o. Quão
frequentem ente, e talvez tolam ente, estendi m eu livro até que ele falasse de
si? Tolam ente, quanto m ais não fosse por esta razão: eu devia m e lem brar do
que digo dos outros que fazem o m esm o; de que essas olhadelas tão
frequentes para suas obras provam que o coração estrem ece de am or por
elas; e de que m esm o as asperezas e o m enosprezo com que as castigam
são apenas m im os e repreensões de um a solicitude m aternal, seguindo
Aristóteles, para quem tanto prezar com o desprezar costum am nascer do
m esm o ar de arrogância. Pois não sei se todos aceitarão m inha desculpa de
que devo ter nisso m ais liberdade que os outros porque, j ustam ente, escrevo
sobre m im , e sobre m eus escritos e sobre m inhas outras ações, j á que m eu tem a se revira sobre si m esm o. Vi na Alem anha que Lutero deixou tantas, e
m esm o m ais, discórdias e desacordos sobre suas opiniões do que ele m esm o
levantou a respeito das Sagradas Escrituras. Nossa contestação é verbal.
Pergunto o que são natureza, prazer, círculo, fideicom isso. A questão é sobre
palavras e é paga na m esm a m oeda. Um a pedra é um corpo: m as se
pressionássem os: “E corpo, o que é?”, “Um a substância”, “E substância, o
que é?”, e assim por diante, encurralaríam os o interlocutor até o fim de seu
dicionário. Troca-se um a palavra por outra e quase sem pre por um a m ais
desconhecida ainda. Sei m elhor o que é “hom em ” do que sei o que é “anim al”,
ou “m ortal”, ou “racional”. Para esclarecer um a dúvida, dão-m e três: é a cabeça da Hidra. Sócrates perguntou a Mênon o que era a virtude: “Há”, disse
Mênon, “virtude de hom em e de m ulher, de m agistrado e de cidadão
particular, de criança e de velho”. “Ah, isso é m uito bom ”, exclam ou Sócrates,
“estávam os em busca de um a virtude e nos trazes um enxam e.” Fazem os um a
pergunta e nos devolvem um a colm eia. Com o nenhum fato e nenhum a form a
se parecem inteiram ente com outros, assim nenhum difere inteiram ente de
outro. Engenhosa m escla da natureza. Se nossas faces não fossem
sem elhantes, não se saberia discernir o hom em do anim al: se não fossem
dessem elhantes, não se saberia discernir um hom em de outro. Todas as
coisas se ligam por certa sem elhança. Todo exem plo é falho. E a relação que
se estabelece a partir da experiência é sem pre falha e im perfeita. Todavia,
j untam os as com parações por algum a ponta. Assim as leis adaptam -se e
assim com binam com cada um de nossos casos por algum a interpretação
escusa, forçada e oblíqua. Já que as leis éticas, que se referem aos deveres
particulares de cada um consigo, são tão difíceis de se estabelecer, com o
vem os que são, não é de espantar que o sej am ainda m ais as leis que
governam tantos indivíduos. Considerai a form a dessa j ustiça que nos rege; é
um a verdadeira prova da im becilidade hum ana, de tal form a há contradição e
erro. O que encontram os em m atéria de favoritism o e de rigor na j ustiça (e
encontram os tanto que não sei se o m eio-term o entre eles é frequente) são
partes doentias e m em bros anorm ais do próprio corpo e da essência da
j ustiça. Cam poneses vêm m e avisar, apressados, que deixaram ainda há
pouco, num a floresta que é m inha, um hom em ferido por cem golpes, que
ainda respira e pediu-lhes água, por piedade, e socorro para ser levantado.
Dizem que não ousaram se aproxim ar e fugiram , tem endo que as pessoas da
j ustiça os pegassem , com o acontece com os que são encontrados perto de
um hom em m orto, e que tivessem de prestar contas desse acidente, para sua
total desgraça, pois não têm com petência nem dinheiro para defender sua
inocência. O que lhes poderia dizer? É certo que esse ato de hum anidade lhes
teria causado aborrecim ento. Quantos inocentes descobrim os que foram
punidos? Digo: sem que tenha sido por culpa dos j uízes? E quantos houve que
não descobrim os? Eis o que aconteceu em m eu tem po: uns hom ens são
condenados à m orte por um hom icídio, com a sentença, se não proferida, ao
m enos concluída e decidida. Nessa altura, os j uízes são avisados pelos
oficiais de um tribunal subalterno, vizinho, de que eles detêm alguns
prisioneiros que confessam eloquentem ente o hom icídio e j ogam sobre os
fatos um a luz indubitável. Deliberam se por isso devem interrom per e diferir a execução da sentença dada contra os prim eiros. Consideram a novidade da
situação e suas consequências para suspender o j ulgam ento; e com o a
condenação está j uridicam ente feita, os j uízes ficam privados de
arrependim ento. Em sum a, aqueles pobres-diabos são sacrificados às form as
da j ustiça. Filipe, ou algum outro, evitou um inconveniente parecido da seguinte
m aneira: condenara um hom em a pagar pesadas m ultas a outro, por um
j ulgam ento proferido. Descobrindo-se a verdade certo tem po depois, viu-se
que ele j ulgara de form a iníqua. De um lado estavam as razões da causa: de
outro lado, as razões dos procedim entos j udiciais. De certo m odo ele satisfez
a am bas, deixando a sentença com o estava e recom pensando com o próprio
dinheiro o prej uízo do condenado. Mas estava lidando com um fato reparável,
ao passo que os m eus foram irreparavelm ente enforcados. Quantas
condenações vi m ais crim inosas que o crim e? Tudo isso m e faz relem brar
estas opiniões dos antigos: que é obrigado a agir m al no varej o quem quiser
agir bem no atacado, e a com eter inj ustiça nas pequenas coisas quem quiser
fazer j ustiça nas grandes; que a j ustiça hum ana é form ada segundo o m odelo
da m edicina, segundo o qual tudo o que é útil é tam bém j usto e honesto; e,
com o afirm am os estoicos, que a própria natureza age contra a j ustiça na
m aioria de suas obras; e, com o afirm am os cirenaicos, que não há nada j usto
em si, e que são os costum es e as leis que fazem a j ustiça; e o que os
teodorianos dizem : que é j usto para um sábio o furto, o sacrilégio e toda
espécie de indecência se ele vir que isso lhe é proveitoso. Não há rem édio.
Estou no m esm o ponto em que Alcibíades, que j am ais com parecerei, se puder, perante um hom em que decida a respeito de m inha cabeça, e que
m inha honra e m inha vida dependam m ais da habilidade e do cuidado de m eu
procurador que de m inha inocência. Eu m e arriscaria perante um a j ustiça que
m e reconhecesse tanto um a boa ação com o um a m á ação, e da qual tivesse
tanto a esperar com o a tem er. Manter-se ileso não é retribuição suficiente
para um hom em que faz m elhor do que não errar. Nossa j ustiça só nos
apresenta um a das m ãos; e ainda assim , a esquerda. Sej a quem for, qualquer
um sai dela com algum a perda. Na China, cuj as leis e artes, sem contato e
conhecim ento dos nossos, superam nossos exem plos em vários terrenos de
excelência, e cuj a história m e ensina quão m ais am plo e m ais diverso é o
m undo, o que nem os antigos nem nós im aginam os, os oficiais designados
pelo príncipe para inspecionar o estado de suas províncias punem aqueles
que com eteram no cargo m alversações m as tam bém rem uneram por m era
liberalidade os que se portaram bem , além da norm a habitual e além da
necessidade de seu dever. As pessoas se apresentam a eles não só para se
defenderem m as para ganhar algum a coisa: não sim plesm ente para serem
pagas, m as para receber dons. Graças a Deus, nenhum j uiz j á falou com igo
com o j uiz por qualquer causa que sej a, m inha ou de terceiros, crim inal ou civil.
Nenhum a prisão m e recebeu, nem sequer para passear ali dentro. A
im aginação torna-m e desagradável até sua visão, m esm o de fora. Tenho
tam anha queda pela liberdade que se alguém m e proibisse o acesso a algum
canto das Índias eu viveria de certa form a m enos à vontade. E enquanto
encontrar terra ou céu aberto em outra parte, não apodrecerei em lugar onde precise m e esconder. Meu Deus, com o suportaria m al a condição em que vej o
tantas pessoas que, por terem questionado nossas leis, vivem cravadas num
canto deste reino, privadas de entrada nas cidades principais e nas cortes e
do uso das vias públicas. Se essas leis a que sirvo m e am eaçassem som ente
a ponta do dedo, eu iria de im ediato procurar outras, onde quer que fosse.
Toda m inha pequena sabedoria, nestas guerras civis em que estam os, é
aplicada para que elas não interrom pam m inha liberdade de ir e vir. Ora, as
leis m antêm -se em vigor não porque são j ustas m as porque são leis. É o
fundam ento m ístico de sua autoridade: não têm outro. O que m uito lhes serve.
É frequente que sej am feitas pelos tolos. Mais frequentem ente por pessoas
que, em seu ódio à igualdade, têm falta de equidade. Mas sem pre por
hom ens, autores vãos e incertos. Não há nada tão grosseira e am plam ente,
nem tão correntem ente falível com o as leis. Quem lhes obedece porque são
j ustas não lhes obedece j ustam ente pelo que deveria. As nossas francesas,
por sua im perfeição e deform idade, auxiliam de certa form a a desordem que
vem os em sua aplicação e a corrupção que vem os em sua execução. A
autoridade delas é tão confusa e inconsistente que, de certo m odo, desculpa
tanto a desobediência com o o vício de interpretação, de adm inistração e de
observância. Portanto, sej a qual for o fruto que podem os tirar da experiência,
o que tirarm os dos exem plos estrangeiros m al servirá para nossas instituições
se não tirarm os proveito da experiência que tem os de nós m esm os, que nos é
m ais fam iliar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisam os. Estudo
a m im m esm o m ais que a outro assunto. É a m inha m etafísica, é a m inha física.
Qua Deus hanc mundi temperet arte domum,
Qua venit exoriens, qua defecit, unde coactis
Cornibus in plenum menstrua luna redit:
Unde salo superant venti, quid flamine captet
Eurus, et in nubes unde perennis aqua?
Sit ventura dies mundi quae subruat arces.
Quaerite quos agitat mundi labor. 519
Por qual arte Deus governa nossa m orada, o m undo; de onde vem a lua
quando se levanta, onde ela desaparece; e de onde, reunindo todo m ês
seus crescentes, torna a ser cheia; de onde vêm os ventos que com andam
o m ar com o que o Eurus leva com seu sopro; e de onde vem que, sem
cessar, a água retorna às nuvens? quando vier o dia que derrubar as
alturas do m undo, procurai, vós que vos atorm entais com os labores do
m undo.
Nesse universo, deixo-m e m anej ar com ignorância e negligência pela lei geral
do m undo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não
pode fazê-la m udar de cam inho. Ela não se diversificará para m im : é loucura
esperá-lo. E m aior loucura sentir pesar por isso, j á que ela é necessariam ente
a m esm a, pública e com um . A bondade e a capacidade do governante devem
nos dispensar por com pleto e sem reserva da preocupação com seu governo.
As inquirições e contem plações filosóficas servem apenas de alim ento à nossa
curiosidade. Os filósofos, com m uita razão, rem etem -nos às regras da natureza: m as elas pouco se im portam com tão sublim e conhecim ento. Eles as
falsificam e apresentam -nos da natureza um rosto pintado, colorido dem ais e
sofisticado dem ais: donde nascem retratos tão diversos de um obj eto tão
uniform e. Assim com o a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem
sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e
pom posa com o a que os filósofos inventam : m as afável, fácil, sossegada e
salutar. E a quem tem a felicidade de saber em pregá-la sim ples e
ordenadam ente, isto é, naturalm ente, ela faz m uito bem o que outra diz que
faz. Entregar-se o m ais sim plesm ente à natureza é entregar-se o m ais
sabiam ente. Oh! com o a ignorância e a despreocupação são um suave, m acio
e saudável travesseiro para repousar um a cabeça bem form ada. Eu preferiria
com preender bem a m im m esm o a com preender Cícero. Se eu fosse um bom
aluno, na experiência que tenho de m im encontraria o suficiente para m e tornar
sábio. Quem conserva na m em ória o excesso de sua cólera passada, e até
onde essa febre o arrastou, vê a feiura dessa paixão m elhor que em
Aristóteles e nutre por ela um ódio m ais j usto. Quem se lem bra dos m ales que
sofreu, dos que o am eaçaram , das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar
de um estado a outro, prepara-se com isso para as m utações futuras e para o
reconhecim ento de sua condição. A vida de César não é m ais exem plo para
nós do que a nossa. Tanto de um im perador com o de um hom em do povo, é
sem pre um a vida, à qual todos os acontecim entos hum anos dizem respeito.
Nós nos dizem os tudo de que m ais precisam os: basta escutarm os. Quem se
lem bra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio j ulgam ento não é um tolo se não adotar para sem pre a desconfiança? Quando vej o que
m e convenci, pela razão de outro, de um a ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ele m e disse de novo, nem é de grande proveito a m inha
ignorância especial, m as em geral aprendo m inha debilidade e a traição de
m eu entendim ento, e com isso posso m elhorar todo o conj unto. Com todos os
m eus outros erros faço o m esm o: e sinto nessa regra grande utilidade para a
vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro indivividual com o um a
pedra em que tropecei. Aprendo a tem er m eu com portam ento em qualquer
lugar e trato de m elhorá-lo. Saber que dissem os ou fizem os um a tolice é
apenas isso; precisam os aprender que não passam os de um tolo,
ensinam ento bem m ais am plo e im portante. Os passos em falso que m inha
m em ória m e causou tão am iúde, quando j ustam ente m e parecia m ais segura
de si, não foram perdidos em vão. Por m ais que agora ela m e j ure e m e
garanta, eu balanço a cabeça: a prim eira obj eção que fizerem a seu
testem unho deixa-m e em suspenso. E nela não ousaria m e fiar em coisa de
peso, nem avalizá-la a respeito de outrem . E se não fosse porque o que faço
por falta de m em ória os outros o fazem ainda m ais frequentem ente por falta
de sinceridade, eu sem pre consideraria com o coisa de fato a verdade na boca
de outro, m ais que na m inha. Se cada um de nós observasse de perto os
efeitos e circunstâncias das paixões que o anim am , com o fiz com a que m e
coube com o quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a
im petuosidade e a corrida. Nem sem pre elas nos saltam ao pescoço na
prim eira investida, há am eaças e graus.
Fluctus uti prim coepit cum albescere ponto, Paulatim sese tollit mare, et altius undas
Erigit, inde imo consurgit ad aethera fundo. 520
Assim , quando a torrente com eça a branquear com a prim eira onda, pouco
a pouco o m ar se revolta e levanta suas ondas m ais alto, e logo se ergue
do abism o até os céus.
O j ulgam ento ocupa em m im um a cátedra m agistral, pelo m enos se esforça
cuidadosam ente para isso. Deixa m eus sentim entos seguirem seu curso: tanto
o ódio com o a am izade, e até a que sinto por m im m esm o, sem se alterar nem
se corrom per. Se não consegue m elhorar a seu j eito as outras partes, ao
m enos não se deixa deform ar por elas: faz seu j ogo à parte. O preceito para
que cada um conheça a si m esm o deve ser de grande im portância, posto que
aquele deus da ciência e da luz m andou colocá-lo no frontispício de seu
tem plo, 521 com o que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz tam bém que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem : e
Sócrates a verifica detalhadam ente em Xenofonte. Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é
preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoram os, e é
preciso em purrar um a porta para saber que ela nos está fechada. Donde
nasce essa sutileza platônica de que nem os que sabem têm de inquirir, posto
que sabem , nem os que não sabem , pois para inquirir há que saber o que se
quer inquirir. Assim , nessa ciência de conhecer a si m esm o o fato de cada um
se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o
suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, com o
Sócrates ensina a Eutidem o. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro um a profundidade e um a variedade tão infinitas que m eu aprendizado não tem
outro fruto além de m e fazer sentir quanto m e resta a aprender. À m inha
fraqueza tão frequentem ente reconhecida devo a tendência que tenho à
m odéstia, a obedecer às crenças que m e são prescritas, a um a constante
frieza e m oderação de opiniões, e devo o ódio a essa arrogância im portuna e
com bativa, que acredita e confia totalm ente em si m esm a e é inim iga absoluta
da disciplina e da verdade. Escutai essas pessoas fingindo-se de professores.
As prim eiras idiotices que propõem são no estilo em que se estabelecem as
religiões e as leis. Nihil est turpius quam cognitioni et perceptioni,
assertionem approbationemque praecurrere. 522Nada é m ais vergonhoso do que colocar a asserção e a decisão antes do conhecim ento e da percepção.]
Aristarco dizia que na Antiguidade m al se encontravam sete sábios no m undo,
e que em sua época m al se encontravam sete ignorantes. Não teríam os m ais
razão que ele de dizer isso em nossa época? A afirm ação e a obstinação são
sinais m anifestos de tolice. Este hom em aqui deu com o nariz no chão cem
vezes num só dia: ei-lo levantando a crista, tão decidido e inteiro com o antes.
Dir-se-ia que lhe infundiram desde então um a nova alm a e um entendim ento
vigoroso. E que acontece com ele o que aconteceu com aquele antigo filho da
Terra523 que recuperava nova firm eza e fortalecia-se com sua queda, cui cum tetigere parentem,
Jam defecta vigent renovato robore membra. 524
m al tocaram a Terra-Mãe, seus m em bros enfraquecidos encheram -se do
vigor de um a força renovada.
Será que esse teim oso indócil pensa em retom ar um novo espírito porque retom a um a nova disputa? É por m inha experiência que acuso a ignorância
hum ana, que é, a m eu ver, a lição m ais certa da escola do m undo. Os que não
a querem reconhecer em si m esm os por um exem plo tão fútil com o o m eu, ou
com o o deles, que a reconheçam por Sócrates, o m estre dos m estres. Pois o filósofo Antístenes dizia a seus discípulos: “Vam os, vós e eu, ouvir Sócrates.
Lá serei discípulo j unto convosco”. E afirm ando este dogm a de sua seita
estoica, de que para tornar um a vida plenam ente feliz e sem necessidade de
coisa nenhum a bastava a virtude, acrescentava: “exceto da força de
Sócrates”. Essa atenção que dedico longam ente a m e estudar leva-m e
tam bém a j ulgar os outros razoavelm ente bem : e há poucas coisas de que fale
com m ais felicidade e de m odo m ais j ustificado. Não raro acontece-m e ver e
analisar m ais exatam ente as condições de m eus am igos do que eles m esm os
o fazem . Surpreendi um deles pela pertinência de m inha descrição, e o adverti
sobre ele m esm o. Por ter, desde m inha infância, treinado em m irar m inha vida
na do outro, adquiri um a estudiosa disposição para fazer isso. E quando
penso no assunto, deixo escapar poucas coisas ao m eu redor que contribuem
para tanto: com portam entos, hum ores, discursos. Estudo tudo: o que devo
esquivar, o que devo seguir. Assim , com m eus am igos descubro por seus
com portam entos externos suas tendências internas. Não porém para
classificar essa infinita variedade de ações tão diversas e tão desconexas em
certos gêneros e capítulos, distribuindo claram ente m inhas seções e
distinções em classes e áreas conhecidas,
Sed neque quam multae species, et nomina quae sint,
Est numerus. 525
Quantas espécies elas contam , quais diferentes nom es têm , não
saberíam os enum erar.
Os eruditos falam e anotam suas ideias m ais precisa e m inuciosam ente. Eu,
que só vej o as que a experiência m e inform a, sem ordem , apresento as
m inhas no geral, e tateando. Com o aqui: profiro m inhas sentenças por
elem entos desconexos: é coisa que não se pode dizer de repente e em bloco.
Em alm as com o as nossas, inferiores e correntes, não se encontram
organização e consistência. A sabedoria é um edifício sólido e inteiro, em que
cada peça tem seu lugar e traz sua m arca. Sola sapientia in se tota conversa
est. 526Só a sabedoria é toda inteira voltada para si m esm a.] Deixo aos instruídos, e não sei se o conseguem em coisa tão intrincada, tão m iúda e
fortuita, o cuidado de arrum ar em grupos essa infinita diversidade de
aspectos; e de pôr um fim em nossa inconstância e ordená-la. Acho difícil não
só ligar nossas ações um as às outras, m as acho difícil designar corretam ente
cada um a delas em separado, de acordo com algum a qualidade principal, de
tal form a são am bíguas e de cores diferentes sob luzes diferentes. O que se
observa com o sendo raro em Perseu, rei da Macedônia, de que seu espírito, não se prendendo a nenhum a condição, ia errante por todo tipo de vida, e
m anifestando com portam entos tão inconstantes e vagabundos que nem ele
nem outro sabiam que tipo de hom em era, parece-m e convir m ais ou m enos a
todo m undo. E, acim a de todos, vi outro de sua estatura a quem essa
conclusão se aplicaria ainda m ais apropriadam ente, creio eu: nunca num a
posição m ediana, sem pre se arrebatando de um extrem o a outro, por causas
im previsíveis, nenhum a espécie de atitude sem surpreendente desvio ou recuo, nenhum a faculdade sim ples, tanto assim que o retrato m ais verossím il
que será possível fazer dele um dia m ostrará que fingia e esforçava-se em se
tornar conhecido com o irreconhecível. 527 Precisam os de ouvidos bem fortes para ouvirm os nos j ulgarem francam ente. E porque há poucos que possam
suportá-lo sem sentir um a estocada, os que se arriscam a em preendê-lo
conosco dão-nos um a singular dem onstração de am izade. Pois é am ar
saudavelm ente em preender arriscar-se a ferir e ofender para prestar serviço.
Acho duro j ulgar alguém em quem as m ás qualidades ultrapassam as boas.
Platão prescreve três elem entos para quem quer exam inar a alm a de outro:
conhecim ento, benevolência, ousadia. Perguntaram -m e certa vez em que eu
im aginaria ter sido bom se alguém tivesse pensado em m e em pregar enquanto
eu tinha idade para isso:
Dum melior vires sanguis dabat, aemula necdum
Temporibus geminis canebat sparsa senectus. 528
Quando um sangue m ais vivo tornava-m e vigoroso e a velhice inim iga ainda
não sem eava sua brancura em m inhas duas têm poras.
Em nada, respondi. E desculpo-m e com gosto por não saber fazer algum a
coisa que m e escravize a outro. Mas teria dito um as verdades a m eu am o e
teria controlado seus hábitos se ele quisesse. Não integralm ente, por lições
escolares, que não conheço; e não vej o surgir nenhum a verdadeira m elhora
nos que as conhecem . Mas observando-os passo a passo, em toda ocasião:
e j ulgando-os com um a olhadela, um a um , sim ples e naturalm ente. Fazendo-o
ver com o ele é para a opinião pública: opondo-m e a seus aduladores. Não há
nenhum de nós que poderia ser pior que nossos reis se fosse assim continuam ente corrom pido por essa canalha, com o são. Com o, se nem
m esm o Alexandre, esse grande rei e filósofo, conseguiu defender-se dela? Eu
teria tido bastante lealdade, j ulgam ento e liberdade para isso. Seria um a
função sem nom e, do contrário perderia sua eficácia e sua graça. E é um
papel que não pode pertencer a todos indiferentem ente. Pois a própria
verdade não tem esse privilégio de ser usada a qualquer hora e de qualquer j eito: seu uso, por nobre que sej a, tem suas fronteiras e seus lim ites. Sendo o
m undo com o é, volta e m eia acontece de soltarem a verdade no ouvido do
príncipe, não só sem proveito m as de m odo prej udicial e tam bém inj usto. E
não m e farão crer que um a correta repreensão não possa ser aplicada de
m odo errado: nem que considerações sobre o assunto não devam
frequentem ente ceder às considerações sobre a form a. Gostaria, para essa
função, de um hom em satisfeito com seu destino,
Quod sit, esse velit, nihilque malit, 529
Que ele desej e ser o que é e não queira m ais nada,
e nascido de fortuna m édia. Tanto m ais que, de um lado, poderia tocar viva e
profundam ente o coração de seu senhor, sem tem er com isso o curso de seu
próprio avanço. E, de outro lado, por ser de condição m édia teria
com unicação m ais fácil com todo tipo de pessoas. Gostaria que fosse um
hom em só: pois estender o privilégio dessa liberdade e intim idade a vários
geraria um a irreverência nociva. Sim , e deste eu requereria sobretudo a
fidelidade do silêncio. Não se deve acreditar num rei quando ele se vangloria
de sua coragem ao esperar o encontro com o inim igo para sua própria glória,
se para seu proveito e seu aperfeiçoam ento não consegue suportar a
liberdade das palavras de um am igo, que não têm outro poder além de
aguçar-lhe os ouvidos, estando em suas m ãos o restante do resultado. Ora,
não há nenhum a espécie de hom em que tenha tão grande necessidade quanto
estes de verdadeiras e livres advertências. Enfrentam um a vida pública e têm
de agradar à opinião de tantos espectadores que, com o se costum a
esconder-lhes tudo o que os desvia de seu cam inho, se veem , sem perceber,
confrontados com seus povos que os odeiam e detestam por m otivos que
quase sem pre eles poderiam ter evitado, sem sequer com prom eter seus
prazeres, se tivessem sido avisados e os tivessem corrigido a tem po.
Com um ente seus favoritos cuidam de si m ais que de seu senhor. E para eles
isso é bom , pois na verdade a m aioria das funções da verdadeira am izade
com o soberano são um a dura e perigosa prova. De m aneira que se precisa
não só de m uita afeição e franqueza, m as tam bém de coragem . Enfim , toda
essa m ixórdia que vou rabiscando aqui é apenas um registro dos ensaios de
m inha vida: que é bastante exem plar, no que se refere à saúde do espírito,
por pouco que se tom e a contrapelo seu ensinam ento. Mas no que se refere à
saúde corporal, ninguém pode fornecer experiência m ais útil que eu:
apresento-a pura, de m odo nenhum corrom pida ou alterada pelos artifícios ou
por opiniões. No caso da m edicina, a experiência está realm ente em seu
terreno ali onde a razão lhe deixa todo o espaço. Tibério dizia que quem vivera
vinte anos devia responder pelas coisas que lhe eram nocivas ou salutares e
saber portar-se sem a m edicina. E podia ter aprendido isso com Sócrates,
que, aconselhando a seus discípulos, devotadam ente e com o um estudo prim ordial, o estudo da própria saúde, acrescentava que era difícil que um
hom em inteligente, tom ando cuidado com seus exercícios, sua bebida e sua
com ida, não discernisse m elhor que qualquer m édico o que lhe era bom ou
ruim . A m edicina professa ter sem pre a experiência com o pedra de toque de
seus resultados. Assim , Platão tinha razão ao dizer que para ser um
verdadeiro m édico seria necessário que quem escolhesse essa prática tivesse
passado por todas as doenças que quer curar, e por todos os sintom as e
circunstâncias que teria de j ulgar. Deveriam contrair sífilis se quisessem saber
curá-la. Realm ente, eu confiaria nesse aí. Pois os outros nos guiam com o
aquele que, sentado diante de sua m esa, pinta os m ares, os escolhos e os
portos, e faz passar entre eles, com total segurança, o m odelo de um navio.
Jogai-o na prática e ele não sabe o que fazer. Os m édicos fazem um a
descrição de nossos m ales tal qual um corneteiro urbano que grita que um
cavalo ou um cão se perdeu, com tal pelam e, tal altura, tal orelha: m as
apresentai-o a ele e não o reconhecerá. Por Deus, que a m edicina m e preste
um dia um bom e perceptível auxílio, e verá com o proclam arei de boa-fé,
Tandem efficaci do manus scientiae. 530
Enfim rendo as arm as a um a ciência eficaz.
As disciplinas que prom etem m anter nosso corpo com saúde e a alm a com
saúde prom etem -nos m uito, m as tam bém são as que cum prem m enos o que
prom etem . E em nossa época os que entre nós professam essas artes
m ostram seus efeitos m enos que todos os outros hom ens. Deles pode-se
dizer, no m áxim o, que vendem drogas m edicinais: m as que sej am m édicos, isso não se pode dizer. Já vivi o bastante para fazer um balanço do regim e
que m e conduziu tão longe. Para quem quiser experim entá-lo, fiz a experiência
com o sendo seu escanção. Aqui estão alguns princípios, com o m inha m em ória
os fornecerá. Não tenho um m odo de m e com portar que não fosse variando
segundo as circunstâncias. Mas registro os que vi m ais frequentem ente em
uso, que estiveram m ais presentes em m im até este m om ento. Minha form a
de vida é parecida na doença com o na saúde: m esm a cam a, m esm os
horários, m esm as com idas m e são servidas, e m esm a bebida. A isso não
acrescento absolutam ente nada, a não ser a m oderação do m ais e do m enos,
segundo m inha força e m eu apetite. Minha saúde é m anter sem perturbá-lo
m eu estado costum eiro. Vej o que a doença m e desaloj a por um lado: a
acreditar nos m édicos, hão de m e desviar dela pelo outro lado: e eis-m e fora
de m inha estrada, pelo destino ou pela arte deles. Em nada acredito com
tanta certeza com o nisto: que o uso das coisas a que m e acostum ei há tanto
tem po não poderia m e fazer m al. Cabe ao hábito dar form a à nossa vida, tal
com o lhe agrada; nisso ele pode tudo. É a beberagem de Circe531 que diversifica nossa natureza, com o bem entende. Quantos povos, e a três
passos de nós, consideram ridículo o m edo do sereno, que tão visivelm ente
nos afeta? E nossos barqueiros e nossos cam poneses riem disso. Faça-se
um alem ão dorm ir sobre um colchão e ele cairá doente, assim com o um
italiano sobre plum as e um francês sem cortinado e sem lareira. O estôm ago
de um espanhol não resiste à nossa form a de com er, nem o nosso à de beber
de um suíço. Em Augsburgo um alem ão m e divertiu ao com bater o
desconforto de nossas lareiras com o m esm o argum ento de que nos servim os
habitualm ente para condenar os aquecedores deles. Pois na verdade aquele
calor parado, e depois o odor do m aterial de que são feitos, quando aquecido,
entontecem a m aioria dos que não estão acostum ados: eu, não. Mas,
pensando bem , sendo esse calor igual, constante e geral, sem clarão, sem
fum aça, sem o vento que a abertura de nossas cham inés nos traz, tem de fato
com que se com parar ao nosso. Por que não im itam os a arquitetura rom ana?
Pois dizem que, antigam ente, só se acendia o fogo das casas do lado de fora,
e ao pé destas: daí se aspirava o calor para todo o lar, através dos canos
postos na espessura da parede, os quais iam abraçando os lugares que
deviam ser aquecidos. Vi isso claram ente expresso, não sei onde, em Sêneca.
Aquele alem ão, ouvindo-m e elogiar as vantagens e as belezas de sua cidade,
que de fato o m erece, com eçou a lastim ar-se por m im porque eu devia deixá-
la. E dos prim eiros inconvenientes que m e citou foi o peso na cabeça que m e
trariam as lareiras em outros lugares. Ele ouvira alguém fazer essa queixa e
atribuía-nos esse inconveniente, não podendo, pelo costum e, percebê-lo em
sua casa. Todo calor que vem do fogo enfraquece-m e e pesa-m e. No entanto,
Eveno dizia que o m elhor condim ento da vida era o fogo. Adoto, porém ,
qualquer outro m odo bem diferente de escapar do frio. Receam os o vinho do
fundo do tonel; em Portugal, esse sabor é considerado um a delícia e é a
bebida dos príncipes. Em sum a, cada nação tem vários costum es e usos, que
são não só desconhecidos m as selvagens e surpreendentes para qualquer
outra nação. Que farem os com esse povo que só leva em conta testem unhos
im pressos, que não acredita nos hom ens se não estiverem em um livro, nem na verdade se não for de um a época fidedigna? Dam os dignidade a nossas
tolices quando as im prim im os. Para esse povo tem outro peso dizer: “eu li”, em vez de: “ouvi falar disso”. Mas eu, que não descreio m ais da boca que da
m ão dos hom ens, e que sei que se escreve tão levianam ente com o se fala, e
que estim o este século com o qualquer outro passado, m enciono de bom
grado tanto um am igo m eu quanto Aulo Gélio e Macróbio, e tanto o que vi
com o o que eles escreveram . E assim com o afirm am que a virtude não é