Os Ensaios
Ao Leitor
em um terço em relação às precedentes im pressões
Em Paris,
Abel L’Angelier, no prim eiro pilar
da grande sala do Palácio
MDXVCV
Com privilégio
Ao Leitor
Aqui está um livro de boa-fé, Leitor. Ele te adverte, desde o início, que não m e
propus outro fim além do dom éstico e privado. Nele não tive nenhum a
consideração por servir-te nem por m inha glória: m inhas forças não são
capazes de tal desígnio. Dediquei-o ao uso particular de m eus parentes e
am igos, a fim de que, tendo-m e perdido (o que breve terão de fazer), possam
aqui encontrar alguns traços de m inhas atitudes e hum ores, e que por esse
m eio nutram , m ais com pleto e m ais vivo, o conhecim ento que têm de m im . Se
fosse para buscar os favores do m undo, teria m e enfeitado de belezas
em prestadas. Quero que m e vej am aqui em m eu m odo sim ples, natural e
corrente, sem pose nem artifício: pois é a m im que retrato. Meus defeitos,
m inhas im perfeições e m inha form a natural de ser hão de se ler ao vivo, tanto
quanto a decência pública m e perm itiu. Pois se eu estivesse entre essas
nações que se diz ainda viverem sob a doce liberdade das leis prim itivas da
natureza, asseguro-te que teria com m uito gosto m e pintado por inteiro e
totalm ente nu. Assim , Leitor, sou eu m esm o a m atéria de m eu livro: não é razão para que em pregues teu vagar em assunto tão frívolo e vão. Portanto,