Os Ensaios
Sobre a consciência
com m edida e proporção. Platão argum enta assim que a faculdade de
profetizar está “acim a de nós”, que precisam os estar “fora de nós” para atingi-
la: nossa prudência deve estar ofuscada pelo sono ou por algum a doença, ou
tirada de seu lugar por um êxtase celeste.
Sobre a consciência
Capítulo V
Originalmente, “consciência” queria dizer “conivência”. A consciência no
sentido de nossa percepção individual do certo e do errado, ou de nossa
própria culpa ou retidão, fascinava Montaigne. Tornou-se uma de suas
preocupações vitais durante as guerras de religião, com suas crueldades,
acusações falsas e uso da tortura dos prisioneiros. Uma fonte maior do
capítulo é Santo Agostinho e um comentário de Juan Luis Vives à edição de
Cidade de Deus. O ensaio não se limita a repetir a lição do historiador grego
Plutarco sobre a consciência; ao contrário, sublinha sua ambiguidade e
evidencia o papel da fortuna nas manifestações da verdade. Já na edição
original Montaigne abriu o capítulo com uma história passada durante as
guerras de religião, e o concluiu com uma peroração contra o absurdo da
prática judiciária da tortura. Na edição póstuma, essa argumentação torna-se
um verdadeiro requisitório, pois Montaigne mostra a contradição jurídica da
tortura, a um só tempo método de investigação e castigo (“condenação
investigatória”). A condenação da tortura será retomada em outros capítulos.
Viaj ando um dia, durante nossas guerras civis, m eu irm ão, senhor de la
Brousse, e eu encontram os um fidalgo de boa aparência: era do partido contrário ao nosso m as eu nada sabia pois ele fingia diferente; e o pior dessas
guerras é que as cartas estão tão em baralhadas, vosso inim igo não se
distinguindo de vós por nenhum sinal aparente, nem de linguagem , nem de
porte, e tendo sido educado sob as m esm as leis e costum es, e o m esm o
clim a, que é difícil evitar a confusão e a desordem . Isso m e fazia tem er
encontrar nossas próprias tropas em lugar onde eu não fosse conhecido e ter
dificuldade em ser reconhecido por m eu nom e, e talvez esperar pelo pior.
Com o m e acontecera outrora, pois num equívoco desses perdi hom ens e
cavalos e m ataram -m e m iseravelm ente, entre outros, um paj em , fidalgo
italiano, que eu educava com cuidado, e com ele se apagou um a linda infância
cheia de grandes esperanças. Mas aquele ali m anifestava um pavor tão
alucinante, e eu o via quase m orto a cada encontro com hom ens a cavalo e a
cada passagem pelas cidades que eram do partido do rei, que por fim
adivinhei que eram alarm es que sua consciência lhe dava. Esse pobre hom em
pensava que, através de sua m áscara e das cruzes de seu sobretudo, iriam
ler até em seu coração suas intenções secretas. De tal form a é m aravilhoso o
trabalho da consciência: ela nos faz trair, acusar e com bater a nós m esm os,
e, na ausência de testem unha alheia, nos denuncia contra nós m esm os,
Occultum quatiens animo tortore flagellum. 246
Com um a alm a de carrasco, batendo-nos com um chicote invisível.
Esta história seguinte está na boca das crianças. O peoniano Besso,
repreendido por ter, todo alegre, derrubado um ninho de pardais e os m atado,
dizia estar certo porque aqueles passarinhos não paravam de acusá-lo falsam ente do assassínio do próprio pai. Até então esse parricídio fora
ocultado e ignorado, m as as fúrias vingadoras da consciência o fizeram ser
revelado por aquele m esm o que devia ser punido. Hesíodo corrige assim o
dito de Platão, para quem o castigo segue de bem perto o pecado, pois diz
que ele nasce no m esm o instante e j unto com o pecado. Esperar pelo castigo é sofrê-lo; m erecê-lo é esperar por ele. A m aldade fabrica torm entos contra si
m esm a.
Malum consilium consultori pessimum, 247
Um m au plano se revela ainda pior para seu próprio autor,
assim com o a vespa pica e m achuca o outro, porém m ais a si m esm a, pois ali
perde seu ferrão e sua força para sem pre;
vitasque in vulnere ponunt. 248
e elas deixam sua vida na ferida.
As cantáridas têm em si um a secreção que serve de antídoto a seu próprio
veneno, por um a oposição m útua da natureza. Assim , à m edida que tom am os
prazer no vício, gera-se um desprazer contrário na consciência, que nos
atorm enta, velando ou dorm indo, com várias ideias dolorosas,
Quippe ubi se multi per somnia saepe loquentes
Aut morbo delirantes procaxe ferantur,
Et celata diu in medium peccata dedisse. 249
Conta-se, de fato, que m uitos, falando em seus sonhos ou delirando em
suas febres, acusaram a si m esm os e revelaram segredos m uito tem po
escondidos.
Apolodoro sonhava que se via sendo esfolado pelos citas e, depois, sendo cozido dentro de um caldeirão, e que seu coração dizia, m urm urando: “Sou a
causa de todos os teus m ales”. Nenhum esconderij o serve aos m aus, dizia
Epicuro, porque eles não podem ter certeza de que estão escondidos, j á que
a consciência os revela a si m esm os,
prima est haec ultio, quod se
Judice nemo nocens absoluitur. 250
não conseguir absolver-se em seu foro íntim o é a prim eira punição do
culpado.
Assim com o nos enche de tem or, ela tam bém nos enche de segurança e
confiança. E posso dizer ter andado, em várias ocasiões arriscadas, com um
passo bem m ais firm e por ter íntim a convicção de m inha vontade e inocência
de m eus desígnios.
Conscia mens ut cuique sua est, ita concipit intra
Pectora pro facto, spemque metumque suo. 251
Cada um , segundo sua consciência, concebe em si m esm o esperança ou
tem or pelo que com eteu.
Há m il exem plos: bastará citar três do m esm o personagem . Cipião, sendo um
dia acusado, diante do povo rom ano, de um a falta im portante, em vez de se
desculpar ou adular seus j uízes disse: “Bem vos ficará querer j ulgar a cabeça
daquele por m eio de quem tendes a autoridade de j ulgar a todo m undo”. E
outra vez, com o única resposta às im putações que lhe fazia um tribuno do
povo, em vez de defender sua causa disse: “Vam os, m eus cidadãos, vam os
dar graças aos deuses pela vitória que m e concederam contra os cartagineses num dia parecido com este”. E pondo-se a andar na frente rum o
ao tem plo, eis que toda a assem bleia, e até seu acusador, o seguiu. Depois
foi quando Petílio, instigado por Catão, foi a Cipião pedir contas do dinheiro
por ele m anipulado na província de Antióquia. Cipião fora ao Senado com esse
obj etivo; m ostrou-lhe o livro-razão que estava sob sua toga e disse que aquele
livro continha exatam ente a receita e a despesa; m as quando lhe pediram que
o entregasse ao cartório, ele recusou, dizendo não querer fazer essa
vergonha a si m esm o; e com suas m ãos, na presença do Senado, rasgou-o e
deixou-o em pedaços. Não creio que um a alm a cauterizada soubesse fingir
tam anha segurança: por natureza, disse Tito Lívio, ele tinha o coração
orgulhoso dem ais e acostum ado a um destino elevado dem ais para adm itir ser
crim inoso e rebaixar-se na defesa da própria inocência. As torturas são um a
perigosa invenção, e parecem ser m ais um ensaio de resistência hum ana que
de verdade. E quem consegue suportá-las esconde a verdade, tanto quanto
quem não consegue suportá-las. Pois por que a dor m e fará confessar o que
é verdade, m ais do que m e forçará a dizer o que não é? E se, ao contrário,
quem não fez aquilo de que o acusam for bastante resistente para suportar
esses sofrim entos, por que não o será quem o fez, quando lhe propõem com o
tão bela recom pensa a própria vida? Penso que o fundam ento dessa invenção
vem da im portância da força da consciência. Pois parece que ela enfraquece
o culpado e aj uda na tortura para fazê-lo confessar sua falta; e, por outro
lado, fortalece o inocente contra a tortura. Para falar a verdade, é um
expediente cheio de incerteza e perigo. O que não se diria, o que não se faria para fugir de dores tão terríveis?
Etiam innocentes cogit mentiri dolor. 252
A dor força m esm o os inocentes a m entir.
Donde resulta que quem o j uiz pôs sob tortura para não o fazer m orrer se
fosse inocente acaba m orrendo, tanto inocente com o torturado. Milhares e
m ilhares deles acusaram a si m esm os com falsas confissões! Entre os quais
cito Filotas, considerando as circunstâncias do processo que lhe fez Alexandre
e o desenrolar de sua tortura. Mas, sej a com o for, é este (dizem ) o m enor m al
que a fraqueza hum ana conseguiu inventar: bem desum anam ente, porém , e
bem inutilm ente, a m eu ver. Várias nações m enos “bárbaras” nisso do que a
grega e a rom ana, que no entanto assim as cham am , consideram horrível e
cruel torturar e esquartej ar um hom em sobre cuj a falta ainda se tem dúvida.
Em que ele é responsável pela nossa ignorância? Não som os inj ustos se, para
não o m atarm os sem m otivo, fizerm os a ele pior que m atá-lo? A prova de que
é assim é que vem os quantas vezes ele prefere m orrer sem razão a passar
por esse inquérito, m ais penoso que o suplício, e que m uitas vezes, por sua
atrocidade, antecipa o suplício, executando-o. Não sei de onde tiro essa
história, m as ela reflete exatam ente a consciência de nossa j ustiça. Um a aldeã
acusava um soldado, diante do general de exército, grande j usticeiro, de ter
arrancado de seus filhos pequenos o pouco de m ingau que lhes restava para
se alim entarem , pois aquele exército tudo saqueara. Provas não havia. O
general, depois de ter instado a m ulher a ver bem o que estava dizendo, pois
se m entisse seria culpada por sua acusação, e vendo que ela persistia, m andou abrir o ventre do soldado para esclarecer a verdade do fato: e viu-se