Os Ensaios
Sobre o medo
seguindo, diz ele, as leis antigas. Todavia, em outro lugar, por falta
sem elhante ele som ente condenou outros a perm anecer entre os prisioneiros
sob a insígnia dos carregadores de bagagem . O severo castigo do povo
rom ano contra os soldados que escaparam de Canas, e, nessa m esm a
guerra, contra os que acom panharam Cneu Fúlvio em sua derrota, não chegou
à m orte. Assim , é de tem er que a vergonha os desespere e os torne não só
frios am igos m as inim igos. No tem po de nossos pais, o senhor de Franget,
outrora lugar-tenente da com panhia do senhor m arechal de Châtillon, tendo
sido nom eado pelo senhor m arechal de Chabannes governador de
Fuenterrabia no lugar do senhor du Lude, e tendo-a entregado aos espanhóis,
foi condenado a ser degradado da nobreza, e tanto ele com o sua posteridade,
declarados plebeus, suj eitos ao im posto da talha e incapacitados para portar
arm as: e foi essa dura sentença executada em Ly on. Desde então sofreram
punição sim ilar todos os fidalgos que estavam em Guise quando o conde de
Nassau lá entrou, e m ais outros depois. Entretanto, quando houvesse um caso
de ignorância ou covardia tão grosseiro e aparente que superasse todas as
norm as, seria j usto considerá-lo prova suficiente de m aldade e m alícia, e
castigá-lo com o tal.
Sobre o medo
Capítulo XVII22
Montaigne discute o medo, em parte à luz de sua própria experiência na
guerra, em parte estudando os exempla. Ele o encara como um sentimento que costuma levar a um comportamento alucinado e extático: de fato,
poderia ser classificado como um caso de êxtase ou de loucura o homem
apavorado que se encontrava, em certas circunstâncias, fora de seu estado
normal. Individual ou coletivo, o medo alucina, paralisa ou dinamiza, ou seja,
produz os mesmos efeitos da valentia. Esboça-se, assim, uma crítica aos
valores heroicos, à qual será parcialmente dedicado o Livro II. Aqui
encontramos a continuação do discurso bélico: todos os exemplos de horror,
acumulados de edição em edição, referem-se aos soldados ou à guerra,
com exceção do último, acrescentado depois de 1588, e que fecha o capítulo
com a inquietante etiologia do terror pânico.
Obstupui, steteruntque comae, et vox faucibus haesit. 23
Fiquei estupefato, m eus cabelos se arrepiaram e m inha voz parou em
m inha garganta.
Não sou bom especialista na natureza (com o se diz) e não sei por quais
m ecanism os o m edo age em nós, m as sej a com o for é um a estranha em oção,
e dizem os m édicos que não há nenhum a que deixe m ais depressa nosso
j ulgam ento fora de seu estado norm al. Na verdade, vi m uitas pessoas que
ficaram enlouquecidas de m edo, e até no m ais sensato ele engendra terríveis
m iragens enquanto dura seu acesso. Deixo à parte o vulgo, para quem o
m edo representa ora os bisavós saídos do túm ulo, envoltos em seu sudário,
ora os lobisom ens, os duendes e as quim eras. Mas entre os próprios
soldados, em quem deveria encontrar m enos espaço, quantas vezes
transform ou um rebanho de ovelhas em esquadrão de couraceiros? Juncos e
caniços em hom ens de arm as e lanceiros? Nossos am igos em nossos inim igos? E a cruz branca na verm elha? Quando o senhor de Bourbon tom ou
Rom a, um porta-estandarte que estava de guarda no burgo São Pedro foi
invadido por tam anho pavor ao prim eiro alarm e que, pelo buraco de um a
ruína, de estandarte em punho, se lançou para fora da cidade, direto sobre os
inim igos, pensando dirigir-se para dentro da cidade; e foi só quando viu a
tropa do senhor de Bourbon enfileirar-se para detê-lo, considerando que era
um a investida que os da cidade estivessem fazendo, a m uito custo reconheceu
o erro e, dando m eia-volta, entrou por aquele m esm o buraco do qual havia se
afastado m ais de trezentos passos no cam po. Mas o estandarte do capitão
Julles não foi tão feliz quando Saint-Pol foi tom ada de nós pelo conde de
Bures e o senhor du Reu. Pois, estando tão desvairado de pavor a ponto de
lançar-se com o estandarte para fora da cidade, por um a seteira, ele foi
estraçalhado pelos atacantes. E no m esm o cerco foi m em orável o m edo que
apertou, invadiu e paralisou com tanta força o coração de um fidalgo que ele
caiu duro, m orto, no chão, num a brecha, sem nenhum ferim ento. Fúria
sem elhante por vezes im pele toda um a m ultidão. Num dos com bates de
Germ ânico contra os alem ães, duas grandes tropas tom aram , de tanto pavor,
dois cam inhos opostos, um a fugindo de onde a outra partia. Ora ele nos dá
asas aos pés, com o aos dois prim eiros; ora nos prega os pés e os entrava,
com o se lê a respeito do im perador Teófilo, que, num a batalha que perdeu
contra os agarenos, ficou tão perturbado e tão transido que não conseguiu
decidir-se a fugir: adeo pauor etiam auxilia formidat, 24de tal m odo receia o pavor, m esm o nos socorros,] até que Manuel, um dos principais chefes de seu
exército, tendo o agarrado e sacudido com o para despertá-lo de um sono
profundo, lhe disse: “Se não m e seguirdes hei de m atar-vos, pois m ais vale perderdes a vida do que, estando prisioneiro, virdes a perder o Im pério”. E
então ele exprim e sua últim a força quando, para seu próprio serviço, nos
devolve a valentia que subtraiu de nosso dever e de nossa honra. Na prim eira
batalha cam pal que os rom anos perderam contra Aníbal, na época do cônsul
Sem prônio, um a tropa de bem 10 m il hom ens de pé tom ados de pavor, não
vendo outro lugar por onde dar passagem à covardia, foi j ogar-se no m eio do
grosso dos inim igos, atravessando entre eles num esforço m aravilhoso e
provocando grande m atança dos cartagineses, pagando por sua vergonhosa
fuga o m esm o preço que pagaria por um a gloriosa vitória. É disso que tenho
m ais m edo que do m edo. É que ele supera em violência todos os outros
infortúnios. Que em oção pode ser m ais dura e m ais j usta que a dos am igos de
Pom peu que estavam em seu navio, espectadores daquele horrível m assacre?
E no entanto, o m edo das velas egípcias que com eçavam a se aproxim ar a
sufocou, de m aneira que se observou que eles só se preocuparam em exortar
os m arinheiros a se apressarem e se salvarem com a força dos rem os; até
que, chegando a Tiro, livres do m edo, conseguiram voltar o pensam ento para
a perda que acabavam de sofrer e dar rédea solta às lam entações e às
lágrim as que aquela outra em oção m ais forte suspendera.
Tum pavor sapientiam omnem mihi ex animo expectorat. 25
Então o m edo arranca toda a razão de m eu coração.
Os que foram bem m altratados em algum a batalha de guerra são levados no
dia seguinte ao ataque, todos ainda feridos e ensanguentados. Mas os que sentiram um grande m edo dos inim igos, não os faríeis nem sequer olhá-los de