Os Ensaios

Michel de Montaigne · Capítulo 11 de 33

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Os Ensaios

Sobre o medo

seguindo, diz ele, as leis antigas. Todavia, em outro lugar, por falta

sem elhante ele som ente condenou outros a perm anecer entre os prisioneiros

sob a insígnia dos carregadores de bagagem . O severo castigo do povo

rom ano contra os soldados que escaparam de Canas, e, nessa m esm a

guerra, contra os que acom panharam Cneu Fúlvio em sua derrota, não chegou

à m orte. Assim , é de tem er que a vergonha os desespere e os torne não só

frios am igos m as inim igos. No tem po de nossos pais, o senhor de Franget,

outrora lugar-tenente da com panhia do senhor m arechal de Châtillon, tendo

sido nom eado pelo senhor m arechal de Chabannes governador de

Fuenterrabia no lugar do senhor du Lude, e tendo-a entregado aos espanhóis,

foi condenado a ser degradado da nobreza, e tanto ele com o sua posteridade,

declarados plebeus, suj eitos ao im posto da talha e incapacitados para portar

arm as: e foi essa dura sentença executada em Ly on. Desde então sofreram

punição sim ilar todos os fidalgos que estavam em Guise quando o conde de

Nassau lá entrou, e m ais outros depois. Entretanto, quando houvesse um caso

de ignorância ou covardia tão grosseiro e aparente que superasse todas as

norm as, seria j usto considerá-lo prova suficiente de m aldade e m alícia, e

castigá-lo com o tal.

Sobre o medo

Capítulo XVII22

Montaigne discute o medo, em parte à luz de sua própria experiência na

guerra, em parte estudando os exempla. Ele o encara como um sentimento que costuma levar a um comportamento alucinado e extático: de fato,

poderia ser classificado como um caso de êxtase ou de loucura o homem

apavorado que se encontrava, em certas circunstâncias, fora de seu estado

normal. Individual ou coletivo, o medo alucina, paralisa ou dinamiza, ou seja,

produz os mesmos efeitos da valentia. Esboça-se, assim, uma crítica aos

valores heroicos, à qual será parcialmente dedicado o Livro II. Aqui

encontramos a continuação do discurso bélico: todos os exemplos de horror,

acumulados de edição em edição, referem-se aos soldados ou à guerra,

com exceção do último, acrescentado depois de 1588, e que fecha o capítulo

com a inquietante etiologia do terror pânico.

Obstupui, steteruntque comae, et vox faucibus haesit. 23

Fiquei estupefato, m eus cabelos se arrepiaram e m inha voz parou em

m inha garganta.

Não sou bom especialista na natureza (com o se diz) e não sei por quais

m ecanism os o m edo age em nós, m as sej a com o for é um a estranha em oção,

e dizem os m édicos que não há nenhum a que deixe m ais depressa nosso

j ulgam ento fora de seu estado norm al. Na verdade, vi m uitas pessoas que

ficaram enlouquecidas de m edo, e até no m ais sensato ele engendra terríveis

m iragens enquanto dura seu acesso. Deixo à parte o vulgo, para quem o

m edo representa ora os bisavós saídos do túm ulo, envoltos em seu sudário,

ora os lobisom ens, os duendes e as quim eras. Mas entre os próprios

soldados, em quem deveria encontrar m enos espaço, quantas vezes

transform ou um rebanho de ovelhas em esquadrão de couraceiros? Juncos e

caniços em hom ens de arm as e lanceiros? Nossos am igos em nossos inim igos? E a cruz branca na verm elha? Quando o senhor de Bourbon tom ou

Rom a, um porta-estandarte que estava de guarda no burgo São Pedro foi

invadido por tam anho pavor ao prim eiro alarm e que, pelo buraco de um a

ruína, de estandarte em punho, se lançou para fora da cidade, direto sobre os

inim igos, pensando dirigir-se para dentro da cidade; e foi só quando viu a

tropa do senhor de Bourbon enfileirar-se para detê-lo, considerando que era

um a investida que os da cidade estivessem fazendo, a m uito custo reconheceu

o erro e, dando m eia-volta, entrou por aquele m esm o buraco do qual havia se

afastado m ais de trezentos passos no cam po. Mas o estandarte do capitão

Julles não foi tão feliz quando Saint-Pol foi tom ada de nós pelo conde de

Bures e o senhor du Reu. Pois, estando tão desvairado de pavor a ponto de

lançar-se com o estandarte para fora da cidade, por um a seteira, ele foi

estraçalhado pelos atacantes. E no m esm o cerco foi m em orável o m edo que

apertou, invadiu e paralisou com tanta força o coração de um fidalgo que ele

caiu duro, m orto, no chão, num a brecha, sem nenhum ferim ento. Fúria

sem elhante por vezes im pele toda um a m ultidão. Num dos com bates de

Germ ânico contra os alem ães, duas grandes tropas tom aram , de tanto pavor,

dois cam inhos opostos, um a fugindo de onde a outra partia. Ora ele nos dá

asas aos pés, com o aos dois prim eiros; ora nos prega os pés e os entrava,

com o se lê a respeito do im perador Teófilo, que, num a batalha que perdeu

contra os agarenos, ficou tão perturbado e tão transido que não conseguiu

decidir-se a fugir: adeo pauor etiam auxilia formidat, 24de tal m odo receia o pavor, m esm o nos socorros,] até que Manuel, um dos principais chefes de seu

exército, tendo o agarrado e sacudido com o para despertá-lo de um sono

profundo, lhe disse: “Se não m e seguirdes hei de m atar-vos, pois m ais vale perderdes a vida do que, estando prisioneiro, virdes a perder o Im pério”. E

então ele exprim e sua últim a força quando, para seu próprio serviço, nos

devolve a valentia que subtraiu de nosso dever e de nossa honra. Na prim eira

batalha cam pal que os rom anos perderam contra Aníbal, na época do cônsul

Sem prônio, um a tropa de bem 10 m il hom ens de pé tom ados de pavor, não

vendo outro lugar por onde dar passagem à covardia, foi j ogar-se no m eio do

grosso dos inim igos, atravessando entre eles num esforço m aravilhoso e

provocando grande m atança dos cartagineses, pagando por sua vergonhosa

fuga o m esm o preço que pagaria por um a gloriosa vitória. É disso que tenho

m ais m edo que do m edo. É que ele supera em violência todos os outros

infortúnios. Que em oção pode ser m ais dura e m ais j usta que a dos am igos de

Pom peu que estavam em seu navio, espectadores daquele horrível m assacre?

E no entanto, o m edo das velas egípcias que com eçavam a se aproxim ar a

sufocou, de m aneira que se observou que eles só se preocuparam em exortar

os m arinheiros a se apressarem e se salvarem com a força dos rem os; até

que, chegando a Tiro, livres do m edo, conseguiram voltar o pensam ento para

a perda que acabavam de sofrer e dar rédea solta às lam entações e às

lágrim as que aquela outra em oção m ais forte suspendera.

Tum pavor sapientiam omnem mihi ex animo expectorat. 25

Então o m edo arranca toda a razão de m eu coração.

Os que foram bem m altratados em algum a batalha de guerra são levados no

dia seguinte ao ataque, todos ainda feridos e ensanguentados. Mas os que sentiram um grande m edo dos inim igos, não os faríeis nem sequer olhá-los de